Exercício encerrou ciclo de preparação iniciado em 2024 e reuniu blindados, tiro real, operações aeromóveis, forças especiais e engenharia; comandantes destacaram a integração em diferentes escalões e a necessidade de ampliar a interoperabilidade.
Os Exércitos do Brasil e da Argentina concluíram em 16 de outubro o Exercício Combinado Arandú 2026, após uma semana de atividades militares no Rio Grande do Sul. A operação mobilizou aproximadamente 2,8 mil militares, incluindo cerca de 400 argentinos, e mais de 600 viaturas blindadas e operacionais, em ações concentradas no Campo de Instrução Barão de São Borja (CIBSB), em Rosário do Sul, com atividades também em Santa Maria e Faxinal do Soturno.
O exercício marcou o encerramento do ciclo de preparação 2024–2026 e reuniu diferentes capacidades terrestres e aéreas dos dois países. A programação incluiu tiro real com blindados, simulação de engajamento tático, operações aeromóveis, ações de forças especializadas e transposição de curso d’água com meios de engenharia.
Ao avaliar os resultados, o comandante de Operações Terrestres do Exército Brasileiro (COTER), General de Exército Kleber Nunes de Vasconcellos, destacou o aprofundamento da integração bilateral e a realização de experimentações em diferentes escalões da força.
“A integração com o Exército Argentino já é de muito tempo. Ultimamente, temos procurado melhorar essa integração. Foi muito interessante porque algumas experimentações estão sendo feitas nesse exercício. Inclusive, fazendo com que o exercício combinado ocorra em vários escalões da força, e isso é muito bom, porque além da cooperação mútua e da integração, nos aproxima ainda mais, e isso é fundamental para ambos os países”, afirmou.
O comandante Militar do Sul (CMS), General de Exército Luís Cláudio de Mattos Basto, também ressaltou a importância do intercâmbio profissional e dos vínculos históricos entre as duas instituições militares.
“É uma honra podermos estar aqui convivendo, integrando conhecimentos, fortalecendo nossos laços de amizade. Mais do que a parte operacional, a parte anímica é muito forte nesse exercício. São dois exércitos que há muito tempo estão juntos, têm os mesmos valores, tradições muito parecidas. Sempre compartilhando doutrina, conhecimento. Interoperabilidade, essa é a palavra”, declarou.
Pelo lado argentino, o comandante da Força de Desdobramento Rápido do Exército Argentino, general de brigada Ricardo Fresta, defendeu a continuidade dos exercícios como instrumento para complementar capacidades e aprimorar a preparação conjunta.
“Estamos felizes de estar aqui, muito motivados e achamos que temos que continuar os exercícios nessa mesma direção para complementar as capacidades e aumentar a interoperabilidade. Isso nos dá a capacidade de saber que, se algum dia tivermos que fazer uma operação combinada, ambos os exércitos conhecem os procedimentos, as táticas, técnicas e podem ter eficiência operacional no campo de combate, isso para nós é o mais importante”, afirmou.
As declarações convergem em dois pontos centrais do Arandú 2026: aprofundar a integração operacional entre as forças e manter a continuidade do treinamento conjunto. A referência à realização de atividades em diferentes escalões também evidencia que a interoperabilidade pretendida não se limita às tropas no terreno, mas envolve os processos de planejamento, comando e coordenação necessários para uma eventual operação combinada.
Blindados e tiro real: emprego de diferentes capacidades
O emprego de blindados foi um dos principais componentes do Arandú 2026. O Brasil participou com carros de combate Leopard 1A5 BR, VBTP Guarani e VBC-Cav Centauro II. A Argentina empregou carros de combate TAM 2C-A2 e viaturas blindadas Stryker.
A presença dessas plataformas permitiu exercitar a coordenação entre meios com características distintas de mobilidade, proteção, armamento e emprego tático. Embora possam desempenhar funções complementares, os equipamentos possuem configurações e procedimentos próprios, o que torna necessário preparar as unidades para atuar de maneira coordenada.
As atividades de tiro real incluíram metralhadoras de 12,7 mm instaladas nas viaturas Guarani e Stryker, canhões de 105 mm dos carros de combate Leopard 1A5 BR e TAM 2C-A2 e o canhão de 120 mm do Centauro II BR. O sistema de artilharia de foguetes ASTROS também participou das atividades de fogo real.
O emprego desses armamentos exigiu planejamento dos setores de tiro, coordenação entre as unidades e observância das medidas de segurança. Em um exercício combinado, a execução das atividades precisa considerar tanto as características de cada plataforma quanto sua função no conjunto da manobra.
A diversidade dos meios também oferece uma oportunidade para examinar como diferentes sistemas podem ser empregados no mesmo cenário tático. Isso não significa que as plataformas sejam diretamente intercambiáveis, mas que suas capacidades podem ser coordenadas conforme a missão, o planejamento e as responsabilidades atribuídas a cada unidade.
DSET e simulação viva
Uma das dimensões relevantes do Arandú 2026 foi a simulação viva, etapa em que os militares atuam fisicamente no terreno e utilizam procedimentos operacionais reais, mas com recursos de simulação para representar os efeitos dos engajamentos.
Segundo as informações divulgadas na cobertura do encerramento, o sistema de Dispositivos de Simulação e Engajamento Tático (DSET) emprega emissores e receptores a laser para reproduzir a trajetória dos disparos simulados. Sensores instalados nos equipamentos e coletes dos militares permitem registrar informações sobre alcance e impacto, incluindo os veículos participantes.
Esse recurso acrescenta uma dimensão de avaliação ao treinamento. Em vez de depender apenas da observação dos instrutores, o exercício pode utilizar os registros dos dispositivos para acompanhar determinados resultados dos engajamentos simulados.
É importante distinguir essa atividade do tiro real realizado no polígono de tiro. Enquanto o DSET permite simular e avaliar engajamentos durante a movimentação das tropas, o tiro real verifica a execução das atividades de fogo com os armamentos e as munições empregados na instrução. São modalidades distintas e complementares dentro da preparação militar.
A combinação de simulação viva e tiro real permite treinar diferentes aspectos do emprego da força: a tomada de decisões e a coordenação tática, de um lado, e a execução dos procedimentos de tiro, de outro.
Operações aeromóveis, forças especiais e engenharia
O Arandú 2026 também envolveu incursões aeromóveis, infiltrações de precursores paraquedistas e o emprego de uma força-tarefa de operações especiais, com participação de aeronaves brasileiras e argentinas.
Entre os meios empregados estavam o KC-390 Millennium, da Força Aérea Brasileira, e a aeronave C-212 argentina. A participação de aeronaves de diferentes países exigiu coordenação entre os meios aéreos e as tropas envolvidas, especialmente nas atividades de transporte e inserção de elementos no terreno.
As operações aeromóveis e as ações de forças especiais possuem exigências próprias de planejamento, tempo e coordenação. Sua integração com as forças terrestres depende da definição dos objetivos, da sincronização dos movimentos e da capacidade de compartilhar informações relevantes para a execução das missões.
A engenharia militar também participou com a transposição de curso d’água por meio de portadas. Esses equipamentos permitem estabelecer passagens para tropas e viaturas quando um obstáculo aquático interrompe ou restringe a progressão terrestre.
A atividade evidencia uma dimensão frequentemente menos visível dos exercícios militares: a necessidade de manter a mobilidade da força. Mesmo quando as unidades de combate dispõem de meios adequados, a impossibilidade de transpor um obstáculo pode interromper o avanço e afetar o cumprimento da missão.
A engenharia precisa, portanto, atuar em coordenação com as unidades apoiadas, considerando as características do terreno, os meios disponíveis e o fluxo de pessoal e equipamentos. A integração dessa capacidade com blindados, infantaria e logística é essencial para sustentar a progressão das tropas.
Do planejamento à simulação viva: três anos de preparação conjunta
O Arandú 2026 encerrou um ciclo de preparação iniciado em 2024, estruturado em três etapas complementares: planejamento, simulação construtiva e simulação viva. A progressão culminou no emprego de tropas e equipamentos no terreno, permitindo exercitar procedimentos operacionais e a coordenação entre unidades dos Exércitos do Brasil e da Argentina.
Em 2025, a preparação avançou com o uso do sistema COMBATER, empregado na simulação construtiva para desenvolver cenários, avaliar decisões e exercitar os processos de comando. A etapa final envolveu atividades em Santa Maria e Rosário do Sul, com participação de Estados-Maiores e unidades operacionais, integrando o planejamento à execução prática.
A simulação construtiva concentra-se nas decisões dos comandantes e dos Estados-Maiores em um ambiente virtual. Por meio de cenários simulados, é possível avaliar planos, analisar alternativas e acompanhar as consequências das decisões sem mobilizar todos os meios no terreno. Essa fase permite exercitar o comando e o controle, além de identificar ajustes necessários antes da execução prática.
Na simulação viva, o treinamento passa para o ambiente real. Tropas e viaturas se deslocam no terreno, executam procedimentos táticos e empregam dispositivos específicos para simular os efeitos de engajamentos. A atividade permite avaliar a execução das ações, a coordenação entre as unidades e a resposta às condições concretas de mobilidade, comunicação e emprego dos meios, sem configurar uma situação de combate real.
A combinação dessas etapas conecta o trabalho dos Estados-Maiores à atuação das tropas. O planejamento estabelece os objetivos e organiza as ações; a simulação construtiva permite exercitar as decisões; e a simulação viva coloca os procedimentos à prova no terreno. Em um exercício combinado, essa sequência também permite identificar dificuldades de coordenação entre forças que possuem estruturas, equipamentos e doutrinas próprias.
O encerramento do ciclo representa, assim, mais do que a conclusão de uma atividade de campo. O principal resultado a preservar é a experiência acumulada ao longo das três etapas, que poderá orientar a revisão de procedimentos e o planejamento de futuras edições. A continuidade desse processo será determinante para transformar o treinamento conjunto em maior capacidade de coordenação operacional entre os dois Exércitos.
Interoperabilidade em diferentes escalões
A realização de atividades combinadas em diferentes escalões foi um dos aspectos destacados pelo general Kleber Nunes de Vasconcellos no encerramento do Arandú 2026. A abordagem amplia o alcance do treinamento ao integrar o trabalho dos Estados-Maiores à execução das ações pelas unidades no terreno, aproximando planejamento, comando e emprego operacional.
.jpg)
Essa integração é fundamental para que forças de países diferentes consigam coordenar decisões, sincronizar movimentos e executar procedimentos compatíveis. Não basta que as unidades conheçam as capacidades umas das outras: é necessário que comandantes e Estados-Maiores consigam planejar e conduzir ações conjuntas, respeitando as particularidades doutrinárias e técnicas de cada Exército.
O general argentino Ricardo Fresta defendeu a continuidade dos exercícios como forma de complementar capacidades e ampliar a interoperabilidade. O objetivo é construir familiaridade com os procedimentos e as formas de atuação de ambas as forças, reduzindo dificuldades de coordenação caso seja necessário conduzir uma operação combinada.
O Arandú oferece condições para exercitar essa integração e identificar limitações em comunicações, comando e controle, planejamento e apoio logístico. Entretanto, os resultados não decorrem apenas da realização do exercício: dependem da continuidade do treinamento e da incorporação das lições identificadas à preparação das unidades e ao planejamento de futuras edições.
Logística e movimentação transfronteiriça
Mobilizar aproximadamente 2,8 mil militares e mais de 600 viaturas para o Arandú 2026 exigiu um esforço logístico que começou muito antes da chegada das tropas ao Rio Grande do Sul. Um dos exemplos mais expressivos foi o deslocamento do Sistema ASTROS, do Exército Brasileiro. Os meios do 6º Grupo de Mísseis e Foguetes (6º GMF) percorreram cerca de 2.800 quilômetros por rodovias, de Formosa (GO) até a região do exercício, em uma marcha de seis dias.
A operação foi além do transporte dos lançadores. O Centro de Logística de Mísseis e Foguetes também atuou no apoio ao deslocamento, com transporte de munições e suprimentos e abastecimento de combustível ao longo do itinerário. O comboio percorreu a distância sem depender de paradas em postos comerciais para reabastecimento, demonstrando a importância de levar o suporte necessário junto com os meios de combate.
Em uma marcha dessa extensão, cada imprevisto pode afetar o ritmo do deslocamento. Pane mecânica, condições meteorológicas, congestionamentos e alterações nas condições da estrada exigem capacidade de adaptação e coordenação para preservar a segurança do pessoal e dos equipamentos. O desafio é conhecido pelo editor do GBN Defense, Angelo Nicolaci, que durante a cobertura de atividades do Corpo de Fuzileiros Navais da Marinha do Brasil, participou de quatro grupamentos de marcha entre o Rio de Janeiro e Formosa, além de diversos deslocamentos entre o Rio de Janeiro, Furnas (MG) e Itaóca (ES).
.jpg)
Nessas jornadas, acompanhou situações como panes mecânicas, exposição ao frio e ao calor e congestionamentos provocados por acidentes envolvendo veículos alheios aos grupamentos. A experiência permite compreender, na prática, que uma marcha militar não se resume a percorrer determinada distância dentro de um prazo: é preciso manter a progressão, responder às adversidades e preservar as condições para que o pessoal e os meios cheguem ao destino com segurança.
No caso do ASTROS, essa preocupação ganha uma dimensão adicional. O deslocamento de um sistema de artilharia de mísseis e foguetes envolve não apenas os lançadores, mas também veículos de apoio, munições, equipamentos auxiliares e recursos para manter o conjunto em condições de emprego. A capacidade operacional depende da integração desses elementos, tanto durante o trajeto quanto na preparação para as atividades no terreno.
A mobilização também envolveu a Aviação do Exército. Três helicópteros do CAvEx partiram de Taubaté (SP) rumo a Santa Maria (RS): um HM-4 Jaguar do 2º Batalhão de Aviação do Exército, e dois HA-1A Fennec do 1º BAvEx. O deslocamento previa escalas técnicas e pernoites para reabastecimento e descanso das tripulações, mas as condições meteorológicas alteraram o planejamento. Em 8 de outubro, chuva e nuvens baixas levaram os pilotos a realizar um pouso preventivo não programado em Criciúma (SC), onde as aeronaves aguardaram condições mais favoráveis para prosseguir. O episódio ilustra como a meteorologia pode interferir na movimentação de meios aéreos e exigir decisões operacionais para preservar a segurança das tripulações e das aeronaves.
Enquanto o Exército Brasileiro projetava seus meios por milhares de quilômetros dentro do próprio território, a participação argentina exigia outro tipo de coordenação: a movimentação internacional de militares e equipamentos. O ingresso temporário das forças argentinas foi autorizado pelo Decreto nº 13.132, de 6 de outubro de 2026, que contemplou militares, aeronaves, veículos, armamentos, munições, sensores e equipamentos de comando, controle e comunicações.
A travessia da fronteira também exigiu a atuação de órgãos civis. Em 12 de outubro, a Comissão Nacional de Regulação do Transporte (CNRT) da Argentina informou ter realizado uma operação de fiscalização em Paso de los Libres, em conjunto com a Agência de Arrecadação e Controle Aduaneiro (ARCA) e a Direção-Geral de Aduanas. A ação estava relacionada ao deslocamento de veículos e meios do Exército Argentino para o exercício no Brasil.
São etapas diferentes de um mesmo desafio. De um lado, transportar e sustentar os meios brasileiros até a área de emprego; de outro, organizar a entrada dos contingentes argentinos e de seus equipamentos em território nacional. Em ambos os casos, a preparação logística e administrativa foi essencial para reunir as forças e viabilizar as atividades previstas.
O trabalho, porém, não termina quando as viaturas chegam ao destino. Durante o exercício, abastecimento, manutenção e distribuição de suprimentos precisam acompanhar as necessidades das unidades, preservando a disponibilidade dos meios. No caso de sistemas complexos como o ASTROS, os lançadores são apenas parte de uma estrutura que inclui os recursos necessários para seu emprego.
O Arandú 2026 mostra, assim, que a capacidade de realizar um exercício combinado começa muito antes do primeiro movimento tático no terreno. Ela depende de transportar os meios, superar as distâncias, coordenar os procedimentos entre os dois países e manter as unidades em condições de operar. Sem essa base logística, a integração planejada entre os Exércitos não se traduz em treinamento efetivo.
Base normativa e cooperação bilateral
O Arandú 2026 foi amparado por instrumentos normativos dos dois países, que autorizaram a participação das forças militares e estabeleceram os objetivos da atividade. No Brasil, o Decreto nº 13.132, de 6 de outubro de 2026, autorizou o ingresso e a permanência temporária de forças argentinas em território nacional entre os dias 10 e 17 de outubro. Na Argentina, o Decreto de Necessidade e Urgência (DNU) nº 1.157/2026, sancionado em 8 de outubro e publicado no dia seguinte, autorizou a saída de pessoal e meios militares para a participação no exercício.
Mais do que formalizar a movimentação das tropas, os documentos permitem compreender a finalidade atribuída ao treinamento. A norma argentina destaca o fortalecimento dos laços de cooperação e confiança entre os dois Exércitos, com foco na integração regional e no desenvolvimento da interoperabilidade entre forças com características operacionais distintas.
O texto também prevê o aperfeiçoamento de procedimentos e técnicas operacionais em áreas como operações aerotransportadas, aeromóveis, especiais e blindadas, além da aviação militar. A abrangência desses campos reflete a intenção de ampliar a familiaridade entre as forças, permitindo que compartilhem conhecimentos e exercitem formas de coordenação em diferentes tipos de operação.
Essa dimensão institucional é importante porque a interoperabilidade não se constrói apenas durante os dias de exercício. Ela depende de planejamento conjunto, continuidade do intercâmbio e oportunidades recorrentes para identificar diferenças doutrinárias, ajustar procedimentos e ampliar o conhecimento mútuo.
O Arandú 2026 integra esse esforço bilateral. Sua relevância não está somente na reunião de tropas e equipamentos, mas na possibilidade de transformar a cooperação política entre Brasil e Argentina em experiência operacional concreta. A continuidade das atividades será decisiva para consolidar o aprendizado e ampliar a capacidade de coordenação entre os dois Exércitos.
Análise: Arandú 2026 e o desafio de consolidar a integração militar no Cone Sul
.jpg)
O Arandú 2026 encerrou um ciclo de preparação que reuniu planejamento, simulação construtiva e treinamento no terreno. A mobilização de aproximadamente 2,8 mil militares e mais de 600 viaturas demonstra a dimensão do exercício, mas sua relevância estratégica deve ser avaliada pela capacidade de transformar essa experiência em interoperabilidade efetiva e duradoura entre os Exércitos do Brasil e da Argentina.
Do ponto de vista militar, o desafio vai além da atuação simultânea de unidades de diferentes países. Envolve compatibilizar procedimentos de comando e controle, comunicações, planejamento operacional, emprego de diferentes sistemas de armas e apoio logístico. Também exige que os Estados-Maiores compreendam as capacidades e limitações de cada força e consigam coordenar decisões que se traduzam em ações sincronizadas no terreno. A interoperabilidade não pressupõe equipamentos ou doutrinas idênticos, mas a capacidade de operar em conjunto apesar das diferenças.

Essa dimensão ganha importância quando observada no contexto estratégico do Cone Sul. Brasil e Argentina são atores centrais da região e mantêm uma relação bilateral cuja estabilidade tem implicações para a segurança regional. A cooperação militar contribui para a construção de confiança, amplia o conhecimento mútuo e cria canais de coordenação que podem ser relevantes diante de contingências que exijam atuação conjunta, desde que existam decisões políticas e mandatos específicos para isso.
O MERCOSUL constitui parte importante do contexto mais amplo de aproximação regional, embora seja um bloco de integração econômica e política, não uma aliança militar. Portanto, não se deve confundir a cooperação desenvolvida no Arandú com um mecanismo de defesa do bloco. Sua relevância está em contribuir, no campo militar, para um ambiente regional de diálogo e confiança, coerente com a importância da estabilidade e da cooperação entre os países do Cone Sul.
Para que essa aproximação produza resultados operacionais consistentes, a continuidade é decisiva. Exercícios recorrentes permitem elevar progressivamente a complexidade do treinamento, testar procedimentos em diferentes escalões, identificar incompatibilidades e incorporar as lições aprendidas ao preparo das unidades. A dimensão logística também precisa fazer parte dessa evolução: transportar meios a grandes distâncias, cruzar fronteiras e sustentar contingentes em uma área de operações são capacidades que precisam ser planejadas e exercitadas, não presumidas.

O desafio para os dois países é estabelecer uma sequência de atividades que preserve o conhecimento acumulado e permita avançar além da familiarização entre tropas. Isso requer avaliação dos resultados, correção de deficiências e continuidade do intercâmbio entre Estados-Maiores e unidades operacionais. Sem esse processo, cada edição corre o risco de produzir ganhos pontuais, sem consolidar procedimentos comuns ao longo do tempo.
O Arandú 2026 reforça, assim, o valor da cooperação militar bilateral para a integração regional, mas também evidencia o trabalho necessário para convertê-la em capacidade concreta. No Cone Sul, confiança política e aproximação institucional são importantes; interoperabilidade militar, porém, exige planejamento, treinamento recorrente e sustentação. O exercício terminou, mas o resultado estratégico dependerá da capacidade do Brasil e da Argentina de transformar essa experiência em preparo conjunto permanente.
por Angelo Nicolaci
GBN Defense - A informação começa aqui
.jpg)
.jpg)

.jpg)
.jpeg)
.jpg)

.jpg)
.jpg)
.jpg)





0 comentários:
Postar um comentário