O recente afundamento da fragata iraniana IRIS Dena no Oceano Índico reacendeu um debate que muitos analistas estratégicos julgavam adormecido desde o final da Guerra Fria: o papel decisivo da guerra submarina nos conflitos contemporâneos. Embora o fato ainda seja objeto de diferentes leituras e análises no meio internacional, o episódio reforça uma realidade que as grandes potências nunca deixaram de considerar em seus planejamentos estratégicos: no ambiente marítimo, submarinos continuam sendo uma das ferramentas mais eficazes de dissuasão e poder naval.
A história recente já demonstrou o poder estratégico dessas plataformas. Um dos exemplos mais emblemáticos ocorreu em 1982, durante a Guerra das Malvinas, quando o submarino nuclear britânico HMS Conqueror afundou o cruzador argentino ARA General Belgrano com torpedos Mk-8. O episódio não apenas marcou o primeiro e único afundamento de um navio por submarino nuclear em combate real até o recente afundamento do IRIS Dena, como também alterou profundamente o curso do conflito. Após a perda do Belgrano, a Marinha Argentina praticamente recolheu seus grandes navios de superfície aos portos, evidenciando o efeito psicológico e estratégico da ameaça submarina. A partir daquele momento, tornou-se evidente que um único submarino bem posicionado poderia negar vastas áreas marítimas a forças navais adversárias.
Quatro décadas depois, o conceito permanece atual. A capacidade de operar de forma furtiva, invisível à maioria dos sensores e com elevado poder de ataque continua tornando os submarinos uma das plataformas mais temidas no campo naval. Em um ambiente marítimo cada vez mais congestionado e tecnologicamente disputado, a presença, ou apenas a possibilidade da presença de submarinos em uma determinada área é capaz de alterar completamente o cálculo estratégico de qualquer força naval.
Nas últimas décadas, o ambiente estratégico marítimo passou por uma transformação silenciosa, porém profunda. Enquanto grande parte do debate público sobre defesa se concentra em aeronaves de combate de quinta geração e a próxima, sistemas de mísseis ou guerras terrestres de alta intensidade com emprego massivo de drones, um dos domínios mais decisivos do poder militar moderno voltou a ganhar protagonismo: o ambiente submarino. A chamada guerra submarina, ou "undersea warfare", ressurge como um dos principais vetores de dissuasão, projeção de poder e negação de área no século XXI.
O motivo é simples. Submarinos continuam sendo até hoje, uma das plataformas militares mais difíceis de detectar e neutralizar no campo de batalha. Operando em silêncio nas profundezas do oceano, são capazes de lançar torpedos pesados, mísseis antinavio, mísseis de cruzeiro e até armamentos estratégicos de alcance intercontinental. Essa combinação de furtividade, mobilidade e poder de fogo transforma os submarinos em instrumentos centrais da estratégia naval moderna.
Não por acaso, as grandes potências estão expandindo suas forças submarinas. Os Estados Unidos continuam operando a maior força de submarinos nucleares do mundo, com cerca de 70 unidades ativas, incluindo submarinos de ataque, de mísseis balísticos e de mísseis guiados. De acordo com estimativas recentes de centros de análise e dados de defesa de 2025, a Rússia opera cerca de 79 submarinos no total, sendo aproximadamente 54 de propulsão nuclear e o restante de propulsão diesel-elétrico. Ao mesmo tempo, a China vem acelerando sua expansão naval e já opera mais de 30 submarinos nucleares, além de dezenas de unidades convencionais, com projeções que indicam uma frota total próxima de 80 submarinos até 2035.
Essa expansão reflete uma mudança estrutural no pensamento estratégico global. Diante do ambiente de competição entre grandes potências, os submarinos cumprem três funções fundamentais: vigilância estratégica, capacidade ofensiva de negação marítima e dissuasão nuclear. Países como França e Reino Unido mantêm forças submarinas robustas justamente porque compreendem que a guerra moderna pode ser decidida no domínio invisível do oceano profundo.
Mais do que plataformas de combate, submarinos representam instrumentos estratégicos capazes de influenciar o comportamento de adversários potenciais. Um único submarino de ataque operando silenciosamente em uma área marítima crítica pode impor enorme incerteza ao planejamento naval adversário, obrigando o emprego de grandes recursos em operações de busca e guerra antissubmarino. Em outras palavras, poucos meios podem gerar efeitos estratégicos significativos.
Esse fenômeno ajuda a explicar por que a guerra submarina voltou ao centro do planejamento militar global. O desenvolvimento de sensores mais sofisticados, sistemas de inteligência artificial aplicados à acústica submarina, drones submersíveis e redes de vigilância oceânica não diminuiu a relevância dos submarinos. Pelo contrário. A competição tecnológica tornou o ambiente submarino ainda mais complexo e disputado.
Para o Brasil, essa realidade possui implicações diretas. O país possui uma das maiores zonas econômicas exclusivas do planeta, nossa “Amazônia Azul”, que abriga vastos recursos naturais, rotas marítimas estratégicas e grande parte da infraestrutura energética offshore brasileira. Proteger esse espaço marítimo exige capacidades de vigilância, controle e dissuasão compatíveis com sua dimensão e importância estratégica.
Nesse contexto se insere o Programa de Desenvolvimento de Submarinos da Marinha do Brasil, conhecido como PROSUB. A iniciativa prevê a construção de quatro submarinos convencionais da classe Riachuelo (S-BR), derivados do projeto francês Scorpène, além do desenvolvimento do primeiro submarino de propulsão nuclear convencionalmente armado brasileiro, o Álvaro Alberto (SN-BR). O primeiro submarino da classe, o Riachuelo, entrou em serviço em 2022, seguido pelo Humaitá, enquanto outras unidades continuam em diferentes fases de construção e testes.
Os submarinos da classe Riachuelo possuem cerca de 72 metros de comprimento, deslocamento próximo de 2.000 toneladas submerso, capacidade de mergulho de aproximadamente 300 metros e autonomia de até 70 dias no mar. Armados com torpedos pesados e mísseis antinavio lançados de tubos de torpedo, são plataformas concebidas para operações de negação marítima e vigilância estratégica em áreas extensas do Atlântico Sul.
Já o futuro submarino nuclear brasileiro representará um salto qualitativo significativo. Com cerca de 100 metros de comprimento e deslocamento aproximado de 6.000 toneladas, o SN-BR terá uma característica fundamental que diferencia submarinos nucleares de plataformas com propulsão convencional: a capacidade de permanecer submerso por períodos extremamente longos, praticamente limitada apenas pela resistência da tripulação e pelos estoques de suprimentos.
Essa característica altera profundamente o conceito de emprego estratégico. Submarinos nucleares podem patrulhar áreas oceânicas distantes por longos períodos sem necessidade de emergir ou utilizar snorkel, aumentando significativamente sua furtividade e capacidade de presença persistente. Em termos de dissuasão, isso significa que potenciais adversários jamais podem ter certeza de onde essas plataformas estão operando.
No entanto, a discussão estratégica brasileira precisa ir além da simples conclusão dos programas já planejados. Se a guerra submarina está retornando ao centro das disputas geopolíticas globais, a pergunta que se impõe é se a capacidade atualmente prevista para o Brasil será suficiente para cumprir as demandas de dissuasão de um país com as dimensões marítimas brasileiras.
Uma força composta por apenas quatro submarinos convencionais modernos e um único submarino nuclear tende a ser limitada diante da extensão da área marítima sob responsabilidade brasileira. Em termos estratégicos, forças submarinas eficazes dependem de números suficientes para garantir ciclos contínuos de patrulha, manutenção e treinamento. Em muitas marinhas, apenas um terço da frota costuma estar efetivamente em patrulha em determinado momento.
Isso abre espaço para um debate legítimo sobre a necessidade de expansão gradual da força submarina brasileira no médio e longo prazo. A ampliação da frota com mais unidades da classe Riachuelo e a eventual construção de mais submarinos nucleares além do primeiro SN-BR poderiam consolidar uma capacidade de dissuasão submarina mais robusta e permanente no Atlântico Sul.
Além do aspecto militar, essa decisão também possui implicações industriais e tecnológicas profundas. O PROSUB envolve transferência de tecnologia, formação de engenheiros, construção de infraestrutura naval e desenvolvimento de competências estratégicas que impactam toda a Base Industrial de Defesa brasileira. Manter continuidade e escala nesses programas ajuda a preservar esse conhecimento e a consolidar uma indústria naval militar de alto valor agregado.
Em última análise, a guerra submarina continua sendo um jogo de invisibilidade, paciência e estratégia de longo prazo. No mundo que volta a experimentar competição entre grandes potências e disputas por recursos marítimos, possuir uma força submarina moderna, numericamente adequada e tecnologicamente avançada não é apenas uma questão militar. Trata-se de uma ferramenta de soberania.
Para o Brasil, que possui uma das maiores áreas marítimas do planeta e ambições legítimas de autonomia estratégica, investir de forma consistente na ampliação de sua capacidade submarina pode ser um dos caminhos mais eficazes para garantir dissuasão, proteger seus recursos e assegurar presença estratégica no Atlântico Sul nas próximas décadas.
Diante da crescente centralidade do domínio submarino no equilíbrio estratégico naval contemporâneo, o Brasil precisa adotar uma visão mais ampla e consistente de fortalecimento de suas capacidades marítimas. Isso significa sustentar investimentos robustos e continuados não apenas no Programa de Desenvolvimento de Submarinos, com a ampliação da frota de submarinos do Classe Riachuelo e a consolidação do submarino nuclear da classe Álvaro Alberto (SN-BR), mas também avançar na construção de uma força de superfície moderna e plenamente capaz de enfrentar as ameaças do ambiente submarino. Nesse contexto, torna-se fundamental ampliar a construção de fragatas com capacidades de guerra antissubmarino (ASW) aprimoradas, equipadas com sonares de casco e sistemas rebocados, helicópteros embarcados especializados, sistemas de processamento acústico avançados e integração com redes de vigilância marítima e drones. Ao mesmo tempo, essas plataformas não podem perder o caráter multifunção que define um escolta moderno, preservando sólidas capacidades de defesa aérea e de guerra de superfície (ASuW). Diante de um cenário marítimo cada vez mais complexo, marcado pela expansão das forças submarinas ao redor do mundo, o emprego massivo de drones e armas inteligentes, apenas uma força naval equilibrada, combinando submarinos modernos, escoltas modernas e sistemas avançados de vigilância, será capaz de garantir ao Brasil presença estratégica, proteção de suas rotas marítimas e dissuasão efetiva no Atlântico Sul.
por Angelo Nicolaci
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