segunda-feira, 7 de janeiro de 2019

Por que a Alemanha busca até estrangeiros para reforçar sua debilitada força militar

A Alemanha está em busca de militares qualificados. Com urgência. Tanto que está até pensando em recorrer a cidadãos estrangeiros da União Europeia, uma medida sem precedentes nos últimos 50 anos.
Sete anos depois que a Alemanha acabou com o serviço militar obrigatório, o país está avaliando essa opção para preencher os postos qualificados.
O inspetor-geral das Forças Armadas alemão, Eberhard Zorn, disse que o Exército tem que "olhar em todas as direções nos momentos em que falta pessoal qualificado", como médicos e especialistas em tecnologia da informação.
Houve pouco investimento nas Forças Armadas da Alemanha nos últimos anos. Agora, o país quer aumentar o Exército com mais 21 mil efetivos além dos atuais até 2025. A ministra de Defesa alemã, Ursula von der Leyen, disse em uma entrevista recente que o Exército é composto atualmente de 182 mil soldados, um aumento de 6.500 em dois anos. Em sete anos, deverá chegar a 203 mil.
Segundo ela, o Exército alemão atualmente tem 12% de mulheres e que só neste ano uma em cada três pessoas que se candidataram a uma vaga de oficial era mulher.
A Alemanha também se comprometeu a aumentar o orçamento da Defesa de 1,2% a 1,5% do PIB para 2024, tendo sido criticada pelo presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, por não cumprir com o objetivo da Otan (aliança militar ocidental) de chegar a 2%.
Foto da ministra de Defesa Ursula von der Leyen em visita às Forças alemãs no Afeganistão em dezembroDireito de imagemGETTY IMAGES
Image captionA ministra de Defesa Ursula von der Leyen visitou as forças alemãs no Afeganistão em dezembro

A proposta

O general e inspetor Zorn disse ao grupo de mídia Funke que "claro, a Bundeswehr (como as Forças Armadas alemãs são conhecidas) precisa de pessoal" e que o Exército teve que "pressionar para conseguir uma nova geração adequada" de militares. Os cidadãos da União Europeia serão "uma opção" a ser avaliada só para preencher vagas em setores especializados, diz ele.
Segundo a reportagem do Funke, o governo havia consultado parceiros da União Europeia e que a maioria deles reagiu com cautela, particularmente no Leste Europeu. Isso porque as leis posteriores à Segunda Guerra Mundial estabelecem que os soldados da Bundeswehr têm que ser alemães.
Avião da BundeswehrDireito de imagemGETTY IMAGES
Image captionHouve pouco investimento nas Forças Armadas alemãs, e agora o Exército quer crescer
Mas Hans-Peter Bartels, o político responsável pelas Forças Armadas no Bundestag (o Parlamento alemão), disse que recrutar cidadãos da União Europeia poderia ser feito com "certa normalidade", porque muitos soldados têm dupla nacionalidade.
Segundo o grupo Funke, mais de 900 cidadãos estrangeiros já estão empregados pelo Exército em postos civis.
Qual é o estado do Exército alemão?
A Alemanha quer ter 70% de sua capacidade pronta para combate a qualquer momento, mas informes recentes mostra que essa meta está ficando para trás:
-Só ao redor de um terço dos 97 tanques, aviões de combate e helicópteros de nova fabricação estão prontos para combate, informou o jornal Die Zeit em outubro.
-Nem submarinos nem grandes aviões de transporte estavam prontos para a decolagem no final do ano passado, segundo um relatório militar de fevereiro.
-O mesmo relatório diz que os aviões de combate, tanques, helicópteros e barcos existentes se encontravam em condições "dramaticamente ruins".
-Ao redor de 21 mil postos de oficiais permanecem vagos.
A chanceler alemã Angela Merkel descendo do avião "Konrad Adenauer" em 29 de novembro de 2018Direito de imagemAFP
Image captionA chanceler Angela Merkel teve que voar a um encontro do G20 da Argentina em um avião de passageiros devido a uma falha técnica em um avião do Exército
As condições do equipamento militar foram foco de atenção no fim do mês passado quando a chanceler alemã Angela Merkel teve que voar ao encontro do G20 na Argentina em um avião de passageiros devido a uma falha técnica em um dos aviões de longa distância do Exército.
A recorrente escassez de equipamentos na Bundeswehr contrasta com o dinamismo da indústria bélica do país, quarto exportador mundial de armas em 2017, segundo dados do Instituto Internacional de Estudos para a Paz de Estocolmo (SIPRI, em inglês).
Forças Armadas reduzidas
Para um país tão grande - a Alemanha é a quarta maior economia do mundo - pode parecer estranho ter um Exército relativamente mal equipado.
Mas, depois da reunificação alemã (nos anos 1990, após o fim da Guerra Fria), as Forças Armadas se reduziram gradualmente de 486 mil soldados em 1990 a 168 mil em 2015.
Não se percebia nenhuma ameaça militar depois da Guerra Fria, e os cortes de gastos na Defesa continuaram até 2014.
As Forças Armadas alemãs desempenharam função-chave, mas limitadas, na Otan em Kosovo e no Afeganistão. Mas isso foi antes de acontecimentos muito importantes na região: a anexação da Crimeia por parte da Rússia em 2014 e a expansão do grupo extremista autoproclamado Estado Islâmico na Síria em 2013.
A cultura de cortes mudou, e uma sondagem de opinião sugeriu no mês passado que 43% dos alemães concordam com a necessidade de mais gastos com a Defesa, ante 32% em 2017.
Foto de um tanque da BundeswehrDireito de imagemGETTY IMAGES
Image captionUm terço dos 97 tanques, aviões e helicópteros novos estavam prontos para combate em outubro

Qual deveria ser o tamanho do Exército da Alemanha?

A ministra de Defesa da Alemanha diz que tudo depende da situação da segurança.
A Alemanha prometeu enviar centenas de tropas para reforçar a presença da Otan nos países bálticos (Estônia, Letônia e Lituânia) e na Polônia neste ano, mas também enfrenta outras formas de ameaças: há cerca de um mês, o Exército foi alvo de ataques cibernéticos, possivelmente procedentes da Rússia, e em meio a isso parte do novo orçamento se destinará a segurança computacional.

Fonte: BBC Brasil
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