A Erosão da Dissuasão Convencional e a Ascensão da Guerra Híbrida
O ambiente de segurança global em meados da década de 2020 testemunhou uma transformação radical na natureza dos conflitos armados, marcada pela obsolescência acelerada dos modelos tradicionais de dissuasão e pela ascensão de ameaças híbridas que operam nos interstícios da legalidade e da guerra declarada.
Este relatório propõe-se a dissecar as falhas operacionais e estratégicas observadas nas campanhas das Forças de Defesa de Israel (FDI) entre outubro de 2023 e fevereiro de 2026. A análise fundamenta-se na divulgação de avaliações internas críticas sobre a "Operação Carruagens de Gideão" (Operation Gideon’s Chariots), bem como na emergente doutrina dos "Operadores Não Atribuíveis", para oferecer um roteiro estratégico vital para o Brasil.
A premissa central deste documento é que o Brasil, embora geograficamente distante do Levante, enfrenta uma convergência de ameaças táticas e estratégicas que espelham os desafios israelenses. A metamorfose das facções criminosas brasileiras em entidades quase-insurgentes — exemplificada pelo fenômeno do "Novo Cangaço" e pelo domínio territorial armado — exige que o Estado brasileiro transite de uma mentalidade de segurança pública reativa para uma postura de Defesa Nacional baseada na "Dissuasão Integrada".
A falha da "Concepção" (Konseptzia) israelense, que priorizou a superioridade tecnológica e a contenção econômica em detrimento da vigilância humana e da intenção estratégica, serve como um aviso severo para Brasília. A análise a seguir não apenas cataloga erros, mas busca compreender a etiologia do fracasso militar em ambientes complexos e urbanizados, transpondo essas lições para a realidade da Amazônia, do Atlântico Sul e das metrópoles brasileiras.
Parte I: Anatomia do Fracasso – O Paradigma Operacional Israelense (2023–2026)
A divulgação, em fevereiro de 2026, de documentos internos das FDI relativos à "Operação Carruagens de Gideão" representa um marco nos estudos militares contemporâneos. A admissão de falhas sistêmicas por uma das forças armadas mais tecnologicamente avançadas do mundo desmantela mitos de invencibilidade e expõe as limitações do poder de fogo cinético quando desprovido de clareza política e estratégica.
1.1 A Desconstrução da "Operação Carruagens de Gideão"
No início de 2026, o estamento de segurança israelense foi forçado a confrontar a realidade de que suas prolongadas manobras terrestres na Faixa de Gaza não haviam atingido os objetivos centrais da guerra. A "Operação Carruagens de Gideão" (dividida em fases A e B) foi caracterizada em relatórios internos, vazados pelo Ynet, como "desajeitada" e estrategicamente confusa. A análise detalhada desses relatórios revela uma série de patologias operacionais que transcenderam o atrito tático normal, indicando uma crise na doutrina militar.
1.1.1 A Dissonância dos Objetivos Estratégicos: Dissuasão versus Decisão
O pecado original da operação residiu na ambiguidade de seus objetivos. Enquanto a retórica política exigia a "destruição total" das capacidades do Hamas, as ordens operacionais refletiam uma postura de "dissuasão" visando facilitar a troca de reféns. Esta contradição provou-se fatal. A liderança do Hamas, compreendendo que a agressividade israelense possuía um teto político determinado pela necessidade de um acordo de reféns, adaptou sua estratégia para sobreviver e desgastar a vontade política do adversário, em vez de buscar uma vitória militar direta.
A doutrina militar clássica ensina que a dissuasão é um conceito psicológico que depende do cálculo racional do inimigo. No entanto, ao tentar aplicar a dissuasão simultaneamente a uma ofensiva de "mudança de regime", Israel criou um vácuo estratégico. O relatório interno concluiu que "Israel não visava derrotar decisivamente o Hamas, mas sim dissuadir o grupo terrorista na esperança de facilitar uma troca de reféns — uma estratégia que o Hamas supostamente compreendeu". Isso resultou em operações militares que paravam antes de atingir centros de gravidade críticos, permitindo ao inimigo reagrupar-se e manter a coerência de comando e controle.
1.1.2 A Armadilha Logística e Humanitária
Uma das revelações mais contundentes dos relatórios de 2026 foi a gestão "desajeitada" da ajuda humanitária. A incapacidade das FDI de estabelecer um mecanismo de distribuição independente ou seguro permitiu que o Hamas preenchesse o vácuo logístico. Ao controlar a distribuição de alimentos e suprimentos, o Hamas manteve a governança administrativa sobre a população civil, mesmo sob fogo intenso.
Este erro teve implicações duplas. Primeiro, na legitimidade interna, o Hamas continuou a ser visto como o provedor de recursos, minando os esforços israelenses de isolar a população do grupo militante. Segundo, na guerra narrativa, a gestão falha permitiu ao Hamas lançar uma campanha de "fome falsa, mas eficaz", que danificou severamente a credibilidade internacional de Israel e restringiu sua margem de manobra diplomática. A incapacidade de gerir a logística civil em zona de combate transformou-se em uma derrota estratégica no domínio da informação.
1.1.3 Redundância de Manobra e Previsibilidade
Os documentos internos criticaram severamente o ritmo e a natureza das manobras terrestres. As forças das FDI foram relatadas operando repetidamente em áreas previamente "limpas", movendo-se a um ritmo lento que permitia ao adversário prever vetores de avanço e preparar emboscadas. A falta de dinamismo e a relutância em manter o território conquistado forçaram as tropas a reconquistar o mesmo terreno múltiplas vezes — em linguagem bem clara, “enxugando gelo” — um processo que exauriu a força de reservistas e produziu retornos marginais decrescentes em termos de segurança.
A previsibilidade operacional violou um dos princípios fundamentais da guerra: a surpresa. Ao aderir a padrões de manobra conservadores para minimizar baixas próprias, as FDI cederam a iniciativa tática a um inimigo que operava de forma descentralizada e assimétrica.
1.1.4 O Dilema Subterrâneo: Improvisação versus Doutrina
Talvez a falha tática mais alarmante tenha sido a abordagem ao combate subterrâneo. Apesar de décadas de conhecimento sobre a ameaça dos túneis ("o metrô de Gaza"), o relatório de 2026 indicou que as forças ainda estavam sendo forçadas a "improvisar" táticas de enfrentamento dos túneis durante o combate ativo. A ausência de uma solução industrializada e padronizada para a guerra subterrânea significou que cada unidade teve que improvisar suas próprias soluções, resultando em ineficiências operacionais, avanço lento e baixas desnecessárias. Este ponto é crucial: a tecnologia de detecção de túneis (a barreira subterrânea) falhou em prevenir o uso ofensivo da rede interna de túneis para manobra e emboscada. O foco na "defesa de fronteira" negligenciou a necessidade de uma doutrina ofensiva para o ambiente subterrâneo profundo.
1.2 O Colapso da "Concepção" de Inteligência (Konseptzia)
As falhas de 2026 não podem ser dissociadas do colapso de inteligência de 7 de outubro de 2023. Estudos comparativos entre a Guerra do Yom Kippur de 1973 e o conflito de 2023–2026 identificam uma patologia recorrente: a dominância de uma estrutura analítica única, ou "Concepção" (Konseptzia), que cega a liderança para vetores de ameaça alternativos.
1.2.1 A Cegueira Cognitiva e a Dependência Tecnológica
Nos anos que antecederam o conflito, os sistemas de aviso de inteligência (indications and warnings, IW) de Israel foram marginalizados em favor de avaliações "convencionais" que priorizavam sinais tecnológicos sobre a intenção humana e ideológica. A "Concepção" sustentava que o Hamas estava dissuadido e focado na governança econômica, uma crença reforçada pela concessão de licenças de trabalho e fluxo de ajuda financeira.
Esta dependência de indicadores econômicos e tecnológicos criou uma mentalidade semelhante à dos franceses em relação à Linha Maginot. A barreira tecnológica na fronteira de Gaza induziu uma falsa sensação de segurança, levando à redução da presença física de tropas e à negligência da inteligência humana (HUMINT) e de fontes abertas (OSINT) que indicavam preparativos para um ataque massivo. O erro não foi falta de dados, mas a incapacidade de interpretar os dados fora do quadro de referência estabelecido.
1.2.2 A Falha na Disseminação e Ação
A análise pós-conflito sugere que, se os oficiais israelenses tivessem analisado, disseminado e agido com base nos avisos que já possuíam, o desastre poderia ter sido mitigado. A estrutura hierárquica rígida e a compartimentação da inteligência impediram que os "sinais fracos" detectados por analistas de nível inferior chegassem aos tomadores de decisão com a urgência necessária. A disciplina de IW israelense, projetada para alertar sobre outliers e mudanças súbitas, foi suplantada por uma análise preditiva baseada em tendências passadas, que falhou catastroficamente diante de uma ruptura paradigmática.
1.3 Os Reféns e a Paralisia Estratégica
A presença de um grande número de reféns introduziu uma variável não linear que a doutrina militar convencional israelense teve grande dificuldade para processar. O inimigo utilizou os reféns não apenas como escudos humanos táticos, mas como alavancas estratégicas de "guerra psicológica". Isso forçou as FDI a um ritmo operacional de "para-e-anda", exemplificado pela interrupção da "Operação Carruagens de Gideão B" em meio a negociações de cessar-fogo no final de 2025.
A incapacidade de separar a missão de recuperação de reféns da missão de destruição do regime resultou em uma paralisia decisória. As pausas operacionais permitiram ao Hamas reabastecer e reorganizar suas defesas, anulando o ímpeto da ofensiva israelense. A lição crítica aqui é que, em guerras híbridas modernas, a manipulação de considerações humanitárias e civis é uma arma cinética tão potente quanto mísseis antitanque.
Parte II: A Doutrina dos Operadores Não Atribuíveis na Zona Cinza
Enquanto Israel lutava com as restrições da atribuição convencional e do direito internacional, uma evolução paralela na guerra foi codificada e analisada em detalhes no início de 2026: a doutrina dos Operadores Não Atribuíveis (Non-Attributable Operators). Conforme detalhado em análises geopolíticas do GBN News, este conceito representa o futuro da arte de governar e guerrear em uma era onde a guerra declarada é politicamente insustentável e economicamente ruinosa.
2.1 Definindo o Ativo Não Atribuível
O conceito de operadores não atribuíveis refere-se a uma classe altamente sensível e estratégica de ativos que "oficialmente não existem". Esses indivíduos, tipicamente oriundos de forças especiais ou comunidades de inteligência, possuem treinamento avançado em operações psicológicas, guerra narrativa, infiltração, contra-inteligência, sabotagem e uso preciso da força.
O valor estratégico central desses operadores reside na sua "não-existência". Eles não aparecem em inventários públicos, não recebem medalhas oficiais e não podem ser legalmente atribuídos ao Estado que os treina ou emprega. Isso permite que os Estados operem na Zona Cinzenta (Grey Zone), o espaço operacional entre a paz formal e a guerra declarada, onde a atribuição e a responsabilidade são deliberadamente obscurecidas.
2.2 A Lógica Estratégica: Negação Plausível e Guerra Narrativa
A utilidade primária desses ativos é a criação de Negação Plausível (Plausible Deniability). Eles servem como instrumentos de "ambiguidade estratégica", permitindo que um Estado influencie cenários, molde percepções e crie "fatos consumados" sem cruzar linhas vermelhas explícitas que levariam a uma escalada militar formal ou sanções internacionais severas.
2.2.1 Manobrabilidade Estratégica
Diferente das forças regulares, que existem para ocupar território ou travar batalhas convencionais, os operadores não atribuíveis operam na interseção da política, informação, inteligência e coerção limitada. Sua função é manter pressão constante sobre os adversários, testar defesas, apoiar aliados informais e romper cadeias críticas de suprimento, tudo isso sem a necessidade de mobilização aberta ou declarações de conflito.
2.2.2 Guerra Narrativa
No século XXI, a vitória física é irrelevante sem a vitória cognitiva. Os operadores não atribuíveis são centrais para a "guerra narrativa", onde o controle da percepção pública e da legitimidade é decisivo. Eles trabalham para influenciar o discurso, proteger a imagem internacional do Estado patrocinador e perturbar as narrativas dos adversários, utilizando desinformação e operações psicológicas para semear discórdia e confusão nas fileiras inimigas.
2.3 Tipologias de Intervenção e Agenciamento
A análise de 2026 estabelece uma taxonomia clara para esses agentes, dividindo-os em três categorias fundamentais de acordo com sua função e nível de negação.
Primeiramente, os Operadores Estatais Diretos são indivíduos formados por estruturas militares ou de inteligência que operam sob cobertura profunda (Sheep dipped). Embora ofereçam um alto controle político e capacidade para missões de extrema precisão, seu nível de negação é considerado médio, pois a exposição traz riscos de crise diplomática direta.
Em segundo lugar, existem os Intermediários Paraestatais, que são estruturas com vínculos funcionais ao Estado, mas que mantêm separação institucional, como empresas militares privadas (PMCs) ou contratados. A utilidade estratégica destes reside em fornecer uma "almofada" política, sendo ideais para logística, treinamento de proxies e segurança de instalações. O nível de negação aqui é alto, permitindo ao Estado alegar falta de controle direto.
Por fim, a terceira categoria abrange os Operadores de Países Terceiros, que envolve o recurso a indivíduos ou células de outras nacionalidades — por exemplo, usar nacionais colombianos para uma missão em nome de uma potência europeia. Esta modalidade maximiza a negação, tornando a atribuição quase impossível e a cadeia de responsabilidade difusa e extremamente difícil de provar.
2.4 Riscos, Dilemas e Controle
O emprego desses ativos não é isento de riscos. A exposição involuntária pode desencadear crises diplomáticas severas e perda de credibilidade internacional. Além disso, surgem dilemas éticos e legais quando as operações ocorrem em ambientes civis ou em Estados formalmente em paz. Por isso, a doutrina enfatiza o Controle Político Rigoroso, com cadeias de decisão restritas e autorização dos mais altos níveis do Estado, garantindo que as operações visem efeitos políticos específicos e controláveis, em vez de vitórias espetaculares.
Parte III: O Teatro Brasileiro — Do "Novo Cangaço" às Ameaças Híbridas Transnacionais
O Brasil encontra-se em um precipício estratégico. As lições das falhas de Israel e a ascensão da guerra não atribuível não são conceitos abstratos, mas realidades urgentes para uma nação que enfrenta a hibridização do crime e da insurgência em seu próprio território.
3.1 O Fenômeno do "Novo Cangaço" e o Domínio de Cidades
A evolução das facções criminosas brasileiras, particularmente o Primeiro Comando da Capital (PCC) e o Comando Vermelho (CV), atingiu um patamar que desafia a classificação tradicional de "crime organizado". O fenômeno conhecido como "Novo Cangaço" evoluiu, em 2025 e 2026, para uma doutrina de "Domínio de Cidades". Esta modalidade criminosa envolve o isolamento físico de municípios inteiros, a neutralização das forças de segurança locais através de poder de fogo superior (fuzis.50, explosivos, drones) e o uso sistemático da população civil como escudos humanos.
3.1.1 Isomorfismo Tático com Grupos Terroristas
As táticas empregadas pelas facções brasileiras espelham de forma alarmante as táticas de enxame (swarm tactics) utilizadas pelo Hamas e Hezbollah:
- Bloqueio de Reforços: Uso de veículos incendiados, troncos e "miguelitos" para isolar o campo de batalha e impedir a chegada de resposta policial especializada.
- Assimetria de Fogo: Emprego de armamento de guerra antiaérea e antitanque contra unidades policiais leves, criando uma superioridade local temporária.
- Escudos Humanos: A prática de amarrar reféns aos capôs de veículos em fuga (tactical human shields) visa dificultar ou impedir a ação de atiradores de elite, explorando as regras de engajamento restritivas do Estado, exatamente como o Hamas opera em Gaza.
- Governança Armada: O estabelecimento de "zonas de governança armada" onde o Estado perdeu o monopólio da violência e onde as facções exercem controle social, político e econômico.
3.2 O Nexo Crime-Terror e a Tríplice Fronteira
O Brasil consolidou-se como um nó crítico no Nexo Crime-Terror (Crime-Terror Nexus) global. A convergência entre facções brasileiras e organizações terroristas transnacionais deixou de ser uma hipótese para se tornar uma realidade operacional e logística.
- Hezbollah na Tríplice Fronteira: A região da Tríplice Fronteira (Brasil, Argentina, Paraguai) atua como um "buraco negro" institucional e financeiro. O Hezbollah utiliza esta região para lavagem de dinheiro em escala industrial, frequentemente em cooperação funcional com o PCC. Embora não haja fusão ideológica, existe uma "joint venture" logística: o PCC fornece as rotas e a corrupção local, enquanto o Hezbollah oferece acesso a redes globais de lavagem de dinheiro e mercados de armas.
- O Hub Intercontinental de Cocaína: O Brasil funciona como o elo intermediário do fluxo global de cocaína, conectando a produção andina com redes de lavagem de capitais na África Ocidental e mercados de consumo na Europa. Esta rota triangular financia tanto a governança criminal na América do Sul quanto insurgências na África, inserindo o Brasil diretamente na dinâmica de segurança global.
- Sofisticação Financeira (DeFi e Cripto): Em 2026, os grupos criminosos adotaram tecnologias de ponta, utilizando criptomoedas, stablecoins, fintechs e plataformas de finanças descentralizadas (DeFi) para lavar bilhões de dólares. Essa sofisticação dificulta a atribuição e a interdição estatal, criando uma economia paralela robusta que sustenta o poder de combate das facções.
3.3 Ameaças Não Atribuíveis na Amazônia e no Atlântico Sul
A soberania brasileira é crescentemente testada por atividades de "zona cinza" que exploram a vastidão territorial e a dificuldade de vigilância.
- Amazônia como Teatro de Guerra Híbrida: A mineração ilegal, a extração de madeira e a biopirataria na Amazônia muitas vezes utilizam "Operadores de Terceiros Países" ou instrumentalizam populações locais como proxies. Isso torna difícil para as Forças Armadas brasileiras atribuir essas ações a competidores estatais estrangeiros ou a corporações transnacionais que se beneficiam da desestabilização. A narrativa ambiental é frequentemente cooptada para justificar intervenções ou questionar a soberania brasileira, constituindo uma forma de guerra narrativa.
- Atlântico Sul (Amazônia Azul): A presença de frotas pesqueiras estrangeiras e navios de "pesquisa científica" operando no limite da Zona Econômica Exclusiva (ZEE) representa uma ameaça não atribuível à economia azul e à infraestrutura submarina (cabos de dados, oleodutos e gasodutos). Ações de sabotagem ou mapeamento acústico podem ser realizadas sob a cobertura de atividades civis, desafiando a capacidade da Marinha do Brasil de responder sem escalar para um incidente diplomático.
Parte IV: Transposição Estratégica – Aplicando as Lições Israelenses ao Brasil
O Brasil não pode dar-se ao luxo de replicar os erros de Israel. As semelhanças estruturais entre a luta das FDI contra o Hamas e a luta do Estado brasileiro contra o PCC/CV — ambos enfrentando atores não estatais entrincheirados em populações civis e operando redes subterrâneas (físicas, logísticas, digitais) — exigem uma transposição direta de lições.
4.1 Do "Cortar a Grama" à Desarticulação de Redes
Durante décadas, Israel adotou a estratégia de "Cortar a Grama" (Mowing the Grass) — operações periódicas e limitadas para degradar a capacidade do inimigo sem buscar uma resolução política ou estratégica definitiva. A "Operação Carruagens de Gideão" provou que essa estratégia, invariavelmente, leva a falhas catastróficas, pois permite ao inimigo adaptar-se e fortalecer-se nos intervalos.
Lição para o Brasil: O modelo atual de segurança pública do Brasil é, efetivamente, "Cortar a Grama". Incursões policiais periódicas em favelas ou operações de resposta ao "Novo Cangaço" apenas perturbam temporariamente as operações criminosas, sem desmantelar a "infraestrutura de governança" (financeira, social, logística) das facções. O Brasil deve transitar da "contenção" para o "desmantelamento de redes". Isso exige atacar as estruturas financeiras e de comando (os "túneis" metafóricos do PCC) com a mesma intensidade que se ataca os soldados rasos nas ruas. A persistência operacional é chave; operações pontuais são ineficazes contra redes resilientes.
4.2 Evitando a Nova "Concepção" (Konseptzia) Brasileira
Israel falhou porque acreditou que incentivos econômicos (licenças de trabalho) pacificaram o Hamas. O Brasil corre o risco de cair em uma "Concepção" similar ao acreditar que programas sociais isolados podem deslocar facções criminosas, ou, inversamente, que apenas o poder de fogo policial pode erradicá-las.
Aviso: A suposição de que o PCC é meramente um problema "criminal" é uma Konseptzia perigosa. Eles são uma ameaça político-militar com capacidades de política externa (negociando com outros Estados e grupos terroristas) e controle territorial. As agências de inteligência (ABIN, Centros de Inteligência das Polícias) devem abandonar a lente puramente policial e adotar uma estrutura de contra-insurgência e contraterrorismo, focando na intenção e capacidade estratégica das facções, não apenas em seus crimes passados.
4.3 Operacionalizando a Doutrina "Não Atribuível" na Defesa Nacional
O Brasil possui uma vantagem estratégica raramente utilizada: sua própria capacidade para operações na zona cinza.
- Aplicação Defensiva: Para combater as ameaças do "Novo Cangaço" e a exploração predatória na Amazônia, o Brasil necessita de unidades especializadas capazes de operar como "Operadores Não Atribuíveis" — infiltração profunda nas redes criminosas para conduzir sabotagem, inteligência e guerra psicológica a partir de dentro do ecossistema criminal.
- Integração de Inteligência: O uso de "intermediários paraestatais" ou cooperação discreta com países vizinhos poderia permitir ao Estado brasileiro perturbar cadeias de suprimento ilícitas nas regiões de fronteira sem desencadear incidentes diplomáticos com vizinhos sensíveis como Paraguai ou Bolívia.
Parte V: Doutrina e Política – Rumo à "Dissuasão Integrada"
Para navegar no ambiente de segurança de 2026, o Brasil deve adotar uma estratégia de defesa abrangente que integre o poder militar com alavancagem econômica e diplomática — uma adaptação do conceito de "Dissuasão Integrada" promovido em cooperação com o Comando Sul dos EUA.
5.1 A Implementação do Framework DIME
A falha israelense em 2025/2026 deveu-se, em parte, à falta de sincronização entre a ação Militar e os esforços Diplomáticos e Informacionais. O Brasil deve adotar o framework DIME (Diplomático, Informacional, Militar, Econômico) para sua guerra contra o crime organizado e ameaças híbridas, coordenando ações em quatro pilares fundamentais.
No pilar Diplomático, a estratégia acionável para o Brasil envolve firmar acordos regionais robustos com nações Andinas e da África Ocidental. O objetivo é atacar a origem e o trânsito dos fluxos ilícitos, em vez de apenas reagir à sua manifestação local. Isso contrasta com a falha de Israel em coordenar diplomaticamente a gestão de Gaza pós-conflito, o que lhe custou apoio devido à crise humanitária. O fortalecimento da cooperação com o USSOUTHCOM é também um componente chave.
No campo Informacional, sugere-se o estabelecimento de um "Comando de Defesa Cognitiva" para monitorar e contra-atacar narrativas anti-soberania e a glorificação cultural do crime (Guerra Narrativa). A deslegitimação da imagem de "Robin Hood" dos líderes de facções é essencial. Esta medida visa evitar o erro israelense de perder a guerra narrativa pela incapacidade de combater a desinformação adversária sobre a fome e vítimas civis.
Na esfera Militar, a recomendação é evoluir da ocupação estática (como o modelo das UPPs) para ataques de decapitação dinâmicos, liderados por inteligência precisa. O emprego de Forças Especiais (FE) para operações cirúrgicas na Zona Cinza e nas fronteiras é crucial para superar a falha das FDI, que usaram forças convencionais em manobras lentas e previsíveis contra um inimigo ágil e descentralizado.
Por fim, no pilar Econômico, a criação de um "Centro Nacional de Inteligência Financeira Digital" é vital para atacar o nexo de lavagem de dinheiro via DeFi e criptoativos. A asfixia econômica das facções deve servir como prelúdio à ação cinética, corrigindo a Konseptzia israelense de que a prosperidade econômica por si só pacificaria o inimigo.
5.2 Marcos Legais: Lawfare e Direito Internacional Humanitário (DIH)
O "Novo Cangaço" e a hibridização do crime criam uma zona cinza jurídica que paralisa as forças de segurança. As operações israelenses foram prejudicadas pela tensão constante entre a necessidade militar e o escrutínio do direito internacional.
Recomendação: O Brasil deve reconhecer formalmente a natureza "Híbrida" dessas ameaças em seu código legal. Isso envolve aplicar princípios do Direito Internacional Humanitário (DIH) a atores não estatais violentos específicos (ANEVs) que controlam território e possuem comando hierárquico, permitindo Regras de Engajamento (ROE) mais robustas que a ação policial comum, mas mais restritas que a guerra total. Isso previne a "judicialização" das operações táticas que frequentemente inibe a ação decisiva das forças de segurança.
5.3 Soberania no Domínio Cognitivo
Finalmente, a ameaça "não atribuível" é fundamentalmente cognitiva. Atores estrangeiros utilizam a guerra de informação para desafiar a soberania brasileira sobre a Amazônia sob o pretexto de proteção ambiental ou direitos indígenas. O Brasil deve desenvolver "Soberania Cognitiva" — a capacidade de detectar, atribuir (mesmo que internamente) e neutralizar operações de narrativa estrangeira antes que elas se solidifiquem em uma pressão política internacional ou sanções.
Conclusões e Recomendações Finais
As falhas operacionais de Israel demonstram inequivocamente que a excelência tática e a superioridade tecnológica, isoladamente, não podem compensar a incoerência estratégica. Para o Brasil, o aviso é claro: enfrentar um inimigo híbrido, transnacional e adaptável com uma mentalidade de segurança pública do século XX é uma receita para a derrota estratégica e a fragmentação territorial.
O Estado brasileiro deve:
- Abandonar a Concepção de Contenção: O PCC e o CV não serão "geridos"; eles devem ser estruturalmente desmantelados através de decapitação financeira e de liderança, não apenas ocupação territorial temporária.
- Unificar a Resposta: Adotar a "Dissuasão Integrada" como doutrina de Estado. Polícia, Forças Armadas, inteligência financeira (COAF) e diplomacia devem operar sob um design estratégico único (DIME).
- Preparar-se para a Zona Cinza: A Amazônia e o Atlântico Sul são teatros ativos de guerra híbrida. O Brasil requer capacidades "não atribuíveis" para negar esses espaços a adversários sem escalar para o conflito aberto.
- Redefinir o Inimigo: Reclassificar legalmente as facções que praticam "Domínio de Cidades" como ameaças híbridas sujeitas a um arcabouço legal especializado que faça a ponte entre o direito penal e o DIH.
No século XXI, o Estado que se apega à distinção binária arcaica entre "paz" e "guerra" escolhe, efetivamente, perder a guerra que já está acontecendo nas sombras.
Apêndice: Análise Comparativa de Ameaças
A comparação direta entre as falhas de Israel na "Operação Carruagens de Gideão" (2026) e as vulnerabilidades atuais do Brasil revela paralelos alarmantes que exigem atenção imediata.
No que tange ao Objetivo Estratégico, Israel falhou devido a uma confusão entre dissuasão e destruição. Similarmente, o Brasil opera com um objetivo confuso, oscilando entre uma abordagem de Segurança Pública (focada em prisão) e uma de Defesa Nacional (focada em soberania).
O Terreno do Inimigo apresenta desafios análogos. A rede subterrânea de túneis em Gaza impôs dificuldades severas às FDI, enquanto no Brasil, o labirinto urbano das favelas e o denso dossel florestal da Amazônia oferecem vantagens táticas semelhantes aos grupos criminosos.
No aspecto da Logística, Israel sofreu com a "Armadilha Humanitária", onde o inimigo controlou a distribuição de ajuda. No Brasil, vê-se uma dinâmica parecida onde facções criminosas controlam serviços locais essenciais, como gás, internet e transporte, em zonas dominadas.
A Falha de Inteligência israelense foi marcada pela Konseptzia, uma confiança excessiva na tecnologia em detrimento da intenção humana. O Brasil reflete essa vulnerabilidade através de uma inteligência fragmentada, caracterizada pela falta de integração eficaz entre as Polícias Estaduais e a Inteligência Federal.
Por fim, a questão dos Reféns e Escudos mostrou-se crítica. Enquanto Israel enfrentou paralisia estratégica devido aos cativos civis, o fenômeno do "Novo Cangaço" no Brasil utiliza civis sistematicamente como escudos táticos imediatos para garantir rotas de fuga, replicando a complexidade moral e operacional do teatro do Oriente Médio.
Por Renato Henrique Marçal de Oliveira - Químico e trabalha na Embrapa com pesquisas sobre gases de efeito estufa. Entusiasta e estudioso de assuntos militares desde os 10 anos de idade, escreve principalmente sobre armas leves, aviação militar e as IDF (Forças de Defesa de Israel).
GBN Defense - A informação começa aqui!


.jpg)


0 comentários:
Postar um comentário