segunda-feira, 2 de novembro de 2026

Marinha cria Comando do Grupamento de Embarcações de Desembarque e reorganiza estrutura de apoio às operações anfíbias

A Marinha do Brasil criou o Comando do Grupamento de Embarcações de Desembarque (ComGptED), nova Organização Militar sediada em Niterói (RJ), destinada a contribuir para a realização do Movimento Navio-Terra (MNT) durante as operações anfíbias. Estabelecida pela Portaria nº 264/MB/MD, assinada em 23 de outubro de 2026 e publicada no Diário Oficial da União em 26 de outubro, a medida representa um movimento de especialização organizacional em uma capacidade essencial para a projeção de forças a partir do mar.

A decisão merece atenção não apenas pela criação de uma nova estrutura de comando, mas também por seu contexto histórico e operacional. A Marinha já possui experiência anterior na organização de meios especializados para o desembarque anfíbio. Em 1991, as Embarcações de Desembarque de Carga Geral (EDCG) da Classe Guarapari deixaram de ser classificadas como navios de 4ª classe e passaram à subordinação do então Grupo de Embarcações de Desembarque (GED), posteriormente incorporado à estrutura do Comando do 1º Esquadrão de Apoio (ComEsqdAp-1).

Mais de três décadas depois, a criação do ComGptED estabelece novamente uma organização militar especificamente identificada com essa capacidade, agora com estrutura administrativa e responsabilidades de implantação formalmente definidas. O movimento indica a retomada da especialização organizacional em torno das embarcações responsáveis por estabelecer a ligação entre os navios e a área de desembarque, atividade que exige preparo técnico, coordenação e disponibilidade permanente dos meios.

Uma estrutura própria, mas integrada à Esquadra

A Portaria nº 264/MB/MD estabelece que o ComGptED ficará subordinado ao Comando do 1º Esquadrão de Apoio, será comandado por um Capitão de Fragata do Corpo da Armada e terá semiautonomia administrativa. Sua sede será em Niterói, aproveitando a estrutura de apoio já existente na região.

Um aspecto particularmente interessante da decisão está na distribuição das responsabilidades administrativas. O Centro de Intendência da Marinha em Niterói (CeIMNi) ficará encarregado de prover os recursos de rancho e do pagamento de pessoal, enquanto o Comando da Força de Superfície (ComForSup) será responsável pelo alojamento.

Essa divisão demonstra que a nova organização não foi concebida para reproduzir integralmente estruturas administrativas já existentes. Em vez disso, sua implantação utilizará serviços de organizações militares estabelecidas, concentrando o novo comando nas atribuições relacionadas à sua finalidade.

A escolha de Niterói também possui relevância logística. A proximidade com o Complexo Naval de Mocanguê, a Base Naval do Rio de Janeiro e os meios da Esquadra proporciona um ambiente favorável à integração com as organizações que participam do preparo, apoio e emprego das embarcações.

A criação formal do comando, entretanto, não significa que sua estrutura já esteja plenamente ativada. A própria portaria estabelece uma fase de implantação conduzida pelo Núcleo de Implantação do ComGptED (NI-ComGptED), responsável por assumir gradualmente a estrutura física, organizacional e orçamentária da nova unidade.

O núcleo terá regulamento provisório aprovado pelo Comandante de Operações Navais e será automaticamente extinto durante a cerimônia de Mostra de Ativação do ComGptED. A data dessa cerimônia, assim como o efetivo previsto e a dotação definitiva de meios, ainda não foram divulgados no ato.

O histórico das EDCG e a experiência acumulada pela Marinha

A trajetória das embarcações de desembarque brasileiras ajuda a compreender a importância dessa reorganização. As EDCG da Classe Guarapari foram concebidas a partir de um projeto baseado no modelo LCU-1600 da Marinha dos Estados Unidos, com construção realizada no Arsenal de Marinha do Rio de Janeiro.

Após sua incorporação em 1980, essas embarcações passaram por mudanças administrativas e operacionais. Em 1991, foram transferidas para o então Grupo de Embarcações de Desembarque. Posteriormente, passaram à estrutura do Comando do 1º Esquadrão de Apoio.

Em novembro de 2021, após aproximadamente três décadas, as EDCG Guarapari, Tambaú e Camboriú foram reincorporadas à Armada como navios de 4ª classe, depois de um período de revitalização que envolveu obras estruturais, adaptações e melhorias nos compartimentos habitáveis.

A EDCG Marambaia, incorporada à Marinha em 2016, ampliou essa capacidade. Originalmente pertencente à Marinha Nacional Francesa, a embarcação foi adquirida juntamente com o NDM Bahia e passou a integrar a estrutura brasileira de apoio às operações anfíbias.

Atualmente, a relação de meios da Esquadra publicada pela Marinha identifica quatro EDCG em serviço: Marambaia, Guarapari, Tambaú e Camboriú. Essas embarcações são destinadas ao transporte e desembarque de pessoal, viaturas, equipamentos e suprimentos, podendo operar diretamente em praias e áreas sem instalações portuárias.

Entretanto, a Portaria nº 264/MB/MD não determina expressamente quais dessas embarcações serão subordinadas ao novo comando. A definição dessa composição será importante para compreender como a Marinha pretende organizar a gestão, o preparo e o emprego dos meios a partir da ativação do ComGptED.

Marambex II demonstra a dimensão do Movimento Navio-Terra

A importância de uma estrutura especializada fica mais clara quando observamos o volume de atividades exigido em uma operação real. Em agosto de 2025, durante a comissão MARAMBEX II, a EDCG Marambaia conduziu uma série de operações com o Corpo de Fuzileiros Navais, contribuindo para a formação e o aperfeiçoamento de sargentos e cabos nas disciplinas práticas de Infantaria e Engenharia.

Entre os dias 11 e 13 de agosto, a embarcação participou da mobilização de dois Carros-Lagarta Anfíbios (CLAnf), nove viaturas UNIMOG, três caminhões e aproximadamente 540 militares. As atividades envolveram embarques e desembarques em diferentes pontos do litoral fluminense, incluindo a Base de Fuzileiros Navais da Ilha das Flores, a Base de Fuzileiros Navais da Ilha do Governador, a Praia de Itacuruçá e a Praia B10, na Ilha da Marambaia.

Ao longo da comissão, foram realizadas 21 abicagens, incluindo operações diurnas e noturnas. A atividade demonstrou a importância do planejamento e da coordenação necessários para transportar pessoal e equipamentos entre o navio e diferentes pontos do litoral, mantendo a segurança e a continuidade do movimento.

O exercício também evidencia que o emprego das EDCG não se limita ao transporte de tropas. Essas embarcações desempenham papel importante na movimentação de viaturas, equipamentos de engenharia, suprimentos e outros componentes necessários à sustentação de uma força em terra.

O desempenho observado na MARAMBEX II oferece um exemplo concreto da complexidade da atividade que estará no centro das atribuições do novo comando. Não se trata apenas de conduzir embarcações até a praia, mas de coordenar uma sequência de movimentos que precisa acompanhar as necessidades da força desembarcada.

O elo entre a Esquadra e os Fuzileiros Navais

O Movimento Navio-Terra representa uma das etapas determinantes de uma operação anfíbia. É nesse processo que a capacidade de transporte dos navios se converte efetivamente em presença e poder de combate em terra.

A operação exige integração entre os navios de transporte, as embarcações de desembarque e os elementos da Força de Fuzileiros da Esquadra. A sequência de desembarque precisa considerar a natureza da missão, as condições hidrográficas, o estado do mar, as características do litoral e a prioridade de introdução dos diferentes componentes da força.

Nesse contexto, a criação do ComGptED pode favorecer a concentração de conhecimentos, a padronização de procedimentos e o aperfeiçoamento do adestramento das tripulações. Também abre espaço para uma gestão mais especializada das embarcações e das atividades relacionadas ao desembarque.

A importância dessa integração cresce quando consideramos os principais meios de projeção anfíbia da Marinha, como o Navio Doca Multipropósito Bahia e o Navio-Aeródromo Multipropósito Atlântico. Ambos ampliam as possibilidades de transporte e emprego de forças, mas sua contribuição depende de uma cadeia logística capaz de levar pessoal e equipamentos até a área de operação.

O desembarque pode ocorrer por diferentes modalidades, incluindo embarcações de superfície, viaturas anfíbias e meios aeronavais. A combinação dessas capacidades permite desenvolver operações mais flexíveis, mas exige coordenação entre os componentes navais e terrestres.

A especialização do comando responsável pelas embarcações de desembarque deve ser compreendida dentro dessa arquitetura. Seu papel não substitui as responsabilidades dos navios de transporte ou dos Fuzileiros Navais, mas busca fortalecer um elo específico e indispensável à execução das operações anfíbias.

A reorganização precisa ser acompanhada pela disponibilidade dos meios

Apesar da relevância organizacional da iniciativa, sua contribuição efetiva dependerá das condições materiais e humanas disponibilizadas à nova unidade. A existência de um comando especializado não resolve, isoladamente, os desafios relacionados à disponibilidade das embarcações, à manutenção, à renovação dos meios e à formação de tripulações.

As EDCG representam ativos importantes, mas sua idade e a necessidade de manutenção contínua tornam indispensável acompanhar os planos de revitalização e eventual substituição. A continuidade da capacidade anfíbia exige previsibilidade orçamentária, disponibilidade de peças, infraestrutura de apoio e investimentos compatíveis com a importância operacional desses meios.

Também será necessário conhecer como ficará a distribuição de pessoal entre o novo comando e as organizações que atualmente participam do preparo e apoio das embarcações. A definição de responsabilidades sobre manutenção, adestramento, gestão dos meios e planejamento operacional permitirá avaliar a extensão da reorganização promovida pela Marinha.

Outro ponto relevante é a evolução das ameaças no ambiente litorâneo. A presença de sensores, sistemas não tripulados, armas de precisão e capacidades de negação de acesso aumenta as exigências sobre qualquer força que precise realizar um desembarque. Nesse cenário, a eficiência do Movimento Navio-Terra dependerá cada vez mais da integração, da consciência situacional e da capacidade de coordenar diferentes meios sob condições operacionais adversas.

A criação do ComGptED representa, portanto, um passo organizacional importante, mas sua efetividade deverá ser medida pela capacidade de transformar especialização administrativa em maior disponibilidade, preparo e eficiência operacional.

Uma estrutura especializada para uma capacidade essencial

A decisão da Marinha de criar o Comando do Grupamento de Embarcações de Desembarque recupera uma dimensão importante da organização dos meios anfíbios brasileiros. O histórico iniciado com o antigo Grupo de Embarcações de Desembarque em 1991, demonstra que a especialização dessa atividade já fazia parte da experiência institucional da Força. A nova organização estabelece uma estrutura própria, com subordinação, responsabilidades administrativas e processo de implantação definidos.

O próximo passo será acompanhar a Mostra de Ativação, a composição do efetivo e a definição dos meios que ficarão sob sua responsabilidade. Também será importante conhecer os planos de manutenção e modernização das EDCG, além das atribuições específicas que serão assumidas pelo novo comando.

Em operações anfíbias, a capacidade de transportar tropas até a área de desembarque só se concretiza quando existe uma estrutura capaz de colocar esses homens, viaturas e equipamentos em terra e manter o fluxo logístico necessário à missão. É nesse ponto que se encontra a importância do Movimento Navio-Terra.

Com a criação do ComGptED, a Marinha estabelece uma organização dedicada a fortalecer esse elo entre a Esquadra e a força projetada em terra. O desafio será dotá-la das condições necessárias para que a especialização organizacional se traduza em capacidade operacional efetiva.


por Angelo Nicolaci


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