Em um sistema internacional cada vez mais competitivo, instável e marcado pela erosão de antigas certezas, a forma como um país trata suas Forças Armadas diz muito sobre como ele se enxerga no tabuleiro global. No caso brasileiro, chama atenção o contraste entre a realidade estratégica do século XXI e a permanência de um discurso interno fortemente ancorado em revisionismos do passado, em especial na leitura ideológica que parte da esquerda ainda faz do 31 de março de 1964, mais de seis décadas depois.
Enquanto grandes democracias lidam com seus passados autoritários sem renunciar a capacidades militares robustas, o Brasil insiste em manter a Defesa sob suspeição permanente. O resultado é um paradoxo: um país continental, com vastas fronteiras, riquezas naturais estratégicas e crescente relevância geopolítica, mas que hesita em reconhecer a centralidade do poder militar como instrumento legítimo do Estado.
No cenário internacional contemporâneo, o poder não se manifesta apenas por meio de guerras convencionais. Ele se expressa na capacidade de dissuasão, na autonomia tecnológica, na resiliência cibernética, no controle de espaços estratégicos e na credibilidade de resposta a crises. Estados que não demonstram essas capacidades tornam-se alvos de coerção indireta, pressão econômica, espionagem sistemática e interferência política. A ausência de conflito aberto não significa segurança; muitas vezes significa apenas submissão silenciosa.
O contraste com outras democracias é evidente. Países que viveram regimes autoritários, guerras civis ou ocupações estrangeiras compreenderam que memória histórica e defesa nacional não são conceitos antagônicos. Pelo contrário, fortalecer instituições militares sob controle civil, com profissionalismo e planejamento de longo prazo, foi parte essencial de sua reinserção soberana no sistema internacional. Nessas nações, a defesa é tratada como política de Estado, não como herança incômoda a ser contida por inanição orçamentária.
No Brasil, o discurso revisionista frequentemente associa fortalecimento militar a risco democrático, ignorando que a fragilidade estratégica também gera instabilidade. Estados fracos do ponto de vista da defesa tendem a perder autonomia decisória, ficando mais suscetíveis a agendas externas, dependência tecnológica e pressões assimétricas. Em um mundo onde cadeias de suprimento, energia, dados e comunicações se tornaram instrumentos de poder, renunciar a capacidades próprias não é neutralidade, é vulnerabilidade.
Essa lógica se torna ainda mais preocupante quando observada sob a ótica regional e global. O Brasil ocupa posição singular na América do Sul, no Atlântico Sul e no debate sobre recursos estratégicos. Sua postura defensiva não afeta apenas sua segurança interna, mas também o equilíbrio regional e a percepção externa sobre sua capacidade de liderar, mediar e proteger interesses próprios e de parceiros. Países que aspiram protagonismo não terceirizam sua segurança nem tratam suas forças armadas como problema político doméstico.
O impacto humano dessa visão também é subestimado. O militar profissional brasileiro é treinado para operar em ambientes complexos, cumprir missões de alto risco e responder a emergências nacionais e internacionais. Quando esse profissional é sistematicamente deslegitimado por narrativas ideológicas que o associam a um passado distante, o efeito não é apenas simbólico. Afeta moral, retenção de talentos e a própria eficácia operacional, enfraquecendo um dos poucos instrumentos do Estado capazes de responder rapidamente a crises de grande escala.
Há ainda uma dimensão tecnológica frequentemente ignorada no debate político. A defesa moderna é um dos principais vetores de inovação em áreas críticas como software embarcado, sensores, comunicações seguras, inteligência artificial e integração de sistemas complexos. Países que abandonam projetos estratégicos ou mantêm suas forças armadas em estado de permanente contenção acabam por ampliar sua dependência externa, perdendo autonomia decisória justamente nos domínios mais sensíveis da soberania contemporânea.
A experiência internacional demonstra que democracias sólidas não enfraquecem suas forças armadas para proteger o regime, elas as profissionalizam, submetem a controle civil e as integram a uma estratégia nacional clara. O erro brasileiro está em confundir vigilância democrática com desconfiança estrutural, e memória histórica com imobilismo estratégico.
Sessenta anos após 1964, insistir em um discurso revisionista permanente não projeta maturidade política nem compromisso democrático. Projeta insegurança estratégica. Em um mundo que voltou a falar a linguagem do poder, da dissuasão e da competição entre Estados, o Brasil corre o risco de permanecer preso a debates do passado enquanto o ambiente internacional avança e cobra seu preço.
por Mauro Beirão - formado em engenharia mecânica e 35 anos de experiência na indústria de defesa e aeroespacial.


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