A transformação dos conflitos armados nas últimas décadas ampliou significativamente o campo de disputa entre Estados e forças militares. A superioridade deixou de depender exclusivamente da quantidade de meios disponíveis, do poder de fogo ou da capacidade de ocupar posições estratégicas. Embora esses fatores continuem determinantes, a evolução tecnológica e a crescente integração dos ambientes operacional, informacional e digital introduziram uma dimensão cuja importância cresce à medida que as forças armadas se tornam mais conectadas: a capacidade de preservar a percepção da realidade, interpretar corretamente as informações e tomar decisões em condições de incerteza.
Diante de um ambiente no qual sensores, radares, satélites, aeronaves não tripuladas, sistemas de comunicação e plataformas de inteligência alimentam continuamente os centros de comando, a qualidade da decisão passou a depender de uma complexa rede de informações e relações humanas. Essa integração oferece vantagens consideráveis, permitindo ampliar a consciência situacional, reduzir o tempo de resposta e coordenar meios distribuídos em diferentes domínios. Entretanto, também cria vulnerabilidades. Quando a informação é manipulada, quando os canais de comunicação são comprometidos ou quando a confiança nos sistemas de inteligência é abalada, a capacidade de combate pode ser afetada mesmo sem que um único meio militar seja fisicamente destruído.
É nesse contexto que a guerra cognitiva ganha relevância. Mais do que uma evolução da propaganda ou da desinformação, o conceito procura compreender como ações coordenadas podem influenciar a percepção, o julgamento, a confiança e o comportamento de indivíduos e organizações, atingindo diretamente os processos que sustentam a tomada de decisão. O objetivo pode ser induzir uma interpretação equivocada do cenário, produzir hesitação, comprometer a coesão de uma estrutura de comando ou dificultar a identificação de ameaças reais em meio a um volume crescente de informações.
A questão, portanto, não se limita a convencer uma população de determinada narrativa. No ambiente militar, o problema adquire consequências operacionais concretas: um comandante pode dispor de tropas, armamentos, comunicações e logística, mas perder a capacidade de empregar esses recursos adequadamente se sua compreensão do campo de batalha estiver comprometida.
A dimensão cognitiva e a transformação do ambiente operacional
A exploração das percepções humanas não é uma novidade na história militar. Engano, dissimulação, operações psicológicas, propaganda e ações destinadas a abalar o moral adversário acompanham os conflitos desde a Antiguidade. O que mudou foi a escala, a velocidade, a capacidade de personalização e a integração dessas atividades com recursos tecnológicos.
A digitalização das sociedades ampliou a quantidade de informações disponíveis e reduziu o intervalo entre um acontecimento e sua circulação. Imagens, vídeos, mensagens, documentos e dados operacionais podem alcançar simultaneamente públicos civis, militares e autoridades políticas. A inteligência artificial acrescenta novas possibilidades de produção e manipulação de conteúdo, enquanto plataformas digitais permitem disseminar narrativas em grande escala e explorar características específicas dos públicos atingidos.
Em abril de 2023, o Allied Command Transformation (ACT), comando da OTAN responsável pelo desenvolvimento de conceitos e capacidades futuras, apresentou sua definição de guerra cognitiva como atividades sincronizadas com outros instrumentos de poder para influenciar atitudes e comportamentos por meio da influência, proteção ou perturbação da cognição individual e coletiva. A formulação demonstra que o conceito não está restrito à circulação de informações falsas, mas envolve a interação entre fatores psicológicos, tecnológicos, sociais e estratégicos.
O debate, entretanto, ainda está em desenvolvimento. Um estudo acadêmico de Christoph Deppe e Gary S. Schaal, publicado em novembro de 2024 na revista Frontiers in Big Data, examinou criticamente o conceito exploratório da OTAN e identificou dificuldades de delimitação e diferenciação em relação a ameaças híbridas, manipulação e interferência informacional estrangeira. Essa ressalva é importante: nem toda campanha de desinformação constitui, isoladamente, guerra cognitiva, assim como nem toda falha de julgamento pode ser atribuída à ação deliberada de um adversário. A análise exige identificar intenção hostil, mecanismos empregados e efeitos pretendidos, sem transformar o conceito em uma explicação genérica para qualquer problema informacional.
A contribuição mais importante dessa abordagem está em reconhecer que o ser humano continua sendo parte essencial dos sistemas militares, mesmo quando suas atividades são apoiadas por processos altamente automatizados. A tecnologia pode ampliar a capacidade de observação e processamento, mas a interpretação do cenário, a avaliação de riscos e a responsabilidade pelo emprego da força permanecem vinculadas a decisões humanas e às estruturas institucionais que as sustentam.
A guerra cognitiva no ambiente político: disputas internas e erosão institucional
Embora suas aplicações militares despertem atenção crescente, a dimensão cognitiva da disputa entre atores políticos merece ser examinada com a mesma seriedade. O ambiente político reúne condições particularmente sensíveis à manipulação de percepções: divergências ideológicas, interesses econômicos, conflitos sociais, disputas eleitorais e diferentes interpretações sobre o funcionamento das instituições. Em sociedades democráticas, a pluralidade de opiniões é legítima e necessária. O problema surge quando mecanismos deliberados de manipulação procuram transformar divergências naturais em instrumentos de desestabilização.
Agentes políticos internos, grupos de interesse e estruturas organizadas podem recorrer a técnicas de influência para favorecer determinados objetivos de poder. Isso pode envolver a apresentação seletiva de informações, a circulação coordenada de conteúdos enganosos, a exploração de acontecimentos reais fora de seu contexto e a construção de narrativas destinadas a comprometer a confiança em adversários, autoridades ou instituições. A manipulação também pode procurar criar a impressão de que determinada posição representa uma maioria social incontestável, quando sua visibilidade decorre de mecanismos artificiais de amplificação.
É importante distinguir esse fenômeno da disputa política legítima. Campanhas eleitorais, críticas a governos, mobilizações populares e divergências sobre decisões institucionais fazem parte da vida democrática. A existência de discursos contundentes ou de críticas às instituições não comprova uma operação cognitiva. A caracterização exige observar a presença de manipulação deliberada, coordenação, ocultação de interesses, falsificação de fontes ou outras práticas destinadas a distorcer o processo de formação da opinião pública.
O risco estratégico aparece quando a competição política deixa de se concentrar na apresentação de propostas e na avaliação de resultados e passa a explorar sistematicamente a incapacidade de diferentes grupos de compartilhar uma base mínima de fatos verificáveis. Nesse ambiente, acontecimentos semelhantes podem ser apresentados como realidades incompatíveis, fontes confiáveis passam a ser rejeitadas exclusivamente por sua associação percebida a determinado grupo e a própria verificação de informações é interpretada como uma ação política.
A consequência pode ultrapassar o desgaste de uma liderança específica. A confiança na Justiça, nas autoridades eleitorais, nos órgãos de segurança, na imprensa e nos mecanismos de fiscalização pode ser afetada simultaneamente. Quando a legitimidade dessas estruturas passa a ser contestada sem que existam evidências proporcionais às acusações, a sociedade pode encontrar dificuldades para reconhecer decisões legítimas, resolver conflitos e aceitar procedimentos institucionais.
Essa situação interessa particularmente a atores que procuram ampliar sua influência sobre o Estado. A desconfiança generalizada pode dificultar a formação de consensos, comprometer a continuidade administrativa e reduzir a capacidade de implementar políticas públicas. Em um cenário de polarização persistente, decisões estratégicas podem ficar subordinadas à necessidade de responder permanentemente a crises políticas e informacionais.
A guerra cognitiva, nesse contexto, não precisa produzir uma mudança imediata de governo ou provocar uma ruptura institucional. Seus efeitos podem ser graduais, manifestando-se na deterioração das relações de confiança, na fragmentação da percepção coletiva e na dificuldade de estabelecer prioridades nacionais. A disputa pelo poder passa, assim, a envolver também a capacidade de influenciar a maneira como a sociedade interpreta os acontecimentos e avalia as instituições responsáveis por conduzir o Estado.
Disputas eleitorais: influência, manipulação e legitimidade democrática
Os processos eleitorais constituem períodos especialmente sensíveis porque concentram a atenção pública, ampliam a circulação de informações políticas e submetem instituições e candidatos a um nível elevado de escrutínio. A rapidez com que conteúdos são produzidos e compartilhados pode reduzir o tempo disponível para verificar denúncias, corrigir informações falsas e esclarecer acontecimentos controversos.
Nesse ambiente, operações de influência podem procurar interferir na percepção dos eleitores sem necessariamente atacar a infraestrutura responsável pela votação. A divulgação de conteúdos fabricados, a manipulação de imagens e gravações, a apresentação de pesquisas falsas, a circulação de acusações sem comprovação e a exploração de episódios reais fora de contexto podem alterar a compreensão pública sobre candidatos, partidos e instituições.
Outro objetivo possível é comprometer antecipadamente a confiança no processo eleitoral. Em vez de concentrar esforços na defesa de uma candidatura, uma campanha de manipulação pode procurar disseminar a percepção de que as instituições responsáveis pela eleição não são confiáveis, de modo que resultados desfavoráveis sejam recebidos com desconfiança independentemente das evidências disponíveis.
Essa distinção é relevante porque influência eleitoral e comprometimento técnico da votação são fenômenos diferentes. Uma operação pode procurar alterar percepções e preferências políticas sem acessar sistemas eleitorais, modificar registros ou interferir diretamente na apuração. Confundir essas modalidades dificulta a identificação da ameaça e pode produzir respostas institucionais inadequadas.
Uma avaliação conjunta divulgada em setembro de 2024 pelo Office of the Director of National Intelligence (ODNI), nos Estados Unidos, descreveu esforços de atores estrangeiros para explorar divisões políticas e influenciar a opinião pública durante o ciclo eleitoral daquele ano. O documento também chamou atenção para uma prática particularmente preocupante: o chamado perception hacking, no qual um agente procura convencer o público de que houve uma interferência no processo eleitoral, inclusive quando não existe evidência de que a votação tenha sido efetivamente comprometida.
O relatório conjunto da CISA, do FBI e do ODNI, publicado em abril de 2024, também observou que técnicas empregadas em operações estrangeiras de influência podem ser utilizadas por agentes domésticos. Essa constatação amplia o debate: os instrumentos de manipulação não são exclusivos de governos estrangeiros e podem ser apropriados por estruturas internas interessadas em explorar vulnerabilidades políticas e sociais.
A inteligência artificial acrescenta outra dificuldade. Conteúdos audiovisuais sintéticos podem simular declarações, reproduzir vozes e criar situações que nunca aconteceram. Mesmo quando uma falsificação é posteriormente desmentida, sua circulação inicial pode produzir efeitos difíceis de reverter, especialmente quando ocorre em momentos de grande atenção pública.
O desafio das instituições democráticas não é impedir a circulação de opiniões divergentes ou restringir o debate político, mas assegurar condições para que os cidadãos possam distinguir informação verificável de conteúdo deliberadamente manipulado. A transparência dos procedimentos, a capacidade de resposta institucional, a independência jornalística e a fiscalização técnica são componentes importantes dessa proteção.
A intervenção externa velada: quando outro Estado explora as divisões internas
A dimensão geopolítica da guerra cognitiva ganha especial relevância quando um Estado procura influenciar os processos políticos, sociais ou institucionais de outro país sem assumir publicamente a autoria das ações. Nesse caso, a operação pode ser estruturada para que seus efeitos pareçam decorrer exclusivamente de conflitos domésticos, disputas ideológicas ou mobilizações espontâneas.
O objetivo não precisa ser instalar um governo específico ou determinar diretamente o resultado de uma eleição. Pode envolver enfraquecer a confiança nas instituições, ampliar divergências sobre política externa, dificultar a construção de consensos, comprometer alianças estratégicas ou criar resistência social a decisões que contrariem os interesses do Estado interveniente.
Uma característica importante dessas operações é a possibilidade de utilizar estruturas intermediárias. Em vez de uma comunicação direta e identificável entre o governo estrangeiro e o público do país-alvo, podem existir organizações, plataformas, indivíduos e canais que aparentam atuar de forma independente. Alguns intermediários podem conhecer a origem e os objetivos da iniciativa; outros podem reproduzir conteúdos sem saber que participam de uma campanha mais ampla.
Essa arquitetura permite que narrativas sejam incorporadas ao debate local e reproduzidas por atores que possuem legitimidade ou credibilidade junto a determinados públicos. O conteúdo pode circular em veículos de comunicação, páginas digitais, organizações aparentemente independentes ou perfis pessoais, dificultando a identificação de uma coordenação central.
O emprego de intermediários não significa que toda organização ou pessoa que reproduza uma narrativa convergente com interesses estrangeiros esteja envolvida em uma operação. A convergência de opiniões pode ser espontânea. Para estabelecer uma relação de influência organizada, são necessárias evidências que permitam identificar vínculos, coordenação, financiamento, controle editorial, infraestrutura compartilhada ou outros elementos de conexão.
O Serviço Europeu de Ação Externa (EEAS) desenvolveu o conceito de Foreign Information Manipulation and Interference (FIMI), utilizado para caracterizar atividades de manipulação e interferência informacional estrangeira. A abordagem procura identificar não apenas conteúdos falsos, mas também as estruturas, os canais, os intermediários e os mecanismos que permitem produzir e distribuir essas campanhas.
Em seu terceiro relatório sobre ameaças FIMI, publicado em março de 2025, o EEAS descreveu redes de canais digitais, sites que imitavam veículos legítimos, contas inautênticas e intermediários utilizados para ampliar narrativas em diferentes países. O relatório também identificou a adaptação de conteúdos às características culturais e políticas dos públicos locais, uma prática que pode aumentar sua aparência de legitimidade.
A quarta edição do relatório, publicada em março de 2026, avançou na análise da infraestrutura dessas operações. Com base em casos documentados durante 2025, o documento registrou 540 incidentes globalmente e a mobilização de aproximadamente 10.500 canais e sites. O próprio relatório ressalva que os números representam uma amostra seletiva de atividades identificadas e não uma medição completa de todas as operações existentes. Também descreveu o emprego de redes intermediárias e estruturas opacas que dificultam a atribuição direta de responsabilidade aos atores envolvidos.
Essa característica é central para compreender a intervenção externa velada. O Estado interessado pode procurar manter distância formal entre suas estruturas oficiais e os canais que disseminam determinada narrativa, criando uma cadeia de intermediários que dificulta demonstrar a origem da operação. A chamada plausível negação não significa que a autoria seja impossível de descobrir, mas que sua comprovação pode exigir investigações técnicas, financeiras, documentais e de inteligência.
Outro mecanismo consiste em explorar acontecimentos e conflitos que já existem no país-alvo. Tensões sociais, divergências sobre política econômica, controvérsias institucionais e disputas sobre política externa podem ser amplificadas sem que o agente externo precise criar artificialmente esses problemas. A intervenção pode se limitar a aumentar sua visibilidade, estimular interpretações conflitantes ou favorecer conteúdos que contribuam para os objetivos estratégicos de quem promove a operação.
O resultado pretendido pode ser uma sociedade progressivamente dividida, com instituições submetidas a uma contestação permanente e menor capacidade de construir respostas coletivas. Em determinadas circunstâncias, isso pode comprometer a liberdade de ação de um governo e reduzir sua capacidade de manter compromissos internacionais, conduzir políticas de Defesa ou sustentar relações estratégicas.
A interferência externa também pode ocorrer sem qualquer tentativa de alterar diretamente uma eleição. Um país pode procurar influenciar a percepção pública sobre uma aliança militar, um acordo comercial, um programa de aquisição de Defesa, uma parceria tecnológica ou uma decisão diplomática. Se a pressão informacional produzir custos políticos suficientes, o governo atingido poderá enfrentar dificuldades para executar uma política que considera estratégica.
Essa possibilidade demonstra que a guerra cognitiva pode atuar como instrumento de projeção de poder. Em vez de empregar força militar convencional, o Estado interveniente procura influenciar o ambiente no qual as decisões do adversário são formuladas, reduzindo sua margem de manobra e explorando vulnerabilidades internas.
É justamente por isso que a atribuição exige cuidado. Uma campanha de influência pode ter origem externa, interna ou resultar da convergência entre diferentes interesses. Sem evidências técnicas e documentais, atribuir uma disputa política doméstica a um governo estrangeiro pode ser tão prejudicial à estabilidade institucional quanto deixar de identificar uma interferência comprovada.
O caso Flávio Bolsonaro: o despistamento informacional como cobertura operacional
O episódio envolvendo a saída de Flávio Bolsonaro do Brasil após o resultado do segundo turno das eleições de 2026, oferece um exemplo expressivo de como a manipulação do ambiente informacional pode ser empregada para favorecer uma operação política e dificultar a percepção de seus movimentos reais. O aspecto mais significativo não está apenas na saída do senador do território brasileiro, mas na sequência de informações divulgadas sobre seu paradeiro antes mesmo da viagem ter sido efetivamente realizada.
Horas antes de sua saída, começaram a circular informações de que Flávio Bolsonaro já estaria nos Estados Unidos. A narrativa foi reproduzida por aliados e veículos de comunicação, criando a percepção de que o deslocamento internacional havia ocorrido. Entretanto, a cronologia posteriormente reconstruída revelou que ele ainda se encontrava em território brasileiro naquele momento. A família cruzou a fronteira com a Argentina na noite de 27 de outubro, e a aeronave utilizada no deslocamento partiu de Puerto Iguazú já na madrugada do dia 28, seguindo posteriormente para os Estados Unidos.
Essa antecipação da informação não pode ser analisada isoladamente. Ao divulgar um destino como se já tivesse sido alcançado, enquanto a movimentação real ainda estava em curso, criou-se uma discrepância entre a percepção pública e a realidade operacional. A imprensa, os observadores e as próprias instituições passaram a lidar com uma informação que apontava para uma situação diferente daquela que efetivamente se desenrolava. O resultado foi a produção de ruído, a dispersão da atenção e a dificuldade de acompanhar, em tempo real, a sequência dos acontecimentos.
O contexto torna o episódio ainda mais relevante. Os passaportes brasileiros comum e diplomático do senador haviam sido cancelados, e a Polícia Federal informou que um alerta migratório havia sido inserido no sistema de controle. Ainda assim, Flávio Bolsonaro conseguiu deixar o Brasil e ingressar na Argentina, de onde prosseguiu sua viagem internacional. A ausência de registro oficial de saída pelos postos migratórios brasileiros e a confirmação argentina de seu ingresso mediante documentação válida ampliam as questões sobre a rota utilizada, os meios empregados e a eventual participação de estruturas de apoio.
A dimensão informacional, entretanto, é o elemento que merece especial atenção sob a perspectiva da guerra cognitiva. A divulgação antecipada de uma localização que não correspondia à realidade pode ter funcionado como uma ação de despistamento, produzindo uma cobertura narrativa para o deslocamento efetivo. Em vez de simplesmente ocultar a movimentação, a estratégia teria sido criar uma versão antecipada dos acontecimentos, induzindo os observadores a acreditar que a operação já havia sido concluída.
Esse tipo de ação ganha outra dimensão quando associado à possibilidade de uma estrutura de apoio capaz de integrar comunicação política, intermediários, recursos logísticos e articulação internacional. Reportagens apontaram a participação de aliados norte-americanos na organização do transporte, enquanto autoridades dos Estados Unidos negaram que o governo americano tivesse facilitado a saída. As informações sobre a atuação de agentes externos e a logística empregada precisam ser confrontadas com os registros e as investigações disponíveis. Ainda assim, a convergência entre o despistamento informacional e a execução de um deslocamento internacional demonstra por que a análise não deve se limitar ao conteúdo das mensagens divulgadas, mas também considerar os efeitos que elas podem produzir sobre uma operação concreta.
O episódio ilustra uma característica central da guerra cognitiva: a informação pode ser utilizada não apenas para influenciar opiniões, mas para modificar a percepção do ambiente em que decisões e ações estão acontecendo. Quando uma narrativa é deliberadamente antecipada para criar uma realidade pública diferente da sequência efetiva dos fatos, ela pode funcionar como instrumento de proteção, distração e despistamento. Nesse contexto, a superioridade informacional deixa de ser apenas uma vantagem estratégica e passa a representar um recurso operacional.
O caso também evidencia que operações dessa natureza não precisam necessariamente partir de uma estrutura militar formal. A convergência entre agentes políticos, redes de comunicação, intermediários e eventuais apoios externos pode produzir efeitos semelhantes aos de uma operação coordenada de influência, especialmente quando existe capacidade de sincronizar a narrativa pública com a execução de uma ação no mundo real. É justamente nessa interseção entre informação, poder político e capacidade operacional que a guerra cognitiva revela sua dimensão mais sensível.
O comando e controle como alvo estratégico
A evolução dos sistemas de comando, controle, comunicações, computadores, inteligência, vigilância e reconhecimento, reunidos sob a sigla C4ISR, modificou profundamente a maneira como as forças militares planejam e conduzem operações. A integração de sensores e plataformas permite acompanhar movimentos, compartilhar informações e coordenar ações em escalas geográficas cada vez maiores.
Em uma operação conjunta, por exemplo, informações obtidas por um radar terrestre podem ser compartilhadas com uma aeronave de alerta antecipado, um centro de operações aéreas e unidades navais. A integração dessas informações permite construir uma imagem operacional comum, reduzindo lacunas de percepção entre os diferentes componentes da força.
Entretanto, essa mesma integração estabelece uma dependência crescente da integridade dos dados. Se uma informação falsa ingressa em um sistema de inteligência e é reproduzida por diferentes plataformas, pode adquirir aparência de confirmação independente. Se um relatório incorreto é incorporado à avaliação de situação, as decisões subsequentes podem ser construídas sobre uma premissa equivocada. A repetição de uma informação em diferentes canais não comprova sua autenticidade quando todos dependem da mesma origem.
É nesse ponto que a guerra cognitiva encontra a guerra cibernética e a guerra eletrônica. Embora sejam campos distintos, podem atuar de maneira complementar.
A guerra cibernética pode comprometer sistemas, alterar dados, interromper serviços ou obter acesso não autorizado a redes. A guerra eletrônica pode interferir no uso do espectro eletromagnético, degradando comunicações, sensores e sistemas de navegação. Já as operações de informação podem explorar os efeitos dessas ações, difundindo interpretações falsas sobre o que ocorreu, quem foi atingido ou quais capacidades permanecem disponíveis.
A diferença entre interferência e falsificação de sinais de navegação ilustra bem o problema. O jamming procura bloquear ou degradar um sinal, tornando sua utilização difícil ou impossível. O spoofing, por sua vez, busca induzir o receptor a aceitar sinais falsos como se fossem legítimos. Enquanto o primeiro pode produzir uma perda perceptível de capacidade, o segundo pode gerar uma percepção incorreta da própria posição ou do ambiente, dependendo das características do sistema e das condições de ataque.
Quando essas ações são sincronizadas com informações manipuladas, o adversário pode enfrentar um quadro operacional no qual não sabe com segurança quais sensores continuam confiáveis, quais comunicações foram comprometidas e quais relatos correspondem a acontecimentos reais. O resultado pretendido não precisa ser a destruição física do centro de comando. Pode ser a degradação da confiança necessária para que ele funcione.
O comando permanece instalado, os operadores continuam trabalhando e os sistemas podem até apresentar disponibilidade técnica. Ainda assim, a organização pode perder velocidade, coerência e capacidade de coordenação porque seus integrantes precisam gastar tempo crescente verificando informações, resolvendo contradições e buscando autorização para agir.
Essa vulnerabilidade não significa que a digitalização seja um erro. Significa que a modernização precisa considerar, desde sua concepção, a possibilidade de operar em ambientes nos quais a conectividade, a precisão dos dados e a disponibilidade dos sistemas não possam ser presumidas.
A disputa pelo ciclo decisório
A compreensão do processo decisório militar encontra uma referência importante no modelo OODA, desenvolvido pelo estrategista e oficial da Força Aérea dos Estados Unidos John Boyd. A sigla representa observar, orientar, decidir e agir (Observe, Orient, Decide, Act).
O modelo descreve um processo contínuo pelo qual um indivíduo ou organização interpreta o ambiente, forma uma compreensão da situação, escolhe um curso de ação e executa a decisão, incorporando os resultados à observação seguinte.
Sua importância não deve ser reduzida à ideia simplificada de que vence quem decide mais rapidamente. A velocidade isolada não garante uma decisão correta. Um comandante que recebe informações incorretas e reage imediatamente pode cometer um erro mais grave do que aquele que utiliza tempo adicional para verificar a situação. A orientação, etapa na qual os dados são interpretados à luz da experiência, do conhecimento, da doutrina e das circunstâncias, é fundamental para a qualidade de todo o ciclo.
A guerra cognitiva procura explorar justamente essa relação entre informação e interpretação. Pode interferir na observação, introduzindo dados falsos ou ocultando acontecimentos relevantes; na orientação, estimulando conclusões equivocadas; na decisão, criando dúvidas e conflitos de avaliação; ou na ação, induzindo respostas desproporcionais ou atrasos operacionais.
O problema torna-se particularmente complexo quando diferentes escalões de comando recebem versões distintas de uma mesma situação. Uma unidade pode identificar determinada ameaça, enquanto o centro superior recebe informações que contradizem o relato. Se não houver procedimentos confiáveis para validar a origem dos dados e estabelecer prioridades, a cadeia de comando pode ser consumida por disputas internas de interpretação.
A preservação da consciência situacional depende, portanto, não apenas da quantidade de informações disponíveis, mas da capacidade de estabelecer sua procedência, confiabilidade, atualidade e relevância operacional.
Inteligência artificial: acelerador da decisão ou amplificador de vulnerabilidades?
A inteligência artificial acrescenta uma nova camada a esse cenário. Sistemas capazes de processar grandes volumes de imagens, identificar padrões, cruzar dados e produzir recomendações podem reduzir significativamente o trabalho de análise e apoiar decisões em ambientes complexos.
Em operações militares, essas ferramentas podem auxiliar na interpretação de imagens de satélite, no acompanhamento de movimentos, na identificação de alterações em áreas de interesse e na organização de informações provenientes de múltiplas fontes. Quando adequadamente integradas, podem contribuir para ampliar a consciência situacional e liberar profissionais para atividades que exigem julgamento especializado.
Entretanto, a capacidade de processar informações não equivale à capacidade de compreender integralmente a realidade operacional. Modelos de inteligência artificial dependem da qualidade dos dados, dos critérios utilizados em seu desenvolvimento e das condições nas quais são empregados. Informações incompletas, desatualizadas ou deliberadamente manipuladas podem produzir resultados inadequados, inclusive quando apresentados em relatórios tecnicamente convincentes.
Existe também o risco de dependência excessiva da automação. Quando uma recomendação produzida por um sistema passa a ser aceita sem questionamento suficiente, o operador pode perder a disposição ou a capacidade de contestar resultados que não correspondam ao cenário observado. Esse fenômeno torna-se especialmente relevante quando o tempo disponível para a decisão é reduzido e a autoridade humana tende a confiar na aparente objetividade da ferramenta.
Uma publicação do NATO Command and Control Centre of Excellence, divulgada em novembro de 2025, examinou a integração entre seres humanos e máquinas no comando e controle operacional. O estudo destaca oportunidades proporcionadas pela colaboração entre pessoas e sistemas de inteligência artificial, mas também identifica riscos associados à perda de habilidades pela dependência da automação e à necessidade de preservar diversidade cognitiva nas decisões conjuntas.
Em agosto de 2026, o U.S. Army War College Press publicou a monografia Fighting with Data, de C. Anthony Pfaff, dedicada às implicações da inteligência artificial para os sistemas de comando orientados pelo conceito de Mission Command. O estudo chama atenção para uma transformação importante: à medida que máquinas assumem parte do trabalho de reunir e processar informações, os comandantes passam a dedicar mais esforço à interpretação do significado dos dados, à avaliação das incertezas e à escolha de como agir.
A questão não é escolher entre decisões humanas ou automatizadas. É estabelecer uma arquitetura na qual a tecnologia amplie a capacidade humana sem eliminar a possibilidade de questionamento, validação e intervenção. Em aplicações militares, essa distinção possui consequências diretas para a segurança operacional e para a responsabilidade pelo emprego da força.
Mission Command: preservar a iniciativa quando a conectividade falha
A vulnerabilidade de estruturas excessivamente dependentes de autorizações centralizadas não é desconhecida da doutrina militar. Uma das respostas desenvolvidas para operar em ambientes complexos é o conceito de Mission Command, empregado na doutrina do Exército dos Estados Unidos.
A publicação doutrinária ADP 6-0, de julho de 2019, estabelece uma filosofia de comando baseada na confiança mútua, compreensão compartilhada, intenção clara do comandante, ordens orientadas à missão, iniciativa disciplinada e aceitação prudente de riscos.
Na prática, o comandante estabelece o propósito, os objetivos e os limites da operação, permitindo que os subordinados exerçam julgamento e iniciativa para cumprir a missão quando as circunstâncias se modificam ou quando não é possível obter orientação imediata do escalão superior.
Essa abordagem é especialmente relevante em ambientes contestados. Uma força que depende de comunicação permanente com seu comando superior pode enfrentar dificuldades significativas quando sofre interferência eletrônica, ataques cibernéticos ou interrupções de conectividade. Se seus comandantes subordinados não estiverem preparados para agir dentro da intenção previamente estabelecida, a degradação das comunicações pode produzir paralisia operacional.
A descentralização, entretanto, não significa ausência de coordenação ou liberdade irrestrita. Ela depende de treinamento, competência profissional, confiança e conhecimento compartilhado da missão. Sem esses elementos, a delegação de autoridade pode produzir fragmentação e comprometer a unidade de esforço.
A doutrina norte-americana também ressalta que a iniciativa disciplinada permite aos subordinados ajustar sua atuação diante de acontecimentos imprevistos, respeitando os objetivos estabelecidos pelo comando superior. Essa capacidade não substitui a necessidade de comunicações resilientes, mas reduz a dependência de orientações constantes para cada decisão.
A discussão revela que a resiliência do comando não pode ser medida apenas pela redundância de equipamentos ou pela existência de canais alternativos. Também precisa considerar a preparação das pessoas, a clareza das responsabilidades e a capacidade institucional de continuar operando sob incerteza.
O desafio brasileiro: soberania, interoperabilidade e resiliência decisória
Para o Brasil, a discussão possui implicações que ultrapassam a modernização de sistemas individuais. A dimensão territorial, a extensão das fronteiras, a importância da Amazônia, a vastidão da Amazônia Azul e a necessidade de coordenar meios das três Forças tornam a integração das capacidades de comando, controle e inteligência um componente relevante da Defesa Nacional.
A Política Nacional de Defesa, a Estratégia Nacional de Defesa e o Livro Branco de Defesa Nacional aprovados pelo Decreto nº 12.725, de 18 de novembro de 2025, oferecem uma referência institucional importante para essa discussão.
Entre as capacidades do Estado para a Defesa Nacional contempladas nesses documentos estão a cibernética, a coordenação e o controle, a gestão da informação, o desenvolvimento tecnológico, a comunicação estratégica e a resiliência. A gestão da informação é definida como a capacidade de garantir a obtenção, proteção, produção e difusão dos conhecimentos necessários ao processo decisório, à coordenação e ao controle dos meios disponíveis ao Estado.
A formulação é particularmente significativa porque reconhece a informação como elemento estruturante da capacidade estatal de agir. Não basta coletar dados: é necessário protegê-los, transformá-los em conhecimento e assegurar que cheguem aos responsáveis pelas decisões em tempo e condições adequadas.
O Livro Branco também registra a preocupação com ataques cibernéticos contra serviços essenciais e infraestruturas críticas, destacando a necessidade de ampliar a resiliência nacional e a cooperação entre o poder público e a iniciativa privada. No âmbito militar, o documento descreve o desenvolvimento do Programa da Defesa Cibernética na Defesa Nacional e a atuação do Comando de Defesa Cibernética, responsável por coordenar capacidades voltadas à proteção dos interesses da Defesa no espaço cibernético.
A ampliação do Exercício Guardião Cibernético, envolvendo Forças Armadas, órgãos públicos e setores estratégicos como energia, finanças, telecomunicações e área nuclear, também demonstra a importância de preparar diferentes instituições para responder a incidentes que podem ultrapassar os limites de uma organização militar.
Entretanto, a guerra cognitiva exige uma abordagem mais abrangente. A proteção das redes e dos sistemas é indispensável, mas não resolve isoladamente os riscos relacionados à interpretação de informações, à confiança institucional e à qualidade das decisões.
Na Marinha do Brasil, por exemplo, a integração de informações provenientes de radares, sensores embarcados, aeronaves, sistemas de vigilância e meios de superfície e submarinos depende de redes capazes de compartilhar dados com segurança e confiabilidade. Em um cenário de operações marítimas, a capacidade de distinguir uma ameaça real de uma informação manipulada pode influenciar o emprego de meios, a proteção de rotas e a coordenação com outras forças.
Na Amazônia, as grandes distâncias, as limitações de infraestrutura e as particularidades geográficas tornam a continuidade das comunicações um desafio adicional. A capacidade de manter o comando mesmo diante de interrupções exige sistemas alternativos, procedimentos previamente estabelecidos e unidades preparadas para operar com autonomia dentro de suas atribuições.
No espaço aéreo, a integração entre radares, centros de controle, aeronaves e sistemas de defesa também depende da qualidade dos dados compartilhados e da capacidade de manter uma imagem operacional confiável diante de interferências e tentativas de manipulação.
Esses cenários reforçam a importância da interoperabilidade entre as Forças. Não basta que cada organização disponha de sistemas modernos se eles não conseguem compartilhar informações de maneira segura, padronizada e compreensível. A integração precisa abranger tecnologias, procedimentos, doutrina e formação de pessoal.
A Base Industrial de Defesa possui papel estratégico nesse processo. O desenvolvimento nacional de sistemas de comunicação, sensores, radares, ferramentas de inteligência, softwares de comando e controle e tecnologias de proteção cibernética contribui para reduzir dependências externas e ampliar a capacidade de adaptação às necessidades operacionais brasileiras.
Essa autonomia não significa que todos os componentes devam ser produzidos nacionalmente ou que a cooperação internacional deva ser descartada. Significa assegurar que o Brasil tenha capacidade de compreender, integrar, manter, proteger e quando necessário, modificar os sistemas dos quais depende para exercer sua soberania e conduzir suas operações.
A proteção da soberania e a resiliência institucional
A discussão sobre guerra cognitiva também exige que a Defesa Nacional considere a proteção do ambiente informacional e a capacidade das instituições de reconhecer e responder a interferências externas. Essa responsabilidade não deve ser confundida com o controle estatal do debate público ou com a classificação de divergências políticas como ameaças à segurança nacional.
Em uma democracia, a liberdade de expressão, a imprensa independente, o pluralismo político e o direito à crítica são elementos essenciais da legitimidade institucional. Uma política de proteção contra manipulação informacional precisa preservar essas garantias, evitando que o combate à interferência seja utilizado como justificativa para restringir opiniões legítimas ou silenciar questionamentos.
A resposta exige mecanismos de verificação técnica, transparência, cooperação entre instituições e capacidade de atribuir responsabilidades com base em evidências. Também depende de uma sociedade capaz de reconhecer a diferença entre divergência política, erro jornalístico, informação falsa e operação coordenada de influência.
Para o Brasil, essa capacidade precisa considerar tanto as vulnerabilidades digitais quanto as relações entre Estado, sociedade, meios de comunicação e setores estratégicos. A proteção da soberania não se resume à segurança de redes militares: envolve a capacidade de preservar a autonomia das decisões nacionais diante de pressões, manipulações e tentativas de interferência.
Isso também demanda atenção à dependência tecnológica. Sistemas estrangeiros podem oferecer capacidades avançadas e contribuir para a interoperabilidade internacional, mas a ausência de domínio sobre componentes essenciais, dados, manutenção e atualização pode criar limitações estratégicas. A cooperação precisa ser acompanhada de capacidade nacional para avaliar riscos e preservar a continuidade das operações.
A resiliência institucional, portanto, não depende de eliminar divergências ou estabelecer uma interpretação oficial dos acontecimentos. Depende de garantir que decisões públicas e militares possam ser tomadas com base em informações verificáveis, procedimentos transparentes e estruturas capazes de resistir à manipulação.
A superioridade decisória como capacidade militar
A guerra cognitiva ainda enfrenta desafios conceituais, metodológicos e doutrinários. Não existe uma fórmula universal capaz de identificar e neutralizar todas as tentativas de manipulação da percepção humana, tampouco se pode atribuir automaticamente qualquer erro operacional à ação de um adversário. A incerteza é inerente à guerra, e decisões equivocadas podem decorrer de limitações humanas, falhas de inteligência, problemas de comunicação ou circunstâncias imprevisíveis.
O que se pode afirmar é que a crescente integração entre sistemas digitais, sensores, inteligência artificial e estruturas de comando amplia a importância da proteção do processo decisório. Uma força militar precisa ser capaz de identificar a origem das informações, avaliar sua confiabilidade, reconhecer contradições e preservar a iniciativa mesmo quando seus sistemas enfrentam degradação.
Essa necessidade também alcança a dimensão política e institucional. Um Estado que não consegue distinguir divergência legítima de manipulação organizada, ou que não dispõe de mecanismos confiáveis para investigar interferências externas, pode encontrar dificuldades para preservar sua autonomia decisória. A capacidade de identificar a origem de uma campanha, estabelecer responsabilidades e responder proporcionalmente passa a integrar a própria defesa da soberania.
Isso exige treinamento que reproduza ambientes de informação contestada, exercícios com interrupções de comunicação, validação de fontes, procedimentos alternativos de comando e avaliação crítica das recomendações produzidas por sistemas automatizados. Também exige uma cultura profissional na qual questionar um dado inconsistente seja entendido como parte da responsabilidade operacional, e não como resistência à autoridade ou à tecnologia.
Para o Brasil, incorporar essa perspectiva ao planejamento de Defesa significa compreender que soberania não se limita ao domínio territorial ou à posse de equipamentos. Ela também depende da capacidade de conhecer o próprio ambiente estratégico, proteger os sistemas que sustentam as decisões e preservar a liberdade de ação diante de pressões externas.
A modernização militar precisa, portanto, ser acompanhada pelo desenvolvimento de doutrina, formação de recursos humanos, interoperabilidade, autonomia tecnológica e resiliência institucional. A aquisição de plataformas sofisticadas perde parte de seu valor quando a força não consegue integrá-las, interpretar corretamente as informações que produzem ou continuar operando diante de uma perturbação coordenada.
A superioridade militar continuará dependendo do poder de fogo, da mobilidade, da proteção, da logística e da capacidade de empregar forças. Entretanto, sua eficácia será cada vez mais condicionada à qualidade do processo que transforma informação em decisão e decisão em ação.
Na guerra contemporânea, comprometer esse processo pode reduzir a capacidade de combate de uma força sem que o adversário precise destruir fisicamente seus principais meios. No ambiente político, a mesma lógica de influência pode ser utilizada para explorar divisões, comprometer a confiança institucional e limitar a autonomia de um Estado, inclusive por meio de operações externas cuja origem permaneça inicialmente dissimulada.
Preservar essa capacidade exige mais do que tecnologia: requer instituições preparadas, comandantes capazes de exercer julgamento sob pressão, uma sociedade com acesso a informações verificáveis e uma estrutura de Defesa que compreenda a integridade informacional como parte da soberania nacional.
Por Angelo Nicolaci
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