sábado, 17 de outubro de 2026

Arandú 2026 termina com 2,8 mil militares e 600 viaturas de Brasil e Argentina

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Exercício encerrou ciclo de preparação iniciado em 2024 e reuniu blindados, tiro real, operações aeromóveis, forças especiais e engenharia; comandantes destacaram a integração em diferentes escalões e a necessidade de ampliar a interoperabilidade.

Os Exércitos do Brasil e da Argentina concluíram em 16 de outubro o Exercício Combinado Arandú 2026, após uma semana de atividades militares no Rio Grande do Sul. A operação mobilizou aproximadamente 2,8 mil militares, incluindo cerca de 400 argentinos, e mais de 600 viaturas blindadas e operacionais, em ações concentradas no Campo de Instrução Barão de São Borja (CIBSB), em Rosário do Sul, com atividades também em Santa Maria e Faxinal do Soturno.

O exercício marcou o encerramento do ciclo de preparação 2024–2026 e reuniu diferentes capacidades terrestres e aéreas dos dois países. A programação incluiu tiro real com blindados, simulação de engajamento tático, operações aeromóveis, ações de forças especializadas e transposição de curso d’água com meios de engenharia.

Ao avaliar os resultados, o comandante de Operações Terrestres do Exército Brasileiro (COTER), General de Exército Kleber Nunes de Vasconcellos, destacou o aprofundamento da integração bilateral e a realização de experimentações em diferentes escalões da força.

“A integração com o Exército Argentino já é de muito tempo. Ultimamente, temos procurado melhorar essa integração. Foi muito interessante porque algumas experimentações estão sendo feitas nesse exercício. Inclusive, fazendo com que o exercício combinado ocorra em vários escalões da força, e isso é muito bom, porque além da cooperação mútua e da integração, nos aproxima ainda mais, e isso é fundamental para ambos os países”, afirmou.

O comandante Militar do Sul (CMS), General de Exército Luís Cláudio de Mattos Basto, também ressaltou a importância do intercâmbio profissional e dos vínculos históricos entre as duas instituições militares.

“É uma honra podermos estar aqui convivendo, integrando conhecimentos, fortalecendo nossos laços de amizade. Mais do que a parte operacional, a parte anímica é muito forte nesse exercício. São dois exércitos que há muito tempo estão juntos, têm os mesmos valores, tradições muito parecidas. Sempre compartilhando doutrina, conhecimento. Interoperabilidade, essa é a palavra”, declarou.

Pelo lado argentino, o comandante da Força de Desdobramento Rápido do Exército Argentino, general de brigada Ricardo Fresta, defendeu a continuidade dos exercícios como instrumento para complementar capacidades e aprimorar a preparação conjunta.

“Estamos felizes de estar aqui, muito motivados e achamos que temos que continuar os exercícios nessa mesma direção para complementar as capacidades e aumentar a interoperabilidade. Isso nos dá a capacidade de saber que, se algum dia tivermos que fazer uma operação combinada, ambos os exércitos conhecem os procedimentos, as táticas, técnicas e podem ter eficiência operacional no campo de combate, isso para nós é o mais importante”, afirmou.

As declarações convergem em dois pontos centrais do Arandú 2026: aprofundar a integração operacional entre as forças e manter a continuidade do treinamento conjunto. A referência à realização de atividades em diferentes escalões também evidencia que a interoperabilidade pretendida não se limita às tropas no terreno, mas envolve os processos de planejamento, comando e coordenação necessários para uma eventual operação combinada.

Blindados e tiro real: emprego de diferentes capacidades

O emprego de blindados foi um dos principais componentes do Arandú 2026. O Brasil participou com carros de combate Leopard 1A5 BR, VBTP Guarani e VBC-Cav Centauro II. A Argentina empregou carros de combate TAM 2C-A2 e viaturas blindadas Stryker.

A presença dessas plataformas permitiu exercitar a coordenação entre meios com características distintas de mobilidade, proteção, armamento e emprego tático. Embora possam desempenhar funções complementares, os equipamentos possuem configurações e procedimentos próprios, o que torna necessário preparar as unidades para atuar de maneira coordenada.

As atividades de tiro real incluíram metralhadoras de 12,7 mm instaladas nas viaturas Guarani e Stryker, canhões de 105 mm dos carros de combate Leopard 1A5 BR e TAM 2C-A2 e o canhão de 120 mm do Centauro II BR. O sistema de artilharia de foguetes ASTROS também participou das atividades de fogo real.

O emprego desses armamentos exigiu planejamento dos setores de tiro, coordenação entre as unidades e observância das medidas de segurança. Em um exercício combinado, a execução das atividades precisa considerar tanto as características de cada plataforma quanto sua função no conjunto da manobra.

A diversidade dos meios também oferece uma oportunidade para examinar como diferentes sistemas podem ser empregados no mesmo cenário tático. Isso não significa que as plataformas sejam diretamente intercambiáveis, mas que suas capacidades podem ser coordenadas conforme a missão, o planejamento e as responsabilidades atribuídas a cada unidade.

DSET e simulação viva

Uma das dimensões relevantes do Arandú 2026 foi a simulação viva, etapa em que os militares atuam fisicamente no terreno e utilizam procedimentos operacionais reais, mas com recursos de simulação para representar os efeitos dos engajamentos.

Segundo as informações divulgadas na cobertura do encerramento, o sistema de Dispositivos de Simulação e Engajamento Tático (DSET) emprega emissores e receptores a laser para reproduzir a trajetória dos disparos simulados. Sensores instalados nos equipamentos e coletes dos militares permitem registrar informações sobre alcance e impacto, incluindo os veículos participantes.

Esse recurso acrescenta uma dimensão de avaliação ao treinamento. Em vez de depender apenas da observação dos instrutores, o exercício pode utilizar os registros dos dispositivos para acompanhar determinados resultados dos engajamentos simulados.

É importante distinguir essa atividade do tiro real realizado no polígono de tiro. Enquanto o DSET permite simular e avaliar engajamentos durante a movimentação das tropas, o tiro real verifica a execução das atividades de fogo com os armamentos e as munições empregados na instrução. São modalidades distintas e complementares dentro da preparação militar.

A combinação de simulação viva e tiro real permite treinar diferentes aspectos do emprego da força: a tomada de decisões e a coordenação tática, de um lado, e a execução dos procedimentos de tiro, de outro.

Operações aeromóveis, forças especiais e engenharia

O Arandú 2026 também envolveu incursões aeromóveis, infiltrações de precursores paraquedistas e o emprego de uma força-tarefa de operações especiais, com participação de aeronaves brasileiras e argentinas.

Entre os meios empregados estavam o KC-390 Millennium, da Força Aérea Brasileira, e a aeronave C-212 argentina. A participação de aeronaves de diferentes países exigiu coordenação entre os meios aéreos e as tropas envolvidas, especialmente nas atividades de transporte e inserção de elementos no terreno.

As operações aeromóveis e as ações de forças especiais possuem exigências próprias de planejamento, tempo e coordenação. Sua integração com as forças terrestres depende da definição dos objetivos, da sincronização dos movimentos e da capacidade de compartilhar informações relevantes para a execução das missões.

A engenharia militar também participou com a transposição de curso d’água por meio de portadas. Esses equipamentos permitem estabelecer passagens para tropas e viaturas quando um obstáculo aquático interrompe ou restringe a progressão terrestre.

A atividade evidencia uma dimensão frequentemente menos visível dos exercícios militares: a necessidade de manter a mobilidade da força. Mesmo quando as unidades de combate dispõem de meios adequados, a impossibilidade de transpor um obstáculo pode interromper o avanço e afetar o cumprimento da missão.

A engenharia precisa, portanto, atuar em coordenação com as unidades apoiadas, considerando as características do terreno, os meios disponíveis e o fluxo de pessoal e equipamentos. A integração dessa capacidade com blindados, infantaria e logística é essencial para sustentar a progressão das tropas.

Do planejamento à simulação viva: três anos de preparação conjunta

O Arandú 2026 encerrou um ciclo de preparação iniciado em 2024, estruturado em três etapas complementares: planejamento, simulação construtiva e simulação viva. A progressão culminou no emprego de tropas e equipamentos no terreno, permitindo exercitar procedimentos operacionais e a coordenação entre unidades dos Exércitos do Brasil e da Argentina.

Em 2025, a preparação avançou com o uso do sistema COMBATER, empregado na simulação construtiva para desenvolver cenários, avaliar decisões e exercitar os processos de comando. A etapa final envolveu atividades em Santa Maria e Rosário do Sul, com participação de Estados-Maiores e unidades operacionais, integrando o planejamento à execução prática.

A simulação construtiva concentra-se nas decisões dos comandantes e dos Estados-Maiores em um ambiente virtual. Por meio de cenários simulados, é possível avaliar planos, analisar alternativas e acompanhar as consequências das decisões sem mobilizar todos os meios no terreno. Essa fase permite exercitar o comando e o controle, além de identificar ajustes necessários antes da execução prática.

Na simulação viva, o treinamento passa para o ambiente real. Tropas e viaturas se deslocam no terreno, executam procedimentos táticos e empregam dispositivos específicos para simular os efeitos de engajamentos. A atividade permite avaliar a execução das ações, a coordenação entre as unidades e a resposta às condições concretas de mobilidade, comunicação e emprego dos meios, sem configurar uma situação de combate real.

A combinação dessas etapas conecta o trabalho dos Estados-Maiores à atuação das tropas. O planejamento estabelece os objetivos e organiza as ações; a simulação construtiva permite exercitar as decisões; e a simulação viva coloca os procedimentos à prova no terreno. Em um exercício combinado, essa sequência também permite identificar dificuldades de coordenação entre forças que possuem estruturas, equipamentos e doutrinas próprias.

O encerramento do ciclo representa, assim, mais do que a conclusão de uma atividade de campo. O principal resultado a preservar é a experiência acumulada ao longo das três etapas, que poderá orientar a revisão de procedimentos e o planejamento de futuras edições. A continuidade desse processo será determinante para transformar o treinamento conjunto em maior capacidade de coordenação operacional entre os dois Exércitos.

Interoperabilidade em diferentes escalões

A realização de atividades combinadas em diferentes escalões foi um dos aspectos destacados pelo general Kleber Nunes de Vasconcellos no encerramento do Arandú 2026. A abordagem amplia o alcance do treinamento ao integrar o trabalho dos Estados-Maiores à execução das ações pelas unidades no terreno, aproximando planejamento, comando e emprego operacional.

Essa integração é fundamental para que forças de países diferentes consigam coordenar decisões, sincronizar movimentos e executar procedimentos compatíveis. Não basta que as unidades conheçam as capacidades umas das outras: é necessário que comandantes e Estados-Maiores consigam planejar e conduzir ações conjuntas, respeitando as particularidades doutrinárias e técnicas de cada Exército.

O general argentino Ricardo Fresta defendeu a continuidade dos exercícios como forma de complementar capacidades e ampliar a interoperabilidade. O objetivo é construir familiaridade com os procedimentos e as formas de atuação de ambas as forças, reduzindo dificuldades de coordenação caso seja necessário conduzir uma operação combinada.

 

O Arandú oferece condições para exercitar essa integração e identificar limitações em comunicações, comando e controle, planejamento e apoio logístico. Entretanto, os resultados não decorrem apenas da realização do exercício: dependem da continuidade do treinamento e da incorporação das lições identificadas à preparação das unidades e ao planejamento de futuras edições.

Logística e movimentação transfronteiriça

Mobilizar aproximadamente 2,8 mil militares e mais de 600 viaturas para o Arandú 2026 exigiu um esforço logístico que começou muito antes da chegada das tropas ao Rio Grande do Sul. Um dos exemplos mais expressivos foi o deslocamento do Sistema ASTROS, do Exército Brasileiro. Os meios do 6º Grupo de Mísseis e Foguetes (6º GMF) percorreram cerca de 2.800 quilômetros por rodovias, de Formosa (GO) até a região do exercício, em uma marcha de seis dias.

A operação foi além do transporte dos lançadores. O Centro de Logística de Mísseis e Foguetes também atuou no apoio ao deslocamento, com transporte de munições e suprimentos e abastecimento de combustível ao longo do itinerário. O comboio percorreu a distância sem depender de paradas em postos comerciais para reabastecimento, demonstrando a importância de levar o suporte necessário junto com os meios de combate.

Em uma marcha dessa extensão, cada imprevisto pode afetar o ritmo do deslocamento. Pane mecânica, condições meteorológicas, congestionamentos e alterações nas condições da estrada exigem capacidade de adaptação e coordenação para preservar a segurança do pessoal e dos equipamentos. O desafio é conhecido pelo editor do GBN Defense, Angelo Nicolaci, que durante a cobertura de atividades do Corpo de Fuzileiros Navais da Marinha do Brasil, participou de quatro grupamentos de marcha entre o Rio de Janeiro e Formosa, além de diversos deslocamentos entre o Rio de Janeiro, Furnas (MG) e Itaóca (ES).

Nessas jornadas, acompanhou situações como panes mecânicas, exposição ao frio e ao calor e congestionamentos provocados por acidentes envolvendo veículos alheios aos grupamentos. A experiência permite compreender, na prática, que uma marcha militar não se resume a percorrer determinada distância dentro de um prazo: é preciso manter a progressão, responder às adversidades e preservar as condições para que o pessoal e os meios cheguem ao destino com segurança.

No caso do ASTROS, essa preocupação ganha uma dimensão adicional. O deslocamento de um sistema de artilharia de mísseis e foguetes envolve não apenas os lançadores, mas também veículos de apoio, munições, equipamentos auxiliares e recursos para manter o conjunto em condições de emprego. A capacidade operacional depende da integração desses elementos, tanto durante o trajeto quanto na preparação para as atividades no terreno.

 

A mobilização também envolveu a Aviação do Exército. Três helicópteros do CAvEx partiram de Taubaté (SP) rumo a Santa Maria (RS): um HM-4 Jaguar do 2º Batalhão de Aviação do Exército, e dois HA-1A Fennec do 1º BAvEx. O deslocamento previa escalas técnicas e pernoites para reabastecimento e descanso das tripulações, mas as condições meteorológicas alteraram o planejamento. Em 8 de outubro, chuva e nuvens baixas levaram os pilotos a realizar um pouso preventivo não programado em Criciúma (SC), onde as aeronaves aguardaram condições mais favoráveis para prosseguir. O episódio ilustra como a meteorologia pode interferir na movimentação de meios aéreos e exigir decisões operacionais para preservar a segurança das tripulações e das aeronaves.

Enquanto o Exército Brasileiro projetava seus meios por milhares de quilômetros dentro do próprio território, a participação argentina exigia outro tipo de coordenação: a movimentação internacional de militares e equipamentos. O ingresso temporário das forças argentinas foi autorizado pelo Decreto nº 13.132, de 6 de outubro de 2026, que contemplou militares, aeronaves, veículos, armamentos, munições, sensores e equipamentos de comando, controle e comunicações.

 

A travessia da fronteira também exigiu a atuação de órgãos civis. Em 12 de outubro, a Comissão Nacional de Regulação do Transporte (CNRT) da Argentina informou ter realizado uma operação de fiscalização em Paso de los Libres, em conjunto com a Agência de Arrecadação e Controle Aduaneiro (ARCA) e a Direção-Geral de Aduanas. A ação estava relacionada ao deslocamento de veículos e meios do Exército Argentino para o exercício no Brasil.

São etapas diferentes de um mesmo desafio. De um lado, transportar e sustentar os meios brasileiros até a área de emprego; de outro, organizar a entrada dos contingentes argentinos e de seus equipamentos em território nacional. Em ambos os casos, a preparação logística e administrativa foi essencial para reunir as forças e viabilizar as atividades previstas.

O trabalho, porém, não termina quando as viaturas chegam ao destino. Durante o exercício, abastecimento, manutenção e distribuição de suprimentos precisam acompanhar as necessidades das unidades, preservando a disponibilidade dos meios. No caso de sistemas complexos como o ASTROS, os lançadores são apenas parte de uma estrutura que inclui os recursos necessários para seu emprego.

O Arandú 2026 mostra, assim, que a capacidade de realizar um exercício combinado começa muito antes do primeiro movimento tático no terreno. Ela depende de transportar os meios, superar as distâncias, coordenar os procedimentos entre os dois países e manter as unidades em condições de operar. Sem essa base logística, a integração planejada entre os Exércitos não se traduz em treinamento efetivo.

Base normativa e cooperação bilateral

O Arandú 2026 foi amparado por instrumentos normativos dos dois países, que autorizaram a participação das forças militares e estabeleceram os objetivos da atividade. No Brasil, o Decreto nº 13.132, de 6 de outubro de 2026, autorizou o ingresso e a permanência temporária de forças argentinas em território nacional entre os dias 10 e 17 de outubro. Na Argentina, o Decreto de Necessidade e Urgência (DNU) nº 1.157/2026, sancionado em 8 de outubro e publicado no dia seguinte, autorizou a saída de pessoal e meios militares para a participação no exercício.

Mais do que formalizar a movimentação das tropas, os documentos permitem compreender a finalidade atribuída ao treinamento. A norma argentina destaca o fortalecimento dos laços de cooperação e confiança entre os dois Exércitos, com foco na integração regional e no desenvolvimento da interoperabilidade entre forças com características operacionais distintas.

O texto também prevê o aperfeiçoamento de procedimentos e técnicas operacionais em áreas como operações aerotransportadas, aeromóveis, especiais e blindadas, além da aviação militar. A abrangência desses campos reflete a intenção de ampliar a familiaridade entre as forças, permitindo que compartilhem conhecimentos e exercitem formas de coordenação em diferentes tipos de operação.

Essa dimensão institucional é importante porque a interoperabilidade não se constrói apenas durante os dias de exercício. Ela depende de planejamento conjunto, continuidade do intercâmbio e oportunidades recorrentes para identificar diferenças doutrinárias, ajustar procedimentos e ampliar o conhecimento mútuo.

O Arandú 2026 integra esse esforço bilateral. Sua relevância não está somente na reunião de tropas e equipamentos, mas na possibilidade de transformar a cooperação política entre Brasil e Argentina em experiência operacional concreta. A continuidade das atividades será decisiva para consolidar o aprendizado e ampliar a capacidade de coordenação entre os dois Exércitos.

Análise: Arandú 2026 e o desafio de consolidar a integração militar no Cone Sul

O Arandú 2026 encerrou um ciclo de preparação que reuniu planejamento, simulação construtiva e treinamento no terreno. A mobilização de aproximadamente 2,8 mil militares e mais de 600 viaturas demonstra a dimensão do exercício, mas sua relevância estratégica deve ser avaliada pela capacidade de transformar essa experiência em interoperabilidade efetiva e duradoura entre os Exércitos do Brasil e da Argentina.

Do ponto de vista militar, o desafio vai além da atuação simultânea de unidades de diferentes países. Envolve compatibilizar procedimentos de comando e controle, comunicações, planejamento operacional, emprego de diferentes sistemas de armas e apoio logístico. Também exige que os Estados-Maiores compreendam as capacidades e limitações de cada força e consigam coordenar decisões que se traduzam em ações sincronizadas no terreno. A interoperabilidade não pressupõe equipamentos ou doutrinas idênticos, mas a capacidade de operar em conjunto apesar das diferenças.

Essa dimensão ganha importância quando observada no contexto estratégico do Cone Sul. Brasil e Argentina são atores centrais da região e mantêm uma relação bilateral cuja estabilidade tem implicações para a segurança regional. A cooperação militar contribui para a construção de confiança, amplia o conhecimento mútuo e cria canais de coordenação que podem ser relevantes diante de contingências que exijam atuação conjunta, desde que existam decisões políticas e mandatos específicos para isso.

O MERCOSUL constitui parte importante do contexto mais amplo de aproximação regional, embora seja um bloco de integração econômica e política, não uma aliança militar. Portanto, não se deve confundir a cooperação desenvolvida no Arandú com um mecanismo de defesa do bloco. Sua relevância está em contribuir, no campo militar, para um ambiente regional de diálogo e confiança, coerente com a importância da estabilidade e da cooperação entre os países do Cone Sul.

Para que essa aproximação produza resultados operacionais consistentes, a continuidade é decisiva. Exercícios recorrentes permitem elevar progressivamente a complexidade do treinamento, testar procedimentos em diferentes escalões, identificar incompatibilidades e incorporar as lições aprendidas ao preparo das unidades. A dimensão logística também precisa fazer parte dessa evolução: transportar meios a grandes distâncias, cruzar fronteiras e sustentar contingentes em uma área de operações são capacidades que precisam ser planejadas e exercitadas, não presumidas.

O desafio para os dois países é estabelecer uma sequência de atividades que preserve o conhecimento acumulado e permita avançar além da familiarização entre tropas. Isso requer avaliação dos resultados, correção de deficiências e continuidade do intercâmbio entre Estados-Maiores e unidades operacionais. Sem esse processo, cada edição corre o risco de produzir ganhos pontuais, sem consolidar procedimentos comuns ao longo do tempo.

O Arandú 2026 reforça, assim, o valor da cooperação militar bilateral para a integração regional, mas também evidencia o trabalho necessário para convertê-la em capacidade concreta. No Cone Sul, confiança política e aproximação institucional são importantes; interoperabilidade militar, porém, exige planejamento, treinamento recorrente e sustentação. O exercício terminou, mas o resultado estratégico dependerá da capacidade do Brasil e da Argentina de transformar essa experiência em preparo conjunto permanente.


por Angelo Nicolaci


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Bolsa Família, Plano Real e expansão do Estado: a história que o PT não conta por inteiro

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A narrativa de que o Partido dos Trabalhadores criou o Bolsa Família e por meio dele retirou o Brasil da fome, simplifica a história das políticas sociais brasileiras e omite decisões econômicas fundamentais tomadas antes da chegada de Lula ao poder em 2002. O programa que se tornou uma das principais marcas políticas do PT foi construído a partir de iniciativas anteriores, enquanto a estabilidade econômica que favoreceu os primeiros governos Lula resultou de um processo iniciado durante a gestão de Itamar Franco e consolidado por Fernando Henrique Cardoso.

A análise desse legado exige olhar para além da propaganda partidária. É preciso examinar quem estabeleceu as bases dos programas sociais, quais condições econômicas permitiram sua expansão, como evoluíram as despesas públicas e qual foi o custo das escolhas administrativas e fiscais de cada governo.

O Bolsa Família não nasceu do zero

O combate à pobreza e à fome já fazia parte da agenda pública brasileira antes de 2003. Durante o governo Itamar Franco, a segurança alimentar ganhou espaço institucional, inclusive com a criação do Conselho Nacional de Segurança Alimentar (Consea), em 1993. Foi, porém, durante o governo Fernando Henrique Cardoso que se consolidou a principal base federal de programas de transferência de renda posteriormente reunidos sob o nome Bolsa Família.

Em 2001, FHC instituiu o Bolsa Escola federal, o Bolsa Alimentação e o Cadastro Único. Em 2002, criou o Auxílio-Gás. Esses instrumentos estabeleceram mecanismos de transferência de recursos e identificação de famílias vulneráveis que já permitiam ao Estado atuar diretamente sobre a pobreza.

A Lei nº 10.836, de 9 de janeiro de 2004, é explícita ao estabelecer a unificação de programas anteriores no Bolsa Família. A legislação não sustenta a narrativa de uma política criada integralmente do zero: registra a incorporação de iniciativas que já existiam. A principal contribuição do primeiro governo Lula nessa etapa foi reuni-las sob uma estrutura integrada e uma identidade nacional.

Isso não torna irrelevante a criação formal do Bolsa Família, mas impede que ela seja confundida com a origem de toda a política federal de transferência de renda. O PT transformou o programa em uma marca política de grande alcance, mas não criou sozinho os instrumentos que lhe deram origem.

Também é historicamente impreciso atribuir exclusivamente ao Bolsa Família a retirada do Brasil do Mapa da Fome. A transferência de renda contribui para o acesso aos alimentos, mas a segurança alimentar depende igualmente de emprego, salários, preços, produção agrícola, abastecimento e outras políticas públicas. Reduzir esse processo à ação de um único partido substitui a análise por uma narrativa de propaganda.

Plano Real: a estabilidade que antecedeu o PT

A mesma simplificação aparece na história econômica. Em 1993, durante o governo Itamar Franco, começou a implantação do Plano Real, conduzido por uma equipe econômica liderada por Fernando Henrique Cardoso, então ministro da Fazenda. A nova moeda entrou em circulação em julho de 1994 e interrompeu um ciclo de hiperinflação que corroía salários, desorganizava preços e atingia sobretudo a população de menor renda.

O governo FHC deu continuidade à estabilização e, após a crise cambial de 1999, consolidou pilares da política macroeconômica brasileira: câmbio flutuante, metas de inflação e compromisso com resultados fiscais. A Lei de Responsabilidade Fiscal, aprovada em 2000, acrescentou regras para o controle das contas públicas e a gestão dos recursos governamentais.

Esse modelo não resolveu todos os problemas do país. O período FHC também foi marcado por baixo crescimento em determinados anos, crises externas, desemprego e aumento da dívida pública. Ainda assim, a estabilização monetária representou uma mudança estrutural: empresas e famílias passaram a operar em um ambiente muito diferente daquele em que os preços mudavam de forma descontrolada.

Lula recebeu essa estrutura em 2003 e manteve inicialmente seus principais pilares. Seus primeiros governos também foram favorecidos por um cenário internacional positivo, com expansão do comércio mundial e valorização de commodities importantes para as exportações brasileiras. O crescimento, a geração de empregos e a ampliação do consumo decorreram de uma combinação de condições herdadas, decisões internas e fatores externos.

Atribuir esses resultados exclusivamente ao PT desconsidera essa continuidade. Da mesma forma, atribuir todos os problemas posteriores a um único governo seria uma simplificação equivalente. A avaliação séria exige identificar o que foi herdado, o que foi preservado e quais decisões alteraram a trajetória econômica.

O custo da expansão do Estado

A dimensão fiscal ajuda a compreender as diferenças entre os governos. Segundo a série histórica do Observatório de Política Fiscal do IBRE/FGV, as despesas primárias federais passaram de aproximadamente 17,8% do PIB em 2022 para 19,6% em 2023. O aumento ocorreu no início do terceiro governo Lula, no contexto da ampliação de despesas sociais e previdenciárias e de mudanças promovidas pela Emenda Constitucional da Transição.

A expansão do gasto público não começou em 2023. O envelhecimento da população, a previdência, os benefícios assistenciais e outras despesas obrigatórias pressionam o orçamento há décadas. A pandemia também provocou uma elevação extraordinária dos gastos em 2020, seguida de recuo nos anos posteriores. Por isso, comparar governos exige considerar a composição das despesas, o ciclo econômico e as medidas excepcionais de cada período.

A questão central é que o terceiro governo Lula voltou a elevar a participação das despesas federais no PIB e enfrenta dificuldades para estabilizar a trajetória da dívida. O arcabouço fiscal aprovado em 2023 estabeleceu novas regras para o crescimento das despesas, mas não eliminou o desequilíbrio entre compromissos permanentes, arrecadação e juros.

O Banco Central registrou aumento da dívida bruta do governo geral de 71,7% do PIB em 2022 para 73,8% em 2023, 76,1% em 2024 e aproximadamente 78,7% em 2025. Em 2026, a dívida continuou sob pressão. A Reuters informou em outubro que ela havia avançado mais de dez pontos percentuais do PIB durante o atual mandato, chegando a 82,9%, segundo a métrica citada na reportagem.

A dívida não cresce apenas por causa dos gastos primários. Juros, resultado nominal, crescimento econômico e operações financeiras também influenciam sua trajetória. Ainda assim, déficits persistentes e despesas rígidas dificultam a estabilização fiscal e reduzem a margem para investimentos públicos. Quanto maior a parcela do orçamento comprometida com obrigações e juros, menor a capacidade de responder a crises sem aumentar impostos, cortar despesas ou ampliar o endividamento.

O contraste com os governos anteriores precisa ser feito com a mesma métrica. O governo Temer aprovou o teto de gastos em 2016, numa tentativa de limitar a expansão real das despesas. Bolsonaro encerrou o mandato com gastos inferiores ao pico extraordinário da pandemia, embora tenha adotado medidas emergenciais e mudanças fiscais importantes, especialmente em 2022. Nenhum desses fatos, isoladamente, comprova equilíbrio estrutural; eles demonstram que as decisões fiscais variaram entre os governos e precisam ser avaliadas em seus respectivos contextos.

O problema do atual governo não é simplesmente gastar mais em políticas sociais. É assumir compromissos permanentes sem demonstrar, de maneira convincente, como serão financiados no longo prazo. A proteção social exige continuidade, mas também responsabilidade fiscal. Sem isso, o custo da política de hoje recai sobre o orçamento de amanhã.

Mais ministérios, mais cargos e maior custo administrativo

A expansão do Estado também se manifesta na organização do Poder Executivo. No início do governo Bolsonaro, a estrutura ministerial foi reduzida, chegando a 23 ministérios. Com a posse de Lula em janeiro de 2023, o número voltou a crescer: a organização divulgada pela equipe de transição previa 37 ministérios, diante das 23 pastas existentes no fim do governo anterior.

A criação ou divisão de ministérios não representa, por si só, desperdício. Áreas específicas podem exigir estruturas próprias, e a reorganização pode melhorar a coordenação de determinadas políticas. Mas a multiplicação de pastas amplia o número de gabinetes, postos de comando e espaços de negociação política. O governo precisa demonstrar que essa estrutura adicional produz resultados proporcionais ao custo administrativo.

A questão torna-se mais relevante quando a expansão ministerial é acompanhada pelo aumento de cargos comissionados. Levantamentos publicados pela imprensa a partir de dados do governo federal apontaram crescimento dessas posições durante os primeiros anos do terceiro mandato de Lula. Esses números precisam ser analisados com atenção às definições utilizadas, pois a criação de cargos, a ocupação de vagas existentes e a transformação de funções não representam necessariamente o mesmo impacto orçamentário.

Ainda assim, a diferença de orientação administrativa é evidente: Bolsonaro concentrou áreas em menos ministérios, enquanto Lula voltou a desmembrar estruturas e ampliar o número de pastas. A comparação não encerra o debate sobre eficiência, mas torna legítima a cobrança por transparência sobre a necessidade de cada órgão, os custos de funcionamento, as remunerações e os resultados entregues.

Uma máquina pública maior não é necessariamente uma máquina melhor. Se a expansão serve principalmente à distribuição de posições políticas, sem ganhos mensuráveis na prestação de serviços, o contribuinte paga por uma estrutura cujo benefício público não está demonstrado. O tamanho do Estado precisa ser justificado por resultados, não pelo número de aliados acomodados em sua estrutura.

Corrupção e responsabilidade na gestão pública

O legado dos governos petistas também precisa ser examinado à luz dos grandes escândalos de corrupção que marcaram o período, entre eles o Mensalão e os desvios investigados na Petrobras. Esses casos produziram consequências políticas e institucionais profundas, além de revelar vulnerabilidades nos mecanismos de controle de contratos e recursos públicos.

A análise, porém, exige rigor jurídico. É necessário distinguir condenações, acusações, provas e decisões posteriores. No caso de Lula, o Supremo Tribunal Federal anulou condenações da Lava Jato por questões de competência e reconheceu problemas processuais. Essas decisões não autorizam tratar todas as acusações como inocentado, nem dispensam o exame dos episódios documentados e das responsabilidades efetivamente estabelecidas, o fato é, Lula teve a condenação anulada, e não julgado como inocente.

O ponto essencial é que programas sociais não podem funcionar como escudo político contra a fiscalização. Resultados no combate à pobreza não eliminam a obrigação de prestar contas sobre contratos, despesas, nomeações e uso de recursos públicos. Da mesma forma, escândalos de corrupção não tornam automaticamente inválida toda política social executada pelo Estado.

O cidadão precisa poder reconhecer os benefícios de uma política sem ser levado a aceitar uma narrativa partidária que apaga erros, omite antecedentes ou transforma programas públicos em patrimônio eleitoral.

O reajuste de 2026 e o uso político dos benefícios

Em setembro de 2026, o governo anunciou reajuste de 15,04% no valor mínimo do Bolsa Família, de R$ 600 para R$ 691. A atualização foi anunciada em 17 de setembro, a 17 dias do primeiro turno, e os novos valores começaram a ser pagos em outubro, na semana anterior ao segundo turno. Foi a primeira atualização pela inflação desde a retomada do modelo em 2023.

O governo justificou a medida como recomposição do poder de compra diante da inflação acumulada. É um argumento legítimo: benefícios que perdem valor real reduzem sua capacidade de proteger as famílias. Mas a proximidade da eleição e o impacto orçamentário da decisão, estimado em R$ 5,8 bilhões em 2026 e mais de R$ 22 bilhões anuais em 2027 e 2028, segundo a cobertura da Folha de S.Paulo, tornam necessário questionar o calendário adotado.

A coincidência com o período eleitoral levanta questionamentos, e o governo precisa explicar por que a correção não foi realizada antes, de forma previsível, e como os custos permanentes serão absorvidos pelo orçamento. Benefícios sociais não deveriam depender da conveniência de um calendário eleitoral, sobretudo quando a preservação do poder de compra poderia ter sido tratada como parte de um planejamento regular.

O mesmo critério deve valer para qualquer governo. Em 2022, o governo Bolsonaro elevou o Auxílio Brasil em ano eleitoral, medida que também foi objeto de controvérsia jurídica. O princípio republicano exige que políticas de transferência de renda sejam planejadas com transparência e aplicadas segundo critérios públicos, sem que a proximidade das eleições se torne um incentivo para decisões extraordinárias.

O debate não é sobre retirar benefícios de famílias vulneráveis. É sobre impedir que uma política pública permanente seja utilizada como instrumento de construção de lealdade eleitoral, independentemente do partido no poder.

A história pertence ao Estado, não ao partido

A trajetória econômica e social do Brasil foi construída por diferentes governos, com avanços, erros e continuidades. Itamar Franco iniciou o processo que levou ao Plano Real; Fernando Henrique Cardoso consolidou a estabilização monetária e estruturou programas federais de transferência de renda que antecederam o Bolsa Família; Lula unificou essas iniciativas e transformou o programa em uma das principais marcas de seus governos. Temer buscou limitar o crescimento das despesas; Bolsonaro reduziu a estrutura ministerial e enfrentou o choque fiscal da pandemia; o terceiro governo Lula voltou a ampliar a estrutura administrativa e enfrenta o desafio de conter o crescimento da dívida.

Reconhecer essa sequência não significa absolver qualquer governo nem negar os resultados de políticas que beneficiaram a população. Significa recusar uma história seletiva, na qual as realizações são reivindicadas por um partido e os antecedentes, custos e responsabilidades desaparecem do debate público.

O Bolsa Família não nasceu do zero. A estabilidade que favoreceu os primeiros governos Lula não começou em 2003. E o crescimento do Estado precisa ser avaliado não apenas pelo número de programas anunciados, mas pela qualidade dos serviços, pela eficiência administrativa e pela sustentabilidade das contas públicas.

Políticas sociais são direitos da população, não propriedade de partidos. A estabilidade econômica é uma conquista institucional, não uma herança que pode ser apagada. E o dinheiro público exige responsabilidade, independentemente de quem governa. O eleitor merece a história inteira: quem construiu as bases, quem as modificou, quanto custaram as escolhas de cada governo e quais resultados efetivamente entregaram.


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Editorial - Quando o jornalismo se prostitui à política, o eleitor vira refém da propaganda

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A polarização brasileira chegou a um ponto em que parte do debate político deixou de ser uma disputa de propostas para se transformar em uma guerra de narrativas. Candidatos são atacados, acusações circulam sem provas e informações falsas são usadas para influenciar eleitores. Em vez de explicar como pretendem governar, muitos preferem explorar o medo do adversário. O problema se agrava quando profissionais da informação, que deveriam ajudar a separar fatos de manipulação, passam a alimentar essa lógica.

O jornalismo tem uma função essencial na democracia: apurar, contextualizar, fiscalizar e oferecer ao cidadão elementos para formar seu próprio julgamento. Quando essa função é subordinada a preferências partidárias, a informação corre o risco de se tornar propaganda. A apuração cede espaço à conveniência, a crítica vira instrumento de campanha e a credibilidade profissional passa a servir a interesses políticos.

É a prostituição do compromisso jornalístico: não por expressar uma opinião, mas por sacrificar o rigor em nome de uma causa. Jornalistas têm o direito de defender ideias, criticar governos e manifestar suas convicções. O que não podem fazer sem comprometer sua credibilidade é apresentar interpretações como verdades incontestáveis, selecionar fatos para favorecer aliados, relativizar erros de um lado e transformar os do outro em condenações definitivas. Quando a régua muda conforme a preferência política, o compromisso com a informação deixa de ser o princípio dominante.

A desinformação expõe esse problema com clareza. A alegação de que Flávio Bolsonaro acabaria com o Pix para agradar Donald Trump foi desmentida por veículos de checagem. O sistema foi desenvolvido pelo Banco Central e entrou em operação em novembro de 2020, durante o governo Jair Bolsonaro. A existência de uma disputa política não autoriza ninguém a transformar uma alegação falsa em argumento eleitoral. Muito menos quem tem a responsabilidade profissional de verificar o que divulga. 

O mesmo rigor precisa valer para todos os campos políticos. A desinformação não se torna aceitável quando favorece o candidato preferido, assim como uma acusação não se torna verdadeira por ser repetida por um jornalista respeitado. Quem exige responsabilidade dos adversários precisa demonstrá-la na própria atuação. Do contrário, deixa de fiscalizar o poder para participar da disputa pelo poder.

Na imprensa especializada em Defesa, essa contradição é particularmente preocupante. A credibilidade construída com análises de programas militares, orçamento, equipamentos e indústria não concede autoridade automática sobre todas as disputas políticas. Quando essa reputação é utilizada para difundir mensagens de torcida partidária, celebrar a derrota de adversários ou reproduzir acusações sem a devida verificação, o conhecimento técnico corre o risco de virar um instrumento de influência política.

Não há problema em publicar uma análise crítica de um candidato ou reconhecer os riscos associados às suas declarações. O problema é apagar a fronteira entre análise e militância, tratando previsões como fatos consumados e preferências como conclusões objetivas. O leitor tem o direito de saber quando recebe informação apurada, quando lê uma interpretação e quando está diante de uma opinião política. Essa distinção não é formalidade: é uma condição básica de transparência.

A responsabilidade também alcança os veículos de comunicação. Não basta invocar a liberdade de imprensa quando são questionados e exigir rigor quando os erros são dos concorrentes. É necessário verificar informações, ouvir os envolvidos em acusações, contextualizar declarações e corrigir erros com a mesma disposição com que se publicam denúncias. Credibilidade não é salvo-conduto, e reputação profissional não substitui evidências.

Os candidatos, por sua vez, precisam ser cobrados por suas propostas, seus compromissos e sua capacidade de execução. Ataques pessoais não resolvem os problemas do país. Fake news não substituem argumentos. E a destruição da imagem de um adversário não constitui um programa de governo. O eleitor merece saber o que cada candidato pretende fazer, como pretende fazê-lo e quais serão os custos e as consequências de suas decisões.

Uma democracia não precisa de jornalistas sem opinião. Precisa de jornalistas que não vendam o rigor da apuração à conveniência partidária. Não precisa de candidatos que concordem entre si, mas de adversários capazes de sustentar suas posições com argumentos e evidências. E não precisa de uma imprensa transformada em torcida organizada, na qual a verdade é aceita ou rejeitada conforme o lado que beneficia.

Quando o jornalista troca a apuração pela militância, sua credibilidade vira moeda política. Quando a imprensa substitui a investigação pela propaganda, trai a confiança do leitor. E quando a mentira passa a ser tolerada porque ataca o adversário certo, o jornalismo deixa de cumprir sua função democrática. O Brasil precisa de menos servidão partidária e mais compromisso com os fatos.


Por Angelo Nicolaci


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sexta-feira, 16 de outubro de 2026

Globe Investimentos conclui aquisição da Avibras Aeroco e Bruno Dantas assume presidência executiva do conselho

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A Globe Investimentos concluiu a aquisição da totalidade do capital da Avibras Aeroco, empresa que reúne ativos industriais, instalações e tecnologias da tradicional fabricante brasileira de sistemas de defesa. Com a conclusão da operação, a holding de investimentos pessoais dos empresários Joesley e Wesley Batista passa a controlar a companhia por meio da Nova AVB, sua única acionista, mantendo o capital sob controle integralmente nacional.

Anunciada em 15 de outubro de 2026, a operação abre uma nova etapa para a empresa fundada em 1961, cuja recuperação industrial é relevante para a Base Industrial de Defesa (BID). O plano apresentado pela nova controladora prevê acelerar a retomada da produção em escala, cumprir compromissos e recuperar o crescimento, com prioridade para os mercados internacionais.

Bruno Dantas assume a posição de presidente executivo do Conselho de Administração (Executive Chairman), com a missão de apoiar a reconstrução da capacidade industrial e conduzir a estratégia de internacionalização. Segundo a empresa, as exportações deverão constituir o principal vetor de crescimento da Avibras Aeroco.

Dantas é advogado e atuou na presidência da Organização Internacional das Instituições Superiores de Controle (INTOSAI), entidade que reúne instituições de auditoria governamental de mais de 190 países. Também foi eleito para o Conselho de Auditores da Organização das Nações Unidas (ONU). A companhia destaca que essa experiência poderá contribuir para estabelecer relações institucionais com governos estrangeiros, interlocutores fundamentais no mercado internacional de defesa.

“A Avibras é um patrimônio tecnológico e industrial do Brasil, que voltará a fornecer tecnologia e equipamentos para todo o mundo graças à dedicação de engenheiros e técnicos que preservam o conhecimento da empresa nos seus anos mais difíceis”, afirmou Dantas.

O presidente da Avibras Aeroco, Sami Hassuani, ressaltou a preservação do conhecimento acumulado ao longo de mais de seis décadas. “Esta transação preserva muito mais do que as tecnologias e instalações da Avibras. Ela conserva a experiência, o conhecimento e a dedicação acumulados desde 1961 por uma força de trabalho altamente qualificada, que seguirá sendo fundamental para o sucesso da companhia”, declarou.

Recuperação industrial e relevância estratégica

A Avibras construiu sua posição na indústria de defesa brasileira a partir do desenvolvimento de sistemas de artilharia, foguetes, mísseis, veículos especiais e tecnologias de propulsão. Seu portfólio inclui o sistema ASTROS, reconhecido internacionalmente, além de soluções destinadas ao setor espacial civil.

A preservação dessas capacidades representa um aspecto relevante para a autonomia tecnológica brasileira. A recuperação de uma empresa com conhecimento acumulado em propulsão, integração de sistemas e desenvolvimento de armamentos não depende apenas da transferência de controle societário: exige capital, recomposição de equipes, fornecedores, infraestrutura produtiva e contratos que sustentem a operação.

A nova fase também terá de converter a intenção de priorizar exportações em encomendas efetivas. No mercado internacional de defesa, a abertura de novos países exige processos de negociação governamental, financiamento, garantias de fornecimento, suporte logístico e capacidade de cumprir prazos ao longo de todo o ciclo de vida dos sistemas.

A conclusão da aquisição estabelece, portanto, uma nova estrutura de controle para a Avibras Aeroco. O resultado estratégico dependerá da capacidade de transformar essa mudança em produção regular, preservação de empregos especializados, entrega de sistemas e conquista de novos mercados.

Para a Base Industrial de Defesa, a questão central passa a ser a execução do plano: recuperar a capacidade produtiva da empresa e converter seu patrimônio tecnológico em atividade industrial sustentável, contratos e exportações.


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ESCALA 6x1 E OS IMPACTOS SOBRE A BASE INDUSTRIAL DE DEFESA BRASILEIRA

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A redução da jornada de trabalho exige uma análise que considere produtividade, competitividade industrial e preservação das capacidades estratégicas nacionais

O debate sobre o fim da escala de trabalho 6x1 ganhou espaço na agenda nacional, mobilizando representantes dos trabalhadores, empresários, especialistas e formuladores de políticas públicas. Embora a discussão esteja frequentemente concentrada nos aspectos sociais e trabalhistas, suas possíveis consequências ultrapassam essas dimensões e alcançam setores estratégicos da economia brasileira.

Entre eles está a Base Industrial de Defesa (BID), cuja importância não se limita à geração de empregos, ao desenvolvimento tecnológico ou à produção de equipamentos militares. Trata-se de um conjunto de empresas, instituições e capacidades industriais diretamente relacionado à autonomia estratégica, à segurança e à soberania nacional. Nesse contexto, uma eventual alteração da jornada de trabalho exige uma avaliação criteriosa de seus efeitos sobre a estrutura de custos, a disponibilidade de profissionais especializados, a competitividade internacional e a continuidade dos programas estratégicos das Forças Armadas. Mais do que discutir a quantidade de horas trabalhadas, é necessário compreender como eventuais mudanças poderão afetar um setor industrial caracterizado por elevada complexidade tecnológica, ciclos prolongados de desenvolvimento e rigorosos requisitos de qualidade e certificação.

AS PARTICULARIDADES DA INDÚSTRIA DE DEFESA

A indústria de defesa apresenta características que a diferenciam de grande parte dos demais segmentos industriais. O desenvolvimento e a fabricação de aeronaves militares, sistemas de comando e controle, radares, equipamentos de guerra eletrônica, veículos blindados, armamentos e sistemas de comunicação exigem investimentos expressivos em pesquisa, desenvolvimento e inovação, além de infraestrutura industrial especializada.

São atividades que dependem de engenheiros, técnicos, pesquisadores e profissionais altamente qualificados, frequentemente submetidos a processos específicos de capacitação, certificação e habilitação. Outro aspecto relevante está relacionado aos contratos de fornecimento. Programas estratégicos de defesa normalmente envolvem compromissos de longo prazo, cronogramas rigorosos, requisitos técnicos complexos e condições comerciais previamente estabelecidas.

Diferentemente de setores que conseguem transferir rapidamente aumentos de custos aos consumidores, empresas da BID frequentemente possuem menor flexibilidade para renegociar preços, especialmente em contratos governamentais sujeitos a restrições orçamentárias.

Consequentemente, alterações relevantes na estrutura de custos trabalhistas podem produzir efeitos que ultrapassam os resultados financeiros das empresas, alcançando cronogramas de entrega, investimentos em inovação e capacidade de atendimento às necessidades operacionais das Forças Armadas.

CUSTOS INDUSTRIAIS E CAPACIDADE PRODUTIVA

Um dos principais pontos de atenção está relacionado ao possível aumento dos custos de produção.

É fundamental distinguir duas questões frequentemente tratadas como equivalentes: o fim da escala 6x1 e a redução da jornada semanal máxima de trabalho.

A substituição do regime de seis dias de trabalho por um de descanso não implica necessariamente uma redução uniforme da jornada de todos os trabalhadores. Seus efeitos dependerão das regras aprovadas, da distribuição das horas de trabalho e dos regimes atualmente adotados pelas empresas. Entretanto, caso a mudança seja acompanhada de uma redução da jornada semanal sem diminuição proporcional dos salários, haverá aumento do custo da hora trabalhada, ainda que a remuneração mensal permaneça inalterada.

Como referência, a passagem de uma jornada de 44 para 40 horas semanais representa uma redução de aproximadamente 9,1% nas horas contratadas e um aumento de 10% no custo salarial por hora, desconsiderando eventuais ganhos de produtividade e outros ajustes operacionais.

Esse aumento não significa, necessariamente, uma elevação equivalente do custo total de produção. O impacto dependerá da participação da mão de obra nos custos, da organização dos turnos, da capacidade instalada e das possibilidades de reorganização dos processos.

Nas atividades industriais que exigem continuidade operacional, como fabricação, montagem, integração, ensaios, manutenção e suporte logístico, a preservação dos níveis de produção poderá demandar contratações adicionais, redistribuição de equipes ou utilização de horas extraordinárias.

Para empresas que operam com margens reduzidas e contratos de longo prazo, esses ajustes podem representar desafios importantes.

A ESCASSEZ DE PROFISSIONAIS ESPECIALIZADOS

Outro aspecto particularmente sensível está relacionado à disponibilidade de mão de obra qualificada.

A BID depende de competências tecnológicas que não podem ser desenvolvidas rapidamente. Engenheiros de sistemas, especialistas em aviônicos, profissionais de software embarcado, técnicos em eletrônica, especialistas em integração e certificação representam apenas alguns exemplos de funções essenciais à continuidade dos programas industriais.

A formação desses profissionais exige tempo, investimentos e experiência prática, frequentemente adquirida ao longo de anos de participação em projetos de elevada complexidade.

Uma eventual redução da jornada poderá aumentar a necessidade de profissionais em determinadas operações, especialmente quando houver exigência de cobertura contínua ou manutenção da mesma quantidade de horas produtivas. Entretanto, ampliar equipes não significa apenas abrir novas vagas. É necessário encontrar profissionais disponíveis, capacitá-los e integrá-los aos processos produtivos, preservando requisitos de qualidade, segurança e rastreabilidade.

Por outro lado, jornadas mais equilibradas poderão contribuir para a atração e retenção de talentos, especialmente em um mercado no qual profissionais de engenharia e tecnologia encontram oportunidades em diferentes setores da economia.

Portanto, os resultados dependerão da capacidade das empresas de combinar novas formas de organização do trabalho com políticas consistentes de desenvolvimento e valorização profissional.

COMPETITIVIDADE INTERNACIONAL E EXPORTAÇÕES

A competitividade internacional constitui outra dimensão relevante dessa discussão.

Empresas brasileiras de defesa disputam oportunidades comerciais com organizações estrangeiras que frequentemente contam com escalas industriais superiores, maior previsibilidade de encomendas governamentais, instrumentos de financiamento e políticas de incentivo à inovação e às exportações.

Além disso, os concorrentes internacionais operam sob diferentes regimes trabalhistas, estruturas tributárias e condições de financiamento.

Nesse ambiente, aumentos de custos não acompanhados de ganhos correspondentes de produtividade podem reduzir a competitividade de produtos e sistemas desenvolvidos no Brasil.

O desafio torna-se ainda mais significativo quando consideramos que a internacionalização da BID é um instrumento importante para ampliar escalas de produção, reduzir a dependência das encomendas nacionais e preservar competências tecnológicas estratégicas.

As exportações de defesa não representam apenas receitas adicionais. Elas contribuem para sustentar linhas de produção, manter equipes especializadas e viabilizar investimentos que dificilmente seriam suportados exclusivamente pela demanda doméstica.

Assim, eventuais mudanças na legislação trabalhista precisam ser analisadas também sob a perspectiva da capacidade brasileira de competir em mercados internacionais altamente exigentes.

OS REFLEXOS SOBRE OS PROGRAMAS ESTRATÉGICOS

Os efeitos de uma eventual reorganização da jornada de trabalho também poderão alcançar os programas estratégicos das Forças Armadas. Projetos de desenvolvimento, modernização e integração de sistemas militares normalmente envolvem cronogramas extensos, diferentes fornecedores e elevados níveis de interdependência tecnológica. Atrasos em uma determinada etapa podem comprometer atividades subsequentes de integração, testes, certificação e entrega.

Caso mudanças na organização do trabalho resultem em restrições temporárias de capacidade produtiva, as empresas poderão enfrentar dificuldades adicionais para cumprir compromissos contratuais. Esse risco merece atenção especial em um ambiente no qual a indústria nacional já convive com oscilações orçamentárias, descontinuidade de encomendas e dificuldades para manter investimentos de longo prazo. A preservação da capacidade industrial instalada deve ser compreendida como um componente da prontidão estratégica do país.

Afinal, uma capacidade tecnológica ou industrial perdida não pode, necessariamente, ser recuperada no momento em que surge uma necessidade operacional.

A reconstrução de equipes, cadeias de fornecedores e conhecimentos especializados pode demandar anos e investimentos significativos.

PRODUTIVIDADE, INOVAÇÃO E MODERNIZAÇÃO INDUSTRIAL

Seria inadequado, entretanto, considerar a redução da jornada exclusivamente sob a perspectiva dos custos. Experiências de reorganização do trabalho em diferentes setores indicam que jornadas mais equilibradas podem, em determinadas condições, contribuir para a redução do absenteísmo, a melhoria do ambiente organizacional e o aumento da produtividade por hora trabalhada.

Na indústria de defesa, esses benefícios podem ser particularmente relevantes em atividades que exigem concentração, precisão técnica, capacidade analítica e elevado grau de responsabilidade.

Erros de engenharia, falhas de integração ou problemas de qualidade podem produzir consequências financeiras e operacionais muito superiores ao custo imediato da mão de obra.

Contudo, ganhos de produtividade não são automáticos e tampouco podem ser presumidos de maneira uniforme para todas as atividades industriais.

Em processos nos quais a produção depende diretamente do tempo de utilização de equipamentos, instalações e equipes especializadas, a redução das horas disponíveis poderá exigir investimentos adicionais para preservar os resultados. Nesse sentido, a discussão oferece uma oportunidade para acelerar iniciativas de transformação industrial, incluindo automação, digitalização, manufatura avançada, inteligência artificial aplicada aos processos produtivos e aperfeiçoamento dos sistemas de gestão. A questão central será transformar uma eventual mudança trabalhista em estímulo à modernização, evitando que ela represente apenas um acréscimo de custos.

UMA REALIDADE INDUSTRIAL HETEROGÊNEA

Também é necessário reconhecer que a Base Industrial de Defesa brasileira não constitui um conjunto homogêneo de empresas. O setor reúne desde grandes organizações industriais e integradoras de sistemas até pequenas e médias empresas especializadas em componentes, software, serviços tecnológicos e soluções de engenharia. Da mesma forma, nem todas as empresas utilizam a escala 6x1. Diversas atividades administrativas, de engenharia, pesquisa e desenvolvimento já operam em jornadas distribuídas ao longo de cinco dias semanais. Consequentemente, os impactos de uma eventual alteração legislativa serão distintos. Empresas com processos altamente automatizados poderão apresentar maior capacidade de adaptação, enquanto organizações intensivas em mão de obra especializada ou dependentes de operações contínuas poderão enfrentar dificuldades mais significativas. Pequenos fornecedores também merecem atenção, pois frequentemente possuem menor capacidade financeira para absorver custos adicionais ou realizar investimentos imediatos em modernização.

Essa heterogeneidade reforça a importância de mecanismos de transição, previsibilidade regulatória e avaliações setoriais que considerem as diferentes realidades produtivas.

O PAPEL DAS POLÍTICAS PÚBLICAS

A discussão sobre a jornada de trabalho não deveria ocorrer de maneira isolada das políticas nacionais de desenvolvimento industrial, inovação e defesa. Se o objetivo é conciliar avanços nas condições de trabalho com a preservação da competitividade, será necessário considerar instrumentos que favoreçam a adaptação das empresas.

Entre as possibilidades estão programas de qualificação profissional, incentivos à modernização tecnológica, linhas de financiamento para investimentos produtivos e mecanismos de transição compatíveis com a complexidade das operações industriais.

Igualmente importante será ampliar a previsibilidade dos investimentos públicos em defesa.

Uma indústria que depende de encomendas governamentais descontínuas enfrenta dificuldades adicionais para planejar contratações, desenvolver fornecedores e investir em novas tecnologias.

Nesse cenário, a combinação entre mudanças trabalhistas, restrições orçamentárias e baixa previsibilidade contratual poderá ampliar vulnerabilidades estruturais já existentes.

O desafio do poder público será construir soluções capazes de equilibrar os interesses dos trabalhadores, a sustentabilidade econômica das empresas e os objetivos estratégicos do Estado brasileiro.

Considerações finais: a soberania também depende da produtividade

O debate sobre o fim da escala 6x1 representa uma oportunidade legítima para discutir a evolução das relações de trabalho no Brasil. A melhoria da qualidade de vida dos trabalhadores, a valorização profissional e a busca por ambientes produtivos mais eficientes são objetivos relevantes e compatíveis com o desenvolvimento industrial.

Entretanto, quando essa discussão alcança a Base Industrial de Defesa, é indispensável incorporar uma dimensão adicional: a preservação das capacidades estratégicas nacionais.

O Brasil necessita de uma indústria de defesa tecnologicamente avançada, economicamente sustentável e internacionalmente competitiva. Precisa também preservar profissionais qualificados, manter cadeias produtivas e assegurar continuidade aos programas de interesse das Forças Armadas.

Por isso, eventuais alterações na jornada de trabalho devem ser acompanhadas de análises de impacto, planejamento de transição e políticas que estimulem ganhos efetivos de produtividade.

Não se trata de estabelecer uma oposição entre direitos trabalhistas e interesses da indústria, mas de reconhecer que ambos precisam avançar de maneira sustentável.

Afinal, a soberania nacional não depende exclusivamente de equipamentos militares ou de investimentos em defesa. Ela também depende da capacidade de desenvolver tecnologias, produzir sistemas complexos e preservar conhecimentos industriais estratégicos.

Na Base Industrial de Defesa, produtividade e competitividade não são apenas indicadores econômicos. São componentes fundamentais da autonomia tecnológica e da soberania brasileira.


Por Mauro Beirão


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