sábado, 26 de janeiro de 2019

Crise na Venezuela, mudança nos rumos do país?

Para entendermos um pouco melhor o que se passa na Venezuela, precisamos primeiro entender o que levou o país a este estado crítico, onde o Populismo "Chavista" conseguiu implodir a economia do país e levar a maior crise de sua história. 

Uma série de fatores levaram a espiral que conduziu a esta verdadeira catástrofe, podemos elencar vários erros cometidos pelo governo venezuelano desde a ascensão de Hugo Chávez ao poder, mas há pontos cruciais que podem ser apontados como locomotores da atual crise. Um destes pontos que podemos aqui elencar, é a total negligência quanto a falta investimento no parque industrial venezuelano e na agricultura, o que levou a uma forte dependência externa, o que efetivamente comprometeu a autonomia do mercado interno e a sua vulnerabilidade econômica, tornando o mercado dependendo de fornecedores externos, o que leva á um grande impacto interno no caso de embargo ou desvalorização da moeda nacional. Outro ponto que não podemos deixar de citar aqui, é o alto grau de aparelhamento do estado, algo que torna as instituições extremamente ineficientes, onerosas e suscetíveis a casos de corrupção, sem falar na má gestão de recursos e o alto custo aos cofres públicos. Aliado a esse último fator, elencamos o estrito controle do estado sobre o mercado, o que levou a fuga de investidores, somando ainda as medidas de estatização de empresas estrangeiras por Chávez.

Como sabemos, a Venezuela possui uma das maiores reservas de petróleo do mundo, o que passou a representar a maior parte do PIB ao longo do último século, algo compreensível se realizarmos uma análise histórica do país, onde desde o inicio do século XX, a grande procura e margem de lucro obtida com a prospecção de petróleo, especialmente após a década de 70, quando a crise do petróleo levou a disparada do preço do barril, diante disso vários governantes venezuelanos ignoraram o investimento no desenvolvimento agrícola e industrial, passando a focar no mercado do petróleo. 

O petróleo representou durante décadas um importante esteio econômico para o país,  principalmente diante das sucessivas altas no preço do barril, o qual atingiu patamares elevados nos meados de 2000 e perdurando até a primeira metade desta década em que vivemos, sustentando  as medidas populistas adotadas pelo chavismo, o qual se valeu da desigualdade social existente no país para cooptar o apoio popular, o governo de Chávez se aproveitou dos chamados "petrodólares" para financiar vários programas sociais. Essa política míope, onde não houve investimentos nos setores industriais e agrícolas, tornou o país dependente de importações de praticamente tudo que era consumido.
Com o foco voltado para o petróleo e empregando grande parte do recurso arrecadado com as exportações de petróleo e seus derivados para sustentar programas sociais, o chavismo aprofundou ainda mais a lacuna no mercado interno, com um desenvolvimento agrícola e industrial do país praticamente nulo. O chavismo ignorou até as necessidades de investimento em infraestrutura da própria PDVSA, onde a falta de investimento levou a queda de quase 50% de sua capacidade produtiva desde sua ascensão ao poder. 
Dentre os grandes erros cometidos por Hugo Chávez que impactaram na capacidade industrial do país, podemos citar a nacionalização das indústrias de cimento e siderurgia, em 2007 ordenou que todas as empresas estrangeiras cedessem a maior parte do controle de suas atividades de exploração ao Estado venezuelano. Levando muitas multinacionais a abandonar o país e levando consigo investidores, expropriou centenas de empresas e de propriedades rurais.Essas medidas levaram a um impacto negativo na economia e mercado interno, que somados aos subsídios as importações e a implantação de controle de preços, fez ruir o setor privado e a industria local, tornando sua industria incapaz de suprir suas necessidades.

A corrupção é outro fator que contribuiu para a crise no país, onde se apoderou das instituições, criando um rombo bilionário nos cofres venezuelanos, algo bem similar ao que presenciamos no Brasil durante o governo petista, o que de certa forma agravou a crise econômica que o país atravessa. Isso sem falar nas desastrosas medidas de controle cambial que levaram a criação de uma bolha, a qual a eclodir revelou as mazelas do populismo no país. Ao tentar supervalorizar o Bolívar, o chavismo provocou distorções de valores que levaram a um verdadeiro pandemônio, causando uma crise de desabastecimento e a hiperinflação. Para piorar a situação o preço do petróleo caiu, levando o governo a emitir mais notas para cobrir o rombo nas contas públicas, com isso se agravou ainda mais a inflação.
O estopim para a crise política que se instalou nesta semana na Venezuela, com a declaração de Juan Guaidó como presidente interino do país, na verdade é uma escalada na disputa entre o chavismo e a oposição, a qual vem ganhando força com a adesão de grande parte da população que já não suporta mais a crise que o governo chavista mergulhou o país, resultando numa verdadeira crise humanitária, onde vários venezuelanos fugiram do país em busca de condições melhores de vida.
A tensão aumentou quando Juan Guaidó, líder do partido Vontade Popular, assumiu a presidência da Assembleia Nacional e declarou que o governo de Nicolás Maduro é ilegítimo, onde resultado das eleições realizadas em 2018, as quais não contou com a participação da oposição, não foi reconhecida pela oposição, e ilegitimada por grande parte da comunidade internacional, dentre os países que não reconhecem a legitimidade esta o Brasil.
Na última quarta-feira (23), em várias partes do país milhares de pessoas foram às ruas pedir a saída de Maduro. Durante a manifestação em Caracas, Juan Guaidó se declarou presidente interino do país e prometeu convocar novas eleições, restituindo a democracia no país. Tal ato recebeu forte apoio internacional, tendo sido reconhecido como presidente legítimo do país pelos países do Grupo de Lima, do qual o Brasil faz parte, e recebeu reconhecimento e apoio de Donald Trump, presidente dos Estados Unidos.
Maduro alega que a oposição tenta "tomar o poder", mantendo a postura de acusar os EUA e outros países por sua incompetência como "líder", chegando a romper relações com os Estados Unidos e ordenando que os diplomatas americanos residentes na Venezuela deixassem o país em um prazo máximo de 72 horas. 
De fato é preocupante a situação que se instaurou na Venezuela, a qual pode levar a um conflito civil com apoio externo, tendo em vista o grande apoio recebido por Guaidó ao assumir interinamente o governo, o que é visto como uma luz no fim do túnel para os desmandos populistas que se perpetuam no país por quase duas décadas. Por outro lado, China e Rússia declararam apoio ao governo de Maduro, mas é improvável que a derrubada de Maduro leve a China ou a Rússia a adotarem uma resposta militar, algo que não se pode duvidar por parte dos EUA, o qual observa de perto a situação venezuelana e não descarta uma intervenção militar no país para restituir a democracia.
De certo, podemos dizer que o povo venezuelano esta exaurido, e a perspectiva de um novo rumo na direção do país pode levar ao apoio em massa à Guaidó, sendo uma possível saída para situação que o país vive, não deixando de ressaltar que tal ato pode resultar em massacre, uma vez que as forças armadas do país declararam fidelidade à Maduro, somando a isto o fato que o povo venezuelano, assim como o brasileiro, passou por uma forte campanha de desarmamento civil, o que pode resultar em massacre por parte das forças leais ao governo, levando a uma hipotética necessidade de intervenção externa para garantir a estabilidade e segurança dos civis.
Estamos observando a situação, e estudamos a possibilidade de enviar uma equipe de jornalismo até a Venezuela afim de produzir uma visão mais aprofundada e real do que se passa no país.

O nosso parceiro, Robinson Farinazzo, preparou dois vídeos abordando a crise venezuelana, e você pode conferir nos vídeos abaixo:



Por Angelo Nicolaci - Jornalista, editor do GBN News, graduando em Relações Internacionais pela UCAM, especialista em geopolítica do oriente médio e leste europeu, especialista em assuntos de defesa e segurança

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