sábado, 7 de novembro de 2026

Exército inicia testes de avaliação do lote-piloto da viatura aerotransportável Chivunk

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A viatura leve Chivunk entrou em nova etapa de desenvolvimento com o início dos testes de avaliação do lote-piloto pelo Exército Brasileiro. A atividade começou em 3 de novembro nas instalações da IDV Brasil em Sete Lagoas (MG), sob responsabilidade do Centro de Avaliações do Exército (CAEx), com suporte técnico do Centro Tecnológico do Exército (CTEx).

Os ensaios buscam verificar se os veículos produzidos atendem aos requisitos técnicos e operacionais estabelecidos pelo projeto, incluindo o desempenho da viatura e a adequação do processo de fabricação. Nesta primeira fase, os testes concentram-se no comportamento dinâmico do Chivunk. São avaliados velocidade máxima, aceleração, estabilidade lateral, manobrabilidade e transposição de obstáculos, características que permitem verificar sua resposta em diferentes terrenos e condições de emprego.

Ao longo de novembro, a avaliação avançará para os testes de rodagem, com a participação de militares de organizações que poderão receber o veículo futuramente. A experiência desses profissionais permitirá examinar sua adequação às necessidades das tropas e às condições de uso em campo.

Concebido pelo CTEx, o Chivunk foi projetado como uma viatura leve de emprego geral com capacidade de transporte aéreo. A proposta é oferecer mobilidade a tropas em operações que exigem deslocamento rápido e acesso a regiões restritas, especialmente em missões aeromóveis, nas quais a possibilidade de transportar o veículo por aeronaves amplia as opções de emprego da força.

O programa também envolve a indústria nacional. Enquanto o CTEx responde pela concepção e pelo desenvolvimento tecnológico, a IDV Brasil participa da produção do lote-piloto. Essa parceria permite avaliar não apenas as características do veículo, mas também a capacidade industrial de produzi-lo conforme os requisitos estabelecidos pelo Exército.

A conclusão dos testes será importante para identificar possíveis ajustes e subsidiar uma decisão sobre a continuidade do programa. Essa etapa, porém, não representa homologação definitiva, contratação de produção em série ou incorporação da viatura às unidades militares.

Com desenvolvimento iniciado em 2001, o Chivunk percorreu um longo caminho até chegar à atual fase de avaliação. O intervalo evidencia os desafios de transformar uma necessidade operacional em uma solução nacional, processo que exige continuidade técnica, industrial e orçamentária.

A aprovação do lote-piloto poderá abrir caminho para as próximas etapas, mas a efetiva contribuição do Chivunk dependerá da capacidade de avançar para a produção em escala, estruturar o suporte logístico e disponibilizar os veículos às organizações militares. É nessa transição entre desenvolvimento e emprego que será possível medir o resultado concreto do programa.


por Angelo Nicolaci


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Com informações do Exército Brasileiro

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Embraer aposta na Índia para ampliar mercado do C-390 e planeja produção local em Nagpur

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Em parceria com o Grupo Mahindra, fabricante brasileira disputa programa de 60 aeronaves de transporte médio da Força Aérea Indiana. Proposta prevê montagem local, desenvolvimento de fornecedores e uma possível plataforma de exportação para outros mercados asiáticos.

A Embraer busca transformar a disputa por 60 aeronaves de transporte médio para a Força Aérea Indiana em um passo estratégico para sua expansão internacional. Em parceria com o Grupo Mahindra, a fabricante brasileira oferece o C-390 Millennium, um programa que combina a aquisição de aeronaves com exigências de produção local e participação da indústria indiana.

Estimado em aproximadamente 1 trilhão de rúpias indianas, o programa representa uma oportunidade de grande dimensão para a Embraer. A empresa, entretanto, não pretende limitar sua estratégia ao fornecimento das aeronaves destinadas à Índia. A intenção é estabelecer uma estrutura industrial capaz de atender também futuras demandas de outros países da Ásia, transformando o mercado indiano em uma base para ampliar a presença regional do C-390.

Em declarações à imprensa, Bosco da Costa Junior, presidente e CEO da Embraer Defesa & Segurança, destacou que a Ásia representa entre 40% e 45% do mercado potencial mundial para aeronaves dessa categoria. A estimativa apresentada pela companhia aponta para uma demanda de aproximadamente 500 aeronaves nos próximos 20 anos. Trata-se de uma projeção comercial, não de encomendas identificadas ou contratos em negociação, mas que ajuda a explicar o interesse em estabelecer capacidade produtiva na região.

Produção local como diferencial estratégico

O programa de Aeronaves de Transporte Médio (MTA) foi estruturado para conciliar a aquisição de tecnologia estrangeira com o fortalecimento da indústria nacional. Pelas condições divulgadas, o fabricante selecionado deverá entregar inicialmente 12 aeronaves prontas para operação e produzir as outras 48 em território indiano. Os aviões fabricados localmente deverão apresentar pelo menos 40% de conteúdo nacional, enquanto o programa terá um horizonte de execução de 11 anos.

A concorrência envolve cinco empresas indianas, que deverão apresentar suas propostas em associação com fabricantes internacionais. Nesse contexto, a parceria com a Mahindra coloca a Embraer em uma posição que vai além da disputa comercial: a empresa brasileira precisa demonstrar que pode contribuir para a construção de uma capacidade industrial sustentável no país.

Nagpur, no estado de Maharashtra, foi identificada como possível sede da linha de montagem final do C-390. O planejamento contempla montagem de aeronaves, integração de sistemas, engenharia de manufatura e desenvolvimento de fornecedores locais. Também está prevista a possibilidade de estabelecer serviços de manutenção, reparo e revisão, ampliando a participação indiana no ciclo de vida da plataforma.

A iniciativa, contudo, permanece condicionada à escolha do C-390 pela Força Aérea Indiana e à formalização de um pedido. Não existe, até o momento, uma linha de produção contratada ou garantia de implantação da estrutura industrial. A proposta demonstra a dimensão da aposta brasileira, mas sua concretização dependerá do resultado da concorrência.

C-390 diante do desafio operacional indiano

Com capacidade máxima de carga de 26 toneladas, o C-390 Millennium foi desenvolvido como uma aeronave de transporte multimissão. Sua configuração permite transportar tropas e equipamentos, realizar lançamentos aéreos, evacuação aeromédica, busca e salvamento, combate a incêndios e operações humanitárias.

A capacidade de operar em pistas temporárias ou não pavimentadas também amplia suas possibilidades de emprego, característica relevante para um país com dimensões continentais e ambientes operacionais bastante distintos. A Índia precisa de uma aeronave capaz de atender às demandas logísticas de suas forças, inclusive em regiões de elevada altitude e infraestrutura limitada.

Entretanto, a avaliação não será determinada apenas pela capacidade de carga. Custos de aquisição e operação, desempenho, disponibilidade, prazos de entrega e sustentação logística terão peso na decisão. A capacidade de cumprir os requisitos específicos da Força Aérea Indiana será tão importante quanto a oferta de industrialização local.

O principal concorrente é o C-130J Super Hercules da norte-americana Lockheed Martin, oferecido em parceria com a Tata Advanced Systems. A proposta parte de uma vantagem operacional significativa: a Força Aérea Indiana já opera 12 aeronaves dessa família, empregadas em missões de transporte e apoio logístico, inclusive em destacamentos avançados na região de Ladakh.

A experiência acumulada pelas tripulações, a infraestrutura de manutenção e a familiaridade com a plataforma representam argumentos favoráveis à proposta norte-americana. A associação com a Tata também fortalece sua dimensão industrial, uma vez que a empresa indiana já participa da fabricação de componentes do C-130J.

A Embraer, por sua vez, procura diferenciar sua oferta pela capacidade de carga do C-390, sua arquitetura a jato e a possibilidade de estabelecer uma estrutura produtiva com potencial de exportação. A disputa coloca frente a frente não apenas duas aeronaves, mas diferentes caminhos para atender às necessidades operacionais e industriais indianas.

Uma plataforma internacional 

O C-390 chega à concorrência com uma presença internacional em expansão. Além do Brasil, a aeronave já entrou em serviço em países como Portugal e Hungria. Países Baixos e Áustria realizaram uma aquisição conjunta de nove unidades, enquanto a Suécia encomendou quatro aeronaves em 2025, com opções previstas no contrato.

A ampliação da base de operadores contribui para consolidar a reputação internacional do programa e demonstra sua capacidade de atender a diferentes estruturas militares. Para potenciais compradores, a existência de uma comunidade de usuários também representa uma referência importante na avaliação de suporte, manutenção e evolução da plataforma.

Uma eventual vitória na Índia teria consequências que ultrapassariam o fornecimento das 60 aeronaves. A produção em Nagpur poderia ampliar a escala industrial do programa, incorporar fornecedores locais e aproximar a Embraer de outros mercados asiáticos. Para a empresa brasileira, seria uma oportunidade de fortalecer sua posição como fabricante global de aeronaves de defesa.

Esse movimento também traz uma dimensão importante para o Brasil. A internacionalização da produção exige preservar o domínio tecnológico, a capacidade de engenharia e a participação da indústria brasileira no desenvolvimento e na evolução do C-390. A expansão para a Índia poderá fortalecer o programa, desde que a construção de uma nova base produtiva seja conduzida de maneira complementar à estrutura industrial existente no Brasil.

A concorrência indiana representa, portanto, um teste importante para a estratégia internacional da Embraer. A empresa precisa convencer Nova Délhi de que o C-390 atende às necessidades militares do país e simultaneamente, oferece uma oportunidade consistente de desenvolvimento industrial.

Se selecionada, a aeronave brasileira poderá conquistar um cliente de grande porte e estabelecer uma nova referência para sua expansão na Ásia. A projeção de 500 aeronaves nos próximos 20 anos revela a ambição comercial da Embraer, mas o primeiro passo para transformar essa perspectiva em realidade continua sendo vencer a disputa da Força Aérea Indiana.


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EUA autorizam possível venda de 11 helicópteros Black Hawk ao México por US$ 1,075 bilhão

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Pacote inclui motores, sensores, armamentos e suporte logístico. A proposta amplia a frota de UH-60M mexicana e reforça a capacidade de transporte aéreo das forças empregadas em operações contra o narcotráfico.

O Departamento de Estado dos Estados Unidos autorizou em 6 de novembro, uma possível venda de 11 helicópteros UH-60M Black Hawk ao México, uma operação estimada em US$ 1,075 bilhão. A proposta contempla um pacote abrangente de equipamentos, armamentos, sistemas de missão, treinamento e suporte logístico, tendo a Sikorsky, empresa da Lockheed Martin, como contratante principal.

A autorização representa mais um movimento de aprofundamento da cooperação militar entre Washington e Cidade do México, mas exige uma ressalva importante: a aprovação norte-americana não significa que a aquisição esteja contratada. O procedimento integra o mecanismo Foreign Military Sales (FMS), pelo qual o governo dos Estados Unidos autoriza a possível transferência de equipamentos militares a países parceiros. A concretização da operação ainda depende das negociações e da formalização dos instrumentos de aquisição.

Um pacote que vai além das aeronaves

O pedido mexicano contempla 11 UH-60M, acompanhados por 27 motores General Electric T700-GE-701D, 27 sistemas integrados de navegação inercial e GPS EAGLE-M+429, 27 rádios militares AN/ARC-231A RT-1987, com capacidade de comunicação em VHF, UHF e por satélite em linha de visada.

A quantidade de motores merece atenção: segundo os dados técnicos publicados sobre a proposta, 22 unidades seriam destinadas à instalação nas aeronaves, enquanto outras cinco seriam mantidas como sobressalentes. Essa composição evidencia a preocupação com a sustentação da frota, aspecto fundamental para preservar a disponibilidade operacional de helicópteros submetidos a missões frequentes.

A configuração prevista inclui sistemas eletro-ópticos e infravermelhos MX-10D, com recursos de observação e designação a laser, radares meteorológicos RDR-7000 e óculos de visão noturna AN/AVS-6. Também estão previstos sistemas de identificação amigo-inimigo, equipamentos de comunicação criptografada, instrumentos de navegação e recursos de alerta de tráfego e prevenção de colisões.

Para ampliar a proteção e a flexibilidade de emprego, o pacote contempla blindagem balística, filtros de proteção para admissão de ar dos motores, sistemas de escape direcionado para cima e tanques auxiliares internos de combustível. A lista inclui ainda metralhadoras M-134, equipamentos para inserção e extração de tropas por corda rápida e guinchos de resgate instalados na fuselagem.

A combinação desses recursos permite configurar os helicópteros para diferentes perfis de missão, desde transporte tático e apoio a operações especiais até busca e salvamento, evacuação e deslocamento de equipes em regiões de difícil acesso. A inclusão de equipamentos de visão noturna, sensores e proteção reforça a capacidade de operar em ambientes mais exigentes, embora a configuração efetivamente entregue dependa dos termos finais da aquisição.

O suporte previsto também é expressivo. Estão incluídos peças de reposição, ferramentas, equipamentos de manutenção, documentação técnica, treinamento de pessoal e assistência de engenharia e logística. A implementação da possível venda exigiria ainda o deslocamento de 15 representantes adicionais do governo norte-americano ou de empresas contratadas ao México, por período prolongado, para atividades de preparação, verificação dos sistemas, treinamento e apoio técnico.

Esse componente é particularmente relevante: a disponibilidade de uma aeronave militar não depende apenas de sua entrega, mas da capacidade de manter motores, componentes, sistemas embarcados e equipes em condições de operação.

México amplia uma frota já consolidada

A escolha do UH-60M não representa a introdução de uma nova plataforma na aviação militar mexicana. O país opera diferentes versões do Black Hawk desde 1991 e incorporou a variante UH-60M a partir de 2011, quando a Marinha recebeu suas primeiras unidades. Posteriormente, a Força Aérea também adquiriu o modelo, incluindo uma encomenda de 18 aeronaves autorizada pelos Estados Unidos em 2014.

Levantamentos publicados sobre a frota mexicana apontam aproximadamente 28 UH-60M distribuídos entre a Força Aérea e a Aviação Naval, com 18 unidades na primeira e dez na segunda. A nova proposta amplia essa estrutura e acompanha uma diretriz expressa pelo governo norte-americano: modernizar a frota mexicana por meio da consolidação do tipo de helicópteros e da expansão da família UH-60M já utilizada pelo país.

A padronização pode trazer ganhos importantes na formação de tripulações, manutenção, gestão de componentes e planejamento logístico. Em vez de ampliar a diversidade de plataformas, o México reforça uma família de aeronaves para a qual já possui experiência operacional e infraestrutura de apoio.

Essa decisão também tem implicações para a interoperabilidade com os Estados Unidos. A utilização de uma plataforma comum facilita a cooperação técnica e logística entre forças que já operam o mesmo modelo, embora não signifique, por si só, integração automática de sistemas ou procedimentos.

Mobilidade aérea no combate ao narcotráfico

Na justificativa apresentada para a possível venda, Washington destaca o fortalecimento da capacidade mexicana de oferecer apoio aéreo às forças envolvidas em operações contra o narcotráfico dentro do território nacional.

O emprego do Black Hawk nesse contexto está relacionado à sua versatilidade. A aeronave pode transportar tropas e equipamentos, apoiar operações de inserção e extração, realizar evacuações aeromédicas e atender missões de busca e salvamento. Em um país com grandes extensões territoriais, áreas montanhosas e regiões de acesso limitado, a mobilidade proporcionada por helicópteros dessa categoria constitui um recurso importante para o deslocamento de forças.

A presença de sensores eletro-ópticos e infravermelhos, equipamentos de visão noturna e recursos de comunicação amplia as possibilidades de emprego, especialmente em operações que exigem observação e coordenação em diferentes condições ambientais. Os equipamentos de corda rápida e guinchos de resgate também oferecem alternativas para operações em locais onde o pouso convencional não é viável.

É importante, entretanto, não confundir essa capacidade com uma solução isolada para o problema da segurança mexicana. O desempenho de operações contra organizações criminosas depende de inteligência, coordenação entre forças, capacidade de investigação e presença estatal, além dos meios aéreos disponíveis.

Uma decisão com dimensão estratégica

O valor de US$ 1,075 bilhão não deve ser interpretado como o preço de 11 helicópteros. A estimativa abrange aeronaves, motores, sensores, armamentos, equipamentos de missão, treinamento, peças e serviços de sustentação. A comparação com aquisições anteriores exige considerar as diferenças de configuração e de conteúdo dos respectivos pacotes.

Para os Estados Unidos, a operação reforça a relação de cooperação militar com um parceiro estratégico na América do Norte e mantém a presença de equipamentos de origem norte-americana na estrutura de defesa mexicana. Para o México, a ampliação da frota representa a possibilidade de aumentar sua capacidade de transporte tático e fortalecer uma estrutura logística construída ao longo de décadas de operação do Black Hawk.

O Departamento de Estado também afirma que a possível venda não alteraria o equilíbrio militar básico na região, enquadrando a operação como uma iniciativa de modernização e fortalecimento das capacidades mexicanas. A questão decisiva será a transformação dessa autorização em aquisição efetiva e posteriormente, em disponibilidade operacional. A experiência mexicana com o UH-60M reduz os desafios de introdução de uma nova plataforma, mas a ampliação da frota exigirá recursos permanentes para manutenção, treinamento e reposição de componentes.


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França dobra capacidade de mísseis Aster das fragatas FDI e reforça defesa antiaérea naval

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A França formalizou durante a Euronaval 2026, um contrato com a Naval Group e a MBDA para ampliar a capacidade de defesa antiaérea das fragatas FDI (Frégates de Défense et d’Intervention) da Marinha Nacional francesa. A mudança elevará de 16 para 32 o número de mísseis Aster que cada navio poderá transportar, dobrando sua capacidade de emprego antiaéreo.

A decisão foi anunciada pela Direção-Geral de Armamento (DGA), órgão responsável pela condução dos programas de aquisição e desenvolvimento de sistemas de defesa franceses. Segundo o Ministério das Forças Armadas, a ampliação busca aumentar a letalidade e a resiliência das FDI diante do agravamento das ameaças e das exigências dos conflitos navais de alta intensidade.

A medida representa uma evolução importante na configuração das fragatas, concebidas como plataformas multimissão e dotadas de arquitetura digital avançada. Com maior quantidade de mísseis disponíveis, os navios passam a contar com um estoque ampliado de interceptadores para enfrentar diferentes ameaças aéreas, especialmente em cenários nos quais ataques sucessivos ou de saturação podem pressionar a capacidade de defesa de uma força naval.

Aster 15 e Aster 30 ampliam o alcance da proteção

A família Aster constitui um dos principais elementos da capacidade europeia de defesa antiaérea. Na Marinha francesa, esses mísseis também equipam o porta-aviões Charles de Gaulle, as fragatas de defesa aérea da classe Horizon e as fragatas multimissão FREMM.

A família reúne variantes com características distintas. O Aster 15 possui alcance superior a 30 quilômetros e é destinado à interceptação de aeronaves e mísseis antinavio, inclusive aqueles que voam em baixa altitude. Já o Aster 30 amplia o alcance para mais de 120 quilômetros, e em suas versões mais avançadas, incorpora capacidades de defesa contra determinadas ameaças balísticas.

Os dois modelos empregam um sistema de controle de elevada manobrabilidade que combina controle aerodinâmico e vetoração de empuxo. Essa característica permite realizar manobras acentuadas durante a interceptação de alvos com elevada capacidade de manobra.

A ampliação da capacidade antiaérea das FDI fortalece, portanto, não apenas a defesa individual dos navios, mas também sua contribuição para a proteção de forças navais que operem em conjunto.

Uma evolução que aproxima a configuração francesa das versões de exportação

O aumento para 32 mísseis também aproxima a configuração das FDI francesas daquela adotada em versões destinadas a clientes estrangeiros. As fragatas da classe Kimon adquiridas pela Grécia, já foram contratadas com capacidade para 32 mísseis Aster.

A decisão francesa também se insere no processo de evolução da própria classe. Conforme informações anteriormente divulgadas pela imprensa francesa, as duas últimas fragatas do programa francês deverão incorporar a configuração ampliada desde a construção, enquanto os três primeiros navios deverão receber modificações posteriores.

A Marinha francesa possui cinco FDI encomendadas. A primeira unidade, Amiral Ronarc’h, foi entregue em outubro de 2025, dando início à incorporação dessa nova classe de fragatas.

A evolução também acompanha o interesse internacional pela plataforma. Além da Grécia, a Suécia contratou quatro fragatas FDI em agosto de 2026 para compor sua futura classe Luleå, ampliando a presença internacional do projeto da Naval Group.

A evolução das FDI e o debate sobre capacidades navais

A decisão francesa evidencia uma questão cada vez mais relevante no planejamento das forças navais: a necessidade de equilibrar sensores, sistemas de combate e quantidade de armamentos disponíveis. Diante do teatro de operações marcado pela multiplicação de ameaças aéreas, incluindo mísseis antinavio e sistemas não tripulados, a capacidade de sustentar uma defesa antiaérea por períodos prolongados torna-se um fator importante para a sobrevivência e a efetividade de uma força naval.

No caso das FDI, a ampliação da capacidade de mísseis Aster demonstra que a configuração inicial de um navio não precisa representar seu limite definitivo. A plataforma foi concebida com possibilidades de evolução, permitindo que a Marinha francesa adapte sua capacidade de combate às exigências operacionais e à evolução das ameaças.

Para a Base Industrial de Defesa, o programa também evidencia a importância da integração entre estaleiro, desenvolvedor de sistemas de combate e fabricante de armamentos. A evolução não depende apenas da instalação de lançadores adicionais, mas da integração entre o sistema de lançamento, os sensores, o sistema de combate e os próprios mísseis.

A decisão francesa reforça a tendência de modernização contínua dos meios navais e demonstra que a capacidade de defesa antiaérea precisa ser dimensionada não apenas para interceptar uma ameaça isolada, mas para responder a cenários de maior intensidade, nos quais a quantidade de interceptadores disponíveis pode ser determinante.


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França prepara aquisição do MdCN Mk2 e amplia capacidade de ataque em profundidade da Marinha

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Nova versão do míssil de cruzeiro naval da MBDA terá alcance superior a 1.000 quilômetros, maior resistência à guerra eletrônica e capacidade aprimorada de penetração de defesas aéreas. Contratação foi anunciada pela DGA durante a Euronaval 2026, com entregas previstas a partir de 2030.

A França prepara a aquisição de uma nova geração de mísseis de cruzeiro navais MdCN, desenvolvidos pela MBDA. Anunciada pela Direção-Geral do Armamento (DGA) em 6 de novembro, durante a Euronaval 2026, a futura contratação prevê o fornecimento do padrão Mk2, evolução do armamento que já integra o arsenal da Marinha Francesa. As primeiras entregas estão previstas para 2030.

O anúncio representa um passo importante para a manutenção e evolução da capacidade francesa de realizar ataques convencionais de precisão contra alvos terrestres a grandes distâncias, utilizando plataformas navais. A DGA informou que pretende assinar em breve o contrato com a MBDA, mas não divulgou o número de unidades previstas nem o valor da aquisição. Portanto, trata-se de uma contratação anunciada, cuja formalização ainda está pendente, e não de um contrato já concluído.

O MdCN Mk2 foi concebido para operar a partir das fragatas multimissão FREMM e dos submarinos nucleares de ataque da classe Suffren. Essa combinação oferece à França duas formas distintas de projetar poder sobre alvos em terra: a partir de navios de superfície, cuja presença pode integrar uma operação naval mais ampla, ou de submarinos, que permitem aproximar-se de áreas de interesse com maior discrição.

A capacidade de lançamento por diferentes plataformas amplia as possibilidades de planejamento e posicionamento da força naval. Em uma operação, fragatas e submarinos podem atuar de maneira complementar, oferecendo diferentes eixos de ataque e dificultando a identificação antecipada da origem de uma ameaça.

Evolução tecnológica e resistência às defesas

De acordo com a DGA, o novo padrão terá alcance superior a 1.000 quilômetros e incorporará melhorias de furtividade, letalidade e resistência à interferência dos sistemas de navegação por satélite, conhecidos pela sigla GNSS. A preparação das missões também será aprimorada por recursos de inteligência artificial desenvolvidos pelas equipes da MBDA.

Essas evoluções respondem a um ambiente operacional no qual sistemas integrados de defesa aérea, radares de maior capacidade e recursos de guerra eletrônica tornam mais complexa a realização de ataques de longo alcance. A capacidade de manter a navegação e a precisão mesmo diante de interferências passa a ser tão relevante quanto a distância que o míssil consegue percorrer.

A utilização de recursos de inteligência artificial na preparação das missões também merece atenção. Segundo a DGA, essas ferramentas serão incorporadas ao planejamento do emprego do armamento. Isso não significa que o míssil passe a operar de forma autônoma na escolha de alvos, mas que o processo de preparação poderá contar com recursos avançados para organizar e otimizar os parâmetros da missão.

A MBDA informa que o NCM/LCM Mk2, denominações internacional e terrestre do sistema, respectivamente, mantém a possibilidade de lançamento vertical por meio do sistema SYLVER A70, utilizado em navios de guerra, ou por tubos de torpedo de 533 milímetros em submarinos. A empresa também destaca a capacidade de realizar ataques coordenados, com múltiplos mísseis atingindo seus objetivos em horários sincronizados.

Essa característica amplia as possibilidades de emprego em operações que exigem ataques simultâneos contra diferentes pontos de uma infraestrutura ou contra alvos que integram um mesmo sistema estratégico. A combinação de alcance, precisão e coordenação entre plataformas oferece maior flexibilidade ao planejamento operacional.

Um armamento que já faz parte da capacidade francesa

O MdCN Mk2 não representa a introdução de uma capacidade inteiramente nova. Seu antecessor já proporciona à França a possibilidade de realizar ataques de longo alcance a partir de meios navais.

O míssil original entrou em serviço na Marinha Francesa em 2017, inicialmente nas fragatas FREMM, e posteriormente foi integrado aos submarinos da classe Suffren. O armamento deriva da experiência acumulada pela MBDA no desenvolvimento de mísseis de cruzeiro como o SCALP/Storm Shadow, mas foi adaptado às exigências de lançamento a partir de navios e submarinos.

A própria DGA destaca que o MdCN complementa a capacidade de ataque proporcionada pelo SCALP-EG, lançado por aeronaves. A diferença está nas plataformas empregadas e nas opções de posicionamento disponíveis: enquanto a aviação permite projetar poder a partir de bases aéreas e aeronaves embarcadas, o MdCN acrescenta a possibilidade de realizar ataques a partir de unidades navais distribuídas em diferentes áreas marítimas.

Essa combinação oferece maior flexibilidade à estratégia francesa de ataque convencional em profundidade. A disponibilidade de mísseis embarcados em fragatas e submarinos permite que a Marinha participe diretamente de operações de ataque contra alvos terrestres de elevado valor estratégico, sem depender exclusivamente da aviação.

A experiência operacional também contribuiu para a evolução do sistema. A França empregou o MdCN em ataques contra alvos na Síria durante a Operação Hamilton, em abril de 2018. A experiência acumulada desde sua entrada em serviço integra o processo de aperfeiçoamento que agora desemboca no padrão Mk2.

A dimensão estratégica da aquisição

A decisão francesa ocorre em um momento de reavaliação das capacidades militares europeias, marcado pela necessidade de ampliar estoques de munições, reforçar a capacidade de sustentação de operações prolongadas e desenvolver armamentos capazes de enfrentar sistemas de defesa cada vez mais sofisticados.

Nesse cenário, a evolução do MdCN não deve ser observada apenas pelo alcance superior a 1.000 quilômetros. O aspecto central é a capacidade de preservar a eficácia de um armamento de ataque em profundidade diante de interferências eletrônicas e defesas aéreas modernas. A sobrevivência do míssil durante o percurso, a precisão terminal e a possibilidade de coordenar ataques entre diferentes plataformas são elementos que influenciam diretamente seu valor operacional.

Há também uma dimensão industrial. Ao manter o desenvolvimento e a produção de um míssil de cruzeiro naval sob responsabilidade da MBDA, a França preserva uma competência estratégica que poucos países europeus possuem de forma autônoma. A continuidade desse conhecimento envolve não apenas o projeto do armamento, mas também sua integração às plataformas, a preparação das missões, a manutenção e a capacidade de reposição dos estoques.

A aquisição do Mk2, portanto, representa mais do que a modernização de um míssil já existente. É parte de um esforço para assegurar que a Marinha Francesa mantenha uma capacidade de ataque convencional de longo alcance, disponível tanto em unidades de superfície quanto submarinas, e compatível com as exigências de um cenário de conflito de alta intensidade.

Para a Europa, a decisão também reforça a busca por maior autonomia na produção e no emprego de armamentos estratégicos. Em um ambiente no qual a disponibilidade de munições e a capacidade de reposição podem influenciar a duração de uma campanha militar, possuir um sistema próprio de ataque em profundidade representa uma dimensão relevante da liberdade de ação nacional.


por Angelo Nicolaci


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Saab fornecerá armamentos e sensores para quatro fragatas FDI da Suécia

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Contrato com a Naval Group prevê a integração de mísseis antinavio RBS15, torpedos, radares e sistemas de controle de armas. A configuração sueca demonstra como uma plataforma estrangeira pode incorporar tecnologias da indústria nacional do país comprador, um caminho que também adotado pelo Brasil.

A escolha de uma plataforma naval estrangeira não significa necessariamente abrir mão da participação da indústria de defesa nacional. A Suécia oferece um exemplo dessa estratégia ao incorporar sistemas desenvolvidos pela Saab às quatro fragatas FDI encomendadas à Naval Group. O acordo, anunciado em 6 de novembro de 2026, prevê que a empresa sueca forneça e integre armamentos, sensores e sistemas de controle às futuras fragatas da classe Luleå.

O contrato avaliado em aproximadamente 2 bilhões de coroas suecas, estabelece uma relação industrial que vai além da aquisição dos navios. A Saab será responsável por fornecer o sistema de controle de armas, diretores de direção de tiro Ceros, sistemas eletro-ópticos EOS 500, mísseis antinavio RBS15, torpedos leves, estações de armas remotamente controladas Trackfire e o radar de vigilância multimissão Sea Giraffe 1X. As entregas dos sistemas à Naval Group estão previstas para ocorrer entre 2027 e 2034.

A configuração evidencia uma divisão de responsabilidades na qual a plataforma francesa recebe um conjunto expressivo de tecnologias suecas, selecionadas para atender às necessidades operacionais da Marinha da Suécia. Não se trata apenas de nacionalizar componentes, mas de assegurar que a indústria do país comprador participe da definição, do fornecimento e da integração de capacidades relevantes para o emprego do navio.


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Naval Group apresenta na Euronaval sua visão para a guerra naval de alta intensidade

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Fragatas FDI, submarinos, sistemas autônomos, inteligência artificial e defesa contra drones compõem a estratégia da empresa francesa para as futuras forças navais. A versão ampliada da FDI foi um dos destaques da feira, abrindo novas perspectivas para o debate sobre a renovação da Esquadra brasileira e o aproveitamento da capacidade industrial nacional.

A evolução dos conflitos navais está modificando a maneira como as marinhas planejam suas forças e definem os requisitos de seus navios. A disseminação de drones, os ataques de saturação, a crescente importância da guerra eletrônica e a necessidade de operar em ambientes sujeitos a ameaças simultâneas exigem plataformas mais versáteis, capazes de integrar sensores, armamentos e sistemas não tripulados em uma mesma arquitetura de combate.

Foi diante desse cenário que a Naval Group apresentou, durante a Euronaval 2026, realizada em Paris entre 3 e 6 de novembro, seu portfólio de navios, submarinos, sistemas e serviços voltados às operações de alta intensidade. A exposição reuniu plataformas já em serviço, projetos contratados e soluções ainda em desenvolvimento, demonstrando como a indústria naval procura responder à transformação do ambiente operacional.

A proposta da empresa francesa parte de uma premissa: o navio de guerra do futuro não poderá ser avaliado apenas por seu deslocamento, velocidade ou quantidade de armamentos. Sua capacidade de sobreviver e cumprir missões dependerá também da qualidade dos sensores, da velocidade de processamento das informações, da integração com outros meios e da possibilidade de empregar sistemas autônomos em diferentes áreas de operação.

Entre os destaques estiveram as famílias de fragatas FDI e corvetas Gowind, os submarinos Scorpène e Blacksword Barracuda, o sistema de autodefesa Rampart e o conceito de navio SCX26. A empresa também apresentou sua visão para a formação de frotas híbridas, nas quais navios e submarinos operam em conjunto com drones aéreos, de superfície e submersos.

FDI: uma plataforma em evolução para operações de alta intensidade

A fragata FDI ocupou posição de destaque na apresentação. Desenvolvida para reunir capacidades de guerra antiaérea, antissubmarino e antissuperfície, a classe foi concebida para operar em ambientes complexos, integrando sensores e armamentos em um sistema de combate capaz de coordenar diferentes respostas diante das ameaças.

A plataforma combina radar multifuncional, sistemas de guerra eletrônica, sensores eletro-ópticos e sonar, além de armamentos destinados ao enfrentamento de ameaças aéreas, de superfície e submarinas. Sua arquitetura também permite a integração de sistemas não tripulados, ampliando as possibilidades de emprego em missões de reconhecimento, vigilância e apoio às operações navais.

Um dos anúncios mais interessantes da Euronaval foi a apresentação de uma versão ampliada da FDI, com aproximadamente 131 metros de comprimento e deslocamento próximo de 5.400 toneladas. A configuração incorpora uma seção adicional de quase nove metros no casco, elevando o deslocamento em aproximadamente 800 toneladas em relação à versão original.

O espaço adicional amplia as possibilidades de configuração dos armamentos e equipamentos de missão. Entre as alternativas apresentadas estão lançadores adicionais de mísseis antinavio Exocet, células verticais para mísseis antiaéreos e opções de integração de armamentos de maior alcance. O volume também pode acomodar equipamentos para operações especiais, sistemas de controle de drones e módulos de missão.

É importante observar que essas configurações representam possibilidades de evolução do projeto, não uma configuração contratada ou já incorporada por alguma marinha. A proposta demonstra, entretanto, a flexibilidade da arquitetura da FDI e a intenção da Naval Group de oferecer uma plataforma capaz de acompanhar requisitos operacionais mais exigentes.

Essa evolução também reflete uma tendência da construção naval militar: ampliar a capacidade de combate de uma família de navios por meio de modificações estruturais e modulares, evitando que cada mudança de requisito exija necessariamente o desenvolvimento de uma nova classe.

Gowind: versatilidade e cooperação industrial

Na categoria das corvetas, a Naval Group apresentou a família Gowind, projetada para missões de defesa naval, proteção de águas jurisdicionais e segurança marítima. A plataforma integra sensores e armamentos por meio do sistema de gerenciamento de combate SETIS, desenvolvido pela própria empresa, e permite diferentes configurações conforme as necessidades de cada operador.

A Gowind foi selecionada por diferentes marinhas, somando 11 unidades escolhidas, segundo a fabricante. Um aspecto importante de sua trajetória é a construção local adotada em alguns programas, associada à transferência de tecnologia e à participação de empresas dos países compradores.

Esse modelo demonstra que a exportação de navios de combate pode ir além do fornecimento de uma plataforma pronta. A cooperação industrial permite desenvolver fornecedores, capacitar profissionais e criar competências nacionais que permanecem disponíveis após a entrega das embarcações.

Submarinos: Scorpène e Blacksword Barracuda

No segmento submarino, a Naval Group destacou duas famílias com características distintas. O Scorpène, submarino convencional multimissão, foi desenvolvido para operações antissuperfície e antissubmarino, coleta de informações e apoio a operações especiais. Sua combinação de discrição, sensores e armamentos permite atuar em diferentes cenários de guerra submarina.

A família possui uma relação direta com o Brasil por meio do Programa de Desenvolvimento de Submarinos (PROSUB), que viabilizou a construção de quatro unidades convencionais no país, com transferência de tecnologia e desenvolvimento de competências industriais em Itaguaí.

Já o Blacksword Barracuda representa uma proposta de submarino convencional de longo alcance e elevada autonomia, incorporando soluções derivadas da experiência da Naval Group com a família Barracuda. Entre seus principais diferenciais estão as baterias de íons de lítio, concebidas para ampliar a permanência submersa e oferecer maior flexibilidade operacional.

Em 2024, os Países Baixos encomendaram quatro unidades para seu programa de substituição de submarinos. A primeira entrega está prevista para 2033, o que posiciona o Blacksword como um programa contratado, mas ainda em desenvolvimento.

Frotas híbridas: navios e drones operando em conjunto

A integração de sistemas não tripulados foi um dos eixos centrais da apresentação. A Naval Group trabalha com soluções para o emprego de drones em missões de reconhecimento, vigilância, guerra de minas e guerra antissubmarino, procurando estabelecer uma arquitetura na qual diferentes plataformas possam compartilhar informações e atuar de maneira coordenada.

O conceito de frota híbrida apresentado pela empresa não se refere à propulsão dos navios, mas à combinação entre meios tripulados e não tripulados. Nesse modelo, drones aéreos, veículos de superfície e sistemas submersos podem ampliar o alcance dos sensores, executar tarefas específicas e complementar as capacidades dos navios e submarinos.

A efetividade dessa arquitetura, entretanto, depende de fatores que vão além da disponibilidade dos veículos. Comunicações seguras, interoperabilidade, autonomia, resistência à guerra eletrônica e integração com os sistemas de comando e controle serão determinantes para que os diferentes meios possam operar de maneira coordenada.

A proposta também exige atenção à vulnerabilidade das redes. Em um conflito de alta intensidade, a perda ou degradação das comunicações pode comprometer a coordenação entre plataformas. Por isso, a autonomia dos sistemas e a capacidade de continuar operando sob interferência eletrônica são requisitos tão importantes quanto o desempenho físico dos drones.

SCX26: o navio como centro de operações autônomas

A visão de futuro da Naval Group ganhou expressão no SCX26, conceito de navio de combate apresentado como projeto de pesquisa para explorar as necessidades das próximas gerações de forças navais.

Com aproximadamente 170 metros de comprimento e deslocamento estimado entre 8 mil e 10 mil toneladas, o conceito foi desenvolvido em torno do emprego de sistemas não tripulados. Sua arquitetura prevê um espaço de missão destinado ao lançamento, recolhimento, manutenção e apoio a diferentes tipos de drones.

A proposta é que o navio funcione não apenas como plataforma de combate, mas também como centro de coordenação de uma força híbrida, capaz de distribuir sistemas autônomos para missões de reconhecimento, guerra eletrônica, proteção e operações antissubmarino.

O SCX26 reúne soluções já conhecidas e tecnologias que ainda dependem de desenvolvimento. Entre os recursos explorados estão sensores avançados, grande capacidade de lançamento vertical de mísseis e sistemas de armas de nova geração.

O projeto permanece conceitual. Sua apresentação não significa que a Naval Group tenha iniciado a construção de uma nova classe ou que exista uma encomenda para sua produção. O interesse está na exploração de uma arquitetura que procura antecipar como os navios poderão atuar em forças navais cada vez mais distribuídas e dependentes da integração entre diferentes plataformas.

Rampart e a defesa contra drones

A expansão dos ataques com drones tornou a proteção das embarcações uma preocupação crescente. Sistemas não tripulados relativamente baratos podem obrigar navios sofisticados a empregar armamentos de custo elevado, criando um desequilíbrio econômico e operacional que exige novas respostas.

Nesse campo, a Naval Group apresentou o Rampart, sistema de autodefesa de curto alcance desenvolvido para enfrentar ameaças assimétricas, incluindo veículos não tripulados. Apresentado inicialmente como conceito em 2024, o projeto passou por um processo acelerado de desenvolvimento financiado pela própria empresa.

A proposta utiliza uma arquitetura aberta e escalável, com recursos destinados a apoiar a identificação e o enfrentamento de diferentes ameaças. A intenção é oferecer uma solução que possa acompanhar a evolução dos vetores de ataque e ser adaptada às características das plataformas protegidas.

A inteligência artificial também integra essa estratégia. Em 2025, a Naval Group adquiriu uma participação de 20% na cortAIx Factory France, estrutura da Thales dedicada ao desenvolvimento de inteligência artificial para sistemas críticos.

A aplicação desses recursos pode acelerar a análise de informações e apoiar a tomada de decisões em ambientes nos quais o volume de dados e a velocidade dos ataques pressionam as equipes de combate. A tecnologia, contudo, precisa ser acompanhada de testes, validação operacional e mecanismos de supervisão compatíveis com a criticidade das decisões envolvidas.

Modernização e disponibilidade operacional

A apresentação também contemplou soluções de modernização para navios de superfície, submarinos e embarcações logísticas. Em operações prolongadas, a disponibilidade dos meios torna-se tão importante quanto a incorporação de novas plataformas.

A atualização de sensores, sistemas de combate e equipamentos de missão permite prolongar a vida útil das embarcações e preservar capacidades enquanto novos navios são construídos. Essa abordagem também procura adaptar os ciclos de manutenção às exigências de frotas submetidas a maior intensidade de emprego.

O tema tem relevância para marinhas que precisam equilibrar a renovação de suas forças com restrições orçamentárias e limitações industriais. A modernização planejada, associada à manutenção e à gestão do ciclo de vida, pode evitar que plataformas ainda úteis percam capacidade operacional por falta de atualização ou suporte.

Oportunidades para o Brasil: capacidade de combate e continuidade industrial

A apresentação da Naval Group na Euronaval 2026 oferece elementos importantes para o debate sobre o futuro da Marinha do Brasil. A relação construída no PROSUB demonstra que a cooperação com a indústria francesa já produziu resultados concretos em transferência de tecnologia, formação de profissionais e desenvolvimento de capacidade industrial em território nacional.

Mas as oportunidades não se limitam ao segmento submarino. A evolução da FDI, especialmente sua configuração ampliada, merece ser acompanhada como uma possível alternativa para complementar o processo de renovação da força de superfície brasileira.

O Programa Fragatas Classe Tamandaré representa um passo importante nessa direção. A primeira unidade já foi incorporada à Esquadra e a Marinha mantém o planejamento de um segundo lote de quatro navios, cuja viabilização depende da continuidade das etapas contratuais.

Uma eventual aquisição de FDI não precisaria substituir ou interromper esse programa. Poderia ser estudada como uma segunda linha de escoltas, com maior porte e capacidade de combate, acrescentando à Esquadra recursos mais robustos para determinadas missões, especialmente no campo da defesa antiaérea e da proteção de forças-tarefa.

A combinação de diferentes classes permitiria distribuir melhor as tarefas operacionais, ampliando o número de meios disponíveis e evitando concentrar todas as necessidades da Marinha em uma única plataforma. Naturalmente, essa decisão exigiria uma análise de custos, logística, treinamento, armamentos, interoperabilidade e sustentabilidade ao longo de todo o ciclo de vida.

Há também uma dimensão industrial que merece atenção. A Itaguaí Construções Navais, criada no contexto do PROSUB, acumulou experiência na construção e manutenção de submarinos. Em 28 de outubro, a EMGEPRON divulgou um memorando de entendimentos firmado com a ICN para estudar oportunidades conjuntas em construção, conversão, modernização, manutenção, reparação e extensão da vida útil de embarcações desenvolvidas pela empresa ou por seus parceiros.

Esse entendimento não representa um contrato para construção, tampouco comprova que a estrutura de Itaguaí esteja imediatamente preparada para receber uma nova linha de produção. Abre, entretanto, uma perspectiva para avaliar a ampliação das atividades da ICN e o aproveitamento de competências já desenvolvidas no Brasil.

Uma eventual participação da ICN em um programa de construção de navios de superfície poderia contribuir para manter demanda industrial, preservar mão de obra especializada, ampliar a participação de fornecedores brasileiros e dar continuidade ao conhecimento acumulado durante o PROSUB. Para isso, seriam necessários estudos de viabilidade, adaptações de infraestrutura, definição do conteúdo local e um modelo consistente de transferência de tecnologia.

A mesma lógica se aplica às tecnologias apresentadas na feira. Sistemas não tripulados, defesa contra drones, sensores, inteligência artificial e modernização de plataformas são áreas nas quais a indústria brasileira poderia buscar participação, seja por meio de integração local, desenvolvimento conjunto ou fornecimento de componentes e soluções.

A Euronaval 2026 mostrou que a transformação do combate naval não está restrita à criação de novos navios. Ela envolve a capacidade de conectar plataformas, distribuir sensores, integrar sistemas autônomos e manter os meios disponíveis diante de ameaças cada vez mais complexas.

Para o Brasil, o desafio é transformar essas tendências em planejamento de longo prazo. A continuidade das Tamandaré, a avaliação de uma segunda classe de fragatas, o aproveitamento da estrutura industrial de Itaguaí e a incorporação gradual de novas tecnologias precisam ser considerados dentro de uma mesma estratégia.

A experiência acumulada com a França oferece uma base para essa discussão. O próximo passo é avaliar como essa cooperação pode contribuir não apenas para fornecer novos meios à Marinha, mas também para ampliar a capacidade nacional de projetar, construir, integrar e sustentar os sistemas que comporão o Poder Naval brasileiro nas próximas décadas.


por Angelo Nicolaci

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Taurus e Marinha firmam acordo para desenvolver tecnologias de defesa voltadas aos Fuzileiros Navais

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Cooperação amplia aproximação entre a indústria nacional e o Corpo de Fuzileiros Navais, com estudos em armamentos, sistemas de defesa e plataformas não tripuladas.

A aproximação entre a indústria de defesa e as Forças Armadas brasileiras ganhou um novo capítulo com a assinatura de um Acordo de Cooperação Técnica entre a Taurus Armas S.A. e a Marinha do Brasil, por meio do Corpo de Fuzileiros Navais (CFN). O instrumento dá continuidade ao entendimento firmado em fevereiro de 2026 e estabelece condições para estudos e iniciativas conjuntas de pesquisa, desenvolvimento e inovação em tecnologias de interesse militar.

O acordo busca aproximar a experiência operacional dos Fuzileiros Navais da capacidade de engenharia e produção da Taurus. A proposta é identificar necessidades da tropa, estudar alternativas técnicas e avaliar oportunidades de desenvolvimento de equipamentos que respondam a requisitos concretos de emprego.

Entre as áreas contempladas estão armamentos, sistemas de defesa e tecnologias não tripuladas, incluindo plataformas aéreas e terrestres. A iniciativa acompanha uma transformação no ambiente operacional, no qual sistemas de reconhecimento, vigilância e obtenção de informações passaram a ocupar espaço crescente no planejamento e na execução das operações militares.

Da necessidade operacional à solução tecnológica

A participação do CFN permite que as demandas dos usuários estejam presentes desde as etapas iniciais dos estudos. Condições de emprego, confiabilidade, resistência, ergonomia, manutenção e integração com outros equipamentos são fatores que influenciam diretamente o desempenho de um sistema em campo.

Essa aproximação já vinha sendo construída desde fevereiro, quando a Marinha e a Taurus assinaram um Protocolo de Intenções. A participação da empresa em atividades realizadas durante as operações Furnas e Formosa, em 2026, também integrou esse processo, aproximando seus profissionais dos ambientes de adestramento e das necessidades da tropa.

O conhecimento acumulado pelos Fuzileiros Navais em operações anfíbias, ribeirinhas e terrestres oferece referências importantes para orientar o desenvolvimento de soluções destinadas a diferentes cenários. A experiência operacional, quando incorporada ao processo de engenharia, permite que os requisitos sejam definidos considerando não apenas o desempenho esperado, mas também as limitações e exigências do emprego real.

Sistemas não tripulados no horizonte da cooperação

A inclusão de plataformas aéreas e terrestres não tripuladas merece destaque entre os campos de interesse do acordo. Esses sistemas podem ampliar as capacidades de reconhecimento e vigilância, apoiar a obtenção de informações e oferecer alternativas para missões em ambientes de difícil acesso ou com maior exposição ao risco.

Seu desenvolvimento, entretanto, envolve desafios que vão além da plataforma física. Autonomia, alcance, capacidade de carga, resistência ambiental, comunicações e integração com sistemas de comando e controle são requisitos fundamentais para que esses equipamentos possam ser empregados de maneira eficiente em operações militares.

A possibilidade de estudar essas tecnologias em conjunto com o usuário final permite orientar os projetos desde sua concepção, aproximando as características técnicas das necessidades identificadas pelo CFN.

O comunicado, porém, não especifica quais modelos serão desenvolvidos, nem apresenta cronogramas, requisitos técnicos ou previsão de incorporação de novos equipamentos. A definição desses elementos dependerá do avanço dos estudos e das avaliações conduzidas no âmbito da cooperação.

Indústria nacional e autonomia estratégica

O acordo também se insere no esforço de fortalecimento da Base Industrial de Defesa (BID). O desenvolvimento de tecnologias no Brasil pode reduzir vulnerabilidades associadas à dependência externa, preservar conhecimento especializado e ampliar a capacidade nacional de projetar, produzir e aperfeiçoar equipamentos de interesse militar.

Para a Taurus, tradicionalmente reconhecida pela fabricação de armas leves, a aproximação com o Corpo de Fuzileiros Navais abre espaço para ampliar sua atuação em projetos de defesa e explorar novas competências tecnológicas. A experiência industrial da empresa, associada ao conhecimento operacional da Marinha, poderá criar oportunidades para desenvolver soluções com potencial de aplicação também em outros mercados.

Essa possibilidade de internacionalização, contudo, dependerá dos resultados alcançados, da maturidade dos sistemas e de sua competitividade diante das exigências do mercado internacional.

É importante distinguir a assinatura do acordo de uma decisão de aquisição. O ACT estabelece bases para cooperação técnica e desenvolvimento, mas não representa, por si só, uma encomenda ou compromisso de incorporação de equipamentos pela Marinha. Também não foram divulgados valores, cronogramas de execução ou projetos específicos já aprovados.

O avanço da parceria será medido pela capacidade de transformar demandas operacionais em projetos viáveis, submetidos a avaliações técnicas e testes que comprovem sua adequação ao emprego militar. É nessa passagem entre a necessidade identificada pela tropa e a solução entregue pela indústria que a cooperação poderá produzir resultados concretos para a capacidade operacional dos Fuzileiros Navais e para o desenvolvimento tecnológico da defesa brasileira.


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Marinha ativa IFC Atlântico Sul e amplia integração de informações para a segurança marítima regional

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Instalado no COMPAAz, novo centro busca conectar instituições brasileiras e estrangeiras, transformar dados dispersos em inteligência marítima e fortalecer a proteção de interesses estratégicos no Atlântico Sul.

A Marinha do Brasil ativou em 3 de novembro o Information Fusion Center (IFC) Atlântico Sul, estrutura instalada no Comando de Operações Marítimas e Proteção da Amazônia Azul (COMPAAz) no Rio de Janeiro. A iniciativa representa um avanço na articulação entre instituições nacionais e internacionais para acompanhar as atividades no mar, identificar riscos e ampliar a capacidade de compreensão do ambiente marítimo em uma região de crescente importância econômica e estratégica.

O desafio que motivou a criação do centro vai além da extensão geográfica. O Atlântico Sul concentra rotas comerciais fundamentais, linhas de comunicação marítima, atividades pesqueiras, exploração de petróleo e gás, infraestrutura energética e interesses de diferentes países. A proteção desse ambiente exige mais do que a disponibilidade de navios, aeronaves e sensores: depende também da capacidade de reunir informações provenientes de diferentes fontes, estabelecer correlações e transformar dados em conhecimento útil para a tomada de decisão.

Segundo a Marinha, a área de interesse do IFC alcança aproximadamente 40,3 milhões de quilômetros quadrados, abrangendo uma região marítima que ultrapassa os limites jurisdicionais brasileiros. Dentro desse contexto está a Amazônia Azul, com cerca de 5,7 milhões de quilômetros quadrados, espaço diretamente relacionado aos interesses nacionais, à exploração de recursos naturais e à proteção de infraestruturas essenciais à economia brasileira.

Essa distinção é importante: a dimensão anunciada para o IFC corresponde à sua área de interesse e cooperação, não a uma extensão de jurisdição brasileira ou à garantia de vigilância permanente sobre todo esse espaço. A proposta é construir uma rede de intercâmbio capaz de ampliar o conhecimento sobre atividades marítimas que, por sua natureza, frequentemente atravessam fronteiras e envolvem diferentes autoridades.

A cerimônia de ativação reuniu autoridades brasileiras, representantes de Marinhas de países da região, diplomatas e integrantes de instituições públicas e privadas. Para o ministro da Defesa, José Mucio Monteiro, a iniciativa representa um avanço para a segurança do Brasil e dos demais países do Atlântico Sul. A presença do Contra-Almirante Sacheus Randy Gonteb, Comandante da Marinha da Namíbia, também evidenciou a dimensão regional pretendida pelo projeto.

COMPAAz, SisGAAz e IFC: funções distintas em uma mesma arquitetura

Para compreender o alcance do novo centro, é necessário distinguir três estruturas que atuam de forma complementar: o COMPAAz, o Sistema de Gerenciamento da Amazônia Azul (SisGAAz) e o próprio IFC Atlântico Sul.

O COMPAAz é a estrutura de comando e coordenação das operações marítimas e da proteção da Amazônia Azul. Entre suas atribuições estão o desenvolvimento da Consciência Situacional Marítima, a produção de inteligência marítima, a promoção da governança integrada, o apoio ao planejamento e ao acompanhamento das operações e a coordenação das atividades de busca e salvamento.

O SisGAAz, por sua vez, constitui a infraestrutura tecnológica que sustenta essa capacidade, integrando sensores, plataformas, bases de dados e instituições. Seu papel é oferecer os meios para ampliar o conhecimento sobre o ambiente marítimo e apoiar a atuação da Marinha e de outros órgãos envolvidos.

O IFC acrescenta uma dimensão cooperativa e internacional a essa arquitetura. Sua finalidade é reunir, correlacionar, analisar e compartilhar informações de interesse marítimo com parceiros nacionais e estrangeiros, incluindo Marinhas, Guardas Costeiras, órgãos governamentais, empresas e centros especializados.

Essa diferenciação não é apenas conceitual. Ela ajuda a compreender que o IFC não substitui o COMPAAz, não é um novo sistema de sensores e tampouco assume as competências legais dos órgãos responsáveis pela fiscalização e pelo controle marítimo. Sua contribuição está em aproximar capacidades que, embora existentes em diferentes instituições, precisam funcionar de maneira mais integrada.

Em artigo publicado pelo próprio COMPAAz, o Contra-Almirante Luciano Calixto de Almeida Júnior, comandante da organização e futuro diretor do centro, apresentou essa relação como uma estrutura de sinergia entre comando, infraestrutura tecnológica e cooperação. A integração deve permitir que informações provenientes de diferentes atores sejam convertidas em conhecimento capaz de apoiar decisões e operações.

COMPAAZ

O IFC deverá produzir boletins periódicos, relatórios, estudos analíticos e avaliações sistemáticas do ambiente marítimo do Atlântico Sul. Esses produtos poderão subsidiar o planejamento e o emprego de navios, aeronaves e equipes de fiscalização, contribuindo para direcionar recursos às situações que demandem maior atenção.

Na prática, a capacidade de cruzar informações pode ajudar a identificar padrões atípicos de navegação, movimentações suspeitas, possíveis atividades ilícitas e ameaças a instalações marítimas. O resultado esperado é uma visão mais abrangente do cenário, permitindo que as autoridades competentes tenham melhores condições de avaliar ocorrências e coordenar respostas.

IORIS e a aproximação com a União Europeia

A construção dessa rede de cooperação já vinha sendo preparada antes da ativação do centro. Um dos instrumentos dessa aproximação é o IORIS (Indo-Pacific and Latin America Information Sharing), plataforma digital voltada ao compartilhamento seguro de informações e à coordenação entre instituições participantes.

Nos dias 30 de setembro e 1º de outubro, o COMPAAz recebeu servidores da Receita Federal para uma capacitação no emprego da ferramenta, com participação de um representante do EU-CRIMARIO, iniciativa da União Europeia dedicada ao fortalecimento da segurança e da cooperação marítima. A atividade também buscou formar multiplicadores da Receita Federal em diferentes Regiões Fiscais, ampliando a possibilidade de disseminação do conhecimento e de integração institucional.

Em 1º de outubro, a Marinha do Brasil assinou um Memorando de Entendimento com o EU-CRIMARIO, estabelecendo uma base para ampliar a capacitação, o intercâmbio de experiências e o compartilhamento de informações de interesse marítimo. O acordo também fortalece a cooperação relacionada ao desenvolvimento do IFC Atlântico Sul.

É importante compreender o papel do IORIS dentro dessa estrutura. A plataforma não é um radar, não detecta embarcações por conta própria e não substitui os sistemas de monitoramento. Sua função é oferecer um ambiente digital para que instituições autorizadas possam compartilhar informações, coordenar atividades e construir uma compreensão comum de determinadas situações.

O valor operacional dessa ferramenta depende, portanto, da qualidade dos dados disponibilizados, da participação efetiva dos parceiros e da existência de procedimentos que permitam transformar o intercâmbio em decisões coordenadas.

A aproximação com a União Europeia também demonstra que a construção de uma capacidade marítima mais abrangente não depende exclusivamente de investimentos em equipamentos. Capacitação, protocolos, confiança institucional e interoperabilidade são elementos igualmente importantes para que diferentes organizações possam atuar de maneira articulada.

A cooperação regional e a importância da ZOPACAS

A dimensão internacional do IFC está diretamente relacionada à necessidade de fortalecer mecanismos de cooperação entre os países do Atlântico Sul. A Zona de Paz e Cooperação do Atlântico Sul (ZOPACAS), criada em 1986 no âmbito das Nações Unidas, constitui uma das principais referências diplomáticas para a promoção da paz, da estabilidade e da cooperação nessa região.

A atuação do IFC pode contribuir para esses objetivos ao oferecer um ambiente de intercâmbio de informações e experiências entre Estados costeiros, respeitando suas respectivas competências e responsabilidades.

A participação de representantes estrangeiros na cerimônia de ativação sinaliza o interesse em construir essa articulação. Entretanto, o alcance efetivo da cooperação dependerá da adesão dos parceiros, da definição de procedimentos e da continuidade do compartilhamento de informações. A presença de representantes em uma cerimônia, por si só, não significa integração operacional automática entre as instituições de seus países.

Esse aspecto merece atenção porque a segurança marítima regional envolve desafios que dificilmente podem ser enfrentados isoladamente. Tráfico de drogas, pesca ilegal, contrabando, ameaças às infraestruturas energéticas, riscos ambientais e atividades suspeitas no mar exigem coordenação entre diferentes autoridades, muitas vezes de países distintos.

Ao contribuir para uma visão mais integrada dessas atividades, o IFC poderá fortalecer a capacidade de cooperação regional sem interferir nas atribuições soberanas de cada Estado.

Da integração de dados à capacidade de resposta

A ativação do IFC Atlântico Sul estabelece uma estrutura importante, mas seu verdadeiro valor será medido pelos resultados produzidos ao longo do tempo.

A existência de uma sala operacional equipada com estações de trabalho, sistemas de integração e visualização de dados representa a base física necessária para o funcionamento do centro. No entanto, tecnologia disponível não significa, automaticamente, consciência situacional plena. Para que a estrutura alcance seus objetivos, será necessário assegurar qualidade e atualização das informações, participação contínua dos parceiros, proteção dos dados compartilhados e profissionais capacitados para interpretar o cenário.

Também será fundamental estabelecer critérios claros de acesso, classificação e compartilhamento de informações, especialmente quando estiverem envolvidos dados sensíveis de natureza militar, policial ou estratégica. A cooperação internacional precisa avançar sem comprometer a proteção de informações nacionais nem a autonomia decisória das instituições participantes.

Outro ponto relevante será a capacidade de transformar os produtos analíticos do centro em orientações úteis para o emprego dos meios disponíveis. Identificar uma situação de interesse é apenas parte do processo. A resposta depende da comunicação com as autoridades responsáveis, da disponibilidade de recursos e da coordenação entre os órgãos envolvidos.

Nesse sentido, o IFC não deve ser avaliado apenas pela quantidade de informações que consegue reunir, mas pela qualidade das análises que produz e pela contribuição efetiva dessas análises para a tomada de decisão.

A ativação do centro representa, assim, um passo importante na evolução da arquitetura brasileira de segurança marítima. Ao conectar o COMPAAz, o SisGAAz e uma rede internacional de cooperação, a Marinha amplia as condições para acompanhar um ambiente que possui relevância direta para o comércio exterior, a segurança energética, a exploração de recursos naturais e a presença estratégica brasileira no Atlântico Sul.

O desafio agora será consolidar essa estrutura como um instrumento permanente de cooperação e produção de conhecimento. Em uma região na qual interesses econômicos, rotas estratégicas e infraestruturas críticas dependem da segurança dos espaços marítimos, a capacidade de compartilhar informações e compreender o que acontece no oceano tornou-se parte indissociável da proteção dos interesses nacionais.


por Angelo Nicolaci


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