sexta-feira, 21 de agosto de 2026

USS George Washington deixa o Pacífico sem porta-aviões americano e expõe os limites da presença naval dos EUA

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A chegada do porta-aviões nuclear USS George Washington (CVN-73) ao Oriente Médio, nesta semana, encerrou uma movimentação que merece ser observada para além da substituição de um navio por outro. Normalmente baseado em Yokosuka no Japão, o USS "George Washington" foi deslocado para assumir a missão do USS "Abraham Lincoln" (CVN-72), que permaneceu por mais de 250 dias empregado em operações relacionadas à guerra contra o Irã. Com a transferência, o Pacífico Ocidental ficou temporariamente sem um porta-aviões nuclear norte-americano destacado, justamente em uma região onde Washington procura sustentar sua principal competição estratégica com a China.

A situação não significa que os Estados Unidos tenham deixado o Indo-Pacífico sem capacidade militar. A região continua abrigando uma extensa infraestrutura americana, forças aéreas baseadas em terra, submarinos de propulsão nuclear, navios de superfície, unidades do Corpo de Fuzileiros Navais e, sobretudo, uma rede de alianças que amplia consideravelmente a capacidade de resposta de Washington. O que desaparece, porém, é um componente específico dessa arquitetura: a presença permanente de um grande grupo aeronaval capaz de deslocar dezenas de aeronaves de combate, sensores e meios de apoio para diferentes pontos do teatro sem depender de uma base terrestre.

É justamente essa diferença que torna o movimento relevante. A saída do USS "George Washington" não representa um colapso da presença americana no Pacífico, mas expõe uma dificuldade muito mais concreta: a capacidade de Washington de sustentar simultaneamente compromissos militares em diferentes teatros está sendo pressionada pela combinação entre emprego operacional prolongado, ciclos de manutenção e limitações da própria frota.

O que realmente muda com a saída do USS George Washington

O papel do USS "George Washington" precisa ser compreendido dentro do modelo de presença avançada adotado pela Marinha dos Estados Unidos. O navio não estava simplesmente “estacionado” no Japão. Sua presença fazia parte de uma arquitetura destinada a manter uma força de combate imediatamente disponível no Pacífico Ocidental, reduzindo o tempo necessário para que Washington respondesse a uma crise envolvendo Japão, Taiwan, Filipinas ou outros pontos estratégicos da região.

Essa lógica é especialmente importante no Indo-Pacífico porque as distâncias são enormes. Uma força naval deslocada a partir da costa oeste dos Estados Unidos precisa percorrer milhares de quilômetros antes de chegar ao teatro. Um porta-aviões já baseado no Japão, por outro lado, começa o deslocamento muito mais próximo das áreas de interesse. A diferença entre possuir uma força no teatro e possuir a capacidade de enviá-la ao teatro pode parecer pequena em termos administrativos, mas, diante de uma crise, pode representar dias ou semanas de diferença na geração de poder de combate.

Por isso, a ausência do USS "George Washington" não deixa o Pacífico indefeso, mas reduz temporariamente uma das opções mais flexíveis de resposta de Washington. A aviação baseada em terra continua disponível, assim como submarinos e outros navios, mas nenhum desses elementos reproduz integralmente a combinação de mobilidade, autonomia e capacidade de geração de poder aéreo proporcionada por um Carrier Strike Group.

O efeito, portanto, deve ser medido menos pela quantidade absoluta de forças americanas que permanecem na região e mais pela redução da redundância operacional. Enquanto o USS "George Washington" estava no Japão, Washington possuía uma ferramenta adicional de resposta imediata. Com sua saída, essa margem diminui.

A substituição que revela o problema

A razão para essa redução é igualmente importante. O USS "George Washington" não foi retirado do Pacífico porque a região deixou de ter importância, mas porque outro teatro passou a exigir a presença de um porta-aviões.

O USS "Abraham Lincoln" acumulou um dos mais longos períodos de emprego operacional da história recente da Marinha americana, permanecendo mais de 250 dias no mar em apoio às operações relacionadas ao conflito com o Irã. A extensão excepcional da missão produziu crescente preocupação com as condições enfrentadas pela tripulação e tornou necessária a substituição do navio.

Esse episódio é importante porque mostra como funciona, na prática, o ciclo de disponibilidade de uma força naval. Um porta-aviões não pode permanecer indefinidamente em operação sem que o emprego produza consequências sobre sua tripulação, seus sistemas, sua logística, e posteriormente ao seu calendário de manutenção. Quando uma missão se prolonga além do planejado, o problema não termina no momento em que o navio deixa a área de operações. O período adicional de emprego também altera os ciclos seguintes de preparação, manutenção e disponibilidade.

Foi necessário, portanto, encontrar outro porta-aviões para assumir a missão do USS Abraham Lincoln". O escolhido foi justamente o USS George Washington, o navio que desempenhava a função de presença avançada no Japão.

A Marinha resolveu uma necessidade imediata no teatro operacional, mas ao fazê-lo reduziu sua presença em outro. É nesse ponto que uma questão operacional começa a revelar uma limitação estratégica.

Onze porta-aviões não significam onze porta-aviões disponíveis

A situação também ajuda a compreender uma característica frequentemente ignorada quando se observa a força naval americana apenas pelos números do inventário. Os Estados Unidos possuem 11 porta-aviões nucleares, mas isso não significa que 11 estejam simultaneamente disponíveis para operações prolongadas.

Cada unidade passa por diferentes fases de seu ciclo de vida operacional, envolvendo manutenção, modernização, treinamento da tripulação, preparação para emprego e períodos de recuperação após missões. O número de navios disponíveis em determinado momento é, portanto, consideravelmente menor que o número total existente. Essa distinção entre força nominal e força disponível é fundamental para compreender o atual cenário.

Quando a demanda global é baixa, o sistema consegue absorver essas limitações com relativa facilidade. Um porta-aviões está no mar enquanto outro passa por manutenção; uma terceira unidade se prepara para o próximo emprego; outra pode permanecer em treinamento. O problema surge quando diferentes teatros passam a exigir presença prolongada ao mesmo tempo. É nesse momento que a estrutura começa a perder margem.

O emprego excepcionalmente longo do USS "Abraham Lincoln" não pode ser analisado isoladamente. Ele ocorreu em um período no qual a Marinha americana também precisava responder às demandas do Indo-Pacífico e manter presença em outros espaços estratégicos. O resultado é uma espécie de competição interna por ativos de alta capacidade, na qual cada prolongamento de missão aumenta a pressão sobre as unidades disponíveis para assumir a próxima tarefa.

A ausência do USS "George Washington" no Pacífico é, portanto, menos uma questão de quantidade absoluta de porta-aviões e mais uma demonstração da dificuldade de distribuir uma capacidade limitada entre compromissos globais simultâneos.

A distância entre a prioridade declarada e a disponibilidade real

Essa questão ganha maior peso quando colocada diante da própria estratégia americana para a Ásia.

A administração Trump apresentou o Indo-Pacífico como o principal teatro da competição estratégica com a China. Entretanto, a realidade operacional dos últimos meses demonstra que a Marinha precisa dividir seus recursos entre prioridades distintas, incluindo o conflito com o Irã e o reforço da atuação americana no hemisfério ocidental.

Isso não significa necessariamente que Washington tenha abandonado sua prioridade asiática. Estratégias nacionais não são executadas por um único tipo de plataforma e a presença militar americana na região permanece extensa. O problema é que a prioridade estratégica precisa ser traduzida em disponibilidade concreta de forças, e essa disponibilidade é condicionada por fatores que não podem ser resolvidos apenas por decisões políticas.

O USS George Washington ilustra exatamente essa diferença. A decisão de deslocá-lo para o Oriente Médio não elimina o compromisso americano com o Pacífico, mas demonstra que esse compromisso precisa ser administrado dentro de uma frota submetida a demandas simultâneas.

É uma diferença importante entre ter uma região como prioridade e possuir recursos suficientes para garantir presença máxima nela independentemente do que aconteça em outros lugares.

O problema começa nos estaleiros e chega ao mar

É nesse ponto que o episódio se conecta diretamente às duas análises anteriores do GBN Defense sobre a situação da US Navy. Em nossa análise sobre a decisão de Trump de abrir as encomendas navais americanas a estaleiros estrangeiros, mostramos como Washington passou a reconhecer a necessidade de ampliar rapidamente sua capacidade de construção e reparo diante das limitações da própria base industrial. Já em nossa análise sobre a pressão enfrentada pela US Navy, examinamos como falhas, manutenção e desgaste operacional vêm reduzindo a disponibilidade efetiva de parte da frota. As duas questões se encontram agora no Pacífico: a dificuldade de ampliar a frota e a necessidade de administrar cuidadosamente a disponibilidade dos navios existentes ajudam a explicar por que o deslocamento de um único porta-aviões pode produzir efeitos sobre diferentes teatros.

Como já discutimos, Washington está tentando ampliar novamente sua capacidade de construção naval ao mesmo tempo em que enfrenta atrasos, limitações de infraestrutura, mão de obra especializada insuficiente e dificuldades para manter o ritmo de produção necessário. O memorando assinado por Donald Trump em 13 de agosto reconheceu explicitamente problemas estruturais na base industrial naval americana e determinou medidas para ampliar a capacidade de construção e reparo, incluindo a possibilidade de recorrer, sob determinadas condições, a estaleiros estrangeiros. A importância desse movimento fica mais clara quando observamos o USS George Washington no Pacífico.

A disponibilidade de uma Marinha não depende apenas de quantos navios estão registrados em seu inventário. Depende da capacidade de mantê-los operacionais, reparar rapidamente aqueles que retornam de missões prolongadas e construir novas unidades em quantidade suficiente para ampliar a frota ou compensar os períodos de indisponibilidade.

Quando a capacidade industrial é limitada, a pressão sobre os navios existentes aumenta. Quando a demanda operacional também cresce, esses navios permanecem mais tempo empregados. O resultado é um ciclo no qual manutenção, disponibilidade e produção passam a influenciar diretamente a liberdade estratégica do comandante.

É justamente por isso que a decisão de Trump de buscar uma reconstrução da indústria naval americana não deve ser interpretada apenas como uma política econômica ou industrial. Ela responde a um problema militar: a necessidade de transformar capacidade potencial em disponibilidade operacional sustentada.

O caso do USS George Washington mostra o outro lado dessa equação. Mesmo que Washington consiga acelerar a construção de novos navios, isso não resolverá imediatamente a pressão atual. Um estaleiro ampliado não produz um porta-aviões de um dia para o outro, assim como uma nova linha de produção não reduz instantaneamente o tempo necessário para manutenção de uma unidade já existente. A indústria trabalha em anos; a estratégia precisa trabalhar em semanas.

O custo estratégico da ausência

Para a China, a situação não precisa ser interpretada como uma oportunidade para confronto direto. A ausência temporária de um porta-aviões americano não altera, por si só, o equilíbrio militar do Indo-Pacífico, que continua sendo determinado por uma combinação muito maior de forças, incluindo bases, aviação, submarinos, mísseis, sensores, logística e alianças. Mas a ausência pode ser explorada politicamente e operacionalmente.

Nos dias seguintes à saída do George Washington, a China realizou atividades navais envolvendo seus porta-aviões Liaoning e Fujian, incluindo operações no Mar Amarelo e no Mar do Sul da China. A coincidência não significa que os movimentos chineses tenham sido causados exclusivamente pela retirada americana, mas demonstra como Pequim pode aproveitar momentos de menor presença visível dos Estados Unidos para reforçar sua própria demonstração de capacidade.

Há ainda uma dimensão mais sensível: a percepção dos aliados. Japão, Filipinas, Coreia do Sul e Taiwan não avaliam a capacidade americana apenas pela quantidade de navios que os Estados Unidos possuem. Eles também observam qual força está efetivamente disponível no momento em que uma crise se inicia. A presença de um porta-aviões não substitui alianças nem garante, sozinha, dissuasão, mas funciona como um sinal concreto de que Washington mantém capacidade de gerar poder de resposta rapidamente dentro do teatro.

Quando esse ativo desaparece, ainda que temporariamente, abre-se uma discussão sobre a capacidade americana de responder simultaneamente a crises diferentes. E essa dimensão política pode ser tão importante quanto a militar.

O verdadeiro teste está na simultaneidade

O episódio do USS George Washington não permite concluir que a US Navy esteja perdendo sua superioridade ou que os Estados Unidos tenham deixado de ser a principal potência naval do mundo. Uma conclusão desse tipo ignoraria a dimensão extraordinária da força americana e a profundidade de sua rede de alianças e infraestrutura global.

O que o episódio permite observar é algo mais específico, e talvez, mais importante: a margem disponível para sustentar simultaneamente os compromissos globais americanos está sob pressão.

A Marinha dos Estados Unidos continua capaz de deslocar um Carrier Strike Group do Japão para o Oriente Médio em poucos dias. Essa é, por si só, uma demonstração extraordinária de mobilidade estratégica. Mas justamente essa capacidade também revela o custo de oportunidade da decisão: ao atender uma necessidade no Oriente Médio, Washington temporariamente reduz sua principal presença aeronaval avançada no Pacífico Ocidental.

Esse é o ponto que conecta o atual episódio à crise industrial e aos problemas de disponibilidade que já analisamos. O desafio americano não está simplesmente em possuir mais navios, mas em construir uma estrutura capaz de garantir que os navios existentes possam ser empregados, mantidos e substituídos em ritmo compatível com uma estratégia que exige presença simultânea em vários teatros.

A administração Trump já reconheceu parte desse problema ao colocar a reconstrução da indústria naval no centro de sua política de Defesa. O que o deslocamento do George Washington demonstra é que essa reconstrução não será apenas uma questão de aumentar o tamanho futuro da frota. Ela será necessária para recuperar margem estratégica.

Porque uma potência global pode possuir uma enorme frota, tecnologia superior e uma rede de bases sem precedentes, e ainda assim, encontrar dificuldades quando vários teatros exigem simultaneamente os mesmos recursos.

O USS George Washington deixou o Pacífico para aliviar um porta-aviões que permaneceu mais de oito meses operando um outro cenário estratégico. O movimento é perfeitamente compreensível do ponto de vista operacional e não representa, isoladamente, uma mudança no equilíbrio de poder do Indo-Pacífico. Mas ele revela algo que nossas análises anteriores já vinham apontando por outros caminhos: a pressão sobre a US Navy não está concentrada em um único problema de construção, manutenção ou emprego. Ela surge da interação entre todos eles.

É essa interação que começa a limitar a liberdade com que Washington pode distribuir sua força naval pelo mundo. E diante da competição estratégica de longo prazo com a China, essa talvez seja uma questão mais relevante do que a simples contagem de porta-aviões no inventário.


por Angelo Nicolaci


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A guerra dos arsenais: a capacidade industrial russa desafia o Ocidente

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Avaliações recentes do Serviço de Inteligência Militar da Ucrânia (GUR), divulgadas pela imprensa ucraniana, colocam em xeque uma das percepções recorrentes desde o início da guerra: a de que a Rússia estaria próxima de esgotar seu estoque de mísseis de longo alcance. Os dados mais recentes apontam para uma realidade diferente. Moscou não apenas mantém reservas significativas de diferentes tipos de mísseis, como também conseguiu elevar sua capacidade de produção e reposição.

Segundo estimativas divulgadas pelo GUR no início de agosto, as forças russas mantinham mais de 600 mísseis antinavio supersônicos P-800 Oniks, mais de 450 mísseis de cruzeiro Kalibr e mais de 120 mísseis hipersônicos 3M22 Zircon. O inventário incluiria ainda aproximadamente 130 mísseis balísticos 9M723 empregados pelo sistema Iskander-M e até 100 mísseis de cruzeiro Kh-101 lançados por aeronaves.

Os números devem ser tratados como estimativas de inteligência, e não como dados independentemente verificáveis. Ainda assim, o aspecto mais relevante da avaliação não está apenas no tamanho do estoque, mas na capacidade russa de continuar produzindo armamentos enquanto mantém uma elevada taxa de emprego contra alvos ucranianos.

Produção e consumo em uma guerra de atrito

Os dados atribuídos ao GUR indicam que a indústria russa vem trabalhando em um ritmo compatível com uma economia de guerra. Em julho, as instalações de produção teriam entregue 65 mísseis balísticos Iskander-M, acima da meta mensal de 60 unidades, enquanto outras 87 unidades do Kh-101 teriam sido produzidas.

No segmento de defesa aérea, a projeção para 2026 aponta para uma produção superior a 480 mísseis destinados aos sistemas S-400, aproximadamente o dobro do volume previsto para o ano anterior.

A importância desses números está na relação entre consumo e reposição. Uma força militar pode manter ataques frequentes durante um longo período quando consegue repor uma parcela relevante do armamento empregado. Isso reduz a pressão sobre os estoques acumulados antes da guerra e transforma a capacidade industrial em um componente direto da capacidade militar.

É justamente nesse ponto que a experiência russa se torna relevante para a análise da guerra na Ucrânia. O conflito deixou de ser apenas uma disputa entre plataformas e sistemas de armas e passou a testar a capacidade dos adversários de sustentar uma campanha prolongada, na qual munições de precisão, defesa aérea e sistemas de ataque são consumidos em volumes muito superiores aos observados em conflitos de menor intensidade.

Sanções e a resiliência da indústria russa

A manutenção dessa capacidade também desafia as expectativas iniciais sobre o efeito das sanções ocidentais. A Rússia continua enfrentando restrições importantes no acesso a tecnologias e componentes, especialmente aqueles relacionados à microeletrônica. Entretanto, a estrutura de sua indústria de defesa conseguiu desenvolver mecanismos para reduzir parte dos efeitos dessas limitações.

A Rostec ocupa posição central nesse sistema, reunindo centenas de empresas e unidades industriais. Ao mesmo tempo, análises ucranianas apontam para uma extensa rede de subsidiárias, fornecedores e empresas associadas que dificulta a aplicação uniforme das sanções.

A existência de intermediários comerciais e empresas localizadas em países que não participam integralmente do regime de sanções também permite que componentes e equipamentos cheguem à cadeia industrial russa por rotas indiretas. Isso não significa que as sanções sejam ineficazes, mas demonstra que seu efeito sobre uma economia de guerra depende tanto da restrição tecnológica quanto da capacidade internacional de controlar as redes utilizadas para contorná-las.

A consequência é uma indústria que, apesar das limitações, conseguiu preservar capacidade suficiente para ampliar determinados segmentos da produção militar.

O desafio que também alcança Estados Unidos e Europa

A questão levantada pela produção russa não diz respeito apenas a Moscou. Ela expõe uma dificuldade enfrentada pelos Estados Unidos e pelos países europeus: a necessidade de ampliar simultaneamente a produção destinada à Ucrânia e recompor os próprios estoques.

Desde o início da guerra, Washington e os governos europeus forneceram grandes quantidades de munições, mísseis e sistemas de defesa aérea às forças ucranianas. Esse esforço revelou que parte da indústria de defesa ocidental estava estruturada para atender a demandas relativamente previsíveis e volumes menores do que aqueles exigidos por uma guerra de alta intensidade.

Os Estados Unidos vêm ampliando investimentos e capacidade produtiva em diversas categorias, enquanto os países europeus também trabalham para aumentar a fabricação de munições e sistemas de defesa. O problema, entretanto, não pode ser resolvido apenas com a liberação de novos recursos. A expansão industrial exige linhas de produção, mão de obra especializada, fornecedores, matérias-primas, componentes eletrônicos e capacidade logística.

Além disso, Estados Unidos e Europa precisam administrar uma equação particularmente complexa. A manutenção do apoio militar à Ucrânia consome estoques existentes ao mesmo tempo em que as forças armadas nacionais precisam recuperar seus níveis de prontidão e preparar-se para possíveis conflitos futuros.

A diferença fundamental está no modelo industrial. A Rússia reorganizou parte significativa de sua economia de defesa em função de uma guerra prolongada. O Ocidente, por sua vez, precisa transformar rapidamente uma estrutura construída durante décadas para operações de menor consumo em uma base industrial capaz de sustentar produção em escala muito maior.

A lição para a Base Industrial de Defesa

A guerra da Ucrânia mostra que a capacidade militar de um país não pode ser medida apenas pela quantidade ou sofisticação dos sistemas incorporados às suas Forças Armadas. É necessário considerar a capacidade de produzir, armazenar, manter e repor esses sistemas durante um conflito prolongado.

Para o Brasil, essa é uma questão particularmente relevante. A experiência russa, assim como as dificuldades enfrentadas por Estados Unidos e Europa para ampliar rapidamente sua produção, reforça a importância de uma Base Industrial de Defesa capaz de operar com previsibilidade, escala e continuidade.

Projetos estratégicos podem levar anos para desenvolver uma capacidade operacional, mas a sustentação dessa capacidade depende de contratos, encomendas, orçamento e demanda industrial que permitam preservar as linhas de produção e o conhecimento acumulado.

A principal conclusão da experiência ucraniana, portanto, não está apenas no tamanho dos arsenais russos ou na velocidade de produção de Moscou. Está na constatação de que uma guerra prolongada transforma a indústria de defesa em parte integrante do poder militar. Países que não possuem capacidade de reposição podem ter excelentes sistemas de armas, mas terão dificuldades para sustentá-los quando o consumo ultrapassar suas previsões de paz.

A disputa entre Rússia e Ocidente está demonstrando, na prática, que a próxima geração de conflitos será marcada não apenas pela tecnologia disponível no início da guerra, mas pela capacidade de cada país de manter sua produção funcionando quando os estoques começarem a ser consumidos em ritmo acelerado.


por Angelo Nicolaci


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quinta-feira, 20 de agosto de 2026

SEPROD visita Avibras Aeroco para conhecer capacidade produtiva e tecnológica

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Uma comitiva da Secretaria de Produtos de Defesa (SEPROD) do Ministério da Defesa visitou nesta quarta-feira (19), a unidade da Avibras Aeroco em Jacareí (SP), para conhecer as capacidades produtivas e tecnológicas da empresa.

A comitiva contou com o General de Brigada Luís Cláudio Brion Cardoso, diretor do Departamento de Promoção Comercial (DEPCOM), Arthur Diniz Marra, coordenador-geral do departamento, e o Coronel do Exército R/1 Lídio Rubens Soares da Cunha, coordenador do DEPCOM.

O DEPCOM, subordinado à SEPROD, atua na promoção comercial da Base Industrial de Defesa (BID) brasileira no mercado internacional, buscando oportunidades para empresas nacionais e apoiando a participação brasileira em feiras, eventos, missões e negociações internacionais. O departamento também participa da análise e autorização das exportações de Produtos de Defesa (PRODE) e Produtos Estratégicos de Defesa (PED), em conjunto com o Ministério das Relações Exteriores.

Durante a visita, a comitiva conheceu a estrutura e as capacidades mantidas pela Avibras Aeroco, empresa estratégica de defesa com histórico no desenvolvimento e na exportação de sistemas de defesa e tecnologias espaciais.

A agenda ocorre em um momento particularmente relevante para a Avibras Aeroco, que vem retomando gradualmente suas atividades industriais em Jacareí. Nesse contexto, a presença da SEPROD ganha importância não apenas pelo conhecimento das capacidades atualmente disponíveis na empresa, mas também pelo potencial de conexão entre a retomada da Avibras Aeroco e os esforços do Ministério da Defesa para ampliar a inserção da indústria brasileira de defesa no mercado internacional. A aproximação pode contribuir para identificar oportunidades de exportação e novos mercados para os produtos e tecnologias da companhia, fortalecendo sua recuperação industrial e sua posição dentro da Base Industrial de Defesa brasileira.


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Novo governo colombiano avalia revisar condições do contrato para compra do Gripen

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O novo governo colombiano avalia revisar as condições do contrato firmado com a sueca Saab para a aquisição de 17 caças Gripen E/F. A possibilidade de ajustes no acordo foi divulgada pela imprensa colombiana, mas até o momento, não há confirmação oficial de uma renegociação formal nem indicação de cancelamento do programa.

O contrato assinado em novembro de 2025, prevê a aquisição de 15 Gripen-E monopostos e dois Gripen-F bipostos, além de armamentos, equipamentos associados, treinamento e serviços. Avaliado em € 3,1 bilhões, o programa tem entregas previstas entre o final de 2026 e 2032.

As aeronaves destinadas à Fuerza Aeroespacial Colombiana (FAC), substituirão progressivamente os vetustos Kfir de origem israelense, que constituem atualmente a principal capacidade de combate da aviação militar colombiana.

A discussão ocorre após a mudança de governo e envolve a possibilidade de revisão das condições do acordo já firmado. No entanto, não foram divulgados oficialmente quais pontos poderiam ser objeto de alteração. Questões relacionadas ao financiamento, cronograma e demais condições contratuais podem estar entre os aspectos avaliados.

O contrato também prevê dois acordos de compensação industrial, com projetos nas áreas de aeronáutica, cibersegurança, saúde, energia sustentável e tecnologias de purificação de água.

Uma eventual alteração dependerá de negociação entre o governo colombiano e a Saab. Por enquanto, o contrato permanece em vigor, e a aquisição dos 17 Gripen segue como o principal programa de renovação da capacidade de combate da Fuerza Aeroespacial Colombiana.


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O que realmente define uma empresa brasileira de Defesa? O que realmente constitui capacidade nacional de Defesa?

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O valor estratégico está no conhecimento, na engenharia e na capacidade industrial mantida no País A origem do capital e o controle acionário são fatores relevantes. Influenciam investimentos, propriedade intelectual e decisões estratégicas. No entanto, a dimensão de uma empresa de defesa vai muito além da composição societária. Seu verdadeiro valor estratégico reside no capital humano especializado, engenheiros e técnicos, na infraestrutura de P&D, nos laboratórios, nas instalações industriais e, sobretudo, no conhecimento e nas competências tecnológicas acumulados ao longo de décadas em território brasileiro. 

Uma Distinção Fundamental 

Uma empresa controlada por capital brasileiro pode depender amplamente de tecnologias concebidas no exterior. Em sentido inverso, uma empresa pertencente a um grupo internacional pode manter no Brasil centenas de profissionais especializados, realizar pesquisa e desenvolvimento, operar laboratórios e linhas de produção,  desenvolver, integrar, fabricar e sustentar sistemas utilizados pelas nossas Forças Armadas. 

Qual dessas empresas representa maior capacidade nacional? 

Na indústria de defesa, a verdadeira riqueza está no conhecimento. O patrimônio real nem sempre aparece no balanço financeiro: está nas pessoas. Quando uma empresa de defesa desaparece, o País perde não apenas uma companhia, mas equipes, conhecimento tácito, fornecedores especializados, processos industriais e experiência acumulada. Algumas dessas competências levam décadas para serem reconstruídas. 

Um Problema Particularmente Relevante No Brasil 

O Brasil desenvolveu uma expressiva indústria de defesa a partir das décadas de 1970 e 1980. Não conseguiu, porém, assegurar a continuidade das encomendas e dos investimentos necessários à sua sustentação. Programas estratégicos são frequentemente postergados, volumes de aquisição reduzidos e os recursos destinados à Defesa convivem historicamente com contingenciamentos e incertezas orçamentárias. 

O Ministério da Defesa reconhece que a consolidação da Base Industrial de Defesa (BID) depende da atuação coordenada entre o Estado e o setor produtivo. Isso exige demanda interna consistente, previsibilidade orçamentária, continuidade dos programas estratégicos, investimentos sustentados em P&D, domínio de tecnologias críticas e redução de dependências externas. Também são fundamentais um marco regulatório estável, incentivos adequados, apoio às exportações e maior integração entre Forças Armadas, governo, indústria e academia. 

A falta de previsibilidade produz consequências que vão além do adiamento de aquisições. Interrompe investimentos, desestrutura cadeias de fornecedores e, sobretudo, provoca a perda de profissionais altamente especializados e do conhecimento acumulado. É essa descontinuidade que explica por que tão poucas empresas brasileiras de defesa conseguem manter suas capacidades e sobreviver por longos períodos. 

O Dilema Da Indústria De Defesa Brasileira 

Existe uma contradição que precisa ser enfrentada. O Brasil deseja uma BID forte, tecnologicamente autônoma e preferencialmente nacional. Ao mesmo tempo, frequentemente não oferece às empresas a previsibilidade de demanda necessária para sustentar estruturas altamente especializadas durante décadas. Depois, quando algumas enfrentam dificuldades, desaparecem ou são incorporadas por grupos internacionais, lamentamos a desnacionalização da indústria. 

Considere uma empresa brasileira de eletrônica de defesa e tecnologia aeroespacial, criada há várias décadas e com participação relevante em alguns dos principais programas estratégicos das três Forças Armadas. Ao longo de sua trajetória, formou gerações de engenheiros, consolidou competências tecnológicas, implantou laboratórios e desenvolveu capacidades de produção e integração de sistemas. Também investiu na qualificação de seus profissionais, enviando-os ao exterior para absorver conhecimentos e tecnologias em alguns dos mais avançados centros da indústria mundial. Em determinado momento, passou a integrar um grande grupo internacional de defesa. O controlador tornou-se estrangeiro. Mas, em vez de reduzir sua presença no País, ampliou os investimentos locais. A engenharia permaneceu e cresceu no Brasil, assim como os laboratórios e a capacidade produtiva. Investimentos em infraestrutura, qualificação profissional e treinamentos no exterior proporcionaram acesso a novos conhecimentos e tecnologias. A capacidade de engenharia foi quadruplicada. 

Décadas depois, a empresa continua empregando centenas de brasileiros, mantém um corpo técnico altamente especializado, realiza atividades de P&D no País e fora dele e participa dos principais programas estratégicos das Forças Armadas do Brasil. Podemos defini-la simplesmente como estrangeira? 

Do ponto de vista do controle societário, a origem estrangeira do capital é um fato. Sob a perspectiva da capacidade tecnológica, a realidade é bem mais complexa. Sua integração a um grupo internacional pode ter contribuído justamente para preservar no Brasil uma capacidade de engenharia que poderia ter sido perdida. 

Isso não significa defender indiscriminadamente a aquisição de empresas brasileiras por grupos estrangeiros. Dependência tecnológica, propriedade intelectual, autonomia decisória, acesso a códigos-fonte, componentes críticos e restrições internacionais continuam sendo questões fundamentais para a soberania. 

Significa, porém, reconhecer que nacionalidade do capital e nacionalidade da capacidade tecnológica não são necessariamente a mesma coisa. 

O Que Realmente Deveria Ser Medido 

A legislação brasileira diferencia Empresa de Defesa (ED) de Empresa Estratégica de Defesa (EED) e estabelece requisitos específicos para cada categoria. Essa classificação jurídica é necessária e importante. Mas existe uma dimensão adicional que deveria integrar a discussão sobre a BID: 

✓ Quanto de capacidade estratégica a empresa efetivamente mantém no País? 

✓ Quanto de alta tecnologia aplicada à defesa é desenvolvida no país? 

✓ Onde estão seus engenheiros, P&D, laboratórios e produção? 

✓ Quem domina a integração dos sistemas? 

✓ Quanto conhecimento foi efetivamente absorvido? 

✓ Qual é a capacidade brasileira de manter, modificar e modernizar determinado produto durante seu ciclo de vida? 

Essas perguntas ajudam a medir algo que a simples composição acionária não consegue demonstrar: a densidade tecnológica existente no território brasileiro. 

Soberania Exige Continuidade 

Nenhuma indústria de defesa sobrevive apenas de discursos sobre soberania. A BID precisa de contratos, investimentos, exportações e, sobretudo, previsibilidade. 

Não existe engenharia sem programas. Não existe P&D permanente sem recursos. Não existe linha de produção sem encomendas. E não existe preservação de conhecimento sem continuidade. 

Os recorrentes contingenciamentos dos recursos destinados à Defesa não representam apenas um problema para as Forças Armadas. Eles afetam diretamente a capacidade de sobrevivência da própria indústria que o País afirma considerar estratégica. Quando um programa é postergado, pode parecer que o Brasil simplesmente deixou uma aquisição para o futuro. Mas existe um custo invisível: o engenheiro que deixa a empresa, o fornecedor que abandona determinado produto, o laboratório que deixa de receber investimentos e o conhecimento que deixa de ser transmitido à próxima geração. Quando os recursos finalmente retornam, reconstruir essas capacidades pode custar muito mais do que teria custado preservá-las. 

Afinal, O Que É Uma Empresa Brasileira De Defesa? 

Talvez precisemos ampliar essa definição. Uma empresa brasileira de defesa não deveria ser avaliada apenas pelo passaporte de seus acionistas, mas também pelo que efetivamente desenvolve, produz e preserva no Brasil. 

A origem do capital deve ser conhecida. O controle societário precisa ser transparente. Dependências externas devem ser identificadas e tecnologias críticas precisam, sempre que possível, estar sob domínio nacional. 

O Brasil já demonstrou inúmeras vezes sua capacidade de desenvolver tecnologia de defesa. Seu grande desafio histórico tem sido mantê-la. Conhecimento estratégico leva décadas para ser construído. 

E quando esse conhecimento permanece no Brasil, ele também faz parte do patrimônio tecnológico e da capacidade de defesa do País. 


Por Mauro Beirão


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Entre o discurso e a execução: as contradições que ainda cercam a Defesa brasileira

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As recentes declarações do presidente Lula sobre Defesa e soberania recolocam em discussão uma questão que o GBN Defense vem acompanhando há algum tempo: existe hoje uma distância entre o reconhecimento político da importância da Defesa e a capacidade do Estado de assegurar, de forma previsível, os recursos necessários para transformar esse reconhecimento em programas e capacidades de defesa.

A questão ganhou novo contorno durante a visita de Lula ao Centro Industrial Nuclear de Aramar, em Iperó. Ao defender a conclusão do submarino de propulsão nuclear, o presidente reconheceu uma dificuldade que não é nova para as Forças Armadas: a irregularidade na disponibilidade de recursos compromete o planejamento de projetos que exigem décadas de desenvolvimento.

A declaração é relevante porque expõe, ainda que indiretamente, uma fragilidade recorrente do modelo brasileiro de financiamento da Defesa. Projetos dessa natureza não podem ser planejados apenas a partir da disponibilidade anual de recursos. Pesquisa, desenvolvimento, qualificação, produção e incorporação de sistemas de defesa dependem de uma sequência de decisões e investimentos que precisa atravessar diferentes exercícios orçamentários e diferentes governos. É justamente nesse ponto que as declarações presidenciais encontram uma realidade que o GBN Defense vem apontando de forma recorrente.

Da Avibras a Aramar

Na visita à Avibras em julho, Lula destacou a importância das Forças Armadas, da soberania e da recuperação da capacidade industrial brasileira. A mensagem fazia sentido diante da situação da empresa e da importância que a Avibras possui para a Base Industrial de Defesa.

O problema é que a recuperação de uma empresa dessa natureza não se sustenta apenas pela decisão política de preservar sua existência. É necessário haver demanda, contratos, recursos e uma perspectiva suficientemente clara para que a empresa consiga reorganizar sua produção, seus fornecedores e seu corpo técnico.

Naquele momento, entretanto, já havia sinais de uma dificuldade mais ampla. Enquanto o governo ressaltava a necessidade de fortalecer a indústria e os programas de Defesa, diferentes projetos das Forças Armadas continuavam sujeitos a restrições orçamentárias e incertezas quanto ao ritmo de execução. O próprio contingenciamento imposto ao orçamento do Ministério da Defesa em 2026 reforçou essa realidade.

Por isso, a fala de Aramar não deve ser analisada isoladamente. Ela apenas tornou mais explícito um problema que já estava presente quando o presidente esteve na Avibras: o reconhecimento da importância da Defesa não veio acompanhado até aqui de uma solução definitiva para a instabilidade no fluxo de recursos. E essa questão pode ser observada também em programas muito diferentes do submarino nuclear.

O caso do ATMOS

O programa da Viatura Blindada de Combate Obuseiro Autopropulsado 155 mm Sobre Rodas, a VBCOAP 155 mm SR, é um exemplo particularmente útil.

A escolha do ATMOS representou uma decisão importante para a modernização da artilharia do Exército Brasileiro. O sistema atende a uma necessidade operacional concreta, combinando mobilidade, alcance e capacidade de emprego em diferentes cenários.

Mas o processo de aquisição acabou sendo submetido a uma intervenção de natureza político-ideológica que comprometeu sua evolução sem que, até o momento, tenha ficado demonstrada uma justificativa técnica ou operacional compatível com a dimensão da decisão.

O episódio também revelou uma interpretação equivocada sobre a própria natureza da empresa selecionada. A Elbit Systems é uma multinacional de capital privado, e não uma empresa pertencente ao governo de Israel. Embora seja uma companhia israelense e mantenha vínculos com o setor de Defesa daquele país, possui atuação internacional e mantém, há décadas, relações e projetos com o Brasil e com sua Base Industrial de Defesa.

Essa relação não é recente nem circunstancial. Empresas do grupo participam de diferentes programas brasileiros e a própria Elbit Systems construiu, ao longo dos anos, uma presença relevante no país por meio de parcerias, transferência de tecnologia, desenvolvimento conjunto e participação em projetos estratégicos.

Por isso, transformar a nacionalidade da empresa em elemento suficiente para questionar uma decisão de aquisição militar exige, no mínimo, uma justificativa que considere os aspectos técnicos, operacionais, industriais e estratégicos envolvidos. Uma decisão dessa natureza não deveria ser orientada exclusivamente por uma leitura político-ideológica sobre a origem do fornecedor.

Foto Victor Barreira

A questão se torna ainda mais relevante porque a aquisição do ATMOS não envolve apenas a escolha de um equipamento estrangeiro. Existe também a possibilidade de participação da indústria brasileira em sua implementação, justamente em um momento no qual o governo afirma buscar a recuperação da Base Industrial de Defesa e a preservação de capacidades nacionais.

A eventual participação das brasileiras AEL Sistemas, ARES e a Avibras em uma solução associada ao programa poderia contribuir para a recuperação da capacidade produtiva da própria Avibras e para a preservação de competências nacionais. Isso aproxima dois assuntos que no discurso político aparecem frequentemente separados: reequipamento das Forças Armadas e recuperação da Base Industrial de Defesa.

Mas ambos dependem da mesma condição básica: planejamento e recursos capazes de sustentar o programa até sua execução.

O caso do ATMOS demonstra, portanto, que as dificuldades enfrentadas pela Defesa brasileira não são exclusivamente orçamentárias. Em determinados momentos, decisões políticas também podem interferir em processos de aquisição que deveriam ser orientados prioritariamente por requisitos operacionais, critérios técnicos, interesses industriais e necessidades estratégicas do Estado.

Esse é um ponto que merece atenção porque a modernização da defesa não pode ser submetida a critérios diferentes daqueles que o próprio Estado estabelece para definir suas necessidades de capacidade.

Se a finalidade é dotar o Exército de uma artilharia moderna, móvel e capaz de acompanhar as demais forças no campo de batalha, a discussão deveria partir dessa necessidade e avaliar qual solução oferece a melhor combinação entre desempenho, custo, logística, transferência de tecnologia, participação nacional e sustentabilidade ao longo do ciclo de vida.

A origem de uma empresa pode fazer parte da análise de risco estratégico, mas não deveria, isoladamente, substituir a análise técnica. É justamente nessa diferença que o episódio do ATMOS se conecta ao debate mais amplo sobre a Defesa brasileira.

O que Aramar revela

É nesse contexto que a declaração de Lula em Aramar ganha maior relevância. O submarino nuclear é um projeto incomparavelmente mais complexo do que a aquisição de uma unidade de artilharia. Envolve domínio tecnológico, infraestrutura, formação de pessoal, segurança nuclear e uma cadeia industrial construída ao longo de décadas.

Ainda assim, os dois programas estão submetidos a uma característica comum do orçamento de Defesa brasileiro: a necessidade de conciliar projetos de longo prazo com recursos definidos dentro de ciclos orçamentários de curto prazo. Essa equação produz uma dificuldade conhecida.

Quando a disponibilidade financeira não acompanha o planejamento, o programa pode ter seu cronograma alterado, contratos podem ser postergados e decisões industriais precisam ser revistas. Em projetos de alta complexidade, os efeitos podem ser ainda maiores, porque a interrupção de uma etapa pode comprometer etapas posteriores e elevar o custo de retomada.

É justamente por isso que a fala do presidente em Aramar merece ser observada com atenção. Ao reconhecer a dificuldade de manter uma sequência de recursos capaz de assegurar a conclusão do submarino, Lula acabou identificando um dos problemas centrais que afetam não apenas o Programa Nuclear da Marinha, mas o planejamento de Defesa como um todo.

A contradição está na execução

Não há contradição em afirmar que a Defesa é importante e simultaneamente reconhecer que existem limitações orçamentárias. O orçamento público sempre envolve escolhas e restrições.

A dificuldade aparece quando programas são classificados como estratégicos, recebem prioridade política e são apresentados como instrumentos de soberania, mas continuam expostos a mecanismos de contingenciamento e a decisões anuais que podem alterar seu ritmo de execução. É essa diferença entre prioridade declarada e prioridade efetivamente protegida que merece ser discutida.

A experiência brasileira oferece diversos exemplos de programas que avançaram de maneira descontínua, tiveram seus cronogramas alterados ou precisaram ser reestruturados diante de mudanças na disponibilidade de recursos. Isso produz consequências que vão além do atraso de uma entrega.

Para as Forças Armadas, significa adiar capacidades que já foram consideradas necessárias. Para a indústria, significa dificuldade para dimensionar investimentos e manter equipes especializadas. Para o Estado, significa perder parte da eficiência obtida com anos de pesquisa e desenvolvimento.

No caso da Avibras, essa questão é ainda mais sensível porque a empresa concentra competências que levaram décadas para serem construídas. Recuperar uma estrutura industrial depois de sua desmobilização é muito mais complexo do que simplesmente retomar uma linha de produção. O mesmo raciocínio vale para Aramar.

O conhecimento necessário ao desenvolvimento do submarino nuclear não pode ser tratado como um projeto convencional de aquisição. Sua continuidade representa a preservação de competências tecnológicas que possuem valor estratégico para o país.

O que precisa mudar

O debate, portanto, não deveria se limitar ao tamanho do orçamento de Defesa. É necessário discutir também a forma como os programas estratégicos são planejados e protegidos dentro desse orçamento.

Se o Estado entende que determinados projetos são essenciais para sua soberania e para suas capacidades militares futuras, esses projetos precisam contar com mecanismos que permitam maior estabilidade de execução.

Isso não significa retirar a Defesa das prioridades fiscais do governo ou criar uma blindagem absoluta contra qualquer ajuste orçamentário. Significa estabelecer critérios claros para que contingenciamentos não comprometam justamente os programas cuja importância estratégica o próprio Estado reconhece. A fala de Lula em Aramar pode ser lida nesse contexto.

O presidente reafirmou a intenção de concluir o submarino nuclear e reconheceu a dificuldade provocada pela irregularidade dos recursos. A visita à Avibras, poucas semanas antes, havia reforçado a importância atribuída pelo governo à recuperação da indústria nacional de Defesa.

Entre as duas agendas, entretanto, permanece a mesma questão: como transformar essa prioridade política em execução contínua?

O ATMOS, o programa nuclear da Marinha e a recuperação da Avibras pertencem a universos diferentes, mas ajudam a demonstrar o mesmo desafio. Não basta selecionar um sistema, iniciar um programa ou anunciar sua importância. É preciso garantir as condições para que a decisão produza uma capacidade de defesa efetiva e sustentável. Essa é a discussão que precisa avançar.

O Brasil já possui uma estratégia de Defesa, programas estruturantes e uma Base Industrial capaz de desenvolver tecnologias de elevado nível. O que continua faltando, em muitos casos, é uma relação mais estável entre planejamento, orçamento e execução.

E é justamente nessa diferença entre aquilo que o Estado declara como prioridade e aquilo que consegue sustentar ao longo do tempo que estão algumas das principais vulnerabilidades da Defesa brasileira.


Por Angelo Nicolaci

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Brasil acelera integração de sistemas não tripulados na Defesa

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A guerra na Ucrânia consolidou uma mudança que já vinha sendo percebida em outros conflitos: sistemas não tripulados deixaram de ser ferramentas de apoio e passaram a ocupar posição central nas operações. Drones de baixo custo convivem com plataformas sofisticadas de vigilância, reconhecimento e ataque, enquanto veículos autônomos ampliam a presença militar em ambientes onde o emprego de meios tripulados é mais caro, arriscado ou limitado.

É nesse contexto que o Brasil começa a buscar uma abordagem mais integrada para seus sistemas não tripulados. Nos dias 13 e 14 de agosto, o Ministério da Defesa reuniu especialistas do Exército, da Marinha e da Força Aérea na Escola Superior de Defesa, em Brasília, para apresentar projetos em andamento, identificar lacunas e discutir como ampliar a cooperação entre as três Forças.

A discussão mostra que o Brasil já possui diferentes capacidades, mas muitas delas evoluíram de forma relativamente independente dentro de cada Força. O desafio agora é transformar esses projetos em uma arquitetura conjunta, capaz de conectar sensores, plataformas, redes de comunicação, sistemas de comando e meios de atuação.

Na Marinha, essa evolução está diretamente relacionada ao monitoramento da Amazônia Azul. O SisGAAz poderá incorporar sistemas aéreos, de superfície e terrestres não tripulados para ampliar a vigilância de uma área marítima extensa e reduzir as limitações impostas pela necessidade de manter plataformas tripuladas permanentemente em determinadas áreas.

Essa busca por maior autonomia também passa pela indústria nacional. No final de junho, o Comando do Material de Fuzileiros Navais realizou a avaliação do SARP Harpia, desenvolvido pela brasileira ADTECH-SD. Empregado como plataforma de Inteligência, Vigilância e Reconhecimento (ISR), o sistema demonstrou capacidades de rápida implantação, mobilidade, robustez e simplicidade logística. Para uma Força de Fuzileiros Navais concebida para operar de forma expedicionária, essas características ampliam o valor do sistema, permitindo seu emprego onde e quando houver necessidade, inclusive em ambientes nos quais a disponibilidade de infraestrutura é limitada.

A avaliação do Harpia também mostra que a discussão sobre sistemas não tripulados já ultrapassa a fase de demonstrações tecnológicas. Ao colocar uma solução desenvolvida pela indústria brasileira sob avaliação de uma Força operacional, a Marinha aproxima a tecnologia das necessidades reais do campo de batalha e cria um caminho para aperfeiçoar capacidades nacionais de ISR.

Entre os projetos navais está ainda o desenvolvimento de sistemas para controlar remotamente veículos autônomos de superfície. O sistema PRIMA, desenvolvido pelo Centro de Análises de Sistemas Navais (CASNAV), já foi instalado no Navio-Aeródromo Multipropósito Atlântico e no Navio Doca Multipropósito Bahia, permitindo que as duas plataformas funcionem como estações de controle. A tecnologia foi empregada em 2023 durante uma operação de Garantia da Lei e da Ordem na Baía de Guanabara.

No Exército, os investimentos abrangem diferentes categorias. A Força já emprega drones de curto e médio alcance, incluindo sistemas XMOBOTS e Nauru, enquanto estuda capacidades de maior alcance e potencialmente armadas. Também estão em desenvolvimento projetos de veículos terrestres não tripulados em parceria com a brasileira Taurus, a Otokar da Türkiye, e a EDGE dos Emirados, com alguns sistemas previstos para serem testados ainda neste ano durante a Operação Perseu.

A Força Aérea, por sua vez, possui uma experiência mais consolidada com sistemas remotamente pilotados. O RQ-900 é empregado há cerca de 15 anos a partir da Base Aérea de Santa Maria, no Rio Grande do Sul. Com autonomia de aproximadamente oito horas, alcance superior a 1.000 quilômetros e sensores para operações diurnas e noturnas, o sistema também foi utilizado recentemente no apoio às operações de busca e localização de vítimas durante as enchentes no Rio Grande do Sul.

O próximo passo da FAB está justamente na tentativa de ampliar a capacidade nacional. Por meio do projeto RQ-XBR, conduzido no âmbito da Comissão Coordenadora do Programa Aeronave de Combate (COPAC), a Força está identificando empresas brasileiras capazes de desenvolver sistemas de aeronaves remotamente pilotadas. A iniciativa busca mapear competências existentes na indústria e criar condições para o desenvolvimento de uma capacidade nacional.

Essa preocupação aparece de maneira semelhante nas três Forças: adquirir sistemas estrangeiros pode resolver uma necessidade operacional imediata, mas não necessariamente garante autonomia no longo prazo. Como destacado pelo Exército durante o encontro, tecnologias militares críticas dificilmente são transferidas integralmente pelos fornecedores. Por isso, quando a aquisição externa é necessária, a transferência de tecnologia passa a ser um elemento importante para permitir a evolução futura da capacidade nacional.

O problema é que a tecnologia também avança mais rapidamente do que os ciclos tradicionais de aquisição militar. Inteligência artificial, autonomia, sensores, processamento de dados e comunicações estão modificando continuamente as possibilidades de emprego. Para o Ministério da Defesa, o risco não é apenas deixar de possuir determinada capacidade, mas investir em uma solução que já esteja próxima da obsolescência quando finalmente entrar em serviço.

A experiência portuguesa apresentada durante o encontro oferece uma referência interessante. A Marinha de Portugal criou uma estrutura própria de inovação e experimentação justamente para responder a lacunas que não estavam sendo solucionadas pela indústria. O resultado inclui uma nova geração de navios preparados para operar sistemas aéreos, de superfície e subaquáticos de maneira integrada, como o futuro NRP D. João II.

Para o Brasil, a questão central passa a ser menos quantos drones cada Força possui e mais como essas plataformas serão conectadas ao restante da estrutura militar. A experiência dos conflitos recentes mostra que o valor de um sistema não tripulado aumenta quando ele consegue compartilhar dados com outros sensores, alimentar sistemas de comando e controle e participar de um ciclo rápido entre detecção, decisão e ação.

O encontro promovido pelo Ministério da Defesa indica que essa discussão começa a ganhar uma dimensão conjunta no Brasil. O próximo desafio será transformar projetos que ainda caminham em diferentes estágios em capacidades interoperáveis, com escala industrial, doutrina própria e menor dependência tecnológica externa. Nesse processo, iniciativas como a avaliação do Harpia pelos Fuzileiros Navais mostram que a Base Industrial de Defesa brasileira já pode participar de uma transformação que não se resume à aquisição de drones, mas envolve a construção de uma nova arquitetura de vigilância, comando e atuação para as Forças Armadas.


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Presidente visita Aramar e acompanha avanço do programa nuclear da Marinha

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Agenda em Iperó destacou a montagem do reator do LABGENE e o desenvolvimento das tecnologias que serão empregadas no futuro submarino brasileiro de propulsão nuclear

O presidente da República visitou nesta quarta-feira (19) o Centro Industrial Nuclear de Aramar (CINA), em Iperó, São Paulo, onde acompanhou o avanço do Programa Nuclear da Marinha (PNM) e as etapas de desenvolvimento da planta de propulsão destinada ao futuro submarino brasileiro de propulsão nuclear.

A visita ocorre em um momento importante do programa, que avança para a montagem do reator do Laboratório de Geração de Energia Nucleoelétrica (LABGENE). A instalação funciona como um protótipo em escala real e em terra da planta de propulsão que será posteriormente empregada no futuro Submarino Nuclear Convencionalmente Armado (SNCA).

O LABGENE permitirá testar o reator e os diferentes sistemas eletromecânicos integrados antes de sua instalação a bordo, criando uma etapa fundamental para validar o funcionamento da planta e qualificar as equipes responsáveis por sua operação. Quando estiver plenamente operacional, o laboratório terá uma potência térmica de 48 megawatts.

O desenvolvimento do submarino depende, porém, de uma cadeia tecnológica mais ampla. Aramar concentra estruturas voltadas ao domínio do ciclo do combustível nuclear, incluindo o Laboratório de Enriquecimento Isotópico (LEI), responsável pelo desenvolvimento da tecnologia de separação isotópica por ultracentrifugação, e a Usina Piloto de Produção de Hexafluoreto de Urânio (USEXA), destinada à conversão do concentrado de urânio em UF6.

Outro componente é o Laboratório de Materiais Nucleares (LABMAT), que desenvolve combustíveis cerâmicos e materiais utilizados em sistemas nucleares. A instalação recebe um aporte de R$ 58 milhões da Finep para a implantação de uma linha de produção de combustíveis destinados a reatores de pequeno porte.

A Finep também apoia o programa por meio de iniciativas como o projeto Atomic, voltado à modelagem computacional de transientes e acidentes operacionais nucleares, além de projetos inseridos no Finep Mais Inovação, dentro da Nova Indústria Brasil. Essas iniciativas ampliam a participação da base científica e industrial brasileira no desenvolvimento das tecnologias associadas ao programa.

O complexo também concentra a formação dos profissionais que irão operar as instalações nucleares. O Centro de Instrução e Adestramento Nuclear de Aramar (CIANA) prepara militares e civis para a operação segura de plantas nucleares, enquanto o Laboratório Radioecológico (LARE) realiza o monitoramento radiológico dos trabalhadores e das áreas do entorno.

O caráter do programa é também dual. O domínio desenvolvido para a propulsão naval pode gerar aplicações futuras em outras áreas da tecnologia nuclear, incluindo geração de energia e soluções para setores como medicina e agricultura, ampliando o retorno científico e industrial dos investimentos realizados.

A visita presidencial reuniu ainda o ministro da Defesa, o ministro do Gabinete de Segurança Institucional, o comandante da Marinha e a ministra da Ciência, Tecnologia e Inovações, reforçando a dimensão estratégica atribuída ao Programa Nuclear da Marinha.

O avanço do LABGENE representa, assim, uma das etapas mais importantes do caminho até o submarino brasileiro de propulsão nuclear. Mais do que a construção de uma plataforma naval, o programa envolve o desenvolvimento de uma cadeia nacional de conhecimento, materiais, combustível, geração de energia e recursos humanos necessária para que o Brasil possa operar e sustentar uma capacidade nuclear naval própria.


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SPEAR amplia alcance ofensivo do MQ-9B e do Gambit 6

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General Atomics e MBDA avançam na integração do míssil de cruzeiro com duas plataformas não tripuladas, ampliando a capacidade de ataque a distância e de supressão de defesas aéreas

A General Atomics e a MBDA deram mais um passo na evolução das capacidades ofensivas de sistemas aéreos não tripulados ao assinarem um memorando de entendimento para integrar o míssil de cruzeiro SPEAR ao MQ-9B e ao Gambit 6, aeronave de combate cooperativa não tripulada (CCA). O acordo prevê o trabalho conjunto para garantir que o armamento possa ser transportado e empregado operacionalmente pelas duas plataformas.

A iniciativa amplia uma parceria que já envolve a integração do míssil Brimstone ao Protector RG Mk1, versão britânica do MQ-9B. Agora, a incorporação do SPEAR leva a plataforma a uma categoria diferente de emprego, com capacidade de realizar ataques contra alvos além da linha de visão e a maiores distâncias de segurança em relação às defesas aéreas adversárias.

Desenvolvido pela MBDA, o SPEAR é um míssil de cruzeiro compacto para ataque ar-superfície. Seu tamanho permite que diferentes plataformas transportem múltiplas unidades, enquanto o alcance e os sistemas de guiagem permitem atingir alvos sem exigir que a aeronave lançadora se aproxime diretamente da área protegida por sistemas de defesa antiaérea.

Para o MQ-9B, a integração representa uma ampliação significativa do conceito original da plataforma. Com elevada autonomia e capacidade de permanência prolongada, o sistema já é empregado ou encomendado por cerca de uma dúzia de países, incluindo Reino Unido, Alemanha, Dinamarca, Bélgica e Polônia. A combinação entre persistência, sensores e um armamento de maior alcance amplia sua capacidade de atuar em missões de reconhecimento, vigilância e ataque.

A mesma integração ganha uma dimensão ainda maior no Gambit 6. Desenvolvido pela General Atomics como uma CCA, o sistema foi concebido para operar em missões nas quais uma aeronave não tripulada possa assumir funções de combate normalmente associadas a plataformas tripuladas, incluindo guerra eletrônica, supressão e destruição de defesas aéreas inimigas e ataques de precisão.

Com o SPEAR, o Gambit 6 passa a ser projetado também para engajar alvos terrestres a distância, mantendo a plataforma fora do envelope de ameaça dos sistemas de defesa aérea. Essa combinação é particularmente relevante para operações em ambientes nos quais a sobrevivência das aeronaves tripuladas depende da capacidade de neutralizar ou contornar as defesas adversárias.

A integração também evidencia uma tendência que vem ganhando espaço nos programas de combate aéreo: separar a plataforma do risco direto do ataque e transferir parte da letalidade para armamentos de maior alcance. Nesse modelo, drones de elevada autonomia e CCAs podem permanecer em áreas menos expostas enquanto empregam armas capazes de atingir alvos a grandes distâncias.

O movimento da General Atomics e da MBDA também mostra como os sistemas não tripulados estão deixando de ser empregados apenas como plataformas de inteligência, vigilância e reconhecimento. A combinação entre sensores, autonomia, guerra eletrônica e armamentos de precisão está transformando essas aeronaves em componentes ativos da arquitetura de combate aéreo.

Para o MQ-9B, o SPEAR acrescenta uma nova camada de capacidade ofensiva. Para o Gambit 6, representa um passo na direção de uma aeronave não tripulada concebida desde o início para operar em ambientes de maior ameaça. Em ambos os casos, a lógica é a mesma: aumentar o alcance dos efeitos produzidos sem aumentar na mesma proporção a exposição da plataforma.

Esse conceito deverá ganhar importância à medida que defesas aéreas mais integradas, sensores de maior alcance e sistemas de guerra eletrônica tornarem cada vez mais arriscado penetrar diretamente no espaço aéreo adversário. A integração do SPEAR ao MQ-9B e ao Gambit 6 coloca essas duas plataformas dentro dessa transformação, aproximando drones e sistemas de combate cooperativos do centro da arquitetura ofensiva das futuras operações aéreas.


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