A Türkiye avança na construção de uma rede internacional de cooperação na indústria de defesa. Um memorando de entendimento envolvendo Türkiye, Catar, Paquistão e Indonésia está previsto para ser assinado em Doha, segundo informações divulgadas em 20 de outubro pela Presidência das Indústrias de Defesa turca (SSB). A iniciativa busca aprofundar relações industriais existentes, integrar cadeias de fornecimento e ampliar as capacidades de produção conjunta.
A proposta reflete uma mudança na forma como Ancara busca ampliar sua presença no mercado internacional. Em vez de limitar as relações à exportação de equipamentos acabados, a indústria turca procura estabelecer parcerias que envolvam fabricação local, desenvolvimento tecnológico, capacitação de mão de obra e participação dos países compradores em diferentes etapas do ciclo de vida dos sistemas militares. O anúncio, contudo, não significa que novos contratos tenham sido firmados entre os quatro participantes.
Produção local e transferência de tecnologia
No Catar, a cooperação com a Türkiye inclui a instalação de capacidades industriais voltadas à fabricação de equipamentos de defesa. A BARQ, empresa estabelecida a partir da parceria entre a turca ASELSAN e a catariana Barzan Holding, representa um exemplo dessa aproximação, com atuação relacionada a sistemas de armas remotamente controlados e soluções eletro-ópticas.
O modelo permite associar a experiência tecnológica de uma empresa estrangeira aos investimentos e às estruturas industriais do país parceiro. Para o Catar, a iniciativa contribui para desenvolver competências locais; para a Türkiye, amplia a presença de seus fornecedores e cria condições para manter vínculos industriais com um mercado estratégico.
No Paquistão, a cooperação alcança um dos segmentos mais complexos da indústria militar: a construção naval. O programa de quatro corvetas da classe Babur, derivadas do projeto turco MILGEM, prevê duas unidades construídas na Türkiye e outras duas no estaleiro de Karachi. A execução compartilhada envolve a participação da indústria paquistanesa em atividades de construção e integração, criando oportunidades para absorção de conhecimentos de engenharia naval e produção.
A importância desse formato vai além da distribuição das unidades entre dois países. A participação de um estaleiro local em um programa naval de maior complexidade pode ampliar competências em fabricação, montagem, integração de sistemas e manutenção. O alcance tecnológico efetivamente transferido, entretanto, depende das atividades previstas nos contratos e da autonomia concedida à indústria receptora.
A Indonésia oferece outro exemplo, agora no setor terrestre. O KAPLAN MT, conhecido localmente como Harimau, foi desenvolvido pela turca FNSS em parceria com a PT Pindad. O programa combina conhecimentos das duas empresas e inclui transferência de tecnologia para permitir a produção local.
A FNSS fabricou os protótipos e as primeiras unidades de série, enquanto a PT Pindad passou a assumir a produção na Indonésia, conforme a evolução do programa. A iniciativa demonstra como uma parceria inicialmente apoiada na capacidade de desenvolvimento de uma empresa estrangeira pode contribuir para estabelecer uma base produtiva no país comprador.
Os três casos apresentam diferentes níveis de cooperação, mas compartilham um princípio: o equipamento funciona como ponto de partida para uma relação industrial mais ampla. O memorando anunciado para Doha poderá criar condições para aprofundar essa lógica entre os quatro países, embora seus efeitos concretos dependam do conteúdo final do instrumento e de eventuais acordos de implementação.
Exportações sustentam a expansão da indústria turca
A aproximação com novos parceiros ocorre em um período de forte crescimento das exportações turcas de defesa e aeroespacial. Segundo dados divulgados pela SSB, o setor exportou mais de US$ 10 bilhões em 2025, alcançando aproximadamente US$ 10,05 bilhões, alta de 48% em relação ao ano anterior. Em 2024, as exportações haviam somado cerca de US$ 7,1 bilhões.
Em 20 de outubro de 2026, a SSB informou que as exportações acumuladas entre 2023 e os primeiros nove meses de 2026 ultrapassaram US$ 30 bilhões. Esse volume corresponde a mais de 55% dos aproximadamente US$ 54 bilhões registrados pelo setor desde 2012, segundo os dados divulgados pelas autoridades turcas.
Os números ajudam a dimensionar a velocidade da expansão industrial, mas também evidenciam a importância de distinguir exportações realizadas de contratos assinados e encomendas futuras. São indicadores diferentes: enquanto as exportações refletem entregas contabilizadas, os contratos podem abranger programas cuja execução se estenderá por vários anos.
A estratégia turca combina o desenvolvimento de produtos próprios com acordos internacionais de produção, fornecimento de componentes e suporte. Essa combinação permite às empresas disputar mercados em que o comprador exige não apenas desempenho e preço competitivos, mas também participação industrial, acesso a serviços de manutenção e maior segurança no abastecimento de peças.
A sustentação desses vínculos pode ser decisiva para a continuidade dos negócios. Navios, aeronaves, veículos blindados e sistemas de armas exigem suporte logístico, reparos, atualizações e treinamento ao longo de décadas. Quando parte dessas atividades é realizada no país usuário, a aquisição inicial pode abrir caminho para uma relação industrial de longo prazo.
Brasil e Türkiye já possuem uma agenda industrial concreta
Para o Brasil, a expansão turca interessa especialmente porque a relação bilateral já ultrapassou o campo das declarações diplomáticas. Existem iniciativas empresariais concretas em engenharia aeronáutica, fabricação de componentes e integração de sistemas de defesa, além de possibilidades de cooperação no setor terrestre.
Um dos casos mais visíveis é o Tulpar, carro de combate (MMBT) desenvolvido pela turca Otokar. A plataforma está entre as alternativas observadas no contexto das discussões brasileiras sobre a futura família de carros de combate, incluindo configurações destinadas ao combate e ao transporte de tropas.
Em setembro de 2026, uma delegação do Exército Brasileiro acompanhou na Itália, uma demonstração de tiro real do Tulpar equipado com a torre HITFACT MkII, da Leonardo, armada com um canhão de 120 mm. A atividade ocorreu no contexto da avaliação da configuração oferecida ao mercado, mas não representa uma decisão de aquisição pelo Brasil.
A configuração com canhão de 120 mm amplia as possibilidades de emprego da plataforma como veículo de combate de maior poder de fogo. Sua avaliação, porém, deve considerar o conjunto da solução: proteção, mobilidade, integração dos sistemas, logística, custo de ciclo de vida e compatibilidade com os requisitos operacionais do Exército.
Uma eventual escolha do Tulpar também abriria uma discussão industrial. O Brasil precisaria avaliar quais atividades poderiam ser executadas localmente, desde a fabricação de componentes e a montagem até a manutenção, a integração de equipamentos nacionais e as futuras modernizações. Esses benefícios não decorrem automaticamente da compra: dependem das condições contratuais e do nível de participação industrial efetivamente negociado.
Na aviação, a cooperação já conta com um instrumento formal. Em 1º de abril de 2025, durante a LAAD Defence & Security, no Rio de Janeiro, a Embraer e a Turkish Aerospace assinaram um memorando para explorar oportunidades de cooperação industrial relacionadas à família de aeronaves comerciais E2.
O entendimento prevê discussões sobre uma possível parceria que aproveite as capacidades turcas na fabricação e montagem de estruturas metálicas e compostas, na montagem de fuselagens e em atividades de teste e produção. A iniciativa também contempla a possibilidade de colaboração em pesquisa e desenvolvimento. Não se trata, contudo, de um contrato definitivo para transferir a produção de aeronaves E2 à Türkiye.
A cooperação entre a Türkiye e a indústria aeronáutica brasileira também aparece no programa HÜRJET, treinador avançado supersônico desenvolvido pela Turkish Aerospace. A brasileira Akaer foi selecionada para desenvolver partes da estrutura da aeronave e sistemas associados à fuselagem traseira, além de participar de atividades de engenharia estrutural em outras seções do projeto.
A participação da empresa brasileira evidencia uma modalidade de cooperação particularmente relevante para a Base Industrial de Defesa: a exportação de conhecimento de engenharia. Em vez de fornecer apenas componentes fabricados sob especificação de terceiros, empresas nacionais podem assumir responsabilidades de projeto, cálculo estrutural e integração de sistemas, acumulando experiência aplicável a outros programas.
No setor de mísseis, a aproximação entre as duas indústrias assumiu uma forma diferente. Durante a LAAD 2025, a turca Kale Jet Engines assinou com a brasileira SIATT um acordo de fornecimento de motores turbojato KTJ-3200 destinados ao míssil antinavio MANSUP-ER.
O acordo prevê a integração do motor turco ao míssil desenvolvido pela SIATT, permitindo combinar um componente fornecido pela indústria estrangeira com um sistema de armas concebido no Brasil. O caso demonstra que a cooperação internacional pode ocorrer em um nível altamente especializado, no qual o país mantém a responsabilidade pelo desenvolvimento de seu produto, mas depende de fornecedores externos para determinados subsistemas.
Esse arranjo também evidencia um ponto que merece atenção: a participação de fornecedores estrangeiros em sistemas nacionais exige planejamento para garantir disponibilidade de componentes, continuidade de fornecimento, suporte técnico e condições adequadas para futuras evoluções do produto. O equilíbrio entre acesso a tecnologias externas e domínio nacional sobre os sistemas é parte central da política industrial de defesa.
Do acordo bilateral à capacidade industrial brasileira
Brasil e Türkiye assinaram, em 25 de março de 2022, um Acordo sobre Cooperação em Indústria de Defesa. O instrumento estabelece uma base jurídica para iniciativas conjuntas no setor, respeitando as legislações nacionais e os interesses das partes. Em setembro de 2025, o Congresso Nacional aprovou seu texto por meio do Decreto Legislativo nº 195, publicado no Diário Oficial da União.
O acordo oferece uma estrutura para aprofundar a cooperação, mas não determina a contratação de equipamentos específicos nem assegura, por si só, transferência de tecnologia. Cada programa precisa estabelecer responsabilidades, investimentos, direitos de propriedade intelectual, requisitos de segurança e condições de acesso às tecnologias envolvidas.
É nesse ponto que a experiência turca com seus parceiros ganha relevância para o Brasil. A produção de blindados na Indonésia, a construção naval compartilhada com o Paquistão e as parcerias industriais no Catar demonstram que existem diferentes formas de estruturar a participação local. A escolha depende da maturidade tecnológica do parceiro, do volume de encomendas, da capacidade de investimento e dos objetivos estratégicos de cada programa.
Para a indústria brasileira, o objetivo deve ser transformar oportunidades comerciais em competências duradouras. Isso significa buscar participação em engenharia, fabricação, integração, manutenção e modernização, além de definir quais conhecimentos precisam permanecer acessíveis às empresas e aos profissionais nacionais.
O interesse pelo Tulpar, a cooperação entre Embraer e Turkish Aerospace, a participação da Akaer no HÜRJET e o fornecimento de motores para o MANSUP-ER ilustram caminhos diferentes de aproximação. Cada um envolve condições técnicas e comerciais próprias, mas todos oferecem referências para discutir o equilíbrio entre cooperação internacional e autonomia industrial.
O memorando previsto para Doha reforça a estratégia turca de ampliar sua presença internacional por meio de relações industriais mais profundas. Para o Brasil, o movimento serve como referência para avaliar como acordos bilaterais e parcerias empresariais podem evoluir para programas com responsabilidades definidas, participação produtiva e resultados tecnológicos mensuráveis.
A medida do sucesso, portanto, não será a quantidade de memorandos assinados, mas a capacidade de convertê-los em projetos sustentáveis, com investimentos, produção, suporte e desenvolvimento de competências. É nesse resultado concreto que a cooperação entre Brasil e Türkiye poderá demonstrar seu verdadeiro alcance estratégico.
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