sexta-feira, 16 de outubro de 2026

Globe Investimentos conclui aquisição da Avibras Aeroco e Bruno Dantas assume presidência executiva do conselho

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A Globe Investimentos concluiu a aquisição da totalidade do capital da Avibras Aeroco, empresa que reúne ativos industriais, instalações e tecnologias da tradicional fabricante brasileira de sistemas de defesa. Com a conclusão da operação, a holding de investimentos pessoais dos empresários Joesley e Wesley Batista passa a controlar a companhia por meio da Nova AVB, sua única acionista, mantendo o capital sob controle integralmente nacional.

Anunciada em 15 de outubro de 2026, a operação abre uma nova etapa para a empresa fundada em 1961, cuja recuperação industrial é relevante para a Base Industrial de Defesa (BID). O plano apresentado pela nova controladora prevê acelerar a retomada da produção em escala, cumprir compromissos e recuperar o crescimento, com prioridade para os mercados internacionais.

Bruno Dantas assume a posição de presidente executivo do Conselho de Administração (Executive Chairman), com a missão de apoiar a reconstrução da capacidade industrial e conduzir a estratégia de internacionalização. Segundo a empresa, as exportações deverão constituir o principal vetor de crescimento da Avibras Aeroco.

Dantas é advogado e atuou na presidência da Organização Internacional das Instituições Superiores de Controle (INTOSAI), entidade que reúne instituições de auditoria governamental de mais de 190 países. Também foi eleito para o Conselho de Auditores da Organização das Nações Unidas (ONU). A companhia destaca que essa experiência poderá contribuir para estabelecer relações institucionais com governos estrangeiros, interlocutores fundamentais no mercado internacional de defesa.

“A Avibras é um patrimônio tecnológico e industrial do Brasil, que voltará a fornecer tecnologia e equipamentos para todo o mundo graças à dedicação de engenheiros e técnicos que preservam o conhecimento da empresa nos seus anos mais difíceis”, afirmou Dantas.

O presidente da Avibras Aeroco, Sami Hassuani, ressaltou a preservação do conhecimento acumulado ao longo de mais de seis décadas. “Esta transação preserva muito mais do que as tecnologias e instalações da Avibras. Ela conserva a experiência, o conhecimento e a dedicação acumulados desde 1961 por uma força de trabalho altamente qualificada, que seguirá sendo fundamental para o sucesso da companhia”, declarou.

Recuperação industrial e relevância estratégica

A Avibras construiu sua posição na indústria de defesa brasileira a partir do desenvolvimento de sistemas de artilharia, foguetes, mísseis, veículos especiais e tecnologias de propulsão. Seu portfólio inclui o sistema ASTROS, reconhecido internacionalmente, além de soluções destinadas ao setor espacial civil.

A preservação dessas capacidades representa um aspecto relevante para a autonomia tecnológica brasileira. A recuperação de uma empresa com conhecimento acumulado em propulsão, integração de sistemas e desenvolvimento de armamentos não depende apenas da transferência de controle societário: exige capital, recomposição de equipes, fornecedores, infraestrutura produtiva e contratos que sustentem a operação.

A nova fase também terá de converter a intenção de priorizar exportações em encomendas efetivas. No mercado internacional de defesa, a abertura de novos países exige processos de negociação governamental, financiamento, garantias de fornecimento, suporte logístico e capacidade de cumprir prazos ao longo de todo o ciclo de vida dos sistemas.

A conclusão da aquisição estabelece, portanto, uma nova estrutura de controle para a Avibras Aeroco. O resultado estratégico dependerá da capacidade de transformar essa mudança em produção regular, preservação de empregos especializados, entrega de sistemas e conquista de novos mercados.

Para a Base Industrial de Defesa, a questão central passa a ser a execução do plano: recuperar a capacidade produtiva da empresa e converter seu patrimônio tecnológico em atividade industrial sustentável, contratos e exportações.


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ESCALA 6x1 E OS IMPACTOS SOBRE A BASE INDUSTRIAL DE DEFESA BRASILEIRA

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A redução da jornada de trabalho exige uma análise que considere produtividade, competitividade industrial e preservação das capacidades estratégicas nacionais

O debate sobre o fim da escala de trabalho 6x1 ganhou espaço na agenda nacional, mobilizando representantes dos trabalhadores, empresários, especialistas e formuladores de políticas públicas. Embora a discussão esteja frequentemente concentrada nos aspectos sociais e trabalhistas, suas possíveis consequências ultrapassam essas dimensões e alcançam setores estratégicos da economia brasileira.

Entre eles está a Base Industrial de Defesa (BID), cuja importância não se limita à geração de empregos, ao desenvolvimento tecnológico ou à produção de equipamentos militares. Trata-se de um conjunto de empresas, instituições e capacidades industriais diretamente relacionado à autonomia estratégica, à segurança e à soberania nacional. Nesse contexto, uma eventual alteração da jornada de trabalho exige uma avaliação criteriosa de seus efeitos sobre a estrutura de custos, a disponibilidade de profissionais especializados, a competitividade internacional e a continuidade dos programas estratégicos das Forças Armadas. Mais do que discutir a quantidade de horas trabalhadas, é necessário compreender como eventuais mudanças poderão afetar um setor industrial caracterizado por elevada complexidade tecnológica, ciclos prolongados de desenvolvimento e rigorosos requisitos de qualidade e certificação.

AS PARTICULARIDADES DA INDÚSTRIA DE DEFESA

A indústria de defesa apresenta características que a diferenciam de grande parte dos demais segmentos industriais. O desenvolvimento e a fabricação de aeronaves militares, sistemas de comando e controle, radares, equipamentos de guerra eletrônica, veículos blindados, armamentos e sistemas de comunicação exigem investimentos expressivos em pesquisa, desenvolvimento e inovação, além de infraestrutura industrial especializada.

São atividades que dependem de engenheiros, técnicos, pesquisadores e profissionais altamente qualificados, frequentemente submetidos a processos específicos de capacitação, certificação e habilitação. Outro aspecto relevante está relacionado aos contratos de fornecimento. Programas estratégicos de defesa normalmente envolvem compromissos de longo prazo, cronogramas rigorosos, requisitos técnicos complexos e condições comerciais previamente estabelecidas.

Diferentemente de setores que conseguem transferir rapidamente aumentos de custos aos consumidores, empresas da BID frequentemente possuem menor flexibilidade para renegociar preços, especialmente em contratos governamentais sujeitos a restrições orçamentárias.

Consequentemente, alterações relevantes na estrutura de custos trabalhistas podem produzir efeitos que ultrapassam os resultados financeiros das empresas, alcançando cronogramas de entrega, investimentos em inovação e capacidade de atendimento às necessidades operacionais das Forças Armadas.

CUSTOS INDUSTRIAIS E CAPACIDADE PRODUTIVA

Um dos principais pontos de atenção está relacionado ao possível aumento dos custos de produção.

É fundamental distinguir duas questões frequentemente tratadas como equivalentes: o fim da escala 6x1 e a redução da jornada semanal máxima de trabalho.

A substituição do regime de seis dias de trabalho por um de descanso não implica necessariamente uma redução uniforme da jornada de todos os trabalhadores. Seus efeitos dependerão das regras aprovadas, da distribuição das horas de trabalho e dos regimes atualmente adotados pelas empresas. Entretanto, caso a mudança seja acompanhada de uma redução da jornada semanal sem diminuição proporcional dos salários, haverá aumento do custo da hora trabalhada, ainda que a remuneração mensal permaneça inalterada.

Como referência, a passagem de uma jornada de 44 para 40 horas semanais representa uma redução de aproximadamente 9,1% nas horas contratadas e um aumento de 10% no custo salarial por hora, desconsiderando eventuais ganhos de produtividade e outros ajustes operacionais.

Esse aumento não significa, necessariamente, uma elevação equivalente do custo total de produção. O impacto dependerá da participação da mão de obra nos custos, da organização dos turnos, da capacidade instalada e das possibilidades de reorganização dos processos.

Nas atividades industriais que exigem continuidade operacional, como fabricação, montagem, integração, ensaios, manutenção e suporte logístico, a preservação dos níveis de produção poderá demandar contratações adicionais, redistribuição de equipes ou utilização de horas extraordinárias.

Para empresas que operam com margens reduzidas e contratos de longo prazo, esses ajustes podem representar desafios importantes.

A ESCASSEZ DE PROFISSIONAIS ESPECIALIZADOS

Outro aspecto particularmente sensível está relacionado à disponibilidade de mão de obra qualificada.

A BID depende de competências tecnológicas que não podem ser desenvolvidas rapidamente. Engenheiros de sistemas, especialistas em aviônicos, profissionais de software embarcado, técnicos em eletrônica, especialistas em integração e certificação representam apenas alguns exemplos de funções essenciais à continuidade dos programas industriais.

A formação desses profissionais exige tempo, investimentos e experiência prática, frequentemente adquirida ao longo de anos de participação em projetos de elevada complexidade.

Uma eventual redução da jornada poderá aumentar a necessidade de profissionais em determinadas operações, especialmente quando houver exigência de cobertura contínua ou manutenção da mesma quantidade de horas produtivas. Entretanto, ampliar equipes não significa apenas abrir novas vagas. É necessário encontrar profissionais disponíveis, capacitá-los e integrá-los aos processos produtivos, preservando requisitos de qualidade, segurança e rastreabilidade.

Por outro lado, jornadas mais equilibradas poderão contribuir para a atração e retenção de talentos, especialmente em um mercado no qual profissionais de engenharia e tecnologia encontram oportunidades em diferentes setores da economia.

Portanto, os resultados dependerão da capacidade das empresas de combinar novas formas de organização do trabalho com políticas consistentes de desenvolvimento e valorização profissional.

COMPETITIVIDADE INTERNACIONAL E EXPORTAÇÕES

A competitividade internacional constitui outra dimensão relevante dessa discussão.

Empresas brasileiras de defesa disputam oportunidades comerciais com organizações estrangeiras que frequentemente contam com escalas industriais superiores, maior previsibilidade de encomendas governamentais, instrumentos de financiamento e políticas de incentivo à inovação e às exportações.

Além disso, os concorrentes internacionais operam sob diferentes regimes trabalhistas, estruturas tributárias e condições de financiamento.

Nesse ambiente, aumentos de custos não acompanhados de ganhos correspondentes de produtividade podem reduzir a competitividade de produtos e sistemas desenvolvidos no Brasil.

O desafio torna-se ainda mais significativo quando consideramos que a internacionalização da BID é um instrumento importante para ampliar escalas de produção, reduzir a dependência das encomendas nacionais e preservar competências tecnológicas estratégicas.

As exportações de defesa não representam apenas receitas adicionais. Elas contribuem para sustentar linhas de produção, manter equipes especializadas e viabilizar investimentos que dificilmente seriam suportados exclusivamente pela demanda doméstica.

Assim, eventuais mudanças na legislação trabalhista precisam ser analisadas também sob a perspectiva da capacidade brasileira de competir em mercados internacionais altamente exigentes.

OS REFLEXOS SOBRE OS PROGRAMAS ESTRATÉGICOS

Os efeitos de uma eventual reorganização da jornada de trabalho também poderão alcançar os programas estratégicos das Forças Armadas. Projetos de desenvolvimento, modernização e integração de sistemas militares normalmente envolvem cronogramas extensos, diferentes fornecedores e elevados níveis de interdependência tecnológica. Atrasos em uma determinada etapa podem comprometer atividades subsequentes de integração, testes, certificação e entrega.

Caso mudanças na organização do trabalho resultem em restrições temporárias de capacidade produtiva, as empresas poderão enfrentar dificuldades adicionais para cumprir compromissos contratuais. Esse risco merece atenção especial em um ambiente no qual a indústria nacional já convive com oscilações orçamentárias, descontinuidade de encomendas e dificuldades para manter investimentos de longo prazo. A preservação da capacidade industrial instalada deve ser compreendida como um componente da prontidão estratégica do país.

Afinal, uma capacidade tecnológica ou industrial perdida não pode, necessariamente, ser recuperada no momento em que surge uma necessidade operacional.

A reconstrução de equipes, cadeias de fornecedores e conhecimentos especializados pode demandar anos e investimentos significativos.

PRODUTIVIDADE, INOVAÇÃO E MODERNIZAÇÃO INDUSTRIAL

Seria inadequado, entretanto, considerar a redução da jornada exclusivamente sob a perspectiva dos custos. Experiências de reorganização do trabalho em diferentes setores indicam que jornadas mais equilibradas podem, em determinadas condições, contribuir para a redução do absenteísmo, a melhoria do ambiente organizacional e o aumento da produtividade por hora trabalhada.

Na indústria de defesa, esses benefícios podem ser particularmente relevantes em atividades que exigem concentração, precisão técnica, capacidade analítica e elevado grau de responsabilidade.

Erros de engenharia, falhas de integração ou problemas de qualidade podem produzir consequências financeiras e operacionais muito superiores ao custo imediato da mão de obra.

Contudo, ganhos de produtividade não são automáticos e tampouco podem ser presumidos de maneira uniforme para todas as atividades industriais.

Em processos nos quais a produção depende diretamente do tempo de utilização de equipamentos, instalações e equipes especializadas, a redução das horas disponíveis poderá exigir investimentos adicionais para preservar os resultados. Nesse sentido, a discussão oferece uma oportunidade para acelerar iniciativas de transformação industrial, incluindo automação, digitalização, manufatura avançada, inteligência artificial aplicada aos processos produtivos e aperfeiçoamento dos sistemas de gestão. A questão central será transformar uma eventual mudança trabalhista em estímulo à modernização, evitando que ela represente apenas um acréscimo de custos.

UMA REALIDADE INDUSTRIAL HETEROGÊNEA

Também é necessário reconhecer que a Base Industrial de Defesa brasileira não constitui um conjunto homogêneo de empresas. O setor reúne desde grandes organizações industriais e integradoras de sistemas até pequenas e médias empresas especializadas em componentes, software, serviços tecnológicos e soluções de engenharia. Da mesma forma, nem todas as empresas utilizam a escala 6x1. Diversas atividades administrativas, de engenharia, pesquisa e desenvolvimento já operam em jornadas distribuídas ao longo de cinco dias semanais. Consequentemente, os impactos de uma eventual alteração legislativa serão distintos. Empresas com processos altamente automatizados poderão apresentar maior capacidade de adaptação, enquanto organizações intensivas em mão de obra especializada ou dependentes de operações contínuas poderão enfrentar dificuldades mais significativas. Pequenos fornecedores também merecem atenção, pois frequentemente possuem menor capacidade financeira para absorver custos adicionais ou realizar investimentos imediatos em modernização.

Essa heterogeneidade reforça a importância de mecanismos de transição, previsibilidade regulatória e avaliações setoriais que considerem as diferentes realidades produtivas.

O PAPEL DAS POLÍTICAS PÚBLICAS

A discussão sobre a jornada de trabalho não deveria ocorrer de maneira isolada das políticas nacionais de desenvolvimento industrial, inovação e defesa. Se o objetivo é conciliar avanços nas condições de trabalho com a preservação da competitividade, será necessário considerar instrumentos que favoreçam a adaptação das empresas.

Entre as possibilidades estão programas de qualificação profissional, incentivos à modernização tecnológica, linhas de financiamento para investimentos produtivos e mecanismos de transição compatíveis com a complexidade das operações industriais.

Igualmente importante será ampliar a previsibilidade dos investimentos públicos em defesa.

Uma indústria que depende de encomendas governamentais descontínuas enfrenta dificuldades adicionais para planejar contratações, desenvolver fornecedores e investir em novas tecnologias.

Nesse cenário, a combinação entre mudanças trabalhistas, restrições orçamentárias e baixa previsibilidade contratual poderá ampliar vulnerabilidades estruturais já existentes.

O desafio do poder público será construir soluções capazes de equilibrar os interesses dos trabalhadores, a sustentabilidade econômica das empresas e os objetivos estratégicos do Estado brasileiro.

Considerações finais: a soberania também depende da produtividade

O debate sobre o fim da escala 6x1 representa uma oportunidade legítima para discutir a evolução das relações de trabalho no Brasil. A melhoria da qualidade de vida dos trabalhadores, a valorização profissional e a busca por ambientes produtivos mais eficientes são objetivos relevantes e compatíveis com o desenvolvimento industrial.

Entretanto, quando essa discussão alcança a Base Industrial de Defesa, é indispensável incorporar uma dimensão adicional: a preservação das capacidades estratégicas nacionais.

O Brasil necessita de uma indústria de defesa tecnologicamente avançada, economicamente sustentável e internacionalmente competitiva. Precisa também preservar profissionais qualificados, manter cadeias produtivas e assegurar continuidade aos programas de interesse das Forças Armadas.

Por isso, eventuais alterações na jornada de trabalho devem ser acompanhadas de análises de impacto, planejamento de transição e políticas que estimulem ganhos efetivos de produtividade.

Não se trata de estabelecer uma oposição entre direitos trabalhistas e interesses da indústria, mas de reconhecer que ambos precisam avançar de maneira sustentável.

Afinal, a soberania nacional não depende exclusivamente de equipamentos militares ou de investimentos em defesa. Ela também depende da capacidade de desenvolver tecnologias, produzir sistemas complexos e preservar conhecimentos industriais estratégicos.

Na Base Industrial de Defesa, produtividade e competitividade não são apenas indicadores econômicos. São componentes fundamentais da autonomia tecnológica e da soberania brasileira.


Por Mauro Beirão


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GESTÃO DE PESSOAS NA INDÚSTRIA DE DEFESA EM TEMPOS DE POLARIZAÇÃO CULTURAL

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Nos últimos anos, poucas expressões adquiriram conotação tão política quanto “cultura woke”. Originalmente associada à atenção às desigualdades raciais e sociais, a expressão passou a ser empregada, especialmente nos Estados Unidos, para designar agendas de diversidade, identidade, gênero, equidade e inclusão, muitas vezes com sentido crítico ou pejorativo.

Na indústria de defesa, o debate tem outra natureza. Empresas do setor não operam apenas segundo tendências corporativas. Atendem governos e Forças Armadas, trabalham com tecnologias sensíveis e dependem de profissionais altamente especializados. Segurança, desempenho, confiabilidade, mérito técnico e cumprimento da missão permanecem critérios fundamentais.

A partir de 2025, a discussão deixou de ser apenas cultural e passou a produzir efeitos concretos sobre política pública e gestão empresarial.

A inflexão norte-americana

A mudança mais nítida ocorreu nos Estados Unidos. Em 21 de janeiro de 2025, o governo Donald Trump publicou a Executive Order 14173, que revogou diretrizes anteriores relativas a ações afirmativas de contratados federais e enfatizou o cumprimento das leis federais contra a discriminação. A medida alterou o ambiente regulatório das empresas fornecedoras do governo, inclusive no setor de defesa.

Parte do movimento no Pentágono já vinha do National Defense Authorization Act de 2024, que obrigou o Departamento de Defesa a reduzir e reestruturar cargos de DEI. Em maio de 2025, o próprio Departamento informou ter eliminado os escritórios e iniciativas restantes de Diversity, Equity and Inclusion, em cumprimento às novas diretrizes.

A mudança também alcançou grandes empresas do complexo industrial. Em 2025, a Lockheed Martin anunciou alterações em suas políticas de diversidade, incluindo o afastamento de metas e incentivos associados à representação demográfica e a revisão de grupos internos organizados em torno de identidades. A empresa afirmou manter iniciativas de recrutamento, desenvolvimento e retenção abertas a todos. O caso ilustra uma mudança de orientação, sem permitir generalizações automáticas sobre todas as empresas norte-americanas de defesa.

O retorno do mérito ao centro

A transformação principal não é o desaparecimento da diversidade nas organizações, e sim a mudança da linguagem e dos critérios usados para administrá-la.

Ganharam força conceitos como mérito, igualdade de oportunidades, desempenho, qualificação, excelência técnica e missão.

Na indústria de defesa, essa distinção é estrutural. Profissionais responsáveis por sistemas críticos de voo, guerra eletrônica, mísseis, radares ou comando e controle precisam ser selecionados e avaliados prioritariamente por competência comprovada. Nesses programas, decisões de pessoal afetam a confiabilidade dos sistemas, a segurança operacional e o cumprimento da missão. Da mesma forma, excluir candidatos qualificados de determinados grupos reduz artificialmente o universo de talentos.

A questão estratégica não deveria ser escolher entre “diversidade” e “meritocracia”. Deveria ser assegurar igualdade real de acesso e seleção rigorosamente baseada em competência, desempenho e potencial. Esse princípio permite ampliar a diversidade sem transformar características pessoais em substituto da qualificação.

Riscos simétricos

O primeiro risco ocorre quando políticas identitárias interferem em recrutamento, promoção ou avaliação. Quando a percepção interna é de que características demográficas pesam mais do que desempenho, surgem dúvidas sobre justiça organizacional, confiança na liderança e legitimidade das carreiras.

O segundo risco é o oposto: deixar que a reação aos excessos de algumas políticas de DEI leve ao abandono de iniciativas legítimas de igualdade de oportunidades. Isso seria especialmente contraproducente para a defesa.

O setor disputa engenheiros, especialistas em software, inteligência artificial, cibersegurança, sistemas autônomos, eletrônica e integração de sistemas. Limitar a base de recrutamento é restringir o recurso mais escasso da indústria: o talento qualificado.

Diversidade vira vantagem competitiva quando resulta da ampliação do universo de talentos e de processos justos, não quando substitui o mérito por critério identitário.

O problema do “woke washing”

Perdeu espaço também o que se pode chamar de “woke washing”: discursos sociais adotados sobretudo como instrumento reputacional, sem correspondência com cultura, práticas ou estratégia.

Em períodos de forte valorização de ESG e DEI, algumas organizações incorporaram posicionamentos sociais à comunicação mesmo quando o tema tinha pouca relação com o negócio. Na indústria de defesa, o envolvimento em disputas culturais é risco adicional. O setor exige equilíbrio institucional. Uma política consistente de pessoas deve apoiar-se em princípios permanentes: respeito, igualdade de oportunidades, não discriminação, desenvolvimento profissional e valorização de mérito e desempenho.

O Brasil segue outro caminho

Não cabe transpor automaticamente a experiência norte-americana. Até 2026, não houve no ambiente empresarial brasileiro uma reversão comparável.

Levantamentos recentes indicam continuidade das políticas de diversidade nas grandes organizações. Segundo os dados atribuídos à Pesquisa Ethos de Diversidade, Equidade e Inclusão 2025/2026, com 206 organizações, 90,29% incorporam ações de DEI ao planejamento estratégico, enquanto 89,32% relacionam diversidade e inclusão à sustentabilidade dos resultados. Esses indicadores descrevem práticas e percepções das organizações pesquisadas; não demonstram, isoladamente, impacto operacional mensurável.

Os números da B3 também descrevem trajetória distinta. Em 2026, das 290 empresas analisadas, 83% atendiam aos critérios de diversidade do Anexo ASG, ante 77% no levantamento anterior. São movimentos corporativos diferentes, em ambientes políticos e regulatórios diferentes.

E a indústria brasileira de defesa?

Para a Base Industrial de Defesa, o ponto relevante não é a disputa entre “woke” e “anti-woke”. É construir uma política de pessoas adequada às características estratégicas do setor.

Empresas brasileiras de defesa competem por talentos com tecnologia, financeiro, multinacionais, startups e o mercado internacional. Precisam preservar conhecimento acumulado em décadas, formar novas gerações e manter profissionais em programas que frequentemente ultrapassam vinte ou trinta anos.

Nesse contexto, idade, gênero, origem social ou outras características pessoais deveriam importar menos do que o que de fato determina o sucesso de programas complexos: competência, conhecimento, criatividade, experiência, capacidade de trabalhar em equipe, responsabilidade e compromisso com a missão.

Ao mesmo tempo, organização que tolera discriminação, assédio ou barreiras injustificadas desperdiça talentos e deteriora o ambiente profissional. O equilíbrio está aí.

Do debate ideológico para a gestão estratégica

Transformar recursos humanos em extensão de disputa ideológica é contraproducente. Em empresa de defesa, gestão de pessoas é capacidade estratégica.

Isso significa recrutar os melhores disponíveis, ampliar a base de talentos, oferecer oportunidades equivalentes, avaliar desempenho com critérios transparentes, preservar conhecimento crítico e criar condições para que profissionais diferentes trabalhem em torno de uma missão comum. Significa também medir resultados.

Programas de diversidade, treinamento e desenvolvimento devem ser avaliados também por indicadores concretos: atração e retenção de talentos, rotatividade, inovação, produtividade, segurança psicológica, formação de lideranças, transferência de conhecimento e desempenho dos programas.

Quando a política deixa de produzir resultado mensurável e passa a existir para sinalizar virtude ou posicionamento, deve ser reavaliada. Abandonar iniciativa eficaz só porque foi associada a determinado campo político é igualmente irracional.

Conclusão

A reação observada nos Estados Unidos desde 2025 mostrou como políticas corporativas associadas a agendas sociais podem ser revistas diante de mudanças políticas e regulatórias. Para a indústria de defesa, a lição é preservar critérios de gestão de pessoas consistentes, independentemente das oscilações ideológicas.

Isso não exige abandonar a diversidade nem enfraquecer a inclusão. Exige distinguir igualdade de oportunidades de critérios de seleção baseados em identidade, ampliar a base de talentos, combater a discriminação e reconhecer mérito e desempenho de forma objetiva.

Na indústria de defesa, que desenvolve sistemas complexos, opera tecnologias críticas e sustenta programas por décadas, gestão de pessoas não deve ser instrumento de ativismo corporativo. É parte da capacidade estratégica da organização.

Pessoas diferentes. Oportunidades iguais. Critérios objetivos. Mérito reconhecido. Missão em primeiro lugar.

Mais do que acompanhar tendências corporativas ou reagir a movimentos políticos, o desafio é atrair, desenvolver e preservar talentos. Na indústria de defesa, é a competência das pessoas, mobilizada em torno de uma missão comum, que transforma conhecimento, tecnologia e investimento em capacidade operacional e soberania.


Por Mauro Beirão 


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Saab lança demonstrador de veículo subaquático não tripulado para a Suécia

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A Saab, a Administração Sueca de Material de Defesa (FMV) e as Forças Armadas da Suécia desenvolveram e lançaram ao mar um demonstrador de Veículo Subaquático Não Tripulado de Grande Porte (LUUV, na sigla em inglês). O marco foi anunciado em 16 de outubro, menos de um ano após a contratação do projeto, e conclui a primeira fase de desenvolvimento, que incluiu ensaios no mar.

O projeto começou em agosto de 2025, quando a FMV contratou a Saab por 60 milhões de coroas suecas para desenvolver e demonstrar o conceito. A empresa ficou responsável pelo projeto, construção e testes do veículo, enquanto a agência sueca conduz o programa em cooperação com as Forças Armadas.

Concebido para operar sem tripulação e com diferentes níveis de autonomia, o LUUV deverá ampliar a capacidade de monitoramento de grandes áreas subaquáticas, contribuindo para a detecção de ameaças e a vigilância de infraestruturas críticas no leito marinho. Na fase inicial, o demonstrador foi projetado como uma plataforma de sensores e apoio à decisão, sem previsão de transportar armamentos.

Um dos elementos centrais do projeto é o Autonomous Ocean Core, sistema de controle autônomo desenvolvido pela Saab para veículos de superfície e subaquáticos. A integração dessa tecnologia, combinada à experiência da empresa em projeto de submarinos e integração de sensores, permitiu acelerar o desenvolvimento e levar o demonstrador do conceito aos testes no mar em menos de um ano.

Com a conclusão da primeira fase, o programa deverá avançar para o desenvolvimento de capacidades mais avançadas. Segundo a Saab, os resultados servirão de base para novos trabalhos em software, sensores e funções autônomas. A FMV informou que a próxima etapa inclui testes e avaliação em ambiente operacionalmente relevante.

“Este projeto demonstra como novas tecnologias podem ser rapidamente transformadas em valor operacional prático. O veículo subaquático não tripulado pode contribuir para maior autonomia, melhor consciência situacional e capacidades submarinas reforçadas”, afirmou Mats Wicksell, responsável pela área de negócios Naval da Saab.

O demonstrador também foi concebido para permitir operações em conjunto com plataformas navais existentes, incluindo submarinos. A experiência obtida deverá apoiar as autoridades suecas nas decisões futuras sobre aquisição e emprego operacional de sistemas subaquáticos autônomos. Até o momento, porém, não foi anunciada uma encomenda para produção em série nem definida uma data para entrada em serviço.

O avanço ocorre em um contexto de crescente atenção à proteção de infraestruturas submarinas, como cabos de comunicação e instalações energéticas. Para a Suécia, o LUUV representa uma oportunidade de avaliar como sistemas não tripulados podem ampliar a vigilância subaquática e complementar os meios navais existentes, sem substituir necessariamente as capacidades dos submarinos tripulados.


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Saab recebe encomenda de 1,3 bilhão de coroas suecas para novo computador do Gripen

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A Saab recebeu da Administração Sueca de Material de Defesa (FMV) uma encomenda de 1,3 bilhão de coroas suecas para desenvolver uma nova geração do computador de controle de voo do Gripen. O contrato, anunciado em 15 de outubro de 2026, prevê entregas durante 2030 e contempla os Gripen C/D e E/F.

O projeto prevê substituir o equipamento atual, originalmente desenvolvido para o Gripen A e que se aproxima do fim de sua vida útil tecnológica. Segundo a FMV, a continuidade da manutenção do sistema existente tornou-se um desafio, exigindo uma nova solução para garantir a sustentação da frota a longo prazo.

O computador de controle de voo é um componente central da aeronave, responsável por processar os comandos do piloto e controlar as respostas dos sistemas de voo. A nova geração deverá atender às exigências futuras de disponibilidade, desempenho e segurança de fornecimento, permitindo manter as capacidades do Gripen nas próximas décadas.

O desenvolvimento será conduzido pela Saab em estreita cooperação com a FMV. “O novo computador de controle de voo contribuirá para as capacidades e o desempenho do Gripen nas próximas décadas”, afirmou Marcus Wandt, responsável pela área de negócios Aeronautics da Saab.

A encomenda busca assegurar a continuidade operacional do caça diante da obsolescência de um componente crítico. A Saab e a FMV, entretanto, não divulgaram detalhes sobre a arquitetura do novo equipamento, os fornecedores envolvidos ou o cronograma de integração e certificação.

Embora o programa Gripen também inclua o Brasil, o comunicado não menciona participação da Força Aérea Brasileira, da Embraer ou de empresas brasileiras no desenvolvimento. Também não foi anunciada qualquer decisão sobre a incorporação do novo computador às aeronaves brasileiras.


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Alemanha aprova mais quatro fragatas MEKO A-200 DEU da TKMS

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O Comitê de Orçamento do Bundestag aprovou em 8 de outubro, a aquisição de mais quatro fragatas MEKO A-200 DEU para a Marinha alemã. A decisão amplia de quatro para oito unidades o programa conduzido pela TKMS e assegura a continuidade da produção em série nos estaleiros alemães.

A ampliação utiliza uma opção prevista no contrato original e permite aproveitar estruturas industriais, processos e cadeias de fornecimento já estabelecidos. Segundo a TKMS, a medida também oferece maior previsibilidade à indústria naval alemã, permitindo planejar a capacidade produtiva e a participação de fornecedores ao longo dos próximos anos.

As quatro primeiras fragatas já estão contratadas, e o programa entrou na fase de implementação. A entrega da primeira unidade está prevista para o final de 2029, com as demais sendo incorporadas em sequência. A TKMS classifica o programa como o maior contrato de embarcações de superfície de sua história.

Para Oliver Burkhard, CEO da TKMS, a aprovação representa um voto de confiança no trabalho realizado pela empresa e nos investimentos antecipados para preparar a produção. Segundo o executivo, a continuidade da série permitirá acelerar as entregas e contribuir para reduzir a lacuna de capacidade prevista na Marinha alemã.

A decisão também ocorre em meio à reorganização da capacidade industrial naval da Alemanha após o encerramento do programa de fragatas F126. A TKMS informou que avalia como integrar estaleiros e fornecedores que possam ter capacidade disponível, respeitando os requisitos contratuais e os compromissos assumidos com o cliente público.

Com oito fragatas previstas, o programa MEKO A-200 DEU ganha escala e continuidade industrial. Para a TKMS, a ampliação favorece o planejamento de longo prazo e a manutenção da cadeia de fornecimento nacional, enquanto a Marinha alemã busca assegurar a renovação de sua capacidade de combate naval.

A TKMS opera estaleiros em Kiel e Wismar, na Alemanha, e em Itajaí, no Brasil. A companhia desenvolve e constrói submarinos, navios de superfície militares e sistemas de eletrônica naval e segurança. Desde junho de 2025, a empresa utiliza oficialmente a denominação TKMS, após a reorganização de sua identidade corporativa.


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Helibras adere ao cluster aeroespacial de São José dos Campos e amplia oportunidades para fornecedores brasileiros

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A entrada da fabricante de helicópteros no Cluster Aeroespacial & Defesa Brasileiro busca aproximar a indústria de asas rotativas de mais de 150 empresas do setor. A iniciativa pode ampliar a participação de fornecedores nacionais, mas os resultados dependerão da conversão dessa aproximação em contratos, desenvolvimento tecnológico e negócios efetivos.

A Helibras oficializou em 14 de outubro sua adesão ao Cluster Aeroespacial & Defesa Brasileiro, iniciativa sediada no Parque de Inovação Tecnológica (PIT), em São José dos Campos (SP). A formalização amplia a aproximação entre a fabricante de helicópteros e empresas nacionais dos setores aeronáutico, espacial, de defesa e de sistemas não tripulados, com a perspectiva de fortalecer a cadeia de suprimentos e abrir novas oportunidades comerciais.

O acordo foi anunciado pelo PIT e pela Prefeitura de São José dos Campos em 15 de outubro. A cerimônia contou com a presença do presidente da Helibras, Amaury Cardoso Bastos, e de representantes do parque tecnológico e da administração municipal. 

A iniciativa busca ampliar a participação de empresas brasileiras no fornecimento de componentes, equipamentos e serviços para o mercado de helicópteros. Segundo o PIT, algumas companhias associadas ao cluster já integram a cadeia de suprimentos da Helibras. A adesão formal cria condições para aprofundar essa relação e identificar novos fornecedores capazes de atender às necessidades da fabricante.

Uma aproximação construída desde 2024

A entrada da Helibras no cluster é resultado de um processo de aproximação iniciado em 2024, por meio de ações conjuntas com a Airbus. O relacionamento avançou à medida que empresas associadas passaram a atender demandas da fabricante, criando condições para a formalização da parceria.

Com mais de 150 empresas associadas, número que chega a 160 segundo a Prefeitura de São José dos Campos, o Cluster Aeroespacial & Defesa Brasileiro reúne organizações com competências em diferentes etapas da cadeia produtiva, do desenvolvimento de projetos à fabricação de componentes e à prestação de serviços. Entre suas associadas estão empresas que fornecem para a Embraer e outros grandes fabricantes do setor.

A integração da Helibras amplia a presença do segmento de asas rotativas nessa estrutura. Para empresas que já atuam na cadeia aeronáutica, a aproximação pode representar uma oportunidade de diversificar clientes e aplicar competências existentes em novos produtos e serviços. Para companhias menores, a possibilidade de fornecer a uma fabricante ligada a um dos principais grupos aeroespaciais do mundo também pode estimular investimentos em processos, qualidade e certificação.

O coordenador do cluster, Kenzo Takatori, afirmou que a adesão fortalece a atuação da iniciativa no segmento de helicópteros e aproxima diferentes elos da cadeia produtiva, criando condições para novas oportunidades de negócios e desenvolvimento.

Helibras e a cadeia industrial brasileira

Fundada em 1978, a Helibras tem sede em Itajubá, Minas Gerais, e integra o grupo Airbus. A empresa se consolidou como a única fabricante de helicópteros a turbina do Hemisfério Sul e já entregou mais de 850 aeronaves no Brasil, das quais aproximadamente 700 permanecem em operação, segundo informações institucionais da companhia.

A fabricante emprega mais de 500 profissionais no país e mantém, além da unidade industrial em Itajubá, uma estrutura de manutenção e representação comercial em São Paulo, um centro de treinamento no Rio de Janeiro e um escritório de representação em Brasília. Sua atuação abrange os mercados civil, governamental e militar. 

A relação com a indústria nacional também está associada à transferência de tecnologia e à formação de fornecedores brasileiros. A Helibras informa que sua cadeia de suprimentos reúne dezenas de empresas nacionais, enquanto a indústria brasileira de helicópteros movimenta mais de US$ 200 milhões por ano, conforme os dados divulgados pela companhia e pela Prefeitura de São José dos Campos. 

No segmento militar, a empresa participa de programas estratégicos brasileiros, como o H-XBR, voltado à produção e à transferência de tecnologia para helicópteros de transporte e emprego geral. O programa prevê a participação da indústria nacional na produção, integração de sistemas, manutenção, suporte logístico e capacitação de pessoal. A ampliação da rede de fornecedores pode contribuir para esse ecossistema industrial, embora não tenha sido anunciado um vínculo específico entre a nova adesão ao cluster e contratos do H-XBR. 

O desafio é transformar aproximação em capacidade industrial

A adesão representa uma oportunidade para ampliar a integração entre a Helibras e fornecedores brasileiros, mas a efetividade da iniciativa dependerá de resultados concretos. A participação no cluster, por si só, não significa que novos contratos tenham sido assinados, que investimentos adicionais estejam garantidos ou que o conteúdo nacional dos helicópteros será automaticamente ampliado.

Para as empresas interessadas em integrar a cadeia de fornecimento, será necessário demonstrar capacidade técnica, qualidade, conformidade e competitividade. A própria Helibras mantém procedimentos específicos para a avaliação e a contratação de fornecedores, com requisitos de qualidade e diretrizes de conduta e fornecimento. 

O desafio será conectar as competências disponíveis no cluster às demandas reais da fabricante, identificar componentes e serviços que possam ser desenvolvidos no país e criar condições para que empresas nacionais avancem de fornecedoras pontuais a parceiras industriais de longo prazo.

Essa evolução também tem importância estratégica para a Base Industrial de Defesa. Ampliar a participação nacional na cadeia aeronáutica pode favorecer a retenção de conhecimento, a qualificação de profissionais e a capacidade de prestar manutenção e suporte às aeronaves em operação. Os ganhos, entretanto, dependem do nível de complexidade das atividades efetivamente transferidas aos fornecedores brasileiros e da continuidade dos negócios.

A entrada da Helibras amplia o alcance do Cluster Aeroespacial & Defesa Brasileiro e aproxima a indústria de helicópteros de um ecossistema industrial já consolidado em São José dos Campos. O próximo passo será demonstrar se essa conexão resultará em novos fornecedores homologados, contratos, desenvolvimento tecnológico e maior participação nacional na cadeia produtiva.

Mais do que reunir empresas, o objetivo estratégico é transformar a cooperação em capacidade industrial. É nesse resultado que a relevância da iniciativa deverá ser medida.


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quarta-feira, 14 de outubro de 2026

EDGE Group nomeia Giovanni D’Ambrosio para liderar operações na América Latina

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O EDGE Group anunciou Giovanni D’Ambrosio como novo gerente-geral para a América Latina. Ele sucede Tiago Silva e assume a responsabilidade de conduzir as operações do grupo na região, ampliar parcerias estratégicas e identificar oportunidades de negócios nos setores de defesa e tecnologia.

Engenheiro aeronáutico, com mestrado em Gestão da Qualidade Industrial e Executive MBA, D’Ambrosio possui experiência internacional nos setores aeroespacial, de defesa e industrial, com atuação em gestão de programas, industrialização, manufatura, desenvolvimento de fornecedores e expansão de negócios na Europa, América Latina e Oriente Médio.

Sua trajetória inclui a liderança do programa VBTP-MR Guarani 6x6, um dos principais projetos de veículos blindados do Exército Brasileiro. À frente do programa, participou das etapas de desenvolvimento, qualificação, industrialização e produção em escala, além de conduzir iniciativas de nacionalização da cadeia de fornecedores que superaram os requisitos de conteúdo local estabelecidos pelo Exército.

A experiência com o Guarani representa um diferencial para sua nova função, especialmente diante da importância do mercado brasileiro e das oportunidades de cooperação com as Forças Armadas e a indústria de defesa regional.

Segundo Miles Chambers, vice-presidente sênior de Negócios Internacionais do EDGE Group, a nomeação reforça a importância estratégica da América Latina para a empresa. O executivo também agradeceu a Tiago Silva por sua contribuição à atuação regional do grupo e destacou a experiência de D’Ambrosio em programas complexos de defesa e industriais.

Antes da promoção, D’Ambrosio ocupava o cargo de diretor de Desenvolvimento de Negócios para a América Latina, função na qual trabalhou na ampliação da presença comercial do EDGE Group e na construção de parcerias com governos, Forças Armadas e empresas do setor.

A mudança coloca à frente da operação regional um executivo com experiência direta em um dos principais programas de blindados do Brasil. O desafio será transformar esse conhecimento do mercado latino-americano em novas oportunidades comerciais, parcerias industriais e projetos alinhados às necessidades de defesa da região.


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Ministério da Defesa dos EAU, EDGE Group, Exército Brasileiro e IMBEL ampliam cooperação em defesa

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O Ministério da Defesa dos Emirados Árabes Unidos, o EDGE Group, o Exército Brasileiro e a Indústria de Material Bélico do Brasil (IMBEL) assinaram uma Carta de Intenções para ampliar a cooperação em defesa, com foco na modernização do Exército Brasileiro, no desenvolvimento tecnológico e industrial e na avaliação de futuros programas conjuntos.

O entendimento prevê discussões sobre soluções para atender às necessidades da Força Terrestre e ampliar as oportunidades de cooperação entre as indústrias de defesa dos dois países.

A iniciativa se apoia no Acordo de Cooperação em Defesa firmado entre Brasil e Emirados Árabes Unidos em 2014 e no acordo de 2019 sobre intercâmbio e proteção mútua de informações e materiais classificados.

Embora a Carta contemple os campos militar, operacional, industrial, tecnológico e comercial, ainda não foram divulgados sistemas de interesse, valores, cronogramas ou contratos decorrentes da iniciativa.

Modernização e indústria de defesa

A aproximação reúne as necessidades operacionais do Exército Brasileiro, a capacidade industrial da IMBEL e as tecnologias oferecidas pelo EDGE Group. A participação do Ministério da Defesa dos Emirados Árabes Unidos dá dimensão governamental à iniciativa e estabelece um canal para aprofundar as negociações bilaterais.

Segundo Hamad Al Marar, diretor-geral e CEO do EDGE Group, o grupo pretende mobilizar suas tecnologias, seus engenheiros e sua estrutura industrial para apoiar a modernização do Exército Brasileiro e contribuir para o desenvolvimento de capacidades nacionais de defesa.

O próximo passo será identificar projetos de interesse comum e definir as condições para sua eventual execução. Para o Brasil, o principal desafio será converter a aproximação em resultados concretos para o Exército e para a Base Industrial de Defesa, com oportunidades de desenvolvimento tecnológico e participação efetiva da indústria nacional.


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Elbit Systems instalará na Suécia seu primeiro centro europeu de sistemas de alerta laser

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A Elbit Systems pretende estabelecer na Suécia seu primeiro centro europeu de produção e manutenção de sistemas de alerta laser (LWS). Com entrada em operação prevista para 2027, a unidade será responsável por atividades de montagem, integração, manutenção e suporte técnico aos equipamentos destinados a clientes europeus.

A iniciativa amplia a estrutura industrial da empresa no continente e prevê a criação de capacidade local para atender às necessidades de forças armadas europeias e de países membros da OTAN. Segundo a companhia, a produção e a manutenção regionais deverão contribuir para reduzir prazos de entrega e ampliar a disponibilidade dos sistemas.

O centro também deverá incorporar transferência de tecnologia e fortalecer as capacidades industriais e tecnológicas locais. A Elbit, porém, não detalhou o volume de produção previsto nem quais componentes serão fabricados na Suécia.

Sistemas voltados à autoproteção militar

A unidade trabalhará com a nova geração de sistemas passivos de alerta laser da empresa, desenvolvidos para detectar e localizar ameaças desse tipo e fornecer às tripulações tempo para adotar medidas de proteção.

Os equipamentos foram projetados para se integrar a sistemas de comando e controle existentes. Segundo a Elbit, a arquitetura descentralizada reduz o número de componentes, limita a necessidade de modificações nas plataformas e aumenta a robustez da solução.

Os sistemas LWS da companhia já são empregados por forças armadas de diferentes países e integram conjuntos de autoproteção de plataformas militares. O comunicado, contudo, não identifica os modelos que serão atendidos pelo futuro centro sueco nem os clientes que utilizarão a estrutura.

Presença industrial no norte da Europa

Criada em 2020, a Elbit Systems Sweden conta com mais de 100 funcionários e funciona como polo regional das atividades da empresa no norte da Europa. A subsidiária também participa de programas de defesa e digitalização em apoio às Forças Armadas suecas.

Para Tobias Wennberg, CEO da Elbit Systems Sweden, a nova instalação permitirá ampliar a capacidade da empresa de desenvolver, fornecer e produzir localmente, além de oferecer suporte de longo prazo aos clientes da região.

A entrada em operação, prevista para 2027, marcará a expansão das atividades industriais da Elbit na Suécia. O alcance efetivo dessa capacidade dependerá dos detalhes de implementação e do nível de produção e transferência tecnológica que serão estabelecidos para a unidade.


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A DEFESA ANTIAÉREA MODERNA

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A defesa antiaérea moderna constitui um sistema complexo e integrado, projetado para proteger o espaço aéreo e infraestruturas estratégicas contra ameaças variadas. A arquitetura de defesa é estruturada em camadas concêntricas e escalonadas por altitude para garantir a máxima eficácia operacional.

No estrato de longo alcance e alta altitude, operam os sistemas estratégicos capazes de interceptar alvos a dezenas de quilômetros de altura, como o sistema russo S-400 Triumf e o americano MIM-104 Patriot.

A média altitude é guarnecida por baterias móveis de emprego tático, responsáveis por negar o espaço aéreo a aeronaves de ataque e mísseis, contando com meios de destaque como o NASAMS e o Buk-M3.

Já a baixa altitude e a curtíssima distância formam a defesa de ponto crucial contra ameaças rápidas e de voo rasante, utilizando sistemas portáteis (MANPADS) como o FIM-92 Stinger e o Igla-S.

Com a proliferação dos conflitos assimétricos, a defesa antiaérea contra drones tornou-se um dos maiores desafios táticos dos exércitos atuais. Para neutralizar esses veículos não tripulados, empregam-se abordagens multifacetadas que vão desde a guerra eletrônica até o combate cinético direto.

A supressão eletrônica atua logo na fase inicial de aproximação utilizando equipamentos de interferência (jammer portáteis como o sistema antidrone da empresa brasileira ADTECH). Essas tecnologias bloqueiam os enlaces de comunicação entre o operador e o drone ou corrompem os dados de navegação por satélite, o GPS.

Quando o drone opera de forma autônoma e resiste às contramedidas eletromagnéticas, o teatro de operações exige o emprego imediato da supressão cinética.

A supressão cinética consiste na destruição física do alvo através do uso de artilharia antiaérea tradicional de tiro rápido, a exemplo do canhão autopropulsado Gepard.

Nos cenários onde o enxame de drones rompe as barreiras eletrônicas e de mísseis táticos, entra em cena a última proteção da defesa antiaérea. Essa camada final é composta por sistemas de proteção ativa de ponto de última linha, como os canhões rotativos do sistema C-RAM (Phalanx) e armas de energia direcionada a laser.

Tais sistemas de defesa de ponto concentram o poder de fogo final para estilhaçar o vetor inimigo a escassos metros do alvo a ser defendido.

Em suma, uma defesa antiaérea eficiente, que vai proporcionar a sobrevivência no campo de batalha contemporâneo e a proteção de civis e instalações críticas dependerá da sinergia perfeita entre a vigilância estratégica, supressão eletrônica e os modernos meios de contra-drone.

Na camada de supressão eletrônica, os sistemas antidrones da empresa brasileira ADTECH, o SIMAD, tem se mostrado como um dos melhores do mundo. O SIMAD é um sistema que combina em um único equipamento, a detecção eletrônica, a detecção para drones FPV, a Detecção por radar, a supressão de sinais de rádiofrequencia e a supressão de sinais GPS. Pequeno, compacto e de fácil montagem e instalação, o SIMAD pode realizar a supressão unidirecional ou omnidirecional de qualquer drone, nas faixas de frequência mais utilizadas no mundo, Em testes em campo, tal supressão atingiu até 10km. Um marco na tecnologia Brasileira. 


Por: MARCOS VENICIO MENDONÇA


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terça-feira, 13 de outubro de 2026

Arábia Saudita intensifica ofensiva contra os houthis após ataques a Riad e à Aramco

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Mísseis e drones atingem infraestrutura estratégica saudita, enquanto bombardeios contra instalações de combustível no Iêmen ampliam o risco de uma guerra regional e pressionam a defesa aérea do reino

A escalada entre a Arábia Saudita e os houthis entrou em uma nova fase nesta terça-feira (13), após uma sequência de ataques contra território saudita, incluindo um ataque letal ao Aeroporto Internacional Rei Khalid, em Riad, e o lançamento de um míssil contra um edifício administrativo do complexo da Saudi Aramco, em Dhahran. Em resposta, a coalizão liderada por Riad ampliou sua campanha aérea no Iêmen, atingindo instalações de combustível em áreas controladas pelo movimento.

A sequência de ataques e retaliações revela uma mudança importante na dinâmica do conflito: a infraestrutura civil, energética e logística passou a ocupar posição central na confrontação. O objetivo de ambos os lados é impor custos ao adversário, mas a ampliação dos alvos aumenta o risco de novas vítimas civis, interrupções econômicas e envolvimento de outros países.

A crise ocorre após o agravamento dos combates entre os houthis, que controlam extensas áreas do Iêmen e contam com apoio iraniano, e as forças iemenitas apoiadas pela Arábia Saudita. A retomada das hostilidades comprometeu entendimentos anteriores de redução da violência e reabriu uma frente de instabilidade que afeta diretamente a segurança do Golfo e das rotas marítimas do Mar Vermelho.

Ataques houthis ampliam a pressão sobre a Arábia Saudita

O episódio mais grave ocorreu em 10 de outubro, quando um ataque contra o Aeroporto Internacional Rei Khalid, em Riad, matou pelo menos 12 pessoas e deixou mais de 300 feridos, segundo as autoridades sauditas. Os houthis reivindicaram a autoria. Foi o terceiro ataque contra o aeroporto naquela semana, após outros incidentes que provocaram vítimas e danos a uma aeronave comercial saudita.

No dia seguinte, um novo projétil atingiu o Terminal 4 do aeroporto, provocando um incêndio e matando uma pessoa, além de ferir outras 11. As defesas sauditas também anunciaram a interceptação de um míssil de cruzeiro nas proximidades do complexo aeroportuário. Diante da sequência de ataques, as operações do aeroporto foram suspensas, com interrupções e cancelamentos de voos e alertas de segurança para viajantes e companhias aéreas.

Os houthis ampliaram a pressão ao advertir companhias aéreas, trabalhadores e passageiros contra a utilização de aeroportos e do espaço aéreo saudita. O grupo também ameaçou instalações petrolíferas, incluindo estruturas ligadas à Aramco, procurando transformar a vulnerabilidade da infraestrutura crítica em instrumento de pressão sobre Riad.

Nesta terça-feira (13), um míssil atribuído aos houthis atingiu um edifício administrativo do complexo da Aramco em Dhahran, no leste da Arábia Saudita. O ataque provocou um incêndio e danificou os três andares superiores de uma torre de escritórios, sem registro de vítimas, segundo a Reuters. A instalação é relevante para a supervisão das extensas operações petrolíferas da companhia.

O significado estratégico dos ataques vai além dos danos materiais. A repetição de incursões contra aeroportos e instalações energéticas força a Arábia Saudita a distribuir seus recursos defensivos por diferentes regiões e a manter elevado nível de alerta sobre alvos civis e econômicos. Mesmo quando os projéteis são interceptados, destroços podem causar danos e colocar a população em risco.

A resposta de Riad: ataques contra instalações de combustível

A reação saudita ganhou intensidade nesta terça-feira, quando a coalizão liderada por Riad anunciou uma operação contra instalações que, segundo seu comando, seriam utilizadas pelos houthis para apoiar suas operações militares.

Antes dos bombardeios, a coalizão emitiu alertas para que civis deixassem áreas próximas à estação central de combustível de Al-Sabaha, em Sana’a, capital iemenita, e a outras instalações. Em seguida, foram relatadas explosões na região. A operação também atingiu depósitos e estruturas de armazenamento e transporte de combustível em Ras Isa, na província de Hodeida, e em Dhamar, segundo informações divulgadas pela coalizão e pela imprensa regional.

O comando saudita sustenta que os houthis utilizam instalações civis e recursos energéticos para sustentar ataques com mísseis e drones e ameaçar a navegação internacional. A ofensiva busca, portanto, atingir parte da infraestrutura logística que permite ao movimento manter suas operações.

A escolha desses alvos, porém, envolve riscos. Instalações de combustível são essenciais para o funcionamento de transportes, hospitais, geradores e cadeias de abastecimento. Mesmo quando a justificativa militar é a degradação da capacidade adversária, os efeitos sobre a população dependem da extensão dos danos, da disponibilidade de alternativas e da duração das interrupções.

Após os ataques sauditas, o porta-voz houthi Yahya Saree voltou a ameaçar instalações petrolíferas e aeroportos do reino, afirmando que haveria uma resposta caso a ofensiva prosseguisse. A sequência expõe o principal risco da atual dinâmica: cada operação destinada a reduzir a capacidade do adversário pode gerar novos ataques contra alvos estratégicos do outro lado.

Defesa aérea saudita sob pressão

A Arábia Saudita dispõe de sistemas modernos de defesa aérea e de um dos maiores orçamentos militares do mundo. Ainda assim, a sequência de ataques expôs dificuldades para proteger simultaneamente aeroportos, centros urbanos e instalações energéticas distribuídas por um território extenso.

A questão não se resume à capacidade de interceptar um míssil isolado. Uma defesa eficaz precisa detectar e classificar ameaças, acompanhar diferentes vetores, distribuir interceptadores e manter cobertura sobre diversos alvos ao mesmo tempo. A combinação de drones e mísseis, lançados em ondas ou contra pontos distintos, pode elevar a pressão sobre sensores, centros de comando e estoques de interceptadores.

A Associated Press observou que, apesar de seu arsenal avançado, a Arábia Saudita enfrenta dificuldades para conter a recente onda de ataques. A extensão territorial do reino, a dispersão de sua infraestrutura crítica e as táticas assimétricas dos houthis tornam a proteção integral particularmente complexa.

O ataque ao aeroporto de Riad é especialmente relevante por atingir uma instalação civil de grande porte e provocar elevado número de vítimas. O episódio também levanta questionamentos sobre os sistemas de alerta, a coordenação da defesa e a capacidade de reduzir a exposição da população em caso de novas ameaças.

Isso não significa que a defesa aérea saudita tenha deixado de funcionar: as autoridades anunciaram diversas interceptações. O problema é que a interceptação de parte das ameaças não impediu que outras atingissem alvos importantes. O desempenho do sistema deve, portanto, ser avaliado tanto pela capacidade de neutralização quanto pela proteção efetiva das instalações e da população.

O Irã e o risco de internacionalização

O apoio iraniano aos houthis acrescenta uma dimensão regional à crise. Teerã mantém relações políticas e militares com o movimento, mas essa ligação não permite concluir que cada ataque seja ordenado diretamente pelo governo iraniano. A capacidade dos houthis de conduzir operações próprias também precisa ser considerada na análise.

O conflito, contudo, está conectado a uma disputa mais ampla envolvendo o Irã, os Estados Unidos e seus parceiros regionais. Uma participação militar direta de Washington na campanha saudita ampliaria os recursos disponíveis contra os houthis, mas também poderia expor bases e interesses norte-americanos a novas retaliações.

A diplomacia ainda representa uma possível via de contenção. Segundo a imprensa internacional, o chanceler iraniano Abbas Araghchi ofereceu mediação entre Teerã, Riad e os houthis após os ataques ao aeroporto saudita. A iniciativa ocorre justamente quando a continuidade das operações militares reduz o espaço para negociações e eleva o custo político de qualquer recuo.

Para a Arábia Saudita, a decisão é delicada: responder com força suficiente para recuperar a capacidade de dissuasão, sem desencadear uma campanha que prolongue a guerra e amplie o número de alvos ameaçados. Para os houthis, manter a pressão sobre a infraestrutura saudita pode impor custos e ampliar sua influência, mas também aumenta a probabilidade de ataques contra áreas sob seu controle.

O impacto sobre o petróleo e as rotas marítimas

A presença da Aramco entre os alvos amplia a importância econômica da crise. A companhia administra uma infraestrutura que inclui campos de produção, oleodutos, refinarias, terminais e instalações de exportação. Um ataque a um edifício administrativo não significa, por si só, que a produção ou as exportações tenham sido interrompidas; até o momento, os relatos sobre o incidente em Dhahran indicam danos ao edifício, sem vítimas.

O risco estratégico está na possibilidade de a campanha alcançar instalações diretamente ligadas à produção, ao processamento ou ao transporte de petróleo. Ataques recorrentes podem elevar os custos de segurança, afetar a confiança dos mercados e aumentar o prêmio de risco associado ao fornecimento regional. O impacto efetivo sobre os preços dependerá da extensão dos danos, da continuidade das exportações e da percepção de risco dos operadores.

O Mar Vermelho acrescenta outra variável. A proximidade das áreas controladas pelos houthis com o estreito de Bab el-Mandeb, passagem entre o Golfo de Áden e o Mar Vermelho, permite que a instabilidade no Iêmen afete uma das principais rotas comerciais internacionais. Uma ameaça persistente à navegação pode levar armadores a rever itinerários, elevar os custos de seguro e aumentar o tempo de transporte entre a Ásia e a Europa.

A campanha militar saudita tem, assim, implicações que ultrapassam a disputa bilateral. Quanto mais a confrontação se desloca para infraestrutura energética e corredores marítimos, maior é o potencial de afetar o comércio e a segurança econômica de países que não participam diretamente do conflito.

Uma escalada cujo resultado permanece incerto

A sequência dos últimos dias revela uma dinâmica perigosa: os houthis intensificaram os ataques contra aeroportos e infraestrutura saudita; Riad respondeu com bombardeios contra instalações de combustível no Iêmen; e o movimento voltou a ameaçar novos alvos. Nenhum dos lados demonstrou, até agora, capacidade de encerrar rapidamente a campanha ou eliminar a possibilidade de novas retaliações.

A superioridade militar saudita oferece capacidade para sustentar operações aéreas, mas não garante, isoladamente, a neutralização de uma força que emprega meios relativamente dispersos e táticas assimétricas. Da mesma forma, a capacidade houthi de atingir alvos estratégicos não elimina a vulnerabilidade do movimento diante de uma campanha aérea prolongada.

O próximo estágio dependerá da eficácia dos ataques sauditas contra a infraestrutura militar e logística dos houthis, da capacidade do reino de proteger seus principais alvos e da disposição dos aliados de Riad em ampliar seu envolvimento. A evolução da situação em Taiz e nas áreas costeiras do Iêmen também será relevante para avaliar se a crise permanecerá concentrada em ataques de longo alcance ou se haverá uma expansão das operações terrestres.

O principal risco agora é a consolidação de um ciclo de ataques e retaliações no qual aeroportos, instalações energéticas e rotas marítimas se tornem alvos recorrentes. Para Riad, recuperar a dissuasão exige mais do que responder a cada ataque: será necessário reduzir a capacidade ofensiva houthi e proteger a infraestrutura crítica sem ampliar a guerra a ponto de comprometer a segurança regional que pretende restabelecer.


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