quarta-feira, 15 de julho de 2026

Gripen estreia em exercício multinacional no exterior e valida capacidade operacional da FAB em ambiente de coalizão

A participação do caça F-39E Gripen no Exercício Multidomínio SALITRE 2026 representa um dos marcos mais importantes desde a entrada da aeronave em operação na Força Aérea Brasileira (FAB). Pela primeira vez, o mais moderno vetor de combate brasileiro foi empregado em um exercício multinacional fora do território nacional, permitindo à FAB validar, em um ambiente de elevada complexidade operacional, doutrinas, procedimentos e capacidades que dificilmente poderiam ser plenamente avaliados apenas em treinamentos domésticos.

Realizado entre 29 de junho e 11 de julho, na Base Aérea de Cerro Moreno, em Antofagasta, no Chile, o SALITRE 2026 reuniu aproximadamente 1.500 militares e cerca de 60 aeronaves do Brasil, Chile, Argentina, Colômbia, Estados Unidos e Paraguai, simulando operações aéreas de alta intensidade sob um comando combinado.

Durante o exercício, seis F-39E Gripen brasileiros executaram missões de defesa aérea, escolta, patrulha aérea de combate (Combat Air Patrol – CAP) e varredura aérea (Sweep), atuando tanto em cenários de combate além do alcance visual (BVR – Beyond Visual Range) quanto em combates aproximados (WVR – Within Visual Range).

Nessas operações, a aeronave explorou um de seus principais diferenciais: a integração entre sensores, sistemas de missão e guerra eletrônica. O radar AESA Raven ES-05, o sensor infravermelho passivo IRST Skyward-G e a suíte de guerra eletrônica permitiram aos pilotos construir uma consciência situacional significativamente superior à obtida por caças de gerações anteriores.

Segundo o Tenente-Coronel Vítor Bombonato, comandante do 1º Grupo de Defesa Aérea (1º GDA), a capacidade de fusão de dados do Gripen permite apresentar ao piloto um panorama tático simplificado, reduzindo sua carga de trabalho e acelerando o processo decisório durante o combate. Além disso, o compartilhamento dessas informações entre as aeronaves da formação amplia a consciência situacional de toda a esquadrilha, aumentando sua efetividade em missões de superioridade aérea.

Antes do deslocamento ao Chile, os pilotos brasileiros passaram por uma preparação intensiva que incluiu exercícios nacionais e o emprego dos modernos simuladores do Gripen em Anápolis (GO), onde foi reproduzido digitalmente todo o cenário operacional de Antofagasta. Segundo a FAB, essa preparação fez com que as tripulações chegassem ao teatro de operações praticamente familiarizadas com a geografia, os procedimentos e as características da área de emprego.

Outro aspecto destacado durante o exercício foi a autonomia operacional do F-39E. De acordo com o comandante do 1º GDA, em determinadas condições o Gripen possui alcance suficiente para realizar o deslocamento entre Anápolis e Antofagasta sem necessidade de reabastecimento em voo, evidenciando uma importante capacidade estratégica para operações de longa distância.

Ao longo do SALITRE 2026, os seis Gripen brasileiros realizaram mais de 50 surtidas e acumularam mais de 100 horas de voo, considerando inclusive os voos de traslado entre Brasil e Chile, mantendo elevados índices de disponibilidade operacional, um indicador que demonstra tanto a maturidade do sistema quanto a eficiência da estrutura logística desenvolvida pela FAB em conjunto com a Saab.

Para Peter Dölling, diretor-geral da Saab Brasil, a estreia internacional do Gripen representa mais um passo na consolidação do Programa Gripen Brasileiro, reforçando a interoperabilidade com forças aéreas parceiras e evidenciando os resultados da transferência de tecnologia e do desenvolvimento conjunto conduzido entre Brasil e Suécia.

Análise do GBN Defense

A estreia internacional do F-39E Gripen durante o SALITRE 2026 vai muito além da participação em um exercício multinacional. Ela representa a demonstração prática de que a Força Aérea Brasileira passou a operar um dos mais modernos sistemas de combate aéreo do Ocidente, inserindo-se em um patamar tecnológico que poucos países do continente alcançaram.

Mais do que um novo caça, o Gripen E introduz uma nova forma de combater. Sua arquitetura aberta, elevada capacidade de processamento, fusão de sensores, radar AESA, sistema IRST, guerra eletrônica integrada e capacidade de compartilhamento de dados em tempo real colocam a aeronave entre os vetores de combate mais avançados atualmente em operação. Sob diversos aspectos tecnológicos, o F-39E opera no mesmo patamar dos mais modernos caças ocidentais empregados por forças aéreas como a dos Estados Unidos no que se refere à consciência situacional, integração de sensores, guerra em rede e apoio à decisão do piloto, características que definem o combate aéreo contemporâneo.

Essa superioridade tecnológica ficou particularmente evidente no SALITRE. Enquanto grande parte das aeronaves participantes pertence a projetos concebidos durante as décadas de 1970 e 1980, posteriormente modernizados, o Gripen foi desenvolvido desde sua concepção para enfrentar os desafios do combate aéreo do século XXI. Em um cenário no qual detectar primeiro, compartilhar informações instantaneamente e coordenar ações em rede tornou-se mais importante do que simplesmente voar mais rápido ou transportar mais armamentos, o caça da FAB demonstrou uma capacidade operacional que o coloca entre os vetores mais sofisticados presentes no exercício.

O momento também coincide com uma profunda transformação da aviação de caça na América Latina. Após décadas operando aeronaves adquiridas durante a Guerra Fria, diversos países da região iniciaram ou estudam programas de renovação de suas frotas. A necessidade de substituir aeronaves que se aproximam do limite de sua vida útil impulsiona investimentos em plataformas de nova geração capazes de atender às exigências dos conflitos modernos.

Nesse contexto, o Gripen emerge como um dos principais candidatos para equipar forças aéreas latino-americanas nas próximas décadas. A recente escolha do Gripen E/F pela Colômbia representa uma vitória estratégica para a Saab e fortalece significativamente a presença da aeronave na região. Ao mesmo tempo, outros países acompanham atentamente a evolução do programa brasileiro enquanto avaliam futuras substituições de suas frotas de combate, fazendo com que cada demonstração operacional do Gripen tenha também importante impacto sobre o mercado regional de defesa.

Sob essa perspectiva, a participação brasileira no SALITRE extrapola o aspecto estritamente militar. Além de validar doutrinas, testar a interoperabilidade e consolidar a maturidade operacional da FAB, o exercício transforma o Gripen em uma vitrine internacional de suas capacidades, permitindo que decisores militares da região observem seu desempenho em um ambiente operacional realista e multinacional.

Para a Força Aérea Brasileira, entretanto, o principal resultado é estratégico. O SALITRE confirma que o Programa Gripen entrou definitivamente em sua fase de plena capacidade operacional. Após anos dedicados à absorção de tecnologia, formação de pilotos e técnicos, nacionalização de conhecimentos e estruturação da logística de apoio, a FAB demonstra estar preparada para empregar seu principal vetor de combate em operações combinadas de elevada complexidade.

Mais do que incorporar uma nova aeronave, o Brasil passou a operar um sistema de combate concebido para a guerra em rede, elevando significativamente sua capacidade de dissuasão e posicionando a Força Aérea Brasileira entre as forças aéreas tecnologicamente mais avançadas da América Latina, em um momento em que a superioridade da informação, a integração de sensores e a interoperabilidade tornam-se fatores decisivos para o sucesso das operações aéreas modernas.


Por Angelo Nicolaci


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Com SAAB

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