Empresas chinesas fornecedoras de terras raras estão suspendendo ou recusando parte dos embarques destinados aos Estados Unidos, segundo fontes ouvidas pela Reuters, em um movimento associado ao receio de sofrer represálias de Pequim. A medida ocorre em meio ao agravamento das tensões entre os dois países e poucas semanas antes da visita do presidente chinês Xi Jinping a Washington, prevista para 24 de setembro.
A interrupção não representa, até o momento, um bloqueio formal e generalizado das exportações chinesas para os Estados Unidos. O problema está relacionado principalmente às decisões individuais de fornecedores que passaram a evitar operações com empresas norte-americanas diante do aumento dos riscos regulatórios e políticos. Segundo as fontes, algumas companhias deixaram de realizar embarques desde o início de agosto, depois que Pequim aplicou sanções contra a Responsible Business Alliance (RBA), organização norte-americana ligada ao monitoramento de cadeias de suprimentos.
O episódio demonstra, entretanto, a vulnerabilidade das cadeias industriais norte-americanas diante da concentração chinesa no mercado de minerais críticos. Os Estados Unidos vêm pressionando Pequim para cumprir compromissos assumidos em negociações anteriores, que previam maior previsibilidade no fluxo das licenças de exportação de terras raras. Apesar dessas garantias, empresas norte-americanas continuam enfrentando dificuldades para obter determinados materiais.
Entre os materiais sob maior atenção estão o ítrio, o fosfeto de índio e o tungstênio, empregados em diferentes segmentos de alta tecnologia. Esses insumos estão presentes em componentes utilizados pelas indústrias aeroespacial, de defesa, semicondutores e equipamentos médicos, o que transforma qualquer interrupção prolongada em uma questão que ultrapassa o comércio e alcança diretamente a segurança econômica e tecnológica dos Estados Unidos.
A dimensão estratégica é particularmente relevante para o setor de defesa. Terras raras e outros minerais críticos são empregados em componentes eletrônicos, sistemas de orientação, sensores, motores elétricos, equipamentos de comunicação e diferentes tecnologias utilizadas em aeronaves, mísseis e sistemas militares. A dependência de uma única potência para etapas importantes dessas cadeias cria uma vulnerabilidade que não pode ser resolvida apenas pela formação de estoques.
É nesse contexto que o Brasil ganha importância crescente na estratégia norte-americana de diversificação. Em abril, a empresa norte-americana USA Rare Earth anunciou a aquisição da brasileira Serra Verde por US$ 2,8 bilhões, em uma operação que inclui o projeto Pela Ema, em Goiás, rico em terras raras pesadas como disprósio e térbio. A operação faz parte de uma estratégia de expansão da empresa sobre mineração, processamento e produção de ímãs permanentes, materiais considerados essenciais para setores como defesa, eletrônica e energia.
A aquisição também tem uma dimensão diretamente relacionada à política industrial dos Estados Unidos. Antes do negócio, a Serra Verde havia recebido um acordo de financiamento de US$ 565 milhões do governo norte-americano, que incluía a possibilidade de participação acionária, enquanto a USA Rare Earth havia obtido um pacote de financiamento de US$ 1,6 bilhão com apoio de Washington. Dessa forma, embora a aquisição da Serra Verde não tenha sido realizada diretamente pelo governo dos Estados Unidos, o movimento está inserido em uma estratégia apoiada financeiramente por Washington para ampliar fontes alternativas de minerais críticos.
A Serra Verde possui ainda uma característica particularmente relevante para essa estratégia: sua produção está concentrada em terras raras pesadas, incluindo disprósio e térbio, elementos importantes para a fabricação de ímãs permanentes de alto desempenho. A mina Pela Ema iniciou operações em 2024 e a empresa pretende alcançar uma produção anual de 6.400 toneladas até 2027. A aquisição, portanto, oferece à USA Rare Earth acesso a um ativo localizado fora da cadeia chinesa justamente em um momento de crescente preocupação com a segurança do fornecimento.
O movimento das empresas chinesas mostra por que esse tipo de ativo passou a ser tratado como questão estratégica. A China mantém posição dominante não apenas na mineração de terras raras, mas principalmente nas etapas de separação, processamento e fabricação de produtos de maior valor agregado. Isso significa que possuir reservas minerais não é suficiente para eliminar a dependência: é necessário desenvolver capacidade industrial capaz de transformar o minério em materiais utilizáveis pela indústria.
O histórico recente reforça essa preocupação. A China retomou em julho parte das exportações de ítrio depois de uma interrupção de aproximadamente dois meses, mas atrasos na aprovação de licenças continuam afetando compradores dos Estados Unidos, Japão e Índia. As exportações chinesas para o Japão de materiais como térbio, gálio e ítrio também sofreram forte redução, mostrando que a pressão sobre essas cadeias não está limitada à relação sino-americana.
Para Washington, o desafio passa a ser reduzir a exposição a uma cadeia de suprimentos sobre a qual Pequim possui capacidade significativa de influência. Isso envolve ampliar a produção doméstica, desenvolver fornecedores em países aliados e acelerar investimentos em processamento e reciclagem. A estratégia também explica o crescente interesse norte-americano por projetos no exterior, como o da Serra Verde, porque abrir uma nova mina nos Estados Unidos não resolve, por si só, a dependência das etapas posteriores da cadeia.
O momento também é relevante do ponto de vista diplomático. A questão das terras raras está entre os temas que devem ser discutidos nas negociações entre Estados Unidos e China antes da visita de Xi Jinping a Washington. A proximidade do encontro acrescenta uma dimensão política ao problema, já que o acesso aos minerais críticos pode funcionar simultaneamente como instrumento econômico e elemento de negociação nas relações bilaterais.
A disputa mostra como a competição entre Estados Unidos e China vem se deslocando para áreas que durante décadas foram tratadas predominantemente como questões comerciais. Semicondutores, inteligência artificial, baterias, minerais críticos e tecnologias de defesa passaram a integrar uma mesma disputa por autonomia industrial e capacidade de sustentar cadeias estratégicas em um cenário de rivalidade prolongada.
Para a indústria de defesa ocidental, a questão é especialmente sensível porque a disponibilidade de determinados minerais pode influenciar não apenas o custo dos sistemas militares, mas também a capacidade de ampliar sua produção em períodos de crise. A experiência recente com interrupções nas cadeias globais de suprimentos reforçou a percepção de que garantir o acesso a matérias-primas estratégicas passou a fazer parte do planejamento de defesa e da segurança nacional.
Nesse cenário, o Brasil ocupa uma posição que merece atenção. O país possui reservas relevantes de minerais críticos e começa a receber investimentos que podem conectá-lo diretamente às novas cadeias de fornecimento construídas pelos Estados Unidos e seus aliados. O caso da Serra Verde mostra, porém, que a disputa não se limita à posse do recurso mineral: o valor estratégico está em controlar ou integrar as etapas de mineração, separação, processamento e transformação industrial.
O movimento das empresas chinesas, portanto, deve ser observado menos pelo volume imediato de material que deixou de chegar aos Estados Unidos e mais pelo precedente que estabelece. A capacidade de Pequim de influenciar o acesso a insumos essenciais coloca as cadeias minerais no mesmo campo estratégico em que Washington já disputa tecnologia, semicondutores e capacidade industrial com a China. Para os Estados Unidos, ampliar fontes alternativas como a brasileira Serra Verde representa parte de uma estratégia maior de redução da dependência chinesa; para o Brasil, o desafio será transformar sua posição como fornecedor de minerais críticos em capacidade industrial e tecnológica de maior valor agregado.
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