quarta-feira, 19 de agosto de 2026

Índia avança rumo ao motor próprio para dotar seus caças

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Projeto Safran-GTRE prevê turbofan de 120 kN e pode colocar Nova Délhi no seleto grupo de países com domínio completo de tecnologias críticas de propulsão aeronáutica

A Índia está prestes a dar um dos passos mais importantes de sua história recente no setor aeroespacial: o desenvolvimento de um motor de caça com propriedade intelectual integralmente nacional. A proposta da joint venture formada por Safran e GTRE para um turbofan de 120 kN de empuxo chegou ao estágio de aprovação pelo Comitê de Segurança do Gabinete indiano, abrindo caminho para um programa que pretende romper décadas de dependência externa em uma das tecnologias mais sensíveis da aviação de combate.

O projeto está diretamente ligado ao "Advanced Medium Combat Aircraft" (AMCA), futuro caça furtivo de quinta geração da Índia. A primeira versão do motor deverá gerar 120 kN e terá nove protótipos destinados ao desenvolvimento, testes e certificação. Posteriormente, a intenção é evoluir o projeto para uma versão de aproximadamente 140 kN, destinada aos futuros AMCA Mk2 e a outras plataformas avançadas, incluindo possíveis aplicações navais.

O aspecto mais relevante, entretanto, não está apenas no nível de empuxo. A Índia pretende deter integralmente a propriedade intelectual do novo motor, incluindo tecnologias que historicamente permaneceram sob controle dos fornecedores estrangeiros. O objetivo é dominar componentes críticos como a seção quente, materiais avançados e tecnologias de turbinas, reduzindo a dependência que o país mantém de motores russos, franceses e americanos.

O programa representa uma mudança importante em relação às parcerias anteriores. Os motores GE F404 utilizados pelo Tejas Mk1A e os futuros F414 destinados ao Tejas Mk2 e às primeiras versões do AMCA ampliam a capacidade industrial indiana, mas não entregam domínio completo das tecnologias mais sensíveis. A parceria Safran-GTRE pretende avançar justamente nesse ponto, permitindo que a Índia projete, produza e posteriormente evolua seu próprio sistema de propulsão.

O desafio tecnológico é considerável. O novo motor deverá incorporar tecnologias como pás de turbina monocristalinas, temperaturas de entrada superiores a 2.100 Kelvin, controle digital FADEC e um pós-combustor de geometria variável. Esses elementos são fundamentais para combinar alto desempenho, eficiência e gerenciamento da assinatura térmica, características particularmente relevantes para uma aeronave que deverá operar em ambientes densamente defendidos.

A urgência também é determinada pelo avanço chinês. O desenvolvimento dos motores WS-10 e, posteriormente, do WS-15 permitiu à China reduzir sua dependência histórica de projetos estrangeiros e equipar o J-20 com um motor de maior desempenho. Para a Índia, que enfrenta diretamente a expansão da capacidade aérea chinesa, inclusive no entorno do Himalaia, dominar a propulsão deixou de ser apenas uma questão industrial e passou a fazer parte da equação estratégica.

Nova Délhi mantém, ao mesmo tempo, diferentes linhas de desenvolvimento. O programa Kaveri, que originalmente não alcançou o desempenho necessário para equipar um caça, foi retomado como demonstrador tecnológico com meta de aproximadamente 80 kN. No curto prazo, porém, a Força Aérea Indiana continuará dependente de motores estrangeiros. Um contrato para 212 unidades F404 sustenta o programa Tejas Mk1A, enquanto a produção conjunta do F414 deverá apoiar as versões mais avançadas da aeronave.

O desenvolvimento do motor próprio também ocorre em paralelo à definição industrial do próprio AMCA. Tata, Bharat Forge e Larsen & Toubro estão entre as empresas envolvidas nas propostas para a fabricação da aeronave, em parceria com estruturas estatais, indicando que Nova Délhi pretende construir uma cadeia industrial nacional capaz de dominar não apenas a plataforma, mas também seus principais sistemas.


A questão, porém, vai além do AMCA. A guerra contemporânea está colocando em discussão o próprio modelo de poder aéreo, com a combinação entre caças tripulados, mísseis de longo alcance, drones e sistemas de combate não tripulados. Para a Índia, o domínio de um motor avançado oferece liberdade para desenvolver diferentes plataformas no futuro, mas exigirá investimentos elevados e uma capacidade de pesquisa, testes e produção que historicamente representou um dos principais obstáculos de sua indústria aeronáutica.

Se conseguir transformar os nove protótipos em um sistema operacional confiável e posteriormente evoluí-lo para a classe de 140 kN, a Índia deixará de ser apenas usuária ou montadora de motores estrangeiros e passará a controlar uma das tecnologias mais estratégicas de um caça moderno. O programa Safran-GTRE, portanto, não é apenas mais uma etapa do AMCA: é uma tentativa de transformar a soberania tecnológica da propulsão em um dos pilares do poder aéreo indiano.


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A Índia confirma a nova guerra dos fogos

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Debate sobre a modernização da artilharia indiana reforça diagnóstico do GBN Defense: canhões, drones, sensores e munições precisam operar como um único sistema

A análise publicada pelo GBN Defense sobre a transformação dos fogos de artilharia apontava para uma mudança que vai muito além da substituição de um obuseiro por outro. A combinação entre drones, sensores, munições de precisão, redes de comunicação e maior mobilidade está modificando a própria maneira como a artilharia é empregada no campo de batalha.

Um artigo publicado nesta quarta-feira (19) na Índia reforça exatamente essa leitura. Ao analisar o processo de modernização da artilharia indiana e a evolução das capacidades paquistanesas, o Major General Harsha Kakar chega a uma conclusão semelhante: aumentar o número de canhões não é suficiente. A capacidade de fogo precisa estar conectada a uma rede capaz de localizar o alvo, transmitir os dados, executar o disparo e avaliar o resultado em tempo reduzido.

A discussão indiana ganha importância porque ocorre diante de uma mudança concreta no equilíbrio regional. O Paquistão já emprega cerca de 250 sistemas SH-15, versão de exportação do PCL-181 chinês, um obuseiro de 155 mm sobre rodas desenvolvido pela Norinco. Segundo a análise indiana, a principal vantagem desse conceito está na mobilidade, permitindo que a peça execute o tiro e abandone rapidamente a posição para reduzir sua exposição aos fogos de contrabateria. É justamente essa característica que vem ganhando espaço entre os principais programas de artilharia.

A mobilidade deixou de ser opcional

O emprego de plataformas sobre rodas não representa apenas uma mudança de chassi. No teatro de operações onde drones e radares conseguem identificar posições de tiro com velocidade crescente, o tempo de permanência em uma posição tornou-se um dos fatores que determinam a sobrevivência da unidade.

A lógica do "shoot-and-scoot" passa a ser incorporada ao próprio conceito de emprego da artilharia. A peça precisa ocupar uma posição, receber os dados do alvo, realizar o disparo e iniciar o deslocamento antes que o adversário consiga completar seu ciclo de detecção, decisão e resposta.

Foi exatamente essa mudança que analisamos ao tratar da evolução dos fogos. O aumento da letalidade não está apenas no alcance do canhão ou na potência da munição, mas na capacidade de integrar diferentes elementos em uma cadeia operacional mais rápida. 

A experiência indiana mostra que essa percepção não está restrita aos Estados Unidos ou à Europa. A Índia possui mais de 220 regimentos de artilharia e vem conduzindo um amplo processo de substituição de sistemas antigos por peças de 155 mm. O país já incorporou 72 dos 114 obuseiros "Dhanush" inicialmente encomendados e possui encomendas adicionais, além de 307 sistemas "ATAGS" desenvolvidos pela DRDO em parceria com a indústria privada. Ao mesmo tempo, a Índia já opera 109 sistemas autopropulsados K-9 "Vajra-T" baseados no K9 sul-coreano, e adquiriu 145 M777 dos Estados Unidos.

A própria evolução desse inventário revela uma mudança de direção. O país continua utilizando sistemas rebocados, mas cresce a percepção de que a artilharia futura precisará privilegiar plataformas autopropulsadas e montadas sobre veículos, capazes de acompanhar forças móveis e reduzir o tempo de exposição.

O canhão é apenas uma parte do sistema

O ponto mais importante da análise indiana, entretanto, está além da plataforma. O artigo chama atenção para a necessidade de reduzir o tempo do ciclo sensor-atirador, conectando drones, radares, sistemas de vigilância, munições de precisão e armas em uma mesma rede. Quanto mais distante estiver o alvo, maior tende a ser a importância dessa integração, já que pequenas imprecisões na localização ou nos dados meteorológicos e balísticos podem resultar em grandes erros no ponto de impacto.

A questão também aparece quando se discute munição de precisão. A Índia adquiriu apenas 216 projéteis M982 Excalibur para seus M777, utilizados durante a Operação Sindoor, por US$ 47,1 milhões. O exemplo demonstra a capacidade operacional proporcionada por uma munição guiada, mas também expõe o problema de escala: uma força de artilharia não pode depender exclusivamente de munições de altíssimo custo para manter uma campanha prolongada.

Por isso, a Índia busca desenvolver sua própria capacidade de produção de munições de precisão e ampliar o alcance dos sistemas existentes. Projetos de munição com propulsão ramjet e tecnologia "base bleed" estão entre as iniciativas em desenvolvimento, enquanto sistemas de foguetes e mísseis como "Pinaka" e "Pralay" complementam a arquitetura de fogos de maior alcance.

A lógica é semelhante à observada em outros programas modernos: o alcance da artilharia passa a depender não apenas do tubo, mas também da capacidade de encontrar o alvo e fornecer ao sistema de armas os dados necessários para atingi-lo.

Drones entram definitivamente nos fogos

Outro ponto que aproxima a experiência indiana da análise publicada pelo GBN Defense é a incorporação dos drones ao sistema de artilharia. A Índia está estruturando unidades nas quais aeronaves não tripuladas de vigilância e sistemas de ataque passam a operar junto aos meios de fogo. O objetivo é construir uma cadeia na qual o drone identifica o alvo, os dados são transmitidos à unidade de tiro, a artilharia executa o engajamento e os próprios sensores podem realizar a avaliação dos danos. Essa integração reduz a dependência de processos separados e diminui o tempo entre a identificação e o engajamento do alvo.

É uma mudança importante. O drone deixa de ser apenas um equipamento de observação utilizado para auxiliar a artilharia e passa a fazer parte de sua arquitetura operacional. A consequência é que uma bateria moderna pode ser composta por muito mais do que seus obuseiros. Sensores, enlaces de dados, sistemas de comando e controle, guerra eletrônica, drones, radares e munições passam a determinar tanto a capacidade ofensiva quanto a sobrevivência da unidade.

A questão industrial

A Índia também enfrenta um problema que interessa diretamente ao Brasil: modernizar a artilharia exige capacidade industrial para sustentar a força. A Índia busca aumentar a produção doméstica de munições e reduzir sua dependência de fornecedores estrangeiros, ao mesmo tempo em que enfrenta atrasos no desenvolvimento, correções necessárias durante os testes e limitações de capacidade industrial.

A experiência demonstra que uma plataforma moderna, sozinha, não garante uma capacidade de fogo moderna. É necessário produzir munições em quantidade, manter estoques, garantir peças de reposição, desenvolver sistemas eletrônicos e assegurar a infraestrutura necessária para manter os equipamentos disponíveis durante um conflito prolongado. Essa é uma das razões pelas quais a discussão sobre Base Industrial de Defesa precisa estar diretamente associada aos programas de modernização militar.

O que isso significa para o Brasil

A experiência indiana reforça uma questão que o Brasil precisa enfrentar na modernização de sua artilharia. O desafio não está apenas em substituir sistemas antigos, mas em construir uma arquitetura de fogos adequada ao ambiente operacional contemporâneo.

O Exército Brasileiro já possui elementos importantes dessa arquitetura. O programa ASTROS oferece uma capacidade de fogos de longo alcance, enquanto drones, radares, sistemas de comando e controle e projetos de munições ampliam progressivamente a capacidade de aquisição e engajamento de alvos. O próximo passo precisa ser a integração desses elementos.

Nesse contexto, a discussão sobre o ATMOS ganha relevância. A adoção de um sistema de artilharia autopropulsado sobre rodas representa mais do que a substituição de uma peça rebocada: significa incorporar maior mobilidade ao componente de 155 mm e aproximar a artilharia brasileira do conceito que vem sendo adotado por diferentes forças.

A decisão americana de testar o K9MH e a experiência indiana com sistemas como o Vajra e os projetos de canhões montados sobre rodas mostram que existe uma convergência clara na evolução da artilharia. As plataformas estão se tornando mais móveis, enquanto sensores, drones e munições de precisão passam a operar cada vez mais integrados.

Para o Brasil, isso torna ainda mais necessário dar prosseguimento à aquisição do ATMOS, e principalmente, inseri-lo em uma arquitetura mais ampla de fogos, conectada aos sensores, drones, radares, comunicações e sistemas de comando e controle já em desenvolvimento.

A conclusão é a mesma que apresentamos na análise anterior de autoria deste analista, agora reforçada pela experiência indiana: a artilharia está deixando de ser uma coleção de canhões para se transformar em uma rede integrada de sensores, armas e informações.

O país que conseguir reduzir o tempo entre detectar, decidir, disparar e reposicionar sua unidade terá uma vantagem significativa. E essa transformação não está mais no campo das hipóteses. Índia, Estados Unidos e outras forças já estão adaptando seus programas de artilharia a essa realidade. O Brasil precisa decidir com que velocidade pretende fazer o mesmo.


por Angelo Nicolaci


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Irã avalia levar a guerra para a Europa

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Teerã considera ataques contra instalações militares americanas no continente europeu e ações contra infraestrutura crítica no Estreito de Ormuz em caso de nova escalada com Washington

A guerra entre Estados Unidos e Irã pode estar mudar expressivamente, onde a distância geográfica pode deixar de funcionar como elemento de contenção. Segundo reportagem publicada nesta quarta-feira (19) pelo Financial Times, autoridades próximas ao regime iraniano afirmam que Teerã avaliou a possibilidade de atacar instalações militares americanas no sudeste da Europa caso Washington amplie novamente as operações contra o Irã. Entre os locais mencionados estão a Bulgária e Chipre.

A informação não significa que um ataque tenha sido decidido ou que seja iminente. O que ela revela é que as estruturas militares utilizadas pelos Estados Unidos fora do Oriente Médio passaram a fazer parte do cálculo de retaliação iraniano. É uma mudança importante porque amplia o possível teatro de operações para áreas que, até agora, funcionavam principalmente como retaguarda logística e operacional das forças americanas.

Segundo as fontes ouvidas pelo Financial Times, a base aérea de Bezmer, na Bulgária, estaria entre as instalações avaliadas por Teerã depois que Sofia autorizou seu uso por aeronaves americanas de reabastecimento. Chipre também aparece no planejamento, em razão da importância das instalações militares britânicas na ilha para as operações ocidentais na região.

A lógica iraniana é relativamente clara: se uma instalação localizada fora do Oriente Médio é empregada para apoiar operações contra o Irã, ela pode ser considerada parte da infraestrutura militar adversária. Essa interpretação amplia significativamente o número de pontos que Washington e seus aliados precisam proteger e cria um problema adicional para os países europeus que oferecem bases, espaço aéreo ou apoio logístico às forças americanas.

A Europa entra no cálculo

O risco não é apenas teórico. A OTAN confirmou nesta quarta-feira (19) que está preparada para responder a qualquer ameaça contra seus membros e lembrou que suas defesas já interceptaram em quatro ocasiões neste ano, mísseis balísticos lançados pelo Irã em direção à Türkiye.

A diferença agora é que a possibilidade discutida publicamente envolve instalações militares localizadas dentro do território europeu e utilizadas por forças americanas. Um ataque desse tipo poderia criar uma situação particularmente delicada para a Aliança, sobretudo se o alvo estivesse em território de um Estado-membro da OTAN.

Nesse cenário, a questão deixaria de ser apenas a capacidade americana de responder ao Irã. Entraria em discussão a necessidade de proteger uma rede muito mais ampla de bases, instalações logísticas, sistemas de defesa aérea e infraestrutura de apoio distribuída pelo continente.

A escolha dos possíveis alvos também não parece aleatória. Bezmer, por exemplo, ganha relevância justamente por sua função de apoio às operações americanas. A lógica é semelhante à adotada por Teerã em relação a outras instalações utilizadas pelos Estados Unidos e seus aliados: atingir a infraestrutura que permite sustentar uma campanha militar, em vez de limitar a resposta ao território diretamente envolvido no conflito.

Ormuz e a guerra contra a infraestrutura

Ainda mais significativa é a possibilidade de ações contra cabos submarinos de fibra óptica no Estreito de Ormuz.

A região não é apenas uma passagem fundamental para o comércio internacional de petróleo e gás. O fundo do Golfo também concentra infraestrutura de comunicações responsável por transportar grandes volumes de dados entre países e continentes. Relatórios recentes já apontavam que setores ligados à Guarda Revolucionária Iraniana vinham discutindo ações contra cabos de internet no Golfo como parte de uma estratégia de pressão sobre os Estados Unidos e seus parceiros.

Esse aspecto merece atenção porque amplia a natureza da possível retaliação. Um ataque contra uma base militar atingiria diretamente uma capacidade operacional; uma ação contra infraestrutura submarina poderia produzir efeitos econômicos e tecnológicos muito além do teatro militar.

O problema seria agravado pela dificuldade de proteção dessas estruturas. Ao contrário de uma instalação militar localizada, cabos submarinos percorrem grandes distâncias e estão distribuídos por áreas nas quais a vigilância e a proteção permanente são complexas. Uma interrupção também poderia exigir operações de reparo especializadas e produzir impactos sobre diferentes países e operadores.

Isso ajuda a explicar por que a infraestrutura crítica passou a ocupar espaço cada vez maior no planejamento militar contemporâneo. A guerra deixou de estar limitada à destruição de plataformas e instalações convencionais e passou a envolver também os sistemas que sustentam comunicações, logística, energia e circulação de dados.

A capacidade iraniana e seus limites

A ameaça, entretanto, precisa ser analisada considerando as capacidades reais de Teerã. O Irã dispõe de um amplo arsenal de mísseis balísticos e de diferentes sistemas de ataque de longo alcance, mas a distância entre o território iraniano e determinados alvos europeus cria desafios importantes de alcance, precisão e sustentação operacional. Especialistas citados na reportagem do Financial Times avaliam que mísseis iranianos de alcance intermediário poderiam atingir determinados alvos no sul e sudeste europeu, embora sua eficácia a distâncias maiores seja uma questão relevante.

Por isso, uma eventual tentativa iraniana de ampliar a guerra para a Europa não necessariamente dependeria exclusivamente de mísseis balísticos. A combinação de diferentes instrumentos: drones, operações indiretas, grupos parceiros e ações contra infraestrutura, poderia permitir a Teerã distribuir os riscos e ampliar os custos impostos aos Estados Unidos e seus aliados.

O próprio histórico recente mostra que o Irã procura demonstrar capacidade de alcançar alvos muito além de suas fronteiras imediatas. A questão central, portanto, não é apenas se Teerã possui capacidade para atingir determinado ponto, mas qual seria o objetivo político e militar de fazê-lo.

O risco de uma escalada geográfica

A principal preocupação para Washington e seus aliados é que uma eventual nova ofensiva americana contra o Irã possa produzir uma resposta que não fique restrita às bases americanas no Oriente Médio.

O cálculo iraniano parece partir da tentativa de elevar o custo de uma nova ofensiva. Se Washington sabe que uma operação contra o território iraniano pode resultar em ataques contra instalações utilizadas por suas forças na Europa, além de ameaças à infraestrutura no Golfo, o número de variáveis envolvidas na decisão militar aumenta consideravelmente.

Ao mesmo tempo, Teerã precisa considerar que atacar um Estado europeu membro da OTAN poderia produzir uma resposta muito mais ampla do que aquela provocada por ataques contra bases americanas em países parceiros fora da Aliança.

É justamente essa possibilidade que torna a ameaça particularmente sensível. A estratégia iraniana de dissuasão pode funcionar enquanto os ataques permanecem limitados aos ativos americanos e aliados diretamente envolvidos no conflito. Mas um ataque que provoque vítimas ou danos significativos dentro do território de um membro da OTAN poderia alterar completamente o cálculo político.

Análise do GBN Defense

As informações disponíveis não indicam que o Irã tenha decidido atacar a Europa. O que mudou é que instalações militares americanas no continente passaram a integrar o cálculo de Teerã para uma eventual retaliação contra Washington. Por enquanto, são opções sendo avaliadas pelo regime, não uma decisão de ataque já tomada.

Ainda assim, a informação merece atenção porque mostra como a arquitetura militar americana na Europa pode se tornar parte de uma guerra que, até aqui, tem seu centro de gravidade no Oriente Médio.

A presença militar dos Estados Unidos no continente é construída sobre uma extensa rede de bases, aeródromos, centros logísticos, instalações de comando, sistemas de defesa aérea e pontos de apoio. Em uma campanha de longa duração, essa infraestrutura funciona como uma extensão da capacidade militar americana. Para Teerã, portanto, a distinção entre “teatro de operações” e “retaguarda” pode ser cada vez menos relevante.

O mesmo raciocínio vale para o Estreito de Ormuz. A possibilidade de atingir cabos submarinos mostra que a disputa pode avançar para uma dimensão que infraestrutura civil e militar passam a se sobrepor. Comunicação, energia, logística e dados são elementos fundamentais para a sustentação de qualquer operação militar, e justamente por isso, tornam-se vulneráveis a ações destinadas a elevar o custo econômico e operacional do adversário.

A resposta da OTAN também merece ser observada. Ao afirmar que está preparada para enfrentar qualquer ameaça, a Aliança sinaliza que não pretende tratar um eventual ataque contra instalações em território aliado como uma questão exclusivamente bilateral entre Washington e Teerã.

O resultado é um cenário em que uma nova escalada entre Estados Unidos e Irã pode produzir efeitos muito além do Oriente Médio. Quanto mais a infraestrutura europeia for incorporada ao esforço militar americano e quanto mais Teerã ampliar a definição de seus possíveis alvos, maior será o risco de que uma guerra regional passe a envolver diretamente estruturas e territórios europeus.

Por enquanto, não há confirmação de que o Irã tenha decidido executar esses ataques. O que existe é a indicação, sustentada por fontes próximas ao regime e acompanhada por uma resposta preventiva da OTAN, de que Teerã está ampliando o leque de opções para uma eventual nova fase do conflito.

E essa mudança de cálculo é, por si só, um dos sinais mais relevantes de que a próxima escalada poderá não respeitar as fronteiras geográficas que até agora limitaram a guerra.


por Angelo Nicolaci


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DCTA visita Avibras e discute projetos estratégicos nas áreas de Defesa e Espaço

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Comitiva da Força Aérea Brasileira conheceu a capacidade tecnológica da empresa e acompanhou informações sobre o motor-foguete S50, desenvolvido para o programa espacial brasileiro

A Avibras Aeroco recebeu, na terça-feira (18), o Diretor-Geral do Departamento de Ciência e Tecnologia Aeroespacial (DCTA), Tenente-Brigadeiro do Ar Mauro Bellintani, em uma visita que colocou em pauta projetos em andamento e perspectivas de novas iniciativas nas áreas de Defesa e Espaço.

A comitiva do DCTA contou também com o Vice-Diretor do Departamento, Major-Brigadeiro do Ar Eric Breviglieri; com o Chefe do Subdepartamento Técnico, Brigadeiro Engenheiro Fernando Benitez Leal; e com o Chefe da Assessoria de Relações Institucionais, Coronel Aviador R/1 José Antonio Botture Júnior.

Durante a visita, as autoridades conheceram parte da capacidade produtiva e tecnológica da Avibras Aeroco. Um dos principais pontos apresentados foi a produção do motor-foguete S50, destinado ao Veículo Lançador de Microssatélites (VLM-1), projeto ligado ao Programa Espacial Brasileiro.

Segundo as informações divulgadas pela empresa, o S50 é o maior motor-foguete já fabricado no Brasil, utilizando 12 toneladas de propelente sólido. O projeto também emprega fibra de carbono na fabricação do envelope-motor, tecnologia que contribui para a redução de peso e para uma maior eficiência do conjunto.

Além da apresentação da capacidade industrial, o encontro serviu para discutir o andamento de projetos atualmente em desenvolvimento e avaliar perspectivas para futuras iniciativas conjuntas envolvendo os setores de Defesa e Espaço.

A aproximação entre o DCTA e empresas da indústria aeroespacial brasileira é parte importante da busca por maior capacidade nacional no desenvolvimento de tecnologias estratégicas. No caso do S50, a Avibras já possui histórico de participação em projetos do setor espacial brasileiro, tendo desenvolvido o motor em parceria com o Instituto de Aeronáutica e Espaço (IAE), organização vinculada ao DCTA.

A visita de Bellintani ocorre, portanto, no contexto de acompanhamento de projetos tecnológicos considerados relevantes para a capacidade brasileira nos setores aeroespacial e de Defesa. O encontro também reforça o diálogo entre o DCTA e a indústria nacional em torno de iniciativas de desenvolvimento tecnológico.

Ao final da visita, a Avibras Aeroco destacou a parceria de longa data mantida com a Força Aérea Brasileira (FAB).


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Com Avibras Aeroco

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Hanwha K9MH: os EUA começam a aposentar o M777

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Vitória da Hanwha no programa "Mobile Tactical Cannon" mostra como a artilharia está deixando os obuseiros rebocados para trás em favor de sistemas móveis e mais resilientes no campo de batalhas contemporâneo.

A análise publicada pelo GBN Defense sobre a transformação dos fogos de artilharia apontava para uma mudança que já vinha sendo observada nos principais exércitos: diante do campo de batalha cada vez mais transparente, no qual drones, radares de contrabateria, sensores eletro-ópticos e sistemas de inteligência conseguem localizar uma posição de tiro em poucos minutos, a capacidade de deslocamento passou a ser parte essencial da sobrevivência de uma unidade de artilharia. 

Um dia depois, o Exército dos Estados Unidos apresentou um exemplo concreto dessa transformação. A Hanwha Defense USA foi selecionada para fornecer os protótipos do K9 Mobile Howitzer (K9MH) para o programa "Mobile Tactical Cannon" (MTC), iniciativa criada pelo Exército americano para avaliar uma nova capacidade de artilharia móvel destinada, em determinadas formações, a substituir futuramente os obuseiros rebocados M777. O acordo inicial é de US$ 100,3 milhões para seis sistemas, com opção para mais 12, podendo alcançar US$ 262,9 milhões.

É importante deixar claro que a decisão ainda não representa a substituição definitiva do M777. Os K9MH serão submetidos a um período de prototipagem, testes e experimentação em campo, estimado em aproximadamente quatro anos. Os resultados dessa avaliação serão utilizados pelo Exército para decidir se o sistema será adotado e em quais condições. 

O que já está definido, entretanto, é o problema operacional que Washington pretende resolver. O M777 é um obuseiro rebocado de 155 mm concebido para oferecer elevada mobilidade estratégica e tática com baixo peso, inclusive permitindo seu transporte por aeronaves. Essa característica continua sendo relevante para unidades leves, mas cria uma diferença importante em relação a um sistema autopropulsado: depois de ocupar uma posição e realizar o tiro, o M777 precisa ser conectado ao veículo trator para abandonar a área.

No cenário de emprego onde a origem dos disparos pode ser rapidamente identificada, esse intervalo passou a representar uma vulnerabilidade. A unidade precisa não apenas executar o tiro com precisão, mas também reduzir o tempo entre a entrada em posição, a execução do tiro e o deslocamento para uma nova área. É justamente nesse ciclo que o conceito do MTC ganha importância.

Da peça rebocada ao sistema móvel

O K9MH leva a capacidade de artilharia do 155 mm para uma plataforma sobre rodas, permitindo que o próprio sistema realize seus deslocamentos sem depender de um veículo separado para rebocar a peça. A proposta combina a arquitetura da família K9 com uma configuração voltada à mobilidade e à integração dos principais processos de operação do sistema. Essa mudança não deve ser interpretada apenas como uma troca de plataforma. Ela altera a maneira como a unidade pode ser empregada.

A artilharia moderna precisa operar em um ciclo contínuo de deslocamento, entrada em posição, aquisição de dados de tiro, execução do tiro, reposicionamento e logística. Quanto mais rápida for essa sequência, menor tende a ser o período em que a unidade permanece exposta aos sensores e aos fogos de contrabateria adversários.

Foi exatamente esse ponto que destacamos na análise que publicamos: a evolução dos fogos não está ocorrendo apenas pela busca de maior alcance ou de munições mais precisas. A combinação entre sensores, drones, redes de comando e controle e sistemas de contrabateria está obrigando os meios de artilharia a reduzir sua assinatura e aumentar sua capacidade de reposicionamento. O movimento americano mostra que essa conclusão que aqui compartilhamos, já está influenciando programas de aquisição.

O K9MH entra em avaliação

A escolha da Hanwha também tem relação com a maturidade da família K9. Mais de 2.500 sistemas K9 estão em operação ao redor do mundo segundo a empresa, criando uma base de usuários e uma cadeia logística que podem reduzir riscos para o programa americano.

O K9MH foi apresentado pela Hanwha como uma variante sobre rodas da família K9. A empresa também vem preparando uma estrutura industrial nos Estados Unidos para apoiar o programa. Em maio, a Hanwha Defense USA anunciou a instalação de um centro de integração e testes em Opelika no Alabama, como primeira etapa de sua estratégia de localização da produção e do suporte aos sistemas de artilharia no país.

Esse aspecto é particularmente importante no caso americano. A aquisição de um sistema estrangeiro para uma capacidade considerada estratégica não se resume ao desempenho do equipamento. Produção local, cadeia de fornecedores, manutenção, disponibilidade de peças e capacidade de sustentação ao longo do ciclo de vida também fazem parte da equação.

A Hanwha está, portanto, tentando transformar a entrada do K9MH no programa MTC em capacidade industrial americana, e não apenas na venda de sistemas produzidos na Coreia do Sul.

O futuro do M777

O M777 não desaparecerá imediatamente do inventário americano. A própria estrutura do MTC demonstra que o Exército ainda está avaliando qual será a configuração definitiva da nova capacidade.

A etapa atual é justamente destinada a testar o comportamento dos sistemas em condições operacionais, avaliando desempenho, confiabilidade, manutenção e capacidade de apoio antes de uma eventual decisão de aquisição em maior escala.

Ainda assim, o objetivo declarado é bastante claro: utilizar o MTC para substituir os M777 em determinadas formações por uma capacidade de artilharia móvel mais adequada às condições atuais do campo de batalha. O Exército aponta como objetivos o aumento da mobilidade, letalidade, confiabilidade e sobrevivência das unidades de fogos.

A mudança também mostra que a discussão sobre artilharia não pode mais ser reduzida ao calibre, alcance ou cadência de tiro. Esses parâmetros continuam fundamentais, mas precisam ser avaliados dentro de um sistema muito maior, no qual sensores, comunicações, guerra eletrônica, drones, logística e comando e controle determinam a capacidade de uma bateria permanecer operacional.

A lição para o Brasil

É aqui que a decisão americana interessa diretamente ao Brasil. Como mostramos na análise anterior, a artilharia brasileira também está diante de um ambiente operacional que mudou. A evolução dos sistemas de vigilância e aquisição de alvos aumenta a probabilidade de detecção das posições de tiro, enquanto drones e munições guiadas tornam a exposição prolongada ainda mais perigosa.

Isso coloca uma questão importante para os programas brasileiros de modernização: não basta decidir qual obuseiro substituirá os sistemas atualmente empregados. É necessário definir qual conceito de artilharia o Exército pretende operar nas próximas décadas.

Uma solução moderna precisa considerar mobilidade, tempo de entrada e saída de posição, integração com sensores, capacidade de operar em rede, disponibilidade logística, proteção da guarnição e possibilidade de emprego de munições convencionais e de maior precisão.

Nesse contexto, a experiência americana com o MTC pode se tornar uma referência importante. O Exército dos EUA está testando uma solução que procura preservar a capacidade de fogo de 155 mm, mas incorporá-la a uma plataforma capaz de acompanhar forças móveis e reduzir o tempo de exposição da unidade.

Para o Brasil, essa discussão se conecta diretamente ao processo mais amplo de modernização dos fogos. Sistemas como o ASTROS, os projetos de munições guiadas, radares de contrabateria, drones e outros sensores precisam ser pensados como partes de uma mesma arquitetura operacional.

A artilharia que emerge dos conflitos contemporâneos não é simplesmente aquela que consegue disparar mais longe. É aquela capaz de receber rapidamente os dados de um alvo, executar o fogo, deslocar-se antes de ser localizada e voltar a operar em outra posição integrada à mesma rede.

É justamente essa mudança que a escolha do K9MH para a fase de prototipagem do MTC evidencia. Os Estados Unidos ainda não decidiram definitivamente qual sistema substituirá o M777, mas já decidiram que a próxima geração de artilharia precisa responder a um campo de batalha no qual mobilidade e sobrevivência passaram a ser requisitos tão importantes quanto o poder de fogo.

E essa talvez seja uma das conclusões mais importantes da análise que fizemos ontem: os fogos estão mudando porque o campo de batalha mudou. A decisão americana é mais um sinal de que essa transformação já saiu do terreno das tendências e começou a orientar programas concretos de modernização.

E o Brasil?

Diante desse cenário, também se torna necessário dar prosseguimento ao processo de aquisição do ATMOS, sistema que oferece ao Exército Brasileiro uma alternativa de artilharia autopropulsada sobre rodas alinhada justamente a essa evolução doutrinária e tecnológica.

A discussão sobre o ATMOS não deveria ser tratada apenas como uma aquisição de equipamento, mas como parte da necessária renovação da capacidade de fogos do Exército. A experiência americana com o MTC reforça a importância de avançar nessa direção, preservando a capacidade de artilharia de 155 mm e incorporando maior mobilidade, rapidez de deslocamento e integração aos demais elementos do sistema de fogos.

Assim como Washington está avaliando uma nova geração de sistemas móveis para substituir progressivamente os M777 em determinadas unidades, o Brasil precisa assegurar continuidade às decisões que já tomou no caminho da modernização de sua artilharia. O avanço do programa ATMOS passa a ser, portanto, uma questão diretamente relacionada à capacidade brasileira de acompanhar a transformação dos fogos que já está acontecendo nos principais exércitos do mundo.



por Angelo Nicolaci


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Tamandaré segue em operação após boato sobre suposto dano no convoo

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A circulação de uma informação sobre um suposto dano no convoo da Fragata "Tamandaré" (F200), durante o exercício Fraterno XXXIX, levou a Marinha do Brasil a emitir um esclarecimento nesta quarta-feira (19).

A informação, que ganhou espaço nas redes sociais, afirmava que a primeira fragata da Classe "Tamandaré" teria sofrido danos em sua estrutura em razão do peso do helicóptero AH-11B Super Lynx embarcado. Porém, como apurado, a informação não passa de mais uma notícia falsa.

FAKE NEWS desmentida

Em nota encaminhada pelo Comando em Chefe da Esquadra, a Marinha confirmou que a fragata "Tamandaré" está em viagem e não sofreu qualquer avaria ou dano estrutural durante a comissão. O navio permanece operando normalmente, sem degradação de suas capacidades ou alteração no cumprimento das atividades previstas.


COMANDO EM CHEFE DA ESQUADRA
NOTA À IMPRENSA

Niterói, RJ. Em 19 de agosto de 2026.

A Marinha do Brasil (MB), por intermédio do Comando em Chefe da Esquadra, informa que a Fragata ‘Tamandaré’ encontra-se em viagem e que o navio não sofreu qualquer avaria ou dano em sua estrutura durante a comissão, permanecendo em operação normal, sem degradação às suas capacidades operacionais ou ao cumprimento das atividades previstas.

Comando Em Chefe da Esquadra


A fragata participa da Fraterno XXXIX nas Águas Jurisdicionais Argentinas com um Destacamento Aéreo Embarcado do 1º Esquadrão de Helicópteros de Esclarecimento e Ataque (EsqdHA-1), composto pelo AH-11B Super Lynx N-4004.

O emprego do helicóptero faz parte da rotina operacional do navio, sendo componente orgânico da mesma, e permanece em plena operação durante o exercício. A Marinha também informa que as atividades seguem dentro da normalidade.

A confirmação é relevante porque a "Tamandaré" é a primeira unidade da nova classe de fragatas da Marinha do Brasil, fruto do Programa Fragatas Classe "Tamandaré" (PFCT) e sua participação neste exercício internacional representa uma oportunidade para ampliar a experiência operacional do navio, da tripulação e do destacamento aéreo embarcado.

Mais importante, porém, é separar fato de especulação. Um suposto dano em uma unidade naval recém incorporada poderia rapidamente ganhar uma dimensão muito maior nas redes sociais do que teria na realidade. Neste caso, a posição oficial da Marinha é inequívoca: não houve avaria, não houve perda de capacidade e a Fragata "Tamandaré" segue cumprindo normalmente sua missão na Fraterno XXXIX.


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Análise - A guerra invisível pela América Latina

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China e Estados Unidos disputam influência sobre infraestrutura, tecnologia e dados. O Brasil está no centro dessa nova fronteira geopolítica.

A próxima disputa pelo poder na América Latina não necessariamente será travada no mar, no espaço aéreo ou no terreno com tropas. Ela pode estar acontecendo agora, muito mais perto do cidadão do que parece: em uma câmera instalada na avenida, ou na rede 5G, um data center, um sistema de transporte ou nos cabos que carregam diariamente bilhões de informações.

À primeira vista, tudo parece apenas negócio. Um governo compra equipamentos, uma cidade moderniza seu sistema de segurança, uma empresa instala uma rede de telecomunicações ou um país recebe investimentos para construir infraestrutura. Contratos são assinados, obras começam e novas tecnologias entram em operação. O que nem sempre aparece nessa equação é que, quando uma infraestrutura passa a sustentar funções essenciais do Estado, sua importância deixa de ser exclusivamente econômica e começa a adquirir uma dimensão estratégica.

Uma rede de comunicação depende de equipamentos, software e atualizações permanentes. Um sistema de vigilância precisa de servidores, manutenção e suporte técnico. Uma plataforma de inteligência artificial depende de dados e capacidade de processamento. Quanto mais uma estrutura se torna indispensável para o funcionamento de uma cidade, de uma empresa ou do próprio governo, maior também é o custo para substituí-la. É nesse ponto que uma relação comercial pode começar a produzir uma dependência de longo prazo.

O Brasil está no centro dessa transformação. Maior economia da América Latina, potência energética e agrícola, dono de um enorme mercado consumidor e de uma posição estratégica no Atlântico Sul, o país também se tornou um dos principais espaços de interação e competição entre China e Estados Unidos na região.

A presença chinesa já ultrapassou há muito tempo o comércio de commodities. Empresas do país participam de projetos de energia, transporte, telecomunicações, tecnologia e infraestrutura digital, enquanto a cooperação bilateral também avança em áreas que envolvem dados geoespaciais, gestão territorial e digitalização de serviços públicos.

Nada disso, isoladamente, representa uma ameaça à soberania brasileira, e seria simplista tratar toda tecnologia chinesa como instrumento de influência política. A questão mais relevante está na relação que se estabelece depois que determinada tecnologia passa a integrar uma infraestrutura essencial: até que ponto o país mantém liberdade de ação quando depende de um fornecedor estrangeiro para operar, atualizar ou manter sistemas críticos?

Essa discussão ganha ainda mais peso quando envolve dados. Uma câmera de reconhecimento facial pode produzir muito mais do que imagens. Uma rede urbana pode registrar deslocamentos, enquanto sensores distribuídos por uma infraestrutura podem revelar padrões de funcionamento de instalações e atividades. Sistemas conectados, por sua vez, acumulam informações que, dependendo da natureza e da escala, podem adquirir valor econômico, operacional e estratégico.

Por isso, o debate não deveria se limitar ao equipamento que chega ao país, mas também à arquitetura que existe por trás dele. Onde os dados são armazenados? Quem administra os sistemas? Quem fornece as atualizações? Quem possui capacidade de manutenção? Existe um fornecedor alternativo caso a relação comercial seja interrompida? São perguntas que raramente aparecem quando uma obra é inaugurada, mas que podem determinar o grau de autonomia de um país anos depois.

O Brasil no centro do tabuleiro

O Brasil possui uma vantagem importante diante dessa disputa. Pela dimensão de sua economia e pela diversidade de suas relações internacionais, pode manter simultaneamente relações com China, Estados Unidos, Europa e outros centros tecnológicos, sem necessariamente precisar escolher um bloco.

Essa liberdade, entretanto, depende de capacidade própria. Em setores críticos, o país precisa saber quais tecnologias são estratégicas, onde estão seus dados, quem controla os sistemas, quais fornecedores podem substituí-los e quanto tempo seria necessário para recuperar autonomia caso uma relação comercial fosse interrompida.

A preocupação é particularmente relevante quando se trata de infraestrutura crítica. Comunicações, energia, transportes, finanças, recursos hídricos e defesa não podem ser tratados apenas como mercados, porque sua interrupção pode comprometer diretamente a capacidade de funcionamento do Estado.

A fronteira entre infraestrutura civil e segurança nacional está, portanto, cada vez mais estreita. Uma rede de telecomunicações pode adquirir importância para a soberania; um sistema de vigilância pode produzir informações relevantes para inteligência; um data center pode armazenar dados estratégicos; e uma cadeia de fornecimento pode determinar se um país terá capacidade de manter determinado sistema funcionando durante uma crise.

Uma disputa que atravessa o continente

O fenômeno não está restrito ao Brasil. Em toda a América Latina, governos buscam investimentos para modernizar telecomunicações, energia, transportes e infraestrutura digital, ao mesmo tempo em que a região concentra recursos que ganharam importância estratégica para a economia mundial, como lítio, cobre, terras raras e outras matérias-primas essenciais às novas tecnologias.

Essa combinação tornou a América Latina um espaço cada vez mais relevante para Pequim e Washington. A China possui capacidade significativa para financiar, construir e fornecer tecnologia para projetos de infraestrutura, enquanto os Estados Unidos continuam sendo uma potência econômica, tecnológica e militar central no hemisfério e vêm tratando a presença chinesa em setores estratégicos como uma questão de segurança.

A disputa, portanto, não precisa assumir a aparência de uma nova Guerra Fria. Ela pode se manifestar em uma licitação, na escolha de uma empresa para instalar uma rede de telecomunicações, administrar um sistema urbano, fornecer equipamentos para um porto ou participar da construção de uma infraestrutura digital. A longo prazo, essas decisões ajudam a definir quem ocupará posições estratégicas dentro das estruturas que sustentarão a economia latino-americana nas próximas décadas.

Washington, Pequim e o espaço brasileiro

China e Estados Unidos enxergam a América Latina a partir de interesses diferentes, mas ambos sabem que a região terá importância crescente na economia e na segurança do século XXI. Para Washington, limitar a presença chinesa em setores considerados estratégicos significa preservar influência sobre seu próprio entorno geopolítico. Para Pequim, ampliar sua presença econômica e tecnológica significa consolidar mercados, cadeias de fornecimento e relações de longo prazo.

Para os países latino-americanos, entretanto, existe uma terceira possibilidade: aproveitar a competição entre as duas potências sem transformar dependência em política de Estado.

O Brasil tem condições de fazer isso, mas precisa estabelecer uma diferença clara entre abrir o mercado e comprometer capacidades estratégicas. Cooperar com a China não significa abandonar os Estados Unidos, assim como adquirir tecnologia americana não implica romper com Pequim. O problema surge quando qualquer fornecedor se torna indispensável e o país perde margem de manobra para substituí-lo.

Soberania tecnológica, nesse contexto, não significa produzir tudo internamente. Significa preservar capacidade de escolha, manter condições para auditar sistemas, proteger dados, substituir fornecedores quando necessário, desenvolver alternativas nacionais e evitar que uma decisão comercial tomada hoje determine a liberdade estratégica de amanhã.

A América Latina entrou em uma nova fase da disputa entre China e Estados Unidos, na qual infraestrutura, tecnologia, dados e acesso a recursos estratégicos assumem importância crescente. O Brasil, pelo seu peso econômico, territorial e geopolítico, dificilmente será apenas espectador desse processo.

O desafio brasileiro será aproveitar as oportunidades oferecidas pela competição entre as grandes potências sem permitir que a modernização de sua infraestrutura produza uma dependência capaz de limitar suas escolhas no futuro. Afinal, em uma economia cada vez mais conectada, a soberania também depende da capacidade de um país compreender, controlar e, quando necessário, substituir os sistemas dos quais depende para funcionar.


por Angelo Nicolaci


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ZEUS: a nova fronteira dos sistemas autônomos

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A evolução dos sistemas não tripulados está avançando para além da automação de tarefas. A combinação entre inteligência artificial, sensores, processamento de dados e comunicações está criando plataformas capazes de interpretar o ambiente, adaptar-se a diferentes cenários e gerar informações para apoiar a tomada de decisões. Esse foi um dos pontos centrais apresentados pela AVIATEK durante o CCB Tech Day 2026, realizado em Bogotá, na Colômbia, em 18 de agosto.

Durante a programação acadêmica do evento, Andres Cordoba Vallejo, vice-presidente executivo da AVIATEK, apresentou a palestra “A nova geração de sistemas autônomos: quando a tecnologia começa a pensar, aprender e decidir”. A apresentação abordou os desenvolvimentos da Ekolot Aerospace & Defense (EAD), empresa sediada na Polônia e representada com exclusividade pela AVIATEK no mercado colombiano.

O destaque foi a família ZEUS, apresentada como exemplo da evolução das plataformas autônomas para um conceito mais amplo de sistemas capazes de perceber, analisar e agir a partir das informações obtidas no ambiente.

Essa mudança está diretamente relacionada à integração de diferentes tecnologias. Inteligência artificial, robótica, visão computacional, processamento de dados em tempo real, sensores inteligentes, comunicações avançadas e cibersegurança passam a trabalhar de forma integrada para ampliar as capacidades dos sistemas não tripulados.

Nesse modelo, a capacidade de uma plataforma não está restrita à execução autônoma de uma tarefa. A combinação entre sensores e processamento permite interpretar informações do ambiente, adaptar-se a cenários que mudam durante a operação e produzir dados capazes de apoiar decisões.

O conceito também amplia as possibilidades de emprego. Segundo a AVIATEK, sistemas autônomos podem atuar não apenas em vigilância e reconhecimento, mas também em gestão integrada de riscos, monitoramento ambiental, resposta a desastres naturais, busca e salvamento, ajuda humanitária, proteção de infraestrutura crítica, segurança pública e apoio ao planejamento territorial.

Para que esse tipo de capacidade seja efetivo, entretanto, a plataforma precisa estar inserida em uma estrutura tecnológica mais ampla. A AVIATEK destaca a importância de ambientes de experimentação, pesquisa, desenvolvimento e inovação, integração com sistemas existentes, qualidade dos dados, redes e comunicações confiáveis e cibersegurança.

O fator humano também permanece central nesse processo. A empresa aponta o talento especializado e o respaldo institucional e regulatório como elementos necessários para o desenvolvimento e emprego desses sistemas.

ZEUS

É nesse contexto que aparece a família ZEUS, desenvolvida pela Ekolot Aerospace & Defense e representada pela AVIATEK no mercado colombiano.

O conceito é baseado em uma plataforma modular e conversível, capaz de operar tanto no modelo VTOL, com decolagem e pouso vertical, quanto no modelo CTOL, com decolagem e pouso convencionais.

A proposta combina a flexibilidade operacional da plataforma com um conjunto de tecnologias destinadas a ampliar sua autonomia e capacidade de processamento de informações.

A apresentação realizada em Bogotá mostra uma mudança importante no desenvolvimento dos sistemas não tripulados: o foco passa a estar não apenas na plataforma e na sua capacidade de executar uma missão, mas na integração entre sensores, inteligência artificial, processamento, comunicações e sistemas de informação.

A família ZEUS é posicionada pela Ekolot Aerospace & Defense dentro dessa evolução, enquanto a AVIATEK busca ampliar sua presença no mercado colombiano com a solução.


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El Cristiano: quando a diplomacia começa a apagar a memória do Brasil

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Aval de Lula para devolver ao Paraguai um troféu da Guerra da Tríplice Aliança reacende uma questão que Brasília parece não querer enfrentar: de quem é a memória de uma guerra na qual também morreram milhares de brasileiros?

O presidente Lula teria dado aval para a devolução ao Paraguai do El Cristiano, o gigantesco canhão de 12 toneladas capturado pelas forças brasileiras durante a Guerra do Paraguai. A informação, publicada pela jornalista Bela Megale do Globo, ainda aguarda a formalização diplomática entre os dois países.

A decisão pode ser apresentada como um gesto de reconciliação. Mas há uma pergunta que Brasília precisa responder antes de transformar um troféu de guerra em moeda diplomática: o que exatamente o Brasil está devolvendo, um objeto estrangeiro ou uma parte da própria memória militar brasileira?

O El Cristiano não surgiu de um episódio isolado. A peça foi fundida no Paraguai em 1867, utilizando o bronze de sinos de igrejas, e posteriormente capturada pelas forças brasileiras. Levá-la ao Brasil foi consequência direta de uma guerra na qual o país mobilizou enormes contingentes militares e perdeu milhares de homens em combate e por doenças.

Por isso, reduzir o canhão à condição de “objeto paraguaio que precisa voltar para casa” é uma simplificação histórica conveniente, mas incompleta.

O Paraguai tem razões legítimas para reivindicar a peça. A guerra devastou o país e ocupa um lugar central em sua memória nacional. O Brasil, por sua vez, também tem o direito e o dever de preservar os símbolos materiais de um conflito que marcou profundamente sua história militar e política.

O problema, portanto, não é reconhecer a memória paraguaia. É perguntar se, em nome dela, o Brasil precisa abrir mão da sua própria memória.

A questão ganha contornos ainda mais delicados pela cronologia. O Paraguai voltou a cobrar a devolução do El Cristiano depois das recentes declarações de Lula sobre a Guerra do Paraguai. Agora surge a informação de que o presidente deu aval à restituição.

Não é possível afirmar que uma coisa tenha sido moeda de troca pela outra. Mas é perfeitamente legítimo perguntar se patrimônio histórico está sendo utilizado como instrumento de acomodação diplomática. Se for esse o caso, o precedente é preocupante.

Troféus de guerra, documentos, armas e objetos históricos não são apenas peças de museu. Eles carregam memórias conflitantes. Alguns representam derrota para uns e vitória para outros. Retirá-los de um país não elimina a guerra da história, mas pode empobrecer a capacidade desse país de contá-la sob sua própria perspectiva. E há uma ironia nisso tudo.

O Brasil passou décadas discutindo a necessidade de preservar sua memória militar, seus arquivos e seus patrimônios históricos. Agora, diante de uma demanda legítima de um país vizinho, parece disposto a resolver a questão simplesmente retirando a peça de seu próprio acervo. Reconciliação não deveria significar esquecimento.

Se o governo entende que a devolução é historicamente correta, que explique ao país os fundamentos da decisão. Que apresente os critérios jurídicos, históricos e diplomáticos utilizados. Que diga o que acontecerá com outros troféus e documentos da Guerra da Tríplice Aliança. E, principalmente, que explique como pretende preservar a memória brasileira associada ao El Cristiano depois que ele deixar o país. Porque milhares de brasileiros morreram naquela guerra. Eles não podem ser tratados como uma nota de rodapé para uma fotografia diplomática.

O Paraguai tem o direito de preservar sua memória. O Brasil também. E fazer diplomacia com a história é legítimo. Fazer diplomacia apagando a própria história, não.


Por Angelo Nicolaci


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