A configuração apresentada pelos Emirados Árabes Unidos para a lancha de patrulha FA-400, equipada com o sistema de defesa de ponto GÖKDENİZ 100/35StA da turca ASELSAN, e lançadores do foguete guiado LOGIR da sul-coreana LIG Nex1, chama atenção por uma razão que vai além da própria plataforma. O conjunto materializa uma tendência que vem ganhando espaço no ambiente naval: a necessidade de distribuir a capacidade antidrone por diferentes meios, combinando armas de menor custo e elevada disponibilidade com sensores e sistemas de comando capazes de enfrentar ameaças aéreas em quantidade crescente.
A experiência recente em conflitos no Oriente Médio e na Europa demonstrou que drones deixaram de representar apenas uma ameaça complementar e passaram a exigir respostas específicas das forças navais. Sistemas relativamente baratos podem ser empregados em grande número, obrigando os defensores a encontrar uma relação mais equilibrada entre custo, disponibilidade de munição e probabilidade de interceptação. Para navios de alto valor, essa equação é particularmente importante, porque empregar armamentos sofisticados e caros contra cada ameaça de baixo custo pode rapidamente comprometer a sustentabilidade da defesa.
É nesse cenário que uma solução como o GÖKDENİZ 100/35StA ganha relevância. O sistema utiliza dois canhões automáticos de 35 mm, com cadência combinada de aproximadamente 1.100 disparos por minuto, e pode empregar a munição ATOM 35, desenvolvida para aumentar a efetividade contra alvos aéreos de pequenas dimensões. Na configuração naval autônoma empregada pela Marinha Turca, o conjunto pode operar associado ao radar de busca CENK 200-N e ao sistema AKREP 100-N, que reúne recursos de controle de tiro e sensores eletro-ópticos.
A vantagem está na combinação entre sensor, controle de tiro e volume de fogo. Contra drones de pequeno porte, a capacidade de colocar uma grande quantidade de projéteis na trajetória do alvo pode oferecer uma alternativa mais sustentável do que recorrer sistematicamente a mísseis. Com a utilização de munição de fragmentação aérea, o sistema também pode aumentar a probabilidade de neutralização sem depender necessariamente de um impacto direto, característica particularmente útil contra alvos pequenos e de difícil engajamento.
A configuração dos Emirados acrescenta ainda o LOGIR, criando uma segunda opção de engajamento. O foguete guiado por imagem infravermelha permite o emprego no conceito de "fire and forget" (disparar e esquecer) e amplia o envelope de resposta contra determinados alvos. O resultado é uma arquitetura que combina diferentes tipos de armamento em uma mesma plataforma, permitindo ao operador escolher a resposta de acordo com a distância, o perfil e o comportamento da ameaça.
Para a Marinha do Brasil, esse conceito merece ser observado com atenção porque oferece uma possibilidade de complementar, e não substituir, os sistemas de defesa já existentes e planejados. A questão central não seria simplesmente adquirir outro sistema de armas, mas ampliar a quantidade de plataformas capazes de contribuir para a defesa antidrone, e ao mesmo tempo, preservar os armamentos de maior alcance e valor para as ameaças que realmente exigem esse nível de resposta.
Nas fragatas classe Tamandaré, por exemplo, um sistema de defesa de ponto dessa categoria poderia acrescentar uma camada específica contra drones e outras ameaças aéreas de baixa altitude. A integração teria de considerar espaço, peso, geração de energia, sensores e compatibilidade com o sistema de combate, mas o conceito é coerente com a necessidade de criar diferentes níveis de defesa em torno de uma plataforma de elevado valor estratégico. Uma fragata equipada com sensores adequados, guerra eletrônica, defesa de ponto e armamentos de maior alcance teria maior flexibilidade para administrar diferentes tipos de ameaça sem depender de uma única solução.
O mesmo raciocínio pode ser aplicado ao NAM Atlântico. Por suas dimensões, valor operacional e importância para as operações da Esquadra, o navio exige uma arquitetura defensiva capaz de lidar também com ameaças assimétricas. Drones podem ser empregados para reconhecimento, designação de alvos ou ataques diretos, e uma capacidade de defesa de ponto dedicada poderia funcionar como uma camada adicional para proteger a unidade contra sistemas que ultrapassem outras medidas de defesa.
É justamente nesse ponto que o conceito apresentado pelos Emirados pode oferecer uma reflexão mais interessante para a Marinha. A defesa antidrone não precisa estar concentrada exclusivamente nas plataformas de maior porte. Navios-patrulha e outras unidades menores, quando equipados de forma adequada e conectados a uma arquitetura de comando e controle, podem funcionar como elementos complementares de uma rede de proteção, ampliando a quantidade de sensores e armas disponíveis em determinada área.
O NPaOc Oiapoque é um exemplo de plataforma que poderia ser analisada sob essa perspectiva. Não se trata de transformar um navio-patrulha em uma unidade de defesa antiaérea, mas de avaliar até que ponto uma capacidade de defesa de ponto poderia ampliar sua utilidade em determinados cenários, especialmente em missões de patrulha, presença e proteção de áreas marítimas. A possibilidade de contar com mais unidades capazes de detectar e enfrentar drones poderia ser relevante em uma força que precisa distribuir sua presença por uma área marítima de dimensões continentais.
Essa lógica também altera a forma de pensar a defesa da Amazônia Azul. Uma arquitetura composta exclusivamente por grandes navios de combate oferece elevada capacidade individual, mas naturalmente limita o número de pontos que podem ser protegidos simultaneamente. A distribuição de sistemas antidrone por diferentes classes de embarcações permitiria criar uma malha mais ampla, na qual fragatas, navios de maior porte e unidades de patrulha poderiam contribuir, dentro de suas respectivas capacidades, para a vigilância e proteção de áreas de interesse.
O conceito dos Emirados é particularmente interessante porque nasce justamente da necessidade de ampliar essa distribuição. A FA-400, construída pela subsidiária ADSB do EDGE Group, passa a incorporar uma capacidade que normalmente seria associada a navios de combate mais sofisticados. Isso permite estudar uma abordagem na qual plataformas menores assumem parte da responsabilidade pela defesa de ponto e liberam os meios mais complexos para suas missões prioritárias.
Para o Brasil, essa possibilidade ganha importância quando considerada sob a perspectiva da relação entre quantidade e capacidade. A Marinha precisa proteger uma extensa área marítima, mas não seria economicamente viável imaginar que todos os seus pontos de interesse sejam permanentemente cobertos por navios de primeira linha equipados com os sistemas mais sofisticados disponíveis. A incorporação de capacidades antidrone em diferentes níveis pode oferecer uma alternativa para ampliar a cobertura sem necessariamente reproduzir o custo e a complexidade de uma fragata em cada plataforma.
O GÖKDENİZ também não parte de um estágio experimental. O sistema já foi selecionado para diferentes classes de navios de guerra turcos e para programas navais de países como Paquistão, Malásia, Ucrânia, Romênia, Turcomenistão e Filipinas. Essa presença internacional demonstra uma trajetória de integração naval que, embora não elimine os desafios de adaptação a uma plataforma brasileira, reduz os riscos associados à adoção de uma solução ainda imatura.
Outro ponto que deveria pesar em uma eventual avaliação brasileira é a possibilidade de integração com a Base Industrial de Defesa. Mais importante do que simplesmente importar uma torre seria estabelecer condições para que a indústria nacional participe da integração, manutenção, suporte e evolução da capacidade. A experiência brasileira em sensores, sistemas eletrônicos, comando e controle e armamentos cria espaço para que uma eventual solução estrangeira seja incorporada a uma arquitetura nacional, em vez de funcionar como um equipamento isolado.
Existe ainda uma questão econômica que tende a ganhar importância nos próximos anos. A proliferação dos drones está criando uma assimetria entre o custo do ataque e o custo da defesa. Quando um sistema não tripulado relativamente barato pode obrigar o defensor a utilizar uma arma de valor muito superior, o atacante passa a explorar justamente essa diferença. Uma combinação entre guerra eletrônica, armas de defesa de ponto, munições programáveis e armamentos guiados pode reduzir essa assimetria e preservar sistemas mais caros para alvos que efetivamente justifiquem seu emprego.
Nesse sentido, o GÖKDENİZ apresenta uma característica particularmente interessante para a Marinha do Brasil: pode ser encarado não apenas como um CIWS, mas como parte de uma arquitetura antidrone mais ampla. A combinação de sensores, canhões de 35 mm e munição ATOM 35, complementada no caso dos Emirados pelos foguetes LOGIR, oferece um conceito que pode ser adaptado a diferentes níveis de emprego e integrado a uma rede de defesa.
Para as fragatas classe Tamandaré, o NAM Atlântico e, em uma avaliação mais ousada, plataformas menores como o NPaOc Oiapoque, a discussão poderia começar justamente por esse conceito. A questão não seria simplesmente escolher um novo armamento, mas determinar como ampliar a capacidade de defesa de ponto e antidrone da Esquadra sem concentrá-la exclusivamente em poucas plataformas de alto valor.









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