Nesta quinta-feira (11) ocorreu a bordo da Fragata Tamandaré (F200), primeira unidade do Programa Fragatas Classe Tamandaré (PFCT), um encontro entre a Marinha do Brasil e o Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) voltado à apresentação dos avanços da iniciativa BNDES Azul.
A atividade reuniu autoridades civis, militares e representantes da comunidade científica, com foco na consolidação de projetos ligados à Economia Azul e ao planejamento do espaço marítimo brasileiro. O encontro reforçou, na prática, a crescente integração entre defesa, ciência e desenvolvimento econômico no tratamento da Amazônia Azul como eixo estruturante de políticas de Estado.
A bordo da Fragata Tamandaré, o editor do GBN Defense, Angelo Nicolaci, acompanhou toda a programação em um ambiente que evidenciou não apenas a apresentação de projetos, mas a consolidação de uma agenda institucional de longo prazo envolvendo o ambiente marítimo brasileiro.
Mais do que uma atividade de balanço, o encontro revelou uma camada mais profunda de alinhamento entre Marinha e BNDES: a compreensão comum de que o mar brasileiro deixou de ser apenas um espaço físico de soberania para se tornar uma infraestrutura estratégica nacional, onde economia, defesa, ciência, energia, logística e indústria passam a operar de forma integrada e permanente.
Amazônia Azul e a consolidação do mar como eixo estrutural do Estado brasileiro
A abertura do encontro foi conduzida pelo Diretor-Geral de Navegação da Marinha do Brasil, Almirante de Esquadra Silvio Luiz dos Santos, que apresentou uma leitura ampla e estrutural sobre o papel do mar na estratégia nacional, com uma fala que se afastou de qualquer abordagem meramente institucional e entrou diretamente em uma visão de Estado de longo prazo.
Logo no início, o almirante destacou que o Brasil vive uma transição conceitual importante: o mar deixa de ser percebido como um espaço distante da vida cotidiana do país e passa a ser entendido como parte ativa da própria estrutura de funcionamento do Estado brasileiro. Essa mudança não é apenas semântica, mas estratégica, porque redefine a forma como políticas públicas, investimentos e capacidades operacionais são organizados.
Nesse contexto, a Amazônia Azul aparece não como uma área homogênea, mas como um sistema complexo de interdependências econômicas e estratégicas. O almirante destacou que é nesse espaço que se concentram fluxos decisivos do comércio exterior brasileiro, que dependem quase integralmente das rotas marítimas, além da produção de energia offshore, especialmente petróleo e gás, que sustentam parte significativa da matriz energética nacional.
Ao ampliar essa leitura, ele reforçou que o mar também abriga uma dimensão crescente de infraestrutura invisível, como cabos submarinos de comunicação, redes logísticas internacionais e áreas sensíveis de pesquisa científica, o que aumenta ainda mais sua relevância estratégica.
Foi nesse ponto que ele sintetizou a ideia central de sua abordagem: “O mar é parte indissociável da vida nacional. Ele sustenta nossa economia, nossa energia e nossa capacidade de inserção internacional.”
Essa frase, no contexto da apresentação, não aparece como um slogan institucional, mas como uma conclusão derivada da própria estrutura econômica brasileira, que é fortemente dependente do ambiente marítimo.
Ao avançar em sua análise, o almirante passou a tratar o ambiente marítimo como um espaço de crescente complexidade operacional. Ele destacou que a natureza das ameaças mudou significativamente nas últimas décadas, deixando de ser previsível ou linear.
Hoje, segundo ele, o desafio não está apenas em identificar ameaças convencionais, mas em lidar com um ambiente no qual atividades legais e ilegais coexistem no mesmo espaço físico, muitas vezes de forma indistinguível. Isso inclui navegação comercial, pesca industrial, exploração científica, transporte internacional e também ilícitos transnacionais.
Nesse ponto, ele destacou: “As ameaças no mar são cada vez mais difusas, mais complexas e mais difíceis de identificar. Isso exige uma capacidade de vigilância permanente, integrada e tecnologicamente avançada.”
Essa formulação insere o Brasil em uma discussão global mais ampla sobre segurança marítima, na qual o conceito tradicional de defesa naval baseada apenas em presença física já não é suficiente. O ambiente exige integração entre sensores, plataformas navais, vigilância aérea, satélites e sistemas de inteligência de dados.
Ao aprofundar ainda mais essa lógica, o almirante reforçou que a soberania marítima depende diretamente da capacidade de resposta do Estado, que precisa ser contínua e proporcional à escala do território marítimo sob responsabilidade brasileira.
Ele foi enfático ao afirmar: “A obtenção de meios navais, aeronavais e de Fuzileiros Navais em quantidade e qualidade, bem como sistemas avançados de monitoramento e controle capazes de fazer frente a essas ameaças, torna-se cada vez mais necessária e essencial.”
Aqui, a fala ultrapassa o campo operacional e entra em uma leitura estrutural de poder naval: não se trata apenas de presença simbólica, mas de capacidade efetiva de controle de um espaço marítimo de dimensão continental.
Fragata Tamandaré e a reconfiguração da capacidade naval brasileira
A realização do encontro a bordo da Fragata Tamandaré adiciona uma camada importante de significado ao evento, pois a embarcação não representa apenas um novo meio naval, mas o início de uma nova geração de capacidade de escolta da Marinha do Brasil.
O Programa Fragatas Classe Tamandaré é, na prática, um dos projetos mais complexos da indústria de defesa brasileira contemporânea. Ele envolve não apenas construção naval, mas integração de sistemas de combate, transferência tecnológica, engenharia de alto nível e articulação de uma cadeia produtiva nacional que se conecta com fornecedores internacionais.
O impacto do programa vai além da Marinha. Ele atua diretamente na Base Industrial de Defesa, funcionando como um catalisador de desenvolvimento tecnológico e industrial, com efeitos sobre qualificação de mão de obra, geração de conhecimento e fortalecimento de capacidades produtivas no país.
Durante sua fala, o Almirante Silvio Luiz destacou que esse tipo de programa não pode ser entendido isoladamente, mas como parte de uma construção mais ampla de capacidade marítima nacional.
Nesse ponto, ele introduziu uma ideia central para a compreensão do evento: “O conhecimento do mar não é apenas suporte técnico. Ele é a base da nossa capacidade de agir com eficiência e segurança.”
Essa afirmação amplia o escopo da soberania marítima para além da dimensão física, incorporando uma dimensão cognitiva e tecnológica. Ou seja, não basta estar no mar, é necessário compreendê-lo profundamente em todas as suas dinâmicas.
Continuidade do PFCT e leitura institucional de longo prazo
Embora não tenha havido qualquer anúncio formal, o conjunto de falas e o contexto institucional do evento reforçam uma leitura clara de continuidade estratégica do Programa Fragatas Classe Tamandaré.
Programas navais dessa natureza raramente são definidos por decisões pontuais. Eles dependem de maturação institucional, sustentação orçamentária, alinhamento político e necessidade operacional de longo prazo. No caso brasileiro, a renovação da força de escoltas é considerada um requisito fundamental para a manutenção da capacidade de presença da Marinha do Brasil em sua vasta área de responsabilidade marítima, especialmente diante dos desafios associados à proteção da Amazônia Azul.
A própria escolha da Fragata Tamandaré como palco do encontro reforça essa percepção de consolidação progressiva do programa dentro da estrutura da Esquadra brasileira, indicando que ele tende a permanecer como um dos principais eixos da modernização naval nas próximas décadas.
Um dos momentos mais significativos da apresentação do Diretor-Geral de Navegação da Marinha do Brasil, Almirante de Esquadra Silvio Luiz dos Santos, foi a referência à Fragata Tamandaré como a “primeira de mais sete fragatas” que deverão integrar a Força Naval.
A afirmação possui relevância especial por partir de uma autoridade diretamente ligada ao planejamento e à condução das atividades marítimas da Marinha. Embora não constitua um anúncio oficial sobre novas contratações, a declaração sugere um elevado grau de confiança institucional na continuidade do programa para além das quatro unidades atualmente em construção.
A observação torna-se ainda mais interessante quando analisada à luz dos movimentos recentes envolvendo o Programa Fragatas Classe Tamandaré. A assinatura do Memorando de Entendimento (MoU) entre a Marinha do Brasil e a SPE Águas Azuis abriu formalmente espaço para estudos relacionados à ampliação do programa, representando um passo importante na avaliação de futuras unidades.
Naturalmente, um Memorando de Entendimento não equivale a uma contratação. Ainda existem etapas técnicas, orçamentárias e administrativas que precisam ser cumpridas antes da formalização de um novo lote. Entretanto, no universo dos programas estratégicos de defesa, iniciativas dessa natureza costumam sinalizar intenções de longo prazo e a busca por condições que permitam a continuidade de projetos considerados prioritários.
Além disso, segundo fontes do setor ouvidas pelo GBN Defense, a Marinha do Brasil já estaria realizando consultas e cotações relacionadas a sistemas empregados nas Fragatas Classe Tamandaré. Embora tais movimentações façam parte dos processos normais de planejamento e não representem, por si só, uma confirmação de contratação, elas são vistas pela indústria como um indicativo de que os estudos associados a um segundo lote já teriam avançado para fases mais concretas de avaliação.
Esse tipo de iniciativa costuma ocorrer com antecedência significativa em programas navais de grande porte, permitindo que a Força obtenha informações sobre custos, cronogramas, disponibilidade de equipamentos e capacidade de atendimento por parte dos fornecedores. Nesse contexto, as consultas realizadas reforçam a percepção de que a concepção de um segundo lote de fragatas já estaria em andamento dentro dos processos de planejamento de longo prazo da Marinha.
Caso essa expectativa se confirme, uma ampliação inicial com duas novas fragatas surge como uma possibilidade tecnicamente coerente, permitindo à Marinha manter a continuidade da curva de aprendizado industrial construída pelo PFCT, preservar competências estratégicas desenvolvidas ao longo do programa e ampliar gradualmente sua capacidade operacional.
Sob essa perspectiva, a referência feita pelo Almirante Silvio Luiz à Tamandaré como a primeira de oito fragatas deixa de ser apenas uma observação numérica e passa a ser interpretada como um dos mais claros sinais públicos, até o momento, de que a expansão do programa é vista dentro da própria instituição como um caminho natural para a renovação da força de superfície brasileira
Ilhas oceânicas: soberania, presença nacional e o papel estratégico da Marinha
Entre os diversos projetos apoiados pelo BNDES Azul, Aloizio Mercadante dedicou atenção especial às ilhas oceânicas brasileiras, destacando que sua importância vai muito além da preservação ambiental. Segundo o presidente do BNDES, esses territórios representam ativos estratégicos para a projeção marítima brasileira e para a manutenção dos direitos soberanos do país sobre vastas áreas da Amazônia Azul.
Mercadante ressaltou que a proteção dessas ilhas constitui uma responsabilidade de Estado e lembrou que a Marinha do Brasil desempenha papel central nesse esforço, mantendo presença permanente em regiões remotas do Atlântico Sul e assegurando condições para pesquisas científicas, monitoramento ambiental e exercício da soberania nacional.
Ao abordar o tema, destacou que algumas ilhas brasileiras enfrentam desafios relacionados à introdução de espécies invasoras e predadores que afetam diretamente ecossistemas sensíveis e populações de aves marinhas, comprometendo o equilíbrio ambiental dessas áreas. Para enfrentar essa situação, o BNDES estruturou uma iniciativa específica dentro do programa BNDES Azul voltada à proteção e recuperação dos ecossistemas insulares brasileiros.
Segundo Mercadante, os investimentos previstos deverão alcançar aproximadamente R$ 80 milhões, reunindo instituições científicas, órgãos ambientais e entidades especializadas em conservação.
Entretanto, o dirigente deixou claro que a relevância das ilhas oceânicas não se limita à preservação ambiental. Ao comentar a iniciativa, associou diretamente a proteção desses territórios à manutenção dos interesses estratégicos brasileiros no Atlântico Sul.
A observação ganha relevância quando se considera que arquipélagos como São Pedro e São Paulo e Trindade e Martim Vaz desempenham papel fundamental na sustentação da projeção marítima brasileira, contribuindo para a delimitação de extensas áreas sob jurisdição nacional e fortalecendo a presença do Brasil em regiões de elevado interesse geopolítico.
Nesse contexto, Mercadante destacou que a atuação da Marinha é indispensável: “Não se faz nada nessa área sem a Marinha. A Marinha é o coração dessa estratégia.”
A afirmação foi utilizada pelo presidente do BNDES para ilustrar que qualquer iniciativa relacionada à Amazônia Azul depende da capacidade da Força Naval de manter presença permanente no mar, apoiar pesquisas científicas, garantir a segurança da navegação e proteger os interesses nacionais em áreas muitas vezes localizadas a milhares de quilômetros da costa brasileira.
Ao longo de sua apresentação, Mercadante ressaltou que a Marinha acumula décadas de experiência na gestão dos assuntos marítimos nacionais, reunindo capacidades únicas nas áreas de hidrografia, oceanografia, monitoramento marítimo e apoio à pesquisa científica.
Essa estrutura, segundo ele, transforma a instituição em um dos principais pilares da estratégia brasileira para os oceanos.
A importância dessa presença torna-se ainda mais evidente diante do crescente valor estratégico dos recursos marítimos. Com a expansão das atividades ligadas à exploração energética offshore, à pesquisa mineral em águas profundas, à proteção de cabos submarinos, à pesca e ao comércio marítimo internacional, as ilhas oceânicas assumem papel cada vez mais relevante como pontos avançados de observação, monitoramento e presença nacional.
Para Mercadante, a proteção desses territórios insulares representa um exemplo claro da convergência entre desenvolvimento sustentável, pesquisa científica, defesa e soberania. Trata-se de uma agenda em que a conservação ambiental e os interesses estratégicos do Estado brasileiro não competem entre si, mas se complementam.
A avaliação converge diretamente com a visão apresentada pela Marinha durante o evento. Em um cenário internacional marcado pela crescente disputa por recursos e espaços marítimos, a manutenção de uma presença efetiva sobre as ilhas oceânicas brasileiras constitui não apenas uma necessidade ambiental, mas um componente essencial da estratégia nacional para a proteção da Amazônia Azul e para a consolidação do Brasil como potência marítima no Atlântico Sul.
BNDES, defesa e desenvolvimento: a Base Industrial de Defesa como instrumento de soberania nacional
Um dos aspectos mais relevantes da apresentação de Aloizio Mercadante foi a defesa explícita da Base Industrial de Defesa (BID) como um dos pilares do desenvolvimento nacional. Ao longo de sua exposição, o presidente do BNDES procurou demonstrar que os investimentos em defesa não devem ser compreendidos apenas sob a ótica militar, mas como instrumentos capazes de impulsionar inovação, gerar empregos qualificados, fortalecer cadeias produtivas complexas e ampliar a autonomia tecnológica do país.
Ao utilizar a Fragata Tamandaré como exemplo concreto dessa estratégia, Mercadante destacou que programas dessa natureza possuem efeitos que transcendem o ambiente operacional das Forças Armadas, produzindo impactos duradouros sobre a estrutura industrial brasileira.
“O impacto desses programas vai muito além do setor de defesa. Eles estruturam a capacidade industrial do país.”
A declaração sintetiza uma visão que tem orientado parte das ações recentes do banco. Segundo Mercadante, projetos estratégicos de defesa possuem a capacidade de mobilizar setores industriais inteiros, integrando empresas de diferentes portes, centros de pesquisa, universidades e fornecedores especializados em cadeias produtivas de elevado conteúdo tecnológico.
Nesse contexto, a Fragata Tamandaré foi apresentada não apenas como um moderno meio naval destinado à proteção da Amazônia Azul, mas também como símbolo da capacidade brasileira de absorver tecnologia, desenvolver competências industriais e ampliar o conteúdo nacional em programas de alta complexidade.
Mercadante destacou que o acordo firmado entre o BNDES e os responsáveis pelo programa estabelece mecanismos de acompanhamento voltados ao aumento progressivo da participação da indústria brasileira na construção das embarcações, fortalecendo fornecedores locais e estimulando a formação de mão de obra altamente especializada.
“Estamos formando gente, gerando emprego no Brasil inteiro, fortalecendo uma cadeia de empresas e acumulando conhecimento tecnológico.”
Segundo ele, esse processo é essencial para que o país reduza dependências externas e desenvolva competências permanentes em áreas consideradas estratégicas para a soberania nacional.
Ao abordar a renovação dos meios navais da Marinha, Mercadante também rebateu visões que questionam a capacidade brasileira de desenvolver sistemas complexos de defesa.
“É um completo equívoco imaginar que o Brasil não é capaz de produzir navios.”
Apontando para a própria Fragata Tamandaré, atracada ao fundo do evento, o presidente do banco destacou que a embarcação representa o resultado concreto da combinação entre engenharia nacional, transferência de tecnologia, planejamento de longo prazo e fortalecimento da Base Industrial de Defesa.
Para Mercadante, o programa demonstra que o Brasil possui capacidade para participar de segmentos industriais de elevada complexidade tecnológica, desde que exista continuidade institucional e compromisso estratégico de longo prazo.
Essa continuidade, segundo ele, constitui o principal requisito para o fortalecimento da indústria de defesa.
“Sem continuidade, não existe Base Industrial de Defesa. O que sustenta esse setor é a previsibilidade e o compromisso de longo prazo.”
A observação ganha especial relevância diante das características próprias da indústria de defesa. Diferentemente de outros setores da economia, programas militares exigem ciclos de desenvolvimento que frequentemente se estendem por décadas, demandando estabilidade institucional, planejamento contínuo e previsibilidade de investimentos.
Nesse sentido, Mercadante apresentou o BNDES como um agente capaz de contribuir para a construção dessa estabilidade, apoiando projetos considerados estratégicos para o país e promovendo a articulação entre governo, indústria, academia e centros de pesquisa.
Outro ponto de destaque foi a defesa do papel do banco no financiamento da exportação de produtos de defesa brasileiros. Mercadante citou os resultados obtidos pela Embraer no mercado internacional e destacou que o fortalecimento das exportações é fundamental para garantir escala produtiva, ampliar a competitividade da indústria nacional e sustentar a evolução tecnológica dos sistemas desenvolvidos no país.
Segundo ele, o BNDES já participou do financiamento de mais de 160 aeronaves exportadas durante sua atual gestão, incluindo plataformas militares como o A-29 Super Tucano e o KC-390 Millennium, hoje presentes em um número crescente de forças aéreas ao redor do mundo.
A mesma lógica, afirmou, poderá ser aplicada futuramente a outros segmentos da indústria de defesa brasileira, incluindo o setor naval.
“Nós temos que exportar produtos de defesa para ganhar escala, musculatura, competência e aumentar cada vez mais o conteúdo local.”
A defesa da Base Industrial de Defesa surgiu também associada à proteção dos interesses brasileiros na Amazônia Azul. Mercadante lembrou que o Brasil possui mais de 8.500 quilômetros de litoral, uma extensa plataforma continental e uma área marítima de importância crescente para a economia nacional.
Segundo ele, proteger esse patrimônio exige investimentos permanentes em meios navais, sistemas de monitoramento, infraestrutura portuária, pesquisa científica e capacidades industriais capazes de garantir autonomia tecnológica ao país.
Nesse contexto, o presidente do BNDES associou diretamente o fortalecimento da indústria de defesa à capacidade do Estado brasileiro de exercer soberania sobre seus espaços marítimos, proteger recursos estratégicos e responder aos desafios de um ambiente internacional cada vez mais competitivo.
Exportação de defesa, escala industrial e projeção internacional do Brasil
Ao tratar da Base Industrial de Defesa, Aloizio Mercadante defendeu que a inserção internacional da indústria brasileira deve ser encarada como um componente essencial da estratégia nacional de desenvolvimento. Em sua avaliação, a sustentabilidade de programas complexos de defesa não pode depender exclusivamente das necessidades do mercado doméstico, exigindo a conquista de novos espaços em mercados internacionais e a ampliação da competitividade tecnológica das empresas brasileiras.
Segundo o presidente do BNDES, a exportação não representa apenas uma oportunidade de negócios, mas um instrumento capaz de fortalecer toda a estrutura produtiva nacional.
“Nós temos que exportar produtos, inclusive produtos de defesa, para ganhar escala, musculatura, competência e cada vez mais conteúdo local.”
A declaração sintetiza uma das principais mensagens transmitidas ao longo de sua apresentação. Para Mercadante, a capacidade de exportar permite ampliar volumes de produção, fortalecer fornecedores, gerar empregos qualificados e criar as condições necessárias para investimentos contínuos em pesquisa, desenvolvimento e inovação.
Ao abordar o tema, o presidente do banco utilizou a Embraer como exemplo do potencial da indústria brasileira de alta tecnologia. Destacando o desempenho recente da empresa no mercado internacional, lembrou que o BNDES tem apoiado a exportação de aeronaves brasileiras e ressaltou a importância de mecanismos de financiamento capazes de aumentar a competitividade dos produtos nacionais frente aos concorrentes estrangeiros.
Mercadante observou que a experiência acumulada pela Embraer demonstra como a combinação entre capacidade tecnológica, apoio institucional e presença internacional pode transformar uma empresa nacional em referência global em segmentos de elevada complexidade.
Mais do que ampliar vendas, esse processo produz efeitos estruturantes sobre a economia. Cada contrato internacional gera demanda para centenas de fornecedores, impulsiona investimentos em inovação, preserva empregos especializados e amplia a capacidade das empresas brasileiras de absorver e desenvolver novas tecnologias.
Ao longo de sua apresentação, Mercadante também associou essa lógica ao fortalecimento da indústria naval brasileira. Ao comentar os investimentos realizados pelo banco, destacou que o país voltou a construir embarcações de diferentes tipos e níveis de complexidade, gerando emprego, renda, desenvolvimento tecnológico e aprendizado industrial.
“Estamos gerando emprego, renda, desenvolvimento, tecnologia e aprendizado", disse Mercadante.
Para o dirigente, esse ciclo virtuoso é fundamental para aumentar a competitividade da economia brasileira em setores intensivos em tecnologia e conhecimento.
A exportação aparece, portanto, como uma consequência natural do fortalecimento da capacidade industrial nacional. Quanto maior a escala produtiva, maior a competitividade dos produtos brasileiros; quanto maior a competitividade, maiores as oportunidades de inserção internacional; e quanto maior a presença internacional, maiores as condições para ampliar investimentos em inovação e conteúdo local.
Essa visão se conecta diretamente ao papel estratégico da Base Industrial de Defesa. Mercadante deixou claro que a capacidade de desenvolver e exportar sistemas complexos não deve ser vista apenas como um ativo econômico, mas como um elemento associado à soberania nacional. Países que dominam tecnologias críticas, produzem equipamentos estratégicos e conseguem competir internacionalmente possuem maior autonomia para definir seus próprios caminhos de desenvolvimento e responder a desafios futuros.
Nesse contexto, a exportação de produtos de defesa passa a integrar uma agenda mais ampla de fortalecimento do poder nacional. Não se trata apenas de ampliar receitas ou conquistar mercados, mas de consolidar competências tecnológicas, fortalecer a indústria brasileira e ampliar a presença do país em setores considerados estratégicos para o século XXI.
Segurança marítima, ilícitos transnacionais e a necessidade de presença permanente do Estado no mar
Outro aspecto relevante abordado por Aloizio Mercadante foi a crescente dimensão de segurança associada ao ambiente marítimo. Em sua avaliação, a proteção da Amazônia Azul não está relacionada apenas à exploração sustentável dos recursos naturais ou ao desenvolvimento da Economia Azul, mas também à capacidade do Estado brasileiro de exercer controle efetivo sobre uma área marítima de enorme extensão estratégica.
Ao longo de sua apresentação, o presidente do BNDES destacou que os desafios de segurança no mar vêm se tornando cada vez mais complexos, envolvendo desde atividades ilegais relacionadas à exploração de recursos naturais até a atuação de organizações criminosas transnacionais que utilizam as rotas marítimas para o tráfico internacional de drogas e outras atividades ilícitas.
Mercadante utilizou dados recentes para ilustrar a dimensão do problema. Segundo ele, somente em 2024 foram apreendidas cerca de 92 toneladas de drogas associadas a operações ligadas ao ambiente portuário e marítimo brasileiro, um indicador que evidencia a crescente importância das rotas oceânicas para o crime organizado internacional.
Para exemplificar a natureza global dessa ameaça, citou uma operação realizada em cooperação com autoridades espanholas que resultou na apreensão de aproximadamente nove toneladas de cocaína nas Ilhas Canárias. O caso foi apresentado como demonstração de que o enfrentamento ao crime transnacional exige não apenas meios nacionais robustos, mas também integração internacional de inteligência e cooperação entre instituições de diferentes países.
“A Polícia Federal fez uma operação com a inteligência espanhola e apreendeu nove toneladas de cocaína nas Ilhas Canárias.”
A referência não foi feita de forma isolada. Mercadante associou diretamente esse cenário à necessidade de fortalecer a capacidade de vigilância e controle dos portos brasileiros, destacando que uma parcela significativa das apreensões de drogas ocorre justamente em áreas ligadas à infraestrutura marítima e logística do país.
Nesse contexto, ressaltou a importância da integração entre Marinha do Brasil, Polícia Federal, Receita Federal, órgãos de segurança estaduais e demais instituições responsáveis pela fiscalização e proteção das fronteiras marítimas brasileiras.
Para o presidente do BNDES, o combate aos ilícitos transnacionais não pode ser visto apenas como uma questão de segurança pública, mas como um desafio estratégico nacional. A proteção dos portos, das rotas marítimas, das instalações energéticas offshore, dos cabos submarinos e dos recursos naturais presentes na Amazônia Azul exige investimentos permanentes em monitoramento, inteligência, infraestrutura e capacidade operacional.
Ao relacionar o tema à atuação da Marinha do Brasil, Mercadante destacou que a dimensão marítima da soberania nacional vai muito além da defesa militar tradicional. A presença naval constitui um elemento fundamental para garantir a segurança das atividades econômicas desenvolvidas no mar, assegurar o cumprimento da legislação brasileira e proteger interesses estratégicos em uma área marítima que abriga parcela significativa da riqueza nacional.
A fala também dialoga diretamente com as observações feitas pelo Almirante de Esquadra Silvio Luiz dos Santos durante a abertura do evento. Ao destacar ameaças como a pesca ilegal, pesquisas não autorizadas, crimes ambientais e outros ilícitos transnacionais, o Diretor-Geral de Navegação da Marinha ressaltou a necessidade de ampliar continuamente as capacidades navais, aeronavais e de monitoramento do país.
Sob essa perspectiva, Mercadante deixou claro que iniciativas como o BNDES Azul, os investimentos em infraestrutura portuária, os projetos de monitoramento marítimo e o fortalecimento da Base Industrial de Defesa estão inseridos em uma mesma lógica estratégica. Trata-se de criar as condições para que o Brasil exerça efetivamente sua autoridade sobre uma das maiores áreas marítimas do planeta, protegendo seus recursos, garantindo a segurança das rotas comerciais e preservando a estabilidade necessária para o desenvolvimento econômico.
Transição energética, SAF e a oportunidade estratégica do Brasil na nova economia do carbono
Ao abordar os desafios e oportunidades associados à Economia Azul, Aloizio Mercadante dedicou parte significativa de sua apresentação à transição energética global, tema que, segundo ele, está diretamente ligado ao futuro dos transportes marítimo e aéreo, à competitividade da economia brasileira e à capacidade do país de assumir uma posição de liderança em um mercado internacional cada vez mais orientado pela descarbonização.
Para o presidente do BNDES, o Brasil reúne condições únicas para ocupar posição de destaque nesse processo. Diferentemente de outras economias que dependem fortemente de combustíveis fósseis ou de matrizes energéticas intensivas em carbono, o país possui uma das matrizes energéticas mais limpas do mundo e uma combinação rara de recursos naturais, capacidade agrícola, biodiversidade e conhecimento tecnológico.
“O Brasil é o país que tem a melhor matriz energética entre os países do G20.”
Segundo Mercadante, essa vantagem competitiva coloca o país em posição privilegiada para liderar o desenvolvimento dos combustíveis renováveis que deverão impulsionar a próxima transformação dos setores de transporte marítimo, aviação e logística internacional.
Durante sua exposição, ele destacou que o debate sobre descarbonização deixou de ser uma questão exclusivamente ambiental e passou a representar uma disputa econômica e tecnológica de escala global. Nesse cenário, o Brasil possui potencial para se tornar um dos principais fornecedores mundiais de combustíveis renováveis destinados à aviação e à navegação.
“O Brasil vai liderar o combustível renovável da aviação e da navegação.”
A afirmação foi acompanhada de exemplos concretos das iniciativas apoiadas pelo BNDES. Mercadante revelou que a instituição acaba de financiar uma das primeiras unidades voltadas à produção de Combustível Sustentável de Aviação (SAF), considerada uma das tecnologias mais promissoras para reduzir as emissões do setor aéreo sem necessidade de substituição imediata das frotas existentes.
Segundo ele, o projeto representa um passo importante na construção de uma nova cadeia industrial associada aos combustíveis renováveis, capaz de gerar investimentos, empregos qualificados e novas oportunidades de exportação para o país.
O presidente do banco também destacou que os avanços não se limitam à aviação. O setor marítimo internacional enfrenta crescente pressão regulatória para reduzir emissões de carbono, especialmente após decisões recentes da Organização Marítima Internacional (IMO), que vem estabelecendo metas cada vez mais ambiciosas para a descarbonização da navegação global.
Mercadante lembrou que o Brasil teve participação ativa nesse debate internacional, defendendo o reconhecimento dos biocombustíveis como solução efetiva para a redução das emissões no transporte marítimo e aéreo.
Segundo ele, muitos países tradicionalmente dependentes de combustíveis fósseis resistiam à inclusão dos biocombustíveis nas estratégias globais de descarbonização, principalmente porque não possuem as condições naturais e produtivas existentes no Brasil.
Essa resistência, porém, vem sendo gradualmente superada diante das evidências técnicas acumuladas nos últimos anos.
Como exemplo, Mercadante citou uma demonstração realizada recentemente na Alemanha, na qual veículos equipados com motores convencionais operaram utilizando biodiesel brasileiro sob acompanhamento técnico e científico.
Os resultados, segundo ele, foram expressivos: “Reduzimos em 92% a fumaça preta e em 67% as emissões de CO₂.”
O dirigente ressaltou que os testes demonstraram a viabilidade do uso de combustíveis renováveis sem necessidade de modificações estruturais significativas nos motores existentes, fator considerado crucial para acelerar a adoção dessas tecnologias em larga escala.
Para Mercadante, esse aspecto possui relevância estratégica porque reduz custos de transição e permite que setores inteiros da economia iniciem processos de descarbonização sem depender da substituição imediata de equipamentos e infraestruturas.
Ao conectar esse debate ao ambiente marítimo, o presidente do BNDES destacou que o futuro da Economia Azul passa necessariamente pela construção de uma logística mais limpa e eficiente. Portos, navios, cadeias de suprimentos e corredores de exportação deverão adaptar-se a padrões ambientais cada vez mais rigorosos, criando oportunidades para países capazes de oferecer soluções energéticas sustentáveis.
Nesse contexto, o Brasil reúne vantagens competitivas difíceis de replicar em outras regiões do mundo. Além de sua matriz energética renovável, o país dispõe de vastas áreas agrícolas, grande disponibilidade hídrica, capacidade industrial instalada e uma das maiores biodiversidades do planeta, fatores que ampliam seu potencial para liderar a produção de biocombustíveis avançados.
Mercadante também destacou iniciativas relacionadas ao etanol de milho, ao biodiesel e ao desenvolvimento de novos combustíveis derivados de matérias-primas renováveis, apontando que essas tecnologias poderão desempenhar papel central tanto na aviação quanto na navegação comercial nas próximas décadas.
Em sua avaliação, a transição energética representa uma oportunidade histórica para o Brasil ampliar sua relevância econômica e geopolítica.
Mais do que reduzir emissões, trata-se de criar novas cadeias industriais, ampliar exportações, atrair investimentos e consolidar uma posição de liderança em setores estratégicos para a economia do futuro.
A mensagem transmitida durante o evento foi clara: a Amazônia Azul não será apenas um espaço de exploração de recursos naturais ou de circulação de mercadorias. Ela também poderá se tornar um dos pilares da transição energética global, conectando produção de energia limpa, inovação tecnológica, logística sustentável e desenvolvimento econômico. Nesse cenário, o Brasil possui condições de transformar sua vocação marítima e energética em uma vantagem estratégica capaz de projetar o país para uma posição de protagonismo na economia mundial de baixo carbono.
Ciência, pesquisa oceanográfica e soberania informacional do oceano
Outro tema que permeou as apresentações realizadas a bordo da Fragata Tamandaré foi a relação direta entre ciência, conhecimento e soberania marítima. Mais do que uma agenda ambiental ou acadêmica, o desenvolvimento da capacidade científica nacional foi apresentado como um dos pilares da estratégia brasileira para a Amazônia Azul.
Ao longo de sua exposição, Aloizio Mercadante destacou que a capacidade de conhecer o oceano é condição indispensável para planejar sua ocupação, proteger seus recursos, identificar oportunidades econômicas e exercer plenamente a soberania nacional sobre uma das maiores áreas marítimas do planeta.
Nesse contexto, o presidente do BNDES ressaltou que o Planejamento Espacial Marinho, um dos principais eixos do BNDES Azul, depende diretamente da produção contínua de conhecimento científico sobre o ambiente oceânico. Segundo ele, a elaboração do chamado “Plano Diretor do Oceano Brasileiro” exige informações precisas sobre biodiversidade, correntes marítimas, recursos minerais, potencial energético, atividades econômicas, sensibilidade ambiental e características geológicas da plataforma continental.
A produção dessas informações, entretanto, não ocorre de forma espontânea. Ela depende de uma infraestrutura científica robusta, de instituições capacitadas e de meios especializados capazes de operar em áreas remotas do Atlântico Sul.
Foi nesse contexto que Mercadante relembrou a obtenção do Navio de Pesquisa Hidroceanográfico Vital de Oliveira, apontado por ele como um dos maiores exemplos da importância dos investimentos estratégicos em ciência aplicada ao ambiente marítimo.
Ao recordar o processo que levou à construção da embarcação, o presidente do BNDES destacou que a iniciativa nasceu das discussões relacionadas à ampliação da plataforma continental brasileira e à necessidade de produzir conhecimento científico próprio sobre o oceano.
Segundo Mercadante, em um primeiro momento foram discutidas diferentes alternativas para apoiar os estudos necessários à consolidação dos interesses brasileiros no mar, inclusive o uso de plataformas como forma de garantir presença nos limites de nossas águas. A solução escolhida foi a construção de um navio de pesquisa de alto desempenho, capaz de gerar conhecimento científico permanente para o país.
“Nós precisamos de um navio porque o navio vai produzir muito mais conhecimento, muito mais pesquisa e vai ter muito mais utilidade.”
O projeto reuniu esforços de diferentes instituições nacionais, incluindo a Marinha do Brasil, Petrobras, Agência Nacional do Petróleo (ANP), Vale e outros parceiros, resultando em uma das mais avançadas plataformas de pesquisa oceanográfica da América Latina.
Mercadante destacou que o Vital de Oliveira continua desempenhando papel fundamental na produção de conhecimento sobre os oceanos brasileiros, inclusive apoiando atividades relacionadas ao Planejamento Espacial Marinho atualmente em desenvolvimento.
A referência ao navio não foi casual. Ela simboliza uma visão mais ampla apresentada ao longo do evento: a de que a soberania marítima não depende apenas de navios de guerra, sistemas de monitoramento ou presença militar, mas também da capacidade nacional de produzir conhecimento sobre seu próprio território marítimo.
Essa perspectiva foi reforçada pela participação de representantes da comunidade científica, entre eles o professor Alexander Turra, titular da Cátedra UNESCO para Sustentabilidade dos Oceanos, que destacou a crescente compreensão do oceano como elemento central para a saúde, a economia, a segurança alimentar, a estabilidade climática e o bem-estar das sociedades.
A convergência entre ciência, defesa e desenvolvimento também aparece de forma clara na atuação da Marinha do Brasil. Ao longo de décadas, a Força Naval consolidou capacidades únicas nas áreas de hidrografia, cartografia náutica, meteorologia, oceanografia e monitoramento ambiental, constituindo uma das principais produtoras de conhecimento sobre o ambiente marítimo brasileiro.
Não por acaso, Mercadante definiu a Marinha como o “coração dessa estratégia”, ressaltando que grande parte das iniciativas do BNDES Azul somente se torna viável graças à infraestrutura, ao conhecimento acumulado e à capacidade operacional desenvolvida pela instituição ao longo de sua história.
Além do Planejamento Espacial Marinho, diversos projetos apoiados pelo BNDES Azul estão diretamente relacionados à produção de conhecimento científico. Iniciativas voltadas à conservação dos recifes de coral, à recuperação dos manguezais, à proteção das ilhas oceânicas e ao monitoramento dos ecossistemas costeiros dependem de pesquisas contínuas para orientar políticas públicas e garantir resultados efetivos.
Sob essa perspectiva, a ciência passa a desempenhar uma função estratégica comparável à de outras capacidades nacionais consideradas essenciais à soberania. Conhecer o oceano significa identificar riquezas, compreender vulnerabilidades, planejar atividades econômicas, proteger recursos naturais e antecipar desafios futuros.
Uma visão estratégica da Amazônia Azul para o século XXI
O evento foi encerrado com a entrega da Medalha do Mérito Naval ao presidente do BNDES, Aloizio Mercadante, pelo Chefe do Estado-Maior da Armada, Almirante de Esquadra Carlos Henrique de Lima Bettega, gesto que simbolizou não apenas o reconhecimento da contribuição do banco para projetos ligados ao ambiente marítimo, mas também a consolidação de uma parceria institucional cada vez mais relevante entre desenvolvimento econômico, ciência, indústria e defesa nacional.
Mais do que a apresentação dos resultados do BNDES Azul, o encontro realizado a bordo da Fragata Tamandaré permitiu compreender como diferentes agendas estratégicas do Estado brasileiro estão gradualmente convergindo para uma visão integrada sobre o mar e seu papel no futuro do país.
As intervenções do Almirante de Esquadra Silvio Luiz dos Santos e de Aloizio Mercadante revelaram uma compreensão comum de que a Amazônia Azul não pode mais ser analisada apenas sob a ótica dos recursos naturais ou da exploração econômica. Ela representa um espaço estratégico onde se encontram soberania, segurança, energia, ciência, infraestrutura crítica, comércio internacional e desenvolvimento tecnológico.
Ao longo do evento ficou evidente que a proteção desse patrimônio marítimo exige muito mais do que presença naval. Exige conhecimento científico, capacidade industrial, infraestrutura logística, monitoramento permanente, planejamento de longo prazo e instituições capazes de atuar de forma coordenada.
Nesse contexto, a Fragata Tamandaré acabou assumindo um simbolismo especial. O navio não serviu apenas como palco para o evento. Sua presença sintetizou boa parte dos temas debatidos ao longo da cerimônia. Resultado de uma política de conteúdo local, transferência de tecnologia e fortalecimento da Base Industrial de Defesa, a embarcação representa a materialização da ideia defendida por Mercadante de que investimentos estratégicos geram efeitos que ultrapassam os limites do setor militar, produzindo conhecimento, empregos qualificados, inovação e capacidade industrial.
Da mesma forma, as referências feitas ao Planejamento Espacial Marinho, ao Navio de Pesquisa Hidroceanográfico Vital de Oliveira, à proteção das ilhas oceânicas, à conservação dos corais, ao monitoramento dos ecossistemas costeiros e à transição energética demonstram que o Brasil começa a estruturar uma abordagem mais abrangente para o ambiente marítimo, alinhada às tendências observadas nas principais potências marítimas do mundo.
Outro aspecto que emergiu com clareza foi a crescente interdependência entre segurança e desenvolvimento. As referências ao combate aos ilícitos transnacionais, ao tráfico internacional de drogas, à proteção das rotas marítimas, das infraestruturas portuárias e dos recursos naturais reforçam a percepção de que a prosperidade associada à Economia Azul depende diretamente da capacidade do Estado de exercer autoridade efetiva sobre suas águas jurisdicionais.
Nesse sentido, as falas apresentadas durante o evento apontam para uma visão na qual defesa e desenvolvimento deixam de ser temas paralelos e passam a ser entendidos como dimensões complementares de uma mesma estratégia nacional. A capacidade de proteger o mar está diretamente ligada à capacidade de utilizá-lo de forma sustentável. Da mesma forma, a exploração econômica dos recursos marítimos fortalece as condições necessárias para sustentar a presença do Estado e ampliar sua capacidade de defesa.
O encontro também evidenciou uma compreensão crescente sobre o papel da Base Industrial de Defesa como instrumento de desenvolvimento econômico e tecnológico. Ao defender a continuidade dos programas estratégicos, a ampliação do conteúdo nacional e a expansão das exportações de produtos de defesa, Mercadante apresentou uma visão que aproxima o Brasil das experiências adotadas por países que utilizam suas capacidades industriais e tecnológicas como instrumentos permanentes de projeção de poder e geração de riqueza.
Sob essa perspectiva, a Amazônia Azul emerge não apenas como uma vasta área marítima sob jurisdição brasileira, mas como um dos principais ativos estratégicos do país para o século XXI. Um espaço onde convergem os desafios da segurança energética, da proteção ambiental, da transição para uma economia de baixo carbono, da exploração sustentável de recursos naturais, da inovação tecnológica e da afirmação da soberania nacional.
A principal mensagem deixada pelo evento talvez seja justamente essa: o futuro marítimo do Brasil dependerá cada vez mais da capacidade de integrar políticas de defesa, ciência, indústria, infraestrutura e desenvolvimento em torno de uma visão comum de longo prazo. E, nesse processo, a parceria entre Marinha do Brasil e BNDES surge como um dos pilares mais relevantes da construção dessa estratégia nacional para a Amazônia Azul.
Por Angelo Nicolaci
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