segunda-feira, 5 de outubro de 2026

EUA transformam fronteira com o México em laboratório de guerra antidrone

0 comentários

 

A experiência acumulada na guerra da Ucrânia está influenciando não apenas os sistemas que os Estados Unidos desenvolvem, mas também a maneira como suas Forças Armadas testam e incorporam novas capacidades. Na fronteira sul, o Exército norte-americano passou a utilizar o ambiente operacional associado ao emprego de drones por organizações criminosas para avaliar tecnologias de detecção, rastreamento e neutralização de pequenas aeronaves não tripuladas, aproximando empresas de defesa, unidades operacionais e estruturas de testes em um ciclo de experimentação mais curto.

Essa abordagem foi aplicada durante o exercício Falcon Peak 26.2, conduzido pela Joint Interagency Task Force 401 ao longo de setembro no Yuma Proving Ground, no Arizona, em apoio ao U.S. Northern Command e à Joint Task Force–Southern Border. O exercício avaliou sistemas de diferentes fornecedores em cenários que reproduziram incursões de pequenos drones e reuniu capacidades de detecção por sensores, derrota eletrônica e engajamento cinético. A atividade também estabeleceu corredores permanentes para testes e avaliação de sistemas C-UAS no Yuma Proving Ground, criando uma estrutura destinada a permitir novas avaliações com unidades militares, indústria e desenvolvedores comerciais.

A escolha desse ambiente está relacionada ao aumento da atividade de drones na região. Segundo o Brigadeiro-General Brian Filler, vice-comandante de operações da Força-Tarefa Conjunta da Fronteira Sul, os militares norte-americanos registraram 378 incursões de drones nos 30 dias anteriores à avaliação. De acordo com as autoridades, a maior parte desses sistemas é composta por plataformas comerciais equipadas com câmeras e empregadas para vigilância associada a atividades de contrabando e tráfico de pessoas. A Reuters também informou que o Exército dos EUA derrubou 11 drones associados a cartéis utilizando sistemas laser desde a implantação dessa capacidade na fronteira, em agosto.

Embora essa ameaça esteja muito distante, em complexidade e intensidade, dos sistemas empregados por Rússia e Ucrânia, o cenário apresenta uma característica importante para o desenvolvimento militar: é uma ameaça real, recorrente e suficientemente variável para permitir que sensores, algoritmos, enlaces de comando e sistemas de neutralização sejam avaliados fora de condições puramente laboratoriais. A diferença em relação a um campo de batalha convencional está principalmente no tipo de alvo e na finalidade de seu emprego, mas os problemas técnicos de detectar uma aeronave pequena, determinar sua trajetória, classificar seu comportamento e selecionar uma resposta adequada continuam relevantes para o desenvolvimento de sistemas C-UAS.

A experiência ucraniana como referência para o ciclo de desenvolvimento

A principal influência da Ucrânia sobre esse processo norte-americano não está limitada às características dos drones empregados no conflito. O aspecto que interessa particularmente aos planejadores dos Estados Unidos é a velocidade com que operadores e fabricantes conseguem modificar sistemas a partir da experiência obtida em combate. A guerra criou um ciclo contínuo no qual uma nova ameaça é identificada, uma solução é testada, suas limitações são observadas em operação e modificações são incorporadas em períodos que podem ser muito menores do que os normalmente associados aos programas militares convencionais.

O Brigadeiro-General Matthew Ross, diretor da JIATF 401, apontou justamente essa capacidade de adaptação como uma das referências para os Estados Unidos. Segundo ele, os planejadores observam a velocidade com que a Ucrânia consegue adaptar suas capacidades diariamente ou semanalmente e procuram reproduzir esse processo. O objetivo não é simplesmente copiar um equipamento utilizado no conflito, mas aproximar o ciclo de desenvolvimento tecnológico da velocidade com que as ameaças estão evoluindo.

Essa questão possui implicações diretas para os programas C-UAS. Um sistema selecionado hoje pode ser confrontado, poucos meses depois, por uma ameaça que utiliza outra frequência de comunicação, apresenta assinatura diferente, emprega navegação alternativa ou incorpora maior grau de autonomia. A eficiência de uma solução, portanto, não pode ser avaliada apenas pela capacidade demonstrada durante sua seleção inicial; é necessário que exista uma estrutura capaz de testar continuamente seu desempenho e incorporar modificações à medida que o ambiente operacional muda.

O Yuma Proving Ground está sendo estruturado para atender justamente a essa necessidade. O Falcon Peak 26.2 foi utilizado para estabelecer padrões de medição para diferentes categorias de sistemas, enquanto os novos corredores permanentes permitirão repetir avaliações e comparar soluções sob parâmetros comuns. A estrutura foi concebida para integrar o processo de teste às unidades operacionais, à indústria e aos desenvolvedores comerciais, reduzindo a distância entre uma tecnologia experimental e sua avaliação militar.

Uma arquitetura que combina sensores, guerra eletrônica e efeitos cinéticos

Outro aspecto relevante do Falcon Peak é a forma como o Exército dos EUA está tratando a defesa contra drones. Em vez de procurar um único equipamento capaz de resolver toda a ameaça, os testes foram organizados em diferentes camadas, abrangendo sensores, sistemas de derrota eletrônica e meios de engajamento cinético. O Yuma Test Center estruturou três corredores destinados justamente a essas categorias, permitindo avaliar diferentes formas de neutralização dentro de um mesmo processo de experimentação.

Essa arquitetura parte de uma sequência operacional que começa com a detecção e identificação do alvo e termina com a escolha e execução da resposta. Um radar pode fornecer a primeira indicação de uma incursão, enquanto câmeras e outros sensores contribuem para a classificação do objeto. A partir dessas informações, o sistema de comando e controle precisa determinar se o drone representa uma ameaça e qual meio disponível possui maior probabilidade de neutralizá-lo dentro do tempo e das condições existentes.

O Falcon Peak também empregou o Lattice, plataforma autônoma de comando e controle, como referência para avaliar a integração entre sensores e meios de resposta. Isso permite deslocar a avaliação do desempenho de cada equipamento isoladamente para a capacidade de uma arquitetura sensor-atirador funcionar como um conjunto, aspecto particularmente importante quando o tempo disponível entre a detecção e o engajamento é reduzido.

Essa integração também possui uma dimensão econômica. O custo de neutralizar um drone precisa ser compatível com o valor e com a ameaça representada pelo alvo. Um sistema comercial de baixo custo utilizado para vigilância não necessariamente exige o emprego de um interceptor de elevado valor ou de um armamento destinado a ameaças de maior complexidade. Dependendo da situação, interferência eletrônica, armas automáticas, interceptadores ou outras soluções de menor custo podem oferecer uma resposta mais adequada.

O problema é ainda mais significativo quando se considera a possibilidade de emprego simultâneo de vários drones. Nesse cenário, a capacidade de uma defesa C-UAS passa a depender não apenas do alcance ou da precisão de determinado equipamento, mas da quantidade de alvos que pode acompanhar, classificar e engajar simultaneamente, além da capacidade de distribuir os efeitos disponíveis de maneira racional.

A indústria como parte do processo operacional

O Falcon Peak também evidencia uma mudança na relação entre o Exército norte-americano e o setor privado de tecnologia de defesa. Empresas como Anduril, Teledyne FLIR, Allen Control Systems e Powerus apresentaram diferentes soluções durante o exercício, incluindo drones, sensores, sistemas automatizados de armas e interceptadores. A participação de empresas desse perfil permite ao Exército comparar tecnologias em um mesmo ambiente e identificar quais soluções apresentam desempenho compatível com as necessidades operacionais.

A importância dessa aproximação está relacionada à velocidade de desenvolvimento característica do setor de sistemas não tripulados. Empresas menores conseguem, em determinados casos, alterar software, sensores, algoritmos ou componentes com maior rapidez do que os ciclos tradicionais de aquisição militar permitem. Para o usuário militar, entretanto, velocidade de desenvolvimento não é suficiente: a tecnologia precisa demonstrar confiabilidade, integração, capacidade de manutenção e desempenho repetível em condições operacionais.

É por isso que a estrutura criada no Yuma Proving Ground possui importância além do próprio Falcon Peak. Ao estabelecer parâmetros comuns de avaliação e permitir que diferentes fornecedores sejam submetidos a cenários semelhantes, o Exército passa a dispor de uma metodologia para separar uma demonstração tecnológica de uma capacidade efetivamente utilizável por suas unidades. A avaliação deixa de ser apenas uma apresentação de produto e passa a considerar o desempenho dentro de uma cadeia operacional.

Da fronteira ao campo de batalha de alta intensidade

A utilização da fronteira como ambiente de experimentação também precisa ser observada dentro de uma estratégia mais ampla. O Exército dos EUA não está utilizando esse cenário como substituto dos exercícios destinados à guerra convencional, mas como uma oportunidade adicional para testar tecnologias contra ameaças concretas.

Em setembro, por exemplo, o XVIII Airborne Corps utilizou grupos de até 100 drones durante o exercício Scarlet Dragon para avaliar sensores, comando e controle, guerra eletrônica e defesa contra ataques simultâneos. O cenário é significativamente diferente daquele encontrado na fronteira, pois procura reproduzir uma situação mais próxima de um conflito de alta intensidade, no qual sistemas não tripulados podem ser empregados em volume e integrados a outras capacidades de combate.

Essa combinação de ambientes permite avaliar diferentes partes do mesmo problema. A fronteira oferece condições reais de vigilância e incursões de pequenos drones em um espaço operacional sensível, enquanto exercícios de grande escala permitem testar a capacidade de uma força militar lidar com ataques coordenados e maior densidade de alvos. Em ambos os casos, a questão central permanece a mesma: detectar, classificar, decidir e neutralizar dentro de um intervalo de tempo compatível com a ameaça.

O próprio Exército dos EUA já ampliou esse esforço para exercícios internacionais. Durante o Yudh Abhyas 2026, realizado na Índia em setembro, forças norte-americanas e indianas empregaram o M-LIDS para desenvolver interoperabilidade e familiaridade com capacidades destinadas à detecção e derrota de aeronaves não tripuladas.

O conjunto dessas iniciativas indica que Washington está tratando C-UAS como uma capacidade transversal, que precisa estar disponível para diferentes tipos de unidades e ambientes operacionais. A preocupação não está restrita à proteção de uma instalação ou de uma formação específica, mas envolve a capacidade de incorporar sensores, guerra eletrônica, comando e controle e meios de engajamento às diferentes estruturas da força.

A velocidade de adaptação como requisito militar

A experiência ucraniana demonstra que o desenvolvimento de sistemas não tripulados e antidrone não pode ser tratado como um processo concluído com a entrada de determinado equipamento em serviço. A evolução da ameaça exige ciclos sucessivos de avaliação, atualização e treinamento, enquanto a força precisa preservar a capacidade de integrar novas soluções às redes e sistemas que já utiliza.

É nesse ponto que o modelo adotado pelo Exército dos EUA ganha maior relevância. A criação de uma infraestrutura permanente de testes no Yuma Proving Ground permite transformar a experimentação em atividade contínua, com participação simultânea de unidades militares, centros de avaliação, indústria e desenvolvedores. Em vez de esperar que uma nova ameaça produza uma deficiência operacional para então iniciar um programa de resposta, a estrutura procura manter o processo de avaliação funcionando de forma permanente.

Para o Exército norte-americano, a fronteira com o México oferece assim um ambiente complementar aos campos de treinamento convencionais. A atividade de drones associada aos cartéis não reproduz a complexidade tecnológica da guerra entre Rússia e Ucrânia, mas cria oportunidades para testar sensores, redes, sistemas de comando e controle e diferentes métodos de neutralização diante de alvos reais e recorrentes.

A principal consequência da experiência ucraniana, nesse caso, não está em um equipamento específico apresentado no Falcon Peak, mas na mudança do processo de desenvolvimento. A capacidade de identificar uma deficiência, testar uma solução, medir seu desempenho, modificá-la e devolvê-la rapidamente ao ambiente operacional passa a ser considerada parte da própria capacidade militar.

O movimento norte-americano indica, portanto, que a guerra dos drones está produzindo mudanças que ultrapassam o desenvolvimento de aeronaves não tripuladas e seus sistemas de defesa. Ela também está modificando os processos de teste, aquisição, integração e atualização tecnológica das forças armadas, aproximando o ciclo de desenvolvimento militar da velocidade com que a ameaça evolui no campo de batalha.


GBN Defense - A informação começa aqui

Continue Lendo...

A guerra da Ucrânia não matou o carro de combate. Ela matou o conceito de carro de combate isolado

0 comentários

 

A guerra na Ucrânia produziu uma das maiores rupturas conceituais no pensamento militar terrestre desde o final da Guerra Fria, mas essa ruptura não pode ser resumida pela afirmação de que “os drones mataram os carros de combate”. A conclusão é sedutora porque as imagens de carros de combate destruídos por minas, munições vagantes, mísseis anticarro, artilharia e drones FPV se tornaram uma das representações mais visíveis do conflito. O problema é que uma plataforma ser vulnerável não significa que ela tenha se tornado obsoleta. Carros de combate sempre puderam ser destruídos; o que mudou de maneira radical foi a capacidade de encontrá-los, identificá-los, acompanhá-los e direcionar efeitos contra eles em uma velocidade que reduz drasticamente a liberdade de manobra de uma força convencional.

É justamente essa distinção que precisa estar no centro do debate. A experiência ucraniana não demonstra que proteção, mobilidade e fogo direto deixaram de ser necessários. Demonstra que essas capacidades não podem mais ser consideradas suficientes quando entregues por uma plataforma empregada de maneira isolada. O carro de combate continua sendo uma das poucas plataformas capazes de combinar proteção, mobilidade tática e poder de fogo direto pesado para acompanhar e apoiar forças mecanizadas em determinadas situações, mas passou a depender de uma arquitetura muito mais ampla para transformar essas características em poder de combate efetivo. Em outras palavras, a Ucrânia não matou o carro de combate; matou a ideia de que ele possa ser tratado como uma ilha de poder dentro do campo de batalha.

O primeiro erro é confundir vulnerabilidade com obsolescência

A história militar mostra que nenhuma plataforma permanece invulnerável depois que o adversário desenvolve meios específicos para neutralizá-la. O surgimento da artilharia moderna, das minas, dos canhões anticarro, dos mísseis guiados e, posteriormente, de munições especializadas sempre obrigou os carros de combate a evoluir. A existência de uma ameaça capaz de destruir uma plataforma, portanto, não responde à pergunta sobre sua utilidade. A questão relevante é saber se as missões que ela desempenha continuam necessárias e se existe outra combinação de meios capaz de cumprir essas missões com o mesmo nível de proteção, mobilidade e poder de fogo.

A própria evolução da guerra na Ucrânia oferece uma resposta importante. As perdas de carros de combate russos e ucranianos estão relacionadas à combinação de minas, sistemas anticarro, munições vagantes, artilharia, drones e problemas de emprego tático, mas a adaptação contínua dessas plataformas demonstra que elas permanecem associadas a funções relevantes no campo de batalha. A questão passou a ser como aumentar sua sobrevivência e adaptar seu emprego às novas ameaças, e não simplesmente abandoná-las.

Essa diferença é fundamental porque, se a simples capacidade de destruição de uma plataforma fosse suficiente para decretar sua obsolescência, praticamente nenhum sistema militar sobreviveria ao primeiro ciclo de inovação tecnológica. O que determina a permanência de uma capacidade é a relação entre aquilo que ela entrega, o custo necessário para neutralizá-la e a existência ou não de alternativas capazes de produzir o mesmo efeito. O carro de combate continua oferecendo algo que drones, veículos leves, artilharia ou sistemas anticarro, individualmente, não conseguem substituir: a possibilidade de levar poder de fogo direto protegido até o espaço onde forças terrestres precisam combater e, em determinadas condições, manobrar e permanecer sob fogo.

O que a Ucrânia demonstrou, portanto, não foi que o carro de combate deixou de ser útil, mas que sua utilidade depende cada vez mais de como ele está inserido no sistema de combate.

O verdadeiro adversário passou a ser a transparência do campo de batalha

A transformação mais profunda está na capacidade de observação. O campo de batalha contemporâneo possui uma densidade de sensores muito maior do que aquela existente nas guerras que moldaram grande parte da doutrina de emprego dos carros de combate durante o século XX. Drones comerciais e militares, sensores eletro-ópticos e térmicos, imagens de satélite, inteligência de sinais, radares, observadores avançados, sistemas de guerra eletrônica e redes digitais permitem que uma atividade antes relativamente difícil de detectar passe a produzir uma assinatura identificável em poucos minutos.

Isso modifica a relação entre concentração e poder de combate. Concentrar forças continua sendo necessário para produzir determinados efeitos, mas a concentração também produz assinatura. Uma coluna de blindados, uma posição de reunião, um posto de comando, uma bateria de artilharia ou uma unidade logística podem ser detectados antes de iniciarem a ação para a qual foram organizados. O problema, portanto, não é simplesmente que existem mais armas anticarro; é que o adversário dispõe de mais oportunidades para descobrir onde está o alvo e construir uma cadeia de engajamento contra ele.

O resultado é uma redução do tempo entre detecção e ataque. O carro de combate que antes dependia principalmente de sua proteção para sobreviver a determinadas ameaças agora precisa ser protegido também pela capacidade da força de evitar detecção, reduzir sua assinatura, degradar os sensores adversários, operar sob cobertura, mudar de posição, receber alerta antecipado e responder rapidamente. A sobrevivência passa a ser resultado da combinação entre as características físicas da plataforma e o comportamento da unidade à qual ela pertence.

O drone é apenas o elemento mais visível de uma mudança maior: a transformação do campo de batalha em um ambiente no qual encontrar o inimigo tornou-se muito mais fácil e permanecer concentrado sem ser localizado tornou-se muito mais difícil. O drone não substituiu o carro de combate. Mudou o preço de permanecer exposto.

O crescimento dos FPV e das munições vagantes criou uma situação particularmente difícil para veículos blindados. Um sistema relativamente barato pode obrigar uma plataforma extremamente cara a abandonar uma posição, interromper uma missão ou consumir recursos de proteção. Entretanto, seria um erro transformar essa relação em uma equação simples segundo a qual um drone barato “substituiu” um carro de combate caro.

Um FPV pode destruir ou danificar um blindado, mas não ocupa terreno. Pode atingir uma posição, mas não substitui automaticamente o fogo de uma peça de artilharia. Pode observar uma área, mas não substitui todas as capacidades de um sistema de reconhecimento especializado. Pode atacar uma trincheira, mas não substitui a infantaria necessária para conquistar e manter a posição.

O valor militar do drone está justamente em sua capacidade de aumentar a eficiência de outras armas. Ele pode encontrar o alvo para a artilharia, corrigir o fogo, acompanhar uma força adversária, identificar uma brecha, detectar movimentação, fornecer consciência situacional para uma unidade blindada ou atacar diretamente uma ameaça de oportunidade. A guerra passa, portanto, de uma lógica de substituição para uma lógica de complementaridade.

Essa é uma das principais diferenças entre afirmar que “drones mataram carros de combate” e compreender o que realmente aconteceu. A proliferação de sistemas não tripulados alterou a forma de localizar, acompanhar e atacar forças terrestres, mas também ampliou a capacidade dessas próprias forças de observar, decidir e empregar seus demais sistemas com maior precisão.

O carro de combate deixou de ser uma plataforma autossuficiente

Durante boa parte do século XX, o desenvolvimento do carro de combate buscou concentrar na própria plataforma uma parcela significativa das capacidades necessárias ao combate direto. Isso não significa que ele tenha sido concebido para operar sozinho, a doutrina de armas combinadas existe justamente porque nenhuma arma funciona adequadamente sem as demais, mas a plataforma carregava consigo uma parcela extraordinariamente grande da capacidade necessária para sobreviver e combater.

Blindagem, canhão, motor, sistemas de pontaria e tripulação permitiam que uma seção ou pelotão de carros de combate enfrentasse determinadas ameaças sem depender imediatamente de uma rede digital de sensores e de uma arquitetura permanente de proteção contra sistemas não tripulados. Essa condição mudou.

Hoje, a plataforma precisa saber mais sobre o ambiente antes de entrar nele. Precisa receber informações de sensores externos, compreender onde estão as ameaças anticarro, operar com consciência da presença de drones inimigos e preservar sua conectividade sob guerra eletrônica. Precisa de engenharia quando obstáculos e minas impedem a progressão, de infantaria para proteção aproximada e combate em áreas onde possui limitações, de artilharia para produzir efeitos que o fogo direto não consegue alcançar e de logística para manter elevada disponibilidade.

O carro de combate continua sendo uma plataforma relevante, mas o poder de combate que ele representa deixou de estar contido dentro da própria plataforma.

A experiência de 2023 é mais complexa do que a imagem de um carro de combate destruído

A contraofensiva ucraniana de 2023 é frequentemente utilizada como argumento definitivo contra a guerra de manobra. A sequência de veículos ocidentais atingidos em campos minados tornou-se uma espécie de símbolo da suposta morte do blindado. Entretanto, a análise militar do episódio revela um problema muito mais amplo.

Um estudo publicado pelo Exército dos Estados Unidos em 2025 sobre a experiência ucraniana no eixo Orikhiv–Tokmak mostra que a dificuldade não foi simplesmente a presença de minas ou drones. A força enfrentou um sistema defensivo em profundidade, com obstáculos, campos minados, trincheiras, posições anticarro, fogos indiretos e capacidade de observação. Entre junho e novembro de 2023, forças ucranianas avançaram aproximadamente 20 quilômetros nesse eixo, ao custo de 518 veículos, incluindo 91 carros de combate e 24 veículos de engenharia. O estudo conclui que a experiência evidencia a importância da inteligência detalhada, da organização adequada da força de abertura de corredores, da sincronização entre funções e da capacidade de reduzir obstáculos em profundidade.

Essa constatação é extremamente importante para o debate sobre o futuro dos carros de combate porque demonstra que um veículo blindado pode ser tecnicamente competente e ainda assim fracassar quando inserido em uma operação que não consiga sincronizar suas diversas capacidades.

Em um dos primeiros episódios analisados, veículos de diferentes características de mobilidade tiveram dificuldade para acompanhar os meios de engenharia. Em uma tentativa, a força não conseguiu permanecer adequadamente dentro dos corredores abertos e os veículos acabaram imobilizados e expostos ao fogo direto. A análise americana identifica problemas de reconhecimento, composição da força, apoio direto, redução de obstáculos, sincronização e massa de meios de engenharia.

A conclusão é muito diferente de “os Leopard não funcionaram” ou “os carros de combate foram derrotados pelos drones”. O que esses episódios revelaram foi a dificuldade de executar uma operação complexa de armas combinadas diante de um sistema defensivo preparado e profundamente protegido.

A engenharia talvez seja uma das maiores lições que desapareceram do debate público

A experiência ucraniana também recolocou em evidência uma capacidade frequentemente eclipsada pelo debate sobre plataformas: a engenharia de combate. Uma força blindada pode possuir centenas de carros de combate e ainda ser incapaz de avançar se não conseguir atravessar um campo minado, superar um fosso anticarro, remover obstáculos, abrir e manter corredores e proteger os meios responsáveis pela redução.

O estudo do Exército dos Estados Unidos demonstra como a profundidade dos obstáculos russos excedeu, em determinadas situações, as estimativas ucranianas e como a capacidade de abrir uma passagem tornou-se um dos principais fatores limitadores da progressão. A engenharia não estava apenas abrindo uma rota; estava fazendo isso sob observação e fogo, enquanto o adversário empregava minas, munições vagantes e guerra eletrônica para atacar os próprios meios responsáveis pela abertura dos corredores.

O carro de combate precisa atravessar o obstáculo, mas o sistema que permite que ele atravesse é tão importante quanto o próprio veículo. Sem engenharia suficiente, o blindado pode transformar-se de instrumento de manobra em alvo imóvel. Sem fogos para suprimir o defensor, o equipamento de engenharia pode ser destruído antes de cumprir sua função. Sem reconhecimento adequado, a força pode abrir uma passagem onde não existe profundidade suficiente para sustentar a progressão. Sem recuperação, um veículo imobilizado pode bloquear o próprio corredor.

A guerra, portanto, não pergunta apenas se o blindado consegue avançar. Pergunta se a brigada inteira consegue criar as condições para que o carro de combate avance.

A questão da massa também mudou

Existe uma aparente contradição no campo de batalha contemporâneo: a concentração de forças é mais perigosa porque aumenta a assinatura, mas determinadas operações continuam exigindo massa para superar obstáculos e produzir efeitos. Essa contradição é um dos problemas centrais do combate terrestre contemporâneo.

Uma força que se dispersa demais perde capacidade de concentração de fogo e pode não possuir potência suficiente para romper uma posição. Uma força que se concentra excessivamente se torna um alvo mais atraente para sensores e fogos. A solução não está em abandonar a massa, mas em aprender a concentrar efeitos sem necessariamente concentrar todos os meios físicos no mesmo lugar durante todo o tempo.

Isso exige planejamento e sincronização rigorosos, disciplina nas comunicações, emprego de medidas de dissimulação, adequada dispersão dos meios e capacidade de concentrá-los rapidamente no momento e no local em que a situação operacional exigir.

A experiência ucraniana mostra, inclusive, que a própria engenharia de corredores sofre desse problema. O estudo do Exército dos Estados Unidos observa que uma força precisa reunir quantidade suficiente de equipamentos para reduzir obstáculos em toda a profundidade do sistema defensivo, mas essa concentração ocorre justamente sob observação e ataque do inimigo.

Esse é um dos grandes paradoxos do campo de batalha moderno: a massa continua necessária, mas tornou-se muito mais difícil de esconder, proteger e empregar de forma concentrada. Grandes volumes de tropas e veículos ainda são necessários para romper posições, explorar corredores, sustentar uma linha de avanço e manter a pressão sobre o adversário. O problema é que a mesma concentração que produz poder de combate também facilita a detecção, a identificação e o engajamento por sensores, drones, artilharia e outros sistemas de ataque.

Isso não elimina a necessidade de massa. Muda a forma como ela precisa ser empregada. A concentração de meios passa a depender de informação precisa, sincronização e capacidade de reduzir o tempo de exposição. Uma força precisa ser capaz de dispersar seus elementos durante o deslocamento, preservar sua assinatura, coordenar diferentes componentes e concentrá-los rapidamente quando necessário, sem permanecer tempo suficiente em uma área para permitir ao adversário completar o ciclo de detecção, decisão e engajamento.

É justamente nesse ponto que a qualidade da informação ganha importância. A vantagem já não está apenas em possuir mais meios, mas em saber onde concentrá-los, quando fazê-lo e por quanto tempo mantê-los expostos. O campo de batalha passa a premiar as forças capazes de transformar informação em decisão e decisão em ação antes que o adversário consiga completar o mesmo processo.

A guerra eletrônica entrou definitivamente na equação da sobrevivência

Nenhuma análise séria sobre a experiência ucraniana pode tratar os drones como sistemas independentes da guerra eletrônica. Quanto mais uma força depende de comunicação, navegação, transmissão de vídeo, enlaces de dados e controle remoto, mais esses sistemas se tornam alvos. A capacidade de empregar um drone depende não apenas da existência física do equipamento, mas da possibilidade de mantê-lo conectado, transmitir informações e receber comandos em um ambiente no qual o adversário também procura interferir, localizar e degradar essas redes.

Isso produz uma corrida permanente entre sensor, enlace, interferência e adaptação. Quando uma frequência, protocolo ou método de controle passa a ser explorado pelo adversário, surge a necessidade de alterar procedimentos, equipamentos e formas de emprego. O mesmo vale para os sistemas destinados a neutralizar essas ameaças: uma capacidade de guerra eletrônica que funciona hoje pode perder eficácia amanhã diante de mudanças nos enlaces, na autonomia dos sistemas ou nos métodos empregados para contornar a interferência.

A guerra eletrônica, portanto, deixa de ser uma capacidade de apoio periférica e passa a fazer parte da própria sobrevivência das unidades. Uma força blindada capaz de detectar o drone inimigo, interferir em seu enlace, proteger suas próprias comunicações, preservar a navegação e manter sua consciência situacional possui uma vantagem que não aparece simplesmente na ficha técnica do carro de combate.

Da mesma forma, um carro de combate equipado com excelentes sensores e sistemas de proteção, mas inserido em uma unidade incapaz de manter suas comunicações, preservar seus enlaces e responder à presença de sistemas não tripulados, terá dificuldade para transformar todo seu potencial tecnológico em capacidade operacional.

A plataforma, portanto, é somente uma parte da equação. Sua efetividade depende da rede que a conecta, dos sensores que ampliam sua percepção, dos sistemas que protegem sua assinatura e das unidades que conseguem empregar seus efeitos de maneira coordenada. No campo de batalha contemporâneo, a sobrevivência do carro de combate começa muito antes do primeiro disparo, na capacidade de evitar ser localizado, compreendido e engajado pelo adversário.

A infantaria voltou a ser ainda mais importante, não menos

Outro erro comum é imaginar que a proliferação dos drones tornou a infantaria menos necessária. A experiência da Ucrânia aponta na direção oposta: drones ampliam a capacidade de observar, identificar e atacar, mas não substituem o soldado responsável por ocupar e manter o terreno.

A guerra continua sendo física. Uma posição fortificada precisa ser tomada, uma trincheira precisa ser limpa, um corredor precisa ser protegido, um obstáculo precisa ser reduzido e uma área precisa ser controlada para impedir que o adversário volte a utilizá-la. A proliferação de sistemas não tripulados tornou essa tarefa mais complexa, porque a infantaria passou a operar sob vigilância quase permanente e com maior risco de exposição, mas não eliminou sua necessidade.

É nesse ambiente que o carro de combate e a infantaria continuam formando uma relação essencial. O blindado oferece proteção, mobilidade e poder de fogo direto, enquanto a infantaria amplia a capacidade de observar, ocupar, proteger e controlar o terreno, inclusive em áreas onde o carro de combate não consegue operar com a mesma liberdade.

O mesmo princípio se aplica à artilharia. O carro de combate não substitui os fogos indiretos, assim como uma bateria de artilharia não oferece a mesma capacidade de fogo direto protegido e de acompanhamento imediato das tropas em determinadas situações. A efetividade do conjunto depende menos da substituição de uma capacidade por outra do que da combinação de diferentes meios, cada qual empregado segundo aquilo que pode fazer melhor, com seus efeitos sincronizados no tempo e no espaço.

O conceito correto é “sistema de sistemas”

É nesse ponto que a discussão deixa de ser exclusivamente sobre blindados e passa a envolver a própria arquitetura da força. Um carro de combate moderno não atua isoladamente: sua capacidade de produzir efeitos depende de uma cadeia que começa na obtenção da informação e termina na sustentação logística da operação.

Sensores precisam detectar e identificar; comando e controle precisam transformar dados em decisões; comunicações precisam preservar o fluxo de informações; fogos precisam ser coordenados; a guerra eletrônica precisa proteger as próprias redes e degradar as do adversário; a engenharia precisa garantir a mobilidade; a infantaria precisa proteger, ocupar e controlar o terreno; e a logística precisa manter todos esses elementos em condições de continuar combatendo.

Essa arquitetura funciona como um ciclo contínuo de detecção, decisão, ação, avaliação e reposicionamento. Quanto menor o tempo necessário para completar esse ciclo e quanto maior a capacidade de preservar suas próprias funções enquanto interrompe as do adversário, maior será a vantagem operacional.

É por isso que a avaliação de um carro de combate não pode mais se limitar à comparação entre calibre, massa, espessura de proteção ou potência do motor. Essas características continuam fundamentais, mas seu valor depende da capacidade da força de empregá-las dentro de um sistema que permita ao carro de combate detectar antes, decidir mais rapidamente, sobreviver ao contato e continuar operando depois dele.

Essa é a mudança central produzida pela experiência ucraniana: não a substituição do carro de combate por drones, mas a transformação do modo como o carro de combate precisa ser empregado.

Do campo de batalha à realidade brasileira

É justamente essa mudança que leva a discussão ao Brasil. O debate sobre o futuro dos carros de combate do Exército Brasileiro não deveria começar pela escolha entre MMBT e MBT, mas pela capacidade de combate terrestre que o país pretende possuir nas próximas décadas.

Isso significa considerar, simultaneamente, quantidade, proteção, poder de fogo, mobilidade, sensores, proteção ativa, comando e controle, disponibilidade, recuperação, engenharia, reconhecimento, drones, guerra eletrônica, defesa antiaérea, artilharia, logística, treinamento e capacidade industrial. A plataforma é apenas um dos componentes dessa equação.

Nesse contexto, MMBT e MBT representam diferentes maneiras de equilibrar essas capacidades. O peso interfere diretamente na infraestrutura necessária para seu emprego, no transporte estratégico, na recuperação, na manutenção e na capacidade de operar em determinadas regiões. Ao mesmo tempo, uma redução de massa pode trazer ganhos de mobilidade e flexibilidade logística, mas também pode significar compromissos em proteção, capacidade de crescimento e sobrevivência, dependendo da solução adotada.

O próprio debate dentro do Exército já reconhece que a comparação entre carros de combate médios e carros de combate principais ultrapassa os aspectos puramente técnicos e envolve fatores operacionais, logísticos e estratégicos. A extensão territorial brasileira, as distâncias, a diversidade geográfica e os desafios de transporte entram diretamente nessa equação.

A dimensão brasileira torna essa análise particularmente relevante. O país reúne grandes distâncias, infraestrutura heterogênea e ambientes operacionais distintos, o que impede que características desenvolvidas para outros teatros sejam simplesmente transportadas para a realidade nacional. O veículo precisa ser analisado junto com aquilo que permitirá deslocá-lo, recuperá-lo, abastecê-lo, repará-lo e mantê-lo disponível.

Há ainda uma segunda dimensão: a industrial. Para um programa de carros de combate com horizonte de décadas, a capacidade nacional de sustentar, modernizar e evoluir a plataforma precisa entrar na equação desde o início. Não se trata apenas de receber veículos, mas de preservar a capacidade de manter a força operacional, dominar componentes críticos, integrar novos sistemas e reduzir vulnerabilidades decorrentes de dependências externas.

É aqui que a experiência da Ucrânia deixa de ser apenas uma discussão sobre o desempenho de determinado veículo e passa a oferecer uma referência para a própria estruturação da força brasileira. O desafio não é encontrar o carro de combate que, isoladamente, pareça mais completo, mas estabelecer uma combinação sustentável de plataformas, quantidade, proteção, reconhecimento, drones, guerra eletrônica, fogos, engenharia, defesa antiaérea, recuperação, logística, treinamento e indústria.

A questão central, portanto, não é simplesmente escolher entre MMBT e MBT. É determinar qual arquitetura de força permitirá ao Exército produzir poder de combate suficiente, manter disponibilidade ao longo do tempo e adaptar-se à evolução das ameaças. A Ucrânia não eliminou o carro de combate. Elevou o padrão necessário para empregá-lo.

No campo de batalha contemporâneo, a sobrevivência e a eficácia de um carro de combate começam muito antes do disparo e terminam muito depois dele. A plataforma continua sendo fundamental, mas seu valor real está na capacidade da força de empregá-la dentro de um sistema que consiga detectar, decidir, proteger, manobrar, atacar, recuperar e sustentar.

É essa passagem da plataforma isolada para a capacidade de combate integrada que deveria orientar a próxima geração de carros de combate do Exército Brasileiro.



por Angelo Nicolaci


GBN Defense - A informação começa aqui

Continue Lendo...

sexta-feira, 2 de outubro de 2026

Brasil e França: 200 anos de uma relação que atravessou a história e chegou à Defesa e à tecnologia

0 comentários

Duzentos anos depois de estabelecerem as bases formais de sua relação bilateral, Brasil e França mantêm uma parceria que ultrapassa há muito os limites da diplomacia. O vínculo construído desde 1826 envolve hoje submarinos, helicópteros, exercícios militares, indústria de Defesa, ciência, tecnologia, espaço e uma fronteira terrestre de aproximadamente 730 quilômetros entre o Amapá e a Guiana Francesa. O que começou como uma relação entre dois Estados transformou-se, ao longo de dois séculos, em uma conexão que também produz capacidades industriais, conhecimento e presença estratégica.

O marco formal dessa trajetória está no "Tratado de Amizade, Navegação e Comércio" assinado no Rio de Janeiro em 8 de janeiro de 1826. O documento estabeleceu bases para as relações políticas, comerciais e de navegação entre o Império do Brasil e o Reino da França, consolidando o relacionamento bilateral em um período no qual o Brasil ainda estruturava sua posição internacional após a Independência.

A aproximação, entretanto, já vinha de antes. Em 1816, a "Missão Artística Francesa" chegou ao Brasil levando artistas, arquitetos e intelectuais que exerceriam influência duradoura sobre a formação cultural e artística brasileira. Essa presença seria posteriormente ampliada para áreas como educação, ciência e formação institucional.

Ao longo do século XX, a relação incorporou novas dimensões. No século XXI, Defesa, tecnologia, indústria, espaço, energia e desenvolvimento sustentável passaram a ocupar posição crescente na agenda bilateral. A parceria estratégica estabelecida em 2006 consolidou um relacionamento que atualmente alcança setores nos quais domínio tecnológico e capacidade industrial possuem valor direto para a autonomia dos dois países.

A simbologia dos 200 anos também esteve presente na chegada do novo embaixador da França ao Brasil. Ao apresentar as cópias figuradas de suas cartas credenciais, Julien Steimer recebeu como referência histórica a carta de credenciamento do Marquês Ernest de Cadoine de Gabriac, nomeado representante da França junto ao Imperador do Brasil em 1826. Datado de 19 de setembro daquele ano, o documento expressava a intenção de estreitar os laços e preservar a “perfeita harmonia” entre os dois países. Dois séculos depois, o gesto diplomático estabelece uma ligação direta entre o início da representação francesa no Brasil e a relação estratégica construída atualmente.

É na área de Defesa, porém, que essa transformação se torna particularmente visível.

A cooperação entre as Forças Armadas brasileira e francesas não se resume à aquisição de equipamentos. Exercícios combinados criam oportunidades para o intercâmbio de procedimentos, doutrinas e experiências operacionais em diferentes ambientes. Em 2026, a Operação Jeanne d’Arc reuniu cerca de 1.700 militares brasileiros e franceses no litoral do Rio de Janeiro, integrando meios navais, aeronavais e tropas anfíbias em atividades conduzidas na região da Marambaia.

A dinâmica também se estende a exercícios realizados em território brasileiro e francês, aproximando unidades que precisam operar em ambientes multinacionais e coordenar comunicações, logística, comando e procedimentos de emprego. Essa experiência é particularmente relevante para forças que participam de operações combinadas e para países que buscam ampliar sua capacidade de atuação além de seus próprios teatros de operações.

A cooperação ganha uma dimensão ainda mais singular quando se considera a geografia. Brasil e França possuem uma fronteira terrestre comum de aproximadamente 730 quilômetros, entre o estado do Amapá e a Guiana Francesa. É a maior fronteira terrestre do território francês e faz da França o único país europeu a possuir uma fronteira terrestre com o Brasil.

Essa condição diferencia a relação Brasil–França de qualquer outra parceria do Brasil com uma potência europeia. Os dois países não estão apenas ligados por tratados, comércio e pelo Atlântico: seus territórios se encontram fisicamente na Amazônia, separados pelo rio Oiapoque. A proximidade coloca diante de Brasília e Paris questões concretas relacionadas à segurança de fronteira, circulação de pessoas e mercadorias, migração, proteção ambiental, combate a ilícitos e desenvolvimento regional.

A presença francesa na Guiana acrescenta ainda uma dimensão de Defesa a essa vizinhança. A França mantém território e estruturas militares na América do Sul, enquanto o Brasil possui no Amapá uma área diretamente inserida no contexto amazônico. Exercícios, intercâmbios e mecanismos de coordenação na região transformam a fronteira em espaço de interação permanente entre os dois países.

A própria infraestrutura evidencia essa proximidade. A Ponte Binacional sobre o Oiapoque conecta o município brasileiro de Oiapoque a Saint-Georges, na Guiana Francesa, criando uma ligação terrestre entre o Brasil e o território francês e ampliando as possibilidades de circulação e integração econômica na região.

Essa aproximação operacional e geográfica se soma a programas estratégicos construídos ao longo das últimas décadas. O principal exemplo é o Programa de Desenvolvimento de Submarinos, o PROSUB.

Concebido em 2008 a partir da parceria estabelecida entre Brasil e França, o programa envolve a construção de quatro submarinos convencionais derivados da classe Scorpène, a infraestrutura industrial associada e o apoio ao projeto e construção do primeiro submarino brasileiro convencionalmente armado com propulsão nuclear. O programa também estruturou processos de transferência e absorção de tecnologia e formação de pessoal especializado.

Para o Brasil, o aspecto mais relevante do PROSUB não está apenas nos submarinos que entram em serviço. A construção do Complexo Naval de Itaguaí, a formação de profissionais e o domínio de processos associados à construção e manutenção de submarinos criaram uma infraestrutura que permanece no país. Em programas dessa natureza, a plataforma é apenas uma parte do resultado. A capacidade de projetar, construir, manter e evoluir sistemas complexos representa um ativo estratégico que pode continuar produzindo efeitos muito depois da entrega de cada unidade.

A mesma lógica esteve presente no programa H-XBR. A cooperação com a França resultou no desenvolvimento e produção de 47 helicópteros H225M para as Forças Armadas e para a Presidência da República, com participação da Helibras em Itajubá e um programa de transferência e absorção de tecnologia. O projeto foi concebido para ampliar a capacidade brasileira de conceber, desenvolver e produzir helicópteros de médio porte, indo além da simples montagem das aeronaves.

Agora, essa relação industrial pode entrar em uma nova etapa. Em julho de 2025, Brasil e França assinaram uma Carta de Intenções para avaliar a transformação da fábrica da Helibras, em Itajubá, em um polo de produção e exportação do H145. A proposta prevê investimento estimado em R$ 1 bilhão e a possibilidade de produzir até 200 aeronaves em 15 anos para os mercados nacional e internacional. O projeto ainda não representa uma encomenda contratada.

Paralelamente, está em estudo a possível estruturação de um programa para aquisição do H145M pelas Forças Armadas brasileiras, retomando uma lógica semelhante à adotada no H-XBR: associar uma demanda militar a produção nacional, transferência de tecnologia e desenvolvimento de cadeia industrial. A eventual adoção conjunta pelas três Forças poderia contribuir para dar escala à produção em Itajubá, enquanto as exportações ampliariam o mercado da linha brasileira.

Se avançar, a iniciativa poderá aproveitar a infraestrutura e as competências acumuladas pela Helibras ao longo do H-XBR, transformando uma eventual aquisição em instrumento de consolidação da capacidade industrial brasileira.

Esse é um dos pontos centrais da relação bilateral. A aquisição de um sistema militar pode atender a uma necessidade operacional imediata. Um programa estruturado em torno de produção, transferência tecnológica, cadeia de fornecedores e formação de pessoal pode, entretanto, deixar uma infraestrutura de conhecimento que permanece disponível para projetos futuros.

A parceria também avançou em ciência, educação, espaço, energia e desenvolvimento sustentável. O Ano Cultural Brasil–França de 2025, concebido pelos dois governos para marcar os 200 anos da relação diplomática, ampliou a agenda de intercâmbios e projetos bilaterais e foi inserido no novo plano de ação da parceria estratégica assinado em 2024.

No campo científico e tecnológico, a cooperação envolve instituições brasileiras e francesas em diferentes áreas, incluindo observação da Terra e monitoramento ambiental. Em setores estratégicos, a relação passou a incorporar também discussões sobre energia, minerais estratégicos e novas tecnologias, acompanhando uma agenda internacional na qual acesso a recursos, domínio tecnológico e segurança das cadeias de fornecimento ganharam peso crescente.

Para Brasília, a relevância dessa relação está na possibilidade de trabalhar com um parceiro que possui capacidade própria de desenvolvimento e produção em setores estratégicos. Para Paris, o Brasil representa uma potência regional com base industrial, científica e tecnológica relevante, além de uma posição geográfica singular na América do Sul. A relação, portanto, não se sustenta apenas na tradição diplomática: existe uma convergência concreta de interesses em diferentes áreas.

Essa característica ajuda a explicar por que programas como o PROSUB ultrapassam os limites de uma única Força Armada. O projeto reúne Defesa, engenharia, indústria, ciência, formação de pessoal e infraestrutura, demonstrando como um programa militar pode produzir efeitos em diferentes segmentos da economia e da base tecnológica nacional.

O mesmo princípio pode ser observado na trajetória do H-XBR e, em uma escala ainda em definição, na proposta de produção do H145. Em ambos os casos, a dimensão industrial é tão importante quanto o equipamento entregue ao usuário final. O resultado estratégico depende de quanto conhecimento é absorvido, de quais competências permanecem no país e da capacidade de utilizar essa base em novos projetos.

O contexto internacional também mudou profundamente desde 1826. A competição tecnológica, a disputa por cadeias industriais, a proteção de recursos estratégicos e a crescente complexidade dos sistemas militares fizeram com que relações entre Estados passassem a envolver cada vez mais indústria, conhecimento e capacidade de produção.

É nesse ambiente que Brasil e França chegam ao bicentenário. A relação construída desde o Império preservou suas bases diplomáticas, mas incorporou novas dimensões ao longo do tempo. Hoje, seus efeitos podem ser observados no mar, nos estaleiros, nas fábricas, nos centros de pesquisa, no espaço, nos exercícios militares e, de maneira particularmente concreta, na fronteira amazônica que une fisicamente os dois países.

Para o Brasil, o desafio das próximas décadas será transformar essa relação de longo prazo em capacidade nacional. Isso significa avaliar não apenas o que é adquirido, mas também quanto conhecimento é absorvido, quais competências industriais são desenvolvidas, que cadeias de fornecedores são fortalecidas e até onde os programas conjuntos ampliam a capacidade brasileira de projetar, produzir, manter e evoluir sistemas complexos.

Duzentos anos depois do tratado que estabeleceu as bases formais da relação bilateral, Brasil e França já não constroem seus vínculos apenas por meio de representações diplomáticas e acordos comerciais. A parceria também é construída no mar, nos estaleiros, nas fábricas, nos centros de pesquisa, nos exercícios militares e na fronteira do Oiapoque. É nesses espaços que uma relação histórica deixa de ser apenas patrimônio diplomático e passa a produzir capacidade estratégica.


por Angelo Nicolaci


GBN Defense - A informação começa aqui


Continue Lendo...

Atech abre inscrições para estágio em tecnologia e áreas administrativas

0 comentários

 

Estudantes interessados em iniciar a carreira no setor de tecnologia e em projetos ligados à defesa, segurança pública e controle do tráfego aéreo terão uma nova oportunidade a partir de 5 de outubro. A Atech, empresa de tecnologia do Grupo Embraer, abrirá as inscrições para seu Programa de Estágio, com vagas nas áreas de tecnologia, além de posições nos setores administrativos e operacionais.

Os selecionados terão a oportunidade de atuar em projetos reais desenvolvidos pela empresa, trabalhando ao lado de equipes de engenharia e especialistas responsáveis por sistemas de missão crítica. Na área tecnológica, as atividades estarão relacionadas ao desenvolvimento de soluções de alta complexidade, enquanto os estagiários das áreas administrativas e operacionais participarão do suporte aos projetos e às atividades estratégicas da companhia.

A proposta do programa é inserir os estudantes no ambiente de desenvolvimento de tecnologias utilizadas em setores considerados críticos, permitindo que acompanhem de perto processos de engenharia, desenvolvimento e integração de sistemas.

Segundo a Atech, os estagiários também terão acesso a mentorias com profissionais experientes e a trilhas de capacitação voltadas ao desenvolvimento técnico e comportamental.

“Queremos atrair mentes curiosas e inovadoras que desejam construir tecnologias com propósito e impacto real na sociedade e no mercado global. O estagiário da Atech não é apenas um observador, ele coloca a mão na massa em projetos de ponta, com o suporte contínuo das nossas lideranças”, afirma Camila Lisboa, gerente de Recursos Humanos da Atech.

Entre os benefícios oferecidos estão bolsa-auxílio compatível com o mercado, assistência médica e odontológica, seguro de vida e auxílio-transporte. O programa também inclui cartão flexível para alimentação e refeição, acesso à plataforma WellHub, folga no mês de aniversário e vale-presente.

O processo seletivo terá etapas conduzidas pelas equipes de Recursos Humanos e pelos gestores das áreas, com avaliação das competências técnicas e do perfil dos candidatos.

A Atech atua no desenvolvimento e integração de sistemas de missão crítica para defesa, governo, segurança pública e gerenciamento do tráfego aéreo. Como empresa de tecnologia do Grupo Embraer, trabalha com soluções que integram sensores, plataformas, sistemas de comando e centros de controle.

Seu portfólio inclui tecnologias de C5ISR e consciência situacional, UATM, sistemas embarcados, simuladores, instrumentação e controle e defesa cibernética. A empresa possui operações no Brasil e em Portugal e participa de programas nacionais e internacionais.

As inscrições começam em 5 de outubro e podem ser realizadas pela página de carreiras da Atech (Click Aqui), onde também estarão disponíveis os requisitos e detalhes das vagas.

Continue Lendo...

Mirage 2000-5F ucraniano intercepta míssil russo Banderol com canhão de 30 mm

0 comentários

 

Um Mirage 2000-5F da Força Aérea da Ucrânia interceptou um míssil russo S8000 Banderol utilizando o canhão interno de 30 mm da aeronave, em um episódio que evidencia uma das possibilidades de emprego da aviação de caça na defesa contra armas de ataque de baixa assinatura e reduzidas dimensões.

A informação foi divulgada por fontes especializadas ucranianas, que relatam que o piloto empregou o armamento de bordo em vez de um míssil ar-ar para destruir o alvo. A ação chama atenção pelo perfil do Banderol, que, diferentemente de drones de ataque como o Shahed-136, utiliza propulsão a reação e apresenta características próprias de uma arma de ataque de pequeno porte.

O Mirage 2000-5F utiliza dois canhões automáticos DEFA 554 de 30 mm instalados na fuselagem. Cada arma possui capacidade para aproximadamente 125 projéteis e cadência de tiro de até 1.800 disparos por minuto. O sistema emprega munição 30×113 mm, incluindo tipos explosivos, incendiários e perfurantes.

A elevada cadência de fogo permite concentrar uma grande quantidade de projéteis em uma janela de engajamento extremamente curta. Para um alvo pequeno e veloz, entretanto, o emprego do canhão exige uma solução de tiro precisa e uma aproximação que coloque a aeronave dentro de uma distância compatível com a arma.

O aspecto mais relevante do episódio está justamente no tipo de alvo. O S8000 Banderol é descrito como um míssil de ataque de pequeno porte, propulsionado por um motor turbojato. Dados divulgados por fontes especializadas apontam velocidades máximas na faixa de 620 a 650 km/h e velocidade de cruzeiro entre 520 e 560 km/h, além de alcance de até aproximadamente 500 quilômetros.

Essa característica o diferencia de drones de ataque como o Shahed-136, que utiliza propulsão a pistão e hélice e apresenta velocidade significativamente menor. A diferença é relevante para a defesa aérea, uma vez que um alvo propulsionado por motor a reação reduz o tempo disponível para detecção, aproximação e engajamento.

O Banderol também não deve ser tratado simplesmente como uma versão mais rápida de um drone. Trata-se de uma arma de ataque de emprego distinto, com propulsão a jato, alcance e ogiva próprios. Por isso, a interceptação realizada pelo Mirage 2000-5F merece destaque não apenas pela utilização do canhão de 30 mm, mas principalmente pelo tipo de alvo envolvido.

A arma utiliza uma ogiva de fragmentação de alto explosivo identificada como OFBC-150. Segundo os dados divulgados sobre o sistema, a ogiva possui massa de aproximadamente 114 kg, dos quais cerca de 49,5 kg correspondem à carga explosiva.

O Banderol representa uma evolução importante dentro do conjunto de ameaças aéreas enfrentadas pela Ucrânia. Sua propulsão a jato proporciona velocidade superior à de drones de ataque convencionais, reduzindo o tempo disponível para detecção, identificação e interceptação.

O emprego do canhão pelo Mirage 2000-5F também chama atenção pelo aspecto econômico e pela gestão dos estoques de armamento. Um engajamento realizado com munição interna não consome um míssil ar-ar, como os MICA empregados pelos Mirage ucranianos, permitindo preservar armamentos guiados para situações nas quais seu emprego seja necessário.

Isso não significa, entretanto, que o canhão substitua os mísseis na defesa contra alvos de cruzeiro. A eficácia desse tipo de interceptação depende de fatores como detecção antecipada, geometria do encontro, distância, velocidade relativa, solução de tiro e capacidade do piloto de colocar a aeronave em uma posição adequada para o disparo.

O episódio demonstra, portanto, a importância de manter diferentes opções de engajamento em uma arquitetura de defesa aérea. Para a Ucrânia, que precisa administrar estoques de armamentos ocidentais diante de uma campanha aérea prolongada, a possibilidade de empregar aeronaves de combate com seus próprios canhões contra determinados alvos acrescenta uma alternativa ao emprego de mísseis ar-ar.

A incorporação dos Mirage 2000-5F à aviação ucraniana trouxe uma plataforma ocidental para um ambiente de combate de elevada intensidade. O episódio do Banderol mostra como uma capacidade concebida originalmente para combate aéreo e ataque pode ser empregada em uma função adicional dentro de uma arquitetura mais ampla de defesa contra ameaças aéreas.


GBN Defense - A informação começa aqui

Continue Lendo...

Taiwan recebe primeiros F-16V Block 70 de uma encomenda de 66 aeronaves

0 comentários

Taiwan recebeu nesta sexta-feira, 2 de outubro, os dois primeiros caças F-16V Block 70 de um total de 66 aeronaves encomendadas aos Estados Unidos em 2019. Os aviões pousaram na Base Aérea de Chihhang, em Taitung, no leste da ilha, após uma viagem que incluiu escalas no Havaí e em Guam.

A entrega ocorre após meses de atrasos no programa, que inclui uma encomenda avaliada em aproximadamente US$ 8 bilhões. Problemas relacionados ao desenvolvimento e à integração de software contribuíram para postergar o cronograma originalmente previsto para o fornecimento das aeronaves.

O ministro da Defesa de Taiwan, Wellington Koo, afirmou que outros F-16V deverão chegar ainda este ano, embora não tenha apresentado um calendário detalhado. “É claro que não teremos entregue apenas esses dois até o final do ano”, declarou o ministro a jornalistas no Parlamento em Taipei.

A nova frota representa a incorporação de uma configuração significativamente mais avançada do F-16 à Força Aérea da República da China. O Block 70 combina a arquitetura modernizada do F-16V com novos sistemas de missão, aviônicos e radar, ampliando a capacidade de detecção, acompanhamento e emprego de armamentos.

A configuração utiliza o radar AESA Northrop Grumman AN/APG-83, desenvolvido especificamente para modernizar a capacidade de combate do F-16. O conjunto de sensores e aviônicos permite ampliar a consciência situacional do piloto e melhorar o emprego da aeronave em missões de defesa aérea e ataque.

Os novos caças também deverão complementar os F-16A/B que já operam em Taiwan. A ilha concluiu em 2023 o programa de modernização de sua frota existente para o padrão F-16V, criando uma estrutura comum entre aeronaves modernizadas e os novos Block 70.

Com a incorporação das 66 aeronaves novas, Taiwan deverá superar a marca de 200 F-16 em sua frota. A combinação entre os aviões modernizados e os novos exemplares amplia a disponibilidade de uma plataforma já conhecida pelos operadores taiwaneses, reduzindo a necessidade de introduzir uma nova família de caça.

A aquisição ocorre em um cenário de elevada atividade militar chinesa nas proximidades de Taiwan. Segundo a Reuters, a Força Aérea taiwanesa precisa realizar missões de reação e acompanhamento com frequência diante da presença de aeronaves militares chinesas nas proximidades da ilha.

O F-16V não constitui, contudo, a única frente de modernização da aviação de combate taiwanesa. A plataforma integra uma estrutura de defesa que também depende de radares terrestres, sistemas de defesa aérea, armamentos de longo alcance e meios navais e terrestres destinados a aumentar a capacidade de resposta diante de uma eventual crise.

A chegada dos dois primeiros Block 70 ocorre ainda em meio às discussões entre Taipei e Washington sobre novos fornecimentos militares. Taiwan continua mantendo os Estados Unidos como seu principal fornecedor internacional de sistemas de defesa, enquanto Pequim se opõe à venda de armamentos norte-americanos para a ilha.

Para a Lockheed Martin, o programa taiwanês mantém o país entre os principais operadores do F-16 no mundo. A empresa registra que Taiwan opera a família F-16 há décadas, tendo empregado anteriormente versões F-16A/B modernizadas no âmbito do programa F-16V.

A entrega dos primeiros dois exemplares marca, assim, o início da renovação efetiva de uma parcela da frota de caças taiwanesa. A questão central para o programa passa agora pela cadência de produção e entrega das 64 aeronaves restantes, além da capacidade de Taiwan de integrar os novos F-16V à estrutura existente de comando, controle, sensores e armamentos.


GBN Defense - A informação começa aqui

Continue Lendo...
 

GBN Defense - A informação começa aqui Copyright © 2012 Template Designed by BTDesigner · Powered by Blogger