sábado, 31 de outubro de 2026

SecNSNQ apresenta desafios do licenciamento nuclear naval brasileiro em conferência da AIEA

 

A ampliação do uso da tecnologia nuclear para além da geração convencional de eletricidade está colocando novos desafios para os órgãos reguladores, especialmente diante de aplicações em ambientes marítimos, instalações offshore e localidades remotas. Nesse cenário, o Brasil levou à Conferência Ministerial Internacional sobre Energia Nuclear 2026, organizada pela Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA), uma discussão sobre os requisitos de segurança e o licenciamento de embarcações dotadas de plantas nucleares.

Realizado entre 27 e 29 de outubro em Incheon, na Coreia do Sul, o encontro reuniu autoridades governamentais, organizações internacionais, representantes de órgãos reguladores e integrantes da indústria nuclear. A programação abordou a expansão das aplicações da tecnologia, os desafios da inovação, a cooperação internacional e a necessidade de adequação dos mecanismos regulatórios às novas possibilidades de emprego da energia nuclear.

A participação brasileira ocorreu no dia 29 de outubro, durante o painel “Emerging Applications: Nuclear for Maritime, Offshore and Remote Sites”. O Vice-Almirante (EN-RM1) Guilherme Dionizio Alves, Subsecretário da Secretaria Naval de Segurança Nuclear e Qualidade (SecNSNQ), integrou o debate ao lado de representantes da França, Coreia do Sul, Rússia, Indonésia e Canadá.

Na ocasião, o oficial apresentou a perspectiva do Órgão Regulador Naval de Segurança Nuclear brasileiro sobre os desafios de aplicar os requisitos de segurança nuclear ao ambiente marítimo. Um dos pontos centrais foi a necessidade de coordenação entre a SecNSNQ e a Autoridade Marítima, com definição clara das competências e responsabilidades de cada estrutura na avaliação e autorização de embarcações que utilizem propulsão ou outras plantas nucleares.

A questão tem implicações práticas para o marco regulatório brasileiro. A SecNSNQ estuda estabelecer o licenciamento nuclear naval, já realizado pela Secretaria no âmbito de suas atribuições legais, como requisito obrigatório para que a Autoridade Marítima autorize a operação de embarcações com plantas nucleares a bordo nas Águas Jurisdicionais Brasileiras.

Caso seja implementada, a medida acrescentará uma etapa específica de avaliação de segurança nuclear ao processo de autorização marítima. Isso significa que a autorização para operar em águas brasileiras passaria a depender também da comprovação de que a embarcação atende aos requisitos definidos pelo órgão regulador especializado. A proposta exigirá procedimentos articulados entre as instituições, delimitação de responsabilidades e critérios consistentes para análise e fiscalização.

O estudo ainda não representa uma nova exigência em vigor, mas sinaliza uma preocupação em antecipar a estrutura regulatória necessária para lidar com operações nucleares no ambiente marítimo. A definição desses mecanismos também é relevante diante da possibilidade de diferentes tipos de embarcações e projetos nucleares demandarem avaliação específica, considerando seus sistemas, características operacionais e requisitos de segurança.

A discussão apresentada pelo Brasil está inserida em um debate internacional mais amplo sobre como adaptar os marcos regulatórios à evolução tecnológica. A utilização da energia nuclear em aplicações marítimas e offshore envolve desafios que ultrapassam a engenharia dos sistemas de propulsão ou geração de energia, alcançando a segurança das operações, a fiscalização e a articulação entre autoridades nacionais.

Para o Brasil, essa preparação possui importância estratégica. O desenvolvimento do Programa de Desenvolvimento de Submarinos (PROSUB) e do projeto de propulsão nuclear naval exige não apenas domínio tecnológico e capacidade industrial, mas também uma estrutura regulatória capaz de acompanhar sistemas de elevada complexidade. Antecipar regras, competências e procedimentos é parte da construção dessa capacidade: sem segurança jurídica e regulatória, o avanço tecnológico pode encontrar obstáculos justamente quando precisar ser convertido em capacidade operacional.


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