segunda-feira, 24 de agosto de 2026

Inventário britânico revela uma força em transição e os desafios da modernização militar

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Relatório do Ministério da Defesa do Reino Unido mostra 285 Challenger 2, 124 Eurofighter Typhoon, 47 F-35B e 73 embarcações, mas ressalta que quantidade não equivale à disponibilidade operacional

O Ministério da Defesa do Reino Unido publicou em 20 de agosto, o relatório “Equipment and Formations of the UK Armed Forces 2026”, apresentando um retrato atualizado dos principais meios empregados pelas Forças Armadas britânicas. Os números correspondem aos estoques registrados entre o final de março e o início de abril de 2026 e revelam uma estrutura de defesa em processo de renovação, com sistemas antigos sendo retirados enquanto novas plataformas entram gradualmente em serviço.

O primeiro ponto a ser observado, entretanto, é metodológico: o levantamento contabiliza inventário, e não disponibilidade operacional. Portanto, os números não permitem concluir quantos equipamentos estão efetivamente prontos para emprego imediato. A distinção é particularmente importante para uma força que conduz simultaneamente programas de modernização, transferência de equipamentos à Ucrânia e retirada de sistemas legados.

Exército entre duas gerações

No domínio terrestre, o Reino Unido contabiliza 996 veículos blindados de combate, incluindo 285 carros de combate Challenger 2, 185 veículos Ajax e 526 Warrior FV510. O inventário também registra 1.009 veículos blindados de transporte de pessoal, dos quais 28 Boxer e 723 Bulldog. Outros 185 Bv206 e 73 Vikings completam essa categoria.

A composição revela uma força em transição. O Ajax e o Boxer representam parte da renovação da frota, enquanto veículos como Warrior e Bulldog avançam para a retirada. O processo também é influenciado pelo apoio britânico à Ucrânia, que acelerou a redução de determinados estoques. Entre os demais veículos blindados estão 651 Jackal, 389 Foxhound, 377 Panther, 296 Mastiff, 162 Ridgeback, 81 Wolfhound e 72 Coyote, totalizando 2.028 unidades nessa categoria.

Na artilharia, o inventário inclui 14 obuseiros autopropulsados Archer de 155 mm, 126 obuseiros leves L118 de 105 mm e 26 sistemas M270 de lançamento múltiplo de foguetes. O AS90 já foi retirado de serviço, enquanto o RCH 155, previsto para substituir parte dessa capacidade, ainda não havia sido incorporado ao inventário no período considerado. O relatório contabiliza ainda 53 sistemas antiaéreos Stormer, classificados na categoria de artilharia.

Poder naval concentrado em capacidades estratégicas

A Royal Navy e a Royal Fleet Auxiliary somam 73 embarcações, incluindo 12 unidades operadas pela força auxiliar.

O componente submarino mantém uma estrutura particularmente relevante para a estratégia britânica: quatro submarinos balísticos da classe Vanguard e cinco submarinos de ataque da classe Astute. Na superfície, a força inclui os dois porta-aviões da classe Queen Elizabeth, seis destróieres Type 45 e sete fragatas Type 23. O inventário naval também inclui sete navios de contramedidas de minagem, 26 navios-patrulha e unidades destinadas a levantamento hidrográfico, apoio logístico e outras missões especializadas.

A composição evidencia uma característica central da estratégia britânica: embora numericamente menor que grandes marinhas convencionais, a Royal Navy concentra recursos em capacidades de alto valor estratégico, particularmente porta-aviões, submarinos nucleares, defesa aérea e operações expedicionárias.

F-35B e Typhoon sustentam o poder aéreo

Na aviação de asa fixa, o Reino Unido contabiliza 507 aeronaves tripuladas. A espinha dorsal de combate é formada por 124 Eurofighter Typhoon e 47 F-35B, combinação que reúne um caça multifunção de quarta geração avançada com uma plataforma furtiva de quinta geração.

Os F-35B possuem importância adicional por sua capacidade de operação embarcada nos porta-aviões da classe Queen Elizabeth, permitindo ao Reino Unido projetar poder aéreo a partir do mar sem depender exclusivamente de bases terrestres.

Na aviação de transporte estratégico, o inventário inclui oito C-17 Globemaster III e 22 A400M Atlas, além de 14 Voyager, nove P-8A Poseidon, três Airseeker e oito Shadow R1. O componente de asa rotativa soma 249 aeronaves, refletindo a importância dos helicópteros para mobilidade, apoio às operações terrestres e emprego naval.

Drones ampliam o componente de inteligência e vigilância

O relatório também registra 189 sistemas de aeronaves não tripuladas com peso superior a 25 kg. O inventário é composto por 75 Puma AE, 15 Puma LE, 44 Watchkeeper, 39 Wasp e 16 Protector.

Mais do que simplesmente representar uma nova categoria de equipamento, essa frota demonstra a crescente importância atribuída a inteligência, vigilância, reconhecimento e aquisição de alvos.

É uma dimensão particularmente relevante diante da experiência da guerra na Ucrânia, onde a combinação entre drones, artilharia, sensores e redes de comando e controle alterou profundamente a dinâmica do campo de batalha.

Mais que números, uma força em transformação

O inventário britânico mostra uma estrutura militar que está simultaneamente substituindo plataformas antigas, incorporando novas tecnologias e preservando capacidades estratégicas de alta complexidade.

O contraste é evidente no segmento terrestre, onde Challenger 2, Warrior e Bulldog coexistem com Ajax e Boxer, enquanto o AS90 já deixou o serviço e o RCH 155 ainda não havia chegado às unidades. No domínio aéreo, Typhoon e F-35B formam o núcleo do poder aéreo, enquanto a frota naval mantém uma combinação de porta-aviões, submarinos nucleares e escoltas.

Essa fotografia também reforça uma questão que frequentemente se perde quando inventários militares são apresentados apenas como grandes números: quantidade não é sinônimo de capacidade disponível.

Ter 285 Challenger 2 não significa possuir 285 carros de combate prontos para combate. Da mesma forma, 73 embarcações não significam 73 navios disponíveis simultaneamente para operações. Entre o equipamento contabilizado no inventário e a capacidade efetivamente empregável existem manutenção, disponibilidade de peças, treinamento, munição, tripulações, infraestrutura, modernização e ciclos de prontidão.

O próprio relatório britânico deixa essa distinção clara ao apresentar os dados como um levantamento de estoques, e não como uma avaliação da disponibilidade operacional.

É justamente nessa diferença que está uma das principais informações oferecidas pelo documento. O Reino Unido não está simplesmente aumentando ou reduzindo sua quantidade de equipamentos: está reorganizando sua estrutura militar em torno de novas capacidades, enquanto administra os custos, atrasos e limitações inerentes à substituição de uma geração de sistemas por outra.

Para uma potência militar europeia que voltou a tratar a possibilidade de um conflito convencional de alta intensidade como uma questão concreta de planejamento, essa transição é tão importante quanto os números apresentados no inventário.


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Análise - 2,5 bilhões não resolvem o problema da Defesa, apenas abrem uma janela para recuperar tempo perdido

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Após um bloqueio de 4,36 bilhões, os recursos ampliam a capacidade de execução em 2026, mas não resolvem a instabilidade que afeta programas de longo prazo

Os 2,5 bilhões adicionais autorizados para projetos estratégicos de Defesa ganharam rapidamente uma dimensão política que não corresponde inteiramente à realidade orçamentária. A medida é relevante, mas sua natureza precisa ser compreendida com precisão: não se trata simplesmente de 2,5 bilhões incorporados de forma permanente ao orçamento da Defesa.

O Congresso autorizou em 2026, a ampliação de até 2,5 bilhões nas despesas com projetos estratégicos que podem ficar fora da apuração das regras do arcabouço fiscal. O Instituto Fiscal Independente (IFI) do Senado Federal, classificou a medida como uma antecipação de gastos de 2027 para 2026. O valor adicional utilizado neste ano será descontado do arcabouço fiscal previsto para a Defesa em 2028.

Essa distinção é fundamental porque muda a interpretação sobre o que o dinheiro efetivamente representa. Não é uma solução estrutural para o financiamento da Defesa, mas uma abertura extraordinária de espaço fiscal para que determinados investimentos possam avançar em 2026 sem serem comprimidos pelas regras fiscais ordinárias.

E essa decisão ocorre depois de um cenário bastante diferente daquele sugerido pela narrativa de que os grandes programas brasileiros simplesmente receberam um reforço de orçamento.

Antes dos 2,5 bilhões, veio o bloqueio

O Ministério da Defesa entrou no segundo semestre submetido a um dos maiores bloqueios orçamentários entre os órgãos do Executivo. No decreto de programação de julho, o Ministério do Planejamento registrou 4,3633 bilhões de bloqueio, dos quais 4,3443 bilhões continuavam retidos após a revisão da programação.

Isso é particularmente relevante para a Defesa porque uma parcela importante de sua capacidade de modernização depende de despesas discricionárias e investimentos vinculados a programas de longo prazo.

O problema, portanto, não está apenas no valor nominal da dotação, mas na diferença entre ter uma despesa autorizada no orçamento e possuir condições efetivas para executá-la no momento necessário.

Contingenciamento não significa que o dinheiro tenha sido definitivamente retirado da Lei Orçamentária. Trata-se de uma limitação temporária da execução, utilizada pelo governo para adequar as despesas à evolução das receitas e ao cumprimento das metas fiscais. Para uma aquisição convencional, essa restrição pode significar apenas o adiamento de uma contratação. Para um programa estratégico de Defesa, o efeito pode ser mais complexo.

Projetos de submarinos, aeronaves, navios, blindados e sistemas de comando e controle dependem de cronogramas industriais, contratos plurianuais, cadeia de fornecedores, produção seriada, integração tecnológica e etapas de desenvolvimento que não podem ser simplesmente aceleradas ou interrompidas sem consequências.

O próprio acompanhamento oficial do Ministério da Defesa registra situações em que bloqueios, cortes e faseamento dos limites orçamentários afetaram o ritmo de execução de projetos, ao mesmo tempo em que a recomposição prevista pela legislação de exceção fiscal era considerada importante para recuperar atrasos acumulados. É nesse ponto que começa a verdadeira discussão sobre os 2,5 bilhões.

O recurso compra velocidade, não resolve a instabilidade

A medida pode permitir que a Defesa recupere parte do ritmo perdido e preserve compromissos de programas estratégicos. Mas isso não deve ser confundido com a solução do problema estrutural.

A legislação anterior, a LC 221/2025, já havia criado uma exceção para despesas de capital com projetos estratégicos de Defesa. Para 2026, havia até 5 bilhões que poderiam ser excluídos das regras fiscais. A nova alteração acrescentou uma possibilidade adicional de até 2,5 bilhões, elevando o espaço potencial de exclusão em 2026 para até 7,5 bilhões. O ponto decisivo, porém, é que a parcela adicional utilizada agora será abatida do espaço fiscal de 2028.

Portanto, a leitura correta não é que “a Defesa ganhou 2,5 bilhões”. A leitura correta é que a Defesa ganhou autorização para antecipar para 2026 até 2,5 bilhões em despesas de projetos estratégicos, utilizando recurso fiscal excepcional.

A diferença pode parecer semântica, mas é fiscalmente relevante. O mecanismo aumenta a capacidade de execução no presente sem representar uma expansão permanente dos recursos disponíveis para a Defesa.

Quem já está dentro dos grandes programas parte na frente

A estrutura dos programas estratégicos ajuda a explicar quem tende a sentir primeiro os efeitos dessa antecipação. Gripen, KC-390, PROSUB, Fragatas Classe Tamandaré e o Programa Forças Blindadas não são projetos que começam com a liberação dos 2,5 bilhões. São programas de longo prazo, com contratos, cronogramas industriais e compromissos previamente estabelecidos. O próprio governo reconhece esses programas como componentes estruturantes da Base Industrial de Defesa.

Essa característica produz algo que é tão importante quanto o volume de recursos: previsibilidade. Uma empresa já integrada a um programa plurianual consegue planejar produção, contratação de pessoal, investimentos industriais, aquisição de componentes e desenvolvimento de fornecedores com uma visibilidade muito maior do que uma companhia que depende da abertura de uma nova contratação.

Isso não significa que os 2,5 bilhões serão necessariamente direcionados a todos esses programas. Significa que programas estratégicos já estruturados possuem maior capacidade de transformar uma ampliação temporária do espaço fiscal em continuidade industrial e contratual.

É por isso que os recursos não devem ser analisados apenas pelo tamanho do cheque. É necessário observar quais compromissos podem ser preservados ou acelerados pela abertura desse espaço fiscal.

O risco de confundir plataforma com capacidade militar

Existe ainda uma questão mais profunda. A modernização de uma Força Armada não termina com a aquisição da plataforma. Um Gripen depende de armas, sensores, enlaces de dados, infraestrutura, manutenção, treinamento e sistemas de comando e controle. Um navio de guerra precisa de sensores, armas, guerra eletrônica, comunicações e logística. Um blindado precisa estar integrado a sistemas de comando, comunicações, proteção e armamento compatíveis com sua missão. A plataforma é apenas uma parte da capacidade.

Uma política de modernização pode, portanto, reduzir significativamente determinado gap e, simultaneamente, deixar outros mais expostos. O problema não está em investir em Gripen, KC-390, submarinos, fragatas ou Guarani. Esses programas respondem a necessidades reais e, em muitos casos, a décadas de defasagem acumulada.

O problema aparece quando o ritmo de aquisição das plataformas é muito superior ao desenvolvimento, integração ou renovação dos sistemas necessários para empregá-las plenamente. É nesse espaço que entram radares, sensores, comunicações seguras, guerra eletrônica, sistemas de armas, munições, defesa antiaérea, vigilância e comando e controle. São capacidades menos visíveis politicamente do que uma aeronave, um navio ou um blindado, mas fundamentais para transformar equipamento em poder dissuasório efetivo.

E há ainda um componente frequentemente esquecido: disponibilidade. Uma plataforma entregue não significa necessariamente uma capacidade operacional disponível em sua plenitude. Manutenção, peças de reposição, munição, treinamento, infraestrutura e integração dos sistemas determinam quanto daquela capacidade pode efetivamente ser empregada. A sequência, portanto, não termina na aquisição: plataforma, integração, disponibilidade e capacidade operacional.

O problema da previsibilidade é maior que os 2,5 bilhões

A discussão deveria, portanto, avançar para além da disputa sobre quanto dinheiro a Defesa recebe em determinado ano.

O próprio presidente Lula reconheceu recentemente, durante visita ao Centro Industrial Nuclear de Aramar, que a descontinuidade orçamentária prejudica programas de longo prazo. Embora a declaração tenha ocorrido no contexto do Programa Nuclear da Marinha, o problema é mais amplo: projetos estratégicos de Defesa não podem ser planejados sob a lógica de recursos garantidos apenas até o encerramento de cada exercício.

Projetos estratégicos precisam de previsibilidade plurianual porque a indústria também trabalha em ciclos plurianuais. Uma empresa não instala uma linha de produção, contrata engenheiros, qualifica fornecedores e desenvolve uma tecnologia crítica com base na expectativa de que haverá orçamento apenas até dezembro. Da mesma forma, as Forças Armadas não conseguem construir uma capacidade de defesa complexa com base em liberações financeiras episódicas.

A instabilidade tem custo industrial. Pode aumentar o preço final dos programas, reduzir a eficiência das linhas de produção, dificultar a manutenção de equipes especializadas, provocar atrasos contratuais e tornar mais difícil a retenção de fornecedores estratégicos.

Em projetos de alta complexidade tecnológica, recuperar posteriormente o tempo perdido nem sempre significa simplesmente gastar mais dinheiro. Parte do conhecimento industrial, da capacidade produtiva e das cadeias de fornecedores precisa ser preservada continuamente.

O que os 2,5 bilhões realmente representam

Por isso, os 2,5 bilhões devem ser vistos como uma janela de oportunidade, não como uma solução. Eles podem permitir que o governo recupere velocidade em projetos estratégicos, preserve compromissos industriais e evite que determinadas linhas de desenvolvimento ou produção sofram novas interrupções.

Mas a medida não deve ser interpretada como uma recomposição integral das restrições impostas à execução orçamentária ao longo do ano, nem transforma a exceção fiscal em receita permanente para as Forças Armadas.

E, sobretudo, não resolve a questão central: como garantir que os programas estratégicos tenham recursos previsíveis durante todo o ciclo de desenvolvimento, produção, entrega e sustentação?

Essa distinção desmonta duas narrativas igualmente simplificadoras. A primeira é dizer que os 2,5 bilhões representam uma grande expansão estrutural do orçamento da Defesa. Não representam. A segunda é concluir que, por não serem recursos permanentes, eles teriam pouca importância. Também não é verdade.

Com orçamento submetido a bloqueios e limitações de execução, antecipar 2,5 bilhões pode ser decisivo para manter determinados programas no cronograma e evitar que atrasos financeiros se transformem em atrasos industriais. O verdadeiro desafio, entretanto, permanece.

O Brasil não precisa apenas de mais recursos para Defesa. Precisa de continuidade, previsibilidade e coerência entre orçamento, planejamento de Defesa e política industrial. Sem isso, o país pode continuar avançando na aquisição de plataformas enquanto acumula atrasos em sistemas que dão a essas plataformas sua capacidade efetiva de combate.

O verdadeiro indicador de maturidade de uma política de Defesa não é apenas quanto o Estado consegue gastar em determinado exercício, mas sua capacidade de sustentar, ao longo dos anos, as condições financeiras necessárias para transformar investimento em capacidade de defesa disponível e uma Base Industrial de Defesa sustentável.


Por Angelo Nicolaci


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Gripen húngaro sofre acidente durante treinamento e piloto é hospitalizado

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Aeronave perdeu aviõnicos durante a aproximação e acabou destruída após o pouso de emergência

Um JAS 39 Gripen C da Força Aérea Húngara sofreu um acidente nesta segunda-feira (24) nas proximidades de Szolnok, na região central da Hungria. O piloto conseguiu ejetar-se da aeronave e sobreviveu, mas foi posteriormente encaminhado ao hospital para avaliação médica. As circunstâncias do acidente estão sendo investigadas.

O incidente foi inicialmente informado pelo primeiro-ministro húngaro, Péter Magyar, que afirmou que o piloto havia conseguido se ejetar e que não havia danos à infraestrutura civil. O ministro da Defesa, Romulusz Ruszin-Szendi, deslocou-se ao local acompanhado do chefe do Estado-Maior das Forças Armadas.

Informações divulgadas posteriormente pelas autoridades húngaras indicam que o Gripen apresentou uma falha durante um voo de treinamento. Segundo o chefe do Estado-Maior, a aeronave sofreu uma pane em sua suíte aviônica durante a fase final da aproximação, enquanto um segundo Gripen tentava acompanhá-la até o aeródromo.

O piloto conseguiu conduzir a aeronave até a base aérea próxima a Szolnok, reduzindo o risco para a população e para estruturas civis. Durante a sequência de pouso, entretanto, a situação evoluiu para uma emergência que levou o piloto a abandonar a aeronave. O caça acabou destruído e incendiou-se no solo.


Investigação

As autoridades húngaras suspenderam os voos de treinamento dos Gripen até a conclusão da investigação. A causa inicial da falha ainda não foi oficialmente determinada.

O acidente ocorre poucos meses depois de a Hungria concluir a expansão de sua frota de Gripen. Em junho, o país recebeu os dois últimos exemplares previstos no contrato firmado em 2024, passando a operar 18 aeronaves JAS 39 Gripen, sendo 16 Gripen C e dois Gripen D. As aeronaves estão baseadas em Kecskemét e são empregadas tanto na defesa do espaço aéreo húngaro quanto em missões da OTAN.

O episódio também representa uma perda relevante para uma frota relativamente pequena. A Hungria utiliza o Gripen há duas décadas e vem ampliando sua capacidade de combate aéreo dentro da estrutura de defesa da OTAN.

O último acidente envolvendo um Gripen húngaro havia ocorrido em 2015, quando um caça sofreu problemas durante a operação em Kecskemét e o piloto também precisou ejetar-se.

A investigação deverá determinar se a falha registrada no voo esteve relacionada a sistemas de bordo, à operação da aeronave ou a outros fatores. Até que o processo seja concluído, não há indicação oficial de que o acidente esteja relacionado a uma deficiência estrutural do Gripen.


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IACIT leva pesquisa com radar meteorológico brasileiro a conferência internacional

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Estudo baseado no RMT 0200 avalia métodos para aprimorar a estimativa de precipitação em eventos de chuva intensa

A IACIT apresenta nesta semana, durante o ERAD 2026 em Belgrado na Sérvia, uma pesquisa desenvolvida a partir de dados do radar meteorológico RMT 0200, desenvolvido e fabricado no Brasil. A conferência realizada entre 24 e 28 de agosto, reúne pesquisadores, serviços meteorológicos, universidades e empresas especializadas em radar aplicado à meteorologia e à hidrologia.

O estudo é conduzido pela meteorologista e doutora em Ciência do Sistema Terrestre Priscila da Silva Tavares, da IACIT, em parceria com o doutor em Hidrologia e professor da UNESP Roberto Vicente Calheiros. A pesquisa utiliza dados do RMT 0200 instalado no Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais (CEMADEN), em São José dos Campos (SP).

O trabalho avalia diferentes métodos para estimar a quantidade de chuva a partir dos dados obtidos pelo radar. A pesquisa dá continuidade a um estudo apresentado anteriormente no INPE, e nesta nova etapa incorpora diferentes eventos de precipitação, ampliando a base de análise com atenção especial às situações de chuva intensa.

Tecnologia

O RMT 0200 é um radar meteorológico de banda S, com dupla polarização e transmissão em estado sólido. A banda S oferece maior alcance e menor atenuação do sinal pela chuva, enquanto a dupla polarização permite obter informações adicionais sobre as características dos hidrometeoros, contribuindo para uma estimativa mais precisa da precipitação.

Esses dados são particularmente importantes no acompanhamento de tempestades severas, permitindo identificar a distribuição e a intensidade da chuva e fornecendo informações que podem apoiar sistemas de monitoramento, previsão de curto prazo e alertas de eventos extremos.

A pesquisa apresentada no ERAD busca justamente avaliar como diferentes metodologias de processamento podem melhorar a conversão dos dados do radar em estimativas quantitativas de precipitação.

Quanto melhor conseguirmos estimar a intensidade e a distribuição da chuva, maior é a capacidade de apoiar a prevenção e a resposta a eventos extremos”, afirma Priscila Tavares.

Para Luiz Teixeira, CEO da IACIT, a apresentação demonstra a conexão entre desenvolvimento tecnológico e pesquisa científica.

Um radar desenvolvido no Brasil sendo utilizado em uma pesquisa que será discutida com especialistas de diferentes partes do mundo” representa, segundo o executivo, uma oportunidade de ampliar o conhecimento sobre o comportamento das tempestades e avançar no desenvolvimento de tecnologias de monitoramento meteorológico.


Pesquisa e capacidade nacional

A participação no ERAD 2026 evidencia ainda a aplicação de uma tecnologia desenvolvida pela indústria brasileira em uma pesquisa científica voltada a um problema operacional concreto: aumentar a qualidade das estimativas de precipitação.

A integração entre radar, processamento de dados e pesquisa meteorológica é particularmente relevante para sistemas de monitoramento de eventos extremos, nos quais informações mais precisas sobre a localização e intensidade da chuva podem contribuir para a tomada de decisão.

Com 40 anos de atuação, a IACIT, sediada em São José dos Campos (SP), é certificada pelo Ministério da Defesa como Empresa Estratégica de Defesa (EED) e desenvolve tecnologias para Defesa, Controle do Espaço Aéreo, Meteorologia e Segurança Pública, incluindo sistemas de radar, sensoriamento e monitoramento.


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domingo, 23 de agosto de 2026

O Novo Míssil Americano AIM-424 Malice

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No dia 22 de agosto de 2026, durante o Tailhook Symposium em Reno, Nevada, a Marinha dos Estados Unidos revelou publicamente o AIM-424 Long Range Air-to-Air Missile, conhecido oficialmente como Malice. Trata-se de um míssil ar-ar de longo alcance de próxima geração desenvolvido pela Raytheon, uma divisão da RTX, projetado para fortalecer a defesa de frotas e manter a superioridade no domínio aéreo contra ameaças avançadas. Esta divulgação, acompanhada pela publicação imediata de um Fact File oficial no site da Marinha, marca um avanço significativo no arsenal de aviação naval americana, especialmente no contexto de competição estratégica no Pacífico. A imagem oficial liberada pela Marinha mostra o míssil montado no compartimento interno de armas de um F-35C Lightning II, ao lado de um AIM-120 AMRAAM na porta do compartimento, ilustrando sua capacidade de integração stealth.

O anúncio chegou em um momento de crescente ênfase em capacidades de engajamento de longo alcance, impulsionado por pressões geopolíticas e pelo desenvolvimento paralelo de sistemas semelhantes. De acordo com a declaração oficial da Marinha, o LRAAM, também chamado Malice, “diretamente apoia a contribuição do Departamento para a dissuasão integrada ao aumentar o alcance, a letalidade e a eficácia de combate para as forças de aviação da Marinha e do Corpo de Fuzileiros Navais que defendem nossas frotas, nossos interesses e nossa pátria”. Detalhes específicos sobre capacidades e cronogramas de implantação permanecem classificados por razões de segurança operacional, conforme reiterado em múltiplas fontes contemporâneas.

Contexto Histórico e Origens do Programa

O conceito por trás do AIM-424 Malice remonta a esforços de mais de uma década. Em 2017, um oficial de defesa sênior revelou o conceito Long Range Engagement Weapon (LREW) em uma conferência da indústria de defesa. Uma apresentação da época mostrava um míssil ar-ar de dois estágios lançado a partir do compartimento interno de armas de uma aeronave stealth. Documentos orçamentários do pedido de gastos fiscais de 2017 indicavam que o conceito LREW havia completado uma demonstração bem-sucedida de dois anos e que a tecnologia estava sendo transferida para os serviços. Relatórios recentes associam diretamente esse conceito precursor ao AIM-424, sugerindo continuidade tecnológica na busca por engajamentos além do alcance visual extremo.

Essa evolução ocorre em paralelo a outros programas. O AIM-174B Gunslinger, uma variante ar-ar do SM-6 revelada operacionalmente em 2024 e baseada no míssil de defesa de superfície, serve como uma solução intermediária. O AIM-260 Joint Advanced Tactical Missile (JATM), desenvolvido pela Lockheed Martin, também avança para o campo, com testes de voo documentados em 2026. O Malice se posiciona como um salto geracional, superando as capacidades do AIM-120 AMRAAM atual e, segundo avaliações oficiais e de analistas, possivelmente as do próprio AIM-174B em alcance e velocidade.

A pressão estratégica é clara. A China implantou mísseis balísticos e de cruzeiro anti-navio lançados do ar com alcances superiores a 1.000 milhas náuticas, exigindo uma resposta que coloque as aeronaves lançadoras em risco. O Malice responde a essa necessidade ao estender o alcance defensivo das asas aéreas de porta-aviões, permitindo engajamentos de alvos de alto valor, como aeronaves de alerta precoce (AEW&C), guerra eletrônica e plataformas de inteligência, vigilância e reconhecimento, antes que elas possam ameaçar a frota.

Especificações Técnicas Oficiais e Características Observáveis

O Fact File oficial da Marinha dos Estados Unidos, atualizado em 22 de agosto de 2026, fornece as seguintes especificações públicas para o AIM-424 LRAAM – Malice: função primária de míssil ar-ar; contratante Raytheon; propulsão por motor de foguete de propelente sólido; comprimento de 13,5 pés (4,11 metros); diâmetro de 13,5 polegadas (0,34 metros); envergadura de 26,2 polegadas (0,67 metros); peso de 1.500 libras (680,4 kg); alcance em excesso de 250 milhas náuticas (463 km); e ogiva de fragmentação por explosão. Essas dimensões o colocam em uma classe física distinta do AIM-120 AMRAAM, sendo significativamente maior, mas ainda compatível com o compartimento interno do F-35C.

Relatórios independentes de Aviation Week descrevem o míssil como de dois estágios, com imagens sugerindo tamanho similar ao AIM-174B. Análises de The Aviationist apontam para a possível presença de uma entrada de ar compatível com um ramjet de combustível sólido de modo dual, o que explicaria a capacidade de manter altas velocidades em longas distâncias. No entanto, o documento oficial da Marinha menciona apenas o motor de foguete de propelente sólido, sem detalhar estágios ou modos de propulsão avançados. Um oficial dos EUA familiarizado com o programa confirmou a Naval News que o alcance e a velocidade do Malice excedem os do AIM-174B atualmente em campo.

Em termos de manobrabilidade, o míssil incorpora aletas e estrias aerodinâmicas especializadas que permitem retenção significativa de agilidade apesar do tamanho maior em comparação com o AIM-120 e o AIM-260 em desenvolvimento. Isso habilita potencialmente engajamentos contra alvos do tamanho de caças, além de plataformas de alto valor. A compatibilidade abrange plataformas de quarta, quinta e sexta geração: F/A-18E/F Super Hornet, F-35C Lightning II e o futuro F/A-XX. Há menções a integração potencial com sistemas da Força Aérea, incluindo o F-47 de sexta geração.


Testes documentados incluem um evento de captive-carry em abril de 2026, com quatro AIM-424 (na versão CATM de treinamento, com linhas azuis) carregados em um F/A-18E Super Hornet nas estações 3, 4, 8 e 9, ao lado de AIM-120. Um teste de ajuste no F-35C ocorreu em agosto de 2026, conforme imagens oficiais. O desenvolvimento ocorreu de forma discreta pela divisão Advanced Technology da Raytheon, com infraestrutura cibernética compartilhada entre Marinha e Força Aérea iniciada em janeiro recente.

Comparações com Sistemas Existentes e Concorrentes

Em relação ao AIM-120 AMRAAM, o Malice representa um salto geracional em alcance, com mais do dobro do alcance público típico do AIM-120D. O AIM-174B Gunslinger, com comprimento de cerca de 15,5 a 16,5 pés e envergadura maior devido a aletas dorsais (cerca de 42,7 polegadas), é mais longo e restrito ao lançamento externo no Super Hornet. O Malice, sendo mais curto e com envergadura menor, cabe internamente no F-35C, preservando a assinatura stealth. Estimativas de alcance para o AIM-174B variam de 150 a mais de 250 milhas náuticas, mas fontes oficiais e oficiais confirmam que o Malice o supera.

Comparado a ameaças potenciais, o Malice excede as estimativas de mísseis chineses conhecidos, como o PL-15 (envolvido em escaramuças de 2025), PL-16 e PL-17, bem como o R-37M russo usado na Ucrânia. O presidente da Raytheon, Phil Jasper, declarou: “Com alcance aumentado, letalidade e eficácia de combate para as forças navais, o AIM-424 entrega um salto geracional na capacidade de combate de domínio aéreo que pode superar qualquer ameaça”. Essa afirmação alinha-se à narrativa oficial de “first look, first shot, first kill”.

O programa também se relaciona a esforços mais amplos, como o Air Force Long Range Weapon (AFLRW), que busca alcances de até 1.000 milhas náuticas. O Malice, com seu perfil de 250+ nm, preenche uma lacuna intermediária crítica para a aviação de porta-aviões.

Implicações Estratégicas para a Defesa de Frotas e o Teatro do Pacífico

A introdução do AIM-424 Malice reforça a dissuasão integrada ao permitir que aeronaves de asa fixa operem a distâncias que neutralizam a vantagem de lançamento de mísseis anti-navio adversários. Em um cenário de conflito de alta intensidade no Pacífico, a capacidade de engajar bombardeiros e plataformas de suporte a mais de 463 km reduz a vulnerabilidade das Carrier Strike Groups. A integração interna no F-35C é particularmente relevante, pois mantém a baixa observabilidade enquanto carrega um armamento de extremo alcance ao lado de mísseis médios como o AIM-120.

Para a Marinha e o Corpo de Fuzileiros Navais, isso se traduz em maior flexibilidade tática e sobrevivência. Aviadores podem manter-se fora do alcance de ameaças inimigas enquanto projetam poder aéreo ofensivo ou defensivo. A compatibilidade multi-geracional garante relevância tanto para a frota atual quanto para o F/A-XX futuro. Relatórios destacam que o desenvolvimento cibernético compartilhado facilita a interoperabilidade conjunta, essencial em operações multi-domínio.

No entanto, o valor operacional depende não apenas do alcance nominal, mas de redes de targeting, desempenho de fase terminal e integração com sensores de longo alcance. Fontes como Defence Matters observam que comparações de alcance são condicionais a altitude de lançamento, velocidade e comportamento do alvo. Cronogramas de implantação operacional permanecem classificados, embora testes de voo já estejam em andamento.

Reações da Indústria e Perspectivas de Desenvolvimento

A Raytheon enfatizou o papel de sua equipe Advanced Technology. Phil Jasper destacou a necessidade de fortalecer a defesa de frotas contra ameaças emergentes de longo alcance. A Marinha sublinhou que o LRAAM sustenta a vantagem de “primeiro olhar, primeiro tiro, primeira morte” ao proporcionar maior alcance, sobrevivência e flexibilidade. Admiral Keith Hash, do Naval Air Warfare Center Weapons Division, referiu-se a capacidades adicionais “atrás” do AIM-174B, sugerindo um pipeline robusto.

O público de entusiastas e especialistas observará de perto a evolução dos testes e eventuais liberações de mais dados. Imagens de quatro mísseis no Super Hornet e a configuração stealth no F-35C já geraram discussões detalhadas em comunidades especializadas. A ausência de detalhes sobre velocidade máxima, orientações de busca ou ogiva específica reforça a postura de segurança operacional.

Análise Crítica e Considerações Finais

O AIM-424 Malice representa uma resposta calibrada às realidades do combate aéreo contemporâneo, onde o alcance e a capacidade de engajar alvos de alto valor a distâncias extremas definem a superioridade. Sua revelação em 22 de agosto de 2026, respaldada por fontes oficiais e cobertura independente de Aviation Week, Naval News, The Aviationist e o próprio Fact File da Marinha, confirma a existência de um programa maduro em fase de testes de voo. As especificações públicas — comprimento de 4,11 m, diâmetro de 0,34 m, peso de 680 kg e alcance superior a 463 km — posicionam-no como um dos mísseis ar-ar de maior alcance divulgados publicamente.

As implicações se estendem além da Marinha americana. Aliados e adversários ajustarão suas próprias estratégias de desenvolvimento de mísseis e sensores. Para a aviação naval, o Malice preenche uma lacuna crítica entre o AIM-120, o AIM-174B e sistemas futuros de alcance ainda maior. Embora projeções de entrada em serviço operacional não possam ser feitas sem dados oficiais, o ritmo de testes e a integração documentada indicam progresso substancial.

Em síntese, o novo LRAAM americano AIM-424 Malice eleva o padrão de engajamento ar-ar de longo alcance, alinhando capacidades técnicas a imperativos estratégicos de dissuasão. Sua análise exige atenção contínua a liberação de informações e evoluções no teatro Indo-Pacífico.

O Malice não é apenas um míssil; é um elemento central na arquitetura de superioridade aérea da próxima década.

A continuidade do programa, a integração multiplataforma e o potencial de evolução tecnológica garantirão que analistas e operadores monitorem de perto cada desenvolvimento subsequente.

Em um ambiente de ameaças em rápida evolução, o AIM-424 Malice exemplifica a prioridade americana em manter a vantagem qualitativa no domínio aéreo.

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Ameaças do Irã produzem efeito na Bulgária e levam EUA a retirar KC-135 do país

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As ameaças do Irã contra a Bulgária já começam a produzir efeitos concretos no cenário de segurança europeu. Dois aviões-tanque KC-135 da Força Aérea dos Estados Unidos deixaram nesta sexta-feira (21), a base aérea de Bezmer, poucas semanas depois de terem sido deslocados para o país e em meio à crescente preocupação com a possibilidade de instalações militares americanas no território búlgaro entrarem no cálculo de Teerã.

A retirada ocorre após uma sequência de advertências iranianas contra países europeus que oferecem apoio ou infraestrutura às operações militares americanas contra o Irã. No caso da Bulgária, Teerã havia reagido diretamente à autorização para o destacamento dos KC-135, classificando a utilização do território búlgaro como possível cumplicidade com a ofensiva americana.

O governo de Sofia rejeitou a acusação e afirmou que as aeronaves realizavam apenas missões de treinamento sobre países aliados. Ainda assim, a presença dos aviões transformou a base de Bezmer em um ponto de atenção dentro de um conflito que embora concentrado militarmente no Oriente Médio, começa a produzir efeitos sobre a arquitetura de segurança europeia.

O aspecto mais relevante surgiu posteriormente. Informações divulgadas pelo Financial Times e repercutidas por autoridades búlgaras indicaram que o Irã teria avaliado a possibilidade de atingir ativos militares americanos no sudeste europeu, incluindo a Bulgária. A informação levou ao reforço das medidas de proteção em Bezmer, enquanto o governo búlgaro afirmou não dispor de informações sobre uma ameaça direta contra sua segurança nacional.

É nesse ponto que a retirada dos KC-135 ganha significado estratégico. Não se trata apenas de uma mudança rotineira no posicionamento de aeronaves americanas. Ela ocorre depois do território búlgaro ter sido explicitamente colocado no debate sobre possíveis alvos ligados à presença militar dos Estados Unidos.

O alerta que se confirmou

Quando o GBN Defense analisou anteriormente o destacamento dos KC-135 na Bulgária, o ponto central era justamente esse risco. A avaliação não significava que um ataque iraniano contra o país fosse inevitável, mas que a presença de meios americanos em uma instalação búlgara poderia fazer de Bezmer um elemento relevante no planejamento de retaliações por Teerã.

A evolução dos acontecimentos mostrou que essa preocupação não era meramente teórica.

A lógica é simples. O KC-135 não é uma aeronave de ataque, mas sua função é essencial para ampliar o alcance e a permanência das aeronaves de combate. Ao integrar uma estrutura de apoio às operações americanas, a base passa a possuir um valor militar que ultrapassa sua localização geográfica.

Para o Irã, portanto, a questão não necessariamente está na aeronave estacionada em Bezmer, mas na infraestrutura que permite sustentar o poder aéreo americano no conflito de longa distância com Irã.

Quando a ameaça começa a alterar decisões

O episódio revela uma dimensão particularmente importante da guerra atual: a ameaça pode produzir efeitos militares mesmo sem que um ataque seja executado.

A possibilidade de que uma instalação seja considerada um alvo já pode obrigar governos a rever posicionamentos, reforçar sua proteção, modificar rotas, redistribuir meios ou retirar temporariamente determinados ativos. Foi exatamente esse ambiente que se formou na Bulgária.

Os KC-135 deixaram Bezmer, enquanto Sofia precisou lidar com protestos de moradores preocupados com a possibilidade da base ser atingida por mísseis ou drones iranianos. O governo búlgaro afirma que não havia ameaça direta à segurança nacional, mas o próprio debate demonstra como a guerra passou a produzir consequências dentro do território de um país que não participa diretamente dos combates.

A questão ganha ainda maior peso porque a Bulgária é integrante da OTAN. Quanto mais a infraestrutura dos países aliados for utilizada para sustentar operações americanas, maior será a possibilidade de que esses países sejam incorporados ao cálculo estratégico dos adversários de Washington.

Isso não significa que a Bulgária tenha se tornado parte da guerra ou que um ataque iraniano seja iminente. Significa que o conflito já está alterando a percepção de risco dentro da Europa.

E esse talvez seja o principal resultado das ameaças iranianas contra Sofia: Teerã demonstrou que pode ampliar o custo estratégico da guerra sem necessariamente disparar um míssil contra o território europeu. Basta sinalizar que determinadas instalações podem ser consideradas alvos para obrigar governos e forças militares a recalcularem suas decisões. No caso de Bezmer, esse cálculo já produziu um resultado concreto: os KC-135 americanos deixaram a Bulgária.

Para o GBN Defense, o episódio reforça uma constatação que vem acompanhando a evolução do conflito: quando uma guerra começa a alterar a postura militar e as decisões de segurança de países que estão geograficamente fora do teatro principal de operações, sua dimensão estratégica já ultrapassou as fronteiras do campo de batalha original.


Por Angelo Nicolaci


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Com Reuters e Financial Times

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Quando o narcoterrorismo passa a confrontar o Estado: o Rio diante de um novo ambiente de guerra assimétrica

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O episódio registrado na última sexta-feira (21), no Complexo de Israel, na Zona Norte do Rio de Janeiro, deveria ser observado para além das estatísticas de uma operação policial. Durante a ação, policiais encontraram veículos preparados com explosivos e barricadas equipadas com artefatos que poderiam ser acionados remotamente. A operação mobilizou cerca de 200 agentes, contou com apoio aéreo e veículos blindados e provocou impactos sobre importantes vias da cidade. Segundo a Polícia Militar, foi a primeira vez que carros preparados como bombas foram identificados nesse contexto no Rio.

O episódio chama atenção porque não representa apenas o aumento do poder de fogo do crime organizado. Ele revela uma mudança na forma como determinadas organizações criminosas estão se preparando para enfrentar a presença do Estado. Ao longo dos últimos anos, o narcotráfico passou a incorporar drones, sistemas de vigilância, armamento pesado, barricadas e estruturas de controle territorial. A utilização de veículos preparados com explosivos acrescenta uma nova capacidade a esse repertório e mostra que o criminoso passou a pensar não apenas em como fugir da ação policial, mas também em como dificultar, retardar e elevar o custo da entrada das forças de segurança nas areas dominadas.

Essa transformação precisa ser compreendida dentro de uma realidade territorial que há muito deixou de ser apenas uma disputa pelo mercado de drogas. Em diferentes áreas do Rio de Janeiro, organizações criminosas estabeleceram mecanismos próprios de controle, impõem regras à população, controlam acessos, realizam patrulhamento armado e exploram atividades econômicas. Em determinados territórios, o Estado não está simplesmente ausente. Ele disputa espaço com uma estrutura paralela que procura exercer autoridade sobre a população e sobre o território.

É nesse ponto que o emprego de tecnologia ganha importância. Drones, por exemplo, permitem que grupos criminosos ampliem sua capacidade de observação e acompanhem a movimentação das forças de segurança antes mesmo de um confronto começar. Equipamentos relativamente baratos e disponíveis no mercado civil podem ser adaptados para vigilância, reconhecimento e em alguns casos para emprego ofensivo. Quando combinados ao conhecimento detalhado do terreno e a uma rede de informantes, esses recursos proporcionam às organizações criminosas uma capacidade de consciência situacional que dificulta significativamente as operações do Estado.

As barricadas e os veículos preparados com explosivos representam outra etapa dessa evolução. No ambiente urbano densamente ocupado, qualquer obstáculo pode alterar o ritmo de uma operação. Quando esse obstáculo pode conter explosivos ou ser acionado remotamente, a progressão das forças públicas passa a exigir procedimentos de segurança, equipes especializadas e maior cautela. O terreno deixa de ser apenas um espaço onde ocorre a operação e passa a ser utilizado deliberadamente como instrumento de defesa por quem controla aquela área.

É nesse contexto que podemos falar em ambiente de confronto assimétrico, uma espécie de guerra irregular travada dentro do espaço urbano. O Rio de Janeiro não vive uma guerra convencional, mas enfrenta organizações não estatais que utilizam métodos próprios da guerra assimétrica para compensar sua inferioridade diante do Estado. Essas organizações exploram o terreno, a clandestinidade, a surpresa, a tecnologia comercial adaptada, o poder de fogo, a inteligência e o controle da população para dificultar a entrada das forças públicas, elevar o custo das operações e preservar o domínio sobre seus territórios. Nesse cenário, a fronteira entre uma operação policial de grande escala e uma operação de combate urbano torna-se cada vez mais estreita.

Essa realidade também ajuda a compreender a decisão dos Estados Unidos de classificar o Comando Vermelho e o Primeiro Comando da Capital como organizações terroristas. A medida colocou as duas maiores facções criminosas brasileiras sob o regime de sanções previsto pela legislação norte-americana para Foreign Terrorist Organizations. A classificação considera justamente a capacidade dessas organizações de exercer violência, controlar territórios e projetar suas atividades para além das fronteiras brasileiras.

É importante, contudo, delimitar corretamente o alcance do episódio. Os veículos preparados com explosivos foram encontrados no Complexo de Israel, área sob influência do Terceiro Comando Puro, e o caso não deve ser atribuído diretamente ao Comando Vermelho ou ao Primeiro Comando da Capital. Isso, porém, não reduz sua gravidade nem sua relevância para o debate sobre narcoterrorismo. O emprego deliberado de veículos-bomba e dispositivos explosivos improvisados (IEDs) para dificultar o avanço das forças de segurança demonstra que organizações criminosas brasileiras já são capazes de empregar métodos de violência e coerção associados a grupos terroristas e a conflitos assimétricos. Mais do que uma evolução do poder de fogo, trata-se da incorporação de uma capacidade destinada a produzir medo, restringir a mobilidade do Estado e elevar deliberadamente o risco de suas operações.

O problema mais profundo está na capacidade de permanência do Estado. Uma operação pode resultar em prisões, apreensões de armas e destruição de estruturas criminosas. Mas, se depois da saída das forças públicas a organização retorna, recompõe suas posições e restabelece suas regras, o território não foi efetivamente recuperado. Houve uma incursão estatal, mas não necessariamente a retomada permanente da autoridade pública.

Essa diferença deveria estar no centro da discussão nacional sobre segurança. O desafio não é apenas aumentar o número de operações, mas construir capacidade para que o Estado permaneça onde antes esteve ausente ou perdeu espaço. Isso exige inteligência, investigação financeira, controle de fronteiras, combate ao fluxo de armas, fortalecimento das polícias, sistema prisional eficiente e principalmente, coordenação permanente entre as diferentes estruturas do Estado.

O que acontece no Rio também precisa ser observado sob uma perspectiva mais ampla. Quando organizações criminosas conseguem acumular recursos financeiros, controlar territórios, impor regras à população, manter redes de vigilância, empregar drones, utilizar armamento pesado e preparar obstáculos explosivos para dificultar a entrada das forças públicas, o problema deixa de ser apenas o tráfico de drogas. Estamos diante de organizações que desenvolveram capacidade para desafiar diretamente a autoridade estatal.

O episódio do Complexo de Israel, portanto, não significa que o Rio de Janeiro tenha se transformado em zona de guerra. Mas seria igualmente equivocado continuar tratando acontecimentos dessa natureza como manifestações ordinárias da criminalidade. O Brasil está diante de um ambiente de segurança que mudou, e a resposta do Estado precisa acompanhar essa transformação. A questão central já não é apenas quem controla o mercado de drogas, mas até onde o Estado consegue exercer de forma permanente e efetiva sua autoridade sobre o próprio território.

É justamente aí que o debate sobre narcoterrorismo ganha relevância. Mais importante do que a classificação jurídica é compreender o fenômeno que está diante de nós: organizações criminosas que utilizam a violência não apenas para proteger seus negócios, mas também para controlar território, intimidar populações e criar condições para impedir ou limitar a presença do Estado. O emprego de carros-bomba acrescenta uma dimensão particularmente grave a esse processo, porque demonstra que a capacidade de confronto dessas organizações continua evoluindo.

Para o Estado brasileiro, o alerta não poderia ser mais claro. A questão deixou de ser apenas como realizar uma operação policial em uma área dominada pelo crime. O desafio é recuperar e manter a autoridade estatal, impedir que essas organizações continuem acumulando capacidades de natureza militar e terrorista e reconstruir uma presença pública capaz de permanecer nesses territórios. Quando grupos criminosos conseguem determinar quem entra, quem circula, quais regras são obedecidas e como as forças do Estado serão recebidas, a soberania formal sobre o território continua existindo, mas sua autoridade efetiva começa a ser contestada. E é justamente essa fronteira que o Brasil não pode permitir que continue avançando.


Por Angelo Nicolaci


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Petrobras e Marinha ampliam cooperação estratégica na Margem Equatorial

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A Petrobras e a Marinha do Brasil deram um novo passo na construção de uma agenda conjunta para a Margem Equatorial, região que vem ganhando importância crescente para o futuro energético, científico e estratégico do país. Na última quinta-feira, 20 de agosto, a presidente da Petrobras, Magda Chambriard, e o Comandante da Marinha, Almirante de Esquadra Marcos Sampaio Olsen, assinaram um Protocolo de Intenções destinado a ampliar a cooperação entre as duas instituições em atividades relacionadas ao ambiente marítimo.

O acordo contempla áreas como logística offshore, monitoramento e proteção marítima, busca e salvamento, resposta a emergências, pesquisa científica, desenvolvimento tecnológico, inovação, capacitação e apoio às atividades relacionadas à exploração e produção de petróleo e gás. Também estão previstas ações envolvendo energias alternativas e o descomissionamento de estruturas offshore. Na prática, a iniciativa procura aproximar duas instituições que já possuem uma longa história de cooperação e que agora passam a estruturar essa relação diante de uma nova realidade estratégica no litoral norte brasileiro.

A dimensão dessa mudança pode ser compreendida pela própria evolução do conhecimento sobre a plataforma continental brasileira. Em 2025, trabalhos realizados no âmbito do Plano de Levantamento da Plataforma Continental Brasileira (LEPLAC), com participação da Marinha e da Petrobras, contribuíram para o reconhecimento de aproximadamente 360 mil quilômetros quadrados adicionais de direitos de soberania brasileiros na Margem Equatorial. A ampliação não significa simplesmente a incorporação de uma nova área ao território nacional, mas o reconhecimento de direitos de exploração dos recursos existentes no leito e no subsolo marinho, aumentando a dimensão econômica e estratégica da Amazônia Azul.

É justamente nesse ambiente que a cooperação ganha relevância. A expansão das atividades de exploração offshore significa também o crescimento de uma infraestrutura crítica instalada em áreas afastadas do continente, envolvendo plataformas, embarcações, bases de apoio, sistemas de comunicação e uma extensa cadeia logística. Para a Petrobras, assegurar a continuidade dessas operações depende de uma estrutura capaz de responder a emergências e operar com segurança em um ambiente complexo. Para a Marinha, acompanhar essa expansão significa ampliar o conhecimento e a consciência situacional sobre uma região que passa a concentrar interesses econômicos cada vez maiores.

A parceria também aproveita uma complementaridade natural. A Petrobras possui décadas de experiência na operação em águas profundas, infraestrutura distribuída pelo litoral brasileiro, conhecimento oceanográfico e geológico e uma presença permanente no ambiente offshore. A Marinha, por sua vez, possui a atribuição constitucional de preparar e empregar o Poder Naval, além de exercer competências relacionadas à segurança da navegação, salvaguarda da vida humana no mar e monitoramento das águas jurisdicionais brasileiras. A aproximação entre essas capacidades pode aumentar a eficiência do Estado sem substituir as responsabilidades específicas de cada instituição.

Essa aproximação também abre espaço para discutir como a própria infraestrutura offshore poderá contribuir no futuro para ampliar a consciência situacional sobre a Margem Equatorial. Plataformas e outras instalações posicionadas em áreas afastadas do litoral poderiam, mediante acordos específicos, receber sensores de interesse da Marinha e funcionar como pontos adicionais de coleta de dados para a arquitetura do Sistema de Gerenciamento da Amazônia Azul (SisGAAz). Radares de vigilância de superfície, sistemas eletro-ópticos, receptores AIS e outros sensores poderiam ampliar a capacidade de acompanhar o tráfego marítimo e identificar movimentações de interesse em uma região de grandes dimensões. Não se trata de afirmar que o protocolo determine a instalação desses equipamentos, algo que não foi anunciado pelas instituições, mas de reconhecer que a expansão da infraestrutura offshore cria uma oportunidade concreta para ampliar a rede de monitoramento da Amazônia Azul.

Há ainda uma dimensão tecnológica que merece atenção. Pesquisa científica, desenvolvimento e inovação fazem parte do protocolo, abrindo espaço para projetos relacionados a sensores, monitoramento marítimo, comunicações, processamento de dados, oceanografia e outras tecnologias de uso dual. Esse ambiente pode beneficiar não apenas Petrobras e Marinha, mas também universidades, centros de pesquisa e empresas brasileiras capazes de transformar demandas operacionais em soluções tecnológicas aplicáveis tanto ao setor energético quanto à Defesa.

É importante, porém, compreender corretamente os limites dessa parceria. O protocolo não transfere à Petrobras atribuições que pertencem ao Estado, nem transforma a empresa em uma extensão da Marinha. A proteção dos interesses estratégicos brasileiros continua sendo responsabilidade do Estado, enquanto a Petrobras permanece concentrada em sua atividade econômica. O valor da cooperação está justamente na complementaridade: compartilhar informações, conhecimento, infraestrutura e capacidades que permitam às duas instituições atuar de forma mais coordenada diante dos desafios de uma região marítima que ganha importância estratégica para o Brasil.

A questão se torna ainda mais relevante diante das características da Margem Equatorial. A distância em relação aos principais centros de apoio, as grandes profundidades, as condições ambientais e a complexidade das operações exigem capacidade de planejamento e resposta. Em situações de emergência, a existência de canais previamente estabelecidos entre a indústria e as estruturas estatais pode representar uma diferença significativa na velocidade de mobilização de recursos, na coordenação das ações e na preservação da vida humana e do meio ambiente.

A experiência acumulada entre Petrobras e Marinha mostra que essa relação pode produzir resultados que ultrapassam a exploração de petróleo. O próprio avanço brasileiro no conhecimento da plataforma continental demonstra como a integração entre capacidade científica, tecnológica e operacional pode contribuir para consolidar interesses nacionais no mar. Agora, com a Margem Equatorial assumindo maior peso na estratégia energética brasileira, essa cooperação passa a ter uma dimensão ainda mais ampla.

A Margem Equatorial, portanto, começa a assumir uma dimensão que vai muito além da perspectiva de novas reservas de petróleo e gás. Quanto maior for a atividade econômica nessa faixa do Atlântico, maior será também a necessidade de conhecer, monitorar e proteger esse espaço marítimo. A aproximação entre Petrobras e Marinha pode contribuir justamente para isso, combinando a presença e a experiência operacional da empresa com as capacidades de vigilância, pesquisa e segurança do Estado. Para o Brasil, trata-se de transformar a riqueza potencial do subsolo marinho em capacidade econômica sem perder de vista que, na Amazônia Azul, exploração de recursos e soberania caminham lado a lado.


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Aviação Naval celebra 110 anos de história, pioneirismo e transformação tecnológica

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A Aviação Naval da Marinha do Brasil celebra neste domingo, 23 de agosto, 110 anos de sua criação, marco de uma trajetória que acompanhou praticamente toda a evolução da aviação militar no país. As comemorações foram antecipadas com a cerimônia realizada na última sexta-feira, 21 de agosto, na Base Aerea Naval de São Pedro da Aldeia (BAeNSPA), carinhosamente chamada de "Macega", e contou com a presença do Comandante da Marinha, autoridades civis e militares e integrantes da comunidade aeronáutica naval.

A história da Aviação Naval remonta aos primeiros anos da própria aviação. Apenas uma década após o voo histórico do brasileiro Alberto Santos Dumont com seu 14-Bis em 1906, a Marinha do Brasil estabelecia em 23 de agosto de 1916, sua organização aeronáutica, iniciando uma trajetória que faria do país um dos pioneiros no emprego militar do poder aéreo no ambiente naval. As primeiras aeronaves Curtiss marcaram o início de uma capacidade que ao longo das décadas seguintes seria profundamente transformada.

Desde seus primeiros anos, a Aviação Naval atravessou períodos de expansão, interrupção e reconstrução. Após participar do esforço aliado durante a Primeira Guerra Mundial, com aviadores navais brasileiros integrando operações no exterior, a Marinha desenvolveu suas atividades aeronáuticas ao longo das décadas seguintes até 1941, quando a criação da Força Aérea Brasileira concentrou sob uma única instituição os meios aéreos militares do país. A medida levou à extinção da Aviação Naval como organização independente e interrompeu, por décadas, o desenvolvimento de uma aviação orgânica voltada diretamente às necessidades do Poder Naval. 

A retomada começou nos anos 1950, inicialmente com a reconstrução da capacidade de operar aeronaves de asas rotativas. A incorporação do Navio-Aeródromo Ligeiro Minas Gerais (A 11), em 1960, devolveu à Esquadra uma plataforma aeronaval e permitiu o desenvolvimento progressivo da doutrina de operações embarcadas. No entanto, a disputa institucional em torno da operação de aeronaves de asa fixa resultou em restrições que mantiveram essa atividade fora do alcance da Marinha durante décadas, concentrando a aviação de asa fixa militar na Força Aérea Brasileira.

A mudança decisiva ocorreu na década de 1990. Em 1997, a Marinha adquiriu do Kuwait 23 aeronaves A-4KU e TA-4KU Skyhawk, que receberam as designações AF-1 e AF-1A. A incorporação dos caças marcou o retorno da Marinha à operação de aeronaves de asa fixa de combate após mais de meio século de interrupção. Inicialmente, os Skyhawk foram empregados a partir do Minas Gerais, antes de a Marinha incorporar, em 2000, o Navio-Aeródromo São Paulo (A 12), que passaria a se tornar a principal plataforma para a operação da aviação de caça embarcada.

O retorno dos AF-1 permitiu reconstruir uma competência que havia sido interrompida desde a criação da FAB. Mais do que adquirir aeronaves, a Marinha precisou recuperar conhecimentos, formar pilotos, desenvolver procedimentos e reconstruir a doutrina necessária para operar caças a partir de um navio-aeródromo. Posteriormente, sete aeronaves passaram pelo programa de modernização conduzido pela Embraer, recebendo as designações AF-1B e AF-1C e novos sistemas de navegação, comunicações e combate.

Embora a desativação do NAe São Paulo tenha encerrado, ao menos temporariamente, a capacidade brasileira de operar caças embarcados a partir de um navio-aeródromo, a manutenção dos AF-1 modernizados preserva parte importante do conhecimento acumulado. É uma competência cuja recuperação exigiu décadas de investimento e que continua tendo relevância para qualquer futuro projeto brasileiro que envolva novamente a operação de aeronaves de asa fixa a partir de uma plataforma naval.

Ao longo de seus 110 anos, a Aviação Naval expandiu sua atuação muito além do apoio direto à Esquadra. Atualmente, seus meios operam desde a Amazônia Azul até a Amazônia e o Pantanal, por meio dos Esquadrões Distritais e das unidades sediadas no Complexo Aeronaval de São Pedro da Aldeia. Essa presença permite o emprego de aeronaves em missões de esclarecimento, transporte, busca e salvamento, apoio logístico, operações ribeirinhas e apoio às populações isoladas, além das tradicionais missões associadas ao emprego do Poder Naval.

O Complexo Aeronaval de São Pedro da Aldeia permanece como o principal centro da Força Aeronaval. Ali estão reunidos o Comando da Força Aeronaval, a Base Aérea Naval de São Pedro da Aldeia, o Centro de Instrução e Adestramento Aeronaval, as estruturas de apoio logístico e de saúde e o Grupo Aéreo Naval de Manutenção, responsável por uma parcela fundamental da sustentação técnica dos meios aeronavais. A capacidade de manter aeronaves disponíveis, inclusive quando embarcadas e afastadas de suas bases, é um dos elementos que sustentam a capacidade operacional da Força.

A atual frota reúne vetores destinados a diferentes perfis de missão. Os SH-16 Seahawk constituem uma das principais capacidades da guerra antissubmarino e de superfície, enquanto os AH-15B Super Cougar representam um avanço importante na capacidade de guerra antissuperfície, podendo operar com mísseis Exocet AM39. Os AH-11B Super Lynx, resultado da modernização dos antigos AH-11A, seguem desempenhando um papel fundamental como aeronaves orgânicas dos navios de escolta da Esquadra.

A modernização também alcança a formação e as missões de apoio. Os UH-17, baseados no Airbus H135, reforçaram especialmente as operações na Antártica e outras missões de apoio, enquanto os novos IH-18, baseados no H125, iniciam a substituição dos tradicionais IH-6B Jet Ranger na instrução prática de voo dos futuros Aviadores Navais. Trata-se de uma renovação que alcança tanto a linha de frente quanto a estrutura responsável por formar as próximas gerações.

Na asa fixa, a modernização de sete AF-1 Skyhawk pela Embraer permitiu preservar parte importante do conhecimento acumulado pela Marinha na operação de aeronaves de caça, enquanto a criação do 1º Esquadrão de Aeronaves Remotamente Pilotadas, o Esquadrão Harpia, inaugurou uma nova etapa com a incorporação dos sistemas RQ-1 ScanEagle. A crescente utilização de sistemas não tripulados aponta para uma transformação que tende a ganhar importância nos próximos anos, ampliando a capacidade de vigilância, reconhecimento e obtenção de informações em proveito da Força Naval.

O aniversário de 110 anos também coincide com outro marco histórico. Em 2026, a Aviação Naval formou suas duas primeiras mulheres Aviadores Navais, as Segundo-Tenentes (FN) Helena de Souza Monteiro Morais e Isabela Ferreira de Amorim, que concluíram o Curso de Aperfeiçoamento de Aviação para Oficiais e passaram a integrar o seleto grupo de pilotos da Marinha do Brasil. Sob o comando do Contra-Almirante (FN) Alexandre Vasconcelos Tonini, a Força Aeronaval chega ao seu aniversário reunindo uma história marcada pelo pioneirismo, mas também por uma permanente necessidade de adaptação às transformações tecnológicas e operacionais.

Ao completar 110 anos neste 23 de agosto, a Aviação Naval reafirma uma característica que acompanhou toda a sua trajetória: sua existência está diretamente ligada à capacidade da Marinha de ampliar o alcance de seus navios e forças em terra. Dos primeiros hidroaviões aos modernos helicópteros embarcados, caças e sistemas remotamente pilotados, a evolução da Força Aeronaval acompanha a transformação do próprio Poder Naval brasileiro e mantém atual o seu tradicional lema: 


“No Ar, os Homens do Mar.”

"Viva a Marinha do Brasil!!!"



Por Angelo Nicolaci


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