segunda-feira, 14 de setembro de 2026

FAB treina recuperação de carga útil de foguete suborbital com H-36 Caracal

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A Força Aérea Brasileira (FAB) está realizando os preparativos finais para a Operação Potiguar Fase 2, que terá como uma de suas principais atividades o lançamento do veículo de sondagem VS-30 V16, a partir do Centro de Lançamento da Barreira do Inferno (CLBI), em Parnamirim (RN). Entre os elementos que estão sendo qualificados está o sistema destinado à recuperação da Plataforma Suborbital de Microgravidade (PSM-R), cuja carga útil deverá retornar ao oceano após o voo.

O treinamento envolve o 1º Esquadrão do 8º Grupo de Aviação (1º/8º GAv) "Esquadrão Falcão", sediado na Base Aérea de Natal, e o Esquadrão Aeroterrestre de Salvamento (PARA-SAR), de Campo Grande (MS). As duas unidades trabalham de forma coordenada empregando um helicóptero H-36 Caracal, preparando a tripulação e os especialistas em salvamento para uma operação que dependerá da localização precisa da carga e da rápida intervenção no mar.

A PSM-R terá massa estimada em 400 quilogramas e será lançada a bordo do VS-30 V16, veículo desenvolvido pelo Instituto de Aeronáutica e Espaço (IAE), do Departamento de Ciência e Tecnologia Aeroespacial (DCTA). Após cumprir sua trajetória suborbital, a plataforma retornará à atmosfera e descerá sustentada por paraquedas, exigindo que sua posição seja determinada para que a equipe de recuperação possa atuar.

Nesse cenário, o treinamento estabelece uma divisão clara de responsabilidades. A tripulação do H-36 é responsável pelo deslocamento e posicionamento da aeronave na área prevista, enquanto os militares do PARA-SAR executam os procedimentos de recuperação da carga no ambiente marítimo. A atividade exige coordenação entre voo, comunicações, localização do objeto e lançamento da equipe de salvamento.

O adestramento foi estruturado em duas etapas. A primeira, denominada fase seca, ocorre em solo e permite que os militares do PARA-SAR conheçam os procedimentos e as características da aeronave, além de ajustar dúvidas relacionadas à operação. A segunda, a fase molhada, envolve o emprego real do helicóptero e a execução dos procedimentos no ambiente marítimo, aproximando o treinamento das condições previstas para a missão.

A recuperação é particularmente relevante porque a Operação Potiguar Fase 2 representa uma evolução em relação à primeira fase, realizada em 2024. Na etapa atual, além da atividade de lançamento, será avaliado em voo o sistema destinado à recuperação da plataforma, criando condições para o aperfeiçoamento de futuras missões brasileiras de pesquisa em microgravidade.

A carga útil transportará quatro experimentos resultantes de parcerias entre a Agência Espacial Brasileira (AEB), instituições de pesquisa e empresas privadas. Entre eles está a Análise dos Efeitos da Microgravidade sobre Microrganismos (AEMM), coordenada pela Rede Space Farming Brasil, que reúne ITA, Embrapa, USP e INPE para estudar os efeitos da microgravidade sobre microrganismos.

Também será conduzido o experimento CTM-Sec, da R-CRIO, voltado à avaliação dos efeitos do voo suborbital sobre o secretoma de células-tronco mesenquimais. O conjunto inclui ainda o MundoTec, desenvolvido pelo SENAI CIMATEC em parceria com o Manual do Mundo, e um teste em condições reais de uma antena destinada a CubeSats, desenvolvida pela Tycho Space.

O próprio IAE também embarcará tecnologias no veículo. Entre elas estão o Sistema de Interface Pirotécnica (SIP), voltado à segurança das operações de lançamento, uma bateria de lítio de alta densidade energética produzida pelo Instituto e o transmissor RangeLoRa, desenvolvido em parceria com a Universidade Federal do Maranhão (UFMA) para transmitir informações que auxiliem na localização da carga útil após a descida.

O VS-30 V16 é um veículo de sondagem suborbital de estágio único, equipado com propulsão sólida e lançado por trilho. O sistema utiliza estabilização aerodinâmica e por rotação e foi desenvolvido para transportar cargas úteis a altitudes superiores a 100 quilômetros, permitindo a realização de experimentos em condições de microgravidade durante parte do voo.

Programada para ocorrer entre 31 de agosto e 19 de setembro, no CLBI, a Operação Potiguar Fase 2 representa uma etapa de amadurecimento da capacidade brasileira de realizar pesquisas suborbitais com recuperação de cargas. A integração entre o sistema espacial e os meios da FAB empregados no resgate amplia a complexidade da missão e cria experiência operacional que poderá ser aproveitada em futuras campanhas científicas e tecnológicas.


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com FAB

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13ª Brigada testa emprego coordenado de armas coletivas em exercício de tiro no Mato Grosso

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A 13ª Brigada de Infantaria Motorizada, "Brigada Barão de Melgaço", realizou, durante o mês de agosto, um Exercício de Tiro das Armas Coletivas (TAC) no Campo de Instrução do 18º Grupo de Artilharia de Campanha (18º GAC), no Mato Grosso. A atividade reuniu diferentes organizações militares da Brigada para avaliar procedimentos, coordenação e capacidade de emprego integrado dos sistemas de armas em um cenário de treinamento próximo às exigências de uma situação operacional.

Participaram do exercício 183 militares do Comando da 13ª Brigada de Infantaria Motorizada, do 14º Batalhão de Infantaria Motorizado, do 58º Batalhão de Infantaria Motorizado, do Comando de Fronteira Jauru/66º Batalhão de Infantaria Motorizado, do 18º Grupo de Artilharia de Campanha e da Companhia de Comando da Brigada.

O treinamento empregou obuseiros, morteiros e metralhadoras, permitindo verificar não apenas a execução do tiro, mas também a aplicação dos procedimentos necessários para o funcionamento coordenado das armas coletivas. Nesse tipo de atividade, a eficiência depende da capacidade das frações em cumprir suas tarefas dentro de uma sequência previamente estabelecida, reduzindo atrasos e assegurando que os diferentes elementos atuem de maneira sincronizada.

A presença de unidades de infantaria, artilharia e elementos de comando e apoio permitiu avaliar a interação entre diferentes capacidades dentro da estrutura da Brigada. A coordenação entre essas frações é particularmente relevante para o emprego das armas coletivas, uma vez que os efeitos obtidos dependem tanto da precisão do disparo quanto da correta transmissão de ordens, preparação dos meios e cumprimento dos procedimentos técnicos.

Além da avaliação do desempenho individual das equipes, o exercício serviu para identificar pontos que podem ser aperfeiçoados no ciclo de adestramento. A repetição controlada dos procedimentos permite consolidar técnicas e reduzir o tempo necessário para que as unidades estejam em condições de empregar seus armamentos de maneira eficaz.

Para uma Brigada de Infantaria Motorizada, esse tipo de treinamento também contribui para manter a capacidade de combinar diferentes meios de apoio ao combate dentro de uma mesma estrutura de comando. O emprego coordenado de armas coletivas amplia as opções disponíveis aos comandantes e exige que as unidades mantenham padrões comuns de comunicação, planejamento e execução.

Realizado no Campo de Instrução do 18º GAC, o exercício também reforça a importância das estruturas de treinamento destinadas a reproduzir, em ambiente controlado, as condições de emprego dos armamentos. A avaliação prática permite confrontar procedimentos previstos com a execução real e alimentar as etapas seguintes do preparo das tropas.

O TAC integrou, portanto, o ciclo de adestramento da 13ª Brigada de Infantaria Motorizada e proporcionou uma avaliação conjunta das frações envolvidas. Mais do que uma atividade de tiro, o exercício verificou a capacidade das organizações militares de operar de forma coordenada, elemento fundamental para transformar o desempenho individual de cada unidade em uma capacidade operacional integrada.


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com Exército Brasileiro

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Oriente Médio à beira de um colapso: Houthis, Irã e a crise dos estreitos ameaçam fluxo do comércio global

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A crise no Oriente Médio entrou em nova fase, ultrapassando os limites dos conflitos militares regionais e criando riscos sistêmicos para a economia global. O avanço dos Houthis pelo litoral do Iêmen, a pressão sobre o Estreito de Bab el-Mandeb, a crise no Estreito de Ormuz e a vulnerabilidade das rotas de exportação de petróleo da Arábia Saudita formam uma combinação capaz de afetar energia, transporte marítimo, cadeias de suprimentos e inflação. A simultaneidade dessas ameaças aumenta a possibilidade de que um conflito regional produza consequências muito além de suas fronteiras.

A ofensiva Houthi alterou a dimensão geográfica do problema. O grupo apoiado pelo Irã avançou sobre áreas costeiras estratégicas do Iêmen, incluindo Mokha e posições insulares próximas ao Bab el-Mandeb, ampliando sua capacidade de ameaçar uma das principais passagens entre o Oceano Índico e o Mar Vermelho. A consolidação territorial acrescenta uma variável importante à ameaça já representada pelos ataques contra a navegação: os Houthis passam a dispor de posições próximas ao próprio corredor marítimo.

O impacto econômico não depende necessariamente da destruição de grande quantidade de navios. Para o transporte marítimo, a percepção de risco pode ser suficiente para alterar rotas, elevar seguros e aumentar os custos operacionais. Durante a crise anterior no Mar Vermelho, o desvio de embarcações pelo Cabo da Boa Esperança ampliou distâncias, consumo de combustível e tempo de viagem. Quando esse processo se prolonga, os efeitos chegam aos preços de mercadorias e aos estoques das empresas.

A situação ganha outra dimensão porque a instabilidade em Bab el-Mandeb ocorre simultaneamente à crise em Ormuz, corredor essencial para o transporte de petróleo e gás produzido no Golfo Pérsico. A existência de dois pontos estratégicos sob pressão reduz a capacidade de compensação do sistema. Se uma rota é interrompida, a alternativa disponível pode estar sujeita ao mesmo ambiente de risco, dificultando a reorganização do fluxo energético e comercial.

A vulnerabilidade também alcança a estratégia saudita de diversificação das rotas de exportação. O oleoduto Leste-Oeste permite transportar petróleo do interior do país até Yanbu, no Mar Vermelho, reduzindo a dependência de Ormuz. Entretanto, a expansão Houthi e os ataques contra infraestrutura energética colocam essa alternativa sob pressão. A interrupção do oleoduto chegou a ameaçar retirar do mercado até 4% da oferta mundial de petróleo, segundo estimativas divulgadas pela Reuters.

A decisão de Washington de não realizar ataques diretos contra os Houthis a pedido do príncipe herdeiro Mohammed bin Salman acrescenta outra variável. Os Estados Unidos aceitaram ampliar o compartilhamento de inteligência e o apoio à identificação de alvos, mas evitaram abrir uma nova campanha militar no Iêmen enquanto permanecem envolvidos no confronto com o Irã. A opção demonstra a tentativa americana de impedir a abertura de uma frente adicional de grandes proporções, mas também aumenta a responsabilidade de Riad na contenção da ameaça.

Para os mercados, não é necessário que os dois estreitos sejam completamente fechados para produzir uma crise. Se armadores considerarem determinadas áreas suficientemente perigosas, poderão suspender operações, elevar prêmios de seguro ou optar por rotas mais longas. No petróleo, a reação tende a ser ainda mais rápida, pois os mercados incorporam expectativas de escassez antes que ela se materialize fisicamente. Nesta segunda-feira (14), o Brent superou US$ 107 por barril, enquanto as taxas de transporte de petroleiros alcançaram níveis recordes em meio ao aumento do risco marítimo.

Um primeiro cenário hipotético seria o de uma crise prolongada, mas parcialmente controlada. Ormuz permaneceria sujeito a interrupções, enquanto Bab el-Mandeb continuaria operacional sob restrições. O efeito seria a manutenção de preços elevados de energia, aumento dos fretes e seguros marítimos e pressão sobre combustíveis e produtos industriais. A Europa sofreria particularmente com os custos energéticos e os desvios em torno da África, enquanto os países asiáticos enfrentariam maior competição pela oferta disponível de petróleo e gás.

Um segundo cenário seria mais grave: uma interrupção prolongada em Ormuz combinada com uma ameaça efetiva à navegação em Bab el-Mandeb. Nesse caso, o problema passaria a atingir diretamente a capacidade física do comércio mundial. Parte significativa do tráfego entre Ásia e Europa poderia abandonar o eixo Mar Vermelho–Suez, enquanto cargas energéticas buscariam rotas alternativas. Distâncias maiores, menor disponibilidade de navios, aumento do consumo de combustível e seguros mais caros produziriam um choque logístico de alcance global.

O cenário mais preocupante envolveria ataques sistemáticos contra infraestrutura energética de países do Golfo. Oleodutos, terminais, portos, refinarias, navios-tanque e instalações de armazenamento poderiam transformar-se em alvos prioritários. A consequência seria diferente de uma simples valorização especulativa: haveria redução efetiva da oferta disponível no mercado internacional, pressionando estoques e ampliando a volatilidade dos preços.

Petróleo persistentemente caro funciona como um imposto global sobre a atividade econômica. Combustíveis mais caros elevam custos de transporte, indústria e alimentos, enquanto a inflação energética pode impedir bancos centrais de acelerar cortes de juros. O resultado seria uma combinação particularmente desfavorável de energia cara, inflação persistente e crédito restritivo, justamente quando empresas e consumidores começassem a sentir os efeitos da desaceleração.

Outro impacto ocorreria nas cadeias de suprimentos. Uma embarcação desviada do Suez não representa apenas alguns dias adicionais de viagem. O atraso altera estoques, contratos logísticos e planejamento industrial, obrigando empresas a manter mais capital imobilizado. Setores dependentes de componentes importados podem enfrentar interrupções de produção mesmo quando não existe escassez física do produto final.

É nesse cenário que o Brasil passa a ocupar uma posição estratégica. A expansão da produção offshore, particularmente no pré-sal, oferece ao país condições para ampliar o fornecimento de petróleo aos mercados ocidentais em um momento de maior preocupação com a segurança energética. Europa, Estados Unidos e outros compradores do Atlântico poderiam buscar fornecedores menos expostos aos principais gargalos do Oriente Médio. O Brasil não substituiria o Golfo Pérsico, cuja escala é muito superior, mas poderia se consolidar como fornecedor adicional relevante.

O aproveitamento dessa vantagem, porém, não deveria se limitar à exportação de petróleo cru. O Brasil ainda importa parcela significativa dos combustíveis que consome, especialmente diesel, o que revela uma contradição estratégica: o país possui grandes reservas e produção crescente, mas não captura todo o valor possível de cada barril. Cerca de 25% do diesel consumido no Brasil é importado, segundo dados reportados pela Reuters.

Essa vulnerabilidade reforça a necessidade de investir pesado na expansão e modernização do parque de refino, além de ampliar armazenamento, dutos, terminais e infraestrutura de distribuição. O objetivo não deve ser apenas reduzir a dependência externa, mas criar capacidade competitiva para produzir excedentes de diesel, gasolina, querosene de aviação, nafta e outros derivados destinados também à exportação.

A crise do Oriente Médio demonstra o valor dessa estratégia. Quando uma parcela relevante da oferta mundial fica ameaçada por conflitos em torno de corredores marítimos, fornecedores capazes de entregar energia com segurança ganham importância. A posição geográfica brasileira no Atlântico, distante dos principais teatros de conflito que ameaçam atualmente o fluxo energético entre o Golfo Pérsico, o Oceano Índico, o Mar Vermelho e o Mediterrâneo, representa uma vantagem que pode ser convertida em contratos de longo prazo e novos mercados.

O salto estratégico estaria em transformar o petróleo produzido no pré-sal em maior valor econômico dentro do próprio país. Exportar óleo cru gera receita, mas refinar e comercializar derivados incorpora indústria, tecnologia, empregos, logística e margem adicional à cadeia produtiva. Em momentos de escassez internacional, essa capacidade poderia permitir ao Brasil atender simultaneamente sua demanda interna e conquistar mercados externos.

Para isso, o país precisa tratar produção, refino e logística como partes de uma mesma política energética. O crescimento da produção offshore deve ser acompanhado por investimentos de longo prazo em refinarias, unidades de processamento, terminais, armazenamento e transporte. Sem essa integração, o aumento da produção continuará representando uma oportunidade parcialmente aproveitada.

Existe também uma dimensão geopolítica. Um Brasil capaz de exportar petróleo e derivados em escala relevante teria maior peso nas negociações comerciais e energéticas, especialmente em períodos de instabilidade. A segurança do abastecimento deixaria de ser apenas uma questão econômica interna e passaria a integrar a própria projeção internacional brasileira.

Essa transformação exige previsibilidade e continuidade. Refinarias, terminais, dutos e grandes projetos de processamento demandam investimentos elevados e possuem maturação de décadas. Não podem depender exclusivamente de ciclos políticos ou de decisões de curto prazo. A política energética precisa ser tratada como política de Estado, com planejamento capaz de atravessar governos.

A mesma lógica vale para a segurança. Quanto maior a participação brasileira no mercado energético internacional, maior será a importância de proteger plataformas offshore, refinarias, terminais, portos, dutos, sistemas de comunicação e rotas marítimas. A experiência do Oriente Médio demonstra que infraestrutura energética pode se transformar em alvo militar e instrumento de coerção econômica.

Para o Brasil, portanto, a crise reúne riscos e uma oportunidade excepcional. O aumento dos preços internacionais, dos fretes e dos combustíveis pode pressionar a economia doméstica, enquanto a dependência parcial de derivados importados limita os benefícios de uma valorização do petróleo. Em contrapartida, a produção crescente do pré-sal oferece condições para ampliar exportações e acelerar uma transformação industrial que aumente o valor capturado pela economia nacional.

A questão central não é saber se o mundo entrará imediatamente em uma nova crise econômica. O alerta está na possibilidade de que a combinação entre a pressão sobre Ormuz, o avanço dos Houthis no Iêmen, a ameaça a Bab el-Mandeb e a vulnerabilidade das rotas energéticas do Golfo produza um choque simultâneo de oferta e logística. Isoladamente, cada problema pode ser administrado; combinados, podem atingir diretamente o crescimento econômico mundial.

O Brasil não tem condições de substituir o petróleo do Golfo Pérsico, mas possui escala suficiente para se tornar um fornecedor adicional importante em um mercado pressionado. O pré-sal pode, portanto, deixar de ser encarado apenas como fonte de receitas de exportação e assumir uma função estratégica na segurança energética brasileira e internacional. Para isso, será necessário avançar além da produção e construir capacidade industrial compatível com a dimensão dos recursos disponíveis.

O Oriente Médio demonstra que energia e rotas marítimas são instrumentos de poder. Se Ormuz e Bab el-Mandeb permanecerem sob pressão, o Brasil terá diante de si uma oportunidade rara de ampliar sua importância energética no Atlântico. Aproveitá-la dependerá de uma decisão estratégica: continuar exportando predominantemente uma commodity ou investir pesadamente para transformar o petróleo do pré-sal em combustível, indústria, mercados, empregos, receitas e maior influência internacional.


por Angelo Nicolaci


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Navios SIGINT: Alemanha avança enquanto Brasil ainda não possui plataforma dedicada

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A Alemanha decidiu ampliar sua capacidade de inteligência marítima com a encomenda de um quarto navio especializado em inteligência de sinais, reforçando uma área que ganhou importância crescente nas operações militares contemporâneas. O anúncio foi feito nesta segunda-feira (14) pelo ministro da Defesa, Boris Pistorius, durante a cerimônia de lançamento da quilha do terceiro navio da nova classe em Wolgast, no nordeste do país. A proposta orçamentária deverá seguir para aprovação do Parlamento.

Os navios pertencem à nova Classe 424, desenvolvida para substituir os atuais meios de inteligência da Classe 423 Oste, em serviço desde o final dos anos 1980. A primeira unidade da nova geração deverá ser entregue à Deutsche Marine a partir de 2029, dentro de um programa voltado a adaptar a inteligência naval alemã a um ambiente marcado pela expansão da guerra eletrônica, dos sistemas não tripulados e das operações multidomínio.

A função de uma plataforma SIGINT vai muito além da interceptação de comunicações. Seus sensores podem identificar, classificar, localizar e analisar emissões eletromagnéticas produzidas por radares, sistemas de comunicação, enlaces de dados e outros equipamentos eletrônicos. A correlação dessas informações permite construir padrões de atividade e produzir conhecimento sobre forças militares, sensores, procedimentos e movimentações de potenciais adversários.

É esse conjunto de capacidades que explica a definição empregada por Pistorius ao afirmar que essas embarcações são capazes de “ouvir e ver” aquilo que outros meios não conseguem perceber. Em termos militares, o objetivo é transformar o espectro eletromagnético em uma fonte permanente de inteligência, permitindo compreender o ambiente operacional antes que uma ameaça necessariamente se manifeste de forma convencional.

A nova geração alemã também demonstra que o conceito de inteligência naval está mudando. O processamento de grandes volumes de dados, o emprego de inteligência artificial e a integração com estruturas de comando e guerra eletrônica reduzem o intervalo entre a coleta de uma emissão e sua transformação em informação operacional. O navio deixa de ser apenas uma plataforma de escuta e passa a funcionar como um centro especializado de produção de inteligência embarcado.

Essa capacidade possui aplicações em diferentes níveis da guerra. A coleta de sinais pode contribuir para identificar unidades navais e aeronaves, mapear sensores e redes de comunicação, apoiar o planejamento de operações, alimentar sistemas de guerra eletrônica e ampliar a consciência situacional de uma força. Em um ambiente no qual radares, datalinks, sistemas de navegação e comunicações são fundamentais para o emprego de armas e sensores, conhecer o comportamento eletromagnético de um adversário pode revelar informações que não estão disponíveis por meios ópticos ou convencionais.

O Brasil possui conhecimento e estruturas relacionadas à guerra eletrônica e à inteligência de sinais, mas essa competência está distribuída entre diferentes meios e organizações. Uma plataforma dedicada permitiria concentrar sensores especializados, operadores, analistas e capacidade de processamento em um único vetor, com autonomia e persistência para atuar no ambiente marítimo.

Os ganhos potenciais seriam relevantes. Uma unidade dessa natureza poderia ampliar a consciência situacional no Atlântico Sul, construir bibliotecas nacionais de assinaturas eletromagnéticas, apoiar operações de guerra eletrônica, acompanhar áreas marítimas de interesse e produzir inteligência continuada em períodos de paz. Esse último aspecto é particularmente importante: o conhecimento estratégico é construído antes da crise, por meio da coleta sistemática e da comparação de padrões ao longo do tempo.

A capacidade teria aplicação direta sobre a Amazônia Azul, onde rotas comerciais, plataformas de petróleo e gás, portos, cabos submarinos e outras infraestruturas críticas concentram interesses econômicos e estratégicos. Conhecer esse ambiente exige acompanhar não apenas o tráfego físico, mas também as emissões e redes que sustentam as atividades militares e civis no mar.

Entretanto, existe um dilema que não pode ser ignorado. A Marinha do Brasil ainda enfrenta necessidades mais imediatas para recompor sua capacidade de combate. A continuidade do Programa de Fragatas Classe Tamandaré, o PROSUB, a manutenção e modernização dos meios existentes, a disponibilidade de munições, a aviação naval, os navios-patrulha e a renovação da Esquadra disputam um orçamento limitado.

Classe 423 alemã da década de 1980, que deverá ser substituída, 

Nesse contexto, uma plataforma SIGINT não pode ser tratada como concorrente de fragatas, submarinos ou meios de patrulha. Seu valor está em aumentar a qualidade da informação disponível para essas plataformas. A discussão, portanto, precisa ser inserida em uma arquitetura naval de longo prazo, estabelecendo requisitos e avaliando diferentes soluções, inclusive plataformas dedicadas, conversões ou uma combinação de sensores distribuídos.

O desafio brasileiro vai além da limitação financeira. Projetos de Defesa dependem de ciclos longos de desenvolvimento, construção, treinamento e manutenção, enquanto decisões orçamentárias de curto prazo frequentemente interrompem ou retardam programas estratégicos. Para uma Marinha que precisa planejar sua força em horizontes de décadas, a falta de previsibilidade encarece projetos e dificulta a incorporação contínua de novas tecnologias.

A renovação da Esquadra, portanto, não pode significar apenas substituir cascos antigos. É necessário incorporar capacidades compatíveis com a guerra contemporânea, incluindo guerra eletrônica, inteligência de sinais (SIGINT), sistemas não tripulados, sensores distribuídos, defesa antidrone, ciberdefesa e redes de dados. Uma força numericamente renovada, mas tecnologicamente defasada, continuará vulnerável às características das ameaças modernas.

A decisão alemã evidencia uma diferença de abordagem. Berlim está transformando uma necessidade de inteligência em capacidade material, garantindo a continuidade de uma competência considerada estratégica para o ambiente de segurança das próximas décadas. No Brasil, a ausência de uma plataforma naval especificamente dedicada à inteligência de sinais permanece como uma lacuna dentro da arquitetura de vigilância e conhecimento da Esquadra.

Isso não significa que essa capacidade deva ultrapassar necessidades mais urgentes. Significa que ela precisa entrar no planejamento da força. O requisito deve ser definido, alternativas estudadas e uma eventual solução incorporada ao ciclo de renovação naval, evitando que uma capacidade estratégica seja novamente deixada para depois em razão da sucessão de emergências orçamentárias.

O problema é que essa visão exige justamente aquilo que tem faltado à política de Defesa brasileira: planejamento continuado, prioridade estratégica e previsibilidade de recursos. Enquanto países ampliam investimentos para acompanhar a transformação tecnológica da guerra, o Brasil ainda precisa conciliar programas fundamentais da Esquadra com recursos limitados e sujeitos a oscilações. Sem uma decisão de Estado que assegure financiamento estável à renovação naval, novas capacidades tendem a permanecer no campo dos estudos enquanto a realidade operacional continua cobrando respostas.

A inteligência de sinais não é um luxo tecnológico. Diante do atual cenário de competição crescente no Atlântico Sul, saber quem está emitindo, de onde, como e com que padrão pode ser determinante para antecipar ameaças e orientar o emprego da força. A Alemanha está transformando essa premissa em capacidade operacional. Para o Brasil, o desafio agora é decidir se continuará tratando esse domínio como uma competência complementar ou se passará a reconhecê-lo como parte necessária de uma Marinha preparada para a guerra do século XXI.


por Angelo Nicolaci


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Fragata portuguesa e helicóptero Lynx lançam torpedos MK46 durante exercício REPMUS26

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A Marinha Portuguesa empregou a fragata NRP Bartolomeu Dias e o helicóptero Lynx embarcado em um exercício de lançamento de torpedos durante o REPMUS26. A atividade colocou em prática procedimentos de guerra antissubmarino com o emprego de duas plataformas distintas, em um cenário voltado ao treinamento operacional.

Foram realizados dois lançamentos de torpedos MK46. Um armamento foi disparado a partir da própria fragata, enquanto o segundo foi lançado pelo Lynx, permitindo às tripulações exercitar diferentes modalidades de emprego de uma mesma arma contra ameaças submarinas.

O helicóptero amplia a área de atuação de uma fragata nesse tipo de missão. Por operar a maior distância do navio e possuir sensores próprios, a aeronave pode investigar contatos e realizar buscas em setores específicos do oceano, reduzindo o tempo necessário para reagir diante de uma possível presença submarina.

Essa característica é particularmente importante na guerra antissubmarino, na qual a detecção constitui apenas o início do processo. Identificar corretamente um contato, determinar sua posição e acompanhar sua movimentação são etapas essenciais antes de estabelecer uma solução de tiro.

O MK46 é um torpedo leve desenvolvido para emprego antissubmarino a partir de navios e aeronaves. Sua utilização por diferentes plataformas permite explorar posições de ataque distintas, uma característica importante para aumentar as opções disponíveis diante de um submarino em movimento.

A capacidade de operar aeronaves embarcadas constitui, nesse contexto, um dos elementos relevantes da configuração das fragatas. O Lynx funciona como uma extensão da capacidade de busca da unidade de superfície, podendo deslocar-se rapidamente para áreas onde seja necessário investigar ou acompanhar uma ameaça.

O NRP Bartolomeu Dias pertence à classe de mesmo nome, baseada no projeto das fragatas da classe Karel Doorman, originalmente desenvolvidas para a Marinha dos Países Baixos. As unidades portuguesas foram adquiridas no início dos anos 2000 e permanecem como parte importante da capacidade oceânica da Marinha Portuguesa.

O REPMUS26 acrescenta uma dimensão adicional ao treinamento ao reunir atividades relacionadas à experimentação e ao emprego de sistemas não tripulados. O exercício cria um ambiente no qual plataformas convencionais podem ser empregadas ao lado de novas tecnologias destinadas à vigilância, reconhecimento e coleta de informações no espaço marítimo.

Para a guerra antissubmarino, esse tipo de treinamento é especialmente relevante porque o ambiente submarino permanece marcado por elevada dificuldade de detecção. Ruído, profundidade, temperatura da água e características do fundo marítimo podem alterar significativamente o desempenho dos sensores e dificultar a localização de um contato.

A atividade realizada pela Marinha Portuguesa demonstra, portanto, uma competência que depende tanto de sensores e armamentos quanto da proficiência das tripulações. O lançamento do torpedo representa apenas a etapa final de um processo que envolve busca, classificação, acompanhamento e decisão de emprego.

A manutenção dessa capacidade ganha importância diante do retorno da guerra antissubmarino ao centro das preocupações navais. Submarinos modernos combinam discrição, autonomia e capacidade de ataque a longa distância, tornando a disponibilidade de meios especializados para sua detecção e neutralização um requisito permanente para forças que operam no ambiente marítimo.

Durante o REPMUS26, o emprego do NRP Bartolomeu Dias e do Lynx com torpedos MK46 proporcionou justamente a oportunidade de manter essas competências em condições de treinamento próximas às exigências de uma operação real, preservando a capacidade portuguesa de atuar no combate às ameaças submarinas.


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Drone russo atinge trem após passagem de autoridades da OTAN e eleva tensão

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Um ataque realizado por um drone russo contra um trem de passageiros próximo à fronteira entre Ucrânia e Polônia elevou novamente o nível de tensão no flanco oriental da OTAN. O episódio ocorreu no domingo, quando um drone atingiu uma composição ferroviária em território ucraniano, nas proximidades da fronteira com a Polônia, país integrante da Aliança Atlântica. O ataque aconteceu pouco depois da passagem do trem diplomático que transportava o ex-primeiro-ministro britânico Boris Johnson e outros representantes europeus.

O ministro da Defesa da Alemanha, Boris Pistorius, classificou o episódio como uma escalada calculada atribuída ao presidente russo Vladimir Putin, com o objetivo de provocar medo na Europa. Segundo Pistorius, a resposta ocidental deve combinar contenção e capacidade de reação, evitando uma resposta impulsiva sem transmitir a Moscou qualquer dúvida sobre a disposição europeia de se defender diante de uma eventual ampliação do conflito.

A proximidade do ataque com uma rota utilizada por autoridades estrangeiras acrescenta uma dimensão política ao episódio. Ainda não há confirmação pública de que o trem diplomático tenha sido o alvo pretendido, mas a sequência temporal levou autoridades europeias a considerar o ataque dentro de uma estratégia mais ampla de intimidação. O ministro francês das Relações Exteriores, Jean-Noël Barrot, afirmou que a ação buscava intimidar e dividir os europeus.

O episódio ocorre em meio à ampliação dos ataques russos contra infraestrutura localizada no oeste da Ucrânia. No dia anterior, um caminhão foi atingido próximo ao ponto de passagem de Dorohusk-Yahodyn, a cerca de 800 metros da fronteira polonesa, interrompendo temporariamente as operações do posto. Moscou afirmou que o alvo estava relacionado à infraestrutura utilizada para movimentar cargas militares provenientes da Europa.

A sequência de ataques indica uma mudança relevante na geometria da campanha russa. Em vez de concentrar os efeitos dos ataques de longo alcance exclusivamente nas áreas mais próximas da frente, Moscou vem pressionando corredores logísticos que conectam a Ucrânia aos seus apoiadores europeus. Ferrovias, postos de fronteira e outras estruturas de transporte tornam-se, nesse contexto, elementos diretamente relacionados à sustentação do esforço de guerra ucraniano.

O emprego de drones acrescenta outra vantagem operacional a essa estratégia. Sistemas não tripulados permitem realizar ataques de longo alcance com menor custo e podem ser empregados em grande quantidade, obrigando o adversário a manter redes de detecção e defesa aérea permanentemente mobilizadas. A questão deixa de ser apenas interceptar uma aeronave individual e passa a envolver a capacidade de proteger simultaneamente grandes extensões de infraestrutura crítica.

Esse problema é especialmente sensível para países do flanco oriental da OTAN. A fronteira polonesa funciona como um dos principais corredores terrestres para a entrada de equipamentos e outros suprimentos destinados à Ucrânia. Qualquer aumento da frequência de ataques nas proximidades desses eixos amplia a necessidade de vigilância, defesa antidrone e coordenação entre forças militares e autoridades civis.

A Polônia já vinha alertando para esse risco. Em 10 de setembro, o primeiro-ministro Donald Tusk afirmou que Varsóvia esperava possíveis ataques russos contra pontos de passagem na fronteira com a Ucrânia e disse ter recebido informações de inteligência indicando a necessidade de preparação para diferentes cenários no flanco oriental europeu.

A descoberta, nesta segunda-feira (14), de um suposto drone militar russo próximo à costa do Mar Báltico, anunciada pelo ministro da Defesa polonês Władysław Kosiniak-Kamysz, acrescentou outro elemento à preocupação de Varsóvia. As autoridades ainda não haviam divulgado detalhes suficientes para determinar a missão do equipamento ou as circunstâncias pelas quais ele chegou àquela área.

A resposta da OTAN também tende a ser influenciada pela necessidade de separar incidentes deliberados de transbordamentos decorrentes das operações russas contra a Ucrânia. Essa distinção é fundamental porque um ataque intencional contra território de um membro da Aliança teria implicações muito diferentes de um incidente ocorrido dentro da Ucrânia, ainda que nas proximidades de uma fronteira da OTAN.

O secretário-geral da OTAN, Mark Rutte, afirmou que o ataque não deverá reduzir o apoio ocidental à Ucrânia e defendeu o reforço da assistência a Kiev. A declaração evidencia que, pelo menos no discurso político atual, Moscou não conseguiu transformar a proximidade dos ataques com território aliado em um instrumento capaz de interromper a sustentação europeia ao esforço ucraniano.

Do ponto de vista militar, entretanto, a evolução desses ataques coloca uma questão mais concreta: até onde a defesa aérea europeia consegue proteger simultaneamente centros urbanos, instalações militares, ferrovias, rodovias, depósitos e passagens de fronteira contra ataques de drones de baixo custo?

A resposta exige uma arquitetura em camadas. Sistemas de vigilância precisam detectar alvos de pequena assinatura a distâncias suficientes para permitir uma reação, enquanto guerra eletrônica, armas de curto alcance, mísseis e aeronaves de combate precisam ser empregados de maneira coordenada. A crescente disponibilidade de drones também torna economicamente inviável depender exclusivamente de interceptadores de alto custo contra cada ameaça.

O conflito na Ucrânia transformou essa equação em um dos principais desafios da guerra contemporânea. A capacidade de produzir e lançar grandes volumes de drones permite ao atacante explorar saturação, dispersar esforços defensivos e pressionar o adversário a proteger uma quantidade cada vez maior de alvos. A defesa, por sua vez, precisa encontrar meios de reduzir o custo médio de cada engajamento sem comprometer a probabilidade de interceptação.

O ataque contra o trem próximo à fronteira polonesa deve ser observado dentro dessa evolução. Independentemente de a composição de passageiros ter sido ou não o alvo originalmente pretendido, o episódio demonstra como a infraestrutura civil e logística pode se transformar em instrumento de pressão estratégica quando está inserida no sistema que sustenta uma guerra de alta intensidade.

Para a Europa, o desafio deixa de ser apenas impedir que a guerra atravesse formalmente as fronteiras da OTAN. É também proteger uma infraestrutura extensa e interdependente enquanto preserva a capacidade de apoiar a Ucrânia sem permitir que ataques, ameaças ou operações de intimidação alterem a disposição política dos países aliados.

A guerra de drones, nesse sentido, já ultrapassou o campo de batalha convencional. Ela passou a disputar espaço com a logística, a infraestrutura crítica e a percepção de segurança das populações. O episódio na fronteira polonesa mostra que, na atual fase do conflito, a distância entre a linha de frente e o espaço estratégico europeu pode ser medida menos em quilômetros do que na capacidade de detectar, atribuir e neutralizar ameaças antes que elas produzam efeitos políticos e militares mais amplos.


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Brasil leva indústria de defesa à AAD 2026 em busca de espaço no mercado africano

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A indústria brasileira de defesa e segurança amplia sua presença internacional nesta semana com a participação na Africa Aerospace and Defence Expo 2026 (AAD), realizada entre 16 e 18 de setembro na Base Aérea de Waterkloof, em Tshwane, na África do Sul. O Espaço Brasil será coordenado pela Associação Brasileira das Indústrias de Materiais de Defesa e Segurança (ABIMDE), em parceria com a ApexBrasil, com apoio dos Ministérios da Defesa e das Relações Exteriores.

Considerada a principal feira de tecnologias aeroespaciais e de defesa do continente africano, a AAD reúne governos, Forças Armadas, empresas e instituições dos setores de defesa, segurança, aviação, espaço, transporte e infraestrutura aeroportuária. A edição de 2026 adota como tema “The Future of Warfare”, colocando no centro das discussões a transformação tecnológica dos conflitos e das capacidades militares.

O Espaço Brasil contará com a participação de cinco empresas: Cinadra, CSA, IAS, M&K e XMobots. A presença reúne segmentos distintos da Base Industrial de Defesa, incluindo soluções relacionadas a sistemas terrestres, aeronaves e veículos aéreos não tripulados, ampliando o espectro de produtos brasileiros apresentados a potenciais clientes e parceiros estrangeiros.

A escolha do mercado africano possui uma dimensão que vai além da participação em uma feira internacional. A região reúne países com diferentes necessidades de defesa e segurança, desde vigilância territorial e proteção de fronteiras até controle de áreas marítimas, monitoramento de infraestrutura e emprego de sistemas não tripulados. Para a indústria brasileira, esse ambiente pode abrir oportunidades para produtos desenvolvidos para operar em condições semelhantes às encontradas em diferentes regiões do próprio Brasil.

A proximidade histórica e diplomática também constitui um ativo. O Brasil mantém relações com diversos países africanos, incluindo integrantes da Comunidade dos Países de Língua Portuguesa, além de uma relação geográfica direta com o continente pelo Atlântico Sul. Essa condição pode favorecer contatos institucionais e comerciais, especialmente em um setor no qual confiança, suporte logístico, treinamento e relacionamento de longo prazo possuem peso significativo na escolha de fornecedores.

A África do Sul ocupa posição particular nesse cenário. O país possui uma das estruturas industriais e tecnológicas de defesa mais desenvolvidas do continente e funciona como ponto de conexão com outros mercados africanos. A realização da AAD em Tshwane coloca fabricantes, forças militares e autoridades de diferentes países diante de uma mesma vitrine, criando oportunidades para identificar demandas e estabelecer contatos que dificilmente seriam alcançados apenas por iniciativas comerciais convencionais.

A programação da edição de 2026 inclui sistemas terrestres, aeronaves, VANTs, tecnologias espaciais, equipamentos aeroportuários, sistemas de navegação e controle de tráfego aéreo, armamentos, munições e sistemas de controle de combate. O espectro demonstra que a competição internacional não está restrita às grandes plataformas, mas envolve também sensores, sistemas eletrônicos, soluções não tripuladas e componentes especializados.

Nesse ambiente, a participação da XMobots merece atenção particular pelo avanço brasileiro no segmento de sistemas aéreos não tripulados. O mercado africano apresenta demandas relevantes para vigilância de grandes áreas, monitoramento de fronteiras e infraestrutura e obtenção de inteligência, missões nas quais sistemas de menor custo operacional podem oferecer vantagens frente ao emprego contínuo de aeronaves tripuladas.

A presença brasileira na AAD também está vinculada ao projeto Brazil Defense, desenvolvido conjuntamente pela ABIMDE e ApexBrasil, com participação dos Ministérios da Defesa e das Relações Exteriores. A iniciativa busca ampliar as exportações do setor por meio de promoção comercial, monitoramento de mercados, participação em feiras e aproximação entre empresas brasileiras e potenciais compradores internacionais.

O desafio, entretanto, não está apenas em colocar produtos brasileiros diante de compradores estrangeiros. A consolidação de mercados de defesa exige capacidade de suporte, treinamento, manutenção, disponibilidade de peças, financiamento e continuidade no relacionamento com o cliente. Para uma indústria que pretende ampliar suas exportações, transformar contatos obtidos em feiras em contratos sustentáveis é tão importante quanto conquistar visibilidade internacional.

A ABIMDE participa da Africa Aerospace and Defence desde 2012 e coordenou novamente o Pavilhão Brasil em 2024. Naquela edição, a feira reuniu 259 expositores de 30 países, 86 delegações oficiais e 22.970 visitantes, números que ajudam a dimensionar o ambiente comercial e institucional no qual as empresas brasileiras estão inseridas.

A participação de 2026 ocorre, portanto, em um mercado no qual o Brasil já possui relações diplomáticas, experiência de cooperação e produtos capazes de atender a determinadas demandas de defesa e segurança. A questão estratégica para a Base Industrial de Defesa é transformar essa proximidade em presença comercial permanente, ampliando a participação brasileira em cadeias internacionais e reduzindo a dependência de oportunidades pontuais.

Para o Brasil, o mercado africano também representa uma oportunidade de fortalecer sua posição no Atlântico Sul. A expansão das relações industriais e tecnológicas de defesa com países da região pode gerar benefícios comerciais, mas também ampliar a capacidade brasileira de construir redes de cooperação em uma área diretamente relacionada aos interesses estratégicos do país.

A AAD 2026 será, nesse sentido, mais do que uma vitrine para cinco empresas brasileiras. O desempenho da delegação e os contatos estabelecidos durante o evento servirão como indicador da capacidade da BID de transformar sua experiência tecnológica em presença internacional, especialmente em mercados nos quais custo, adaptação às condições locais, transferência de conhecimento e suporte de longo prazo podem ser tão determinantes quanto o desempenho do equipamento oferecido.


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Embraer promove evento em São José dos Campos voltado a pessoas com deficiência

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A Embraer realiza nesta quarta-feira (16), em São José dos Campos (SP), o evento Asas da Diversidade, iniciativa voltada à inclusão de pessoas com deficiência (PCDs) no mercado de trabalho e à aproximação desse público com o setor aeronáutico. O encontro será realizado das 14h30 às 20h, no hotel Novotel, com entrada gratuita.

A programação reúne atividades de orientação profissional, interação com equipes da empresa e experiências ligadas à aviação. Entre as atividades estão análise de currículos, entrevistas com recrutadores da Embraer, palestras e uma roda de conversa sobre inclusão de pessoas com deficiência no ambiente corporativo.

O evento também terá uma abordagem prática. Os participantes poderão utilizar um simulador que reproduz a experiência de pilotagem de uma aeronave comercial da Embraer e experimentar, por meio de óculos de realidade virtual, uma simulação de voo no eVTOL desenvolvido pela Eve, empresa dedicada ao desenvolvimento de aeronaves elétricas de decolagem e pouso vertical.

A programação inclui ainda a participação do ator e criador de conteúdo Rafael Muller, que possui deficiência há mais de 20 anos e falará sobre sua trajetória, autonomia, representatividade e inserção profissional.

Além das atividades abertas ao público inscrito, o encontro contará com sorteios de brindes e de vagas para uma visita à sede da Embraer. Os participantes poderão acompanhar toda a programação ou apenas parte das atividades, de acordo com sua disponibilidade.

A iniciativa coloca a inclusão profissional dentro de um contexto mais amplo para a indústria aeroespacial brasileira. Empresas de alta complexidade tecnológica dependem de profissionais em diferentes áreas, desde engenharia e manufatura até administração, serviços, tecnologia e suporte, ampliando o espaço para diferentes perfis de formação e atuação.

Para a Embraer, o evento também funciona como uma aproximação direta entre potenciais profissionais e seus processos de recrutamento. A presença de representantes da área de talentos permite que os participantes conheçam oportunidades e apresentem seus currículos, enquanto as atividades práticas aproximam o público de tecnologias desenvolvidas pelo grupo.

O Asas da Diversidade será realizado no Novotel, na Avenida Dr. Nelson d'Ávila, 2.200, em São José dos Campos. As inscrições são gratuitas e destinadas a pessoas com deficiência interessadas em participar das atividades, basta clicar aqui.

A iniciativa ocorre em São José dos Campos, principal polo industrial e tecnológico associado à trajetória da Embraer, fundada em 1969 e atualmente presente nos mercados de aviação comercial, executiva, defesa e segurança e aviação agrícola.

Com mais de 9 mil aeronaves entregues desde sua criação, a empresa mantém operações industriais, centros de serviços, escritórios e estruturas de distribuição em diferentes regiões do mundo. O evento desta semana acrescenta uma dimensão de inclusão e formação profissional à relação da companhia com a comunidade na região onde está instalada sua principal base histórica.


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Fragata Tamandaré recebe certificação DNV SHOCK para resistência a choque

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A Fragata Tamandaré (F200), primeira unidade da nova classe de escoltas da Marinha do Brasil, recebeu a notação DNV SHOCK, voltada à resistência de equipamentos e sistemas às cargas de choque. O certificado foi entregue à TKMS durante a SMM em Hamburgo na Alemanha, e representa a primeira aplicação da notação a um projeto MEKO A100MB.

A F200 também se tornou o primeiro navio baseado em um projeto desenvolvido na Europa a receber a notação DNV SHOCK. A certificação foi concedida após a análise pela DNV de relatórios de testes e cálculos de choque referentes a uma seleção de equipamentos considerados essenciais para o funcionamento da plataforma.

A avaliação concentrou-se nos componentes cuja falha poderia provocar a perda de funções principais ou reduzir significativamente a segurança e a capacidade operacional do navio. O processo foi realizado conforme a norma DNV NAVAL Pt.3 Ch.1 e o TKMS Shock Standard, utilizado para qualificação de equipamentos e sistemas submetidos a cargas de choque.

Em uma plataforma de combate, a resistência a choque está diretamente relacionada à capacidade de manter funções essenciais após uma explosão ou outro evento capaz de gerar fortes cargas mecânicas. O objetivo não é apenas preservar a estrutura do navio, mas reduzir a possibilidade de que equipamentos críticos sejam inutilizados e comprometam sua capacidade operacional.

A abordagem é particularmente relevante em uma fragata moderna, na qual sensores, sistemas de comando e controle, comunicações, geração e distribuição de energia e sistemas de armas precisam operar de forma integrada. A perda de um componente essencial pode degradar funções que vão além do equipamento diretamente atingido.

A notação DNV SHOCK não significa que toda a plataforma tenha sido submetida a um único ensaio de explosão nem que a F200 seja imune aos efeitos de um ataque. O reconhecimento está relacionado à qualificação dos equipamentos selecionados segundo requisitos específicos de resistência a choque, com base nos testes e cálculos analisados pela sociedade classificadora.

Para o projeto MEKO A100MB, trata-se da primeira certificação desse tipo. A experiência estabelece uma referência técnica para a classe Tamandaré e amplia o conjunto de requisitos de sobrevivência considerados no desenvolvimento da plataforma.

A F200 foi entregue à Marinha do Brasil em março de 2026 e já está em operação. A unidade integra o Programa Fragatas Classe Tamandaré, conduzido pela Águas Azuis, sociedade formada pela TKMS, Embraer Defesa & Segurança e Atech, sob gestão da EMGEPRON.

A certificação também acrescenta conhecimento ao processo de construção naval militar realizado no Brasil. A fabricação da classe em Itajaí envolve não apenas a montagem das plataformas, mas a integração e qualificação de sistemas complexos, experiência que poderá ser aproveitada na continuidade do programa e em futuros projetos navais.

A resistência a choque integra um conjunto mais amplo de requisitos de sobrevivência que inclui compartimentação, redundância, controle de avarias, proteção de equipamentos e continuidade de energia e sistemas essenciais. No ambiente de combate naval, esses elementos determinam a capacidade de uma plataforma permanecer operacional depois de sofrer danos.

Para a Marinha do Brasil, a certificação da F200 representa, portanto, um parâmetro técnico adicional para a nova geração de escoltas. À medida que a classe Tamandaré consolida sua operação, os dados e a experiência acumulados com a primeira unidade poderão contribuir para o acompanhamento da confiabilidade, manutenção e evolução das demais fragatas.


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Marinha do Brasil na Türkiye: GÖKDENİZ entra no radar da MB?

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A presença de uma delegação da Marinha do Brasil na Türkiye, revelada nos últimos dias, acrescenta um novo elemento à aproximação naval entre os dois países e levanta uma questão que merece ser analisada sob o ponto de vista operacional: estaria a MB avaliando soluções turcas para ampliar a defesa de ponto de seus navios? O GÖKDENİZ 35 mm, desenvolvido pela ASELSAN, poderia estar entre os sistemas observados pela delegação brasileira. Até o momento, porém, não há confirmação oficial de que o equipamento esteja sendo avaliado pela Força.

A movimentação ocorre poucos dias depois da passagem do Navio-Escola Brasil por Istambul, entre 31 de agosto e 4 de setembro. Durante a escala, o comandante do navio, Capitão de Mar e Guerra Ricardo Lima Maia, e integrantes da delegação foram recebidos pelo Vice-Almirante Ramazan Özoğul, comandante da Área Marítima do Norte da Marinha da Türkiye. A visita ocorreu em um momento de intensificação do relacionamento bilateral no setor de defesa, após anos de aproximação política e industrial entre os dois países.

O contexto tecnológico dessa aproximação também merece atenção. A indústria de defesa turca desenvolveu uma cadeia própria de radares, guerra eletrônica, sensores eletro-ópticos, mísseis, sistemas de gerenciamento de combate e armas de defesa aproximada. Para a Marinha brasileira, que precisa ampliar a capacidade de sobrevivência de seus meios diante da evolução das ameaças aéreas, esse conjunto oferece referências que podem ser confrontadas com as necessidades nacionais.

O GÖKDENİZ é um dos exemplos mais relevantes. Desenvolvido pela ASELSAN, o sistema é um CIWS de 35 mm equipado com dois canhões automáticos e concebido para enfrentar mísseis antinavio, aeronaves, helicópteros, VANTs e ameaças assimétricas de superfície. A configuração 100/35StA emprega munição programável ATOM e integra sensores e controle de tiro à solução de defesa aproximada.

O interesse para a MB está menos no calibre do armamento do que na combinação entre detecção, acompanhamento, controle de tiro e munição programável. Essa arquitetura cria uma camada terminal capaz de reagir contra ameaças que atravessem defesas de maior alcance ou sejam detectadas já dentro de uma janela reduzida de resposta. Contra drones e outros vetores de menor custo, também permite discutir uma relação mais equilibrada entre o valor do alvo e o custo do interceptador.

A mudança do ambiente de guerra naval reforça essa questão. Mísseis antinavio de baixa altitude continuam representando uma ameaça crítica, mas agora dividem o espaço operacional com VANTs, munições de ataque de baixo custo e ataques de saturação. A defesa precisa combinar alcance, velocidade de reação, probabilidade de interceptação e custo por engajamento, evitando utilizar uma solução de alto valor contra toda e qualquer ameaça.

É nesse ponto que o GÖKDENİZ deve ser observado em conjunto com o GÖKSUR 100-N, desenvolvido pela ASELSAN em parceria com o TÜBİTAK SAGE. O sistema emprega mísseis para defesa de ponto, possui alcance efetivo declarado de 15 quilômetros, capacidade de engajamento múltiplo e integração ao sistema de gerenciamento de combate. O míssil utiliza buscador infravermelho de imagem e enlace de dados bidirecional, tendo entre seus alvos prioritários mísseis antinavio e de cruzeiro que voam próximo à superfície.

Essa combinação permite analisar uma arquitetura na qual o GÖKSUR atua em uma faixa anterior e o GÖKDENİZ constitui a camada terminal. Para a MB, o interesse está em determinar como sensores, mísseis e armas de defesa aproximada poderiam trabalhar de forma integrada diante de ataques múltiplos.

Outra solução que merece entrar nessa comparação é o LEVENT, da ROKETSAN. Trata-se de um sistema de defesa antiaérea de curto alcance desenvolvido para plataformas navais, com possibilidade de operar integrado aos sensores do navio ou utilizando seus próprios meios de detecção. Os dados fornecidos pela empresa indicam alcance de até 11 quilômetros, buscador infravermelho associado a sensor passivo de radiofrequência e capacidade contra aeronaves, helicópteros, VANTs e mísseis antinavio.

A existência dessas três soluções é relevante porque permite comparar arquiteturas, e não simplesmente equipamentos. GÖKDENİZ, GÖKSUR e LEVENT empregam tecnologias diferentes para enfrentar ameaças semelhantes, oferecendo à MB parâmetros para analisar alcance, sensores, resistência à guerra eletrônica, capacidade contra alvos de baixa assinatura, engajamento múltiplo, logística e integração ao sistema de combate.

A experiência turca ganha ainda mais peso quando observada no nível da plataforma. A modernização da fragata TCG Oruçreis envolveu 21 sistemas, incluindo o radar de vigilância CENK, o radar de controle de tiro AKREP, sistemas de guerra eletrônica ARES e AREAS, o sistema PİRİ, GÖKDENİZ, o sistema de contramedidas contra torpedos HIZIR e o sonar FERSAH. O programa demonstra a capacidade de integrar diferentes subsistemas em uma arquitetura nacional de combate naval.

Esse aspecto é particularmente importante para o Brasil. A eficiência de um sistema de defesa de ponto depende da qualidade dos sensores, do gerenciamento de combate, dos enlaces de dados e da capacidade de identificar e priorizar ameaças. A vantagem não está apenas na arma, mas no tempo necessário para transformar uma detecção em solução de tiro e decisão de engajamento.

A modernização do TCG Oruçreis também oferece uma referência para a atualização de plataformas existentes. Para uma Marinha que precisa conciliar novas construções, manutenção e evolução tecnológica de meios em serviço, programas desse tipo podem fornecer parâmetros sobre como incorporar capacidades contemporâneas sem depender exclusivamente da substituição das plataformas.

Essa possibilidade ganha relevância quando se observa a atual composição da Esquadra. O NAM Atlântico e o NDM Oiapoque desempenham funções distintas das fragatas, mas são plataformas de elevado valor operacional e estratégico, cuja capacidade de autodefesa contra ameaças aéreas poderia ser ampliada. A eventual integração de uma solução de defesa de ponto não significaria transformar esses navios em plataformas de combate autônomas, mas acrescentar uma camada de proteção compatível com sua importância e com as missões que podem desempenhar em ambientes de maior ameaça.

No caso das fragatas classe Tamandaré, a discussão pode ser ainda mais oportuna. Com a Marinha em breve avançando para um segundo lote da classe, a experiência acumulada com as primeiras unidades permitiria avaliar eventuais aprimoramentos na arquitetura de defesa, incluindo uma capacidade de defesa de ponto mais robusta e estruturada em camadas. Sistemas como GÖKDENİZ, GÖKSUR ou outras soluções disponíveis no mercado poderiam ser comparados tecnicamente nesse processo, ao lado das alternativas nacionais.

Não há, até o momento, confirmação pública de que o GÖKDENİZ esteja sendo avaliado para as fragatas classe Tamandaré, o NAM Atlântico, o NDM Oiapoque ou qualquer outro navio brasileiro, tampouco de que a delegação tenha realizado uma avaliação formal do sistema. O que existe é uma oportunidade concreta para observar soluções que respondem a problemas presentes na agenda operacional da MB.

A classe Tamandaré é naturalmente uma referência nesse debate por representar o núcleo da renovação da Esquadra, mas a discussão não precisa ficar limitada a ela. Diferentes classes de navios podem demandar níveis distintos de defesa contra drones, mísseis e outras ameaças aéreas, de acordo com seu valor, missão e área de emprego.

Para a Amazônia Azul, essa questão assume uma dimensão adicional. A Marinha precisa preservar capacidade de presença e reação em uma área marítima de dimensões continentais, o que exige combinar plataformas, sensores e armas dentro de uma arquitetura sustentável. A defesa de ponto é uma dessas capacidades e precisa ser dimensionada de acordo com a importância e a vulnerabilidade de cada meio.

Também existe uma dimensão industrial. Qualquer eventual cooperação deveria considerar a participação da Base Industrial de Defesa brasileira, capacidade de integração nacional, manutenção, treinamento, suporte logístico, domínio de interfaces e possibilidade de evolução do sistema. A experiência turca é interessante justamente porque demonstra como o domínio de componentes críticos pode transformar uma necessidade operacional em capacidade industrial exportável.

Por isso, a pergunta mais importante não é simplesmente se o Brasil deveria comprar o GÖKDENİZ. O ponto é verificar se as soluções desenvolvidas pela Türkiye oferecem vantagens técnicas, operacionais ou industriais que justifiquem sua comparação com alternativas nacionais e estrangeiras.

A passagem do N.E. Brasil por Istambul e a posterior presença de uma delegação da Marinha brasileira ocorrem no momento em que essa comparação pode ser particularmente produtiva. Sem atribuir à missão objetivos que não foram oficialmente divulgados, a aproximação abre espaço para que a MB conheça diretamente uma arquitetura naval construída em torno de sensores, guerra eletrônica, mísseis e defesa aproximada de desenvolvimento nacional.

Se o GÖKDENİZ está efetivamente entre os sistemas observados pela delegação brasileira, ainda não se sabe. Mas suas características, somadas às soluções complementares oferecidas pelo GÖKSUR e pelo LEVENT, justificam que a capacidade turca seja colocada lado a lado com as alternativas disponíveis no mercado internacional e com os caminhos tecnológicos que o próprio Brasil pretende desenvolver.

Para uma Marinha diante de ameaças cada vez mais diversificadas, ampliar o universo de soluções disponíveis é parte da própria construção de capacidade. Nesse sentido, uma avaliação técnica e comparativa do GÖKDENİZ e de seus sistemas complementares poderia oferecer à MB mais um parâmetro para decidir como deverá ser estruturada a defesa de ponto das plataformas que operarão na Amazônia Azul nas próximas décadas.


por Angelo Nicolaci


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