Quando se fala em exercícios navais internacionais, a imagem que normalmente vem à mente é a de grandes esquadras navegando lado a lado, porta-aviões lançando aeronaves, submarinos em operação e mísseis cruzando o céu durante demonstrações de poder militar. No entanto, a transformação dos conflitos contemporâneos vem mostrando que o verdadeiro diferencial de uma coalizão não está apenas na quantidade de navios ou na sofisticação de seus armamentos, mas na capacidade de diferentes marinhas operarem como uma única força diante de um cenário de ameaças cada vez mais complexo.
Essa foi a principal mensagem deixada pela "Operation Southern Readiness 26-2", realizada entre os dias 20 e 23 de julho na cidade de Kochi no sul da Índia. Mais do que um exercício convencional, a iniciativa evidenciou uma mudança silenciosa, porém profunda na forma como as principais marinhas do mundo vêm construindo sua capacidade de atuação conjunta.
Organizada pela Combined Task Force 154 (CTF-154), atualmente sob comando da Marinha Indiana, em parceria com a Combined Maritime Forces (CMF), a atividade reuniu 254 militares e especialistas de 27 países, além de representantes de quatro organizações internacionais. O objetivo, contudo, foi muito além da troca de experiências entre forças navais. O encontro buscou fortalecer aquilo que hoje se tornou um dos pilares da segurança marítima internacional: a interoperabilidade.
O conceito pode parecer abstrato, mas sua importância ficou evidente nos últimos anos. Em operações de combate à pirataria, ações de embargo marítimo, missões humanitárias ou crises internacionais, navios de diferentes países precisam compartilhar informações, utilizar procedimentos semelhantes e responder de forma coordenada, muitas vezes sem jamais terem operado juntos anteriormente. A interoperabilidade reduz esse tempo de adaptação e permite que forças de diferentes nacionalidades atuem de maneira integrada desde o primeiro momento. É justamente nesse aspecto que exercícios como a Southern Readiness ganham relevância estratégica.
Ao contrário de grandes exercícios voltados para demonstração de poder naval, a iniciativa concentrou seus esforços na formação de pessoal e na padronização de procedimentos. Durante quatro dias, os participantes passaram por treinamentos de Visita, Abordagem, Busca e Apreensão (VBSS), técnicas de sobrevivência no mar, consciência situacional marítima (Maritime Domain Awareness – MDA) e exercícios de artilharia naval, utilizando algumas das mais modernas instalações de treinamento da Marinha Indiana, entre elas a Base Aérea Naval INS Garuda e a Escola de Artilharia Naval INS Dronacharya.
Um dos pontos de maior interesse ocorreu justamente na INS Garuda, onde militares participaram de simulações de emergência envolvendo pousos forçados sobre o mar, abandono de aeronaves e procedimentos de escape. O centro de treinamento foi criado após as lições aprendidas com um acidente envolvendo um helicóptero Sea King em 2003, e hoje figura entre as poucas instalações desse tipo existentes fora dos Estados Unidos e do Reino Unido.
Embora essas atividades possam parecer distantes dos grandes cenários de combate, elas refletem uma mudança importante na natureza das operações navais contemporâneas. As marinhas deixaram de atuar exclusivamente em conflitos convencionais para assumir um papel cada vez mais amplo na proteção das rotas comerciais, no combate ao tráfico internacional, à pirataria, ao terrorismo marítimo e às chamadas ameaças híbridas, que frequentemente combinam ações militares, criminosas e assimétricas.
Nesse ambiente, a capacidade de compartilhar informações em tempo real passou a ser tão importante quanto possuir navios modernos ou sistemas de armas avançados. Foi justamente essa preocupação que norteou outro dos principais eixos do exercício: a Maritime Domain Awareness. Mais do que monitorar embarcações, esse conceito reúne informações provenientes de radares, satélites, aeronaves de patrulha, sensores costeiros e centros de comando para construir uma visão integrada do ambiente marítimo. No teatro de operações oceânico onde milhares de embarcações cruzam diariamente importantes rotas comerciais, identificar rapidamente comportamentos suspeitos tornou-se um fator decisivo para prevenir atividades ilícitas e responder a crises antes que elas se agravem.
A realização da Southern Readiness também evidencia o momento vivido pela própria Índia. Nos últimos anos, Nova Délhi deixou de ser apenas uma potência regional para assumir uma postura cada vez mais ativa na segurança do Oceano Índico, ampliando sua presença naval, fortalecendo acordos de cooperação e consolidando-se como um importante fornecedor de estabilidade em uma região estratégica para o comércio global.
Não por acaso, a Marinha Indiana ocupa atualmente o comando da Combined Task Force 154 (CFT-154), uma das forças-tarefa da Combined Maritime Forces, coalizão multinacional sediada no Bahrein que reúne mais de quarenta países dedicados à proteção das linhas marítimas de comunicação, o combate à pirataria, ao tráfico de ilícitos e às demais ameaças que afetam a segurança marítima internacional.
Assumir a liderança dessa força representa muito mais do que um reconhecimento da capacidade operacional indiana. Significa consolidar Nova Délhi como um dos principais atores na arquitetura de segurança do Indo-Pacífico, região que concentra alguns dos corredores marítimos mais importantes do mundo e onde se projetam, de forma cada vez mais intensa, os interesses estratégicos de potências como Estados Unidos, China, Japão, França e Reino Unido.
Talvez o aspecto mais interessante da Southern Readiness seja justamente aquilo que não aparece nas imagens do exercício. Não houve lançamentos de mísseis, demonstrações de grandes formações navais ou cenários de guerra de alta intensidade. Em vez disso, o foco esteve na construção de confiança, na padronização de procedimentos e na criação de uma linguagem operacional comum entre países com doutrinas, equipamentos e níveis tecnológicos distintos.
Essa pode parecer uma mudança discreta, mas representa uma das maiores transformações da segurança marítima nas últimas décadas. O poder naval continuará sendo medido pelo número de navios e pela qualidade dos sistemas embarcados, mas sua efetividade dependerá, cada vez mais, da capacidade de operar em rede, compartilhar informações e integrar diferentes marinhas em torno de objetivos comuns.
No atual ambiente estratégico, marcado pelo crescimento das ameaças híbridas, pela expansão do emprego de sistemas não tripulados e pela crescente disputa por influência nos oceanos, a interoperabilidade deixou de ser um diferencial. Tornou-se um requisito essencial para qualquer força naval que pretenda atuar em um cenário internacional cada vez mais complexo.
A Operation Southern Readiness 26-2 demonstra exatamente isso. Enquanto o mundo costuma voltar seus olhos para grandes exercícios de demonstração de força, a Índia investe na construção de algo menos visível, porém muito mais duradouro: uma rede internacional de cooperação capaz de ampliar a segurança marítima e fortalecer a capacidade de resposta coletiva diante dos desafios que moldarão os oceanos nas próximas décadas.
Por Angelo Nicolaci
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