A Associação Brasileira das Indústrias de Materiais de Defesa e Segurança realizou, no último dia 12 de maio, sua Reunião Plenária nas instalações do Departamento de Ciência e Tecnologia Aeroespacial, em São José dos Campos (SP), reunindo representantes da indústria, autoridades militares, pesquisadores e integrantes da academia em um debate estratégico sobre o futuro da Base Industrial de Defesa e Segurança brasileira.
O encontro, realizado no Auditório Weis, no Instituto Tecnológico de Aeronáutica, contou com a presença do Comandante da Aeronáutica, Tenente-Brigadeiro do Ar Marcelo Kanitz Damasceno, além de integrantes do Alto Comando da FAB, representantes do Ministério da Defesa e executivos de empresas do setor.
O editor do GBN Defense, Angelo Nicolaci, esteve presente na condição de convidado para acompanhar a plenária da ABIMDE e as apresentações realizadas durante o encontro.
Durante sua apresentação, o Brigadeiro Damasceno reforçou a necessidade de integração entre Estado, indústria e academia como elemento essencial para ampliar a autonomia tecnológica nacional e garantir maior independência estratégica ao Brasil diante dos desafios do cenário internacional contemporâneo.
A tríplice hélice como base do desenvolvimento estratégico nacional
Um dos pontos centrais destacados pelo Comandante da Aeronáutica foi o conceito da “tríplice hélice”, apresentado como um modelo fundamental para impulsionar o desenvolvimento tecnológico e industrial brasileiro.
Segundo Damasceno, o fortalecimento nacional passa necessariamente pela integração entre o Conhecimento, representado pela academia e centros de pesquisa; o Estado, representado pelas Forças Armadas e instituições públicas; e a Indústria, através da Base Industrial de Defesa e do setor produtivo nacional.
Na visão apresentada pelo Comandante da FAB, essa integração cria um ambiente capaz de gerar novos mercados, ampliar oportunidades econômicas, desenvolver novas fontes de receita, estimular a inovação e fomentar cadeias produtivas nacionais de alta tecnologia.
O Brigadeiro ressaltou ainda que esse modelo contribui diretamente para a geração de empregos altamente qualificados, retenção de conhecimento estratégico no país, fortalecimento da indústria nacional e ampliação da capacidade brasileira de desenvolver tecnologias críticas e sensíveis em setores ligados à defesa, espaço, inteligência artificial, sistemas autônomos, comunicações, sensores e novas capacidades aeroespaciais.
Nesse contexto, forças aéreas como a brasileira e a indiana têm dado crescente importância aos acordos de Transferência de Tecnologia (ToT), entendidos como instrumentos fundamentais para a internalização de capacidades críticas e o fortalecimento da autonomia industrial. Ao mesmo tempo, esses processos são conduzidos de forma a preservar a elevada prontidão operacional das forças, garantindo que a absorção tecnológica não comprometa a disponibilidade imediata de meios e sistemas. A consolidação de uma Base Industrial de Defesa robusta torna-se, assim, um fator estratégico, permitindo que países mantenham ciclos próprios de desenvolvimento tecnológico e reduzam a dependência de parcerias externas para o acesso a tecnologias de ponta.
Nesse sentido, ganha relevância o diálogo institucional mantido entre a Força Aérea Brasileira e a Força Aérea Indiana (IAF), no qual foram compartilhadas experiências, modelos de gestão e perspectivas sobre o fortalecimento de estruturas estatais voltadas à inovação e à indústria aeroespacial. Esse intercâmbio contribuiu para a consolidação de referências utilizadas pela FAB no estudo de modelos internacionais de articulação entre Estado e setor produtivo, especialmente no contexto da criação de uma nova estrutura voltada ao segmento espacial e aeroespacial brasileiro.
Como desdobramento desse processo de análise e benchmarking internacional, a FAB avançou na concepção da ALADA, empresa estatal estratégica destinada a ampliar a capacidade de articulação, investimentos e desenvolvimento tecnológico no setor. A iniciativa reflete a busca por um modelo institucional mais dinâmico, inspirado em experiências internacionais, mas adaptado às necessidades específicas do ecossistema industrial e tecnológico brasileiro.
Ao abordar a missão institucional da Força Aérea Brasileira, o Comandante destacou os pilares “defender, controlar e integrar” como conceitos centrais da atuação da FAB, seja na defesa aeroespacial, no controle do espaço aéreo ou na integração do território nacional.
Outro ponto relevante apresentado foi a complexa estrutura de governança da FAB, composta atualmente por 49 sistemas, incluindo áreas operacionais, logísticas e de suporte, todas altamente dependentes de soluções tecnológicas, equipamentos, softwares, sistemas de comunicação, sensores, manutenção e infraestrutura fornecidos pela indústria nacional.
Segundo Damasceno, a Aeronáutica acompanha de forma constante indicadores relacionados a custos, efetivos, atividades e participação da indústria brasileira em suas cadeias de fornecimento, buscando ampliar a presença de empresas instaladas no país em programas estratégicos.
Defesa como motor de desenvolvimento econômico e tecnológico
Durante a plenária, também foi destacado que os investimentos em Defesa e em programas estratégicos não se limitam ao campo militar, refletindo diretamente na economia e na sociedade brasileira.
Segundo apresentado, projetos estratégicos da FAB e do setor de Defesa impulsionam a arrecadação de impostos, fortalecem cadeias nacionais de fornecedores, estimulam o desenvolvimento de empresas de tecnologia, ampliam a demanda por insumos e serviços especializados e geram empregos diretos e indiretos altamente qualificados.
A apresentação reforçou que o fortalecimento da Base Industrial de Defesa representa também um vetor de desenvolvimento econômico, inovação industrial e soberania tecnológica, com capacidade de produzir efeitos estruturantes em diversos segmentos da economia nacional.
Programa Espacial Brasileiro e o potencial estratégico de Alcântara
Outro tema de destaque durante a apresentação foi a importância estratégica do Programa Espacial Brasileiro e o potencial econômico representado pelo Centro de Lançamento de Alcântara.
Foi ressaltado que a posição geográfica privilegiada de Alcântara, próxima à linha do Equador, torna a base uma das localizações mais atrativas do mundo para lançamentos espaciais comerciais.
Do ponto de vista técnico, a proximidade da linha equatorial permite maior aproveitamento da velocidade de rotação da Terra, reduzindo consumo de combustível e aumentando a eficiência operacional dos lançamentos. Isso possibilita transportar cargas maiores com menor gasto energético, reduzindo custos e ampliando a competitividade comercial da base brasileira no mercado global de acesso ao espaço.
Durante a apresentação, foi citado o exemplo recente das operações conduzidas com a empresa sul-coreana INNOSPACE no Centro de Lançamento de Alcântara, incluindo a Operação Spaceward e o lançamento do foguete HANBIT-Nano. A missão marcou a entrada do Brasil no mercado de lançamentos orbitais comerciais e transportou satélites e cargas úteis brasileiras e estrangeiras.
Segundo informações oficiais da Agência Espacial Brasileira, a operação abriu novas oportunidades de geração de renda, atração de investimentos, desenvolvimento tecnológico e inserção internacional do setor espacial brasileiro.
A apresentação reforçou que Alcântara possui potencial para se transformar em um dos principais hubs espaciais comerciais do hemisfério sul, gerando retorno econômico significativo ao Brasil e estimulando o desenvolvimento de toda uma cadeia nacional ligada à indústria espacial, defesa, telecomunicações, sensores, satélites, software e sistemas avançados.
Gripen e KC-390 ganharão projeção internacional no Exercício "Salitre 2026"
Durante a apresentação, o Comandante da Aeronáutica também destacou a estreia internacional do Saab F-39E Gripen em exercícios multinacionais.
A FAB confirmou a participação do F-39E Gripen no Exercício Multinacional Salitre 2026, realizado pela Força Aérea do Chile na Base Aérea de Cerro Moreno, em Antofagasta. Será a primeira vez que o principal caça brasileiro participará de um exercício operacional fora do país.
A participação brasileira deverá contar com cinco caças Gripen e uma aeronave Embraer KC-390 Millennium, que atuará no suporte logístico e operacional das missões. O exercício reunirá aeronaves de diferentes países, elevando o nível de interoperabilidade e exposição operacional da FAB.
A presença conjunta do Gripen e do KC-390 no Salitre 2026 possui importância estratégica não apenas do ponto de vista militar, mas também industrial e comercial.
O exercício funcionará como uma importante vitrine para a indústria aeroespacial brasileira na América Latina, demonstrando capacidades operacionais, interoperabilidade, maturidade tecnológica e desempenho dos dois principais programas estratégicos da FAB diante de potenciais clientes regionais.
O KC-390 já desperta forte interesse internacional por suas capacidades multimissão, menor custo operacional e elevada disponibilidade, enquanto o Gripen brasileiro representa um dos mais avançados programas de transferência de tecnologia e integração industrial já realizados na América Latina.
A participação no Salitre 2026 também evidencia o amadurecimento operacional da aviação de caça brasileira e reforça o posicionamento do Brasil como um dos principais polos aeroespaciais e tecnológicos do hemisfério sul.
FAB apresenta cronograma atualizado de entregas do Gripen
Outro ponto apresentado pelo Brigadeiro Damasceno durante a plenária foi o cronograma atualizado de entregas do programa Gripen para a FAB.
Segundo apresentado durante o encontro, a previsão é de que mais duas aeronaves F-39E sejam entregues ainda em 2026, ampliando gradualmente a capacidade operacional da aviação de caça da Força Aérea Brasileira.
Para 2027, a expectativa apresentada é de recebimento de outras quatro aeronaves F-39E, mantendo o avanço do processo de incorporação operacional do novo vetor de superioridade aérea da FAB.
Já para 2028, foi destacada a previsão de chegada das primeiras variantes biposto F-39F, consideradas fundamentais para treinamento avançado, formação operacional e ampliação das capacidades de emprego tático da aeronave. O Brasil será o primeiro operador mundial da versão Gripen F-39F de nova geração.
Durante evento do roll-out oficial da primeira aeronave supersônica construída no Brasil, realizado em Gavião Peixoto em 25 de março deste ano, a própria FAB destacou que o programa Gripen representa não apenas a aquisição de uma nova aeronave de combate, mas um amplo processo de transferência de tecnologia, desenvolvimento industrial e fortalecimento da Base Industrial de Defesa brasileira.
A apresentação também abordou os impactos das transformações observadas nos conflitos modernos, marcados pelo emprego crescente de drones, sistemas autônomos, guerra cibernética, inteligência artificial, mísseis de precisão e capacidades espaciais, reforçando a necessidade de o Brasil ampliar sua capacidade tecnológica e industrial para enfrentar os desafios do cenário internacional contemporâneo.
Pilares nacionais da soberania e o papel estruturante do Estado
Ao final de sua apresentação, o Brigadeiro Damasceno também destacou a importância do investimento contínuo nos pilares fundamentais da soberania nacional, reforçando que áreas como educação, saúde e defesa não podem ser tratadas como elementos acessórios dentro do planejamento estatal.
Segundo o Comandante da Aeronáutica, escolas, hospitais e a capacidade de defesa constituem estruturas permanentes e indissociáveis da soberania de um país, desempenhando papel central na formação de capital humano, na garantia de estabilidade social e na preservação da autonomia estratégica do Estado.
Nesse sentido, foi enfatizado que a ausência de investimentos consistentes nesses três pilares conduz, inevitavelmente, a um cenário de dependência externa, fragilidade institucional e atraso tecnológico e econômico. Para o Brigadeiro, a solidez de uma nação está diretamente relacionada à sua capacidade de sustentar sistemas de educação, saúde e defesa fortes, integrados e continuamente atualizados frente às demandas do cenário internacional contemporâneo.
Dentro dessa mesma perspectiva, o Brigadeiro também abordou a discussão sobre o patamar ideal de investimentos em defesa, avaliando que um índice em torno de 1,5% do PIB seria mais adequado e socialmente mais palatável do que metas mais elevadas como 2%, especialmente considerando que o país ainda enfrenta desafios significativos e contínuos em áreas estruturantes como educação e saúde, que demandam investimentos robustos e permanentes.
Ainda segundo essa visão, a defesa nacional depende diretamente de previsibilidade orçamentária, fator considerado essencial para a manutenção de cronogramas industriais, controle de custos e continuidade dos programas estratégicos. A ausência dessa previsibilidade pode resultar em ajustes contratuais frequentes, aumento de custos por aditivos e, em alguns casos, perda de slots produtivos em linhas industriais, o que impacta diretamente a entrega de meios essenciais para a proteção da soberania nacional e para a prontidão operacional das Forças Armadas.

O conjunto das declarações do Brigadeiro Damasceno reforça uma leitura estratégica clara: soberania não se sustenta apenas em meios militares ou programas tecnológicos isolados, mas em uma arquitetura de Estado coerente, capaz de integrar educação, saúde, defesa e desenvolvimento industrial em um mesmo projeto nacional de longo prazo. Ao defender previsibilidade orçamentária, fortalecimento da Base Industrial de Defesa e maior integração entre Estado, indústria e academia, a visão apresentada aponta para um ponto sensível do debate contemporâneo, a necessidade de escolhas estruturais consistentes em um cenário de restrições e pressões crescentes. Mais do que números ou metas, o que se coloca em perspectiva é a capacidade do país de transformar intenção em continuidade, e continuidade em autonomia real, evitando ciclos de dependência que fragilizam sua posição no sistema internacional.
por Angelo Nicolaci
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