quinta-feira, 18 de março de 2021

As 'super armas' da Rússia não passam de fumaça e espelhos

Apesar do fim da Guerra Fria décadas atrás, e da grande ameaça que antes era a União Soviética dando lugar a uma Federação Russa financeiramente anêmica, o regime russo de Vladimir Putin conseguiu permanecer na vanguarda das preocupações de defesa americanas de forma consistente durante a era moderna. Hoje, a Rússia compartilha o papel de antagonista nas discussões de estratégia militar e no treinamento de oponentes de quase igual nível com a China, outra nação com uma pegada militar significativamente menor do que os EUA. A ameaça real que essas nações representam para a segurança e os interesses americanos no exterior servem como um lembrete valioso que uma nação não precisa igualar os gastos com defesa da América para representar uma ameaça legítima ao aparelho de defesa da América.

Mas os esforços de modernização militar de longo alcance e expansão da China, juntamente com políticas agressivas em lugares como o Mar do Sul da China, tornam o enorme Exército de Libertação do Povo da China talvez a ameaça mais potente ao domínio americano globalmente. A Rússia, por outro lado, representa principalmente uma ameaça militar direta na Europa, onde a proximidade do aliado russo Bielorrússia e do enclave russo de Kaliningrado cria uma passagem estreita entre a Polônia e a Lituânia, chamada de Falha Suwalki.

 

Pontos fortes da Rússia na 'Zona Cinzenta'

Oficiais da OTAN já reconhecem que um esforço conjunto para capturar a Falha Suwalki feito pelas forças russas provavelmente teria sucesso, separando os Estados Bálticos de seus aliados da OTAN. Enquanto esforços estão em andamento para mitigar essa ameaça, a verdadeira força da posição da OTAN vem do conhecimento de que a economia da Rússia provavelmente não poderia sustentar uma guerra prolongada na escala que um conflito com a OTAN exigiria. Simplificando, a agressão da Rússia costuma ser mais moderada por seu próprio bolso do que pela presença de forças da OTAN.

Então, por que a Rússia parece dominar as discussões americanas sobre defesa e segurança, quando o objetivo declarado da China de substituir os Estados Unidos como líder diplomático e econômico mundial representa uma ameaça mais direta aos interesses americanos? Embora uma questão desta magnitude possa ser respondida de várias maneiras, uma das razões mais significativas pelas quais a Rússia continua sendo o assunto de nossa preocupação coletiva não é nada mais, nada menos do que o bom e velho marketing.

Como a União Soviética antes dela, a Rússia colocou uma ênfase significativa nas operações da 'zona cinzenta' e na gestão narrativa em sua política externa e esforços militares. A zona cinzenta, neste caso, significa operações militares que levam até o limite de atos de guerra declarados, mas param a um passo de iniciar um conflito real. Exemplos desse tipo de operação incluem obter acesso à rede elétrica da América, conduzir assassinatos em solo estrangeiro e até mesmo tentativas de coibir investigações sobre suas violações do direito internacional, entre muitos outros.

 

Controle reflexivo e a narrativa russa

A Rússia fez um progresso considerável no reino narrativo da geopolítica graças à adoção de uma prática conhecida como “controle reflexivo”, que remonta à era soviética. O controle reflexivo foi talvez melhor resumido pela redatora da Georgetown Security Studies Review, Annie Kowalewski, que também citou o trabalho de Mark Mateski em sua descrição:

“O controle reflexivo é um conceito 'exclusivamente russo' baseado em maskirovka , uma velha noção soviética em que se 'transmite a um oponente informações especificamente preparadas para incliná-lo a tomar voluntariamente a decisão predeterminada desejada pelo iniciador da ação.'”

O controle reflexivo não é uma teoria da conspiração imaginada por pesquisadores ocidentais, mas sim uma estratégia militar legítima ensinada em escolas militares russas e programas de treinamento, bem como incluída na Doutrina Gerasimov da Rússia, que faz parte da estratégia de segurança nacional do país. O controle reflexivo é uma quantidade conhecida na esfera da defesa há décadas, mas apesar da familiaridade dos Estados Unidos com essa prática, a nação ainda se mostrou suscetível a ser influenciada por campanhas na era digital, reforçada pela adoção da mídia social pela Rússia como meio para os mesmos fins.

Embora muitos atribuam os esforços da Rússia para se intrometer na eleição presidencial dos Estados Unidos de 2016 a essa prática, um exemplo talvez mais valioso poderia ser o caos político que se seguiu. Os esforços narrativos russos vão muito além de uma eleição ou candidato e, na verdade, envolvem quase todas as facetas do conflito tecidas na cultura americana. Campanhas de influência russa foram atribuídas a candidatos de ambos os partidos políticos, ao debate americano sobre vacinação e até mesmo a filmes de sucesso de verão . Em qualquer lugar que a Rússia veja uma cisão existente entre o povo americano (ou o povo de qualquer outra nação adversária), eles trabalham para exacerbar o conflito, enfraquecendo as nações opostas por dentro.

Mas os esforços de controle narrativo da Rússia não se limitam a dar um grande impulso ao conflito latente. Essas mesmas práticas também são utilizadas para fazer a Rússia parecer um oponente mais ameaçador para alguns e um distribuidor valioso de tecnologia militar para outros.

 

Usando a narrativa para transmitir força

O orçamento anual de defesa da Rússia tende a girar em  torno de US$ 60 bilhões, o que a coloca em pé de igualdade com nações como o Reino Unido, apesar de manter uma força que é significativamente maior do que a de seus pares que gastam valores parecidos. Como resultado, a Rússia foi forçada a tomar decisões difíceis em relação à alocação de seu magro orçamento - por exemplo, sacrificando as capacidades de sua frota de superfície para aumentar os gastos em novos submarinos, e limitar os pedidos de plataformas tecnologicamente avançadas, como o MBT¹ T-14 Armata tanque e caça stealth Su-57 para pouco mais do que números "simbólicos", como alguns exemplos.

O único porta-aviões da Rússia, o almirante Kuznetsov, provavelmente nunca mais navegará. (WikiMedia Commons)

A Rússia continua a desenvolver esses sistemas, apesar da incapacidade de financiar sua produção em massa, em parte porque simplesmente  ter uma capacidade militar costuma ser suficiente para que seu nome seja mencionado na mídia ao lado de oponentes mais formidáveis ​​como os Estados Unidos ou a China. O problemático caça stealth da Rússia, o Su-57, serve como um bom exemplo de como a Rússia desenvolve “capacidades”, que não são práticas em um conflito, mas ganham manchetes.

Um dos pouco mais de 10 Sukhoi Su-57 da Rússia. (WikiMedia Commons)
A lista de caças operacionais de quinta geração em todo o mundo não é longa: a América e seus aliados têm o F-35, a América tem o F-22, a China tem o J-20 e a Rússia tem o Su-57. A maioria não acharia essa lista surpreendente, mas o que muitos podem se surpreender ao saber é que os Estados Unidos mantêm uma frota de literalmente  centenas de jatos operacionais de quinta geração, enquanto a Rússia tem apenas uns 10 ou pouco mais (e apenas um com o motor definitivo da plataforma). A minúscula frota de caças stealth da Rússia não representaria nenhuma capacidade militar digna de nota, mas apenas ter o jato faz com que sejam mencionados lado a lado com os EUA.

Armata T-14 da Rússia (WikiMedia Commons)

Acontece o mesmo com o T-14 Armata, que ao contrário do Su-57, é amplamente visto como uma plataforma altamente capaz e tecnologicamente avançada, digna da fanfarronice da mídia que o cerca. No entanto, tal como o Su-57, a Rússia não pode se dar ao luxo de colocar o T-14 em produção em massa. Mais uma vez, apesar de não oferecer qualquer capacidade militar real, a Rússia consegue se manter relevante na conversa global sobre tanques porque possui  um punhado de tanques avançadas.
 
 
Tecnologias criadas especificamente para narrativa
É claro que o T-14 e o Su-57 não são os únicos programas de defesa russos de alto nível a ganhar as manchetes nos últimos anos. Na verdade, pode-se argumentar que ambos são pequenos se comparados a esforços como o UUV² do “dia do juízo final”, o Poseidon, assim como seu "imenso" ICBM³ nuclear RS-28 Sarmat e, claro, seu "invencível" míssil de cruzeiro de propulsão nuclear Burevestnik.
Embora cada uma dessas armas represente ameaças reais aos oponentes da Rússia, elas são mais uma vez prejudicadas pela incapacidade russa de produzir qualquer uma delas em massa qualquer (ou, em alguns casos, até mesmo fazê-las funcionar), mas isso em última análise não importa. Cada uma dessas plataformas foi construída com o propósito de oferecer ao governo russo uma influência específica ao lidar com nações estrangeiras.
 
O “submarino do juízo final” UUV Status-6 'Poseidon'

(Mídia estatal russa)

Houve um tempo em que o UUV Status-6 da Rússia (frequentemente chamada de Poseidon) era considerada uma lenda urbana, mas depois que foi divulgado que os EUA incluíram a arma em um relatório de inteligência, a Rússia aproveitou a cobertura da imprensa e anunciou que seu “Submarino do juízo final” era de fato verdadeiro.
O Poseidon é um UUV equipado com uma ogiva termonuclear cuja potência varia entre 50 a100 megatons (dependendo da sua fonte) e que pode ser implantado por grandes submarinos da Rússia. Para fornecer um quadro de referência, a maior arma nuclear  já  detonada teve um rendimento de 50 megatons, tornando a afirmação russa de 100 megatons ainda mais desconcertante. Na prática, a plataforma entraria furtivamente nas águas costeiras americanas e detonaria, combinando a destruição de uma grande arma nuclear com um tsunami irradiado que desabaria em comunidades costeiras.
Embora essa plataforma possa realmente funcionar, na prática ela não oferece à Rússia nenhum aumento na capacidade nuclear. Suas armas nucleares já são mais que suficientes para manter sua parte na barganha de "destruição mútua assegurada", tornando o Status-6 menos uma arma estratégica (já que seu uso daria início à mesma guerra nuclear com a qual nos preocupamos por décadas), e muito mais sobre narrativas. O Poseidon, assim como o RS-28 Sarmat, visa instilar medo nos inimigos da Rússia.
 
O Sarmat RS-28 ou “Satan II”
(WikiMedia Commons)
O mais recente míssil intercontinental termonuclear pesado da Rússia carrega várias ogivas projetadas para escapar dos modernos sistemas de defesa contra mísseis e pode fornecer incríveis 50 megatons de energia nuclear combinada contra um alvo. A Rússia, notoriamente, qualificou o escopo de seu novo míssil como poderoso o suficiente para destruir uma massa de terra do tamanho do Texas ou da França, e é importante notar que esta arma pode realmente passar até mesmo pelas maiores armas nucleares do arsenal da América.
Mais uma vez, porém, esta arma não dá realmente à Rússia uma  nova capacidade. Apesar de seu tamanho maciço e nome intimidante (Satan II), o uso dessa arma provocaria uma resposta nuclear total, levando ao mesmo cenário de fim do mundo que uma arma de menor rendimento incitaria. Simplificando, não importa se a Rússia lança uma ou cem armas nucleares nos Estados Unidos, nem importa o tamanho relativo de cada uma. O resultado permanece o mesmo.
 
O míssil nuclear 9M730 Burevestnik “Skyfall”
O problemático míssil nuclear da Rússia ainda não funcionou adequadamente em nenhum dos testes da Rússia e pode ter potencialmente causado uma explosão na costa norte da Rússia enquanto equipes de recuperação tentavam resgatar um míssil do fundo do mar. Em teoria, a propulsão nuclear poderia dar ao míssil um alcance extremamente longo, permitindo-lhe fazer mudanças radicais em sua trajetória para evitar sistemas de defesa antimísseis. Na prática, porém, até agora provou ser um perigo maior para as tropas russas do que a qualquer outro.
Essa plataforma poderia dar à Rússia um aumento de capacidade em termos de plataformas ofensivas se algum dia conseguissem fazê-la funcionar e produzi-la em massa. No entanto, com o limitado financiamento para o desenvolvimento e o improvável financiamento para a produção, o valor real desta plataforma pode estar em atrair mais atenção da mídia para os esforços de alta tecnologia da Rússia.
 
Transformando narrativa em financiamento

O UGV⁴ Uran-9 da Rússia foi implantado na Síria, onde falhou terrivelmente. (WikiMedia Commons)

Neste ponto, estabelecemos firmemente que muitos dos esforços de defesa de alto nível da Rússia são mais orientados para a percepção da Rússia como um inimigo poderoso e formidável, mas essa está longe de ser a única razão pela qual a Rússia trabalha duro para manter seu lugar à mesa de tecnologia de defesa. Embora a fanfarronice da Rússia possa ajudá-la a manter um ar de intimidação ao lidar com oponentes, o valor real para a defesa de longo prazo da Rússia está em garantir o investimento estrangeiro.
A recente decisão da Turquia de comprar sistemas de defesa aérea S-400 russos em detrimento do acesso ao caça F-35 Joint Strike Fighter dos Estados Unidos é um exemplo brilhante de como a Rússia está tentando se posicionar como fornecedor de armas para nações que não estão nas boas graças da América. Existem muitas nações para as quais os Estados Unidos não estão dispostos a vender armas avançadas e, ao transmitir uma imagem de poder tecnológico ao mundo, a Rússia espera se posicionar como fornecedor de nações que estejam na 'lista americana de indesejáveis'.
Este esforço levou a Rússia a anunciar um bando de plataformas que chamam a atenção nas manchetes, como o UGV Uran-6, e alegações de “camuflagem ativa” que permitiria que as tropas se misturassem ao ambiente como o 'Predador' dos filmes de ficção científica. Embora essas tecnologias tendam a falhar no uso real, os meios de comunicação globais controlados pelo Estado da Rússia as veiculam como sucessos para mostrar ao mundo que a Rússia é um parceiro valioso no desenvolvimento de armas.
E aí jaz o 'X da questão'. Muitos dos recursos mais destacados da Rússia são menos sobre estratégia e mais sobre percepção. Mas, ao colocar essa ênfase em garantir relacionamentos de vendas internacionais, a Rússia pode ser capaz de alavancar as vendas para financiar os aspectos mais sérios de seu aparato militar, como sua crescente frota de submarinos nucleares. Portanto, a Rússia pode estar fingindo até que a fantasia se torne realidade, e a mera perspectiva de que fazer isso pode funcionar é uma ameaça muito real aos interesses americanos no exterior.

Notas do tradutor:

¹ MBT: Main Battle Tank, ou carro de combate principal; frequentemente denominado 'tanque'

² UUV: Unmanned Underwater Vehicle, ou veículo subaquático remotamente pilotado; frequentemente denominado "drone submarino"

³ ICBM: Inter Continental Ballistic Missile, ou míssil balístico intercontinental

⁴UGV: Unmanned Ground Vehicle, ou veículo terrestre remotamente pilotado; frequentemente enominado "drone terrestre"


Original: Russia’s high profile weapons are all smoke and mirrors. O autor, Alex Hollings, é um veterano dos Marines, e escreve artigos sobre análise de tecnologias e política externa.
Tradução e adaptação: Renato Henrique Marçal de Oliveira*

*Renato Henrique Marçal de Oliveira é químico e trabalha na Embrapa com pesquisas sobre gases de efeito estufa. Entusiasta e estudioso de assuntos militares desde os 10 anos de idade, escreve principalmente sobre armas leves, aviação militar e as IDF (Forças de Defesa de Israel)

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2 comentários:

  1. É exatamente como eu penso.A Rússia,de fato é uma suporpotência militar inquestionável.Mas em muitos quesitos eles costumam blefar e não tem capacidade econômica para sustentar uma corrida armamentista com os Estados Unidos a longo prazo.A China,por sua vez,sim.

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