terça-feira, 18 de agosto de 2026

US Navy sob pressão: falhas de engenharia e desgaste operacional expõem o custo de manter uma Marinha global

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A imagem de um destróier da Marinha dos Estados Unidos incapaz de manobrar por meios próprios no Mar do Sul da China dificilmente poderia ser mais representativa dos desafios enfrentados pela maior força naval do mundo. Em julho, o USS Benfold, um destróier da classe Arleigh Burke com cerca de 10 mil toneladas de deslocamento, permaneceu quatro dias sem propulsão após uma falha de engenharia envolvendo seus geradores. A pane comprometeu sistemas essenciais do navio, deixando a tripulação sem água potável, banheiros operacionais, ar-condicionado e capacidade normal de preparar alimentos. O destróier precisou receber refeições de outras unidades e posteriormente ser rebocado até a Baía de Subic, nas Filipinas. A Marinha informou que não houve feridos e abriu uma investigação para determinar as causas da ocorrência.

O episódio chama atenção não apenas pela gravidade da falha, mas pelo local e pelo contexto em que ocorreu. O USS Benfold operava no Indo-Pacífico, região na qual Washington busca manter presença naval permanente e onde a disponibilidade de seus navios possui importância direta para a estratégia de dissuasão americana. Falhas mecânicas fazem parte da operação de qualquer Marinha, inclusive das mais avançadas. O que torna o caso relevante é sua associação com outros incidentes recentes e com problemas de manutenção, pessoal e treinamento que vêm sendo registrados há anos pelos próprios órgãos de fiscalização do governo americano.

Poucos meses antes, outro destróier da classe Arleigh Burke, o USS Higgins, sofreu uma falha no sistema de distribuição elétrica que provocou a interrupção temporária da propulsão durante operações no Indo-Pacífico. Segundo a 7ª Frota, a energia e a propulsão foram posteriormente restauradas e não houve feridos.

Isoladamente, os dois casos podem ser classificados como incidentes de engenharia. O problema ganha outra dimensão quando essas ocorrências são observadas em conjunto com atrasos de manutenção, limitações de pessoal e treinamento e uma crescente pressão operacional sobre os navios da US Navy. É nesse contexto que o caso do USS Benfold deixa de ser apenas uma pane e passa a revelar uma questão mais ampla sobre a capacidade de sustentação da frota americana.

Uma frota que precisa estar em todos os lugares

A principal vantagem estratégica da Marinha americana também está entre suas maiores fontes de pressão. A US Navy precisa sustentar operações simultaneamente no Indo-Pacífico, Oriente Médio, Atlântico, Mediterrâneo e em outras regiões consideradas estratégicas para Washington.

Essa presença global exige navios disponíveis, mas também uma estrutura capaz de mantê-los, abastecê-los, tripulá-los e submetê-los regularmente aos ciclos de manutenção. A disponibilidade operacional de uma frota, portanto, não depende apenas do número de navios existentes no inventário, mas de quantos estão efetivamente aptos a cumprir suas missões e por quanto tempo conseguem permanecer empregados.

A guerra contra o Irã levou essa equação a um nível ainda mais elevado. O porta-aviões USS Abraham Lincoln permaneceu por mais de 250 dias em operação, enquanto apoiava as ações americanas no Oriente Médio. A duração excepcional da missão provocou questionamentos de familiares, parlamentares e integrantes da comunidade naval sobre as condições de vida da tripulação, incluindo relatos relacionados a suprimentos, infraestrutura e saúde mental. A Marinha e o Departamento de Defesa contestaram algumas das caracterizações mais graves, mas reconheceram as dificuldades associadas a uma implantação dessa duração.

O caso do USS Abraham Lincoln revela uma dimensão diferente daquela observada no USS Benfold. Enquanto o destróier expôs a vulnerabilidade de uma plataforma diante de uma falha de engenharia, o porta-aviões evidenciou o custo humano e logístico de manter uma unidade em operação durante um período excepcionalmente longo.

As situações são diferentes, mas estão relacionadas pela mesma necessidade: extrair cada vez mais disponibilidade de uma frota que precisa atender a um número crescente de compromissos.

O problema começa muito antes de uma pane

Relatórios do Government Accountability Office (GAO) ajudam a compreender por que a questão não pode ser reduzida a uma sucessão de acidentes.

Em setembro de 2024, o órgão publicou uma avaliação sobre a capacidade dos próprios marinheiros de realizar manutenção durante as operações. O estudo analisou dados da Marinha, ouviu integrantes do comando e aproximadamente 200 marinheiros em 25 navios, além de consultar os oficiais executivos de 232 navios da frota de combate ativa.

O resultado mostrou uma dificuldade relevante: cerca de 63% dos oficiais executivos consultados afirmaram ser de moderadamente a extremamente difícil realizar reparos durante a navegação com o número de marinheiros disponível a bordo. O levantamento também identificou problemas relacionados ao treinamento necessário para que os próprios tripulantes executassem determinadas tarefas de manutenção.

Esse dado ajuda a compreender como uma falha localizada pode assumir proporções maiores quando ocorre longe de uma base.

Um navio de guerra moderno possui sistemas redundantes, equipes especializadas e uma estrutura de manutenção sofisticada. Ainda assim, quando ocorre uma falha grave no mar, a capacidade de recuperar a plataforma depende da combinação entre peças disponíveis, ferramentas, conhecimento técnico, treinamento e pessoal.

Se essa estrutura estiver pressionada, uma falha inicialmente localizada pode resultar em uma indisponibilidade muito mais ampla. O problema, portanto, pode começar muito antes de um gerador parar de funcionar, quando manutenções são adiadas, o treinamento não acompanha as necessidades, posições permanecem sem preenchimento ou o navio continua operando além do ciclo originalmente previsto.

A manutenção que sustenta a prontidão

A dificuldade de manter a frota não é recente. Em 2022, o GAO apontou que a Marinha americana acumulava cerca de US$ 1,7 bilhão em manutenção diferida apenas para seus navios de superfície, alertando para as dificuldades de dimensionar completamente os riscos associados a esse passivo.

Outro levantamento do órgão mostrou que, entre os anos fiscais de 2014 e 2019, os navios da Marinha acumularam mais de 33.700 dias além do previsto em períodos de manutenção. Aproximadamente 75% dos períodos analisados foram concluídos depois do prazo originalmente estabelecido. Entre os fatores estavam limitações de capacidade dos estaleiros, falta de trabalhadores qualificados e a postergação de serviços em razão do emprego operacional dos navios.

Mais recentemente, o GAO constatou que a Marinha gastou quase US$ 25,9 bilhões na manutenção de navios de combate de superfície entre os anos fiscais de 2020 e 2023, praticamente comprometendo todo o orçamento disponível para essa finalidade.

O dado demonstra que o problema não pode ser explicado apenas pela falta de recursos. Existe também uma dificuldade em transformar orçamento em disponibilidade efetiva, seja pela capacidade limitada dos estaleiros, pela falta de mão de obra especializada, pela disponibilidade de peças ou pelo tempo necessário para executar os serviços.

Quanto mais uma frota opera, maior é a pressão sobre sua manutenção. E quanto mais navios permanecem em manutenção, maior é a demanda sobre aqueles que continuam disponíveis. É uma equação que exige equilíbrio constante.

O fator humano também limita a prontidão

A discussão sobre prontidão naval costuma concentrar-se em motores, radares, armas, sensores e sistemas de combate. Entretanto, a experiência recente da US Navy mostra que a capacidade humana é parte inseparável dessa equação.

Um destróier pode possuir sensores avançados e sistemas de combate de última geração, mas continua dependendo de marinheiros capazes de diagnosticar uma falha, isolar um problema elétrico, executar reparos e restabelecer uma função essencial.

O relatório do GAO sobre a manutenção realizada pelos próprios marinheiros mostra que a dificuldade não está apenas na disponibilidade de peças ou ferramentas. A quantidade de pessoal e o nível de treinamento também interferem diretamente na capacidade de manter os navios operacionais durante a navegação.

Isso se torna ainda mais importante quando a demanda operacional aumenta. A utilização mais intensa das unidades disponíveis amplia o desgaste dos equipamentos e das tripulações, enquanto os períodos de manutenção, treinamento e repouso precisam continuar sendo respeitados. Quando esse equilíbrio é rompido, a prontidão começa a ser comprometida.

O limite da permanência no mar

O USS Abraham Lincoln tornou essa questão particularmente visível em 2026. O porta-aviões, com cerca de 5 mil tripulantes e fuzileiros navais a bordo, permaneceu por mais de oito meses em uma missão prolongada pelas operações americanas contra o Irã. A duração excepcional da implantação provocou questionamentos sobre as condições de vida da tripulação, além de relatos relacionados a suprimentos, infraestrutura e saúde mental.

É importante distinguir os relatos das conclusões oficiais. A Marinha não confirmou algumas das alegações mais graves divulgadas publicamente, enquanto o Departamento de Defesa rejeitou a caracterização de que o navio estivesse em situação de abandono ou colapso. Ainda assim, o volume de questionamentos envolvendo familiares, parlamentares, veteranos e especialistas demonstrou que a duração da missão passou a ser uma questão relevante por si só.

A declaração do presidente Donald Trump, em agosto, de que a missão do USS Abraham Lincoln não teria sido "longa o suficiente" também evidencia a diferença entre a necessidade estratégica de manter uma unidade empregada e os limites humanos e materiais de uma tripulação que permanece embarcada durante meses.

O problema não está em exigir que uma tripulação opere sob condições difíceis. Isso faz parte da própria natureza do emprego militar. A questão surge quando situações excepcionais se tornam recorrentes e começam a interferir nos ciclos necessários de manutenção, treinamento e recuperação.

O efeito dominó chega ao Indo-Pacífico

A pressão sobre a frota também produz efeitos fora do Oriente Médio. Para substituir o USS Abraham Lincoln, a US Navy deslocou o USS George Washington do Indo-Pacífico para a região do Oriente Médio. A transferência abriu temporariamente uma lacuna na presença de um porta-aviões americano no Pacífico Ocidental, justamente quando Washington procura reforçar sua dissuasão diante da crescente atividade militar chinesa.

O movimento demonstra como a disponibilidade limitada de plataformas pode transformar uma necessidade operacional em outra.

Um porta-aviões enviado para uma região deixa de estar disponível para outra. Um destróier empregado por mais tempo precisará posteriormente entrar em manutenção. Uma tripulação mantida no mar além do ciclo previsto também precisará de tempo para recuperação.

Para uma Marinha global, cada decisão possui consequências sobre o restante da estrutura. Por isso, a prontidão não pode ser medida apenas pelo número de navios existentes ou pela quantidade de unidades presentes em determinada operação.

É necessário considerar quantos estão efetivamente disponíveis, por quanto tempo podem permanecer empregados e qual é a capacidade de substituí-los ou recuperá-los quando ocorre uma falha.

O USS Benfold expõe uma vulnerabilidade que normalmente permanece invisível

É nesse contexto que o incidente do USS Benfold ganha maior relevância. A falha que ocorreu em 24 de julho e deixou o destróier incapaz de manobrar por seus próprios meios durante quatro dias, o deixando dependente do apoio do cruzador USS Robert Smalls, que precisou fornecer refeições à tripulação, enquanto outras embarcações participaram do esforço de apoio, até que o destróier foi rebocado para Subic Bay, onde os reparos foram concluídos.

Existe, entretanto, uma consequência operacional, durante quatro dias, um destróier altamente sofisticado deixou de ser uma unidade de combate autônoma e passou a depender de outros meios para apoio, alimentação e proteção. Se estivesse no cenário de combate real, a perda temporária de propulsão e geração elétrica teria implicações ainda maiores.

O problema não está restrito a navios antigos

Também seria incorreto atribuir essas ocorrências exclusivamente à idade dos navios. O USS Benfold entrou em serviço em 1996 e possui aproximadamente três décadas de operação. Já o USS Higgins entrou em serviço em 2018. A diferença demonstra que problemas de engenharia podem atingir tanto plataformas mais antigas quanto navios relativamente novos. A questão passa a ser a capacidade da estrutura de absorver essas falhas.

Uma Marinha com ampla capacidade de manutenção consegue retirar rapidamente um navio de operação, substituí-lo por outro e posteriormente recuperar a unidade afetada. Quando a frota opera sob maior pressão, entretanto, a saída de um único navio pode obrigar o comando a redistribuir missões e recursos. É nesse ponto que a dimensão industrial se conecta diretamente à operacional.

Construir navios não basta

A US Navy enfrenta há anos dificuldades para conciliar a necessidade de disponibilidade com a capacidade dos estaleiros públicos e privados. O problema se tornou ainda mais importante diante da crise mais ampla da construção naval americana, marcada por atrasos em programas, falta de trabalhadores especializados e dificuldades para ampliar rapidamente a produção.

Isso coloca Washington diante de um desafio de duas frentes: Ao mesmo tempo em que precisa construir novos navios e recuperar sua capacidade industrial, a Marinha precisa manter em condições de combate as plataformas que já estão no inventário.

Construir novos cascos não resolve automaticamente o problema da manutenção. Uma frota maior também exige mais estaleiros, técnicos, peças, infraestrutura, treinamento e pessoal. A capacidade naval, portanto, depende de uma cadeia muito mais ampla do que o número de navios registrados no inventário.

Uma Marinha poderosa diante de uma equação difícil

Nada disso significa que a US Navy esteja em colapso. A Marinha americana continua possuindo uma capacidade naval sem equivalente global, combinando porta-aviões nucleares, submarinos nucleares, destróieres Aegis, aviação embarcada, navios anfíbios, meios logísticos e uma extensa rede mundial de bases e aliados. O problema é determinar quanto dessa capacidade pode ser sustentada simultaneamente e por quanto tempo.

O USS Benfold mostrou como uma falha de engenharia pode retirar temporariamente um destróier de uma operação. O USS Higgins demonstrou que problemas de geração de energia e propulsão não estão restritos a uma plataforma antiga. O USS Abraham Lincoln expôs os efeitos de uma implantação excepcionalmente longa, enquanto os relatórios do GAO mostram que dificuldades de manutenção, pessoal e treinamento são anteriores aos episódios mais recentes.

Quando esses elementos são analisados em conjunto, a questão deixa de ser uma sequência de incidentes isolados e passa a envolver a sustentabilidade operacional da frota americana.

A US Navy precisa manter presença em diferentes regiões, mas cada navio possui limites físicos. Geradores falham, motores se desgastam, peças precisam ser substituídas e sistemas necessitam de manutenção. Da mesma forma, marinheiros precisam de treinamento e recuperação.

O desafio para Washington é equilibrar essas necessidades com uma estratégia que exige presença naval praticamente permanente. Por isso, a discussão sobre o futuro da Marinha americana não pode se limitar ao número de navios que os Estados Unidos pretendem construir. A capacidade de construir, manter, tripular, abastecer e recuperar essas plataformas será tão importante quanto a tecnologia embarcada nelas.

No Mar do Sul da China, o USS Benfold não foi colocado fora de combate por uma ação inimiga. Uma falha de engenharia foi suficiente para interromper temporariamente sua operação e exigir assistência de outros navios.

O episódio não define, sozinho, a condição da US Navy. Mas, quando colocado ao lado das dificuldades de manutenção, dos problemas de pessoal e do aumento da pressão operacional documentados pelos próprios órgãos americanos, ele ajuda a revelar uma questão que Washington terá de enfrentar nos próximos anos: como sustentar uma frota global quando a demanda operacional cresce mais rapidamente do que a capacidade de mantê-la disponível.


Por Angelo Nicolaci


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Delegação da África do Sul conhece capacidade tecnológica e soluções da ADTECH-SD

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Visita a São José dos Campos apresentou aos representantes sul-africanos tecnologias brasileiras para vigilância, monitoramento, defesa contra drones e sistemas aéreos não tripulados desenvolvidos pela empresa estratégica brasileira

A Advanced Technologies Security & Defense (ADTECH-SD) recebeu na última quarta-feira, 12 de agosto, uma delegação da África do Sul em suas instalações em São José dos Campos (SP), para uma visita voltada à apresentação de sua capacidade industrial e de seu portfólio de tecnologias destinadas aos setores de defesa, segurança pública e monitoramento estratégico.

Durante a agenda, os representantes sul-africanos conheceram a estrutura da empresa, seus processos de desenvolvimento e produção e diferentes soluções desenvolvidas pela ADTECH-SD, incluindo sistemas de vigilância, sensores, tecnologias antidrones e sistemas aéreos remotamente pilotados.

Um dos destaques da apresentação foi o SARP Harpia, desenvolvido pela empresa como uma plataforma de alta performance destinada a missões de inteligência, vigilância e reconhecimento (ISR). O sistema possui ampla autonomia e alcance para operação em longas distâncias, oferecendo capacidade de permanência prolongada sobre a área de interesse e podendo ser empregado em diferentes missões de monitoramento territorial.

Outro destaque apresentado foi o Atalaia, um radar terrestre ativo de varredura eletrônica (AESA), desenvolvido para detecção automática e rastreamento de alvos terrestres e aéreos em movimento, incluindo pequenos sistemas aéreos não tripulados. Compacto e robusto, o Atalaia tem alcance de detecção de até 6 quilômetros. Integrado a um Centro de Controle, o sistema pode operar com até oito radares, permitindo a formação de uma área monitorada de 360 graus.

A ADTECH-SD também apresentou o SIMAD, sistema de detecção e resposta imediata diante de ameaças representadas por aeronaves não tripuladas (drones). A solução foi concebida para identificar drones em tempo real e atuar na neutralização de ameaças ou na proteção de áreas contra drones não autorizados. De fácil montagem, o SIMAD pode ser empregado em diferentes cenários operacionais, oferecendo capacidade de deslocamento e pronta resposta para missões que demandem proteção contra sistemas aéreos não tripulados.


Completando o conjunto de tecnologias, foi apresentado o VIGIA, sistema de monitoramento aéreo e naval desenvolvido para ampliar a capacidade de acompanhamento e identificação de aeronaves e embarcações a partir da análise de sinais de rádio. A solução permite integrar informações relacionadas ao ambiente aéreo e marítimo, contribuindo para ampliar a consciência situacional em áreas de interesse estratégico.

A apresentação conjunta dessas tecnologias permitiu demonstrar à delegação sul-africana a amplitude da atuação da ADTECH-SD, que reúne diferentes capacidades dentro de uma arquitetura tecnológica voltada ao monitoramento, detecção, identificação e resposta.

Para além de soluções individuais, o portfólio apresentado demonstra a capacidade da empresa de atuar em diferentes camadas de uma operação, combinando sistemas aéreos não tripulados, radares, tecnologias antidrones e sistemas de monitoramento aéreo e naval.

A visita também representa uma oportunidade para ampliar o diálogo entre a indústria brasileira de defesa e potenciais parceiros internacionais, apresentando soluções desenvolvidas no país para atender a demandas cada vez mais complexas de vigilância, proteção territorial e segurança.


Sobre a ADTECH-SD

A Advanced Technologies Security & Defense (ADTECH-SD) é uma empresa brasileira, reconhecida pelo Ministério da Defesa como Empresa Estratégica de Defesa (EED), especializada no desenvolvimento de soluções tecnológicas de alta performance para segurança pública, defesa territorial e monitoramento estratégico.

Com sede em São José dos Campos (SP), a empresa reúne profissionais com décadas de experiência no setor aeronáutico e atua no desenvolvimento e operação de sistemas avançados de aeronaves não tripuladas, além de soluções integradas de vigilância e inteligência. Seus sistemas são concebidos com foco em alta autonomia, modularidade e adaptabilidade, atendendo às demandas de missões críticas em ambientes complexos e de elevada exigência operacional.


Fonte ADTECH via GBN Media & Solutions
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Tamandaré e Humaitá: a nova Marinha do Brasil chega á FRATERNO XXXIX

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O Primeiro desdobramento internacional do submarino Humaitá e estreia internacional da Fragata Tamandaré colocam no mar argentino duas das principais expressões da renovação da Esquadra brasileira e abrem uma leitura estratégica que vai muito além do exercício bilateral

Quando a Fragata Tamandaré (F200) e o Submarino Humaitá (S41) chegaram à Argentina para participar da Operação FRATERNO XXXIX, não estavam apenas cumprindo mais uma comissão internacional da Marinha do Brasil. Pela primeira vez, dois meios que representam programas centrais da renovação da Esquadra passaram a operar fora do ambiente nacional dentro de uma atividade de elevada complexidade, ao lado de uma força naval estrangeira e em um cenário que envolve guerra antissubmarino, exercícios de tiro, defesa, manobras táticas e operações aeronavais.

A composição brasileira torna essa participação ainda mais significativa. Ao lado da nova fragata Tamandaré e do submarino Humaitá estão a Fragata União (F45), o Navio de Socorro Submarino Guillobel (K120) e dois helicópteros AH-11B Super Lynx. Não se trata, portanto, apenas da estreia internacional de duas plataformas. A Marinha deslocou uma força capaz de combinar escoltas, capacidade submarina, aviação embarcada e apoio especializado, colocando diferentes componentes da Esquadra para operar dentro de uma mesma arquitetura operacional.

A FRATERNO XXXIX ocorre entre os dias 13 e 24 de agosto, com atividades envolvendo as áreas marítimas entre Puerto Belgrano e Mar del Plata. A programação reúne exercícios de tiro, defesa, guerra antissubmarino, manobras táticas, operações aeronavais e procedimentos de coordenação entre as duas Marinhas, após uma primeira fase de porto.

É justamente por isso que a presença brasileira merece ser observada para além da fotografia dos navios no Mar Argentino. O ponto central não está apenas nas plataformas que atravessaram a fronteira marítima, mas no que significa para o Brasil colocar em operação internacional uma nova geração de meios que começa a mudar a fisionomia de sua Esquadra.

A fragata Tamandaré representa a renovação da força de superfície. O submarino Humaitá representa a consolidação de uma capacidade submarina construída a partir do PROSUB. A União demonstra a continuidade entre diferentes gerações de escoltas, enquanto os AH-11B ampliam a capacidade de emprego das fragatas e o Guillobel fornece o suporte necessário à operação do componente submarino.

A FRATERNO, nesse sentido, oferece uma oportunidade para observar essa transição em um ambiente operacional real, no qual diferentes gerações de meios precisam trabalhar juntas e, ao mesmo tempo, demonstrar que as novas capacidades brasileiras já podem ser empregadas em um contexto internacional.

A Tamandaré começa a construir sua história operacional

A chegada da F200 à Argentina acontece poucos meses depois de sua incorporação à Marinha do Brasil e marca sua estreia internacional. Para uma nova classe de navios, esse primeiro desdobramento externo representa mais do que uma passagem simbólica pelo calendário operacional, porque é também uma etapa importante na construção da maturidade da própria plataforma e de sua tripulação.

Uma fragata moderna não se resume ao casco, à propulsão ou ao armamento. Seu desempenho depende da integração entre sensores, sistema de combate, comunicações, navegação, guerra eletrônica, armas, aviação embarcada e, principalmente, da capacidade da tripulação de transformar todos esses recursos em decisões e ações coordenadas.

Quando a plataforma passa a operar ao lado de outra Marinha, essa equação ganha novas variáveis. Procedimentos precisam ser compatibilizados, comunicações precisam funcionar dentro dos parâmetros estabelecidos para o exercício, as unidades precisam compreender a posição e a intenção das demais e as tripulações precisam executar suas tarefas mantendo a consciência situacional e a autonomia operacional. É uma experiência que nenhum teste de aceitação realizado individualmente pelo navio consegue reproduzir completamente.

Por isso, a FRATERNO XXXIX representa uma etapa importante para a F200. A fragata deixa o ambiente nacional e começa a acumular experiência no contexto operacional internacional, justamente quando a Marinha brasileira inicia a transição para uma nova geração de escoltas.

A presença da Tamandaré ao lado da União também produz uma imagem particularmente interessante dessa transição. De um lado está o primeiro navio de uma nova classe, concebida para substituir progressivamente unidades mais antigas e elevar o padrão tecnológico da força de superfície. Do outro, uma fragata que representa uma geração anterior e que continua contribuindo para a capacidade operacional da Esquadra.

As duas navegando juntas mostram que a renovação naval brasileira não acontecerá por uma substituição imediata, mas por uma transição gradual, na qual diferentes gerações de meios precisarão operar lado a lado durante alguns anos. O exercício, portanto, permite à Marinha testar não apenas o desempenho individual da nova plataforma, mas também sua integração dentro da estrutura operacional existente.

Humaitá realiza seu primeiro desdobramento internacional

A participação do Submarino Humaitá (S41) tem um peso particular dentro da FRATERNO XXXIX. Integrante da Classe Riachuelo, o S41 realiza no exercício seu primeiro desdobramento internacional, levando para águas argentinas uma das principais capacidades resultantes do Programa de Desenvolvimento de Submarinos (PROSUB). O submarino foi construído no Complexo Naval de Itaguaí e é a segunda unidade brasileira derivada do projeto francês Scorpène.

Mais do que uma estreia simbólica, o deslocamento representa uma etapa importante na consolidação operacional da Classe Riachuelo. O Humaitá passa a atuar em um exercício que envolve guerra antissubmarino, manobras táticas e coordenação entre diferentes meios, exigindo que sua tripulação opere integrada a uma força multinacional e dentro de procedimentos previamente estabelecidos com a Armada Argentina.

A experiência possui valor próprio para a Marinha do Brasil. Submarinos operam em um ambiente no qual discrição, planejamento, disciplina de comunicações e consciência situacional possuem peso decisivo. Colocar o S41 em um exercício internacional permite testar não apenas a plataforma, mas também a capacidade de sua tripulação de atuar dentro de uma estrutura operacional combinada e de responder às exigências de uma operação que envolve diferentes forças e procedimentos.

O primeiro desdobramento internacional do Humaitá também ganha relevância porque acontece justamente na Argentina, país que busca reconstruir sua própria capacidade submarina e que tem no Scorpène uma das principais alternativas consideradas para esse processo.

Argentina e o interesse pelo Scorpène

A presença do Humaitá ocorre enquanto Buenos Aires avança na busca por uma solução para recuperar sua capacidade submarina. A Argentina vem trabalhando na aquisição de três submarinos da classe Scorpène, desenvolvida pelo Naval Group, depois de anos sem uma força submarina operacional.

O interesse argentino pelo projeto francês não é recente. A classe Scorpène já havia sido avaliada por autoridades argentinas no contexto das discussões para reconstruir sua capacidade submarina, incluindo visitas ao Naval Group e ao complexo de Itaguaí, onde o Brasil construiu seus submarinos da Classe Riachuelo.

O processo ganhou novo impulso nos últimos anos e passou a envolver não apenas a aquisição das plataformas, mas também questões de financiamento, construção e participação industrial.

É nesse ponto que a experiência brasileira começa a adquirir importância para Buenos Aires. O Brasil já percorreu o caminho que a Argentina agora procura iniciar: selecionou o Scorpène como base de uma nova família de submarinos convencionais, construiu infraestrutura específica e acumulou experiência industrial na produção e manutenção dessas plataformas.

A presença do Humaitá na FRATERNO coloca essa discussão em um cenário particularmente interessante. Enquanto a Argentina avalia uma futura aquisição do Scorpène, sua Armada tem a oportunidade de operar em um exercício no qual um submarino brasileiro derivado desse projeto atua em condições reais de adestramento.

Itaguaí: a capacidade construída pelo Brasil

A relevância de Itaguaí para essa discussão é resultado direto de uma decisão estratégica brasileira.

O PROSUB foi estruturado a partir da parceria firmada entre Brasil e França e combinou a construção de quatro submarinos convencionais derivados do Scorpène com transferência de tecnologia, formação de pessoal e criação de uma infraestrutura industrial especializada. O programa deu origem ao Complexo Naval de Itaguaí e permitiu que o Brasil acumulasse conhecimento em processos de construção e manutenção de submarinos.

A construção dos submarinos da Classe Riachuelo transformou essa infraestrutura em uma capacidade efetiva. O Brasil deixou de depender exclusivamente de estaleiros estrangeiros para produzir submarinos convencionais e passou a contar com uma estrutura própria, mão de obra especializada e uma cadeia industrial associada ao programa.

O PROSUB também foi concebido dentro de uma perspectiva mais ampla. A experiência acumulada com os submarinos convencionais e a infraestrutura criada em Itaguaí fazem parte da trajetória brasileira para o desenvolvimento do submarino de propulsão nuclear, mantendo no País competências que ultrapassam a simples operação das plataformas.

É justamente essa capacidade instalada que torna Itaguaí relevante para além das necessidades imediatas da Marinha brasileira.

Três Scorpène argentinos em Itaguaí

Em junho de 2026, o ministro da Defesa José Múcio Monteiro afirmou que os submarinos Scorpène negociados pela Argentina com a França poderiam ser construídos no Brasil, no Complexo Naval de Itaguaí. A proposta em discussão envolve também financiamento e cooperação entre Brasil e França, enquanto a indústria argentina poderia participar da cadeia associada ao programa.

A possibilidade coloca Itaguaí no centro de uma eventual solução para a reconstrução da força submarina argentina. Em vez de simplesmente adquirir submarinos prontos no exterior, Buenos Aires poderia participar de um programa estruturado em torno de uma infraestrutura que já possui experiência na construção da família Scorpène.

Ainda não existe um contrato definitivo que permita afirmar que os três submarinos argentinos serão efetivamente construídos em Itaguaí. A negociação ainda depende de definições políticas, financeiras, industriais e contratuais. Mas o desenho apresentado em 2026 é relevante justamente porque combina capacidades complementares: a França fornece o projeto e a tecnologia do Scorpène; o Brasil oferece infraestrutura e experiência acumulada pelo PROSUB; e a Argentina busca recuperar sua capacidade submarina e inserir sua indústria nesse processo.

Para o Brasil, uma eventual encomenda argentina poderia ampliar a utilização de uma infraestrutura criada originalmente para atender às necessidades nacionais. Também poderia contribuir para preservar uma cadeia industrial de alta complexidade, manter profissionais especializados e ampliar a participação de fornecedores brasileiros.

Para a Argentina, além da recuperação de uma capacidade estratégica, haveria a possibilidade de reconstruir gradualmente conhecimentos e competências industriais ligados à operação e sustentação de submarinos.

A França, por sua vez, manteria o Scorpène dentro de uma solução que aproveita uma estrutura já familiar ao projeto e estabelecida no Atlântico Sul.

A eventual construção das três unidades, portanto, teria uma dimensão que ultrapassaria a simples venda de submarinos. Poderia estabelecer um novo modelo de cooperação industrial entre Brasil, França e Argentina, com Itaguaí funcionando como um dos principais pontos dessa arquitetura.

Os "Super Lynx" ampliam a capacidade da força

A presença dos dois AH-11B Super Lynx mostra que a renovação da Esquadra brasileira também passa pela aviação naval. Os helicópteros passaram por uma ampla modernização que incluiu a adoção dos novos motores CTS800-4N, com FADEC, além de novos aviônicos, cockpit digital e sistemas que ampliaram sua capacidade operacional.

O resultado foi uma evolução significativa dos Super Lynx brasileiros, aproximando seu padrão de desempenho e emprego das versões mais modernas da família, como o Wild Lynx. A modernização aumentou a disponibilidade e a capacidade das aeronaves para missões de esclarecimento, guerra de superfície e guerra antissubmarino.

Na FRATERNO XXXIX, um AH-11B opera embarcado na Tamandaré e outro na União. A combinação com as fragatas, o Humaitá e o Guillobel permite à Marinha explorar uma arquitetura integrada de guerra naval, particularmente importante nas atividades de guerra antissubmarino previstas no exercício.

Assim, a modernização dos Super Lynx complementa a chegada das novas fragatas e amplia a capacidade da Esquadra de transformar seus novos sensores, sistemas de combate e meios de superfície em uma capacidade operacional integrada.

Uma nova geração começa a operar como força

Existe uma diferença importante entre incorporar novos meios e conseguir empregá-los de maneira integrada.

A chegada de uma nova fragata aumenta o potencial militar da Marinha, mas esse potencial só se transforma em capacidade efetiva quando a tripulação está adestrada, os sistemas estão integrados, os procedimentos são conhecidos e o navio consegue operar dentro de uma força. O mesmo vale para o submarino, cuja capacidade não pode ser avaliada apenas pela plataforma, mas pelo conjunto formado pelo meio, sua tripulação, sua doutrina e sua capacidade de integração. É isso que a FRATERNO oferece.

A nova geração de meios brasileiros começa a deixar de ser apenas um conjunto de programas estratégicos para se transformar em capacidade operacional integrada. A Tamandaré passa por sua primeira experiência internacional; o Humaitá realiza seu primeiro desdobramento fora do País; os AH-11B ampliam o componente aéreo; a União mantém a continuidade da força de superfície; e o Guillobel acompanha o componente submarino.

Essa experiência é importante porque a Marinha brasileira precisará operar durante muitos anos com diferentes gerações de meios. A capacidade de integrar essas plataformas será tão importante quanto a modernização individual de cada uma delas.

O significado geopolítico de levar a nova Esquadra à Argentina

Existe ainda uma dimensão que ultrapassa o treinamento. Brasil e Argentina mantêm uma longa tradição de cooperação naval. A FRATERNO é parte dessa construção e funciona como mecanismo de interoperabilidade e confiança mútua entre as duas forças.

O exercício de 2026, entretanto, acontece em um momento particularmente interessante para a Marinha do Brasil. O País começa a apresentar internacionalmente uma nova geração de meios de superfície e submarinos justamente quando seu principal parceiro naval no Atlântico Sul procura recuperar capacidades próprias.

Isso dá à participação brasileira uma dimensão geopolítica que vai além da simples demonstração de equipamentos.

A Marinha está demonstrando que o Brasil possui capacidade para desdobrar uma força composta por uma fragata de nova geração, uma fragata de uma geração anterior, um submarino moderno, helicópteros embarcados e um meio especializado de apoio para operar fora de suas águas e em coordenação com outra força naval.

Não é uma demonstração de força contra a Argentina, mas uma demonstração de capacidade ao lado da Argentina. Essa diferença é fundamental para compreender o papel que o Brasil busca exercer no Atlântico Sul.

A cooperação militar permite ao País ampliar sua presença sem transformar essa presença em confrontação. Ao mesmo tempo, a capacidade de compartilhar treinamento, conhecimento e, eventualmente, infraestrutura industrial cria instrumentos de influência que vão além do emprego direto do Poder Naval.

O Atlântico Sul como espaço de influência

A importância dessa capacidade cresce quando considerada a posição brasileira. O Brasil possui a maior costa do Atlântico Sul, extensa área marítima sob sua jurisdição, infraestrutura energética offshore, rotas comerciais fundamentais e uma economia profundamente dependente do ambiente marítimo. Nesse contexto, a Marinha é um instrumento permanente de presença estratégica.

A renovação da Esquadra, portanto, não é apenas uma questão de substituir navios antigos por plataformas mais modernas. É também uma questão de garantir que o Brasil continue tendo capacidade para acompanhar, proteger e, quando necessário, defender seus interesses no mar, além de participar de iniciativas de segurança e cooperação com os demais países do entorno estratégico.

O desafio começa depois da incorporação

Há, entretanto, um aspecto que não pode ser ignorado. A entrada em serviço de novos meios aumenta a capacidade militar, mas também aumenta a necessidade de recursos para mantê-los disponíveis. Uma Marinha moderna precisa de horas de mar, munição para treinamento, peças de reposição, manutenção, atualização de sistemas, formação de pessoal e infraestrutura. O custo de uma plataforma sofisticada não termina no momento de sua incorporação. Esse será um dos grandes desafios da nova Esquadra.

As fragatas Tamandaré precisam ser incorporadas e sustentadas. O PROSUB precisa avançar para suas próximas etapas. O desenvolvimento do submarino de propulsão nuclear exige continuidade de longo prazo. Os AH-11B precisam permanecer disponíveis e atualizados, enquanto os meios de gerações anteriores ainda terão de ser mantidos durante o processo gradual de substituição.

A modernização, portanto, não termina quando o navio entra em serviço. A partir desse momento começa uma etapa igualmente importante, na qual treinamento, manutenção, logística e disponibilidade precisam acompanhar a sofisticação dos sistemas incorporados, e isso exige investimento contínuo acompanhado de previsibilidade orçamentária.

A FRATERNO contribui para parte desse processo ao permitir que os novos meios acumulem horas de operação, desenvolvam procedimentos e sejam submetidos a situações que se aproximam mais das condições de emprego dentro de uma força combinada. Mas a parte fundamental depende do orçamento destinado pelo governo federal a defesa de nossa soberania.

Uma dimensão que vai além do exercício

A FRATERNO XXXIX ocorre, portanto, em um momento particularmente significativo para a Marinha do Brasil. A Tamandaré e o Humaitá não representam apenas novos meios incorporados à Esquadra, mas resultados de programas que envolvem construção naval, transferência de tecnologia, formação de pessoal e desenvolvimento de capacidade industrial no País.

A estreia internacional do Humaitá também ocorre justamente quando a Argentina busca recuperar sua capacidade submarina e avalia a aquisição de três Scorpène, enquanto Brasil e França discutem uma possível estrutura de financiamento e construção das unidades em Itaguaí.

Ainda é cedo para saber se essa configuração será efetivamente concretizada. Mas, caso avance, ela poderá aproximar três dimensões que hoje aparecem separadas: a capacidade operacional demonstrada pelo Humaitá no mar, a infraestrutura construída pelo Brasil em Itaguaí e a necessidade argentina de reconstruir sua força submarina.

É justamente nessa convergência entre capacidade militar, indústria de defesa e cooperação regional que está o principal significado estratégico da FRATERNO XXXIX para o Brasil. O exercício continua sendo uma atividade de adestramento e interoperabilidade entre duas Marinhas, mas sua edição de 2026 ocorre no momento em que a renovação da Esquadra brasileira começa a produzir efeitos que ultrapassam o emprego individual de seus novos meios.

A Tamandaré estreia internacionalmente, o Humaitá realiza seu primeiro desdobramento fora do País e uma capacidade industrial construída ao longo de décadas passa a ser considerada também como possível instrumento de cooperação com a Argentina.

Para a Marinha do Brasil, é uma oportunidade de colocar sua nova geração de meios à prova em um ambiente internacional. Para o Brasil, é também uma demonstração de que os investimentos realizados em poder naval e capacidade industrial começam a oferecer instrumentos adicionais de presença, cooperação e autonomia estratégica no Atlântico Sul.



Por Angelo Nicolaci


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segunda-feira, 17 de agosto de 2026

RDS-Defesa avança para fase decisiva e abre caminho para ampliar a produção nacional de rádios militares

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O Projeto RDS-Defesa, voltado ao desenvolvimento de rádios definidos por software para emprego militar, entra na fase decisiva de sua trajetória. Desenvolvido no âmbito do Centro Tecnológico do Exército (CTEx), com participação das três Forças Armadas, o programa vem avançando na integração e avaliação dos equipamentos, aproximando uma tecnologia desenvolvida no País de sua transformação em capacidade operacional e industrial.

A iniciativa não é recente. O RDS-Defesa vem sendo desenvolvido há anos dentro do Sistema de Ciência, Tecnologia e Inovação do Exército e foi concebido com a participação das três Forças na definição de requisitos. Sua importância está diretamente relacionada à evolução das comunicações táticas, à interoperabilidade e à necessidade de reduzir dependências tecnológicas externas em uma área cada vez mais sensível para as operações militares.

O avanço atual, portanto, representa a maturação de um esforço de pesquisa e desenvolvimento que já produziu diferentes versões e protótipos e que agora busca consolidar os resultados obtidos ao longo dessa trajetória.

De projeto tecnológico a capacidade operacional

O conceito do RDS-Defesa parte de uma característica fundamental dos rádios definidos por software: parte relevante das funcionalidades do equipamento pode ser modificada por software, permitindo a utilização e evolução de diferentes formas de onda e padrões de comunicação sem que seja necessário substituir integralmente o hardware a cada nova necessidade.

Essa arquitetura amplia a flexibilidade de emprego e permite que o sistema acompanhe a evolução das necessidades operacionais.

O projeto contempla versões veicular, portátil e transportada por mochila, abrangendo comunicações nas faixas de HF, VHF e UHF. Em 2023, o CTEx recebeu 16 protótipos da versão veicular produzidos pela AEL Sistemas, que passaram por atividades de integração, portabilidade de formas de onda e testes funcionais, de desempenho e ambientais antes do encaminhamento para avaliação pelo Centro de Avaliações do Exército (CAEx).

A evolução desse processo é particularmente relevante porque a avaliação militar representa uma etapa diferente daquela de desenvolvimento tecnológico. É nesse momento que o equipamento deixa de ser analisado apenas como protótipo e passa a ser confrontado com os requisitos estabelecidos para seu emprego.

Interoperabilidade como objetivo central

Um dos aspectos mais relevantes do RDS-Defesa é justamente sua capacidade de atuar como elemento de interoperabilidade entre diferentes sistemas de comunicação das Forças Armadas.

A integração já foi demonstrada em atividades operacionais. Durante a Operação Atlas, equipes do CTEx, CAEx e IMBEL empregaram o RDS-Defesa em diferentes localidades e integraram o sistema a meios das três Forças.

Em Belém, por exemplo, o RDS foi instalado no NAM Atlântico e empregado em conjunto com sistemas como o STERNA da Marinha o Link-BR2, da Força Aérea, e o Gerenciador do Campo de Batalha do Exército. A integração foi apoiada pelo Multi Data Link Processor (MDLP), desenvolvido pelo Centro de Análises de Sistemas Navais (CASNAV). Esse tipo de integração mostra que o objetivo do programa vai além de desenvolver um rádio nacional.

A proposta é estabelecer uma infraestrutura de comunicações capaz de permitir que diferentes sistemas e plataformas compartilhem informações, contribuindo para o comando e controle em operações conjuntas.

O papel do software

A principal diferença de um rádio definido por software está justamente na possibilidade de alterar suas funcionalidades por meio de software.

No RDS-Defesa, o desenvolvimento de formas de onda é parte importante desse processo. Estudos e trabalhos técnicos vinculados ao programa destacam que o usuário pode selecionar diferentes formas de onda e incorporar novas funcionalidades ao equipamento, permitindo adaptar o sistema a diferentes cenários de emprego. Essa característica também abre espaço para uma evolução contínua.

Frente ao cenário operacional em que tecnologias de comunicação, guerra eletrônica e guerra cibernética avançam rapidamente, a capacidade de modificar e atualizar o comportamento do rádio pode ser tão importante quanto suas características físicas.

Isso reduz o risco de que uma plataforma eletrônica se torne tecnologicamente obsoleta simplesmente porque uma determinada forma de comunicação deixou de atender às necessidades operacionais.

Da pesquisa à indústria

Outro ponto importante do RDS-Defesa é sua relação com a Base Industrial de Defesa. O projeto foi estruturado desde suas fases iniciais com participação de instituições de ciência e tecnologia, universidades e empresas nacionais. A própria trajetória do programa registra a intenção de licenciar tecnologias desenvolvidas no âmbito das instituições militares para empresas nacionais, permitindo transformar os resultados da pesquisa em produtos disponíveis para as Forças Armadas e para o mercado de defesa. A participação da indústria também já ocorre em diferentes etapas do desenvolvimento.

A AEL Sistemas, por exemplo, produziu os protótipos veiculares entregues ao CTEx em 2023, enquanto a IMBEL aparece atualmente envolvida em atividades relacionadas ao desenvolvimento e aplicação de tecnologias de rádio definido por software. Documentos do Exército para 2026 incluem pesquisas da IMBEL voltadas à implementação de hardware e algoritmos aplicados às versões portátil e Manpack do RDS-Defesa.

Esse movimento é importante porque aproxima o projeto de uma etapa que será determinante para sua consolidação: a capacidade de produzir, manter e evoluir o sistema dentro do País.

Mais do que fabricar o equipamento

A produção nacional de um rádio militar não deve ser entendida apenas como a capacidade de montar o equipamento. O aspecto estratégico está no domínio sobre os elementos críticos que permitem sua evolução. Isso envolve hardware, software, formas de onda, algoritmos, integração, segurança das comunicações, manutenção e capacidade de atualização.

Quanto maior o domínio nacional sobre esses componentes, maior a liberdade de ação das Forças Armadas para adaptar o sistema às suas necessidades e manter sua evolução tecnológica sem depender integralmente de decisões tomadas por fornecedores estrangeiros.

Essa questão é particularmente relevante em sistemas de comunicações militares porque o ambiente eletromagnético também é um espaço de disputa.

Um rádio precisa não apenas transmitir e receber informações, mas operar em um ambiente no qual interferências, interceptação, guerra eletrônica e ameaças cibernéticas fazem parte do cenário operacional.

Por isso, o domínio tecnológico sobre o sistema de comunicação possui uma dimensão diretamente relacionada à segurança nacional.

A avaliação é apenas uma etapa

A conclusão do processo de Teste e Avaliação será um marco importante, mas não deve ser confundida com o encerramento do programa.

A avaliação militar precisa demonstrar que o equipamento atende aos requisitos estabelecidos. Depois disso, entram questões igualmente importantes: produção em escala, qualificação industrial, cadeia de fornecedores, manutenção, atualização de software, treinamento dos operadores e integração com os sistemas de comando e controle utilizados pelas Forças. É nessa transição que muitos projetos tecnológicos encontram seu maior desafio.

Desenvolver um protótipo funcional demonstra capacidade de engenharia. Produzir centenas ou milhares de equipamentos com qualidade e regularidade é uma questão industrial. Mantê-los atualizados durante décadas é, por sua vez, um desafio de sustentabilidade tecnológica. O RDS-Defesa terá de superar as três etapas.

Uma capacidade que precisa continuar evoluindo

A própria evolução do projeto demonstra que o desenvolvimento de um rádio militar moderno não termina com a homologação de uma determinada versão.

O Exército mantém pesquisas relacionadas a novas arquiteturas, algoritmos e formas de onda. Para 2026, documentos oficiais registram, por exemplo, atividades de pesquisa da IMBEL relacionadas à otimização do uso do espectro em redes de rádios definidos por software e ao desenvolvimento de algoritmos aplicados às versões Portátil e Manpack do RDS-Defesa.

Isso indica que a tecnologia está sendo tratada como uma capacidade em evolução, e não simplesmente como um produto fechado.

Essa abordagem é importante porque o ciclo tecnológico dos sistemas de comunicação é significativamente mais curto do que o ciclo de vida das plataformas militares nas quais eles são empregados.

Um rádio instalado hoje em uma viatura, navio ou aeronave poderá precisar receber novas funcionalidades muito antes de a plataforma ser retirada de serviço. O desafio de transformar tecnologia em escala

O próximo passo estratégico será transformar o conhecimento acumulado pelo projeto em capacidade industrial efetiva.

A possibilidade de licenciamento da tecnologia para a indústria nacional é particularmente importante nesse processo. Historicamente, o RDS-Defesa foi concebido com essa perspectiva: permitir que tecnologias desenvolvidas no ambiente de ciência e tecnologia militar chegassem à indústria brasileira, criando condições para a produção nacional e para a prestação de serviços associados à atualização e evolução dos equipamentos.

A participação da IMBEL nesse processo ganha importância justamente por sua posição dentro da estrutura da Base Industrial de Defesa.

Mais do que fornecer um equipamento às Forças Armadas, o objetivo estratégico é criar uma cadeia capaz de produzir, manter e aperfeiçoar a solução ao longo do tempo.

Um projeto estratégico para as comunicações militares brasileiras

O RDS-Defesa chega, portanto, a um momento particularmente importante de sua trajetória. Depois de anos de pesquisa, desenvolvimento, integração e testes, o projeto se aproxima da etapa em que seus resultados precisarão ser convertidos em capacidade operacional e industrial.

A participação conjunta do Exército, da Marinha e da Força Aérea amplia a relevância do programa porque permite trabalhar com uma arquitetura comum de comunicações e reforçar a interoperabilidade entre as Forças.

Ao mesmo tempo, a possibilidade de produção nacional reduz a distância entre desenvolvimento tecnológico e capacidade industrial, criando condições para que o País tenha maior controle sobre uma área sensível das operações militares.

O verdadeiro resultado estratégico do RDS-Defesa, contudo, será medido não apenas pela conclusão da avaliação ou pela entrada dos primeiros equipamentos em serviço.

Será determinado pela capacidade de transformar o conhecimento desenvolvido no País em uma cadeia permanente de produção, manutenção, atualização e evolução tecnológica.

No ambiente militar no qual informação e comando dependem cada vez mais da capacidade de operar no espectro eletromagnético, dominar os meios de comunicação deixou de ser apenas uma questão de equipar as tropas. É uma questão de preservar liberdade de ação.


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domingo, 16 de agosto de 2026

FREMM EVO: por que Portugal e Itália podem pagar valores tão diferentes por fragatas da mesma família?

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Diferenças de configuração, escopo contratual, pós-venda, transferência de tecnologia e maturidade logística mostram por que comparar apenas o preço nominal de uma fragata pode levar a conclusões equivocadas

A aquisição de três fragatas FREMM EVO pela Marinha Portuguesa abriu uma discussão que vai muito além do valor anunciado para o programa. O acordo firmado entre Portugal e Itália prevê um investimento de aproximadamente €3,9 bilhões, com as três embarcações construídas pela italiana Fincantieri e entregues entre 2029 e 2030. O entendimento foi formalizado em 20 de julho de 2026, no âmbito do instrumento europeu SAFE.

O número chamou atenção principalmente quando colocado ao lado do contrato italiano firmado em julho de 2024 para duas FREMM EVO, avaliado oficialmente em aproximadamente €1,5 bilhão. Na divisão aritmética mais simples, o programa português representaria cerca de €1,3 bilhão por navio, enquanto o italiano corresponde a aproximadamente €750 milhões por unidade. Essa diferença, porém, não permite concluir que Portugal esteja simplesmente pagando mais caro pela mesma fragata, os dois contratos não devem ser tratados como se fossem equivalentes.

A comparação precisa considerar o que cada acordo efetivamente entrega, em que momento foi assinado, quais são as condições de fornecimento e principalmente, quais estruturas de apoio e sustentação estão associadas à aquisição.

O que está sendo comparado?

O contrato italiano foi assinado pela OCCAR e pela Orizzonte Sistemi Navali, empresa formada pela Fincantieri e a Leonardo, para a construção de duas novas FREMM EVO destinadas à Marina Militare. As unidades têm entrega prevista para 2029 e 2030.

Já o acordo português prevê três FREMM EVO e inclui, segundo o Ministério da Defesa português, o pós-venda (sustentação), a transferência de tecnologia e as demais condições necessárias à exploração operacional dos navios durante um ciclo de vida não inferior a 30 anos. O programa também contempla cooperação com a indústria de defesa portuguesa e a revitalização do Arsenal do Alfeite, essa diferença é fundamental.

O valor divulgado para Portugal não deve ser interpretado simplesmente como o preço de três cascos equipados. O próprio Governo português apresenta o programa como uma aquisição de capacidade naval acompanhada de elementos destinados à operação e sustentação dos navios ao longo de décadas. Por isso, transformar os €3,9 bilhões em um simples "preço por fragata" pode distorcer a comparação.

Uma família de navios, mas não necessariamente o mesmo pacote

A FREMM EVO é a evolução da família FREMM desenvolvida para as necessidades das marinhas italiana e francesa. No caso italiano, as duas novas unidades representam uma evolução das capacidades já incorporadas à frota.

A diferença de contexto é relevante porque a Itália não está começando do zero. A Marina Militare informa que as duas FREMM EVO se juntarão às 10 fragatas FREMM da classe Bergamini atualmente em serviço. A OCCAR também registra que as dez unidades italianas da geração anterior foram entregues até 2025, enquanto as duas novas EVO representam a continuidade do programa.

Isso significa que a Marinha italiana já possui pessoal especializado, conhecimento operacional, processos de manutenção, cadeia logística, documentação, infraestrutura e experiência acumulada com a família FREMM. Já Portugal está frente a um cenário diferente.

A aquisição representa a entrada de uma nova família de fragatas na Marinha Portuguesa, o que exige não apenas preparar as tripulações, mas estabelecer uma estrutura nacional capaz de sustentar a nova plataforma. É justamente essa diferença que precisa ser considerada quando os valores dos dois programas são colocados lado a lado.

O contrato português vai além da construção

O acordo português estabelece um ciclo de vida de pelo menos 30 anos e prevê suporte, transferência de tecnologia e condições necessárias para a exploração operacional das fragatas. Também está prevista forte participação da indústria portuguesa e a revitalização do Arsenal do Alfeite.

Em agosto, o Ministério da Defesa português acrescentou uma informação relevante: a intenção é que a sustentação do ciclo de vida dos navios, sistemas e armamentos seja realizada integralmente em Portugal, com a revitalização do Arsenal do Alfeite como parte desse processo.

Segundo a pasta, apenas casos pontuais envolvendo tecnologias proprietárias de terceiros poderão exigir mecanismos internacionais de sustentação. O ministério afirmou ainda que a sustentação poderá representar mais de 85% do valor global de manutenção dos meios. Esse dado ajuda a compreender a dimensão do programa.

Portugal não está apenas comprando três navios construídos na Itália. Está tentando criar as condições para que esses navios sejam mantidos em território português durante sua vida operacional, e isso tem um custo.

Mas também representa uma tentativa portuguesa de transformar uma aquisição de defesa em capacidade industrial permanente.

A diferença entre comprar um navio e adquirir uma capacidade

Programas navais modernos exigem uma estrutura que vai muito além do estaleiro responsável pela construção. Depois que uma fragata entra em serviço, começam os desafios relacionados a manutenção preventiva e corretiva, disponibilidade de sobressalentes, atualização de softwares, modernização de sensores, sistemas de combate, armamentos e equipamentos eletrônicos, além da formação e retenção de pessoal especializado.

Existe ainda o problema da obsolescência. Um componente eletrônico instalado em um navio novo pode deixar de ser produzido antes do fim da vida útil da plataforma. Sem planejamento, a indisponibilidade de uma peça relativamente pequena pode comprometer um sistema inteiro, e em determinadas circunstâncias, limitar a disponibilidade operacional do navio. É por isso que programas navais maduros tratam o Apoio Logístico Integrado e a Gestão do Ciclo de Vida como parte da própria capacidade de combate.

A Itália possui uma vantagem evidente nesse aspecto: já opera uma frota de FREMM consolidada e mantém uma estrutura industrial diretamente associada ao projeto, enquanto Portugal terá de desenvolver essa estrutura simultaneamente à entrada em serviço das novas unidades.

A logística também é uma questão de soberania

A decisão portuguesa de associar a aquisição à revitalização do Arsenal do Alfeite é particularmente relevante. A intenção declarada pelo Governo é criar em Portugal as capacidades necessárias para a manutenção integrada da frota, reduzindo a dependência de deslocamentos para estaleiros estrangeiros e formando competências nacionais para sustentar os novos navios.

Esse aspecto merece atenção porque uma fragata pode ser construída em um país e ainda assim permanecer dependente de outro para sua manutenção. A soberania industrial, portanto, não termina no momento em que o navio deixa o estaleiro, ela está diretamente relacionada à capacidade de manter o meio disponível, realizar reparos, atualizar sistemas, produzir ou obter peças críticas e preservar o conhecimento necessário para intervir na plataforma.

O paralelo brasileiro com as Tamandaré

É nesse ponto que o Programa Fragatas Classe Tamandaré oferece um exemplo particularmente interessante, com Brasil adotando uma estratégia diferente da portuguesa.

Em vez de simplesmente adquirir navios estrangeiros já construídos, o Brasil estruturou o programa para construir quatro fragatas em território nacional, por meio da SPE Águas Azuis, com participação da indústria nacional e transferência de tecnologia.

A Marinha destaca que o programa tem como objetivo renovar a Esquadra com quatro navios de alta complexidade tecnológica construídos no Brasil, com a perspectiva do segundo lote já previsto pelo MoU assinado em abril.

A EMGEPRON informou que o contrato incorpora Apoio Logístico Integrado, incluindo treinamento, sobressalentes e equipamentos de base para o período inicial de dois anos, além de elementos relacionados à transferência de tecnologia e à gestão do ciclo de vida.

Isso demonstra que o Brasil também reconheceu, desde a estruturação do programa, que construir uma fragata é apenas uma etapa. A questão passa a ser como sustentar o navio depois da entrega. O desafio brasileiro é maior justamente porque existe uma ambição industrial

O caso brasileiro possui uma particularidade, a construção das Tamandaré não busca apenas renovar os meios de superfície da Marinha. O programa também está associado ao fortalecimento da indústria naval e da Base Industrial de Defesa.

A Marinha destaca a transferência de tecnologia de processos de construção e a participação da indústria nacional no programa. Isso cria uma oportunidade estratégica, mas também aumenta a responsabilidade brasileira, quanto maior a participação nacional, maior a expectativa de que o conhecimento adquirido possa ser transformado em capacidade permanente de projeto, construção, manutenção, modernização e suporte.

A primeira Fragata Tamandaré já foi incorporada à Marinha, enquanto a segunda esta em testes de mar (F201) "Jerônimo de Albuquerque", a terceira unidade, "Cunha Moreira" (F202), foi lançada em Itajaí e a quarta unidade, "Mariz e Barros" (F203), teve sua construção iniciada.

O programa, portanto, já entrou na fase que a discussão sobre logística deixa de ser uma preocupação futura e passa a ser parte da realidade operacional da Força Naval Brasileira.

O que a experiência das Tamandaré ensina

A própria produção acadêmica da Marinha sobre o programa dedica atenção específica à Gestão do Ciclo de Vida e ao Apoio Logístico Integrado.

Estudos publicados no âmbito da Marinha tratam da necessidade de estruturar processos de apoio logístico, gestão de ciclo de vida e sustentabilidade operacional para meios navais de alta complexidade. Isso é importante porque a vida de uma fragata não termina quando ela é entregue à Força, pelo contrário, é depois da incorporação que começam alguns dos custos e desafios mais persistentes: manutenção, disponibilidade de peças, qualificação de pessoal, atualização tecnológica, gerenciamento de obsolescência, modernizações e integração de novos sistemas.

A experiência brasileira também mostra que a construção nacional não elimina automaticamente a dependência externa. Uma plataforma pode ser construída no Brasil e continuar utilizando componentes, sistemas ou tecnologias cuja manutenção dependa de fornecedores estrangeiros. A verdadeira autonomia, portanto, precisa ser analisada sistema por sistema.

Itália, Portugal e Brasil: três modelos diferentes

A comparação entre os três países permite visualizar três situações distintas:

Itália - A Itália possui uma base industrial consolidada e uma frota FREMM já operacional. As duas FREMM EVO contratadas em 2024 representam a evolução de uma capacidade existente. A Marina Militare possui dez FREMM Bergamini em serviço, enquanto as duas EVO ampliarão essa família.

O país, portanto, já possui experiência operacional, infraestrutura, pessoal especializado e cadeia de apoio associada à classe.

Portugal - Portugal está incorporando uma nova capacidade. O programa de três FREMM EVO, avaliado em aproximadamente €3,9 bilhões, inclui sustentação, transferência de tecnologia e condições para a exploração operacional por pelo menos 30 anos. O país também pretende fortalecer sua indústria e revitalizar o Arsenal do Alfeite para assumir a sustentação dos navios.

O custo maior por unidade, portanto, não pode ser interpretado automaticamente como sobrepreço. É necessário saber exatamente quanto do valor corresponde às plataformas, quanto está associado à sustentação, à transferência de tecnologia, à infraestrutura e aos demais elementos do pacote.

Brasil - O Brasil escolheu um modelo baseado na construção nacional de quatro fragatas, com participação da indústria brasileira, transferência de tecnologia e estruturação de Apoio Logístico Integrado.

O desafio brasileiro é transformar o conhecimento adquirido durante a construção em uma capacidade permanente de sustentar e modernizar a classe ao longo de sua vida útil.

Comparar preço sem comparar escopo é um erro

A comparação entre as FREMM EVO portuguesas e italianas é importante justamente porque mostra como números aparentemente objetivos podem esconder realidades completamente diferentes.

Em termos puramente nominais, os €3,9 bilhões anunciados para três fragatas portuguesas equivalem a aproximadamente €1,3 bilhão por unidade. O contrato italiano de €1,5 bilhão para duas unidades corresponde a cerca de €750 milhões por navio. Mas esses números não representam necessariamente a mesma coisa.

Sem conhecer a composição detalhada dos dois pacotes, não é tecnicamente correto afirmar que Portugal está pagando quase o dobro pelo mesmo navio. Da mesma forma, também seria precipitado utilizar a explicação logística como justificativa automática para toda a diferença de preço. O caminho correto é comparar os contratos pelo conteúdo, e não apenas pelo valor final.

O verdadeiro teste começa depois do lançamento

Existe uma característica comum entre os programas português e brasileiro. Nos dois casos, a questão decisiva não será apenas entregar navios modernos, será conseguir mantê-los disponíveis.

Portugal terá de transformar a revitalização do Arsenal do Alfeite, a transferência de tecnologia e a participação industrial anunciadas pelo Governo em capacidades efetivas de manutenção e modernização.

O Brasil terá de fazer algo semelhante com a estrutura criada em torno das Tamandaré, garantindo que a construção nacional produza também conhecimento e capacidade de sustentação para as próximas décadas.

A Itália parte de uma posição diferente porque já possui uma cadeia industrial e operacional madura para a família FREMM. É justamente essa diferença que ajuda a explicar por que o preço de uma fragata não pode ser analisado isoladamente.

A fragata é apenas o começo

O debate sobre as FREMM EVO portuguesas deixa uma lição que também vale para o Brasil. Uma fragata moderna não é simplesmente um navio de guerra. É uma combinação de plataforma, sensores, armas, softwares, sistemas de combate, pessoal, infraestrutura, treinamento, cadeia logística, sobressalentes, manutenção e capacidade de atualização. O preço de aquisição é apenas uma parte dessa equação.

Para a Itália, a FREMM EVO representa a evolução de uma capacidade já estabelecida, enquanto para Portugal, representa a construção de uma nova capacidade operacional e logística. Já para o Brasil, a Classe Tamandaré representa simultaneamente a renovação da Esquadra e uma tentativa de ampliar a autonomia industrial e tecnológica nacional.

Em todos os casos, porém, existe uma mesma pergunta que só poderá ser respondida ao longo do tempo: quantos desses navios estarão efetivamente disponíveis para cumprir suas missões quando forem necessários?

É nesse ponto que a discussão deixa de ser sobre o preço de uma fragata e passa a tratar do verdadeiro custo do poder naval: a capacidade de construir, operar, sustentar, modernizar e manter uma plataforma de combate pronta durante décadas.


Por Angelo Nicolaci


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