A visita do presidente Lula à Avibras Aeroco, realizada nesta sexta-feira (24), representou um dos mais importantes gestos políticos em favor da Base Industrial de Defesa (BID) desde o início de seu terceiro mandato. Acompanhada pelo GBN Defense, a agenda marcou a visita presidencial a uma das empresas mais estratégicas do setor, justamente no momento em que a Avibras reinicia suas atividades após um longo período de crise. O evento evidenciou que o governo reconhece a importância da indústria de defesa para o desenvolvimento nacional. O desafio, contudo, continua sendo transformar esse reconhecimento em políticas permanentes e contratos capazes de garantir previsibilidade para o setor.
Ao percorrer as instalações da empresa, Lula conheceu as linhas de produção de componentes para mísseis e foguetes, a fábrica de propelentes, a integração de mísseis e a unidade de produção de veículos militares, capacidades que colocaram a empresa entre os principais ativos tecnológicos da indústria de defesa brasileira.
Em seu discurso, Lula fez uma defesa contundente da necessidade de fortalecer as capacidades de defesa nacionais. Ao afirmar que deseja "as Forças Armadas preparadas e treinadas do ponto de vista do poderio de armamento, do conhecimento científico e tecnológico", o presidente reconheceu um aspecto frequentemente defendido pelo setor: soberania não se constrói apenas com efetivos militares, mas também com capacidade industrial, domínio tecnológico e produção nacional de sistemas estratégicos.
Outro trecho chamou atenção pelo contexto internacional. Sem citar nomes, Lula criticou o cenário de crescente instabilidade global e afirmou que "existem loucos criando guerras sem motivo", em declaração interpretada como uma referência indireta ao presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, em meio ao agravamento das tensões internacionais. Ao mesmo tempo, o presidente reforçou que o Brasil precisa estar preparado para defender seus interesses em um ambiente internacional cada vez mais imprevisível.
Foi justamente nesse contexto que Lula fez uma das declarações mais relevantes da visita ao defender que o Brasil desenvolva e produza seus próprios sistemas de defesa. Segundo o presidente, o país precisa fabricar armas para garantir sua própria proteção, ao mesmo tempo, exportar esses produtos para que outras nações também possam exercer seu direito à legítima defesa. Ao definir esses equipamentos como "armas da paz", Lula procurou associar a indústria de defesa não à promoção de conflitos, mas à capacidade de dissuasão, à preservação da soberania e ao fortalecimento das relações internacionais por meio da cooperação industrial.
Essa visão dialoga com uma realidade frequentemente destacada pelo GBN Defense: uma Base Industrial de Defesa forte não representa apenas um instrumento militar, mas também uma política de desenvolvimento econômico. Empresas do setor concentram empregos altamente qualificados, impulsionam inovação, desenvolvem tecnologias de uso dual e ampliam a inserção internacional do país por meio das exportações. Em praticamente todas as grandes potências, a indústria de defesa é tratada como um vetor de política industrial e tecnológica, e não apenas como fornecedora de equipamentos para as Forças Armadas.
A presença simultânea do vice-presidente Geraldo Alckmin, dos ministros da Defesa, Desenvolvimento, Ciência, Tecnologia e inovação, Minas e Energia, dos comandantes das três Forças e dos principais órgãos de fomento reforçou que o governo atribui importância estratégica à recuperação da Avibras. O simbolismo da agenda foi inequívoco.
No entanto, a visita terminou sem o anúncio de novas encomendas para a empresa, sem novos contratos e sem a apresentação de um cronograma para futuras aquisições de seus sistemas pelas Forças Armadas. Para uma indústria que depende de planejamento de longo prazo, ciclos de desenvolvimento complexos e elevada intensidade tecnológica, esse continua sendo um ponto central.
Após a visita, durante coletiva concedida à imprensa, o vice-presidente Geraldo Alckmin respondeu a duas perguntas realizadas pelo editor do GBN Defense, Angelo Nicolaci. A primeira tratou sobre como o governo pretende garantir a previsibilidade orçamentária dos programas estratégicos brasileiros. O vice-presidente afirmou que já existe um compromisso de investimentos, citando aproximadamente R$ 30 bilhões destinados ao reequipamento das Forças Armadas, com uma previsão de liberação anual de cerca de R$ 5 bilhões para assegurar a continuidade dos programas, além de destacar a retomada das linhas de financiamento às exportações por meio do BNDES e do PROEX.
Na segunda pergunta, Nicolaci abordou a recente aquisição da AKAER pelo EDGE Group dos Emirados Árabes Unidos, questionando como o governo avalia a transferência de 100% do capital de uma empresa considerada estratégica para a Base Industrial de Defesa a um grupo estrangeiro, especialmente após o próprio governo defender durante o evento, a necessidade de preservar a indústria nacional e suas capacidades tecnológicas. Alckmin afirmou que o tema é de competência do Ministério da Defesa e disse que iria verificar a questão. Em seguida, concentrou sua resposta no processo de recuperação da Avibras, defendendo a participação da iniciativa privada e do capital nacional na indústria de defesa, sem responder diretamente sobre a venda da AKAER.
O discurso sobre previsibilidade orçamentária vai ao encontro de uma demanda histórica da Base Industrial de Defesa. Entretanto, a realidade continua impondo desafios importantes. Mesmo com os recursos previstos no Programa de Aceleração do Crescimento (PAC), o orçamento do Ministério da Defesa voltou a sofrer contingenciamentos em 2026, afetando programas estratégicos e alimentando a percepção de insegurança quanto à continuidade dos investimentos. Para empresas que desenvolvem projetos com ciclos de décadas, previsibilidade não significa apenas anunciar valores, mas garantir que os recursos cheguem de forma estável e protegida das sucessivas restrições fiscais.
Da mesma forma, a ausência de uma posição clara sobre a aquisição da AKAER evidencia outro debate relevante para o futuro da Base Industrial de Defesa: como conciliar a atração de investimentos estrangeiros com a preservação de competências tecnológicas consideradas estratégicas para o Brasil. Trata-se de uma discussão que ultrapassa uma operação empresarial específica e envolve a definição de uma política de Estado para setores sensíveis da indústria de defesa.
A visita à Avibras demonstrou que o governo compreende a importância estratégica da Base Industrial de Defesa e reconhece seu papel para a soberania nacional, a inovação e o desenvolvimento econômico. O desafio agora é transformar esse discurso em política de Estado. A indústria brasileira de defesa já ouviu ao longo de décadas sucessivas declarações de apoio. O que o setor necessita, mais do que novos discursos, são contratos, previsibilidade orçamentária e decisões capazes de assegurar a continuidade dos programas estratégicos e preservar competências tecnológicas que o Brasil levou décadas para construir.
por Angelo Nicolaci
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