quinta-feira, 10 de setembro de 2026

Terras raras: Juliana Benicio critica modelo brasileiro e cobra domínio tecnológico

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A aquisição da Serra Verde, empresa responsável pela operação da mina de Pela Ema, em Minaçu (GO), pela norte-americana USA Rare Earth colocou em evidência um dos principais desafios da política mineral brasileira: transformar grandes reservas de recursos estratégicos em capacidade industrial e tecnológica dentro do país. A operação, avaliada em aproximadamente US$ 2,8 bilhões, foi concluída em 3 de setembro e envolve uma das poucas minas fora da Ásia com capacidade de produzir comercialmente quatro terras raras consideradas essenciais para a indústria de alta tecnologia: neodímio, praseodímio, disprósio e térbio.

O negócio chamou a atenção de Juliana Benicio, candidata a Deputada Federal pelo Rio de Janeiro e ex-secretária municipal de Inovação, Ciência e Tecnologia de Niterói. À frente da pasta, Juliana participou da articulação do Distrito de Inovação da Cantareira, projeto que aproximou o município de universidades, centros de pesquisa e grandes empresas de tecnologia, incluindo NVIDIA e IBM. A iniciativa também prevê infraestrutura de computação de alto desempenho e pesquisa em inteligência artificial e computação quântica.

Essa experiência ajuda a contextualizar a crítica apresentada por Juliana em relação à aquisição da Serra Verde. Para ela, o problema não está na entrada de capital estrangeiro em si, mas no risco de o Brasil concentrar sua participação na extração enquanto as etapas mais sofisticadas da cadeia produtiva permanecem no exterior. Sua posição é de que investimentos internacionais podem ser importantes para o país, desde que também resultem em capacidade tecnológica, formação profissional e geração de valor no território brasileiro.

Para Juliana, o ponto central está no valor agregado. A separação dos elementos de terras raras, a produção de metais e ligas e, principalmente, a fabricação de ímãs permanentes envolvem processos tecnológicos mais complexos e maior geração de valor. Na avaliação da candidata, se essas etapas forem realizadas fora do Brasil, o país poderá fornecer uma matéria-prima estratégica sem necessariamente desenvolver a indústria, as tecnologias e os profissionais associados a ela.

A preocupação ganha dimensão concreta no caso da Serra Verde. Com a aquisição, a USA Rare Earth passa a integrar a produção da mina brasileira a uma estrutura internacional que reúne capacidades de processamento, metalização e fabricação de ímãs. O movimento cria uma cadeia verticalizada, na qual o minério extraído em Goiás passa a fazer parte de uma estratégia industrial mais ampla controlada pela empresa norte-americana.

A operação também conta com forte apoio dos Estados Unidos. O governo norte-americano comprometeu US$ 750 milhões no arranjo financeiro relacionado à aquisição, enquanto foi estabelecido um contrato de compra futura de produtos da companhia. A estrutura demonstra como as terras raras deixaram de ser tratadas apenas como uma questão de mineração e passaram a integrar políticas de segurança econômica, indústria e defesa.

É nesse ponto que a avaliação de Juliana ganha relevância para o debate brasileiro. A experiência acumulada em Niterói reforça justamente a diferença entre simplesmente atrair uma empresa estrangeira e criar condições para que sua presença produza conhecimento, infraestrutura, empregos qualificados e novas capacidades tecnológicas. No caso das terras raras, ela defende que o Brasil utilize sua posição como detentor de recursos estratégicos para negociar contrapartidas capazes de manter no território nacional etapas industriais, formação de mão de obra especializada e desenvolvimento tecnológico.

O problema é que o Brasil ainda possui uma participação muito pequena no processamento desses minerais. Apesar de estar entre os países com maiores reservas de terras raras e outros minerais críticos, o país responde por apenas uma fração do processamento mundial. A diferença entre possuir a jazida e dominar a tecnologia necessária para transformar o minério em produtos industriais representa justamente uma das principais vulnerabilidades da cadeia brasileira.

Essa diferença é especialmente importante porque as terras raras estão presentes em tecnologias que ultrapassam o mercado de mineração. Ímãs permanentes produzidos a partir desses elementos são utilizados em motores elétricos, equipamentos eletrônicos, sistemas de geração de energia e diferentes aplicações militares. Quem domina o processamento e a fabricação desses componentes controla uma etapa muito mais estratégica da cadeia do que aquele que simplesmente fornece o minério.

A disputa internacional confirma essa mudança de cenário. Os Estados Unidos buscam reduzir sua dependência das cadeias concentradas na Ásia e vêm utilizando investimentos públicos, contratos de fornecimento e parcerias com empresas para ampliar sua capacidade doméstica de processamento e fabricação. A China, por sua vez, permanece como principal potência mundial em diferentes etapas da cadeia de terras raras.

Para o Brasil, o caso Serra Verde expõe uma decisão que vai além da propriedade de uma mina. A questão é definir quanto valor econômico e tecnológico o país pretende capturar a partir de seus próprios recursos naturais. A crítica de Juliana Benicio coloca esse ponto em evidência a partir de uma experiência concreta de gestão em ciência, tecnologia e inovação: o investimento estrangeiro pode contribuir para o desenvolvimento nacional, mas a presença de capital externo não substitui uma política industrial brasileira capaz de estabelecer quais tecnologias, processos produtivos e conhecimentos estratégicos precisam permanecer no país.

As terras raras oferecem ao Brasil uma oportunidade que não se limita à exportação de mais uma commodity. O desafio está em transformar a vantagem geológica em capacidade industrial, tecnológica e estratégica. Sem essa etapa, o país corre o risco de continuar rico em recursos minerais, mas dependente de outros países justamente nas tecnologias que dão a esses recursos seu maior valor.


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França aprova THUNDART para substituir sistema LRU e ampliar capacidade de ataque terrestre de longo alcance

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A Agência Francesa de Aquisição de Defesa (DGA) notificou a MBDA e a Safran Electronics & Defense para o desenvolvimento do THUNDART, nova solução destinada a renovar a capacidade francesa de ataque tático terrestre de longo alcance e preparar a substituição do Lançador de Foguetes Unitário (LRU, Lance-Roquettes Unitaire).

Desenvolvido conjuntamente pelas duas empresas, o THUNDART foi concebido para proporcionar ao Exército Francês uma capacidade soberana de ataque de precisão em profundidade, adequada às exigências de conflitos de alta intensidade e capaz de operar em ambientes onde os sistemas de navegação e comunicação estejam sujeitos a interferências ou outras formas de negação.

O sistema será projetado, desenvolvido e produzido na França, com a proposta de assegurar às Forças Armadas Francesas autonomia de emprego até 2030. A iniciativa coloca a capacidade industrial nacional no centro do programa, desde o desenvolvimento da solução até sua produção e posterior suporte em serviço.

O THUNDART já passou por uma etapa inicial de desenvolvimento, que culminou em um disparo de demonstração realizado com sucesso em abril de 2026. Com a notificação do programa pela DGA, MBDA e Safran avançam agora para a próxima fase, que será conduzida por uma nova joint venture formada pelas duas empresas em participação igualitária de 50% para cada uma.

A joint venture será instalada na região de Paris e ficará responsável pelo desenvolvimento, produção e suporte em serviço do THUNDART. A estrutura também deverá acompanhar futuras evoluções do sistema, incluindo possíveis adaptações para outros ambientes operacionais e versões destinadas aos mercados de exportação de países aliados.

A solução reúne competências complementares das duas empresas. A Safran Electronics & Defense contribuirá particularmente com suas tecnologias de navegação inercial e optrônica, consideradas fundamentais para preservar a precisão do sistema em situações nas quais a disponibilidade dos sinais GNSS esteja comprometida.

A MBDA, por sua vez, ficará diretamente envolvida na integração da capacidade de ataque e na estruturação industrial do sistema. A empresa destaca que o programa poderá aproveitar subsistemas já maduros e uma capacidade industrial que está em expansão, permitindo acelerar o desenvolvimento e responder às necessidades do Exército Francês dentro de um cronograma reduzido.

Para a França, a questão da navegação resiliente ganhou importância diante da evolução dos ambientes operacionais, nos quais a guerra eletrônica pode comprometer o emprego de sistemas dependentes exclusivamente de sinais de posicionamento por satélite. A combinação entre navegação inercial, optrônica e um sistema de ataque de precisão busca preservar a eficácia do THUNDART mesmo sob condições de interferência.

O programa também terá impacto sobre a base industrial francesa de defesa. Segundo MBDA e Safran, várias dezenas de engenheiros já estão envolvidos no desenvolvimento, enquanto as próximas fases deverão gerar empregos nas áreas de engenharia e produção nas instalações estratégicas dos dois grupos e entre seus subcontratados.

A cadeia industrial associada ao projeto deverá alcançar diferentes regiões da França, incluindo Aquitânia, Bretanha, Centro-Vale do Loire, Île-de-France, País do Loire e Provença-Alpes-Costa Azul. Dessa forma, o programa não se limita ao desenvolvimento de um novo sistema de armas, mas também amplia a atividade industrial vinculada às capacidades francesas de ataque de longo alcance.

A criação da joint venture também abre espaço para a evolução futura do THUNDART, permitindo que a solução seja adaptada a diferentes necessidades operacionais e, eventualmente, oferecida a países aliados. A iniciativa busca, assim, combinar a renovação da capacidade francesa com uma estrutura industrial capaz de sustentar o sistema ao longo de seu ciclo de vida.

A seleção do THUNDART pela DGA representa uma nova etapa no esforço francês para renovar sua capacidade de ataque terrestre em profundidade, substituindo progressivamente o LRU por uma solução desenvolvida e produzida nacionalmente. O objetivo é colocar à disposição do Exército Francês, até o final da década, uma capacidade de precisão de longo alcance compatível com as exigências dos atuais ambientes de combate.


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NUCLEP conclui qualificação do casco do futuro submarino de propulsão nuclear do Brasil

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A Nuclebrás Equipamentos Pesados S.A. (NUCLEP) concluiu sua participação na fabricação da Seção de Qualificação do casco resistente do futuro Submarino Nuclear Convencionalmente Armado (SNCA) "Álvaro Alberto", uma etapa destinada a validar materiais, processos industriais, equipamentos e procedimentos que serão empregados na construção das seções definitivas do primeiro submarino brasileiro de propulsão nuclear.

A estrutura foi produzida pela NUCLEP em parceria com a Itaguaí Construções Navais (ICN), dentro do Programa de Desenvolvimento de Submarinos (PROSUB), e tem uma função essencialmente industrial e tecnológica. Embora reproduza características relevantes do casco que será empregado no submarino, a Seção de Qualificação não será incorporada à unidade operacional. Seu objetivo é permitir que processos construtivos sejam testados, avaliados e aperfeiçoados antes de sua aplicação nas estruturas definitivas.

A etapa permite verificar, em condições controladas, o comportamento dos materiais, procedimentos de soldagem, equipamentos, métodos de fabricação e qualificação dos profissionais envolvidos. Trata-se de uma abordagem particularmente importante na construção de um submarino de propulsão nuclear, em que os requisitos de integridade estrutural, precisão dimensional, controle de qualidade e rastreabilidade industrial são elevados.

O trabalho também representa a consolidação de uma capacidade industrial construída ao longo de décadas. A NUCLEP possui histórico na fabricação de estruturas destinadas aos programas de submarinos brasileiros e participou da produção de seções dos submarinos convencionais das classes incorporadas pela Marinha do Brasil. Essa experiência foi ampliada com sua participação no PROSUB e na construção das estruturas resistentes dos submarinos da classe Riachuelo.

A qualificação industrial ganha ainda maior relevância quando considerada em conjunto com o desenvolvimento do sistema de propulsão nuclear brasileiro. A NUCLEP também participa das atividades relacionadas ao Bloco 40, estrutura destinada ao protótipo em terra do sistema de propulsão nuclear, desenvolvido no âmbito do Laboratório de Geração de Energia Nucleoelétrica (LABGENE). O conjunto dessas iniciativas permite desenvolver, testar e validar diferentes elementos tecnológicos antes de sua aplicação no submarino.

Esse processo, entretanto, depende de uma variável que ultrapassa a capacidade técnica das empresas envolvidas: a continuidade dos investimentos. Programas dessa complexidade são desenvolvidos ao longo de décadas e exigem previsibilidade orçamentária para que as diferentes etapas industriais ocorram dentro das sequências planejadas. Interrupções, contingenciamentos ou liberações financeiras incompatíveis com o cronograma podem provocar desmobilização de equipes, necessidade de reprogramação de contratos, perda de ritmo industrial e aumento dos custos associados à retomada das atividades.

No caso do submarino de propulsão nuclear, essa previsibilidade é particularmente importante porque o conhecimento acumulado durante o desenvolvimento não está restrito aos equipamentos produzidos, mas também envolve processos, mão de obra especializada, fornecedores e competências industriais que precisam ser preservados ao longo do tempo. A manutenção de investimentos contínuos reduz o risco de que capacidades já desenvolvidas precisem ser reconstruídas posteriormente a um custo maior e com novos prazos de maturação.

A conclusão da Seção de Qualificação demonstra justamente a importância dessa continuidade. Antes que as estruturas definitivas avancem para determinadas etapas de fabricação, a indústria brasileira passa por um processo de validação que reduz riscos técnicos e permite identificar eventuais problemas ainda no ambiente de desenvolvimento. Quanto mais consistente for a continuidade financeira e industrial do programa, maior tende a ser a capacidade de preservar esse ganho de maturidade.

O desenvolvimento do "Álvaro Alberto" também evidencia a divisão de competências estabelecida pelo PROSUB. A cooperação tecnológica com a França permitiu ao Brasil ampliar sua capacidade de projetar e construir submarinos convencionais, enquanto o desenvolvimento da propulsão nuclear permanece associado ao esforço tecnológico nacional. O objetivo não é apenas construir uma plataforma, mas consolidar no país conhecimentos e infraestrutura capazes de sustentar uma capacidade estratégica de longo prazo.

Outro aspecto fundamental é que a propulsão nuclear não significa a adoção de armamento nuclear. O "Álvaro Alberto" será um submarino convencionalmente armado, destinado a empregar sistemas de armas compatíveis com sua missão, mas equipado com um sistema de propulsão nuclear desenvolvido pelo Brasil. A combinação proporciona elevada autonomia e permanência prolongada em operação, características particularmente relevantes para uma força naval que precisa ampliar sua capacidade de patrulhamento e dissuasão em uma extensa área marítima.

A conclusão da Seção de Qualificação, portanto, não representa a entrega de um componente destinado diretamente ao futuro submarino, mas o encerramento de uma etapa de preparação industrial que antecede a fabricação das estruturas definitivas. O conhecimento obtido nessa fase deverá contribuir para reduzir riscos nas próximas etapas e aumentar a confiabilidade dos processos empregados na construção do "Álvaro Alberto".

O avanço do programa mantém o Brasil entre os poucos países que dominam, ou buscam dominar, de forma autônoma, as diferentes competências necessárias à construção de um submarino de propulsão nuclear. Para que essa capacidade se transforme em um meio operacional, e posteriormente, em uma competência permanente da indústria nacional, contudo, será necessário manter o fluxo de recursos, preservar a cadeia de fornecedores e garantir previsibilidade para um projeto cujo horizonte se estende por muitos anos.

A conclusão dessa etapa pela NUCLEP mostra que existe uma base industrial capaz de executar atividades de elevada complexidade. O desafio agora é assegurar que essa capacidade seja mantida de forma contínua até as próximas fases do programa, evitando que restrições orçamentárias transformem avanços tecnológicos já conquistados em novos ciclos de atraso, reprogramação e aumento de custos.


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CAvEx prepara nova geração de operadores para drones de longo alcance

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A transformação promovida pelo Programa Estratégico Aviação do Exército e Drones começa a produzir efeitos que vão além da incorporação de novos equipamentos. A Aviação do Exército Brasileiro (AvEx) trabalha na preparação de uma nova estrutura de pessoal para operar Sistemas de Aeronaves Remotamente Pilotadas (SARP) de maior capacidade, incluindo plataformas de Categoria 3 e longo alcance, sinalizando uma mudança importante na forma como a Força pretende organizar e empregar seus meios aéreos não tripulados.

Segundo o Comando de Aviação do Exército (CAvEx), a fase inicial desse processo deverá aproveitar competências já existentes na Força. As primeiras equipes destinadas aos SARP de maior porte deverão contar com Pilotos de Helicópteros e oficiais possuidores do Curso de Observador Aéreo do Exército, reunindo experiência no planejamento e execução de missões aéreas, observação, reconhecimento e apoio às operações terrestres.

A opção por esse perfil não significa, contudo, que a operação dos novos sistemas será tratada simplesmente como uma extensão das atividades desempenhadas pelas tripulações de aeronaves tripuladas. Os SARP de maior capacidade introduzem requisitos próprios relacionados ao comando e controle, inteligência de imagens, permanência prolongada em voo, operação a grandes distâncias e processamento das informações obtidas durante as missões.

Por essa razão, o CAvEx já estuda uma evolução do modelo de formação. Com a maturação da capacidade e a consolidação da segurança operacional, está prevista a possibilidade de criação de um curso específico para pilotos de SARP de maior porte, sem a necessidade de formação anterior como piloto de aeronave tripulada. Na prática, a medida poderá estabelecer uma especialização própria dentro da estrutura da Aviação do Exército Brasileiro.

Essa mudança acompanha a evolução da própria doutrina de emprego dos sistemas não tripulados. O Exército Brasileiro trabalha com uma arquitetura na qual SARP de diferentes categorias atuem de forma complementar, desde sistemas empregados junto às tropas para ampliar a consciência situacional até plataformas de maior alcance destinadas a operações em profundidade.

Nesse conceito, o operador deixa de ser apenas o responsável pelo controle da aeronave e passa a integrar uma cadeia operacional mais ampla, envolvendo obtenção de informações, comando e controle, identificação de alvos e apoio à tomada de decisão. A integração com os meios de asas rotativas também deverá ser ampliada, permitindo que sistemas tripulados e não tripulados sejam empregados de forma coordenada.

O futuro Batalhão de Aeronaves Remotamente Pilotadas (BARP) está inserido nessa transformação. A concepção apresentada pelo CAvEx prevê o emprego de SARP de diferentes categorias em uma manobra coordenada, utilizando drones para moldar o domínio aéreo e criar condições para a atuação dos sistemas de maior capacidade e dos vetores tripulados.

Nesse cenário, a formação de pessoal torna-se um componente essencial da nova capacidade. O Centro de Instrução de Aviação do Exército (CIAvEx) já desenvolve programas de instrução para diferentes categorias de SARP empregados pelo Exército Brasileiro, incluindo a formação de multiplicadores responsáveis por disseminar conhecimentos nas organizações militares.

Para os sistemas de maior porte, entretanto, a tendência é avançar para uma qualificação específica. O planejamento já considera conhecimentos relacionados à inteligência artificial, inteligência de imagens e comando e controle, refletindo a crescente complexidade das operações envolvendo aeronaves remotamente pilotadas.

A perspectiva ganha relevância diante do processo de seleção de um futuro SARP de Categoria 3 para o Exército Brasileiro. Entre as plataformas que estão no radar da Força está o Bayraktar TB3, desenvolvido pela empresa turca Baykar. A apuração do GBN Defense indica que o sistema está sendo considerado nas tratativas relacionadas à futura capacidade brasileira, com possibilidade de um acordo ser anunciado em meados de 2027 ou no início de 2028. Até o momento, porém, não há anúncio oficial de contrato para aquisição da plataforma.

Caso essa capacidade seja efetivamente incorporada, a mudança na formação dos operadores será tão relevante quanto a própria aquisição dos sistemas. Um SARP de Categoria 3, concebido para operar por longos períodos e atuar a grandes distâncias, exige uma estrutura de pessoal capaz de explorar suas capacidades de inteligência, reconhecimento, vigilância e aquisição de alvos, além de sua eventual capacidade de apoio de fogo.

A evolução planejada pela AvEx demonstra, portanto, que a transformação dos meios aéreos do Exército Brasileiro não está limitada à substituição ou incorporação de plataformas. A Força começa a estruturar também a dimensão humana e doutrinária necessária para operar em um ambiente no qual aeronaves tripuladas e sistemas remotamente pilotados deverão atuar de maneira cada vez mais integrada.


por Angelo Nicolaci


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Primeiro Guaicurus fabricado no Brasil reforça produção nacional para o Exército

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A entrega do primeiro LMV-BR2 Guaicurus produzido no Brasil, realizada nesta quarta-feira (9) na unidade da IDV em Sete Lagoas (MG), representa mais do que a incorporação de uma nova viatura ao Exército Brasileiro. O marco inaugura uma nova etapa do programa, na qual a expansão da frota passa a ocorrer associada à produção nacional da plataforma e à consolidação de uma estrutura brasileira de fabricação e suporte.

O movimento está relacionado ao contrato firmado pelo Exército com a IDV em 2024, que prevê 420 novas viaturas, um programa estimado em aproximadamente R$ 1,4 bilhão. A programação estabelece uma incorporação progressiva até 2033, com outras 14 unidades previstas para serem entregues ainda em 2026. O modelo de aquisição permite que a renovação da frota ocorra de forma escalonada, acompanhando a capacidade de produção e a disponibilidade orçamentária.

A mudança é relevante quando comparada ao primeiro contrato do Guaicurus. As 32 unidades inicialmente incorporadas pelo Exército foram produzidas na Itália e posteriormente receberam configuração final e suporte logístico no Brasil. Agora, a própria fabricação passa a ocorrer em Sete Lagoas, estabelecendo no País uma capacidade industrial diretamente vinculada à produção da família LMV.

Essa estrutura tem importância que ultrapassa a fabricação das viaturas. A existência de uma linha nacional facilita a manutenção da frota, o fornecimento de componentes, a atualização dos veículos e a incorporação de novas configurações ao longo do ciclo de vida. Com programa que deverá permanecer em serviço por décadas, a capacidade de sustentar a plataforma localmente constitui um fator tão relevante quanto a aquisição inicial.

O LMV-BR2 ocupa uma categoria específica dentro da frota terrestre brasileira, destinada a missões nas quais mobilidade, proteção e flexibilidade operacional precisam ser combinadas em uma única plataforma. Seu projeto utiliza proteção balística e resistência contra explosões, incluindo o característico casco com fundo em “V”, permitindo seu emprego em ambientes nos quais uma viatura convencional ofereceria menor nível de proteção às tropas.

A arquitetura do Guaicurus também permite que o Exército utilize uma mesma plataforma para diferentes necessidades operacionais. O novo lote contempla 105 veículos equipados com o Sistema de Armas Remotamente Controlado REMAX 4, desenvolvido pela ARES, enquanto as demais unidades deverão empregar a estação manual REMAN. A plataforma ainda foi concebida para receber diferentes equipamentos de missão, ampliando sua possibilidade de emprego em funções de patrulhamento, reconhecimento, comunicações, guerra eletrônica e evacuação médica.

Outro aspecto relevante é a possibilidade de integração de sistemas desenvolvidos pela própria Base Industrial de Defesa brasileira. O Exército avalia a integração do míssil anticarro MAX 1.2 AC da SIATT, enquanto a adoção da família de Rádios Mallet, produzida pela IMBEL, amplia a presença de equipamentos nacionais no conjunto de comunicações da viatura. Essa arquitetura abre espaço para que o Guaicurus deixe de ser apenas uma plataforma adquirida do exterior e passe a funcionar como vetor para diferentes tecnologias desenvolvidas no Brasil.

Com a incorporação das 420 novas unidades, a família LMV chegará a 468 veículos no Exército Brasileiro. Além dos 32 Guaicurus do primeiro contrato, a frota inclui 16 Lince K2 adquiridos em 2018. A dimensão do novo programa, portanto, transforma o Guaicurus em uma das principais plataformas da categoria de viaturas blindadas leves do Exército Brasileiro.

A produção brasileira também estabelece uma relação mais duradoura entre o programa de defesa e a capacidade industrial instalada no País. Para o Exército, isso representa a formação de uma base de fabricação e suporte para uma frota numerosa; para a indústria, cria uma demanda de longo prazo que pode envolver produção, manutenção, modernização e integração de sistemas ao longo de todo o ciclo de vida das viaturas.

O primeiro Guaicurus produzido em Sete Lagoas, portanto, deve ser observado menos como uma unidade isolada e mais como o ponto de partida de um programa de escala significativamente maior. A partir dele, a aquisição dos 420 veículos passa a estar associada não apenas à renovação da capacidade operacional do Exército, mas também à construção de uma estrutura nacional capaz de sustentar, adaptar e evoluir essa capacidade nas próximas décadas.


por Angelo Nicolaci


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quarta-feira, 9 de setembro de 2026

UH-60M renova frota de manobra do Exército e amplia capacidade operacional da Aviação do Exército

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A Aviação do Exército Brasileiro iniciou uma importante transição de sua frota de helicópteros de manobra com a chegada do primeiro UH-60M Black Hawk em 20 de novembro de 2025, oficialmente recebido pelo Exército em 15 de dezembro do mesmo ano e designado HM-2A. A incorporação marcou o início da substituição progressiva dos HM-3 Cougar, designação brasileira do Eurocopter AS532UE, e dos HM-2 Black Hawk, designação dos S-70A, aeronaves de diferentes gerações e em estágios avançados de seus respectivos ciclos de vida. Mais do que renovar células, o programa promove uma mudança qualitativa na capacidade de manobra, associada à padronização da frota e à racionalização de sua estrutura de sustentação.

O planejamento prevê 12 exemplares do HM-2A, quantitativo equivalente aos oito HM-3 Cougar e quatro HM-2 Black Hawk que compõem a frota atualmente destinada a essa função e serão progressivamente retirados. A equivalência numérica, porém, não representa equivalência de capacidade. O UH-60M pertence a uma geração mais recente de helicópteros de transporte e assalto, com arquitetura de aviônicos, sistemas de missão, comunicações, navegação, autoproteção e gerenciamento da aeronave mais avançada que a dos meios que substituirá. O Exército, portanto, mantém o quantitativo planejado de aeronaves de manobra enquanto eleva seu padrão tecnológico.

A mudança também reduz a diversidade da frota. Atualmente, a AvEx precisa sustentar duas plataformas distintas, com diferentes sistemas, documentação técnica, processos de manutenção, treinamento e cadeias de suprimentos. A concentração progressiva dessa capacidade em uma única família de helicópteros permite racionalizar ferramental, estoques, formação de pessoal e procedimentos de manutenção, além de facilitar a gestão da disponibilidade operacional.

A incorporação ocorre no âmbito do Projeto Capacidade de Manobra, integrante do Programa Aviação do Exército e Drones. Segundo o comandante da Aviação do Exército, General Amorim, a introdução do HM-2A está sendo conduzida como um processo de transformação de capacidade, abrangendo operação, instrução, manutenção, formação de tripulações e especialistas e atualização dos documentos regulatórios e doutrinários necessários ao emprego da aeronave.

Essa preparação antecede a chegada da maior parte da frota. Uma unidade já foi recebida, enquanto outras oito estão previstas para 2028 e as três restantes para 2029. As primeiras tripulações já estão sendo formadas, ao mesmo tempo em que estruturas de instrução e apoio logístico são adaptadas e documentos relacionados ao emprego e à manobra do HM-2A são atualizados ou produzidos. A concentração das entregas em 2028 torna esse período decisivo para a expansão da nova capacidade.

A transição ocorrerá, entretanto, com a manutenção de parte da frota atual em operação. O Exército pretende preservar os HM-3 em condições de voo enquanto transfere competências para o HM-2A. Como essas aeronaves se encontram próximas do final de seus ciclos de vida, essa etapa exige gerenciamento de componentes, horas de voo e manutenção, além da preservação das qualificações das equipes responsáveis por sua operação.

A substituição de 12 aeronaves por 12 HM-2A deve, portanto, ser analisada como uma renovação qualitativa da capacidade de manobra. Conforme explicou o comandante da AvEx, parte dos HM-3 será retirada durante o processo, enquanto a entrada dos novos helicópteros deverá compensar a redução relativa provocada pelo desfazimento dessas unidades. O objetivo é evitar que a transição produza uma queda proporcional na capacidade disponível para a Força Terrestre.

Outro desafio está na formação de pessoal. A AvEx precisa qualificar pilotos, mecânicos e demais especialistas para o HM-2A sem aumento proporcional do efetivo, mantendo simultaneamente as competências necessárias para operar os meios que permanecerão em serviço. A formação dessa massa crítica será necessária para sustentar escalas de prontidão, instrução, manutenção e emprego operacional à medida que a nova frota crescer.

A gestão da continuidade operacional envolve diferentes níveis do Exército. De acordo com o comandante da AvEx, o Comando de Operações Terrestres e o Estado-Maior do Exército conduzem esse processo com assessoramento do Comando de Aviação do Exército e do Comando Logístico. A coordenação permite compatibilizar a retirada dos meios antigos com a formação das novas capacidades e com a disponibilidade exigida pela Força Terrestre.

O resultado esperado é uma frota de manobra mais homogênea, apoiada por uma plataforma contemporânea e com maior potencial de integração aos sistemas atuais de comando, controle, comunicações e às operações aeromóveis. A vantagem da renovação, entretanto, não estará apenas na tecnologia embarcada: a redução da diversidade de plataformas deverá facilitar a concentração de recursos de manutenção, treinamento e logística em um único sistema.

A efetividade dessa transformação será determinada pela capacidade de converter o recebimento das aeronaves em disponibilidade operacional sustentada. Para isso, pessoal qualificado, infraestrutura, manutenção, cadeia de suprimentos e doutrina precisam evoluir de forma coordenada. Com o primeiro HM-2A já incorporado e a maior parte da frota prevista para 2028 e as três últimas em 2029, a Aviação do Exército inicia uma transição que preserva o quantitativo planejado de helicópteros de manobra, mas busca entregar uma capacidade mais moderna, padronizada e sustentável.


por Angelo Nicolaci


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Aviação do Exército redefine prioridades para enfrentar o novo ambiente de combate

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A evolução tecnológica dos conflitos está modificando profundamente o ambiente no qual a Aviação do Exército Brasileiro deverá operar. A disseminação de drones, o emprego cada vez mais amplo da Guerra Eletrônica e das capacidades cibernéticas tornam o campo de batalha mais transparente, ao mesmo tempo em que o espaço aéreo se torna progressivamente mais congestionado e contestado. Para o comandante da Aviação do Exército, General de Brigada Evandro Luís Amorim Rocha, essa combinação reduz a liberdade de ação dos vetores aéreos e exige uma preparação mais rigorosa das tripulações e das estruturas que sustentam seu emprego.

Nesse cenário, o desafio central do Comando de Aviação do Exército é preservar a capacidade de prover aeromobilidade à Força Terrestre mesmo diante de um ambiente no qual a detecção e a negação dos meios aéreos podem ocorrer de forma integrada e em diferentes camadas. A resposta, segundo o comandante, passa pelo desenvolvimento coordenado das capacidades previstas no modelo DOPEMAII (Doutrina, Organização, Pessoal, Educação, Material, Adestramento, Infraestrutura e Interoperabilidade) de acordo com a evolução das ameaças e das necessidades operacionais.

A primeira prioridade é a preservação da capacidade de manobra, base da contribuição da AvEx para a mobilidade da Força Terrestre. Paralelamente, o Exército pretende ampliar sua capacidade de combate com aeronaves multimissão destinadas a ações diretas e SARPs para atividades de Inteligência, Reconhecimento, Vigilância e Aquisição de Alvos (IRVA), ampliando o emprego da aviação para além das missões tradicionais de transporte e apoio à manobra.

Os sistemas de aeronaves remotamente pilotadas (SARPs) terão papel crescente nessa arquitetura. Entre as prioridades estabelecidas pelo CAvEx está a implantação do Batalhão de Aeronaves Remotamente Pilotadas, concebido para empregar SARPs de diferentes categorias e funções de maneira coordenada. A proposta prevê o emprego de drones em ondas sucessivas para saturar e suprimir sistemas de defesa oponentes, criando janelas de oportunidade para o emprego dos vetores responsáveis pelas ações principais e contribuindo para o cumprimento dos objetivos da manobra terrestre.

O conceito amplia a função atribuída aos drones dentro da Aviação do Exército. Além da coleta de informações e da aquisição de alvos, os SARPs passam a ser considerados instrumentos capazes de interferir diretamente nas condições do espaço aéreo. O emprego combinado de diferentes categorias e quantidades de aeronaves remotamente pilotadas busca aumentar a pressão sobre sensores e sistemas de defesa adversários, reduzindo temporariamente sua capacidade de impedir o emprego de outros meios aéreos.

A preparação das tripulações acompanha essa transformação. Face ao ambiente no qual a exposição aos sensores e sistemas de defesa adversários pode ocorrer rapidamente, o treinamento técnico e tático ganha peso ainda maior. O CAvEx pretende ampliar o emprego de simuladores para reproduzir cenários de maior complexidade e aproximar o adestramento das condições reais de combate, permitindo elevar a frequência e o realismo da preparação sem depender exclusivamente da disponibilidade das aeronaves.

A sustentação da frota constitui outro eixo dessa preparação. A capacidade de manter aeronaves disponíveis e prontas para emprego influencia diretamente a possibilidade de gerar massa aérea quando a situação operacional exigir. Por isso, o CAvEx estabelece como prioridade o aprimoramento da sustentação, com foco na manutenção de elevados índices de disponibilidade e de prontidão logística.

A combinação dessas iniciativas aponta para uma mudança na forma de estruturar a capacidade aeromóvel. Aeronaves tripuladas e não tripuladas passam a ser consideradas dentro de uma arquitetura integrada, na qual inteligência, comunicações, Guerra Eletrônica, cibernética, treinamento e logística contribuem para criar as condições necessárias ao emprego dos vetores aéreos.

Essa integração ganha importância diante da crescente dificuldade de operar em um espaço aéreo permissivo. A Aviação do Exército precisa desenvolver meios para identificar ameaças, reduzir sua eficácia e aproveitar oportunidades de emprego, enquanto mantém a capacidade de responder às necessidades da força terrestre apoiada. Nesse modelo, a sobrevivência e a eficácia das aeronaves dependem tanto de suas características individuais quanto da forma como são empregadas dentro do conjunto de capacidades da Força.

A prioridade definida pelo CAvEx, portanto, não está restrita à renovação de plataformas. O objetivo é adaptar a Aviação do Exército a um ambiente em que a vantagem tecnológica deixou de estar concentrada exclusivamente nas grandes plataformas e passou a incluir sistemas relativamente acessíveis, capazes de ampliar a observação do campo de batalha, interferir nas comunicações e ameaçar vetores aéreos.

A resposta será construída pela combinação entre modernização da frota, expansão dos sistemas remotamente pilotados, qualificação das tripulações, treinamento baseado em simulação e fortalecimento da sustentação logística. O resultado pretendido é preservar a aeromobilidade como uma capacidade efetiva da Força Terrestre mesmo quando o domínio aéreo estiver congestionado, monitorado e sujeito a ações de negação.


por Angelo Nicolaci


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Iraque entre Washington e Teerã: o difícil caminho para recuperar o controle sobre suas forças armadas

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O Iraque se aproxima de uma transição que poderá definir sua arquitetura de segurança para os próximos anos. A retirada das forças norte-americanas e da coalizão internacional, prevista para 30 de setembro, ocorre paralelamente à tentativa do governo de Ali al-Zaidi de reorganizar a relação entre o Estado e as numerosas organizações armadas que surgiram, cresceram ou foram institucionalizadas ao longo das últimas duas décadas. O desafio vai muito além da entrega de armas. O que está em discussão é a capacidade de Bagdá de estabelecer uma autoridade efetiva sobre todas as forças militares e paramilitares existentes em seu território, sem provocar uma ruptura dentro do próprio sistema político iraquiano.

Depois de assumir o cargo em maio, Zaidi colocou o desarmamento das organizações alinhadas ao Irã entre as prioridades de seu governo. Em julho, durante encontro com Donald Trump em Washington, o primeiro-ministro comprometeu-se a avançar nesse processo, inicialmente associando a entrega das armas ao mesmo prazo estabelecido para a retirada da coalizão. Nas últimas semanas, entretanto, autoridades iraquianas passaram a tratar 30 de setembro com maior cautela, indicando que a data está diretamente relacionada à saída das forças estrangeiras e ao início de uma etapa de negociações para restringir a atuação das organizações armadas. A mudança demonstra a dificuldade de transformar uma decisão política em medida efetivamente executável.

O problema tem origem na própria evolução do sistema de segurança iraquiano. A derrota do Estado Islâmico exigiu a mobilização de grandes contingentes armados fora das estruturas convencionais do Exército, e as Forças de Mobilização Popular, as PMF, foram posteriormente incorporadas ao aparato estatal. Essa institucionalização, contudo, não produziu uma força homogênea. As PMF reúnem organizações com diferentes trajetórias, interesses políticos e graus de proximidade com o Irã. Algumas aceitaram a integração ao Estado, enquanto outras preservaram estruturas próprias de comando, redes políticas e relações externas que lhes conferem considerável autonomia.

Essa característica torna o caso iraquiano particularmente complexo do ponto de vista militar. A existência de uma força dentro da estrutura legal do Estado não significa, necessariamente, que o governo controle integralmente seu emprego operacional. Para que uma organização seja efetivamente subordinada ao poder estatal, não basta que seus integrantes recebam salários públicos ou que suas unidades estejam formalmente vinculadas a um ministério. O Estado precisa controlar a designação de comandantes, as ordens de emprego, a movimentação das unidades, o acesso à inteligência, a logística, as comunicações e, sobretudo, a autorização para utilização da força.

É nessa dimensão que algumas das organizações mais próximas de Teerã representam um problema para Bagdá. A influência iraniana não depende exclusivamente do fornecimento de armamentos. Ao longo dos anos, Teerã desenvolveu relações políticas, militares, econômicas e religiosas com diferentes grupos iraquianos, criando uma rede de influência que sobrevive independentemente da presença permanente de tropas iranianas. Algumas dessas organizações possuem capacidade própria para conduzir operações, mobilizar combatentes e empregar drones, mísseis e outros sistemas de ataque, o que lhes permite atuar como atores militares relevantes dentro do próprio território iraquiano.

A dimensão dessa capacidade explica por que o governo não pode tratar o processo como uma operação convencional de desarmamento. Segundo autoridades de segurança citadas pela Reuters, as facções mais resistentes reúnem aproximadamente 50 mil combatentes e possuem mísseis de longo alcance, sistemas de defesa aérea e drones, além de interesses econômicos desenvolvidos em diferentes setores. Não se trata, portanto, de pequenos grupos armados que possam ser neutralizados por uma operação policial. São estruturas que acumularam recursos humanos, materiais e políticos suficientes para influenciar o processo decisório nacional.

As prisões realizadas em agosto ilustram esse novo estágio da disputa. Forças especiais diretamente subordinadas ao primeiro-ministro prenderam o chefe de inteligência de Harakat al-Nujaba, organização alinhada ao Irã e designada como terrorista pelo governo norte-americano, sob acusações relacionadas a ataques com drones contra interesses dos Estados Unidos. A operação provocou ameaças de retaliação e reação de importantes lideranças políticas xiitas. Poucos dias depois, outras detenções relacionadas a ataques contra interesses norte-americanos demonstraram que Bagdá começava a utilizar diretamente seus próprios instrumentos de segurança contra integrantes de organizações que, em diferentes momentos, também fizeram parte do esforço de combate ao Estado Islâmico.

O governo precisa, entretanto, administrar cuidadosamente a dimensão política dessas ações. Uma ofensiva indiscriminada contra as organizações armadas poderia transformar uma disputa sobre autoridade estatal em um conflito interno de grandes proporções. Zaidi precisa construir uma separação clara entre a integração das forças que aceitam a autoridade constitucional e o enfrentamento das estruturas que pretendem preservar uma capacidade militar independente. Essa distinção é fundamental para evitar que o processo seja apresentado como uma guerra do governo contra grupos xiitas ou como uma iniciativa executada em nome dos Estados Unidos.

A resistência de algumas organizações demonstra que esse equilíbrio será difícil. Kataib Hezbollah e Harakat Hezbollah al-Nujaba estão entre as facções que rejeitaram o processo nos termos apresentados pelo governo. Outros grupos condicionaram a entrega de armas a garantias relacionadas à retirada norte-americana e ao fim da influência política e econômica dos Estados Unidos. Algumas organizações mais pragmáticas, por outro lado, demonstraram disposição para integrar seus integrantes às estruturas estatais. Essa divisão cria espaço para uma estratégia gradual de Bagdá, que pode tentar consolidar primeiro a integração das facções mais dispostas a negociar e isolar politicamente aquelas que mantiverem uma posição de confronto.

A retirada norte-americana altera significativamente esse cálculo. Durante anos, a presença militar dos Estados Unidos serviu como uma das principais justificativas utilizadas pelas organizações armadas para preservar seus arsenais. Com a saída da coalizão, essa justificativa perde parte de sua força, pois o governo poderá argumentar que a principal ameaça externa que sustentava a necessidade de uma resistência armada estará deixando o país. Ao mesmo tempo, entretanto, a retirada reduz uma importante capacidade externa de dissuasão sobre os grupos alinhados ao Irã e aumenta a responsabilidade das próprias forças iraquianas pela segurança nacional.

Esse paradoxo coloca o Exército iraquiano e as demais estruturas oficiais de segurança no centro do processo. A soberania não será consolidada apenas pela ausência de tropas estrangeiras, mas pela capacidade das instituições nacionais de preencher o espaço operacional deixado por elas. Isso exige comando integrado, inteligência compartilhada, capacidade de vigilância, controle das fronteiras, defesa contra drones e mísseis e, principalmente, uma cadeia de autoridade capaz de impedir que diferentes organizações militares tomem decisões independentes em situações de crise.

O componente iraniano torna essa transição ainda mais sensível. Para Teerã, o Iraque possui valor estratégico que ultrapassa sua importância territorial. O país funciona como espaço de profundidade estratégica, ligação geográfica com a Síria e o Líbano e ambiente político no qual o Irã construiu relações com partidos, lideranças religiosas e organizações armadas. A redução da autonomia militar dessas organizações significaria, portanto, uma diminuição de uma das principais ferramentas de influência iraniana no sistema de segurança iraquiano.

Washington possui interesse em uma direção diferente. A retirada militar reduz os custos e os riscos associados à permanência de suas tropas, mas os Estados Unidos também precisam evitar que o encerramento dessa presença resulte em um Iraque incapaz de impedir ataques contra seus interesses ou em um ambiente no qual as organizações apoiadas por Teerã ampliem sua liberdade de ação. Para Bagdá, entretanto, aceitar que sua política de segurança continue subordinada aos interesses de qualquer uma das duas potências seria justamente contrariar o objetivo de recuperar autonomia estratégica.

Por isso, o resultado mais provável não é uma desmobilização completa e simultânea das organizações armadas. Um processo desse tipo exigiria condições políticas e militares que atualmente não parecem existir. É mais plausível que o governo avance por etapas, combinando integração de combatentes, reorganização das estruturas de comando, transferência de determinados armamentos para o Estado e negociação política com as facções mais resistentes. A questão decisiva será saber se essa integração produzirá efetivamente uma mudança na autoridade operacional ou apenas uma mudança administrativa.

Esse ponto merece atenção porque uma força pode estar formalmente subordinada ao Estado e continuar funcionando como instrumento de uma estrutura política externa à cadeia militar nacional. A incorporação de efetivos, a transferência de equipamentos e a inclusão de unidades no orçamento público são medidas importantes, mas não suficientes. A integração somente estará consolidada quando o governo puder determinar suas missões, selecionar seus comandantes, controlar sua logística e decidir autonomamente quando e como essas forças serão empregadas.

É nesse aspecto que o processo conduzido por Zaidi poderá produzir consequências muito maiores do que a simples redução do número de armas nas mãos das facções. Se Bagdá conseguir reorganizar progressivamente as PMF e as demais formações armadas dentro de uma cadeia de comando nacional, poderá transformar uma estrutura criada em resposta a uma emergência militar em um componente efetivamente subordinado ao Estado. Se, ao contrário, a integração ocorrer apenas no plano administrativo enquanto as antigas redes de lealdade permanecerem intactas, o Iraque poderá continuar convivendo com múltiplos centros de poder armado.

A data de 30 de setembro deve ser observada, portanto, menos como um prazo definitivo para o desaparecimento das milícias e mais como o início de uma fase decisiva da reorganização da segurança iraquiana. O resultado dependerá da capacidade de Zaidi de combinar pressão política, negociação e autoridade militar sem provocar uma reação que o próprio Estado ainda não tenha capacidade de controlar.

O Iraque chega a essa transição com instituições de segurança muito mais desenvolvidas do que aquelas existentes após a queda de Saddam Hussein, mas também com uma estrutura de poder construída sobre décadas de guerra, intervenção estrangeira e competição entre atores regionais. A saída dos Estados Unidos encerra uma etapa, mas não resolve automaticamente as relações de poder que surgiram durante esse período.

O desafio de Bagdá será transformar a retirada da coalizão em uma oportunidade para consolidar sua própria capacidade de decisão. Para isso, terá de demonstrar que suas forças armadas e estruturas de segurança não são apenas instituições formalmente estatais, mas instrumentos efetivamente subordinados a uma única autoridade política nacional. O resultado desse processo determinará não apenas a margem de manobra do governo de Ali al-Zaidi, mas também o grau de influência que Washington e Teerã continuarão exercendo sobre o Iraque depois da retirada norte-americana.


por Angelo Nicolaci


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Rússia apresenta no Egito novas armas stand-off para o Su-57E

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A Rússia aproveitou o El Alamein International Airshow 2026 no Egito, para apresentar publicamente novas armas aéreas associadas ao caça de quinta geração Su-57E. Entre os sistemas exibidos estão os mísseis S-71K "Kovyor" e S-71M "Monokhrom", duas plataformas de ataque lançadas do ar que combinam dimensões reduzidas, propulsão própria e características destinadas a diminuir sua detecção por radar.

O evento, realizado entre 8 e 10 de setembro, marca a primeira apresentação pública internacional dessas armas. A United Aircraft Corporation (UAC), fabricante do Su-57, afirma que as duas foram desenvolvidas para emprego por caças de quinta geração. A Rostec, por sua vez, apresentou o conjunto como parte da evolução do Su-57E para o mercado externo.

A escolha do Egito não é casual. O El Alamein Airshow reúne fabricantes e forças aéreas de diferentes países e funciona também como uma vitrine para exportação de sistemas de defesa. Nesse contexto, Moscou não apresenta apenas uma aeronave, mas um conjunto formado pelo Su-57E e por uma nova geração de armamentos de menor porte destinados a ampliar suas opções de ataque a distância.

Duas armas com conceitos diferentes

Apesar de pertencerem à mesma família, S-71K e S-71M não devem ser tratadas simplesmente como duas versões da mesma arma.

O S-71K Kovyor apresenta uma configuração mais próxima de um pequeno míssil de cruzeiro lançado do ar. Seu projeto utiliza uma fuselagem larga e achatada, superfícies aerodinâmicas dobráveis e geometria facetada. O objetivo aparente é reduzir a assinatura radar sem recorrer a uma arquitetura complexa e cara como a de grandes mísseis furtivos.

Informações divulgadas pela inteligência militar ucraniana após a recuperação de um exemplar indicam o emprego de materiais compósitos à base de fibra de vidro, estruturas internas de alumínio e navegação inercial. A arma também foi associada ao emprego de uma bomba OFAB-250-270 de aproximadamente 250 kg como carga de combate.

O S-71K, portanto, representa uma solução relativamente simples para levar uma carga explosiva a distância do alvo, permitindo que a aeronave lançadora permaneça fora de determinadas áreas de ameaça.

O S-71M Monokhrom segue uma proposta diferente. As informações disponíveis associam o modelo a uma maior capacidade de processamento e a sistemas destinados à busca e identificação de alvos. Fontes russas e análises publicadas durante o conflito na Ucrânia descrevem uma arma capaz de procurar alvos dentro de uma determinada área e selecionar objetivos de forma mais autônoma.

Essa capacidade, entretanto, ainda não pode ser considerada plenamente comprovada em condições operacionais. Não estão disponíveis publicamente dados suficientes sobre seus sensores, algoritmos, alcance efetivo ou grau de autonomia. Por isso, é mais adequado descrevê-la como uma arma aérea com potencial de emprego autônomo do que afirmar que possui uma capacidade operacional de inteligência artificial já plenamente estabelecida.

A experiência da guerra na Ucrânia

O desenvolvimento da família S-71 ocorre dentro de um ambiente marcado pelo uso intensivo de mísseis, drones e sistemas de defesa antiaérea na guerra da Ucrânia.

Nesse cenário, existe uma demanda por armas que possam ser produzidas em maior quantidade e empregadas contra alvos protegidos sem exigir o mesmo investimento de um míssil de cruzeiro convencional de maior porte. A solução russa parece estar justamente nesse espaço intermediário: uma arma propulsionada, relativamente compacta, com capacidade de ataque a distância e elementos de redução de assinatura.

O S-71K já foi relacionada a emprego contra alvos na Ucrânia, enquanto o S-71M também aparece em informações sobre avaliações e utilização operacional. Entretanto, os dados disponíveis não permitem determinar com precisão a quantidade produzida, o número de lançamentos ou a efetividade dos sistemas em combate.

Essa experiência é importante porque o projeto parece incorporar uma lógica observada em outros programas russos recentes: combinar componentes relativamente simples e disponíveis com uma arquitetura capaz de produzir uma arma de ataque de maior alcance e menor custo.

Su-57E como plataforma de ataque

A apresentação em El Alamein também mostra uma mudança na forma como Moscou procura vender o Su-57E.

O caça não é apresentado isoladamente, mas como parte de um sistema de armas que inclui diferentes categorias de munições. Além dos S-71, o pacote exibido inclui armamentos como os mísseis ar-ar RVV-MD2 e RVV-BD e armas ar-superfície como Kh-38MLE, Kh-69 e Kh-58UShKE.

Para um caça de quinta geração, a possibilidade de transportar armas internamente é particularmente importante. Ela permite preservar parte das características de baixa observabilidade da aeronave durante missões de ataque, ao mesmo tempo em que amplia a distância entre o vetor e o alvo.

É nesse ponto que os S-71 ganham importância. Seu tamanho e configuração indicam que foram pensadas para operar em conjunto com aeronaves modernas, oferecendo uma alternativa de menor porte às armas de cruzeiro tradicionais.

O S-71K parece priorizar o ataque contra alvos previamente definidos, enquanto o S-71M acrescenta a possibilidade de maior autonomia na identificação e seleção de objetivos. Se essa capacidade for confirmada em nível operacional, a diferença entre as duas será significativa: uma estará mais próxima de uma arma de ataque stand-off convencional, enquanto a outra poderá atuar de maneira mais flexível dentro de uma área de busca.

Uma nova camada no arsenal russo

A apresentação dos S-71 não significa que a Rússia tenha criado uma arma revolucionária isoladamente. O aspecto mais importante está na combinação entre custo, dimensões, alcance, baixa observabilidade e possibilidade de emprego por uma aeronave de quinta geração.

A experiência adquirida na Ucrânia demonstra a importância de possuir diferentes tipos de armas para superar redes modernas de defesa aérea. Mísseis de grande alcance continuam necessários, mas armas menores podem aumentar o número de vetores disponíveis e permitir ataques mais numerosos e diversificados.

Para o Su-57E, isso representa também uma ampliação de seu conceito de emprego. O caça passa a ser apresentado não apenas como uma plataforma capaz de realizar missões de superioridade aérea, mas como o núcleo de um sistema de ataque que combina aeronave tripulada, armas stand-off e, potencialmente, elementos com maior autonomia.

Ainda há muitas informações desconhecidas sobre a família S-71. Alcance real, sistemas de guiagem, capacidade de seleção de alvos, resistência à guerra eletrônica, taxa de produção e desempenho operacional permanecem parcialmente ocultos.

O que já pode ser observado, entretanto, é uma direção clara do desenvolvimento russo: reduzir o custo e o tamanho das armas de ataque a distância sem abandonar características de baixa observabilidade e, no caso do S-71M, buscar maior autonomia no emprego contra alvos.

A apresentação no Egito coloca essas armas no mercado internacional pela primeira vez e transforma o Su-57E em uma vitrine não apenas do caça, mas de todo um ecossistema de armamentos desenvolvido a partir das necessidades identificadas no campo de batalha.


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Reino Unido inicia construção do RFA Resurgent, novo elo logístico dos porta-aviões britânicos

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A Royal Navy iniciou uma nova etapa na renovação de sua capacidade de apoio logístico com o lançamento da quilha do RFA Resurgent, primeiro de três novos navios da classe Fleet Solid Support (FSS) destinados à Royal Fleet Auxiliary (RFA). A cerimônia ocorreu em 3 de setembro no estaleiro Appledore, em North Devon, e marca o avanço da construção de uma classe projetada para sustentar as operações navais britânicas de longa duração.

Com 216 metros de comprimento, cerca de 39 mil toneladas e velocidade máxima de 19 nós, os FSS estarão entre os maiores navios da frota britânica, atrás apenas dos porta-aviões da classe Queen Elizabeth. Sua função será fornecer munições, peças de reposição, provisões e outros suprimentos aos porta-aviões, destróieres e fragatas enquanto estiverem no mar.

A capacidade é particularmente importante para os Carrier Strike Groups britânicos. Uma força naval que opera a milhares de quilômetros do Reino Unido precisa manter fluxo contínuo de munições, peças e consumíveis sem depender do retorno periódico a uma base. Nesse contexto, os FSS funcionam como um elo logístico entre a frota e sua estrutura de apoio em terra.

Os novos navios substituirão o RFA Fort Victoria nessa função. A atual unidade, que já participou de operações com o HMS Queen Elizabeth, está próxima do fim de sua vida útil operacional e constitui atualmente a principal capacidade britânica de transporte de munições, alimentos, peças e demais cargas sólidas para forças navais em operação.

É importante, entretanto, diferenciar essa função da transferência de combustível. Os FSS não substituem os navios-tanque da classe Tide, como o RFA Tidespring, responsáveis pelo reabastecimento de combustível no mar. Os Tide transportam até 19 milhões de litros de combustível e podem transferir mais de 800 mil litros por hora durante operações de reabastecimento.

A estrutura logística britânica, portanto, será composta por diferentes plataformas trabalhando de forma complementar: os FSS cuidarão principalmente das chamadas cargas sólidas, enquanto os Tide manterão o fluxo de combustíveis necessário para a propulsão dos navios e a operação das aeronaves embarcadas.

Construção distribuída entre Reino Unido e Espanha

O programa de £1,6 bilhão também possui uma dimensão industrial relevante. Os três navios estão sendo construídos por uma parceria liderada pela Navantia UK, com participação de Harland & Wolff, BMT e A&P Appledore. A produção foi distribuída entre instalações britânicas e espanholas.

Em Appledore serão produzidas as seções de proa, com aproximadamente 50 metros. A Navantia em Cádiz, fabrica a seção central, de cerca de 120 metros, que concentra parte importante da maquinaria, dos espaços de armazenamento e dos sistemas operacionais. As estruturas serão posteriormente reunidas em Belfast, onde ocorrerá a integração final.

O modelo permite combinar capacidade industrial britânica com a experiência da Navantia em grandes construções navais. Para Londres, o programa também representa uma forma de recuperar infraestrutura, mão de obra especializada e conhecimento industrial necessários para sustentar futuros projetos navais.

O governo britânico estima que o programa gere aproximadamente 1.200 empregos nos estaleiros e fortaleça a cadeia de fornecedores do setor naval.

Sustentação da força naval

Cada FSS terá uma tripulação permanente de 101 integrantes da RFA e acomodará até outros 80 profissionais para atividades relacionadas a helicópteros, embarcações e outras funções de apoio.

O projeto também incorpora requisitos de eficiência energética e redução de emissões. Os navios foram concebidos para permitir a utilização futura de combustíveis de menor emissão e outras tecnologias energéticas durante uma vida operacional estimada em 30 anos.

Essa preocupação acompanha uma tendência de projetos navais de longa duração: em vez de projetar uma plataforma limitada à tecnologia disponível no momento da construção, o objetivo é permitir sua atualização ao longo do ciclo de vida.

Durante a cerimônia, a Royal Fleet Auxiliary confirmou também os nomes dos dois navios seguintes: RFA Reliant e RFA Resourceful. O Resurgent recupera o nome de um antigo navio de reabastecimento da RFA, enquanto Reliant já foi utilizado por três unidades anteriores. Resourceful é uma nova denominação dentro da frota.

A previsão é que os três novos FSS reforcem progressivamente a capacidade logística da Royal Navy até 2032. O Resurgent será o primeiro da classe e deverá assumir uma função central no apoio aos grupos navais britânicos, sobretudo aqueles organizados em torno dos porta-aviões da classe Queen Elizabeth.

Mais do que uma simples substituição do Fort Victoria, o programa cria uma estrutura logística composta por diferentes capacidades complementares. Os FSS transportarão as cargas sólidas necessárias à força, os Tide fornecerão combustível e os demais navios auxiliares contribuirão para aviação, manutenção e apoio especializado.

Para uma Marinha que pretende manter capacidade de atuação global, essa estrutura é tão importante quanto os próprios navios de combate. Porta-aviões, destróieres e fragatas podem possuir grande autonomia operacional, mas sua permanência em uma área distante depende da capacidade de receber combustível, munições, peças e suprimentos sem interromper a missão. É exatamente essa lacuna que o Resurgent e seus futuros irmãos foram projetados para preencher.


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Marinha promove primeira Feira de Profissões e apresenta 20 caminhos para ingressar na Força

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A Marinha do Brasil realiza, nesta sexta-feira (11), na Escola Naval, no Rio de Janeiro, a primeira edição do “Vem pra Marinha – Feira de Profissões – Um Mar de Possibilidades”. Gratuito e aberto ao público mediante inscrição, o evento reunirá informações sobre as 20 diferentes formas de ingresso na Força.

A iniciativa contempla oportunidades para diferentes níveis de escolaridade, desde o ensino fundamental até o superior, incluindo carreiras de formação técnica. Durante a programação, os visitantes poderão conhecer as áreas de atuação da Marinha, os requisitos para ingresso, processos seletivos e cursos de formação.

A feira contará com palestras, estandes temáticos e materiais institucionais, com atividades nos períodos da manhã e da tarde.

A participação é gratuita e pode ser realizada por meio da plataforma Sympla: Click Aqui.

Mais do que apresentar concursos e processos seletivos, a iniciativa busca aproximar a Marinha da sociedade e mostrar a jovens que a carreira naval oferece possibilidades que vão muito além da formação de oficiais. A diversidade de áreas reflete também a necessidade de profissionais com diferentes níveis de formação para sustentar uma Força cada vez mais dependente de tecnologia, engenharia, manutenção, sistemas e conhecimento especializado.

Nesse sentido, a Feira de Profissões também funciona como uma oportunidade para apresentar às novas gerações o perfil profissional necessário para manter e desenvolver uma Força Naval moderna, ao mesmo tempo em que amplia o conhecimento sobre as diferentes possibilidades de carreira existentes dentro da Marinha.

A realização do evento na Escola Naval reforça ainda essa aproximação, colocando o público em contato direto com uma das principais instituições de formação da Marinha e permitindo conhecer melhor a estrutura e as oportunidades oferecidas pela Força.


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