segunda-feira, 29 de outubro de 2018

A tecnologia dos radares pode anular as vantagens stealth?

Muitas pessoas hoje discutem acerca das capacidades “stealth” das modernas aeronaves de 5 geração, drones e tecnologias EW, porém, esquecem de observar que estas vantagens tática podem estar com seus dias contados, pois assim como as aeronaves vem evoluindo a passos largos em suas capacidades tecnológicas, as mesmas também possuem suas limitações, sendo não apenas no campo técnico, mas envolvendo o custo de desenvolvimento e operação, e ressaltando que todo “veneno” requer um “antídoto”. O radar assim como as aeronaves, também evolui constantemente para enfrentar os novos desafios que surgem, embora seja em ritmo mais lento que seus “alvos”. Diante dessa problemática que levanto aqui neste artigo, pretendo apresentar alguns fatores que representam um verdadeiro desafio tecnológico ao desenvolvimento de radares modernos, deixando claro que não sou expert no assunto, mas conhecedor de alguns pontos que devem ser observados quando se fala neste tipo de tecnologia, abrindo aqui a discussão que pode vir a render mais alguns artigos sobre o assunto.

O radar pode ser considerado uma tecnologia que tem ainda muito à evoluir, tendo sido introduzido durante a Segunda Guerra Mundial, quando foi empregado pela primeira vez, conferindo significativas vantagens as defesas antiaéreas, apesar de suas limitações, quer seja pelo seu alcance, quer seja pela suas grandes dimensões e demandas energéticas para operá-lo, sendo basicamente estático. Naquele tempo, apesar dos avanços no campo da aviação, a maioria das aeronaves operativas naquele conflito apresentavam um envelope de desempenho muito similar, garantindo uma boa margem de êxito no acompanhamento de alvos e direcionamento do fogo-antiaéreo. Mas as aeronaves evoluíram rapidamente, passando a atingir alta velocidade, quebrando a barreira do som e colocando em cheque a eficácia dos sistemas de radar naquele primeiro período, o que levou a tecnologia de radares a evoluir para ter um alcance de detecção maior, que garantisse o tempo necessário de reação para atingir o alvo, seja acompanhando aeronaves de alto desempenho ou guiando mísseis contra estes.

Com o passar dos anos, as necessidades identificadas no campo de batalha levaram ao desenvolvimento de sistemas radares de menores dimensões e com certa mobilidade, conferindo a estes também a capacidade de cobrir áreas maiores. Essa rápida evolução ocasionada pela corrida armamentista que marcou o período da “Guerra-fria”, levou ao surgimento dos sistemas de defesa antiaérea, baseados em complexos que contavam com diversos meios interligados à um sistema de radar poderoso, capaz de monitorar uma vasta área e orientar as medidas antiaéreas, onde estrearam os SAM (Surface-Air Missile), os primeiros sistemas de mísseis antiaéreos, os quais deram grande dor de cabeça em conflitos como a Guerra do Vietnã e outros confrontos em seu tempo. Mas como já citei anteriormente, todo “veneno” requer um “antídoto”, e embora os radares fossem muito bem-sucedidos em identificar, acompanhar e prover soluções de disparo, seus oponentes criaram várias medidas para suplantar as vantagens obtidas no emprego de sistemas radar e antiaéreos, uma das quais foi a tecnologia furtiva. 

Stealth não significa invisibilidade

Apesar de toda propaganda que envolve os avanços tecnológicos com relação à capacidade stealth, na verdade os meios ditos “invisíveis”, não o são de fato, como muita gente acredita ser a tecnologia stealth, seja ela de emprego aéreo, terrestre ou naval.

A tecnologia stealth na verdade consiste na capacidade de tornar determinado meio que emprega esta tecnologia menor aos “olhos” do radar, o que não o torna incapaz de ser detectado ou mesmo acompanhado, porém, o “pulo do gato” está no fato de negar a capacidade de obter uma solução de resposta em tempo hábil para as defesas.

Para entender um pouco melhor o funcionamento dessa tecnologia, precisamos conhecer um pouco sobre “seção reta radar”, significado em português para sigla RCS, tão comum em fóruns e grupos sobre aviação e defesa. A “seção reta radar” (RCS) define o nível de reflexão dos sinais emitidos pelo radar na direção do receptor.
Os radares trabalham emitindo ondas eletromagnéticas em variadas bandas e/ou frequências, sendo estas determinantes para suas capacidades e alcance efetivo. Estas ondas emitidas através de antenas direcionais na velocidade da luz em feixe cônico, quando atingem um alvo, parte do feixe é dispersado em várias direções. Porém, uma pequena fração dessa energia retorna à antena transmissora, o que gera uma série de dados relativos a esse alvo, sendo estes utilizados para gerar uma solução de disparo.
Grande parte dos radares funciona emitindo energia eletromagnética na forma de pulsos, milhares de vezes por segundo. No intervalo entre a emissão de um pulso e outro, a antena do radar se torna um receptor. Através do cálculo do tempo entre a emissão e o retorno da onda é possível plotar o alvo e determinar a solução de tiro.
A tecnologia steath ajuda na dispersão e absorção dessas ondas, reduzindo o índice de reflexão das ondas ao receptor, tornando o sinal menor, com isso dificulta-se a aquisição de uma solução de tiro. Logo, sabe-se que o inimigo está ali, porém, não se é capaz de determinar com exatidão uma resposta a ameaça em tempo hábil, tornando o tempo de resposta das defesas extremamente curto, o que garante que o meio atacante em grande parte das vezes consiga lograr êxito no ataque e evadir impunemente o cenário.
 O alcance de detecção dos radares existentes é muito menor do que a distância necessária para a interceptação, porém, hoje se trava uma batalha entre o desenvolvimento de meios mais furtivos e radares cada vez mais avançados, com capacidade de contrapor essa vantagem adquirida com advento da tecnologia stealth.

Os drones e os pássaros, um desafio moderno

Outra problemática que surge no moderno campo de batalha, é a ameaça representada pelos drones, onde cada vez mais ganham maior papel, não se limitando mais a observação e inteligência, mas já tendo sido empregados há pelo menos uma década como vetor de ataque. Muitos desses Veículos Aéreos Não Tripulados, conhecidos pela sigla em português VANT, ou no inglês UAV, não apresentam características furtivas, mas suas pequenas dimensões e o perfil de voo baixo e a baixa velocidade, cria um verdadeiro desafio para sua identificação e neutralização. O problema não é vê-los, mas sim diferenciá-los dos pássaros que compartilham o espaço aéreo com os mesmos voando baixo e lentamente, mantendo um perfil muito similar entre os pássaros e algumas categorias de VANT’s.

Imagine um operador de radar observando 100 contatos na tela, onde 99 deles sejam pássaros. Isso é um verdadeiro desafio, o que levou a necessidade de um novo avanço nas capacidades dos sistemas radares modernos, através de “inteligência Artificial” o radar separa os pássaros dos alvos e na interface com operador apresentar apenas aqueles que são identificados como alvos reais.

Guerra Eletrônica (EW) os desafios da interferência

Um outro problema que elencamos nesse artigo, é o bloqueio através do uso de contra-medidas, onde o adversário pode saturar a capacidade de monitoramento e resposta através de um verdadeiro “bombardeio” de emissões, gerando muito “ruído”, tornando praticamente impossível localizar e travar o alvo. Para detectar o alvo em meio ao emprego de contra-medidas, o radar precisa operar em uma determinada banda e emitir ondas fortes o suficiente para que o sinal emitido possa ser refletido pelo alvo e identificado em meio a interferência criada. Capacidade hoje comum nos radares modernos.

Temos que nos manter atentos ao fato que, o desenvolvimento tecnológico é um ciclo contínuo, principalmente no campo de defesa, onde a cada dia surgem novas soluções, o radar é um dos meios que apesar de ser pouco observado nas mídias, tem registrado um grande avanço ao longo de sua história, sendo o antídoto para a furtividade, onde podemos relembrar que no final da década de 90, uma aeronave F-117 norte americana, tida como “capaz de operar impunemente” no mais defendido espaço aéreo, foi abatida sobre o território da antiga Iugoslávia. A nova geração de radares será é capaz de lidar com três grandes problemas: a furtividade, drones e pássaros, além de garantir o êxito em operações em ambiente congestionado por intenso emprego de interferência, continuando a evoluir à medida que novas ameaças e outros fatores criarem novos problemas no horizonte, mantendo o ciclo “Veneno e Antídoto”. Em breve pretendo escrever algo sobre os tipos de radar PESA, AESA e demais tecnologias, provendo maior conteúdo sobre o assunto afim de enriquecer nossa discussão.

Por Angelo Nicolaci - Jornalista, editor do GBN News, graduando em Relações Internacionais pela UCAM, especialista em geopolítica do oriente médio e leste europeu, especialista em assuntos de defesa e segurança.



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