quarta-feira, 7 de outubro de 2026

Romênia encomenda 12 helicópteros H225M da Airbus para substituir frota de Puma

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A Romênia assinou um contrato para aquisição de 12 helicópteros multimissão Airbus H225M, ampliando o programa de renovação de sua aviação militar e dando início à substituição dos IAR-330 Puma atualmente empregados pela Força Aérea Romena.

O acordo foi firmado com a Direção-Geral de Armamento da França (DGA) no âmbito da iniciativa Security Action for Europe (SAFE), mecanismo da União Europeia criado para apoiar investimentos de grande escala destinados a acelerar a prontidão de defesa dos Estados-membros e reduzir lacunas consideradas críticas de capacidade.

Os novos H225M serão empregados em operações convencionais e especiais, substituindo progressivamente os Puma, cuja frota inclui aeronaves produzidas na Romênia sob licença da Aerospatiale. A aquisição representa, portanto, uma mudança significativa na capacidade de transporte e emprego de forças da Romênia, com a introdução de uma plataforma de maior porte e alcance na frota.

O contrato também amplia a participação industrial da Romênia no programa. A Airbus mantém presença no país há mais de duas décadas, enquanto a cooperação com a IAR, fabricante local de helicópteros, deverá contribuir para o fortalecimento das capacidades industriais associadas ao H225M.

“Estamos honrados pelo fato de a Romênia ter escolhido o H225M para fortalecer suas capacidades de defesa”, afirmou Matthieu Louvot, CEO da Airbus Helicopters. Segundo o executivo, a parceria com a IAR também deverá ampliar as capacidades industriais romenas.

A Força Aérea Romena já possui experiência com plataformas derivadas da família Super Puma. Além dos IAR-330 Puma, o país havia anteriormente contratado dois H215M em configuração naval. Com os 12 H225M, a Romênia passa a integrar também a comunidade internacional de operadores do modelo.

A aquisição dos H225M é o segundo contrato firmado pela Romênia com a Airbus Helicopters no âmbito da iniciativa SAFE. Recentemente, o país também encomendou sete H160 e cinco H145 destinados a missões de serviços públicos.

A Airbus informa que mais de 350 helicópteros H225 e H225M estão atualmente em serviço, acumulando mais de um milhão de horas de voo. A família é utilizada por operadores militares e governamentais em diferentes regiões, incluindo Brasil, França, Hungria, Indonésia, Iraque, Kuwait, Malásia, México, Marrocos, Países Baixos, Singapura e Tailândia.

Para a Romênia, a chegada do H225M representa a modernização de uma capacidade construída em torno do Puma e acrescenta uma plataforma multimissão de maior porte à estrutura de aviação militar do país. O programa também reforça a dimensão industrial das compras de defesa realizadas no âmbito do SAFE, combinando a renovação de capacidades militares com a participação da indústria europeia e das empresas nacionais dos Estados-membros.


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Primeiro Gripen E produzido no Brasil realiza voo inaugural em Gavião Peixoto

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A Embraer e a Saab realizaram nesta quarta-feira (7) o voo inaugural do primeiro caça F-39E Gripen produzido no Brasil pela Embraer. A aeronave decolou das instalações da empresa em Gavião Peixoto (SP) para uma missão destinada a verificar o desempenho dos principais sistemas e validar suas características de voo.

O voo marca uma nova etapa do programa Gripen no Brasil e, principalmente, da capacidade industrial construída no país desde a assinatura do contrato com a Força Aérea Brasileira (FAB) em 2014. Mais de uma década de transferência de tecnologia, treinamento e cooperação entre brasileiros e suecos resultou na criação de competências nacionais em engenharia, fabricação, integração e ensaios de aeronaves de combate.

A Embraer teve participação central no planejamento e na execução do voo inaugural. A missão foi conduzida por um piloto de testes da Saab e permitiu a coleta de dados que serão utilizados na continuidade da campanha de ensaios de voo de produção e aceitação, etapa que antecede a entrega da aeronave à FAB.

O primeiro F-39E Gripen fabricado no Brasil havia sido apresentado oficialmente em 25 de março, após a conclusão de sua montagem final pela Embraer. A aeronave integra o primeiro grupo de 15 unidades previstas para serem produzidas no país dentro do programa atualmente contratado.

Com a entrada de Gavião Peixoto na produção do caça, o Brasil passou a integrar de forma ainda mais ampla a cadeia industrial global do Gripen. A unidade da Embraer abriga a única linha de produção do modelo fora da Suécia e participa de uma rede que envolve fabricação, integração, testes e fornecimento de componentes e sistemas.

“Este voo do primeiro Gripen E produzido pela Embraer no Brasil é um marco histórico para a indústria aeroespacial e de defesa do país”, afirmou Bosco da Costa Junior, presidente e CEO da Embraer Defesa & Segurança. Segundo o executivo, o resultado consolida uma estratégia baseada na combinação da visão da FAB, da tecnologia da Saab e das capacidades brasileiras de engenharia e manufatura.

Para Marcus Wandt, head da área de negócios Aeronautics da Saab, o voo demonstra que a produção brasileira do Gripen alcançou um novo nível de maturidade. A avaliação da empresa sueca também aponta Gavião Peixoto como uma estrutura com potencial para sustentar novas atividades industriais relacionadas ao caça no Brasil.

O contrato original prevê 36 aeronaves para a FAB, sendo 28 Gripen E monoposto e oito Gripen F biposto. As entregas começaram em 2020 e, até o momento, dez aeronaves foram entregues à Força Aérea Brasileira.

A transferência de tecnologia constitui um dos principais elementos do programa. Engenheiros, técnicos e especialistas brasileiros passaram a trabalhar diretamente com equipes da Saab em atividades que abrangem desenvolvimento, engenharia, fabricação, integração e ensaios em voo. O processo transformou o conhecimento inicialmente transferido em capacidades industriais estabelecidas no país.

A próxima etapa para a aeronave que realizou o voo inaugural será a conclusão da campanha de ensaios de produção e aceitação. Depois de certificada como aeronavegável, será entregue à FAB e transferida para a Base Aérea de Anápolis (GO), onde deverá integrar o 1º Grupo de Defesa Aérea (1º GDA), unidade responsável pela operação dos F-39E Gripen atualmente em serviço.

O movimento também ganhou uma perspectiva de longo prazo em julho, quando Embraer e Saab assinaram um Memorando de Entendimentos (Heads of Agreement) para ampliar a cooperação e estabelecer as bases para negociações de novos contratos. A proposta contempla a potencial produção de mais 20 Gripen em Gavião Peixoto, com possibilidade de expansão futura e atendimento tanto ao mercado brasileiro quanto a oportunidades internacionais.

Caso essa perspectiva avance para contratos firmes, a capacidade instalada no Brasil poderá complementar a linha de montagem final da Saab em Linköping, na Suécia. O modelo amplia o papel de Gavião Peixoto dentro da arquitetura industrial do Gripen, deixando de ser apenas uma estrutura vinculada ao atendimento da FAB para se tornar potencialmente um segundo polo de produção do caça para o mercado global.

O primeiro voo do F-39E Gripen produzido no Brasil, portanto, representa mais do que a conclusão de uma aeronave. Ele coloca em operação uma capacidade industrial construída ao longo de mais de uma década e testa, na prática, a autonomia brasileira em uma das etapas mais complexas da fabricação de um caça moderno: integrar sistemas, realizar os ensaios iniciais e preparar a aeronave para sua aceitação operacional.


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Um gigante cercado de vulnerabilidades: o desafio de defender um Brasil continental

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Uma análise séria da defesa brasileira precisa começar por uma premissa que costuma desaparecer quando o debate se resume ao número de aeronaves, navios, carros de combate ou sistemas de armas disponíveis: a capacidade militar de um país não está limitada às plataformas que compõem suas Forças Armadas. Em um conflito convencional moderno, a capacidade de combater depende também daquilo que permite detectar uma ameaça, tomar decisões, movimentar tropas, abastecer unidades, gerar energia, manter comunicações, operar bases, produzir equipamentos e sustentar a atividade econômica e administrativa do Estado. A degradação dessas funções pode reduzir significativamente a capacidade nacional de resposta mesmo quando parcela relevante do inventário militar permanece fisicamente preservada.

Essa compreensão não é apenas uma construção teórica desta análise. O próprio Estado brasileiro reconhece que a segurança nacional depende da continuidade de uma rede de infraestruturas críticas. A Política Nacional de Segurança de Infraestruturas Críticas considera críticas as instalações, os serviços, os bens e os sistemas cuja interrupção ou destruição, total ou parcial, possa provocar impactos graves sobre a sociedade, a economia, o funcionamento do Estado ou sua segurança. Entre os setores abrangidos estão energia, comunicações, transportes, recursos hídricos, finanças e defesa.

O tratamento dado pelo governo a esse tema também demonstra que essas estruturas não podem ser analisadas isoladamente. O Gabinete de Segurança Institucional mantém grupos técnicos voltados ao diagnóstico, à avaliação de riscos, às interdependências e ao acompanhamento de setores como energia elétrica, petróleo e gás, transportes terrestres, aquaviários e aéreos, telecomunicações, finanças e defesa. Em 2026, o Comitê Nacional de Segurança de Infraestruturas Críticas avançou ainda na definição de orientações para os planos setoriais de segurança, enquanto permanece em curso o trabalho técnico sobre diferentes áreas consideradas estratégicas para a continuidade do Estado.

É nesse ponto que esta reportagem amplia o conceito de alvo estratégico. Não se trata simplesmente de identificar instalações que poderiam ser atacadas, mas de compreender quais funções nacionais, quando degradadas, podem produzir efeitos desproporcionais sobre a capacidade do país de manter sua defesa, sua economia e sua governança. Uma base militar, por exemplo, possui valor não apenas pelo equipamento que abriga, mas pela função que exerce dentro de uma rede maior de comando, vigilância, logística, manutenção e mobilidade. O mesmo raciocínio se aplica às estruturas de energia, combustíveis, transporte, comunicações, indústria de defesa e infraestrutura portuária ou aeroportuária.

Essa abordagem muda também a pergunta central. Em vez de perguntar apenas quantos meios de combate o Brasil possui, é necessário perguntar quantos deles podem ser empregados, por quanto tempo, com que sustentação logística e dentro de uma rede capaz de continuar funcionando sob pressão. É essa diferença entre possuir capacidades e conseguir preservá-las, conectá-las e regenerá-las que determina a resiliência estratégica de um país.

Para o Brasil, o problema assume dimensão ainda maior pela escala territorial, pela concentração de determinadas capacidades e pela extensão das redes que sustentam o funcionamento do Estado. A defesa de um país continental não depende apenas de possuir meios tecnologicamente avançados, mas de distribuí-los, conectá-los e mantê-los disponíveis em quantidade compatível com as áreas e funções que precisam ser protegidas. A questão central desta análise, portanto, não é simplesmente o tamanho do inventário militar brasileiro, mas a densidade e a resiliência da arquitetura que transforma esse inventário em poder de defesa efetivo.

A primeira vulnerabilidade é a própria concentração de funções estratégicas

A primeira vulnerabilidade estrutural da defesa brasileira está menos na existência de instalações estratégicas do que na concentração de funções em determinados corredores, complexos e redes. O Brasil possui dimensões continentais, mas sua população, atividade econômica, indústria, produção energética, infraestrutura logística, instalações militares e parcela relevante da Base Industrial de Defesa estão distribuídas de maneira bastante desigual pelo território. Essa configuração é racional do ponto de vista econômico: concentrar infraestrutura, mão de obra especializada, fornecedores, energia, transporte e serviços reduz custos e aumenta eficiência. O problema surge quando a mesma concentração passa a representar uma dependência estratégica, especialmente em uma situação de crise prolongada.

Em condições normais, uma rede altamente integrada tende a ser uma vantagem. Uma instalação industrial depende de energia e telecomunicações; a produção depende de transporte; o transporte depende de combustível e sistemas de controle; portos dependem de energia, comunicações, acessos terrestres e ferroviários; bases militares dependem de combustível, manutenção, abastecimento, transporte e conectividade. Essa integração permite que diferentes setores funcionem como partes de um mesmo sistema econômico. Em uma situação de conflito ou de grave crise, entretanto, a mesma interdependência pode fazer com que uma perturbação localizada ultrapasse rapidamente os limites da instalação afetada e produza consequências em outros setores.

O próprio Estado brasileiro reconhece formalmente esse problema. A Política Nacional de Segurança de Infraestruturas Críticas define como infraestrutura crítica aquela cuja interrupção ou destruição possa produzir impactos graves sobre a sociedade, a economia, a política ou a segurança do Estado, e estabelece ainda o conceito de interdependência como a relação de dependência ou interferência entre diferentes infraestruturas. A legislação também define resiliência como a capacidade de recuperação após uma situação adversa.

O Plano Nacional de Segurança de Infraestruturas Críticas vai além e determina que o estudo das interdependências e dos possíveis efeitos em cascata provocados por falhas é fundamental para o planejamento nacional. O documento prevê a busca de redundâncias e de planos alternativos justamente para reduzir a dependência entre infraestruturas e permitir que serviços essenciais continuem funcionando mesmo quando um de seus principais fornecedores deixa de operar. Isso significa que o próprio planejamento estatal reconhece que a proteção de uma infraestrutura não pode ser limitada ao perímetro físico de uma instalação: é necessário compreender a rede da qual ela depende e as funções que dependem dela.

Essa lógica pode ser aplicada diretamente à defesa nacional. Um complexo portuário, por exemplo, não deve ser analisado apenas como um conjunto de cais, terminais e equipamentos de movimentação de carga. Sua importância estratégica decorre também das conexões que o alimentam e das atividades que dependem dele: acessos rodoviários e ferroviários, fornecimento de energia, telecomunicações, combustíveis, serviços de navegação, armazenagem e uma cadeia industrial e logística que se estende muito além de seus limites físicos. A mesma lógica vale para grandes complexos industriais, centros de produção e distribuição de energia, instalações aeronáuticas e navais e estruturas que sustentam a movimentação de recursos essenciais. Quanto maior o número de funções concentradas e interligadas, maior tende a ser a importância sistêmica daquela rede.

É justamente por isso que quantidade de instalações não é sinônimo de redundância. Um país pode possuir diversas estruturas formalmente destinadas à mesma atividade e ainda apresentar baixa capacidade de substituição se elas dependerem das mesmas redes de energia, dos mesmos corredores logísticos, de poucos fornecedores especializados ou de uma infraestrutura de comunicações comum. Redundância real significa possuir alternativas capazes de assumir uma função quando o elemento principal deixa de operar. Em termos estratégicos, portanto, a pergunta relevante não é apenas “quantas instalações existem?”, mas “quantas alternativas existem para manter determinada função caso uma delas seja degradada?”.

Essa distinção é particularmente importante para um país continental. A grande extensão territorial brasileira pode funcionar como vantagem estratégica ao proporcionar profundidade geográfica, mas também aumenta o custo de substituir rapidamente uma capacidade perdida ou deslocar recursos para uma região distante. A existência de território não garante, por si só, capacidade de manobra. Entre uma capacidade disponível em determinada região e sua utilização em outra existem etapas de transporte, combustível, manutenção, comunicações, comando e controle, infraestrutura de apoio e tempo de deslocamento. Quanto mais concentradas estiverem essas funções, maior será a dependência de alguns poucos eixos para sustentar a resposta nacional.

O problema ganha outra dimensão quando se considera a Base Industrial de Defesa. Sistemas militares complexos não dependem apenas da plataforma entregue às Forças Armadas, mas de uma cadeia formada por fabricantes, fornecedores, componentes, eletrônica, software, manutenção, munições, infraestrutura de testes, logística e pessoal especializado. Uma interrupção relevante em qualquer elo pode limitar a capacidade de reposição ou manutenção mesmo que o equipamento militar continue disponível no inventário. Por isso, resiliência militar não significa apenas possuir armas e plataformas, mas também preservar a capacidade industrial e logística necessária para mantê-las operacionais durante uma crise.

O próprio governo vem tratando essa questão de maneira transversal. O GSI mantém grupos técnicos dedicados a setores como energia elétrica, petróleo e gás, transportes terrestres, transportes aquaviários, transporte aéreo, telecomunicações, finanças e defesa, justamente porque essas áreas possuem relações de dependência que não podem ser examinadas de forma isolada. Em 2026, o Comitê Nacional de Segurança de Infraestruturas Críticas também estabeleceu orientações para a elaboração dos planos setoriais de segurança, enquanto grupos de trabalho passaram a atuar sobre os diferentes setores considerados prioritários.

Há, portanto, uma mudança importante de perspectiva para a análise militar brasileira. A pergunta não deve ser apenas onde estão as Forças Armadas ou quantos meios de combate estão disponíveis, mas quais redes permitem que essas forças sejam empregadas, sustentadas e regeneradas durante uma crise. Energia, combustíveis, transporte, telecomunicações, infraestrutura aeroportuária e portuária, indústria, centros logísticos e sistemas de comando formam uma camada de suporte que normalmente permanece invisível quando se observa apenas o inventário de equipamentos militares. É essa camada que transforma plataformas isoladas em capacidade militar efetiva.

Essa concentração também cria um problema de prioridade para a defesa. Não seria racional tratar todas as instalações do território como se tivessem o mesmo valor estratégico, porque os recursos disponíveis para proteção são necessariamente limitados. A questão é identificar quais funções possuem maior impacto sistêmico, quais apresentam menor capacidade de substituição e quais dependências podem produzir efeitos em cascata. O objetivo de uma arquitetura defensiva eficiente não é tornar todo o território igualmente protegido, algo impraticável em um país da escala brasileira, mas garantir que as funções essenciais possuam suficiente redundância, dispersão, proteção e capacidade de recuperação para que uma crise localizada não se transforme em uma ruptura nacional.

É nesse ponto que a concentração de funções deixa de ser apenas uma característica econômica do território e passa a representar uma variável de defesa. Quanto maior a dependência de poucos corredores, sistemas ou complexos para manter determinada capacidade nacional, maior a necessidade de redundância, proteção e recuperação. Para o Brasil, essa equação é particularmente relevante porque a dimensão territorial amplia as distâncias, enquanto a concentração de determinadas capacidades reduz o número de alternativas disponíveis para responder rapidamente a uma perturbação.

A consequência estratégica é direta: a defesa brasileira precisa proteger não apenas plataformas militares, mas a rede que permite que essas plataformas continuem funcionando. Isso exige combinar monitoramento, defesa aérea e antiaérea, proteção de instalações, mobilidade, logística, cibersegurança, capacidade de recuperação e, sobretudo, alternativas para que uma única interrupção não comprometa uma cadeia inteira. A vulnerabilidade mais perigosa, portanto, não está necessariamente na instalação isolada, mas na dependência excessiva de uma função que possui poucas alternativas para ser substituída.

Energia: o alvo estratégico que sustenta todos os outros

Se existe uma função cuja interrupção pode produzir efeitos simultâneos sobre praticamente todos os demais setores estratégicos, ela é a energia elétrica. A defesa aérea precisa de radares, centros de comando, redes de comunicação e instalações operacionais; a defesa naval depende de bases, sistemas de apoio, manutenção, abastecimento e infraestrutura portuária; as forças terrestres dependem de logística, comunicações, oficinas, depósitos, sistemas de comando e transporte. A sociedade civil e a Base Industrial de Defesa também dependem da mesma infraestrutura. Por isso, a energia não deve ser analisada apenas como mais um setor crítico, mas como uma camada transversal que sustenta o funcionamento dos demais.

Essa característica é reconhecida pelo próprio Estado brasileiro. O Gabinete de Segurança Institucional inclui energia entre as infraestruturas críticas nacionais e estabelece que a interrupção ou o comprometimento desses serviços pode afetar a continuidade de serviços essenciais e produzir impactos sociais, econômicos, ambientais e institucionais. A Política Nacional de Segurança de Infraestruturas Críticas também determina que a segurança desses sistemas deve combinar medidas preventivas e reativas destinadas não apenas a evitar interrupções, mas a preservar ou restabelecer a prestação dos serviços.

O ponto central, portanto, não é simplesmente a quantidade de energia produzida pelo país. É a capacidade de todo o sistema de continuar fornecendo eletricidade quando parte de sua estrutura estiver submetida a uma condição adversa. Isso envolve geração, transmissão, distribuição, sistemas de supervisão e controle, telecomunicações operacionais, centros de operação e os recursos humanos e materiais necessários para manutenção e recomposição. Uma arquitetura energética resiliente precisa ser capaz de absorver uma perturbação, limitar sua propagação e recuperar rapidamente as funções afetadas.

Essa distinção é fundamental para uma análise de defesa. Uma interrupção de energia em determinado ponto não precisa produzir efeitos exclusivamente naquele local. Ela pode comprometer, direta ou indiretamente, sistemas de bombeamento, telecomunicações, processamento de dados, iluminação e climatização de instalações críticas, operações portuárias e aeroportuárias, sistemas de controle industrial, produção fabril, armazenamento refrigerado, abastecimento de combustíveis e uma extensa cadeia de serviços que dependem de alimentação elétrica contínua. Em uma crise prolongada, a consequência mais relevante pode não ser a interrupção inicial, mas a dificuldade de manter funcionando todos os sistemas que dependem daquela energia.

O setor militar acrescenta uma camada ainda mais sensível. Uma força armada moderna é profundamente dependente de infraestrutura elétrica para operar sensores, comunicações, sistemas de comando e controle, instalações de manutenção, oficinas, centros de dados, sistemas logísticos e estruturas de apoio. Mesmo equipamentos que possuem fontes próprias de energia continuam inseridos em uma cadeia maior que depende de eletricidade para manutenção, abastecimento, comunicações e reposição. A autonomia de uma plataforma individual, portanto, não equivale à autonomia da estrutura militar que permite empregá-la de forma sustentada.

A dependência também se estende à indústria. A fabricação de sistemas eletrônicos, componentes mecânicos, sensores, equipamentos de comunicação, munições e outros produtos de defesa exige processos industriais que dependem de fornecimento elétrico estável e de redes de fornecedores igualmente dependentes de energia. Em consequência, uma perturbação prolongada pode afetar simultaneamente a operação das Forças Armadas e a capacidade da indústria de reparar, produzir ou repor determinados sistemas. A resiliência militar passa, portanto, pela resiliência energética da própria cadeia industrial.

É justamente essa natureza sistêmica que explica a criação, no âmbito do GSI, do Grupo Técnico de Segurança de Infraestruturas Críticas do Setor de Energia Elétrica, com a finalidade de elaborar o diagnóstico nacional do setor. O modelo não está restrito à eletricidade: existem grupos técnicos dedicados também a petróleo, gás natural e biocombustíveis, além de outros segmentos considerados essenciais. Em agosto de 2026, o GSI informou que o diagnóstico nacional de segurança de infraestruturas críticas de energia elétrica já havia sido concluído e seria encaminhado ao Ministério de Minas e Energia.

A preocupação aparece também no planejamento específico do setor elétrico. O Ministério de Minas e Energia lançou, em fevereiro de 2026, a Agenda Estratégica Eletroenergética 2026, reunindo medidas preventivas interinstitucionais voltadas à segurança e à confiabilidade do suprimento. A iniciativa considera cenários operativos, evolução da matriz elétrica, comportamento da carga e riscos associados ao atendimento do sistema. Isso demonstra que a segurança energética já é tratada pelo próprio setor como uma questão de gestão de riscos e continuidade, e não apenas como uma questão de capacidade instalada.

Há ainda uma dimensão que não pode ser ignorada: a segurança cibernética. O sistema elétrico moderno depende de redes digitais para supervisão, controle, troca de informações e operação coordenada. A ANEEL estabelece requisitos específicos para segurança cibernética no ambiente regulado do setor, incluindo centros de operação dos agentes, equipamentos envolvidos no intercâmbio de dados e voz e o ambiente operativo do Operador Nacional do Sistema Elétrico. Isso significa que a superfície de risco do setor elétrico não se limita à infraestrutura física; ela também inclui os sistemas digitais que permitem monitorar e controlar essa infraestrutura.

Por essa razão, reduzir a vulnerabilidade energética não significa simplesmente proteger fisicamente instalações de geração ou transmissão. Uma arquitetura resiliente precisa combinar proteção física, segurança cibernética, redundância, capacidade de operação em condições degradadas, estoques de componentes críticos, equipes especializadas, meios de transporte e engenharia para reparos, além de procedimentos de recomposição do sistema. Quanto maior a dependência de equipamentos específicos ou de cadeias logísticas longas para recuperar uma função, maior o tempo potencial necessário para restaurá-la.

A questão da redundância merece atenção especial. Ter várias instalações não significa necessariamente possuir várias alternativas. Diferentes estruturas podem compartilhar corredores de transmissão, sistemas de comunicação, fornecedores, equipamentos especializados ou outras dependências comuns. Da mesma forma, a existência de capacidade instalada de geração não garante que ela possa substituir imediatamente uma função perdida em outra parte do sistema. A resiliência precisa ser medida pela capacidade efetiva de substituição e recuperação, e não simplesmente pelo número bruto de instalações existentes.

Esse conceito é particularmente importante para a defesa porque uma crise real provavelmente exigiria simultaneamente energia para as Forças Armadas, hospitais, telecomunicações, abastecimento de água, transportes, indústria, centros de dados e serviços públicos. A competição por recursos de emergência poderia aumentar justamente quando a capacidade de manutenção e reparo estivesse sob maior pressão. A segurança energética, portanto, precisa ser pensada como parte da capacidade nacional de sustentar operações essenciais durante uma crise prolongada.

O próprio Comitê Nacional de Segurança de Infraestruturas Críticas tem entre suas competências assegurar o planejamento integrado, promover a articulação entre setores e garantir a continuidade dos serviços prestados pelas infraestruturas críticas. Em 2026, o CNSIC aprovou ainda orientações para a elaboração dos planos setoriais de segurança, reforçando a necessidade de transformar diagnósticos de risco em mecanismos concretos de proteção e continuidade.

Para a defesa nacional, a conclusão é relevante: a proteção energética não pode ser tratada como uma questão exclusivamente do setor elétrico. Ela precisa integrar planejamento militar, defesa cibernética, proteção de infraestruturas críticas, logística, mobilização nacional e capacidade industrial. Uma força militar tecnologicamente avançada pode perder parte de sua capacidade operacional se a infraestrutura que fornece energia, comunicações, manutenção e suporte logístico não conseguir acompanhar a crise.

O problema estratégico brasileiro, portanto, não está em identificar uma determinada usina, linha ou instalação como elemento isolado de vulnerabilidade. Está em compreender as dependências que conectam o sistema energético ao restante do país e determinar onde existem alternativas suficientes para preservar sua função. A pergunta que interessa à defesa não é apenas quanto de energia o Brasil consegue produzir em condições normais, mas quanto de sua capacidade de fornecimento, distribuição e recuperação permanece disponível quando o sistema é submetido a uma crise simultânea em múltiplos setores.

É essa diferença entre capacidade instalada e capacidade resiliente que precisa entrar no cálculo da defesa nacional. Em um país continental, preservar a energia significa preservar a capacidade de detectar, comunicar, transportar, comandar, produzir, abastecer e combater. Por isso, a segurança energética deve ser tratada como uma das camadas fundamentais da própria arquitetura de defesa brasileira, e não como um problema separado dela.

Petróleo, gás e combustíveis: sem energia para mover a força, a força perde valor

Se a eletricidade sustenta grande parte das funções fixas de um Estado moderno, os combustíveis sustentam aquilo que precisa se mover. Aeronaves, navios, helicópteros, carros de combate, viaturas, caminhões, equipamentos de engenharia e grande parte dos meios empregados pelas Forças Armadas dependem de uma cadeia contínua de combustíveis. O mesmo ocorre com os sistemas civis que dão suporte à mobilização nacional: transporte rodoviário, ferroviário, aquaviário e aéreo, geração complementar de energia, atividades industriais e uma parcela significativa da distribuição de bens essenciais. Sem abastecimento regular, a capacidade militar deixa de ser determinada apenas pela quantidade de meios disponíveis e passa a ser limitada pela capacidade de mantê-los em movimento.

Essa é uma diferença fundamental entre possuir uma plataforma e possuir uma capacidade militar sustentada. Um carro de combate pode estar perfeitamente operacional, uma aeronave pode estar disponível para emprego e um navio pode estar pronto para navegar, mas todos dependem de combustível para transformar essa disponibilidade nominal em horas efetivas de operação. Quanto maior a intensidade da atividade militar, maior tende a ser o consumo e, consequentemente, a pressão sobre produção, armazenamento, transporte e distribuição. A logística energética passa, assim, a ser parte inseparável da própria capacidade de combate.

O sistema brasileiro de abastecimento de combustíveis é, por isso, uma infraestrutura estratégica que ultrapassa em muito o setor de petróleo. Ele envolve produção e refino, importação, terminais, armazenamento, transporte, distribuição e revenda, além de uma extensa rede de agentes e infraestruturas que conectam diferentes regiões do país. A ANP classifica o abastecimento nacional de combustíveis como atividade de utilidade pública e informa que o sistema reúne mais de 100 mil agentes econômicos em diferentes níveis da cadeia.

Essa dimensão ajuda a compreender por que a segurança do combustível não pode ser reduzida à existência de reservas ou à capacidade de produção. É necessário observar a capacidade de armazenar, movimentar e distribuir o produto até os pontos onde ele será efetivamente consumido. A ANP mantém, inclusive, dados sobre a capacidade de tancagem nacional por tipo de instalação, empresa, produto e localização, demonstrando que armazenamento é uma variável própria da segurança do abastecimento.

Para a defesa nacional, isso introduz uma questão adicional: tempo. Uma plataforma militar pode permanecer indisponível não porque esteja danificada ou tecnicamente incapaz, mas porque não recebeu o combustível necessário para continuar operando. Em uma situação de crise, portanto, a capacidade de resposta depende não apenas dos estoques existentes, mas da velocidade com que esses estoques podem ser repostos e deslocados para onde forem necessários. É a diferença entre possuir combustível no país e possuir combustível disponível no momento e no local em que a força precisa empregá-lo.

Essa distinção ganha importância em um território de dimensões continentais. A distância entre as áreas produtoras, refinadoras, armazenadoras e consumidoras cria uma dependência permanente de corredores logísticos. Rodovias, ferrovias, hidrovias, terminais e sistemas de distribuição passam a integrar a arquitetura energética da defesa. O próprio Ministério dos Transportes trata os corredores logísticos como elementos relevantes para o escoamento de cargas estratégicas e inclui, em seu planejamento, os combustíveis e aspectos relacionados à integração e à defesa nacional.

A vulnerabilidade, portanto, não está necessariamente concentrada em uma única instalação. Ela pode surgir da combinação entre diferentes elos da cadeia. Uma capacidade de armazenamento pode existir, mas depender de transporte para ser abastecida; uma região pode possuir demanda elevada, mas depender de fluxos provenientes de outras áreas; uma unidade militar pode possuir estoque próprio, mas depender de uma cadeia externa para sua reposição. Quanto mais longa e dependente for essa cadeia, maior será a importância de alternativas logísticas, estoques adequados e capacidade de recuperação.

É justamente essa interdependência que levou o GSI a criar um Grupo Técnico de Segurança de Infraestruturas Críticas específico para petróleo, gás natural e biocombustíveis. A missão atribuída ao grupo inclui a coleta de informações para avaliação dos riscos das infraestruturas críticas desse setor. Não se trata, portanto, de uma preocupação criada exclusivamente pela análise militar: o próprio sistema brasileiro de proteção de infraestruturas críticas reconhece petróleo, gás e biocombustíveis como uma área que exige avaliação específica de riscos.

O acompanhamento realizado pela ANP em 2026 oferece outro indicador importante. Em março, diante do cenário internacional, a Agência declarou Sobreaviso no Abastecimento de Combustíveis e passou a exigir informações sobre estoques e movimentações de gasolina e óleo diesel de produtores, distribuidores e importadores. A medida não significou, segundo a própria ANP, que houvesse naquele momento uma restrição ao abastecimento doméstico; seu objetivo era ampliar o monitoramento e antecipar possíveis problemas.

Esse episódio é relevante para a análise porque demonstra que segurança de abastecimento é uma questão de antecipação. Um sistema resiliente não espera que a escassez se materialize para começar a acompanhar estoques, fluxos e alternativas. Ele precisa conhecer previamente suas dependências, identificar onde existem restrições logísticas e estabelecer mecanismos que permitam redirecionar o abastecimento quando uma rota, fornecedor ou infraestrutura deixa de cumprir sua função.

A questão é ainda mais complexa quando se considera que as Forças Armadas não consomem combustível de maneira isolada da sociedade. Em uma mobilização de grande escala, as necessidades militares competiriam com as necessidades de transporte, agricultura, indústria, geração de energia e serviços essenciais. A disponibilidade nominal de combustível no território nacional não significa, portanto, que toda essa demanda possa ser atendida simultaneamente por tempo indefinido. A defesa precisa considerar a capacidade de priorização, distribuição e reposição em um cenário de elevada pressão sobre o sistema.

Essa realidade também ajuda a explicar por que a logística deve ser tratada como capacidade operacional, e não simplesmente como atividade administrativa. O Estado-Maior Conjunto das Forças Armadas possui entre suas atribuições o planejamento e a coordenação da logística e da mobilização para operações conjuntas, além da articulação do Sistema de Logística de Defesa e sua integração ao Sistema Nacional de Mobilização.

Há ainda uma dimensão industrial. Combustíveis não chegam às Forças Armadas apenas como produto final; dependem de uma cadeia que inclui equipamentos de armazenamento e transferência, veículos especializados, manutenção, componentes, sistemas de medição e controle e pessoal qualificado. A resiliência energética militar, portanto, depende também da capacidade nacional de manter os meios físicos necessários para armazenar, transportar e distribuir esses produtos durante uma crise.

O mesmo raciocínio vale para o gás natural e para os biocombustíveis. Embora possuam características logísticas distintas dos combustíveis líquidos empregados diretamente por grande parte dos meios militares, fazem parte da matriz energética e industrial brasileira e podem influenciar a disponibilidade de energia, transporte e atividade econômica. Por isso, o Estado os incorporou ao mesmo grupo técnico de segurança de infraestruturas críticas dedicado ao setor de petróleo.

A consequência para a defesa é clara: não basta calcular quantas aeronaves, navios, blindados ou veículos o Brasil possui. É necessário saber por quanto tempo esses meios podem permanecer operacionais sob diferentes níveis de atividade e quão rapidamente o sistema logístico consegue repor o combustível consumido. Uma força pode apresentar elevado poder de combate no inventário e, simultaneamente, possuir menor capacidade de sustentação se sua cadeia de abastecimento não tiver estoques, redundância, mobilidade e alternativas suficientes.

Isso leva a uma segunda dimensão da vulnerabilidade estratégica brasileira. A dependência não está apenas na existência física de infraestrutura energética, mas na concentração dos fluxos necessários para fazê-la chegar ao consumidor. Quanto maior a dependência de determinados corredores, terminais, capacidades de armazenamento, fornecedores ou meios de transporte, maior a necessidade de alternativas capazes de assumir a função em caso de interrupção.

Para a arquitetura de defesa, a resposta passa por uma combinação de estoques adequados, distribuição geográfica compatível com as necessidades estratégicas, diversificação de fornecedores e rotas, capacidade de transporte, proteção das infraestruturas críticas, segurança cibernética dos sistemas de controle, manutenção dos meios logísticos e capacidade de recuperação. O objetivo não é simplesmente impedir qualquer interrupção, algo que nenhuma infraestrutura complexa pode garantir, mas impedir que uma interrupção localizada evolua para uma perda prolongada de mobilidade nacional.

É nesse ponto que petróleo, gás e combustíveis deixam de ser apenas uma questão energética e passam a integrar diretamente o conceito de poder militar sustentável. Uma Força Armada precisa possuir meios para combater, mas precisa igualmente possuir os meios para movimentá-los, abastecê-los, mantê-los e reposicioná-los. Sem essa cadeia, parte do poder representado pelo inventário permanece apenas potencial.

A vulnerabilidade estratégica, portanto, não deve ser medida apenas pelo volume de combustível disponível no país, mas pela resiliência da rede que transforma esse volume em mobilidade efetiva. Para o Brasil, isso significa avaliar simultaneamente produção, armazenamento, distribuição, transporte, estoques, alternativas logísticas e capacidade de recuperação. Em uma crise de alta intensidade, a pergunta decisiva não será apenas quanto combustível existe, mas quanto dele poderá continuar chegando às forças e aos setores essenciais quando a rede estiver sob pressão.

Portos: a vulnerabilidade não está apenas no cais

Os grandes complexos portuários brasileiros constituem uma das interfaces mais importantes entre o território nacional e o sistema econômico internacional. Cerca de 95% do comércio internacional brasileiro é realizado por via marítima, segundo o Ministério de Portos e Aeroportos, o que transforma os portos em estruturas essenciais não apenas para exportação e importação, mas para o abastecimento e o funcionamento de diversas cadeias produtivas.

Essa importância faz com que um porto não possa ser compreendido apenas como um cais onde navios atracam. A função portuária resulta da integração de várias capacidades: atracação, movimentação de cargas, armazenagem, sistemas de controle, energia, telecomunicações, equipamentos especializados, segurança operacional e conexão com as demais estruturas que permitem que a carga chegue ao terminal e deixe a instalação depois de processada. A interrupção de qualquer uma dessas funções pode reduzir a capacidade operacional do conjunto, mesmo que o cais, os berços e os equipamentos principais permaneçam fisicamente preservados.

Essa característica é reconhecida pelo próprio planejamento estatal. Os Planos Mestres Portuários são definidos como instrumentos de planejamento de Estado voltados aos complexos portuários e consideram não apenas as instalações portuárias, mas também sua relação com a cidade e seus acessos. O atual Planejamento Integrado de Transportes organiza essa visão em diferentes níveis, conectando o Plano Nacional de Logística aos planos setoriais e aos instrumentos específicos de cada complexo.

Essa abordagem é importante para a defesa porque evidencia que a capacidade de um porto é uma função sistêmica. Um terminal pode possuir capacidade física para receber determinada quantidade de carga, mas sua capacidade efetiva depende de todos os elementos necessários para processá-la. Se houver restrições em energia, sistemas digitais, equipamentos de movimentação, armazenagem ou nos acessos imediatos, a capacidade nominal do terminal pode deixar de representar sua capacidade real de operação.

O problema se torna mais relevante quando se considera a diversidade das cargas movimentadas. Os portos brasileiros processam combustíveis, minérios, grãos, contêineres, veículos, insumos industriais e bens de consumo. Isso significa que a infraestrutura portuária participa simultaneamente de cadeias com características completamente diferentes e que atendem tanto ao comércio exterior quanto ao abastecimento do mercado interno.

Essa diversidade também aumenta a importância da continuidade operacional. Em uma situação de crise prolongada, o país precisaria preservar a capacidade de receber insumos que não possam ser integralmente obtidos no mercado doméstico, manter a entrada de componentes industriais e equipamentos e, ao mesmo tempo, continuar escoando parte relevante de sua produção. O porto funciona, nesse contexto, como uma interface entre a capacidade nacional de produzir e a capacidade de acessar mercados, insumos e recursos externos.

Para a defesa, essa função possui uma consequência adicional. A Base Industrial de Defesa e outros segmentos industriais dependem de cadeias de fornecedores que podem incluir componentes, matérias-primas, equipamentos e serviços provenientes de diferentes partes do mundo. A capacidade de manter essas cadeias operando durante uma crise depende, entre outros fatores, da continuidade das interfaces logísticas que conectam o país ao exterior. Não se trata de afirmar que um único porto seria indispensável para determinada cadeia, mas de reconhecer que a capacidade nacional de substituição entre diferentes portas de entrada e saída é uma variável de resiliência estratégica.

É justamente nesse ponto que aparece a diferença entre capacidade portuária e redundância portuária. Um país pode possuir muitos terminais e ainda apresentar dependências importantes se determinadas cargas, regiões ou cadeias produtivas tiverem poucas alternativas economicamente e operacionalmente viáveis. Redundância não significa simplesmente contar o número de portos existentes no mapa. Significa avaliar quantas estruturas conseguem assumir parte relevante da função de outra quando ocorre uma interrupção, qual é a capacidade disponível e quanto tempo seria necessário para realizar essa substituição.

O planejamento brasileiro já reconhece a necessidade de observar essa questão de forma integrada. O Plano Nacional de Logística 2050, lançado em agosto de 2026, passou a organizar a infraestrutura de transportes a partir de diferentes modais e identificou 31 eixos prioritários, enquanto o governo destacou a necessidade de preservar e recuperar os ativos que compõem os principais corredores utilizados para abastecimento, integração territorial e movimentação de cargas.

No caso específico dos portos, essa preocupação também aparece na criação de mecanismos para identificar gargalos antes que eles se transformem em limitações mais graves. Em setembro de 2026, o Ministério de Portos e Aeroportos anunciou o desenvolvimento do Monitoramento da Saturação Portuária, ferramenta destinada a identificar antecipadamente restrições de capacidade nos terminais e nos acessos terrestres e aquaviários. O objetivo declarado é ampliar a previsibilidade e orientar investimentos e novos projetos.

Esse dado é relevante para a análise de defesa porque demonstra que a vulnerabilidade portuária não está necessariamente associada à destruição física de uma estrutura. A saturação, a indisponibilidade de equipamentos, a perda de sistemas essenciais, a interrupção de energia ou a redução da capacidade de processamento podem produzir o mesmo efeito estratégico fundamental: diminuir a quantidade de carga que consegue atravessar aquela interface em determinado período.

Existe ainda uma diferença importante entre uma interrupção curta e uma perda prolongada de capacidade. Um porto pode absorver determinadas perturbações por meio de estoques, filas operacionais, reorganização de cargas e utilização de alternativas. Entretanto, quanto maior a duração do problema, maior tende a ser o impacto acumulado sobre navios, cargas, indústria, comércio exterior e cadeias de abastecimento. A resiliência portuária, portanto, não depende somente da capacidade de evitar uma interrupção, mas também da capacidade de operar em condições degradadas e recuperar rapidamente os níveis normais de serviço.

Essa recuperação exige recursos que normalmente permanecem invisíveis na análise convencional de segurança. Equipamentos de movimentação precisam de manutenção; sistemas digitais precisam permanecer disponíveis; instalações dependem de energia; áreas de armazenamento precisam continuar operacionais; equipes especializadas precisam estar disponíveis; e a administração portuária precisa conseguir reorganizar fluxos quando algum componente do sistema deixa de funcionar. A defesa da função portuária, portanto, envolve muito mais do que segurança física.

Há também uma dimensão de informação. A operação portuária moderna depende de sistemas digitais para planejamento, controle de cargas, documentação, comunicação e coordenação entre diferentes agentes. Quanto maior a digitalização, maior a necessidade de preservar a integridade e a disponibilidade desses sistemas. Uma instalação fisicamente preservada pode apresentar redução significativa de sua capacidade se seus processos digitais essenciais não estiverem disponíveis.

Por isso, a segurança portuária precisa ser pensada em camadas: proteção física, continuidade energética, segurança dos sistemas digitais, redundância de equipamentos, capacidade de manutenção, disponibilidade de pessoal especializado, alternativas de processamento e mecanismos de recuperação. O objetivo não é tornar cada componente invulnerável, mas impedir que a falha de um componente isolado provoque a perda prolongada da função do complexo.

Essa perspectiva também altera a forma de avaliar a importância estratégica dos portos. O valor de uma instalação não está apenas no volume de carga que movimenta em condições normais, mas na quantidade e na importância das funções que consegue sustentar, na existência de alternativas e na velocidade com que sua capacidade pode ser restaurada. Um terminal que movimenta grandes volumes pode ser economicamente importante; um complexo que concentra diferentes cadeias de abastecimento pode possuir importância sistêmica ainda maior.

Para o Brasil, essa questão é particularmente relevante porque a dimensão territorial e a distribuição desigual das atividades econômicas tornam a substituição de determinadas funções mais complexa. Quanto maior a distância entre uma infraestrutura portuária e as cadeias produtivas que dependem dela, maior a necessidade de alternativas capazes de absorver uma interrupção sem transferir o problema para outra parte da rede.

A conclusão, portanto, não é que os portos brasileiros sejam necessariamente frágeis, mas que sua importância estratégica exige que a continuidade de sua função seja tratada como uma questão de segurança nacional. O próprio Estado já trabalha com planejamento integrado, identificação de gargalos, monitoramento de saturação e avaliação de riscos no setor portuário. A questão de defesa é levar essa mesma lógica um passo adiante: avaliar não apenas a capacidade de cada complexo em condições normais, mas sua capacidade de continuar funcionando, degradar-se de maneira controlada e recuperar sua operação diante de uma crise prolongada.

Defender um porto, nesse sentido, não significa apenas proteger o cais. Significa preservar a capacidade nacional de receber, processar, armazenar e movimentar cargas através dessa interface. É a diferença entre proteger uma instalação física e preservar uma função estratégica do Estado.

Defesa aérea e antiaérea: onde estão as lacunas e quanto custa ampliar a proteção do território

É nesse ponto que a análise deixa a infraestrutura de apoio e retorna ao núcleo de defesa em questão. O Brasil possui uma estrutura de defesa aeroespacial que combina aviação de caça, vigilância e controle do espaço aéreo, radares, sistemas de comando e controle e meios destinados à defesa antiaérea. O problema, portanto, não é a inexistência de uma capacidade de defesa aérea, mas a profundidade dessa arquitetura e sua capacidade de produzir cobertura suficiente sobre um território continental e sobre uma rede de infraestrutura estratégica distribuída de forma desigual.

A defesa aeroespacial moderna funciona como uma arquitetura integrada. Sensores precisam detectar e acompanhar ameaças; sistemas de identificação precisam distinguir aeronaves amigas, neutras e hostis; o comando e controle precisa transformar diferentes fontes de informação em uma imagem coerente do espaço aéreo; os meios de interceptação precisam estar disponíveis; e a defesa antiaérea terrestre precisa acrescentar proteção persistente a áreas e instalações que não podem depender exclusivamente da aviação.

Essa arquitetura pode ser entendida em camadas. A baixa altura atende principalmente à defesa aproximada e de ponto; a média altura amplia a profundidade da proteção; sistemas de maior alcance e altitude ampliam ainda mais a área sob vigilância e engajamento; e a aviação de caça fornece mobilidade e capacidade de interceptação. Nenhuma dessas camadas substitui completamente as demais.

É justamente nessa profundidade que aparece uma das principais lacunas brasileiras. A Estratégia Nacional de Defesa estabelece como objetivo do Programa Estratégico de Defesa Antiaérea a recuperação da capacidade de baixa altura e a obtenção da capacidade de média altura, além da modernização das organizações militares de defesa antiaérea. O documento relaciona essa evolução à proteção de infraestruturas estratégicas, ao monitoramento do espaço aéreo, à interoperabilidade entre as Forças e ao fortalecimento da Base Industrial de Defesa.

A questão avançou de maneira mais explícita em 2026. A Portaria que instituiu o Grupo de Trabalho para a formulação da Instrução de Obtenção Conjunta determinou estudos para sistemas de artilharia antiaérea de média altura/médio alcance e de grande altura/longo alcance. O grupo também recebeu a atribuição de trabalhar critérios e programação orçamentária e financeira para os projetos correspondentes. Isso demonstra que essas capacidades ainda estão em processo de estruturação como programas conjuntos.

O Brasil já possui elementos importantes dessa arquitetura. O Exército emprega sistemas de baixa altura, como o RBS 70, dispõe dos radares SABER M60 e desenvolve o SABER M200 VIGILANTE. O problema está na combinação entre quantidade, distribuição, disponibilidade, alcance, integração e capacidade de sustentar essas unidades durante um período prolongado.

O próprio conceito brasileiro de sistema de média altura demonstra essa complexidade. Os requisitos estabelecidos em 2020 dividiam a capacidade em quatro subsistemas: controle e alerta, armas, comunicações e apoio logístico. A bateria deveria ser integrada ao comando e controle das três Forças e ao Sistema de Defesa Aeroespacial Brasileiro.

Esse documento estabelecia, como referência operacional, uma capacidade de uma bateria para defender uma área mínima de 10 mil km². Também previa alcance horizontal máximo de pelo menos 40 quilômetros, altitude máxima de engajamento de pelo menos 15 quilômetros e capacidade de engajar simultaneamente pelo menos 16 alvos, com cada bateria dispondo de pelo menos três unidades de tiro. Esses parâmetros não significam que uma bateria possa, em qualquer circunstância, garantir sozinha a proteção de toda essa área. Servem como referência da escala territorial considerada pelo próprio planejamento militar.

Havia ainda uma previsão de crescimento evolutivo: o requisito desejável considerava a possibilidade de elevar posteriormente o alcance horizontal para pelo menos 80 quilômetros mediante adaptação ou substituição das lançadoras e/ou dos mísseis. O planejamento, portanto, já contemplava uma arquitetura capaz de evoluir tecnologicamente, em vez de uma solução fechada.

Esse ponto é fundamental para compreender os custos. O preço de um sistema antiaéreo não pode ser reduzido ao valor de um míssil ou de uma lançadora. Uma capacidade operacional completa exige radares, centros de operações, comunicações, veículos, geradores, oficinas, simuladores, treinamento, peças de reposição, software, integração, infraestrutura, munição e suporte logístico.

A defesa de baixa altura possui uma base tecnológica importante, mas ainda está em consolidação. O Programa Estratégico de Defesa Antiaérea incorporou sistemas RBS 70, atualizou os radares SABER M60 e avançou no desenvolvimento do M200 VIGILANTE. O programa também envolve infraestrutura, simuladores, comunicações e suporte logístico. O acompanhamento oficial do PPA registrou atrasos na formalização de contratos e cronogramas de entrega, além de limitações fiscais e entraves administrativos. Ao mesmo tempo, foram registrados avanços como a disponibilização de analisadores de espectro Field Fox para os radares SABER M60 e a realização de testes e avaliação do primeiro protótipo do SABER M200 VIGILANTE, além do avanço do segundo protótipo.

O SABER M200 é particularmente relevante porque demonstra que o país possui capacidade tecnológica para desenvolver sensores críticos. O catálogo oficial da Base Industrial de Defesa descreve o sistema como um radar tridimensional móvel, primário e secundário, em banda S, baseado em tecnologia AESA e arquitetura definida por software. O equipamento possui quatro painéis independentes, cobertura de 360 graus, alcance declarado de até 108 milhas náuticas, desdobramento inferior a 15 minutos e autonomia de 70 horas.

O desenvolvimento do radar também revela o custo de transformar conhecimento tecnológico em produto militar. Um convênio destinou R$ 34,727 milhões ao desenvolvimento do sensor, dos quais R$ 32,199 milhões foram efetivamente liberados. Posteriormente, um contrato de engenharia para a etapa 4 do desenvolvimento teve valor inicial de R$ 11,999 milhões e valor final de R$ 14,868 milhões, com vigência até dezembro de 2026.

Esses valores são relevantes porque mostram que desenvolver uma tecnologia crítica pode consumir anos e dezenas de milhões de reais antes que o Estado chegue à etapa seguinte: decidir quantas unidades serão produzidas, onde serão empregadas e quanto custará mantê-las operacionais durante décadas. O desenvolvimento tecnológico, portanto, é apenas o primeiro estágio da geração de capacidade.

É na média altura que essa diferença se torna mais evidente. O Brasil possui defesa aproximada e possui aviação de combate moderna, mas ainda não consolidou uma força terrestre de médio alcance capaz de preencher permanentemente o espaço entre esses dois extremos. Isso aumenta a dependência da aviação de caça para determinadas funções.

O Gripen possui mobilidade e capacidade de deslocamento para diferentes regiões, mas uma aeronave de combate não pode permanecer permanentemente sobre todos os pontos que o Estado considere estratégicos. Uma bateria terrestre, por outro lado, pode permanecer associada a determinada área e integrar-se aos sensores e ao comando e controle, proporcionando persistência e proteção de área. A combinação permite que os caças mantenham sua mobilidade para responder a situações que exigem deslocamento, enquanto a defesa terrestre assume parte da proteção permanente. A ausência dessa camada intermediária, portanto, não representa simplesmente a falta de determinada arma. Ela representa uma lacuna de arquitetura.

A situação é ainda mais evidente quando se observa a grande altura e o longo alcance. A própria criação, em 2026, do processo de obtenção conjunta envolvendo média altura/médio alcance e grande altura/longo alcance demonstra que o Brasil ainda está estruturando essas capacidades.

Seria, portanto, incorreto apresentar a defesa aeroespacial brasileira como uma estrutura completa em todos os níveis. Existe uma base operacional relevante, tecnologia nacional, sensores, sistemas de baixa altura, uma aviação de caça moderna em expansão e um sistema nacional de vigilância e controle do espaço aéreo. O que falta é completar as camadas e aumentar sua densidade.

Os números orçamentários ajudam a dimensionar esse desafio. A ação 13DB Aquisição de Sistemas de Artilharia Antiaérea, possui custo total estimado de R$ 4,130 bilhões, com horizonte até 2039. No PPA 2024–2027, estavam previstos R$ 17,038 milhões para 2024, R$ 16,838 milhões para 2025, R$ 18,185 milhões para 2026 e R$ 19,296 milhões para 2027, totalizando R$ 71,357 milhões no ciclo.

A diferença entre o custo global estimado e as dotações anuais é importante. Os R$ 4,13 bilhões representam o horizonte financeiro do programa existente, e não dinheiro imediatamente disponível para a aquisição de uma arquitetura completa de média e grande altura.

O acompanhamento da execução de 2026 acrescenta outra dimensão. Até junho, a ação 13DB apresentava dotação atualizada de aproximadamente R$ 12,1 milhões, enquanto o registro de execução disponível naquele recorte apontava apenas cerca de R$ 23,6 mil empenhados, liquidados e pagos. Esse dado não significa, isoladamente, cancelamento ou abandono do programa, porque a execução orçamentária depende de cronogramas contratuais e pode se concentrar em determinados períodos. Mas revela a distância que pode existir entre planejamento, dotação e transformação efetiva de recursos em capacidade.

O contraste com o programa de caças é expressivo. O FX-2 possui custo total estimado de R$ 26,876 bilhões, com execução prevista entre 2014 e 2028. A programação considerada para 2026 previa aproximadamente R$ 1,407 bilhão e, para 2027, R$ 1,470 bilhão. O programa envolve não apenas aeronaves, mas também armamentos, simuladores, logística inicial, transferência de tecnologia, suporte logístico e integração de sistemas.

Não se trata de afirmar que o Gripen recebe recursos excessivos ou que a defesa antiaérea deveria receber exatamente os mesmos valores. São projetos com escopos, ciclos industriais e custos completamente diferentes. A comparação mostra, porém, que o Brasil conseguiu estruturar um grande programa de aviação de combate enquanto a construção de uma arquitetura terrestre de média e grande altura permanece em estágio anterior de maturidade.

O KC-390 acrescenta outra variável à equação. O programa possui custo total estimado de R$ 15,473 bilhões, com horizonte até 2035, e previsão de aproximadamente R$ 627,3 milhões para 2026 e R$ 755,8 milhões para 2027. Embora não seja um sistema de defesa antiaérea, sua capacidade de transporte estratégico e tático, mobilidade de tropas e equipamentos e apoio logístico é fundamental para que uma força de dimensões continentais consiga deslocar e sustentar seus meios.

A mesma lógica aparece na ação 162L, de Modernização e Revitalização das aeronaves A-29 no âmbito do SISDABRA, com custo total estimado de R$ 1,125 bilhão entre 2024 e 2033. A previsão para 2026 era de R$ 20 milhões, com igual valor projetado para 2027. Isso demonstra que a defesa aeroespacial brasileira é composta por uma arquitetura mais ampla que o programa de caças, envolvendo diferentes meios de vigilância, controle e resposta.

Ao mesmo tempo, o Ministério da Defesa precisa distribuir recursos entre diversos projetos estratégicos. A programação contempla, entre outros, aproximadamente R$ 30,585 bilhões para o SISFRON, R$ 15,1 bilhões para o Programa Forças Blindadas, R$ 8,85 bilhões para o ASTROS e recursos próprios para defesa cibernética. São programas distintos, mas todos competem dentro do mesmo ambiente de restrição orçamentária e de necessidade de previsibilidade plurianual.

É nesse ponto que a discussão financeira deixa de ser simplesmente uma questão de tamanho do orçamento. O problema passa a ser composição, prioridade e previsibilidade. Uma capacidade antiaérea de médio ou longo alcance exige contratos plurianuais, infraestrutura, treinamento, estoque de munição, manutenção e atualização tecnológica. Se os recursos chegam de maneira descontínua, a aquisição pode avançar mais rapidamente que a formação da capacidade operacional completa.

Existe ainda um custo que raramente aparece nas comparações de inventário: o da sustentação. Uma força antiaérea não pode ser avaliada apenas pelo número de lançadores. É preciso considerar quantos estão operacionais, quantos estão em manutenção, quantos possuem munição disponível, qual o estoque de peças, qual a capacidade de manutenção nacional, quantos operadores estão treinados e quanto tempo seria necessário para recompor perdas ou indisponibilidades.

O mesmo vale para os radares. Desenvolver um equipamento nacionalmente é uma conquista estratégica, mas não significa automaticamente possuir uma rede nacional redundante. É preciso adquirir unidades, criar infraestrutura, manter equipamentos, garantir componentes eletrônicos, treinar operadores, atualizar software e integrar os dados ao comando e controle.

A disponibilidade operacional, portanto, é tão importante quanto o inventário nominal. Duas baterias concentradas em uma mesma região não produzem a mesma densidade defensiva que duas baterias distribuídas para atender funções estratégicas distintas. Da mesma forma, dez radares concentrados em uma área não equivalem a dez sensores distribuídos de forma a produzir redundância e complementaridade.

A arquitetura também precisa sobreviver à indisponibilidade de parte dos seus componentes. Se determinado sensor deixa de operar, outro precisa ser capaz de fornecer informação suficiente para manter a consciência situacional. Se uma unidade de tiro fica indisponível, outra deve conseguir assumir parte da função. Se uma ligação de comunicações é interrompida, precisa existir uma alternativa.

Essa redundância tem custo. O valor necessário para produzir uma capacidade resiliente é necessariamente superior ao necessário para montar apenas a estrutura mínima de operação em condições normais. Por isso, a pergunta estratégica não deve ser apenas quanto custa uma bateria, mas quanto custa manter uma arquitetura capaz de continuar funcionando mesmo quando parte dos seus componentes estiver indisponível.

A proliferação dos sistemas não tripulados acrescenta outra variável. A defesa futura precisará lidar simultaneamente com ameaças de diferentes custos, velocidades, altitudes e características. Não seria economicamente racional empregar sempre o sistema de maior valor contra todo tipo de vetor. A arquitetura precisará combinar defesa de baixa altura, sistemas de menor custo de interceptação, guerra eletrônica, sensores eletro-ópticos, radares e sistemas de médio e longo alcance, cada um empregado de acordo com sua função.

Isso reforça a importância da Base Industrial de Defesa brasileira. O país não parte do zero. Possui conhecimento acumulado em radares, sistemas de comando e controle, comunicações, integração de sistemas, aeronaves e outros componentes críticos. O SABER M60 e o M200 demonstram a existência de uma capacidade tecnológica nacional relevante, enquanto a própria Estratégia Nacional de Defesa associa o Programa Estratégico de Defesa Antiaérea ao domínio de tecnologias críticas e ao fortalecimento da BID.

A vantagem, entretanto, não elimina o problema de escala industrial. Dominar uma tecnologia não significa necessariamente possuir capacidade para produzir dezenas ou centenas de unidades, garantir componentes durante décadas ou responder rapidamente a uma demanda extraordinária. Essa passagem da tecnologia para a escala é uma das questões centrais para a autonomia estratégica brasileira.

Um programa de defesa antiaérea de maior escala poderia, por isso, produzir efeitos que ultrapassam a dimensão militar. Radares, sistemas C2, comunicações, veículos, eletrônica embarcada, software, sensores e manutenção criam demanda para empresas nacionais, universidades e centros de pesquisa. A participação da BID poderia reduzir determinadas dependências externas e preservar conhecimento crítico, desde que os requisitos militares continuem orientando as decisões e que a nacionalização não resulte em perda de desempenho ou aumento insustentável do custo de ciclo de vida.

A logística é outra variável decisiva. Uma bateria precisa de combustível, energia, peças, munição, manutenção, transporte e pessoal. Sistemas móveis precisam de veículos e oficinas; sensores dependem de energia e comunicações; centros de comando precisam de redundância. O próprio requisito brasileiro de 2020 tratava o apoio logístico como um dos quatro subsistemas fundamentais da capacidade de média altura.

Essa questão ganha peso em um país continental. A distância entre regiões aumenta o tempo e o custo de deslocamento, reposição e manutenção. A profundidade territorial brasileira é uma vantagem estratégica, mas também exige uma estrutura logística capaz de transformar distância em tempo disponível para reforçar e sustentar forças.

A análise também precisa considerar que a defesa antiaérea não existe isoladamente. Ela depende de sensores, comunicações, energia, centros de comando, mobilidade e logística. Consequentemente, sua própria resiliência está vinculada à proteção das infraestruturas que sustentam essas funções. Um sistema de defesa sofisticado pode perder parte de sua efetividade se os elementos que alimentam sua consciência situacional ou sua sustentação logística forem frágeis.

Isso nos leva novamente ao conceito de densidade defensiva territorial. O Brasil pode aumentar o número absoluto de sistemas sem necessariamente aumentar proporcionalmente sua capacidade de defesa. Se uma bateria protege determinada função estratégica, mas não existe outra capaz de assumir sua missão, a arquitetura continua vulnerável à indisponibilidade. Se existe um radar moderno, mas não há redundância de sensores, comunicações ou energia, a capacidade permanece dependente de poucos componentes.

Se existem caças modernos, mas a defesa terrestre de médio alcance ainda está em implantação, a arquitetura continua dependendo da mobilidade aérea para determinadas funções. E se existem sistemas antiaéreos, mas faltam munição, manutenção, pessoal treinado e logística, o inventário nominal não representa capacidade militar efetiva.

Por isso, a densidade defensiva precisa considerar pelo menos seis variáveis: quantidade, distribuição territorial, disponibilidade, alcance, integração e sustentação. A essas variáveis pode ser acrescentada uma sétima, cada vez mais importante: a capacidade de regeneração, ou seja, a possibilidade de reparar, substituir e recompor rapidamente aquilo que for perdido ou colocado fora de serviço.

A fotografia brasileira é, portanto, mais complexa do que uma simples comparação de inventários. O país possui uma estrutura real de defesa aeroespacial, aviação de combate moderna em processo de consolidação, sensores nacionais avançados, sistemas de baixa altura, comando e controle e uma Base Industrial de Defesa capaz de desenvolver componentes críticos.

Ao mesmo tempo, o próprio planejamento oficial reconhece a necessidade de recuperar e ampliar capacidades de baixa altura, obter capacidade de média altura e estruturar sistemas de média altura/médio alcance e grande altura/longo alcance.

A lacuna, portanto, não é exclusivamente tecnológica. É quantitativa, territorial, financeira, logística e industrial. O Brasil precisa transformar tecnologias existentes em escala operacional, transformar projetos em unidades disponíveis e transformar unidades isoladas em uma rede integrada.

Os R$ 4,13 bilhões associados atualmente à ação de aquisição de sistemas de artilharia antiaérea mostram que existe um esforço financeiro formalizado, mas não representam, por si só, o custo para construir uma arquitetura completa de média e grande altura. A própria criação, em 2026, do processo de obtenção conjunta demonstra que a configuração futura ainda está em definição.

Da mesma forma, os R$ 26,88 bilhões estimados para o FX-2, os R$ 15,47 bilhões do KC-390, os R$ 30,59 bilhões do SISFRON, os R$ 15,1 bilhões do Programa Forças Blindadas e os R$ 8,85 bilhões do ASTROS mostram a dimensão da carteira de projetos estratégicos que precisa ser sustentada simultaneamente. O desafio não é simplesmente adicionar mais um grande programa, mas estabelecer uma arquitetura de prioridades capaz de produzir força equilibrada.

A conclusão mais precisa é que o Brasil possui uma defesa aeroespacial real e capacidades tecnológicas relevantes, mas ainda não dispõe de uma arquitetura plenamente escalonada em todos os níveis de alcance e altitude. A ausência de uma capacidade terrestre consolidada de médio e longo alcance limita a profundidade da defesa e aumenta a dependência da aviação de combate para determinadas funções.

O ponto central, porém, vai além da aquisição de novos sistemas. Para um país continental, a verdadeira medida de poder defensivo está na capacidade de distribuir, integrar, sustentar e regenerar os meios disponíveis. Uma bateria moderna isolada produz capacidade local; uma rede de sensores, comando e controle, defesa de baixa, média e grande altura, aviação, logística e indústria produz resiliência estratégica.

É essa diferença que precisa ser considerada quando se avalia a defesa brasileira. Não basta perguntar quantos sistemas existem ou quanto foi gasto para adquiri-los. É necessário saber quanto território e quantas funções estratégicas podem ser efetivamente protegidos, durante quanto tempo, com que redundância e com que capacidade de reposição.

Para um país continental, a questão central da próxima década não será apenas quantos caças, radares ou lançadores estarão no inventário. Será quantas camadas de defesa estarão simultaneamente disponíveis, integradas e distribuídas de forma a produzir profundidade suficiente para preservar a capacidade de resposta do Estado.

O desafio, portanto, não é apenas aumentar o arsenal. É aumentar a densidade, a persistência e a capacidade de regeneração, e sobretudo, transformar capacidade tecnológica em resiliência estratégica.

Costa brasileira e Amazônia Azul: extensão, concentração e consciência situacional

A defesa da costa brasileira apresenta um paradoxo semelhante ao observado no território continental: enorme extensão física combinada com forte concentração das funções estratégicas. O país possui mais de 8,5 mil quilômetros de litoral, mas portos, terminais de combustíveis, instalações energéticas, complexos industriais, grandes centros urbanos e bases militares estão concentrados em determinados segmentos. Não seria racional, portanto, buscar a mesma densidade defensiva ao longo de toda a costa. O desafio está em identificar as áreas cuja interrupção produziria maior efeito sobre a continuidade econômica, logística e militar do país e combinar nelas vigilância, defesa aérea, capacidade marítima, proteção de infraestrutura, mobilidade e recuperação.

Essa concentração, porém, não elimina a dimensão marítima do problema. A chamada Amazônia Azul compreende uma área marítima de aproximadamente 5,7 milhões de km², onde estão rotas de comércio, exploração de petróleo e gás, pesca, cabos submarinos, instalações offshore e outras atividades essenciais à economia brasileira. A escala torna inviável imaginar uma defesa baseada exclusivamente na presença física permanente de navios. Quanto maior a área a ser monitorada, maior a importância de saber onde concentrar os meios e quando empregá-los.

É nesse ponto que a consciência situacional passa a ser uma capacidade estratégica. Antes de deslocar um navio, aeronave ou força de resposta, é necessário detectar, identificar, acompanhar e compartilhar informações sobre o que ocorre no ambiente marítimo. O Sistema de Gerenciamento da Amazônia Azul (SisGAAz) foi concebido justamente para ampliar essa capacidade de monitoramento e gerenciamento, integrando informações de diferentes fontes e permitindo uma visão mais abrangente do espaço marítimo sob interesse brasileiro.

A importância do SisGAAz está, portanto, menos na quantidade de sensores isoladamente e mais na capacidade de transformar dados dispersos em uma imagem operacional útil ao processo decisório. Isso permite concentrar meios onde o risco ou a importância estratégica sejam maiores, evitando que a extensão da Amazônia Azul transforme a dispersão geográfica em dispersão de recursos.

A mesma lógica vale para a costa. Uma instalação crítica pode estar fisicamente protegida e ainda assim depender de uma cadeia marítima muito mais extensa para receber combustível, matérias-primas, equipamentos ou exportar sua produção. A defesa costeira precisa, portanto, ser pensada como parte de uma rede que conecta litoral, portos, infraestrutura energética, rotas marítimas e território continental.

Essa abordagem também explica por que o número absoluto de navios, aeronaves ou sistemas de vigilância não é suficiente para medir a capacidade brasileira. O indicador mais relevante é a combinação entre área de responsabilidade, capacidade de detecção, persistência da vigilância, tempo de resposta, disponibilidade dos meios e possibilidade de reforçar rapidamente os pontos prioritários.

O problema estratégico brasileiro é, assim, menos uma questão de presença uniforme e mais de densidade seletiva. O país precisa enxergar uma área marítima gigantesca, reconhecer onde estão suas funções críticas e possuir meios suficientes para transformar essa informação em resposta. Na costa, isso significa proteger os segmentos onde estão concentradas as funções essenciais; na Amazônia Azul, significa criar consciência situacional suficiente para que os recursos limitados do Estado sejam empregados onde realmente fazem diferença.

A vulnerabilidade marítima, portanto, começa antes da ausência de um navio. Ela começa quando o Estado não consegue produzir informação suficientemente precisa e persistente sobre um espaço que precisa proteger. Sem consciência situacional, a dimensão da Amazônia Azul multiplica o problema; com ela, torna-se possível transformar uma área de milhões de quilômetros quadrados em um ambiente progressivamente mais conhecido, monitorável e administrável pela estrutura de defesa.

Poder Naval: disponibilidade, escala e previsibilidade para proteger a Amazônia Azul

O problema naval brasileiro não pode ser reduzido ao número de navios existentes no inventário. Uma força naval precisa manter meios disponíveis no mar, outros em preparação e parte da frota em manutenção programada ou corretiva. Essa lógica determina a capacidade real de presença e resposta. Quanto maior a área de responsabilidade e maior a permanência desejada no mar, maior também a necessidade de sobressalentes, munição, combustível, infraestrutura, pessoal especializado, treinamento, manutenção e capacidade industrial de reparo.

O Brasil já possui uma estrutura de programas que reconhece essa necessidade. O Programa Fragatas Classe Tamandaré prevê quatro navios, com entregas escalonadas até 2029, e representa a recomposição do núcleo de escoltas da Esquadra. O programa recebeu capitalização de R$ 9,5 bilhões e foi concebido também como instrumento de fortalecimento da indústria naval e da cadeia de fornecedores brasileira.

No segmento submarino, o PROSUB avançou para uma nova etapa. Três submarinos da Classe Riachuelo já foram incorporados, o quarto, o “Almirante Karam”, encontra-se em testes e tem entrega ao setor operativo prevista para o segundo semestre de 2027, enquanto o programa avança para a construção do submarino de propulsão nuclear “Álvaro Alberto”.

A própria programação orçamentária demonstra a dimensão dessa carteira. Na PLOA 2026, foram previstos R$ 281,8 milhões para a construção de submarinos convencionais, R$ 235,1 milhões para o submarino de propulsão nuclear, R$ 200 milhões para a implantação do estaleiro e da base naval destinados à construção e manutenção de submarinos e R$ 780 milhões para o desenvolvimento dos sistemas de tecnologia nuclear da Marinha. Para o SisGAAz, entretanto, a previsão apresentada para 2026 é de apenas R$ 1,64 milhão.

Essa diferença merece atenção. O SisGAAz é justamente o tipo de capacidade que permite transformar uma frota limitada em uma força mais eficiente, porque amplia a capacidade de conhecer, acompanhar e administrar o espaço marítimo. Um navio que recebe informação de qualidade antes de chegar a determinada área emprega seu tempo e seus recursos de maneira diferente de uma força obrigada a realizar patrulhamento indiscriminado.

É nesse ponto que a concepção de uma arquitetura híbrida de monitoramento da Amazônia Azul ganha importância. Em vez de depender exclusivamente de sensores e meios militares, o País pode estruturar uma camada integrada de consciência marítima utilizando dados da Marinha, sistemas de tráfego marítimo, AIS, autoridades portuárias, plataformas offshore, operadores de energia, infraestrutura de telecomunicações, empresas de navegação, sensores costeiros, aeronaves e sistemas espaciais, com diferentes níveis de acesso e proteção. O objetivo não seria militarizar a infraestrutura civil, mas estabelecer uma arquitetura nacional de compartilhamento e fusão de informações capaz de ampliar a consciência situacional.

Esse modelo permitiria concentrar os meios navais onde a informação indicar maior relevância operacional, enquanto os sensores e sistemas de monitoramento permaneceriam distribuídos. É uma mudança importante de lógica: diante de 5,7 milhões de km² de Amazônia Azul, a eficiência não virá de tentar colocar um navio em cada área, mas de aumentar a capacidade de saber o que acontece no espaço marítimo e direcionar os meios disponíveis conforme a situação.

A necessidade de ampliar a camada de presença também aparece no Programa de Obtenção de Navios-Patrulha. O NPa500BR foi desenvolvido nacionalmente para missões como patrulhamento, proteção de estruturas offshore, salvaguarda da vida humana no mar e apoio a ações de Defesa Civil. O PRONAPA trabalha com uma perspectiva de 11 navios-patrulha de 500 toneladas, embora a velocidade de materialização dessa frota continue condicionada à disponibilidade de recursos e à contratação da construção.

Aqui surge uma questão estrutural: o Brasil precisa de uma arquitetura de meios navais que diferencie missões de alta intensidade das tarefas permanentes de presença, fiscalização, proteção de infraestrutura e vigilância. Empregar uma fragata de alta complexidade em toda missão de patrulhamento gera custo operacional elevado e reduz a disponibilidade para suas funções de maior valor. Uma combinação de navios-patrulha, meios não tripulados, aeronaves de patrulha, sensores costeiros e plataformas de maior capacidade permite distribuir melhor o esforço.

O mesmo raciocínio vale para os meios aeronavais. A vigilância de uma área marítima continental exige aeronaves capazes de ampliar rapidamente o alcance dos sensores e reduzir o tempo necessário para confirmar uma situação detectada. Helicópteros embarcados, aeronaves de patrulha marítima, veículos aéreos não tripulados e sistemas de superfície não tripulados podem complementar os navios, permitindo que a Esquadra empregue seus meios de maior complexidade onde realmente agreguem valor militar.

Essa arquitetura também abre espaço para uma nova geração de programas navais brasileiros. Em vez de pensar exclusivamente em grandes plataformas, o planejamento poderia organizar famílias de meios complementares: navios-patrulha de diferentes portes, navios de apoio, plataformas não tripuladas, sensores costeiros, aeronaves de patrulha e sistemas de comando e controle integrados ao SisGAAz. A vantagem seria criar escala industrial, padronizar componentes e reduzir o custo de manutenção ao longo do ciclo de vida.

O Fundo da Marinha Mercante oferece uma oportunidade particularmente relevante nesse contexto. O FMM foi criado para apoiar a Marinha Mercante e a indústria brasileira de construção e reparação naval e, pela legislação, também pode financiar, de forma complementar, a construção de navios auxiliares, hidrográficos e oceanográficos para a Marinha do Brasil.

A utilização estratégica desse instrumento já deixou de ser apenas uma possibilidade teórica. Em julho de 2026, o Conselho Diretor do FMM aprovou a construção de três NPa500BR pela EMGEPRON, inserindo uma iniciativa diretamente relacionada à defesa na carteira do fundo.

O potencial, portanto, está em ampliar a lógica de dualidade onde ela for juridicamente e tecnicamente adequada. Embarcações de apoio, meios hidrográficos e oceanográficos, infraestrutura de reparo, capacidade de docagem e determinados sistemas de monitoramento podem atender simultaneamente à Economia do Mar e às necessidades estratégicas do Estado. O FMM não substituiria os recursos orçamentários da Defesa nem deveria financiar indiscriminadamente meios de combate, mas pode funcionar como instrumento complementar de política industrial, criando capacidade produtiva que também aumenta a resiliência do Poder Naval.

A escala financeira do próprio fundo mostra por que essa discussão merece ser incorporada ao planejamento estratégico. Em 2025, o FMM destinou R$ 3,85 bilhões ao setor naval e aquaviário. Em março de 2026, a carteira apresentada pelo Governo Federal alcançava R$ 41,7 bilhões em investimentos previstos, distribuídos por 890 obras, incluindo 612 construções de embarcações, 115 serviços de reparo e docagem, 141 modernizações, seis estaleiros e projetos portuários.

O desafio brasileiro passa, então, a ser menos a ausência de instrumentos e mais a coordenação entre eles. Defesa, indústria naval, petróleo e gás, portos, ciência e tecnologia, transporte marítimo e monitoramento ambiental possuem necessidades que se cruzam. Uma política nacional de segurança marítima poderia transformar parte dessas demandas convergentes em escala industrial, desde que preservadas as competências e finalidades específicas de cada instrumento.

Há ainda uma questão que nenhum programa isolado resolve: previsibilidade. Construir uma fragata, um submarino ou uma série de navios-patrulha não é apenas pagar pela plataforma. É garantir durante décadas a cadeia de manutenção, munição, treinamento, atualização de sensores, software, motores, componentes eletrônicos, infraestrutura e pessoal. Um orçamento que permite iniciar programas, mas não assegura sua continuidade, aumenta o custo final e reduz a disponibilidade dos meios.

Os próprios dados de execução de 2026 mostram por que essa questão precisa ser acompanhada para além do valor autorizado. Na ação 21CL, de Recomposição do Núcleo do Poder Naval, a dotação atualizada alcançou cerca de R$ 196,1 milhões e, até junho, haviam sido empenhados aproximadamente R$ 127 milhões. Na ação 21IO, relacionada à disponibilização das fragatas Classe Tamandaré, a dotação chegou a R$ 261 milhões, com R$ 260 milhões empenhados e R$ 51 milhões pagos no período registrado.

Esses números não indicam, isoladamente, insuficiência ou sucesso de um programa. Eles demonstram algo mais importante: a capacidade militar depende da passagem contínua entre planejamento, orçamento, contratação, execução física e sustentação. A distância entre essas etapas pode ser tão determinante quanto o valor nominal destinado ao programa.

O Brasil, portanto, não parte do zero. Existe planejamento estratégico, existem programas estruturantes, existe uma indústria naval capaz de produzir meios complexos e existem instrumentos financeiros que podem ser articulados com a política de defesa. O que falta é transformar essas iniciativas em uma arquitetura de longo prazo com escala suficiente para a dimensão marítima brasileira.

A prioridade deveria ser uma força naval concebida como sistema: consciência situacional permanente, meios de patrulha em quantidade adequada, escoltas de maior capacidade, submarinos, aviação naval, sistemas não tripulados, infraestrutura de manutenção e uma indústria capaz de sustentar tudo isso. O custo é elevado, mas a alternativa também possui preço: depender de uma frota pequena, cara e com disponibilidade limitada diante de uma área marítima que representa parcela essencial da economia e da soberania brasileira.

A questão central, portanto, não é simplesmente quantos navios o Brasil possui. É quantos consegue manter disponíveis, por quanto tempo, com que nível de consciência situacional, capacidade de reposição e sustentação industrial. Para um país com uma Amazônia Azul de aproximadamente 5,7 milhões de km², a defesa marítima exige previsibilidade orçamentária compatível com décadas de planejamento, e não ciclos curtos de disponibilidade financeira.

BID: a capacidade de sustentar uma guerra começa antes da crise

Existe uma vulnerabilidade que não aparece em um inventário de blindados, aeronaves ou navios: a capacidade de repor aquilo que uma força militar consome, perde ou precisa reparar durante uma crise prolongada. Munições são consumidas, motores acumulam horas, aeronaves entram em manutenção, navios retornam aos estaleiros, componentes eletrônicos são substituídos e sistemas complexos exigem atualização. A capacidade militar, portanto, depende também da possibilidade de sustentá-la ao longo do tempo.

É nesse ponto que a Base Industrial de Defesa deixa de ser apenas uma política de desenvolvimento econômico e passa a integrar diretamente a arquitetura de defesa nacional. O Ministério da Defesa define a BID como o conjunto de empresas envolvidas em pesquisa, desenvolvimento, produção, distribuição e manutenção de produtos estratégicos de defesa, enquanto a END estabelece a busca por autonomia produtiva e tecnológica em áreas consideradas estratégicas.

O Brasil possui competências relevantes em aeronáutica, veículos terrestres, construção naval, sistemas de comando e controle, radares, mísseis, munições, comunicações, espaço e tecnologias nucleares. O gargalo está em transformar essas competências em capacidade industrial permanente, com escala suficiente para atender às necessidades das Forças Armadas, manter fornecedores ativos e ampliar a capacidade de produção quando necessário.

Uma indústria de defesa não consegue sustentar continuamente linhas de produção, laboratórios, engenheiros, técnicos e fornecedores especializados com contratos esporádicos e lotes reduzidos. Existe uma diferença fundamental entre dominar determinada tecnologia e possuir uma cadeia produtiva capaz de transformá-la em produção seriada, manutenção e reposição.

É aí que a inconsistência da demanda estatal se converte em vulnerabilidade estratégica. Projetos longos, interrompidos ou contratados em quantidades insuficientes dificultam a amortização dos investimentos industriais, reduzem a escala e tornam mais difícil preservar mão de obra e fornecedores especializados. Para a empresa, isso aumenta o risco econômico; para o Estado, pode significar a perda de uma capacidade que levará anos para ser reconstruída.

O próprio planejamento brasileiro reconhece essa relação. A END estabelece objetivos relacionados à autonomia produtiva e tecnológica, à sustentabilidade da cadeia da BID, à regularidade e previsibilidade orçamentária, aos planos de carga do PAED, aos mecanismos de financiamento, ao conteúdo local e às compensações tecnológicas nas aquisições externas.

O PAED procura organizar a demanda estatal de longo prazo, mas planejamento não significa garantia de execução no ritmo originalmente previsto. Entre a definição de uma necessidade e sua transformação em capacidade militar existem orçamento, contratação, desenvolvimento, produção, entrega e sustentação. Qualquer ruptura nessa sequência afeta também a indústria responsável por atender à demanda.

Para a empresa, essa previsibilidade determina decisões de investimento. É necessário saber quando os contratos serão assinados, qual será a cadência de produção, quais quantidades serão adquiridas, quanto será destinado à pesquisa e desenvolvimento e se haverá continuidade para manutenção e modernização. Sem essas referências, a indústria tende a operar abaixo da escala necessária, enquanto o Estado permanece dependente de fornecedores externos.

Essa dependência merece atenção porque muitos sistemas utilizados pelas Forças Armadas não são integralmente nacionais. Uma plataforma produzida no Brasil pode incorporar motores, sensores, semicondutores, componentes eletrônicos, materiais especiais, sistemas ópticos ou softwares provenientes do exterior. Produção nacional, portanto, não significa independência logística completa.

A vulnerabilidade deve ser avaliada pela profundidade da cadeia produtiva. Quanto maior a quantidade de componentes críticos sem alternativa nacional, fornecedor alternativo ou estoque adequado, maior a exposição a interrupções externas. Sanções, embargos, restrições de exportação, mudanças regulatórias ou decisões políticas do país fornecedor podem comprometer a disponibilidade de sistemas essenciais.

O efeito pode ocorrer sem qualquer destruição física. Uma aeronave pode permanecer intacta, mas ficar indisponível por falta de um componente; um navio pode continuar estruturalmente preservado, mas depender de peças ou serviços externos para retornar ao mar; um sistema de armas pode estar instalado, mas perder capacidade operacional por falta de munição ou componentes específicos.

Essa possibilidade torna a cadeia industrial parte da capacidade militar. Em uma crise prolongada, países que conseguem produzir, reparar e repor seus equipamentos possuem maior capacidade de absorver perdas e recuperar disponibilidade. Aqueles dependentes de cadeias externas ficam sujeitos às decisões e limitações de terceiros justamente quando a demanda por reposição aumenta.

A autonomia estratégica, entretanto, não significa fabricar absolutamente tudo no Brasil. Essa meta seria economicamente pouco realista e, em vários segmentos, tecnologicamente desnecessária. O objetivo é identificar quais tecnologias, componentes, munições, serviços e processos são críticos para a continuidade das operações e estabelecer mecanismos que impeçam sua interrupção.

Esses mecanismos podem combinar produção nacional, estoques estratégicos, fornecedores alternativos, domínio de processos, capacidade de reparo, acordos industriais e substituição tecnológica. A avaliação deveria fazer parte dos próprios programas estratégicos, considerando não apenas o preço de aquisição, mas também a dependência externa e a capacidade de sustentação durante todo o ciclo de vida.

Há uma segunda vulnerabilidade: a concentração industrial. Nacionalizar determinado componente não resolve completamente o problema se existir apenas um fornecedor capaz de produzi-lo. Uma BID resiliente precisa de redundância, capacidade de expansão e fornecedores capazes de assumir funções críticas quando uma empresa ou instalação fica indisponível.

Isso exige escala. A produção de poucas unidades em intervalos muito longos não proporciona as mesmas condições de uma cadeia que mantém contratos recorrentes, fornecedores ativos, pessoal qualificado e linhas industriais permanentemente certificadas. A demanda das Forças Armadas, portanto, possui uma função que ultrapassa a aquisição de equipamentos: ela ajuda a preservar a capacidade produtiva estratégica.

Para o Brasil, essa questão é particularmente relevante porque o mercado doméstico é limitado diante dos custos de desenvolvimento de sistemas militares complexos. A resposta não precisa ser uma expansão indiscriminada das compras. Programas plurianuais, famílias de sistemas, padronização, contratos de manutenção, encomendas tecnológicas, produtos de uso dual e exportações podem ampliar a escala sem transformar o orçamento de Defesa no único mecanismo de sustentação da indústria.

A política de compensação tecnológica, industrial e comercial, o PAED e outros instrumentos já existentes oferecem mecanismos para reduzir determinadas dependências e estimular capacidades nacionais. O desafio está em articulá-los a uma política de longo prazo capaz de transformar demanda pontual em capacidade industrial permanente.

A dimensão financeira é decisiva. A Defesa compete dentro do orçamento público com outras necessidades e, por isso, programas estratégicos estão sujeitos a contingenciamentos, reprogramações e mudanças de ritmo. Para uma empresa que precisa investir antecipadamente em instalações, equipamentos e pessoal, essa incerteza possui efeito direto sobre a decisão de permanecer ou não naquele segmento.

O problema não está apenas no valor autorizado, mas na diferença entre planejamento, dotação, contratação e execução. Quando a execução se afasta significativamente do cronograma esperado, a indústria pode acumular capacidade ociosa, perder fornecedores ou reduzir equipes especializadas. A reconstrução posterior dessa capacidade normalmente custa mais e demanda tempo.

Forma-se, então, um ciclo difícil de romper: baixa previsibilidade reduz investimentos; menor investimento limita a escala; baixa escala aumenta custos; custos elevados reduzem competitividade; menor competitividade dificulta exportações; e a redução da demanda doméstica agrava novamente o problema.

Romper esse ciclo exige tratar determinados segmentos da BID como infraestrutura estratégica. Isso não significa eliminar competição ou garantir mercado permanente para empresas específicas, mas estabelecer condições para que competências consideradas críticas permaneçam disponíveis no País.

A dimensão externa torna esse requisito ainda mais importante. Em condições normais, importar determinado componente pode ser economicamente racional. Em uma crise internacional, entretanto, o fornecedor pode priorizar seu próprio mercado, sofrer restrições de produção, enfrentar problemas logísticos ou receber orientação de seu governo para limitar exportações.

Nesse cenário, uma força militar pode começar a perder capacidade sem que seus meios sejam destruídos. A interrupção do fornecimento de peças, munições, componentes, softwares ou serviços especializados pode reduzir progressivamente a disponibilidade operacional.

Esse mecanismo precisa ser considerado como parte da avaliação de risco nacional. A dependência externa de um componente crítico pode produzir uma vulnerabilidade comparável, em termos de efeito operacional, à indisponibilidade física do equipamento que o utiliza.

Por isso, cada grande programa deveria considerar cinco dimensões além do custo de aquisição: dependência de componentes estrangeiros, existência de fornecedores alternativos, capacidade nacional de manutenção e produção, possibilidade de expansão emergencial da oferta e disponibilidade de estoques críticos.

Essa abordagem também altera a maneira de calcular o custo de Defesa. O preço de um sistema não termina na entrega. É necessário considerar décadas de manutenção, atualização, reposição e sustentação, além do risco estratégico associado às dependências que permanecem depois da aquisição.

A capacidade de combate, portanto, deve ser analisada em duas dimensões: aquilo que o País consegue colocar em operação hoje e aquilo que consegue regenerar amanhã. A primeira depende do inventário e da disponibilidade; a segunda depende da indústria, da tecnologia, da cadeia de fornecedores e da capacidade financeira de sustentá-las.

É nessa segunda dimensão que a Base Industrial de Defesa se transforma em elemento de resiliência estratégica. Para o Brasil, uma interrupção externa que impeça a reposição de componentes críticos pode degradar uma capacidade militar sem que um único tiro tenha sido disparado contra ela.

A questão central não é apenas quanto o Brasil investe em Defesa, mas quanto desse investimento consegue transformar-se em capacidade industrial permanente. Sem previsibilidade não há escala; sem escala, determinadas capacidades tornam-se economicamente frágeis; e quanto maior a dependência externa em componentes críticos, menor a liberdade de ação do Estado em uma crise.

A vulnerabilidade, nesse caso, começa antes do campo de batalha: começa quando o País precisa depender de terceiros para continuar operando aquilo que já possui.

Comunicações e guerra eletrônica: a vulnerabilidade invisível

A capacidade militar contemporânea depende da integridade do fluxo de informações. Sensores precisam transmitir dados, centros de comando precisam processá-los, aeronaves e navios precisam compartilhar informações e unidades terrestres precisam manter comunicação mesmo quando dispersas. Por isso, a superioridade de uma força não depende apenas da qualidade de seus sensores ou plataformas, mas também da capacidade de conectá-los e preservar essa conexão sob pressão.

A própria Política para o Sistema Militar de Comando e Controle do Ministério da Defesa trata o domínio e a integridade do tráfego de informações como fundamento da capacidade de coordenação e controle. O Ministério mantém ainda políticas específicas para segurança da informação, comando e controle e guerra eletrônica.

Isso cria uma vulnerabilidade que não aparece no inventário físico. Uma aeronave pode estar disponível, um navio permanecer operacional e um radar continuar funcionando, mas a degradação dos enlaces, dos sistemas de comando e controle ou dos serviços digitais pode reduzir a capacidade de transformar essas plataformas em uma força coordenada.

O problema também ultrapassa o ambiente exclusivamente militar. O Gabinete de Segurança Institucional classifica telecomunicações como infraestrutura crítica e mantém grupo técnico específico para o setor. A Política Nacional de Segurança de Infraestruturas Críticas considera que a interrupção ou comprometimento desses serviços pode afetar a continuidade de funções essenciais do Estado e da sociedade.

A guerra eletrônica acrescenta outra dimensão. Em um ambiente contestado, não basta proteger redes contra intrusão cibernética; é necessário preservar a capacidade de comunicação, navegação, detecção e coordenação diante de interferências e perturbações eletromagnéticas. O próprio Ministério da Defesa possui diretrizes específicas para a consecução das ações setoriais de Defesa voltadas à Guerra Eletrônica.

A consequência para o planejamento é objetiva: sistemas críticos precisam possuir redundância, enlaces alternativos, proteção cibernética, capacidade de recuperação e condições para operar em degradação. Uma força excessivamente dependente de uma única arquitetura de comunicação pode ter grande capacidade nominal e, ao mesmo tempo, baixa resiliência quando essa arquitetura sofre interrupções.

A Estratégia Nacional de Cibersegurança, instituída em 2025, reforça essa abordagem ao estabelecer como objetivo a garantia de confidencialidade, integridade, autenticidade e disponibilidade de hardware, software e dados utilizados no processamento, armazenamento e transmissão de informações. A estratégia também coloca a resiliência de serviços essenciais e infraestruturas críticas entre seus eixos centrais.

Para a defesa aérea e marítima, o impacto é particularmente relevante porque essas capacidades dependem de sensores distribuídos e da rápida circulação de dados. Quanto maior a integração entre radares, aeronaves, navios, centros de comando e sistemas de armas, maior o ganho operacional — e também maior a necessidade de preservar a arquitetura que os conecta.

O requisito, portanto, não é construir uma rede impossível de interromper. É garantir que a perda parcial de um enlace, sensor ou sistema não produza uma perda desproporcional de capacidade. Isso significa projetar redundância desde a origem, manter alternativas de comunicação e comando e assegurar que as Forças consigam continuar operando mesmo com degradação parcial da infraestrutura informacional.

A vulnerabilidade invisível está justamente aí: uma força pode conservar suas plataformas e ainda perder parte relevante de sua capacidade militar se deixar de conseguir enxergar, comunicar, decidir e coordenar. Em uma arquitetura de defesa cada vez mais conectada, a resiliência informacional passou a ser tão importante quanto a proteção física dos meios que dependem dela.

O que seriam, então, os principais “alvos estratégicos” brasileiros?

Em uma análise pública e responsável, a classificação mais útil não é uma relação de instalações, mas uma matriz de funções. O que importa é identificar quais capacidades precisam permanecer operacionais para que o Estado consiga comandar, detectar, movimentar, abastecer, produzir, comunicar e empregar suas forças em uma crise.

O primeiro grupo corresponde ao comando, controle e processamento de informações. São funções que permitem transformar dados provenientes de sensores e unidades dispersas em consciência situacional e decisões. Sua degradação pode comprometer a coordenação de forças que continuam fisicamente disponíveis.

O segundo é a energia, que sustenta instalações militares e civis, sistemas de telecomunicações, centros de dados, indústria, portos, aeroportos, sistemas de abastecimento e praticamente toda a infraestrutura necessária à mobilização nacional.

O terceiro compreende produção, armazenamento, transporte e distribuição de combustíveis. A existência de aeronaves, navios, blindados e veículos não garante mobilidade se a cadeia responsável por abastecê-los não possuir continuidade e capacidade de reposição.

O quarto envolve a infraestrutura logística: portos, terminais, ferrovias, rodovias, hidrovias e demais conexões que movimentam pessoal, equipamentos, combustíveis, alimentos, matérias-primas e produtos industriais. Sua importância decorre principalmente da possibilidade de uma interrupção afetar simultaneamente diferentes cadeias.

O quinto corresponde à vigilância e ao controle dos espaços aéreo e marítimo. Radares, sensores, sistemas de comando e controle, comunicações e meios de resposta formam uma arquitetura integrada. A degradação de uma dessas camadas pode reduzir a capacidade de detectar, identificar, acompanhar e responder a situações de interesse.

O sexto compreende instalações militares de elevada importância funcional. Seu valor não está apenas na capacidade de combate diretamente disponível, mas também nas funções de comando, manutenção, treinamento, armazenamento, apoio logístico e geração de força que permitem manter unidades operacionais.

O sétimo envolve a Base Industrial de Defesa e sua cadeia de fornecedores. Fábricas, centros de desenvolvimento, instalações de manutenção e capacidades de produção e reparo representam a possibilidade de o País repor, modernizar e regenerar seus meios ao longo de uma crise.

O oitavo corresponde às telecomunicações e à infraestrutura digital crítica. Redes de transmissão de dados, centros de processamento, sistemas de comando, serviços digitais e enlaces de comunicação sustentam tanto atividades civis quanto militares e precisam ser considerados em conjunto com sua proteção cibernética e eletromagnética.

Essas categorias não constituem uma lista de pontos a serem atacados. Elas representam funções cuja continuidade possui valor estratégico. A questão central é identificar quais delas apresentam maior concentração, menor redundância ou maior dependência externa e, a partir daí, avaliar sua resiliência.

Essa abordagem também permite compreender por que a vulnerabilidade de um Estado não pode ser medida apenas pelo número de equipamentos militares disponíveis. Uma força pode conservar grande parte de seus meios e, ainda assim, perder capacidade de resposta se não conseguir comandá-los, abastecê-los, movimentá-los, comunicá-los ou repará-los.

A questão que expõe a insuficiência atual

Quando essa matriz é confrontada com as capacidades brasileiras, o diagnóstico se torna mais preciso. O País possui programas estratégicos relevantes em praticamente todos os principais domínios: defesa aeroespacial, vigilância de fronteiras, defesa cibernética, ASTROS, forças blindadas, Gripen, KC-390, submarinos, fragatas, navios-patrulha e SisGAAz, entre outros.

Portanto, seria tecnicamente incorreto afirmar que o Brasil não dispõe de instrumentos para enfrentar ameaças convencionais. Existe planejamento, existem capacidades operacionais e existem programas destinados a ampliar e modernizar essas capacidades.

A questão aparece em outro nível: a relação entre essas capacidades e a escala das funções que precisam ser protegidas.

O mesmo conjunto de Forças precisa atender a um território continental, uma extensa fronteira terrestre, mais de 8,5 mil quilômetros de litoral, uma Amazônia Azul de aproximadamente 5,7 milhões de km², infraestrutura energética distribuída, corredores logísticos de dimensão nacional, centros industriais concentrados e uma economia cada vez mais dependente de sistemas digitais.

Isso produz um problema de densidade. Uma capacidade pode ser tecnicamente adequada para determinada missão e, ainda assim, insuficiente quando precisa ser distribuída por uma área muito extensa ou atender simultaneamente a diferentes demandas.

O segundo problema é a distribuição. Meios concentrados em determinadas regiões não necessariamente conseguem substituir rapidamente capacidades ausentes em outras áreas. A distância territorial brasileira transforma mobilidade, logística e tempo de deslocamento em componentes da própria capacidade militar.

O terceiro é a disponibilidade. O inventário nominal não corresponde ao número de meios efetivamente prontos para emprego. Manutenção, treinamento, disponibilidade de tripulações, peças, munições e infraestrutura determinam quanto da força pode ser utilizado em determinado momento.

O quarto é a redundância. Ter uma capacidade não significa possuir uma alternativa para substituí-la quando ela estiver indisponível. Quanto menor a redundância de uma função crítica, maior o impacto potencial de uma interrupção.

O quinto é a sustentação. Uma capacidade militar que depende de cadeias externas ou de uma indústria nacional sem escala suficiente pode apresentar desempenho adequado em condições normais e enfrentar limitações justamente quando a demanda por reposição aumentar.

É a combinação desses fatores que revela a insuficiência estrutural. O problema brasileiro não pode ser resumido à ausência de determinado sistema ou à quantidade isolada de uma plataforma. Ele está na relação entre extensão territorial, concentração de funções estratégicas, disponibilidade dos meios, redundância das redes, capacidade de mobilidade e sustentação industrial.

Por isso, a métrica mais útil para este estudo não é simplesmente “quantos meios o Brasil possui”, mas quanta capacidade efetiva consegue gerar, distribuir, manter e regenerar sobre o território e os espaços sob sua responsabilidade. Essa é a diferença entre inventário e poder militar efetivamente disponível.

O Brasil, portanto, não parte de uma situação de ausência absoluta de capacidades. O desafio é elevar sua densidade defensiva, reduzir concentrações excessivas, ampliar redundâncias, aumentar disponibilidade e garantir sustentação industrial e financeira compatíveis com a escala do País.

É nessa combinação que está o verdadeiro problema estratégico: não basta possuir capacidades; é preciso conseguir preservá-las, conectá-las, deslocá-las e regenerá-las quando a pressão sobre o Estado aumentar.

O investimento necessário precisa mudar de lógica

A resposta à vulnerabilidade brasileira não pode ser simplesmente aumentar o número de equipamentos. Uma plataforma isolada acrescenta capacidade, mas não necessariamente aumenta na mesma proporção a capacidade de defesa do sistema. Um caça precisa de armamento, pilotos, manutenção, combustível, base, sensores e comando e controle. Um navio depende de tripulação, munição, manutenção, combustível, infraestrutura portuária e consciência situacional. Um blindado depende de transporte, combustível, munição, manutenção, engenharia e logística.

Isso significa que o investimento precisa ser orientado pela capacidade que se pretende gerar, e não apenas pelo equipamento que se pretende adquirir. A pergunta correta deixa de ser “quantas plataformas faltam?” e passa a ser “quais funções permanecem sem cobertura suficiente quando essas plataformas entram em operação?”.

Na defesa aérea, isso significa construir profundidade entre detecção e resposta: radares e sensores distribuídos, comando e controle, enlaces seguros, caças, defesa antiaérea em diferentes camadas, guerra eletrônica, munição, bases e capacidade de sustentação. A aquisição de um novo vetor sem ampliar os elementos que permitem empregá-lo reduz parte do ganho obtido.

Na defesa marítima, a mesma lógica exige integrar SisGAAz, sensores costeiros, satélites, aeronaves de patrulha, helicópteros, navios, submarinos, sistemas não tripulados e meios de apoio. O objetivo não é colocar mais navios no mar indiscriminadamente, mas aumentar a capacidade de detectar, classificar, acompanhar e responder, direcionando os meios mais complexos para onde sua presença produza maior efeito.

Na defesa terrestre e costeira, a prioridade deve combinar vigilância, mobilidade, defesa aérea, capacidade antinavio, forças terrestres, engenharia, logística e proteção das infraestruturas que sustentam o emprego militar. Em um país continental, a capacidade de deslocar uma força para uma determinada região pode ser tão importante quanto a quantidade de meios existentes.

A mesma lógica vale para a munição. Uma força pode possuir grande quantidade de plataformas modernas e, ainda assim, apresentar baixa capacidade de combate sustentado se seus estoques forem reduzidos, se a produção nacional for limitada ou se a reposição depender de fornecedores externos. O estoque inicial mede capacidade imediata; a capacidade industrial de reposição mede resistência.

O investimento também precisa considerar a disponibilidade. Inventário não é força pronta. Parte dos meios estará em manutenção, treinamento, modernização ou preparação. Quanto maior a disponibilidade desejada, maior será a necessidade de infraestrutura, peças, pessoal, horas de treinamento e contratos de sustentação. Por isso, ampliar o inventário sem financiar seu ciclo de vida pode produzir uma força nominalmente maior, mas operacionalmente pouco diferente.

A infraestrutura crítica segue o mesmo princípio. Energia, combustíveis, telecomunicações, portos, ferrovias, centros logísticos e sistemas digitais não são elementos externos à Defesa. Eles constituem parte da infraestrutura que permite gerar e sustentar poder militar. Sua proteção precisa incorporar redundância, recuperação e alternativas de operação, reduzindo a possibilidade de que uma interrupção localizada produza efeitos em cadeia.

Na indústria, a lógica é ainda mais profunda. O investimento precisa garantir não apenas desenvolvimento e aquisição, mas continuidade de produção, manutenção, reparo, modernização, domínio tecnológico e capacidade de expansão. Sem demanda previsível, a indústria perde escala; sem escala, os custos aumentam; com custos elevados e encomendas descontínuas, a capacidade de investimento diminui. O resultado pode ser uma dependência externa crescente justamente nos segmentos mais sensíveis.

Essa arquitetura exige uma mudança de perspectiva orçamentária. Programas estratégicos não podem ser tratados como despesas isoladas de determinado exercício. Um submarino, uma fragata, um sistema de defesa aérea, um caça ou um radar representam compromissos financeiros que atravessam décadas. O custo real inclui desenvolvimento, infraestrutura, treinamento, munição, manutenção, atualização tecnológica, sobressalentes e eventual substituição.

A previsibilidade, portanto, possui valor militar próprio. Quando o orçamento sofre oscilações que alteram continuamente cronogramas e quantidades, o impacto não fica restrito à execução financeira. Ele afeta contratos, fornecedores, capacidade industrial, formação de pessoal, custos unitários e prazo de entrega. Em projetos tecnológicos complexos, uma interrupção pode significar perda de conhecimento e necessidade de reconstrução de uma cadeia que levou anos para ser formada.

O próprio Ministério da Defesa reconhece a necessidade de regularidade e previsibilidade dos recursos para a execução dos projetos estratégicos. Essa condição deve ser compreendida como requisito de capacidade, e não apenas como demanda administrativa. Sem previsibilidade, o planejamento de longo prazo perde eficácia e a indústria não consegue dimensionar sua capacidade de forma racional.

O problema brasileiro também é de escala. O País possui uma indústria capaz de desenvolver e produzir sistemas sofisticados, mas o mercado doméstico é pequeno para sustentar economicamente determinadas linhas de produção sem continuidade de encomendas, exportações ou aplicações de uso dual. Isso torna a política de defesa inseparável de uma política industrial capaz de ampliar demanda, padronizar sistemas e estimular exportações.

Nesse contexto, mecanismos como contratos plurianuais, encomendas tecnológicas, conteúdo local, compensações industriais, programas de exportação e instrumentos financeiros vinculados à Economia do Mar podem reduzir parte da volatilidade. O objetivo não é simplesmente gastar mais, mas transformar uma parcela maior do gasto em capacidade industrial permanente.

A consequência é direta: cada real investido precisa produzir mais do que uma entrega física. Deve ampliar simultaneamente disponibilidade, autonomia, capacidade industrial, conhecimento tecnológico, logística e possibilidade de regeneração.

A insuficiência mais perigosa é aquela que aparece quando a crise começa

O Brasil já possui programas destinados a enfrentar parte relevante dessas lacunas. Gripen, KC-390, sistemas de defesa antiaérea, SISFRON, ASTROS, forças blindadas, PROSUB, Fragatas Classe Tamandaré, SisGAAz e os programas de recomposição do Poder Naval demonstram que existe planejamento e identificação de capacidades prioritárias.

A questão é se a velocidade de execução, a escala dos programas e a previsibilidade dos recursos são compatíveis com a dimensão das responsabilidades atribuídas às Forças Armadas.

Essa distinção é fundamental. Um programa pode estar tecnicamente correto e ainda produzir uma capacidade insuficiente em escala nacional. Quatro fragatas modernas são uma capacidade relevante; não significam, porém, que toda a costa brasileira possa ser permanentemente coberta por escoltas. Um sistema avançado de defesa antiaérea pode elevar significativamente a proteção de uma área; não significa que todo o território nacional esteja protegido pela mesma arquitetura.

O mesmo ocorre com submarinos, aeronaves, blindados, radares e sistemas de vigilância. A análise precisa considerar quantidade, distribuição, disponibilidade, alcance funcional, tempo de reposição, sustentação e capacidade de reforço. É essa combinação que determina a densidade defensiva efetiva.

Existe ainda uma diferença entre capacidade de primeira resposta e capacidade de resistência. Um país pode reunir meios suficientes para responder a uma crise inicial e, ao mesmo tempo, não possuir estoque, indústria ou logística capazes de sustentar a mesma intensidade de operações durante meses.

Essa é uma das vulnerabilidades mais difíceis de perceber em tempos de paz porque aparece somente quando os sistemas começam a ser submetidos simultaneamente a desgaste, consumo e interrupções de cadeia.

Em uma crise prolongada, a demanda cresce justamente quando a oferta pode diminuir. Munições são consumidas, componentes são substituídos, aeronaves acumulam horas, navios precisam de manutenção, estoques de combustível diminuem e fornecedores estrangeiros podem sofrer restrições. Se a capacidade nacional de reposição não acompanhar essa demanda, a disponibilidade militar começa a cair mesmo sem novas perdas físicas.

É nesse ponto que orçamento, indústria e poder militar deixam de ser questões separadas. Um contingenciamento que atrasa uma aquisição pode afetar uma empresa; a perda de escala pode afetar fornecedores; a redução da produção pode elevar custos; a falta de peças pode reduzir disponibilidade; e a indisponibilidade pode diminuir a capacidade de resposta.

O efeito acumulado pode ser muito maior que o valor inicialmente economizado. Por isso, a defesa brasileira precisa ser planejada não apenas para o cenário de normalidade, mas também para a transição entre normalidade, crise e mobilização. O Estado precisa saber quais capacidades consegue manter no primeiro dia, quais consegue sustentar depois de semanas e quais consegue regenerar durante meses ou anos de pressão.

O Brasil precisa medir sua capacidade de resistir, não apenas sua capacidade de combater

A principal vulnerabilidade brasileira não pode ser reduzida à ausência de uma plataforma específica. Ela está na relação entre a dimensão das funções que precisam ser protegidas e a densidade de capacidades que o Estado consegue manter disponíveis para protegê-las.

O Brasil precisa defender simultaneamente um território continental, uma extensa fronteira terrestre, mais de 8,5 mil quilômetros de litoral e uma Amazônia Azul de aproximadamente 5,7 milhões de km². Ao mesmo tempo, precisa preservar energia, combustíveis, transportes, telecomunicações, portos, indústria, sistemas digitais e cadeias logísticas que sustentam a própria capacidade militar. Essa equação torna insuficiente uma avaliação baseada apenas no inventário.

A densidade defensiva precisa incorporar pelo menos sete dimensões: quantidade de meios, distribuição territorial, disponibilidade operacional, cobertura de sensores, redundância, capacidade logística e capacidade de regeneração industrial. Uma oitava dimensão atravessa todas as demais: previsibilidade financeira para mantê-las.

Essa metodologia permite distinguir uma força numericamente relevante de uma força efetivamente resiliente. Um país pode possuir caças modernos, submarinos avançados, fragatas sofisticadas, blindados, sistemas de foguetes, aeronaves de transporte estratégico e uma indústria de defesa tecnologicamente competente. Ainda assim, pode apresentar baixa resiliência se esses recursos estiverem concentrados, tiverem disponibilidade limitada, dependerem de poucos fornecedores ou não puderem ser repostos em ritmo compatível com uma crise prolongada.

É por isso que o investimento adicional em Defesa não deve ser medido apenas pelo número de equipamentos adquiridos. O indicador estratégico é quanto de capacidade nacional esse investimento acrescenta e por quanto tempo essa capacidade pode ser mantida.

A questão central para o próximo ciclo de planejamento não é apenas quantos meios o Brasil precisa comprar. É quanto poder militar o Estado consegue gerar simultaneamente, sustentar sob pressão e regenerar depois de sofrer desgaste. Essa é a diferença entre capacidade de combate e resiliência estratégica.

E, para um país com a dimensão territorial, marítima e econômica do Brasil, a resiliência dependerá menos de possuir alguns sistemas de excelência isolados do que de construir uma arquitetura suficientemente densa, distribuída, redundante, disponível e industrialmente sustentável para continuar funcionando quando a crise deixar de ser pontual e passar a pressionar todo o sistema nacional de defesa.


por Angelo Nicolaci


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