quinta-feira, 8 de outubro de 2026

Depois das Tamandaré: por que uma FDI brasileira pode ser o próximo salto da Esquadra

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A construção das Fragatas Classe Tamandaré representa uma mudança importante na trajetória recente da Marinha do Brasil. O Programa Fragatas Classe Tamandaré (PFCT) recolocou o País em um ciclo de construção seriada de escoltas modernas, recuperou capacidade industrial e estabeleceu uma nova relação entre a Marinha, a indústria brasileira e parceiros estrangeiros. Mas justamente por isso, o programa também coloca uma questão que não pode ser adiada indefinidamente: qual será o próximo degrau?

A resposta não seria a substituição das Tamandaré, mas sua complementação por uma classe de maior capacidade, maior margem de crescimento e maior capacidade de combate. A proposta que merece ser estudada é uma força composta por oito Tamandaré, destinadas a dar volume à Esquadra, complementadas inicialmente por quatro fragatas de uma categoria superior, com possibilidade de expansão futura para seis unidades. Nessa segunda classe, a FDI, da francesa Naval Group, oferece uma referência concreta de plataforma madura sobre a qual o Brasil poderia desenvolver uma configuração própria, caso os estudos demonstrem que sua arquitetura pode atender aos requisitos brasileiros.

A diferença entre as duas classes é relevante. As Tamandaré possuem 107,2 metros, deslocamento de 3.455 toneladas, velocidade máxima de 25 nós e autonomia de 28 dias. Foram concebidas como escoltas multifuncionais e representam um salto importante em relação aos meios que substituem.

A FDI parte de outro patamar. A plataforma possui aproximadamente 122 metros, 4.500 toneladas de deslocamento, 18 metros de boca e velocidade máxima de 27 nós. A Naval Group informa ainda instalações para operar helicópteros de até 10 toneladas e capacidade de operar um Sistema Aéreo Remotamente Pilotado (SARP) em simultâneo, além da arquitetura digital concebida para acompanhar a evolução tecnológica e operacional do navio.

Essa diferença não deve ser interpretada simplesmente como uma disputa entre dois projetos. O ponto é outro: uma Esquadra de dimensões continentais precisa combinar quantidade com capacidade. As Tamandaré podem formar o núcleo quantitativo de escoltas modernas, enquanto uma segunda classe, com maior capacidade de combate e crescimento, poderia assumir missões que exigem maior permanência no mar, defesa aérea mais robusta, guerra antissubmarino mais profunda, maior volume de sensores e armas e, principalmente, maior margem para incorporar sistemas ao longo de quatro décadas de serviço. É nesse espaço que uma plataforma como a FDI se torna particularmente interessante para o planejamento brasileiro.

A análise que antecede esta proposta

Essa discussão não começa agora. O GBN Defense já havia colocado em debate a necessidade de a Marinha do Brasil pensar além da Classe Tamandaré e planejar uma segunda geração de escoltas de maior capacidade.

Na análise publicada em 26 de agosto de 2026, o GBN Defense destacou que a Tamandaré representa uma recuperação necessária da capacidade de presença e escolta da Marinha, mas que suas características naturais, associadas ao porte intermediário da plataforma, não eliminam a necessidade de uma categoria superior de navios concebida desde a origem para missões de maior intensidade e complexidade.

A análise apontou particularmente para quatro questões: a necessidade de uma capacidade antissubmarino mais profunda, incluindo sistemas rebocados; uma defesa aérea capaz de ultrapassar a simples autoproteção e contribuir para a defesa de uma força naval; maior volume e alcance de armamentos; e, sobretudo, maior margem de crescimento estrutural, elétrico, computacional e tecnológico para acompanhar as mudanças que ocorrerão durante décadas de serviço.

Naquele estudo, o GBN Defense propôs que a Marinha começasse a considerar uma segunda camada de escoltas, formada por quatro a seis fragatas de maior deslocamento, na faixa de 6.000 a 8.500 toneladas, complementando as Tamandaré sem substituí-las. A lógica era simples: as Tamandaré forneceriam volume, presença e capacidade multifuncional, enquanto uma classe maior concentraria capacidades necessárias aos cenários de maior intensidade.

Leia a análise anterior do GBN Defense: “Da Tamandaré à próxima geração: por que a Marinha precisa pensar além das fragatas Tamandaré”

A proposta de uma configuração brasileira baseada na FDI nasce, portanto, como desdobramento daquela necessidade, e não como uma decisão antecipada de plataforma. A questão central continua sendo a definição de uma segunda classe de escoltas mais capaz. A FDI entra no debate porque já existe, está em produção e oferece uma arquitetura concreta que pode ser submetida à avaliação brasileira. Se os requisitos definidos pela Marinha demonstrarem a necessidade de uma plataforma maior, a própria avaliação deverá apontar esse caminho.

Uma segunda camada de escoltas

A FDI foi concebida como uma fragata multimissão capaz de atuar nos ambientes de superfície, aéreo, submarino, assimétrico e cibernético. Sua configuração francesa inclui radar Sea Fire, mísseis Aster, Exocet MM40, RAM, torpedos MU90, canhão de 76 mm e sistemas de contramedidas. Na configuração grega divulgada pela Naval Group, a plataforma também incorpora quatro tubos de torpedos e mantém a capacidade de operar simultaneamente helicóptero e VANT.

Para o Brasil, entretanto, o objetivo não deveria ser reproduzir automaticamente uma FDI francesa ou grega. O caminho mais racional seria utilizar a plataforma como ponto de partida e avaliar sua arquitetura diante dos requisitos brasileiros, aproveitando aquilo que já está maduro e modificando aquilo que for necessário para responder às necessidades específicas da Marinha.

Uma eventual configuração brasileira deveria nascer de uma pergunta operacional: que capacidade a Esquadra precisa ter além daquela oferecida pelas Tamandaré?

A resposta aponta para uma escolta com maior capacidade de defesa aérea, guerra antissubmarino mais sofisticada, maior capacidade de geração e distribuição de energia, maior margem de crescimento, maior volume de armamentos e sensores e capacidade de operar por longos períodos no Atlântico Sul.

O objetivo não seria criar um navio excessivamente complexo. Seria estabelecer uma segunda camada de combate, numericamente menor, mas qualitativamente superior.

Quatro primeiro, seis como objetivo

Uma força inicial de quatro unidades pode ser considerada como um núcleo de alta capacidade, sem comprometer a lógica de produção seriada das Tamandaré. Uma segunda etapa poderia elevar essa força para seis navios, caso a experiência operacional, a disponibilidade orçamentária e o planejamento da força justifiquem essa expansão.

Nesse desenho, oito Tamandaré forneceriam presença, escolta, patrulha e massa de combate, enquanto quatro a seis unidades de maior capacidade concentrariam missões mais exigentes, como defesa aérea mais robusta, guerra antissubmarino avançada, comando de forças-tarefa e emprego em operações de maior intensidade.

Essa composição também cria uma vantagem importante de disponibilidade. Uma força de seis navios de maior capacidade não significa seis navios permanentemente empregados. Ao longo do ciclo de vida haverá períodos de manutenção, modernização e treinamento. Uma quantidade maior permite distribuir melhor os ciclos de prontidão sem retirar a capacidade superior da Esquadra.

O quantitativo, entretanto, deve ser entendido como hipótese de planejamento, e não como resultado de um estudo já realizado. A definição final dependerá da estrutura de operações da Marinha, dos níveis de prontidão desejados, dos ciclos de manutenção e, naturalmente, da disponibilidade orçamentária e de sua compatibilização com os demais programas estratégicos da Força.

Não se trata, portanto, de substituir o PFCT. Trata-se de impedir que o programa termine sem que exista uma sucessão industrial e operacional planejada.

O SH-16 já faz parte da equação

A capacidade aeronaval é outro ponto que favorece essa arquitetura. A FDI possui instalações para helicópteros da classe de 10 toneladas, enquanto o SH-16 Seahawk da Marinha está inserido justamente nessa categoria de aeronaves. A plataforma, portanto, oferece uma base física coerente com a operação de um helicóptero pesado de guerra antissubmarino, embora a integração específica precise ser validada no contexto de uma configuração brasileira.

Para uma eventual FDI brasileira, o SH-16 deveria ser tratado como requisito operacional a ser considerado desde a concepção, e não apenas como possibilidade. Isso permitiria manter uma capacidade aeronaval comum entre as duas classes de escoltas, reduzindo a necessidade de criar uma cadeia logística específica para uma nova aeronave embarcada.

Mais importante, o helicóptero seria parte de uma arquitetura ASW mais ampla, combinando sonar de casco, sonar de profundidade variável, torpedos MU90, sensores acústicos e, como requisito de evolução a ser estudado, um sonar de matriz rebocada, este último uma capacidade ausente nas Tamandaré.

A combinação é especialmente relevante para o Atlântico Sul, onde a guerra antissubmarino exige capacidade de detecção em diferentes camadas da coluna d'água e não pode depender exclusivamente de sensores instalados no casco.

Defesa aérea: o ponto em que a FDI brasileira poderia ser diferente

A configuração original da FDI francesa emprega Aster e a configuração grega divulgada pela Naval Group utiliza 32 mísseis Aster. Para o Brasil, porém, existe uma alternativa conceitual que merece estudo: explorar uma arquitetura baseada na família CAMM, aproximando a defesa aérea da eventual nova classe daquela já adotada pelas Tamandaré.

A lógica não é simplesmente escolher o míssil de maior alcance disponível. É buscar comunalidade. A própria MBDA descreve o CAMM como um míssil compacto, de lançamento vertical, com cobertura de 360 graus e capacidade de emprego contra múltiplos alvos simultaneamente. A empresa também destaca que o Sea Ceptor utiliza o mesmo CAMM empregado em outras aplicações terrestres, permitindo estoque comum e ganhos de custo ao longo do ciclo de vida.

Existe ainda uma solução de lançamento ExLS qualificada para o CAMM. A MBDA informa que o sistema de três células pode empregar quatro mísseis por célula, utilizando a arquitetura quad-pack, justamente para obter elevada massa de fogo em espaço reduzido.

Isso não significa que uma FDI possa simplesmente substituir seus lançadores Sylver por determinado número de ExLS. Essa integração exigiria estudos estruturais, de estabilidade, armazenamento, exaustão, alimentação, segurança, combate e arquitetura do navio.

Por isso, uma elevada densidade de mísseis CAMM deve ser tratada como objetivo de estudo, e não como requisito previamente definido. Uma configuração na ordem de 48 mísseis poderia ser avaliada como referência de projeto, caso a engenharia confirme que essa quantidade e o arranjo de lançamento são compatíveis com o volume disponível, a estabilidade, os demais sistemas e os requisitos de crescimento do navio.

A vantagem estaria menos no número absoluto de mísseis do que na possibilidade de aproximar a cadeia logística das duas classes. O CAMM já integra a arquitetura das Tamandaré; uma eventual configuração brasileira da FDI poderia explorar essa comunalidade em treinamento, manutenção, estoque e gerenciamento do ciclo de vida.

Se, no futuro, a Marinha considerar necessário aumentar o alcance da defesa aérea, uma evolução dentro da própria família CAMM poderia ser estudada, desde que tecnicamente compatível com a arquitetura escolhida. Isso permitiria que o requisito de crescimento fosse incorporado ao projeto desde o início, em vez de exigir uma reconstrução posterior da arquitetura do navio.

MANSUP: nacionalização onde já existe uma base

A mesma lógica pode ser aplicada à guerra antissuperfície, onde a Marinha estabeleceu no desenvolvimento do MANSUP o requisito de compatibilidade com os lançadores e consoles existentes em seu inventário. A própria documentação da Força registra que os lançadores de Exocet empregados nos escoltas brasileiros são compatíveis com o MANSUP.

Isso abre uma oportunidade objetiva para uma eventual configuração brasileira da FDI. Em vez de introduzir uma nova família de mísseis antinavio, a plataforma poderia ser concebida desde o início para empregar o MANSUP, com oito mísseis como referência de configuração a ser validada pela engenharia.

O resultado seria uma arquitetura que combinaria uma plataforma de origem estrangeira com um armamento nacional em um dos seus principais sistemas ofensivos.

Esse é exatamente o tipo de nacionalização que interessa a uma estratégia de soberania tecnológica: não nacionalizar por princípio tudo aquilo que já existe no mercado, mas concentrar esforços nos sistemas em que o Brasil possui competência industrial e interesse estratégico.

Itaguaí: a oportunidade que já foi construída

É aqui que a proposta deixa de ser apenas uma discussão sobre navios e passa a ser uma discussão sobre política industrial. O Brasil já investiu na criação de uma infraestrutura naval de elevada complexidade em Itaguaí.

O PROSUB foi estruturado a partir da parceria estratégica Brasil–França estabelecida em 23 de dezembro de 2008 e teve como pilares a transferência de tecnologia, a nacionalização de equipamentos e sistemas e a capacitação de pessoal. O programa inclui a UFEM, os estaleiros e a Base Naval em Itaguaí.

A dimensão dessa transferência é particularmente importante. A Marinha informa que mais de 250 engenheiros e técnicos da própria Força, da NUCLEP e da Itaguaí Construções Navais foram qualificados no processo de transferência de tecnologia, realizado no Brasil e na França. Não se trata, portanto, apenas de um conjunto de prédios e equipamentos: existe uma base humana, industrial e tecnológica acumulada.

A ICN domina processos de construção de submarinos no Brasil, enquanto a Naval Group forneceu tecnologia, documentação, equipamentos e assistência técnica. A própria Naval Group afirma que equipes brasileiras foram treinadas em técnicas de construção e que fornecedores locais foram qualificados e incorporados à sua cadeia de suprimentos. É justamente essa capacidade que merece ser analisada para além do emprego exclusivo na construção de submarinos.

Isso não significa afirmar que Itaguaí esteja destinado a ficar sem função após determinadas etapas do PROSUB. O complexo continuará vinculado às atividades da força de submarinos e ao desenvolvimento do programa nuclear da Marinha. A questão estratégica é outra: existe capacidade industrial instalada que pode, se os estudos de engenharia e capacidade demonstrarem viabilidade, ser aproveitada também em uma linha paralela de construção de escoltas?

Se a resposta técnica for positiva, o Brasil teria a possibilidade de utilizar uma infraestrutura já criada pelo Estado para atender a uma segunda necessidade estratégica brasileira, sem comprometer as atividades para as quais o complexo foi originalmente estruturado.

Uma FDI brasileira não começaria do zero

Essa é provavelmente a principal diferença entre essa proposta e um novo programa naval concebido integralmente do zero.

O PFCT exigiu a implantação de uma estrutura industrial específica para a construção das Tamandaré em Itajaí. O programa envolve quatro navios, cerca de 40% de conteúdo local em equipamentos e serviços, aproximadamente mil empresas participantes e uma estimativa de 23 mil empregos diretos, indiretos e induzidos. O contrato também incorporou transferência de conhecimento e tecnologia relacionada ao CMS e ao IPMS e gestão do ciclo de vida.

Uma eventual configuração da FDI construída em Itaguaí teria outra condição de partida. O Brasil já teria uma infraestrutura naval de grande porte, pessoal qualificado, experiência recente em construção de meios complexos e uma relação de longo prazo com a Naval Group.

Isso não significa que uma FDI brasileira seria automaticamente mais barata. Seria incorreto afirmar isso antes de uma engenharia de custos detalhada. O que pode ser afirmado é que parte dos custos e riscos associados à criação de uma nova capacidade industrial poderia potencialmente ser reduzida, porque infraestrutura, conhecimento e competências já existem.

Ainda seriam necessários projeto, adaptação de instalações, ferramentas, treinamento específico, qualificação de fornecedores, integração de sistemas, engenharia de produção, certificações e definição contratual.

Mas a diferença é estratégica: o Brasil não estaria começando da estaca zero.

O segundo retorno: tecnologia

O verdadeiro valor de um programa dessa natureza não estaria apenas nos quatro ou seis navios entregues à Marinha, mas no conhecimento acumulado.

Um programa baseado na FDI poderia envolver transferência de tecnologia e capacitação em engenharia naval, integração de sistemas de combate, arquitetura digital, sensores, guerra eletrônica, gerenciamento de plataforma, manutenção, logística e gestão do ciclo de vida. O PROSUB demonstrou que esse modelo é possível.

No caso dos submarinos, a transferência de tecnologia francesa alcançou não apenas a construção dos meios, mas também a própria infraestrutura industrial. A Naval Group participou do fornecimento de requisitos técnicos, avaliação e certificação de projetos e consultoria durante a construção da UFEM e dos estaleiros. Essa experiência é um ativo brasileiro.

Uma nova cooperação de superfície poderia ampliar esse conhecimento para uma área diferente da construção naval militar, permitindo que engenheiros, técnicos e fornecedores brasileiros acumulassem experiência em uma segunda família de meios de combate.

O terceiro retorno: indústria e empregos qualificados

O efeito econômico também não deve ser medido apenas pelo valor do contrato. A construção naval mobiliza metalurgia, eletrônica, automação, software, sistemas elétricos, hidráulica, propulsão, sensores, comunicações, integração de sistemas, manutenção e logística.

O próprio PFCT demonstra a dimensão desse efeito, com aproximadamente mil empresas envolvidas e 23 mil empregos estimados. No PROSUB, o impacto também ultrapassou a construção dos submarinos. A Marinha destaca a formação de mão de obra, o desenvolvimento tecnológico e o fortalecimento da indústria naval como resultados do programa.

Uma linha adicional de produção em Itaguaí poderia preservar parte desse conhecimento, gerar demanda continuada para fornecedores e evitar que competências adquiridas ao longo de anos sejam perdidas entre um grande programa e outro. Esse ponto é particularmente importante em programas de defesa.

Uma capacidade industrial estratégica não se constrói apenas com a assinatura de um contrato, nem se preserva automaticamente após a entrega do último produto. Ela depende de continuidade. Quando o trabalho desaparece, também começam a desaparecer os profissionais qualificados, os fornecedores especializados, o conhecimento acumulado e a capacidade de engenharia. Interromper essa atividade por longos períodos significa na prática, começar novamente anos depois e pagar novamente pelo conhecimento que o País já adquiriu.

França e Brasil: uma parceria que pode avançar para a superfície

A relação com a França oferece ainda uma vantagem que poucos potenciais fornecedores poderiam apresentar ao Brasil: existe um histórico concreto de cooperação tecnológica e industrial em território brasileiro.

O PROSUB nasceu justamente de uma parceria estratégica entre os dois países, com transferência de tecnologia, capacitação de pessoal e construção de infraestrutura no Brasil.

A Naval Group, por sua vez, já participou diretamente da formação da cadeia industrial brasileira ligada ao programa. A empresa informa que fornecedores locais foram qualificados e incorporados à cadeia de suprimentos, criando competências que podem ser utilizadas em outras oportunidades.

Uma eventual configuração brasileira baseada na FDI poderia, portanto, ser apresentada não como uma relação convencional de comprador e vendedor, mas como uma possível evolução da parceria industrial iniciada com o PROSUB.

Para a França, haveria a oportunidade de consolidar no Brasil uma segunda capacidade produtiva associada a uma plataforma naval moderna. Para o Brasil, haveria a oportunidade de ampliar o domínio tecnológico, gerar empregos qualificados, fortalecer a Base Industrial de Defesa e avaliar o aproveitamento de uma infraestrutura estratégica já existente. Para a Marinha, haveria uma nova classe de escoltas de maior capacidade integrada a uma força que já estaria recebendo as Tamandaré.

O que precisa ser estudado antes de qualquer decisão?

A proposta não elimina a necessidade de estudos técnicos e operacionais. Ao contrário: transforma uma necessidade estratégica em uma hipótese concreta, permitindo que a Marinha avalie, com dados, se uma configuração brasileira baseada na FDI é industrial, operacional e economicamente viável.

O primeiro estudo deve ser industrial. É necessário verificar a capacidade real de Itaguaí para receber uma linha de construção de navios de superfície sem comprometer as atividades do PROSUB. Isso envolve áreas disponíveis, docagem, oficinas, guindastes, movimentação de cargas, energia, logística, segurança, fluxo de materiais e, principalmente, a possibilidade de compartilhar ou ampliar estruturas e recursos sem criar gargalos para o programa de submarinos.

Em paralelo, deve ser conduzido um estudo de engenharia e capacidade produtiva envolvendo a Marinha, a ICN, a Naval Group e empresas brasileiras. O objetivo seria identificar o que pode ser produzido e integrado no País, quais componentes permaneceriam dependentes de fornecedores externos, quais competências já existem na indústria nacional e onde haveria oportunidade concreta de transferência de tecnologia, qualificação de fornecedores e desenvolvimento de novas capacidades.

Só então entra a definição dos requisitos operacionais da nova classe. É nesse ponto que a proposta deixa de ser simplesmente uma FDI construída no Brasil e passa a ser, de fato, uma configuração brasileira: uma plataforma adaptada às necessidades da Marinha e à realidade do Atlântico Sul.

Nesse processo devem ser avaliados, desde o início, a operação do SH-16, sonar de casco, VDS, a adoção de um sonar de matriz rebocada, MU90, MANSUP, defesa antiaérea baseada na família CAMM, guerra eletrônica, capacidade C-UAS, SARP, sensores de maior desempenho e uma arquitetura elétrica, computacional e estrutural preparada para crescimento.

A partir desses requisitos será possível definir o que realmente importa no projeto: quantidade e disposição das células de lançamento, arquitetura dos sistemas de armas, potência elétrica instalada e reserva, capacidade de geração e distribuição de energia, volumes de magazine, integração dos sensores, espaços para manutenção e, sobretudo, margem física e tecnológica para modernizações ao longo da vida útil.

Essa ordem de trabalho é fundamental. Não se trata de escolher primeiro uma plataforma e depois tentar encaixar nela todas as necessidades brasileiras. O caminho mais seguro é definir a capacidade que a Marinha precisa, verificar se a infraestrutura nacional consegue sustentá-la e, a partir daí, determinar se a FDI, ou outra plataforma, pode atender aos requisitos.

Se os estudos demonstrarem viabilidade, a discussão deixa de ser apenas sobre a compra de uma nova fragata e passa a envolver algo muito mais estratégico: a criação de uma segunda linha de escoltas e a continuidade da capacidade brasileira de projetar, construir, integrar e sustentar navios de guerra de alta complexidade.

O momento de pensar na próxima classe é agora

A maior vantagem de iniciar essa discussão enquanto o PFCT e o PROSUB ainda estão em execução é justamente evitar um intervalo entre programas. O Brasil levou décadas para recuperar capacidade de construção naval moderna. Repetir um ciclo de interrupção industrial significaria novamente perder mão de obra, fornecedores, conhecimento e capacidade de engenharia.

Uma segunda classe de fragatas planejada desde já permitiria que a experiência acumulada com a Tamandaré fosse incorporada ao projeto seguinte. E isso poderia gerar uma arquitetura de força mais coerente: oito navios de uma classe comum e moderna, complementados por quatro a seis escoltas de maior capacidade.

Não é necessário decidir hoje que a FDI será necessariamente a resposta definitiva. Mas já existe material suficiente para concluir que uma plataforma na categoria da FDI deve estar entre as alternativas estudadas pela Marinha.

A questão não é comprar quatro navios franceses. A questão é decidir se o Brasil quer aproveitar a infraestrutura de Itaguaí, a experiência acumulada pelo PROSUB, a relação estratégica com a França e a capacidade industrial desenvolvida nos últimos anos para avaliar a construção de uma segunda geração de escoltas em território nacional.

Se os estudos demonstrarem que a FDI pode atender aos requisitos brasileiros, ela oferece uma vantagem que não pode ser ignorada: já existe, está em produção, foi projetada para operar em múltiplos ambientes de combate e possui uma arquitetura que pode ser avaliada quanto à sua adaptação às necessidades brasileiras.

A questão estratégica

A Classe Tamandaré não deve ser tratada como destino final da renovação da força de escoltas, mas como a base sobre a qual a próxima capacidade precisa ser planejada. A Tamandaré deve formar o núcleo quantitativo da nova Esquadra. O próximo passo é planejar uma segunda classe, menor em número e superior em capacidade, capaz de assumir missões de maior intensidade.

A FDI é uma alternativa concreta para esse estudo. Sua eventual adoção, porém, deve partir dos requisitos da Marinha e da viabilidade de uma configuração brasileira, e não de uma decisão prévia pela plataforma.

O ponto estratégico está em Itaguaí. O Brasil já investiu em infraestrutura, formação de pessoal, transferência de tecnologia e cadeia industrial. O PROSUB criou capacidades que não devem ser tratadas como ativos de um único programa.

Se houver viabilidade técnica para incorporar uma linha de construção de escoltas sem comprometer o PROSUB, essa possibilidade deve ser estudada agora.

O planejamento da próxima classe precisa começar antes da conclusão das Tamandaré. É assim que o Brasil transforma programas isolados em capacidade naval permanente.


por Angelo Nicolaci


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Airbus avalia NH90 NFH para substituir helicópteros Lynx da Marinha Portuguesa

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A Airbus Helicopters avalia oferecer o NH90 NFH à Marinha Portuguesa para substituir os atuais helicópteros Lynx Mk95. A empresa considera o modelo adequado às futuras necessidades da força naval, mas Portugal ainda não anunciou uma concorrência nem definiu qual aeronave pretende adquirir.

Segundo Julien Negrel, vice-presidente da Airbus Helicopters para a Europa Ocidental, o NH90 NFH reúne capacidades para operações embarcadas, com destaque para a guerra antissubmarino e a vigilância marítima. Desenvolvido para operações navais, o helicóptero pode ampliar as capacidades de detecção e combate a ameaças no mar.

A Marinha Portuguesa opera cinco Lynx Mk95, empregados em missões de guerra antissubmarino, combate a alvos de superfície, interdição marítima, busca e salvamento e evacuação médica. Incorporados a partir de 1993, os helicópteros passam por um programa de modernização.

Em maio de 2026, o governo português ajustou o calendário de pagamentos desse programa, destinando mais de € 2,15 milhões ao exercício de 2026 para dar continuidade aos trabalhos. Os atrasos foram associados a fatores como a pandemia de COVID-19, o Brexit, a guerra na Ucrânia e intervenções adicionais na última aeronave. O contrato manteve seu escopo e valor global.

A futura substituição dos Lynx também está ligada à chegada de três fragatas FREMM EVO, adquiridas da Itália, com entregas previstas para 2029 e 2030. Os navios serão recebidos sem helicópteros incluídos no contrato, deixando para uma etapa posterior a definição da solução de aviação embarcada.

A Marinha Portuguesa considera manter os Lynx modernizados em serviço até 2035, o que permite avaliar as alternativas para a próxima geração. Entre as possibilidades estão novos helicópteros tripulados e sistemas remotamente pilotados para determinadas missões antissubmarino.

A manifestação da Airbus coloca o NH90 NFH entre as opções que poderão ser apresentadas a Portugal. A escolha, porém, dependerá dos requisitos operacionais, dos custos de aquisição e manutenção e da integração com as futuras fragatas. Por enquanto, a empresa sinaliza interesse no programa ainda sem modelo definido ou processo de compra anunciado.


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Rainha da Tailândia realiza primeiro voo solo em um Gripen JAS 39C

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A rainha Suthida Bajrasudhabimalalakshana, da Tailândia, realizou nesta quinta-feira (8) seu primeiro voo solo em um caça Saab JAS 39C Gripen, na Ala 7 da Força Aérea Real Tailandesa, em Surat Thani. O voo ocorreu às 10h06, horário local, sob acompanhamento do rei Maha Vajiralongkorn e de oficiais da Força Aérea. 

O voo representa uma nova etapa na formação da rainha para operar o caça sueco. Antes de assumir sozinha o cockpit do JAS 39C, Suthida realizou treinamento em simulador e acumulou 10,13 horas de voo no JAS 39D Gripen, versão biposto utilizada para instrução.

A formação seguiu os procedimentos da própria Força Aérea Real Tailandesa e incluiu períodos de treinamento na Ala 7. A rainha realizou duas etapas de preparação em Surat Thani, entre agosto e setembro, antes da fase final que culminou no voo solo. 

Suthida possui experiência anterior em diferentes aeronaves. Segundo dados divulgados na Tailândia, acumula 1.188,48 horas de voo, incluindo aeronaves como T-41D, CT-4E, PC-9, Mooney M20M, Piper PA-34 Seneca e Boeing 737. Ela também já atuou como copiloto em voos reais ao lado do rei. 

Após o pouso, o rei apresentou flores à rainha e colocou em seu uniforme o distintivo dourado "Gripen Order", concedido a pilotos que voaram o JAS 39 Gripen. O episódio ocorreu na unidade responsável pela operação dos Gripen C/D da Força Aérea tailandesa. 

A Tailândia emprega o Gripen C/D como parte de sua defesa aérea e está avançando simultaneamente na renovação dessa frota. Em maio, a Força Aérea Real Tailandesa informou que acompanhava, junto à Suécia, o programa de aquisição dos novos Gripen E/F.

O voo de Suthida ocorre, portanto, dentro de uma força aérea que mantém o Gripen C/D em operação enquanto prepara a incorporação da nova geração do caça. Além do aspecto simbólico, a atividade evidencia a aplicação de um processo formal de treinamento e qualificação para uma aeronave de combate de alto desempenho.


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Dassault assina MoU com indústria portuguesa para disputa pelo substituto dos F-16

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A disputa pelo substituto dos F-16M da Força Aérea Portuguesa já começou, embora Portugal ainda não tenha lançado formalmente uma concorrência. Em 23 de setembro, na Embaixada da França em Lisboa, a Dassault Aviation assinou um Memorando de Entendimento (MoU) com o AED Cluster Portugal, associação que reúne empresas dos setores aeronáutico, espacial e de defesa.

O acordo foi firmado pela Dassault em nome dos parceiros do Rafale, Thales e Safran, e busca ampliar a cooperação com a indústria portuguesa. A iniciativa acompanha a proposta formal do Rafale apresentada ao governo português e à Força Aérea em julho.

O MoU não assegura a escolha pela opção francesa. Seu peso está na dimensão industrial: a Dassault procura estabelecer, antes da abertura do processo, uma rede de cooperação com empresas portuguesas que poderão participar da produção, manutenção, suporte e demais atividades associadas ao ciclo de vida do Rafale em Portugal.

É uma estratégia importante para disputa na qual o pacote oferecido ao país terá peso semelhante ao desempenho da aeronave. Para Portugal, a escolha envolve não apenas capacidade de combate, mas também custos de operação, sustentação, transferência de tecnologia, participação industrial e autonomia para manter o sistema em serviço por décadas.

A iniciativa francesa ocorre enquanto outros três concorrentes avançam em suas campanhas. A Airbus com seu Eurofighter Typhoon, também busca ampliar sua relação com a indústria portuguesa. Enquanto a Lockheed Martin com F-35A, e a sueca Saab com Gripen E/F, completam o grupo de candidatos à substituição dos F-16M lusitanos.

Nenhum deles, porém, está disputando oficialmente uma concorrência. Lisboa ainda precisa definir os parâmetros do programa e enquadrar os recursos necessários na nova Lei de Programação Militar.

A sucessão dos F-16

Portugal opera hoje 28 F-16M, sendo 24 F-16AM e quatro F-16BM. As aeronaves continuam sendo empregadas em missões dentro do cenário português e da OTAN, mas a necessidade de definir seu sucessor já entrou na agenda política e estratégica do país.

Durante anos, o F-35A foi considerado a opção mais provável. A experiência portuguesa com o F-16 e a integração com as forças norte-americanas dentro da OTAN favoreciam naturalmente a solução.

O cenário mudou com o aumento das incertezas na relação entre Washington e seus aliados europeus. Ainda assim, Lisboa não retirou o F-35A da disputa. Em 8 de outubro, o ministro dos Negócios Estrangeiros, Paulo Rangel, afirmou que Portugal continua considerando seriamente a aeronave norte-americana, ao lado das alternativas europeias. A decisão, portanto, permanece aberta.

A indústria entra na disputa

A movimentação da Dassault mostra que a competição começou antes mesmo da abertura formal da concorrência. Os fabricantes buscam antecipar compromissos com empresas portuguesas e apresentar não apenas um caça, mas também uma cadeia industrial capaz de gerar manutenção, transferência de tecnologia, treinamento e participação local.

O MoU firmado pela Dassault não define o vencedor, mas cria uma base para sua proposta industrial. Airbus, Saab e Lockheed Martin seguem a mesma lógica, combinando capacidade militar, custos de longo prazo e benefícios para a indústria portuguesa.

Para Lisboa, a disputa amplia o poder de negociação. A decisão, porém, terá de conciliar retorno industrial com requisitos operacionais, interoperabilidade com a OTAN e sustentabilidade da futura frota.


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Naval Group amplia ofensiva por fragatas na Europa

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O Naval Group está ampliando sua presença no mercado europeu de defesa naval, impulsionado pelo aumento dos investimentos em defesa e pela demanda por novas fragatas. A empresa francesa aposta na capacidade industrial instalada e na entrega de navios dentro dos cronogramas para disputar contratos com concorrentes como BAE Systems, TKMS e Babcock.

Clientes europeus fora da França já representam entre 20% e 25% do faturamento anual do grupo, de €4,7 bilhões. Em 2019, essa participação era praticamente inexistente. O crescimento foi sustentado por contratos na Grécia, Bélgica, Holanda e Suécia.

O próximo objetivo é a Dinamarca, onde o Naval Group prepara uma proposta para o programa de novas fragatas. A concorrência ocorre em meio à expansão dos investimentos navais europeus, impulsionada pela guerra na Ucrânia, pela crescente atividade russa no entorno europeu e pela necessidade de reforçar as capacidades marítimas do continente.

“Uma das características do mercado europeu atualmente é a necessidade de entregas rápidas com sistemas que funcionem”, afirmou Guillaume Weisrock, vice-presidente sênior de vendas e desenvolvimento de negócios do Naval Group para Europa e América do Norte.

Capacidade industrial

O Naval Group procura explorar uma vantagem diante de concorrentes que enfrentaram atrasos e aumento de custos em programas recentes.

No estaleiro de Lorient, três fragatas destinadas à Grécia estavam em diferentes fases de construção e testes. Uma primeira unidade já foi entregue à Marinha grega. O estaleiro também iniciou a construção da primeira de quatro fragatas contratadas pela Suécia, enquanto mantém navios destinados à Marinha francesa em produção.

A empresa afirma que pode construir duas fragatas de defesa e intervenção por ano em Lorient, com prazo de entrega inferior a quatro anos e meta de reduzir esse período para aproximadamente três anos.

A capacidade de produção ganhou importância após problemas em outros programas europeus. Em junho, a Alemanha cancelou um programa de fragatas conduzido pela Damen após dificuldades relacionadas a custos e cronograma, transferindo a demanda para a TKMS. A Bélgica também enfrenta atrasos em um programa envolvendo a empresa holandesa.

Parcerias locais

O Naval Group combina a oferta de suas plataformas com participação industrial dos países compradores.

Na Grécia, a empresa trabalha com os estaleiros Salamis. Na Suécia, estabeleceu parceria com a Saab para integrar equipamentos e sistemas nacionais às fragatas.

“Isso também inclui incorporar as soluções deles ao nosso catálogo de opções”, afirmou Jean-Marie Dorbon, diretor do programa de fragatas do Naval Group.

A estratégia permite adaptar os navios às exigências dos clientes sem abandonar uma linha de produção já estabelecida.

Disputa estratégica

A concorrência permanece acirrada. O Naval Group perdeu para a BAE Systems a disputa por novas fragatas para a Noruega e agora enfrenta a Babcock na concorrência dinamarquesa. A TKMS, por sua vez, ganhou espaço na Alemanha após assumir o programa de fragatas anteriormente atribuído à Damen.

O movimento evidencia uma mudança no mercado europeu: além de desempenho e armamento, os governos passaram a avaliar a capacidade dos fabricantes de produzir, entregar e sustentar os navios dentro dos prazos previstos.

Para o Naval Group, essa combinação de produção ativa, parcerias industriais e capacidade de entrega tornou-se um dos principais argumentos para ampliar sua participação no mercado naval europeu.


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Portugal coloca F-35 no centro da disputa para substituir seus F-16M

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Portugal ainda não abriu formalmente uma disputa para substituir sua frota de caças F-16M, mas a disputa pelo futuro da aviação de combate portuguesa já ganhou peso político. O governo de Lisboa confirmou nesta quinta-feira (8) que considera seriamente a aquisição do F-35A da Lockheed Martin, ao mesmo tempo em que mantém abertas outras alternativas europeias.

A confirmação foi feita pelo ministro dos Negócios Estrangeiros, Paulo Rangel, após reunião com o secretário de Estado norte-americano Marco Rubio, em Lisboa. “O Estado português decidirá sempre de acordo com o interesse nacional. Há um ponto que também é claro: estamos  considerando seriamente a proposta do F-35, tal como estamos a considerar outras”, afirmou Rangel.

A declaração coloca o caça norte-americano em posição de destaque no processo que ainda não se transformou em uma concorrência pública formal. Entre os concorrentes estão o Eurofighter Typhoon, produzido pelo consórcio europeu composto pela Airbus, BAE Systems e Leonardo; o Rafale, da francesa Dassault Aviation; e o Gripen E da sueca Saab.

A decisão terá impacto que vai muito além da substituição de uma aeronave. Portugal terá de definir não apenas o caça que pretende operar, mas também o nível de integração tecnológica, logística e industrial que deseja manter com seus principais parceiros nas próximas décadas.

F-16M ainda é a espinha dorsal

Os F-16M continuam desempenhando missões de defesa aérea e participação em operações da OTAN. A Força Aérea Portuguesa mantém as aeronaves nos Esquadrões 201 “Falcões”, e 301 “Jaguares”, sediadas na Base Aérea Nº 5, em Monte Real. Segundo a própria Força Aérea, o F-16M possui raio de ação de aproximadamente 900 km, autonomia máxima de três horas e velocidade de até 2.160 km/h.

A frota portuguesa também permanece operacionalmente ativa no ambiente OTAN. Em 2026, quatro F-16M e cerca de 95 militares foram empregados na missão Enhanced Air Policing nos países bálticos, a partir da Base Aérea de Ämari, na Estônia.

Durante o exercício Ramstein Flag 2026, os F-16M portugueses participaram de missões de reabastecimento em voo, interdição aérea e ataque ao solo, além de operações integradas com aeronaves de quinta geração. A experiência evidencia que a futura escolha terá de preservar a interoperabilidade portuguesa com as forças aéreas aliadas.

A própria Força Aérea informa que 40 F-16 foram modernizados em Portugal para o padrão MLU, sendo que dez foram posteriormente destinados à baixa. A estrutura atual foi dimensionada para operar 30 aeronaves modernizadas, embora o número frequentemente considerado no debate sobre substituição seja de 28 aeronaves.

F-35 ou uma solução europeia

O F-35A oferece a Portugal uma mudança significativa de patamar tecnológico. A aeronave combina características de baixa observabilidade, sensores integrados, fusão de dados e capacidade de operar dentro de uma arquitetura de combate em rede, aproximando a Força Aérea Portuguesa do núcleo de operadores de quinta geração da OTAN.

A escolha, porém, colocaria Lisboa ainda mais próxima dos Estados Unidos em uma área considerada estratégica. Além da aeronave, entram na equação treinamento, armamentos, manutenção, cadeia logística, atualização de software, infraestrutura e integração com os demais meios portugueses e aliados. Do outro lado, as alternativas europeias oferecem uma dimensão política e industrial particularmente relevante para Portugal.

O Eurofighter representa a continuidade de uma arquitetura europeia de defesa aérea apoiada por quatro países produtores. O Rafale reforçaria a ligação portuguesa com a França, enquanto o Gripen E levaria para a disputa uma plataforma de quarta geração avançada com forte componente de guerra eletrônica, sensores modernos e uma arquitetura concebida para operar em ambientes de alta conectividade.

No caso do Gripen, existe ainda um elemento adicional: a crescente relação industrial entre Saab e Embraer. Em julho, as empresas anunciaram um acordo de princípios para ampliar a produção do Gripen, com previsão de 20 aeronaves adicionais a serem produzidas em parceria no complexo da Embraer em Gavião Peixoto, no Brasil.

Nesta semana, essa parceria alcançou outro marco: o primeiro F-39E Gripen produzido no Brasil realizou seu voo inaugural no dia 6 de outubro, em Gavião Peixoto, consolidando a capacidade industrial brasileira dentro do programa.

A dimensão europeia ganhou peso

A decisão portuguesa ocorre diante do momento de forte expansão dos investimentos europeus em defesa. Portugal recebeu mais de €5,8 bilhões no âmbito do instrumento SAFE, criado para apoiar investimentos estratégicos em capacidades de defesa, com Lisboa estabelecendo uma estrutura nacional para coordenar a aplicação dos recursos.

O governo português afirma que os investimentos abrangem os domínios naval, terrestre, aéreo, incluindo sistemas não tripulados e espacial, com o objetivo de ampliar a modernização das Forças Armadas e a participação da indústria portuguesa em projetos de cooperação europeia.

Portugal já está utilizando o SAFE para programas de grande porte. Em julho, assinou com a Itália um acordo Estado a Estado (G2G) para aquisição de três fragatas de nova geração, incluindo sustentação, transferência de tecnologia e participação da indústria portuguesa. O programa prevê entregas entre 2029 e 2030.

Esse contexto torna a escolha do caça ainda mais complexa. Um contrato europeu poderia ampliar a participação portuguesa em cadeias industriais do continente e aproveitar mecanismos de financiamento e cooperação comunitários. Uma opção norte-americana, por outro lado, aprofundaria a integração com a principal potência militar da OTAN e com uma extensa arquitetura operacional já utilizada pelos aliados.

Uma decisão que ultrapassa a aeronave

O ponto central da futura decisão portuguesa será, portanto, o equilíbrio entre capacidade militar, custo de ciclo de vida, interoperabilidade, soberania tecnológica, participação industrial e alinhamento estratégico.

A experiência portuguesa demonstra que o país emprega seus caças não apenas para a defesa do espaço aéreo nacional, mas também em missões permanentes de defesa coletiva da OTAN. Os F-16M participam de exercícios multinacionais e operações de policiamento aéreo, exigindo elevada compatibilidade com sistemas, procedimentos e aeronaves de diferentes aliados.

Nesse cenário, o F-35 parte com uma vantagem tecnológica clara e já está integrado a uma ampla comunidade de operadores na OTAN. Mas isso não elimina os argumentos a favor das alternativas europeias, especialmente no momento que Lisboa busca utilizar os mecanismos de financiamento comunitários para ampliar sua capacidade de defesa e fortalecer a indústria europeia.

Portugal ainda não escolheu seu próximo caça, e tampouco iniciou formalmente a concorrência. Mas a declaração de Paulo Rangel mostra que a discussão entrou em uma nova fase. A disputa agora envolve quatro plataformas de alto desempenho e, sobretudo, quatro possíveis caminhos para a política de defesa portuguesa: maior integração com os Estados Unidos, aprofundamento da cooperação europeia ou uma solução intermediária capaz de combinar requisitos operacionais, industriais e estratégicos.

A substituição dos F-16M será, portanto, uma decisão sobre qual posição Portugal pretende ocupar na arquitetura de defesa aérea da Europa nas próximas décadas.


por Angelo Nicolaci


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Colômbia e Uruguai ampliam cooperação naval e aproximam suas indústrias de defesa

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A ministra da Defesa Nacional do Uruguai, Sandra Lazo, realizou visita oficial à Colômbia, com uma agenda voltada ao fortalecimento da cooperação naval e marítima entre os dois países.

Em Cartagena, a delegação uruguaia visitou a Força Naval do Caribe, onde manteve atividades de intercâmbio institucional com a Armada da Colômbia. A comitiva também contou com Nastasia Barceló, diretora de Assuntos Internacionais, e o Capitão de Navio Mario Baldi, diretor da Direção Registral e da Marinha Mercante da Prefeitura Nacional Naval.

A agenda incluiu uma visita à planta Mamonal da COTECMAR, principal complexo industrial naval colombiano, onde foram apresentadas capacidades em projeto e engenharia, construção e reparação de embarcações, manutenção e desenvolvimento tecnológico.

A COTECMAR atua na construção e modernização de meios para a Armada Nacional da Colômbia e também desenvolve projetos destinados aos mercados naval, marítimo e fluvial. Entre seus programas está a construção de navios de patrulha e unidades de maior porte para emprego militar e de segurança marítima.

A aproximação ocorre paralelamente à expansão da infraestrutura industrial colombiana. Em setembro, o governo anunciou a implantação de um dique flutuante com capacidade de levantamento superior a 13 mil toneladas, ampliando a estrutura disponível para manutenção de embarcações de maior porte.

A visita reforça a cooperação bilateral em áreas que envolvem não apenas operações navais, mas também engenharia, construção, manutenção e desenvolvimento de tecnologias aplicadas ao setor marítimo.


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28º BI Mec realiza exercício de adestramento com pelotões mecanizados

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Entre 29 de setembro e 2 de outubro, o 28º Batalhão de Infantaria Mecanizado (28º BI Mec) realizou um Exercício no Terreno do Período de Adestramento Básico, com foco no nível pelotão.

Os Pelotões de Fuzileiros Mecanizados executaram tarefas de ocupação de Zona de Reunião, Marcha para o Combate e Ataque Coordenado, aplicando técnicas, táticas e procedimentos treinados pelas subunidades.

A atividade teve como objetivo elevar o nível de adestramento das frações e verificar a execução das tarefas previstas para o emprego de pelotões mecanizados em operações de combate.

O exercício também contribui para a manutenção da prontidão operacional e para o aperfeiçoamento da coordenação e coesão das frações.


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4º D Sup recebe primeira VBMT-LSR 4x4 Guaicurus produzida no Brasil

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O 4º Depósito de Suprimento (4º D Sup), em Juiz de Fora (MG), recebeu em 6 de outubro a primeira Viatura Blindada Multitarefa – Leve sobre Rodas (VBMT-LSR) 4x4 Guaicurus produzida na linha de montagem nacional da IDV em Sete Lagoas (MG).

A entrega marca o início da produção nacional do Guaicurus dentro do processo de nacionalização previsto no contrato firmado entre o Exército Brasileiro e a IVECO. O acordo contempla a nacionalização da linha de montagem e a fabricação de componentes em território brasileiro.

Integrante do Programa Estratégico do Exército Forças Blindadas, o Guaicurus amplia a capacidade da Força Terrestre em missões que exigem mobilidade, proteção e flexibilidade de emprego.

A nacionalização também amplia a participação da indústria brasileira na cadeia de produção do blindado, criando capacidade local para fabricação de componentes e contribuindo para a geração de empregos e o fortalecimento da Base Industrial de Defesa.

O contrato prevê a produção de 420 VBMT-LSR 4x4 Guaicurus para o Exército, com integração de sistemas e aquisição de ferramental específico para a plataforma.

Como Órgão Provedor Nacional do Programa Estratégico Forças Blindadas, o 4º D Sup será responsável pelo recebimento e posterior distribuição das viaturas às Organizações Militares da Força Terrestre em todo o país.

A chegada da primeira unidade produzida no Brasil representa, assim, uma nova etapa do programa, combinando a renovação da frota blindada do Exército com a ampliação da capacidade industrial nacional para produção e sustentação do Guaicurus.


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