domingo, 8 de fevereiro de 2026

Guerra Híbrida e o Futuro da Defesa Nacional

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A Erosão da Dissuasão Convencional e a Ascensão da Guerra Híbrida

​O ambiente de segurança global em meados da década de 2020 testemunhou uma transformação radical na natureza dos conflitos armados, marcada pela obsolescência acelerada dos modelos tradicionais de dissuasão e pela ascensão de ameaças híbridas que operam nos interstícios da legalidade e da guerra declarada.

​Este relatório propõe-se a dissecar as falhas operacionais e estratégicas observadas nas campanhas das Forças de Defesa de Israel (FDI) entre outubro de 2023 e fevereiro de 2026. A análise fundamenta-se na divulgação de avaliações internas críticas sobre a "Operação Carruagens de Gideão" (Operation Gideon’s Chariots), bem como na emergente doutrina dos "Operadores Não Atribuíveis", para oferecer um roteiro estratégico vital para o Brasil.

​A premissa central deste documento é que o Brasil, embora geograficamente distante do Levante, enfrenta uma convergência de ameaças táticas e estratégicas que espelham os desafios israelenses. A metamorfose das facções criminosas brasileiras em entidades quase-insurgentes — exemplificada pelo fenômeno do "Novo Cangaço" e pelo domínio territorial armado — exige que o Estado brasileiro transite de uma mentalidade de segurança pública reativa para uma postura de Defesa Nacional baseada na "Dissuasão Integrada".

​A falha da "Concepção" (Konseptzia) israelense, que priorizou a superioridade tecnológica e a contenção econômica em detrimento da vigilância humana e da intenção estratégica, serve como um aviso severo para Brasília. A análise a seguir não apenas cataloga erros, mas busca compreender a etiologia do fracasso militar em ambientes complexos e urbanizados, transpondo essas lições para a realidade da Amazônia, do Atlântico Sul e das metrópoles brasileiras.

​Parte I: Anatomia do Fracasso – O Paradigma Operacional Israelense (2023–2026)

​A divulgação, em fevereiro de 2026, de documentos internos das FDI relativos à "Operação Carruagens de Gideão" representa um marco nos estudos militares contemporâneos. A admissão de falhas sistêmicas por uma das forças armadas mais tecnologicamente avançadas do mundo desmantela mitos de invencibilidade e expõe as limitações do poder de fogo cinético quando desprovido de clareza política e estratégica.

​1.1 A Desconstrução da "Operação Carruagens de Gideão"

​No início de 2026, o estamento de segurança israelense foi forçado a confrontar a realidade de que suas prolongadas manobras terrestres na Faixa de Gaza não haviam atingido os objetivos centrais da guerra. A "Operação Carruagens de Gideão" (dividida em fases A e B) foi caracterizada em relatórios internos, vazados pelo Ynet, como "desajeitada" e estrategicamente confusa. A análise detalhada desses relatórios revela uma série de patologias operacionais que transcenderam o atrito tático normal, indicando uma crise na doutrina militar.

​1.1.1 A Dissonância dos Objetivos Estratégicos: Dissuasão versus Decisão

​O pecado original da operação residiu na ambiguidade de seus objetivos. Enquanto a retórica política exigia a "destruição total" das capacidades do Hamas, as ordens operacionais refletiam uma postura de "dissuasão" visando facilitar a troca de reféns. Esta contradição provou-se fatal. A liderança do Hamas, compreendendo que a agressividade israelense possuía um teto político determinado pela necessidade de um acordo de reféns, adaptou sua estratégia para sobreviver e desgastar a vontade política do adversário, em vez de buscar uma vitória militar direta.

​A doutrina militar clássica ensina que a dissuasão é um conceito psicológico que depende do cálculo racional do inimigo. No entanto, ao tentar aplicar a dissuasão simultaneamente a uma ofensiva de "mudança de regime", Israel criou um vácuo estratégico. O relatório interno concluiu que "Israel não visava derrotar decisivamente o Hamas, mas sim dissuadir o grupo terrorista na esperança de facilitar uma troca de reféns — uma estratégia que o Hamas supostamente compreendeu". Isso resultou em operações militares que paravam antes de atingir centros de gravidade críticos, permitindo ao inimigo reagrupar-se e manter a coerência de comando e controle.

​1.1.2 A Armadilha Logística e Humanitária

​Uma das revelações mais contundentes dos relatórios de 2026 foi a gestão "desajeitada" da ajuda humanitária. A incapacidade das FDI de estabelecer um mecanismo de distribuição independente ou seguro permitiu que o Hamas preenchesse o vácuo logístico. Ao controlar a distribuição de alimentos e suprimentos, o Hamas manteve a governança administrativa sobre a população civil, mesmo sob fogo intenso.

​Este erro teve implicações duplas. Primeiro, na legitimidade interna, o Hamas continuou a ser visto como o provedor de recursos, minando os esforços israelenses de isolar a população do grupo militante. Segundo, na guerra narrativa, a gestão falha permitiu ao Hamas lançar uma campanha de "fome falsa, mas eficaz", que danificou severamente a credibilidade internacional de Israel e restringiu sua margem de manobra diplomática. A incapacidade de gerir a logística civil em zona de combate transformou-se em uma derrota estratégica no domínio da informação.

​1.1.3 Redundância de Manobra e Previsibilidade

​Os documentos internos criticaram severamente o ritmo e a natureza das manobras terrestres. As forças das FDI foram relatadas operando repetidamente em áreas previamente "limpas", movendo-se a um ritmo lento que permitia ao adversário prever vetores de avanço e preparar emboscadas. A falta de dinamismo e a relutância em manter o território conquistado forçaram as tropas a reconquistar o mesmo terreno múltiplas vezes — em linguagem bem clara, “enxugando gelo” — um processo que exauriu a força de reservistas e produziu retornos marginais decrescentes em termos de segurança.

​A previsibilidade operacional violou um dos princípios fundamentais da guerra: a surpresa. Ao aderir a padrões de manobra conservadores para minimizar baixas próprias, as FDI cederam a iniciativa tática a um inimigo que operava de forma descentralizada e assimétrica.

​1.1.4 O Dilema Subterrâneo: Improvisação versus Doutrina

​Talvez a falha tática mais alarmante tenha sido a abordagem ao combate subterrâneo. Apesar de décadas de conhecimento sobre a ameaça dos túneis ("o metrô de Gaza"), o relatório de 2026 indicou que as forças ainda estavam sendo forçadas a "improvisar" táticas de enfrentamento dos túneis durante o combate ativo. A ausência de uma solução industrializada e padronizada para a guerra subterrânea significou que cada unidade teve que improvisar suas próprias soluções, resultando em ineficiências operacionais, avanço lento e baixas desnecessárias. Este ponto é crucial: a tecnologia de detecção de túneis (a barreira subterrânea) falhou em prevenir o uso ofensivo da rede interna de túneis para manobra e emboscada. O foco na "defesa de fronteira" negligenciou a necessidade de uma doutrina ofensiva para o ambiente subterrâneo profundo.

​1.2 O Colapso da "Concepção" de Inteligência (Konseptzia)

​As falhas de 2026 não podem ser dissociadas do colapso de inteligência de 7 de outubro de 2023. Estudos comparativos entre a Guerra do Yom Kippur de 1973 e o conflito de 2023–2026 identificam uma patologia recorrente: a dominância de uma estrutura analítica única, ou "Concepção" (Konseptzia), que cega a liderança para vetores de ameaça alternativos.

​1.2.1 A Cegueira Cognitiva e a Dependência Tecnológica

​Nos anos que antecederam o conflito, os sistemas de aviso de inteligência (indications and warnings, IW) de Israel foram marginalizados em favor de avaliações "convencionais" que priorizavam sinais tecnológicos sobre a intenção humana e ideológica. A "Concepção" sustentava que o Hamas estava dissuadido e focado na governança econômica, uma crença reforçada pela concessão de licenças de trabalho e fluxo de ajuda financeira.

​Esta dependência de indicadores econômicos e tecnológicos criou uma mentalidade semelhante à dos franceses em relação à Linha Maginot. A barreira tecnológica na fronteira de Gaza induziu uma falsa sensação de segurança, levando à redução da presença física de tropas e à negligência da inteligência humana (HUMINT) e de fontes abertas (OSINT) que indicavam preparativos para um ataque massivo. O erro não foi falta de dados, mas a incapacidade de interpretar os dados fora do quadro de referência estabelecido.

​1.2.2 A Falha na Disseminação e Ação

​A análise pós-conflito sugere que, se os oficiais israelenses tivessem analisado, disseminado e agido com base nos avisos que já possuíam, o desastre poderia ter sido mitigado. A estrutura hierárquica rígida e a compartimentação da inteligência impediram que os "sinais fracos" detectados por analistas de nível inferior chegassem aos tomadores de decisão com a urgência necessária. A disciplina de IW israelense, projetada para alertar sobre outliers e mudanças súbitas, foi suplantada por uma análise preditiva baseada em tendências passadas, que falhou catastroficamente diante de uma ruptura paradigmática.

​1.3 Os Reféns e a Paralisia Estratégica

​A presença de um grande número de reféns introduziu uma variável não linear que a doutrina militar convencional israelense teve grande dificuldade para processar. O inimigo utilizou os reféns não apenas como escudos humanos táticos, mas como alavancas estratégicas de "guerra psicológica". Isso forçou as FDI a um ritmo operacional de "para-e-anda", exemplificado pela interrupção da "Operação Carruagens de Gideão B" em meio a negociações de cessar-fogo no final de 2025.

​A incapacidade de separar a missão de recuperação de reféns da missão de destruição do regime resultou em uma paralisia decisória. As pausas operacionais permitiram ao Hamas reabastecer e reorganizar suas defesas, anulando o ímpeto da ofensiva israelense. A lição crítica aqui é que, em guerras híbridas modernas, a manipulação de considerações humanitárias e civis é uma arma cinética tão potente quanto mísseis antitanque.

​Parte II: A Doutrina dos Operadores Não Atribuíveis na Zona Cinza

​Enquanto Israel lutava com as restrições da atribuição convencional e do direito internacional, uma evolução paralela na guerra foi codificada e analisada em detalhes no início de 2026: a doutrina dos Operadores Não Atribuíveis (Non-Attributable Operators). Conforme detalhado em análises geopolíticas do GBN News, este conceito representa o futuro da arte de governar e guerrear em uma era onde a guerra declarada é politicamente insustentável e economicamente ruinosa.

​2.1 Definindo o Ativo Não Atribuível

​O conceito de operadores não atribuíveis refere-se a uma classe altamente sensível e estratégica de ativos que "oficialmente não existem". Esses indivíduos, tipicamente oriundos de forças especiais ou comunidades de inteligência, possuem treinamento avançado em operações psicológicas, guerra narrativa, infiltração, contra-inteligência, sabotagem e uso preciso da força.

​O valor estratégico central desses operadores reside na sua "não-existência". Eles não aparecem em inventários públicos, não recebem medalhas oficiais e não podem ser legalmente atribuídos ao Estado que os treina ou emprega. Isso permite que os Estados operem na Zona Cinzenta (Grey Zone), o espaço operacional entre a paz formal e a guerra declarada, onde a atribuição e a responsabilidade são deliberadamente obscurecidas.

​2.2 A Lógica Estratégica: Negação Plausível e Guerra Narrativa

​A utilidade primária desses ativos é a criação de Negação Plausível (Plausible Deniability). Eles servem como instrumentos de "ambiguidade estratégica", permitindo que um Estado influencie cenários, molde percepções e crie "fatos consumados" sem cruzar linhas vermelhas explícitas que levariam a uma escalada militar formal ou sanções internacionais severas.

​2.2.1 Manobrabilidade Estratégica

​Diferente das forças regulares, que existem para ocupar território ou travar batalhas convencionais, os operadores não atribuíveis operam na interseção da política, informação, inteligência e coerção limitada. Sua função é manter pressão constante sobre os adversários, testar defesas, apoiar aliados informais e romper cadeias críticas de suprimento, tudo isso sem a necessidade de mobilização aberta ou declarações de conflito.

​2.2.2 Guerra Narrativa

​No século XXI, a vitória física é irrelevante sem a vitória cognitiva. Os operadores não atribuíveis são centrais para a "guerra narrativa", onde o controle da percepção pública e da legitimidade é decisivo. Eles trabalham para influenciar o discurso, proteger a imagem internacional do Estado patrocinador e perturbar as narrativas dos adversários, utilizando desinformação e operações psicológicas para semear discórdia e confusão nas fileiras inimigas.

​2.3 Tipologias de Intervenção e Agenciamento

​A análise de 2026 estabelece uma taxonomia clara para esses agentes, dividindo-os em três categorias fundamentais de acordo com sua função e nível de negação.

​Primeiramente, os Operadores Estatais Diretos são indivíduos formados por estruturas militares ou de inteligência que operam sob cobertura profunda (Sheep dipped). Embora ofereçam um alto controle político e capacidade para missões de extrema precisão, seu nível de negação é considerado médio, pois a exposição traz riscos de crise diplomática direta.

​Em segundo lugar, existem os Intermediários Paraestatais, que são estruturas com vínculos funcionais ao Estado, mas que mantêm separação institucional, como empresas militares privadas (PMCs) ou contratados. A utilidade estratégica destes reside em fornecer uma "almofada" política, sendo ideais para logística, treinamento de proxies e segurança de instalações. O nível de negação aqui é alto, permitindo ao Estado alegar falta de controle direto.

​Por fim, a terceira categoria abrange os Operadores de Países Terceiros, que envolve o recurso a indivíduos ou células de outras nacionalidades — por exemplo, usar nacionais colombianos para uma missão em nome de uma potência europeia. Esta modalidade maximiza a negação, tornando a atribuição quase impossível e a cadeia de responsabilidade difusa e extremamente difícil de provar.

​2.4 Riscos, Dilemas e Controle

​O emprego desses ativos não é isento de riscos. A exposição involuntária pode desencadear crises diplomáticas severas e perda de credibilidade internacional. Além disso, surgem dilemas éticos e legais quando as operações ocorrem em ambientes civis ou em Estados formalmente em paz. Por isso, a doutrina enfatiza o Controle Político Rigoroso, com cadeias de decisão restritas e autorização dos mais altos níveis do Estado, garantindo que as operações visem efeitos políticos específicos e controláveis, em vez de vitórias espetaculares.

​Parte III: O Teatro Brasileiro — Do "Novo Cangaço" às Ameaças Híbridas Transnacionais

​O Brasil encontra-se em um precipício estratégico. As lições das falhas de Israel e a ascensão da guerra não atribuível não são conceitos abstratos, mas realidades urgentes para uma nação que enfrenta a hibridização do crime e da insurgência em seu próprio território.

​3.1 O Fenômeno do "Novo Cangaço" e o Domínio de Cidades

​A evolução das facções criminosas brasileiras, particularmente o Primeiro Comando da Capital (PCC) e o Comando Vermelho (CV), atingiu um patamar que desafia a classificação tradicional de "crime organizado". O fenômeno conhecido como "Novo Cangaço" evoluiu, em 2025 e 2026, para uma doutrina de "Domínio de Cidades". Esta modalidade criminosa envolve o isolamento físico de municípios inteiros, a neutralização das forças de segurança locais através de poder de fogo superior (fuzis.50, explosivos, drones) e o uso sistemático da população civil como escudos humanos.

​3.1.1 Isomorfismo Tático com Grupos Terroristas

​As táticas empregadas pelas facções brasileiras espelham de forma alarmante as táticas de enxame (swarm tactics) utilizadas pelo Hamas e Hezbollah:

  • Bloqueio de Reforços: Uso de veículos incendiados, troncos e "miguelitos" para isolar o campo de batalha e impedir a chegada de resposta policial especializada.
  • Assimetria de Fogo: Emprego de armamento de guerra antiaérea e antitanque contra unidades policiais leves, criando uma superioridade local temporária.
  • Escudos Humanos: A prática de amarrar reféns aos capôs de veículos em fuga (tactical human shields) visa dificultar ou impedir a ação de atiradores de elite, explorando as regras de engajamento restritivas do Estado, exatamente como o Hamas opera em Gaza.
  • Governança Armada: O estabelecimento de "zonas de governança armada" onde o Estado perdeu o monopólio da violência e onde as facções exercem controle social, político e econômico.

​3.2 O Nexo Crime-Terror e a Tríplice Fronteira

​O Brasil consolidou-se como um nó crítico no Nexo Crime-Terror (Crime-Terror Nexus) global. A convergência entre facções brasileiras e organizações terroristas transnacionais deixou de ser uma hipótese para se tornar uma realidade operacional e logística.

  • Hezbollah na Tríplice Fronteira: A região da Tríplice Fronteira (Brasil, Argentina, Paraguai) atua como um "buraco negro" institucional e financeiro. O Hezbollah utiliza esta região para lavagem de dinheiro em escala industrial, frequentemente em cooperação funcional com o PCC. Embora não haja fusão ideológica, existe uma "joint venture" logística: o PCC fornece as rotas e a corrupção local, enquanto o Hezbollah oferece acesso a redes globais de lavagem de dinheiro e mercados de armas.
  • O Hub Intercontinental de Cocaína: O Brasil funciona como o elo intermediário do fluxo global de cocaína, conectando a produção andina com redes de lavagem de capitais na África Ocidental e mercados de consumo na Europa. Esta rota triangular financia tanto a governança criminal na América do Sul quanto insurgências na África, inserindo o Brasil diretamente na dinâmica de segurança global.
  • Sofisticação Financeira (DeFi e Cripto): Em 2026, os grupos criminosos adotaram tecnologias de ponta, utilizando criptomoedas, stablecoins, fintechs e plataformas de finanças descentralizadas (DeFi) para lavar bilhões de dólares. Essa sofisticação dificulta a atribuição e a interdição estatal, criando uma economia paralela robusta que sustenta o poder de combate das facções.

​3.3 Ameaças Não Atribuíveis na Amazônia e no Atlântico Sul

​A soberania brasileira é crescentemente testada por atividades de "zona cinza" que exploram a vastidão territorial e a dificuldade de vigilância.

  • Amazônia como Teatro de Guerra Híbrida: A mineração ilegal, a extração de madeira e a biopirataria na Amazônia muitas vezes utilizam "Operadores de Terceiros Países" ou instrumentalizam populações locais como proxies. Isso torna difícil para as Forças Armadas brasileiras atribuir essas ações a competidores estatais estrangeiros ou a corporações transnacionais que se beneficiam da desestabilização. A narrativa ambiental é frequentemente cooptada para justificar intervenções ou questionar a soberania brasileira, constituindo uma forma de guerra narrativa.
  • Atlântico Sul (Amazônia Azul): A presença de frotas pesqueiras estrangeiras e navios de "pesquisa científica" operando no limite da Zona Econômica Exclusiva (ZEE) representa uma ameaça não atribuível à economia azul e à infraestrutura submarina (cabos de dados, oleodutos e gasodutos). Ações de sabotagem ou mapeamento acústico podem ser realizadas sob a cobertura de atividades civis, desafiando a capacidade da Marinha do Brasil de responder sem escalar para um incidente diplomático.

​Parte IV: Transposição Estratégica – Aplicando as Lições Israelenses ao Brasil

​O Brasil não pode dar-se ao luxo de replicar os erros de Israel. As semelhanças estruturais entre a luta das FDI contra o Hamas e a luta do Estado brasileiro contra o PCC/CV — ambos enfrentando atores não estatais entrincheirados em populações civis e operando redes subterrâneas (físicas, logísticas, digitais) — exigem uma transposição direta de lições.

​4.1 Do "Cortar a Grama" à Desarticulação de Redes

​Durante décadas, Israel adotou a estratégia de "Cortar a Grama" (Mowing the Grass) — operações periódicas e limitadas para degradar a capacidade do inimigo sem buscar uma resolução política ou estratégica definitiva. A "Operação Carruagens de Gideão" provou que essa estratégia, invariavelmente, leva a falhas catastróficas, pois permite ao inimigo adaptar-se e fortalecer-se nos intervalos.

Lição para o Brasil: O modelo atual de segurança pública do Brasil é, efetivamente, "Cortar a Grama". Incursões policiais periódicas em favelas ou operações de resposta ao "Novo Cangaço" apenas perturbam temporariamente as operações criminosas, sem desmantelar a "infraestrutura de governança" (financeira, social, logística) das facções. O Brasil deve transitar da "contenção" para o "desmantelamento de redes". Isso exige atacar as estruturas financeiras e de comando (os "túneis" metafóricos do PCC) com a mesma intensidade que se ataca os soldados rasos nas ruas. A persistência operacional é chave; operações pontuais são ineficazes contra redes resilientes.

​4.2 Evitando a Nova "Concepção" (Konseptzia) Brasileira

​Israel falhou porque acreditou que incentivos econômicos (licenças de trabalho) pacificaram o Hamas. O Brasil corre o risco de cair em uma "Concepção" similar ao acreditar que programas sociais isolados podem deslocar facções criminosas, ou, inversamente, que apenas o poder de fogo policial pode erradicá-las.

Aviso: A suposição de que o PCC é meramente um problema "criminal" é uma Konseptzia perigosa. Eles são uma ameaça político-militar com capacidades de política externa (negociando com outros Estados e grupos terroristas) e controle territorial. As agências de inteligência (ABIN, Centros de Inteligência das Polícias) devem abandonar a lente puramente policial e adotar uma estrutura de contra-insurgência e contraterrorismo, focando na intenção e capacidade estratégica das facções, não apenas em seus crimes passados.

​4.3 Operacionalizando a Doutrina "Não Atribuível" na Defesa Nacional

​O Brasil possui uma vantagem estratégica raramente utilizada: sua própria capacidade para operações na zona cinza.

  • Aplicação Defensiva: Para combater as ameaças do "Novo Cangaço" e a exploração predatória na Amazônia, o Brasil necessita de unidades especializadas capazes de operar como "Operadores Não Atribuíveis" — infiltração profunda nas redes criminosas para conduzir sabotagem, inteligência e guerra psicológica a partir de dentro do ecossistema criminal.
  • Integração de Inteligência: O uso de "intermediários paraestatais" ou cooperação discreta com países vizinhos poderia permitir ao Estado brasileiro perturbar cadeias de suprimento ilícitas nas regiões de fronteira sem desencadear incidentes diplomáticos com vizinhos sensíveis como Paraguai ou Bolívia.

​Parte V: Doutrina e Política – Rumo à "Dissuasão Integrada"

​Para navegar no ambiente de segurança de 2026, o Brasil deve adotar uma estratégia de defesa abrangente que integre o poder militar com alavancagem econômica e diplomática — uma adaptação do conceito de "Dissuasão Integrada" promovido em cooperação com o Comando Sul dos EUA.

​5.1 A Implementação do Framework DIME

​A falha israelense em 2025/2026 deveu-se, em parte, à falta de sincronização entre a ação Militar e os esforços Diplomáticos e Informacionais. O Brasil deve adotar o framework DIME (Diplomático, Informacional, Militar, Econômico) para sua guerra contra o crime organizado e ameaças híbridas, coordenando ações em quatro pilares fundamentais.

​No pilar Diplomático, a estratégia acionável para o Brasil envolve firmar acordos regionais robustos com nações Andinas e da África Ocidental. O objetivo é atacar a origem e o trânsito dos fluxos ilícitos, em vez de apenas reagir à sua manifestação local. Isso contrasta com a falha de Israel em coordenar diplomaticamente a gestão de Gaza pós-conflito, o que lhe custou apoio devido à crise humanitária. O fortalecimento da cooperação com o USSOUTHCOM é também um componente chave.

​No campo Informacional, sugere-se o estabelecimento de um "Comando de Defesa Cognitiva" para monitorar e contra-atacar narrativas anti-soberania e a glorificação cultural do crime (Guerra Narrativa). A deslegitimação da imagem de "Robin Hood" dos líderes de facções é essencial. Esta medida visa evitar o erro israelense de perder a guerra narrativa pela incapacidade de combater a desinformação adversária sobre a fome e vítimas civis.

​Na esfera Militar, a recomendação é evoluir da ocupação estática (como o modelo das UPPs) para ataques de decapitação dinâmicos, liderados por inteligência precisa. O emprego de Forças Especiais (FE) para operações cirúrgicas na Zona Cinza e nas fronteiras é crucial para superar a falha das FDI, que usaram forças convencionais em manobras lentas e previsíveis contra um inimigo ágil e descentralizado.

​Por fim, no pilar Econômico, a criação de um "Centro Nacional de Inteligência Financeira Digital" é vital para atacar o nexo de lavagem de dinheiro via DeFi e criptoativos. A asfixia econômica das facções deve servir como prelúdio à ação cinética, corrigindo a Konseptzia israelense de que a prosperidade econômica por si só pacificaria o inimigo.

​5.2 Marcos Legais: Lawfare e Direito Internacional Humanitário (DIH)

​O "Novo Cangaço" e a hibridização do crime criam uma zona cinza jurídica que paralisa as forças de segurança. As operações israelenses foram prejudicadas pela tensão constante entre a necessidade militar e o escrutínio do direito internacional.

Recomendação: O Brasil deve reconhecer formalmente a natureza "Híbrida" dessas ameaças em seu código legal. Isso envolve aplicar princípios do Direito Internacional Humanitário (DIH) a atores não estatais violentos específicos (ANEVs) que controlam território e possuem comando hierárquico, permitindo Regras de Engajamento (ROE) mais robustas que a ação policial comum, mas mais restritas que a guerra total. Isso previne a "judicialização" das operações táticas que frequentemente inibe a ação decisiva das forças de segurança.

​5.3 Soberania no Domínio Cognitivo

​Finalmente, a ameaça "não atribuível" é fundamentalmente cognitiva. Atores estrangeiros utilizam a guerra de informação para desafiar a soberania brasileira sobre a Amazônia sob o pretexto de proteção ambiental ou direitos indígenas. O Brasil deve desenvolver "Soberania Cognitiva" — a capacidade de detectar, atribuir (mesmo que internamente) e neutralizar operações de narrativa estrangeira antes que elas se solidifiquem em uma pressão política internacional ou sanções.

​Conclusões e Recomendações Finais

​As falhas operacionais de Israel demonstram inequivocamente que a excelência tática e a superioridade tecnológica, isoladamente, não podem compensar a incoerência estratégica. Para o Brasil, o aviso é claro: enfrentar um inimigo híbrido, transnacional e adaptável com uma mentalidade de segurança pública do século XX é uma receita para a derrota estratégica e a fragmentação territorial.

​O Estado brasileiro deve:

  1. Abandonar a Concepção de Contenção: O PCC e o CV não serão "geridos"; eles devem ser estruturalmente desmantelados através de decapitação financeira e de liderança, não apenas ocupação territorial temporária.
  2. Unificar a Resposta: Adotar a "Dissuasão Integrada" como doutrina de Estado. Polícia, Forças Armadas, inteligência financeira (COAF) e diplomacia devem operar sob um design estratégico único (DIME).
  3. Preparar-se para a Zona Cinza: A Amazônia e o Atlântico Sul são teatros ativos de guerra híbrida. O Brasil requer capacidades "não atribuíveis" para negar esses espaços a adversários sem escalar para o conflito aberto.
  4. Redefinir o Inimigo: Reclassificar legalmente as facções que praticam "Domínio de Cidades" como ameaças híbridas sujeitas a um arcabouço legal especializado que faça a ponte entre o direito penal e o DIH.

​No século XXI, o Estado que se apega à distinção binária arcaica entre "paz" e "guerra" escolhe, efetivamente, perder a guerra que já está acontecendo nas sombras.

​Apêndice: Análise Comparativa de Ameaças

​A comparação direta entre as falhas de Israel na "Operação Carruagens de Gideão" (2026) e as vulnerabilidades atuais do Brasil revela paralelos alarmantes que exigem atenção imediata.

​No que tange ao Objetivo Estratégico, Israel falhou devido a uma confusão entre dissuasão e destruição. Similarmente, o Brasil opera com um objetivo confuso, oscilando entre uma abordagem de Segurança Pública (focada em prisão) e uma de Defesa Nacional (focada em soberania).

​O Terreno do Inimigo apresenta desafios análogos. A rede subterrânea de túneis em Gaza impôs dificuldades severas às FDI, enquanto no Brasil, o labirinto urbano das favelas e o denso dossel florestal da Amazônia oferecem vantagens táticas semelhantes aos grupos criminosos.

​No aspecto da Logística, Israel sofreu com a "Armadilha Humanitária", onde o inimigo controlou a distribuição de ajuda. No Brasil, vê-se uma dinâmica parecida onde facções criminosas controlam serviços locais essenciais, como gás, internet e transporte, em zonas dominadas.

​A Falha de Inteligência israelense foi marcada pela Konseptzia, uma confiança excessiva na tecnologia em detrimento da intenção humana. O Brasil reflete essa vulnerabilidade através de uma inteligência fragmentada, caracterizada pela falta de integração eficaz entre as Polícias Estaduais e a Inteligência Federal.

​Por fim, a questão dos Reféns e Escudos mostrou-se crítica. Enquanto Israel enfrentou paralisia estratégica devido aos cativos civis, o fenômeno do "Novo Cangaço" no Brasil utiliza civis sistematicamente como escudos táticos imediatos para garantir rotas de fuga, replicando a complexidade moral e operacional do teatro do Oriente Médio.

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sábado, 7 de fevereiro de 2026

BAE Systems amplia contrato de US$ 195 milhões para veículos anfíbios ACV-30 do USMC

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A BAE Systems confirmou a ampliação do fornecimento de veículos anfíbios de combate ACV-30 ao Corpo de Fuzileiros Navais dos Estados Unidos (USMC), após a assinatura de um novo contrato avaliado em US$ 195 milhões. O anúncio, divulgado originalmente no início desta semana, reforça o processo de modernização das capacidades expedicionárias norte-americanas e amplia o número total de viaturas ACV-30 encomendadas para 150 unidades.

A variante ACV-30 representa um avanço significativo no programa Amphibious Combat Vehicle, sendo equipada com um canhão automático de 30 mm, que amplia o poder de fogo, a capacidade de engajamento de alvos a maiores distâncias e o apoio direto às tropas durante operações anfíbias e combates terrestres subsequentes.

Desenvolvido como uma plataforma de nova geração, o ACV foi projetado para aumentar a mobilidade em ambientes marítimos e litorâneos, elevar a proteção da tropa embarcada e garantir maior adaptabilidade em cenários operacionais complexos. O veículo atende aos requisitos atuais do USMC, que busca forças mais móveis, letais e capazes de operar em ambientes contestados.

Segundo a BAE Systems, o novo contrato mantém o programa alinhado às necessidades operacionais dos Fuzileiros Navais dos Estados Unidos, garantindo continuidade no fornecimento de soluções tecnológicas avançadas. A empresa destacou que a parceria com o USMC reflete o compromisso em fornecer meios capazes de assegurar a prontidão e o sucesso das missões em diferentes cenários de emprego.

Além da versão ACV-30, o programa inclui outras variantes especializadas que ampliam a capacidade operacional das unidades anfíbias. O ACV-P é destinado ao transporte protegido de tropas, podendo transportar até 13 Fuzileiros Navais totalmente equipados, além de três tripulantes. Já o ACV-C atua como plataforma de comando e controle, incorporando estações de trabalho voltadas ao gerenciamento da consciência situacional no campo de batalha.

O programa também contempla a variante ACV-R, voltada para manutenção, recuperação e reparo de viaturas em nível de campo. A BAE Systems já produziu e entregou três unidades dessa configuração em modelo representativo de produção, incluindo a integração de guindaste realizada pelo governo dos Estados Unidos no Anniston Army Depot.

A produção das novas unidades ACV-30 será realizada nas instalações da empresa em Johnstown e York, na Pensilvânia, enquanto a unidade de Charleston, na Carolina do Sul, será responsável pela integração da torre desenvolvida pela KONGSBERG sob supervisão do governo norte-americano.

A ampliação do programa ACV ocorre em um contexto estratégico marcado pela necessidade de manter superioridade em operações anfíbias e projeção de poder em regiões litorâneas sensíveis. A modernização das viaturas reforça a transformação doutrinária do USMC, que vem priorizando forças expedicionárias mais ágeis, distribuídas e preparadas para conflitos multidomínio do século XXI.


GBN Defense - A informação começa aqui

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Coreia do Sul avança no programa LTA-II com primeiro C-390 Millennium em fase final de montagem

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A Embraer anunciou, durante o Singapore Airshow, realizado em 3 de fevereiro, que a primeira aeronave C-390 Millennium destinada à Força Aérea da República da Coreia (ROKAF) entrou na fase final de montagem. O anúncio representa um marco relevante no programa sul-coreano Large Transport Aircraft II (LTA-II) e reforça a crescente presença do cargueiro brasileiro no mercado asiático. A divulgação ganha ainda mais relevância ao ser publicada neste sábado (7), momento em que o programa segue avançando dentro do cronograma previsto.

De acordo com a fabricante brasileira, a aeronave agora avançará para a fase de voos de produção, etapa fundamental para validação operacional antes da integração dos sistemas específicos solicitados pela Força Aérea sul-coreana.

A escolha do C-390 pela República da Coreia representa um movimento estratégico dentro do processo de modernização das capacidades logísticas e de projeção de poder do país, além de consolidar a Embraer como um importante parceiro industrial e tecnológico no setor de defesa asiático. A Coreia do Sul tornou-se o primeiro operador do Millennium na Ásia, ampliando a projeção internacional da aeronave.

Segundo Bosco da Costa Jr., presidente e CEO da Embraer Defesa & Segurança, o avanço da montagem evidencia a maturidade da linha de produção da empresa e a solidez da cooperação estabelecida com a Administração de Programas de Aquisição de Defesa da Coreia do Sul (DAPA), com a ROKAF e com a indústria local. O executivo destacou ainda que a cooperação industrial com fornecedores sul-coreanos vem fortalecendo a cadeia global de suprimentos do programa, contribuindo para o aumento do ritmo de produção do C-390 diante da crescente demanda internacional.

Projetado sob conceitos operacionais contemporâneos, o KC-390 Millennium é atualmente considerado a aeronave de transporte militar mais moderna de sua categoria. O modelo possui capacidade de carga útil de até 26 toneladas, superando diversos concorrentes diretos, além de apresentar maior velocidade operacional, alcançando aproximadamente 470 nós, e ampliado alcance estratégico.

A aeronave foi concebida para executar múltiplos perfis de missão, incluindo transporte e lançamento de tropas e cargas, evacuação aeromédica, operações de busca e salvamento, combate a incêndios florestais e apoio a ações humanitárias. Outro diferencial relevante é sua capacidade de operar em pistas semipreparadas ou não pavimentadas, característica que amplia significativamente sua flexibilidade operacional em cenários de crise, conflito ou desastres naturais.

O Millennium também se destaca pela versatilidade no reabastecimento em voo, podendo atuar tanto como aeronave reabastecedora quanto como receptora, por meio de sistemas de instalação rápida. A plataforma apresenta ainda total interoperabilidade com os padrões operacionais da OTAN e atende aos requisitos do conceito de Emprego Ágil de Combate (ACE), cada vez mais valorizado em cenários estratégicos modernos que exigem mobilidade, dispersão e rapidez de resposta.

A entrada da Coreia do Sul no programa reforça o crescimento consistente da carteira internacional do C-390 Millennium. Atualmente, além da ROKAF, a aeronave já foi selecionada pelas forças aéreas do Brasil, Portugal, Hungria, Holanda, Áustria, República Tcheca, Suécia, Uzbequistão, Eslováquia e Lituânia, consolidando o cargueiro brasileiro como uma das principais soluções globais no segmento de transporte militar tático e estratégico.

O avanço do programa LTA-II demonstra não apenas a confiança de uma das mais avançadas forças aéreas da Ásia na plataforma brasileira, mas também evidencia o fortalecimento da indústria nacional de defesa no cenário internacional, ampliando a inserção tecnológica do Brasil em projetos de alta complexidade e relevância estratégica.


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Uzbequistão é confirmado como novo operador do C-390 Millennium da Embraer

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A Embraer confirmou, durante o Singapore Airshow, que a República do Uzbequistão é o cliente anteriormente não divulgado de um pedido para a aeronave de transporte militar C-390 Millennium. O anúncio foi feito na terça-feira, 3 de fevereiro, consolidando a expansão global da plataforma brasileira e marcando a entrada do modelo na Ásia Central.

De acordo com a fabricante, a Força Aérea do Uzbequistão empregará a aeronave principalmente em missões humanitárias e transporte logístico, ampliando significativamente suas capacidades operacionais. Com a decisão, o país se torna a primeira nação da Ásia Central a operar o C-390, aeronave que vem ganhando espaço no competitivo segmento de transporte militar de médio porte.

Segundo Bosco da Costa Júnior, presidente e CEO da Embraer Defesa & Segurança, a escolha representa um importante marco para o programa. O executivo destacou que a empresa trabalhará em estreita cooperação com a Força Aérea uzbeque para garantir a plena operação da aeronave e apoiar o processo de modernização de suas capacidades de transporte estratégico.

Projetado e desenvolvido já dentro dos conceitos operacionais do século XXI, o KC-390 Millennium é considerado atualmente o cargueiro militar mais moderno de sua categoria. A aeronave possui capacidade para transportar até 26 toneladas de carga, superando diversos concorrentes diretos, além de apresentar maior velocidade operacional, podendo atingir cerca de 470 nós, e maior alcance.

O modelo é capaz de executar uma ampla gama de missões, incluindo transporte e lançamento de tropas e cargas, evacuação aeromédica, busca e salvamento, combate a incêndios florestais e apoio a operações humanitárias. Outra característica relevante é sua capacidade de operar em pistas semipreparadas ou não pavimentadas, ampliando sua flexibilidade operacional em cenários de crise ou desastres naturais.

O Millennium também pode ser configurado rapidamente para missões de reabastecimento em voo, atuando tanto como aeronave reabastecedora quanto como receptora. A plataforma ainda possui plena interoperabilidade com os padrões da OTAN, além de ser especialmente adaptada para operações dentro do conceito de Emprego de Combate Ágil (ACE), que exige mobilidade, rapidez de resposta e flexibilidade logística.

Com a adesão do Uzbequistão, o C-390 Millennium amplia sua carteira internacional de operadores. Atualmente, a aeronave já foi selecionada pelas forças aéreas do Brasil, Portugal, Hungria, República da Coreia, Holanda, Áustria, República Tcheca, Suécia, Eslováquia e Lituânia, consolidando sua posição como uma das principais soluções de transporte militar disponíveis no mercado global.

O avanço das vendas internacionais reforça o protagonismo da indústria aeronáutica brasileira no setor de defesa e evidencia a crescente aceitação do C-390 como uma plataforma versátil, moderna e alinhada às exigências operacionais contemporâneas.


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REVISIONISMO HISTÓRICO E VULNERABILIDADE ESTRATÉGICA: O BRASIL FORA DO COMPASSO GEOPOLÍTICO

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Em um sistema internacional cada vez mais competitivo, instável e marcado pela erosão de antigas certezas, a forma como um país trata suas Forças Armadas diz muito sobre como ele se enxerga no tabuleiro global. No caso brasileiro, chama atenção o contraste entre a realidade estratégica do século XXI e a permanência de um discurso interno fortemente ancorado em revisionismos do passado, em especial na leitura ideológica que parte da esquerda ainda faz do 31 de março de 1964, mais de seis décadas depois.

Enquanto grandes democracias lidam com seus passados autoritários sem renunciar a capacidades militares robustas, o Brasil insiste em manter a Defesa sob suspeição permanente. O resultado é um paradoxo: um país continental, com vastas fronteiras, riquezas naturais estratégicas e crescente relevância geopolítica, mas que hesita em reconhecer a centralidade do poder militar como instrumento legítimo do Estado. 

No cenário internacional contemporâneo, o poder não se manifesta apenas por meio de guerras convencionais. Ele se expressa na capacidade de dissuasão, na autonomia tecnológica, na resiliência cibernética, no controle de espaços estratégicos e na credibilidade de resposta a crises. Estados que não demonstram essas capacidades tornam-se alvos de coerção indireta, pressão econômica, espionagem sistemática e interferência política. A ausência de conflito aberto não significa segurança; muitas vezes significa apenas submissão silenciosa. 

O contraste com outras democracias é evidente. Países que viveram regimes autoritários, guerras civis ou ocupações estrangeiras compreenderam que memória histórica e defesa nacional não são conceitos antagônicos. Pelo contrário, fortalecer instituições militares sob controle civil, com profissionalismo e planejamento de longo prazo, foi parte essencial de sua reinserção soberana no sistema internacional. Nessas nações, a defesa é tratada como política de Estado, não como herança incômoda a ser contida por inanição orçamentária. 

No Brasil, o discurso revisionista frequentemente associa fortalecimento militar a risco democrático, ignorando que a fragilidade estratégica também gera instabilidade. Estados fracos do ponto de vista da defesa tendem a perder autonomia decisória, ficando mais suscetíveis a agendas externas, dependência tecnológica e pressões assimétricas. Em um mundo onde cadeias de suprimento, energia, dados e comunicações se tornaram instrumentos de poder, renunciar a capacidades próprias não é neutralidade, é vulnerabilidade. 

Essa lógica se torna ainda mais preocupante quando observada sob a ótica regional e global. O Brasil ocupa posição singular na América do Sul, no Atlântico Sul e no debate sobre recursos estratégicos. Sua postura defensiva não afeta apenas sua segurança interna, mas também o equilíbrio regional e a percepção externa sobre sua capacidade de liderar, mediar e proteger interesses próprios e de parceiros. Países que aspiram protagonismo não terceirizam sua segurança nem tratam suas forças armadas como problema político doméstico. 

O impacto humano dessa visão também é subestimado. O militar profissional brasileiro é treinado para operar em ambientes complexos, cumprir missões de alto risco e responder a emergências nacionais e internacionais. Quando esse profissional é sistematicamente deslegitimado por narrativas ideológicas que o associam a um passado distante, o efeito não é apenas simbólico. Afeta moral, retenção de talentos e a própria eficácia operacional, enfraquecendo um dos poucos instrumentos do Estado capazes de responder rapidamente a crises de grande escala. 

Há ainda uma dimensão tecnológica frequentemente ignorada no debate político. A defesa moderna é um dos principais vetores de inovação em áreas críticas como software embarcado, sensores, comunicações seguras, inteligência artificial e integração de sistemas complexos. Países que abandonam projetos estratégicos ou mantêm suas forças armadas em estado de permanente contenção acabam por ampliar sua dependência externa, perdendo autonomia decisória justamente nos domínios mais sensíveis da soberania contemporânea. 

A experiência internacional demonstra que democracias sólidas não enfraquecem suas forças armadas para proteger o regime, elas as profissionalizam, submetem a controle civil e as integram a uma estratégia nacional clara. O erro brasileiro está em confundir vigilância democrática com desconfiança estrutural, e memória histórica com imobilismo estratégico. 

Sessenta anos após 1964, insistir em um discurso revisionista permanente não projeta maturidade política nem compromisso democrático. Projeta insegurança estratégica. Em um mundo que voltou a falar a linguagem do poder, da dissuasão e da competição entre Estados, o Brasil corre o risco de permanecer preso a debates do passado enquanto o ambiente internacional avança e cobra seu preço.


por Mauro Beirão - formado em engenharia mecânica e  35 anos de experiência na indústria de defesa e aeroespacial

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A Guerra Entre Rússia e Ucrânia: UM ALERTA ESTRATÉGICO À DEFESA BRASILEIRA

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MODERNIZAÇÃO TECNOLÓGICA: DRONES, IA E GUERRA CIBERNÉTICA 

Uma das lições mais evidentes é o papel central das tecnologias acessíveis e assimétricas. Na Ucrânia, drones comerciais adaptados, como os Bayraktar da Turquia e modelos iranianos Shahed, foram usados em enxames para saturar defesas aéreas, destruir blindados e realizar ataques kamikaze. Esses dispositivos, baratos e de fácil produção, mudaram o equilíbrio de forças, permitindo que uma nação menor resistisse a um invasor superior em número.   A inteligência artificial (IA) também se destacou, com ferramentas como as da Palantir² integrando dados de sensores para rastrear tropas em tempo real, melhorando a precisão de artilharia e reduzindo perdas humanas. 

A ofensiva no ambiente digital, embora tenha produzido efeitos mais limitados do que muitos analistas previam, com ações russas resultando sobretudo em perturbações pontuais, evidenciou a vulnerabilidade de sistemas essenciais, como os de energia e do setor financeiro. No caso brasileiro, a baixa prontidão diante de ameaças virtuais decorre, em grande parte, devido à dependência da importação de sistemas com esse tipo de tecnologia e da insuficiência de recursos destinados à inovação tecnológica e P&D, o que torna estratégico investir em capacidades próprias de proteção para garantir a continuidade de serviços vitais em situações de instabilidade. Isso implica em, investir em capacidades anti-drones e em sistemas de IA para monitoramento de fronteiras e para a vigilância da Amazônia, onde o terreno difícil favorece táticas assimétricas e mais recentemente o crime organizado, por exemplo, o Ministério da Defesa brasileiro, poderia investir na adaptação de ARPs³  de categoria 4, os mesmos já incorporados pela Força Aérea Brasileira.  


LOGÍSTICA, ESTOQUES E DESCENTRALIZAÇÃO DO COMANDO 

A logística tem se revelado um elemento decisivo no conflito entre Rússia e Ucrânia, expondo vulnerabilidades iniciais e evoluções estratégicas ao longo do tempo. Em 2022, a Rússia enfrentou graves problemas decorrentes de corrupção, planejamento inadequado e linhas de suprimento excessivamente longas, o que deixou colunas de veículos expostas a emboscadas ucranianas provocando escassez crítica de combustível e munições. Esses fatores resultaram em perdas substanciais e forçaram uma mudança para uma guerra de desgaste prolongado. 

Entre 2025 e 2026, Moscou implementou adaptações significativas, como o uso de drones para proteger comboios, a descentralização parcial de comandos para maior agilidade e o aumento da produção interna de materiais, reduzindo assim dependências externas. Apesar desses avanços, persistem desafios, incluindo ataques ucranianos constantes a rotas de abastecimento e depósitos, além de pressões econômicas que comprometem a sustentabilidade de longo prazo. 

Do lado ucraniano, a dependência de aliados ocidentais para 80-90% dos suprimentos gera gargalos em escala global. Desde dezembro de 2025, os bombardeios russos aos portos do Mar Negro obrigam o uso de rotas alternativas via Polônia e Romênia. Kiev recorre a estratégias assimétricas, como drones navais e inteligência artificial (IA) para otimizar fluxos logísticos, mas ainda continua enfrentando interrupções frequentes por meio de ataques cibernéticos e sabotagens.  

No contexto brasileiro, onde as Forças Armadas operam em áreas remotas muito extensas, isso sugere a necessidade de ampliar estoques de munições e equipamentos, reduzindo a dependência externa. Documentos do Exército Brasileiro já discutem lições para operações de convergência até 2040, enfatizando preparo para conflitos prolongados.  Descentralizar o comando poderia melhorar respostas a ameaças híbridas, como invasões em áreas fronteiriças ou disputas marítimas no Atlântico Sul. 

SISTEMAS DE DEFESA ANTIAÉREA E COSTEIRA 

A Ucrânia destacou a eficácia de sistemas antiaéreos avançados, como o Patriot americano, que interceptou mísseis e drones russos, restringindo o controle aéreo inimigo e permitindo operações terrestres mais seguras. Esse sucesso sublinha a necessidade de defesas em camadas, combinando radares de longo alcance, mísseis superfície-ar e contramedidas eletrônicas para neutralizar ameaças assimétricas, como enxames de drones. No Mar Negro, drones navais ucranianos, como os Sea Baby, afundaram navios russos, expondo fraquezas em defesas costeiras e demonstrando como tecnologias de baixo custo podem desafiar frotas convencionais. Para o Brasil, com seus 7.500 km de litoral e recursos offshore como o Pré-sal, essas lições impõem a urgência de fortalecer capacidades antinavio e antiaérea. Artigos da Escola Superior de Guerra (ESG) e análises militares brasileiras exploram como o míssil Neptune ucraniano, um sistema antinavio de precisão, poderia inspirar desenvolvimentos nacionais, como o MANSUP ou adaptações de mísseis costeiros para proteger plataformas de petróleo e rotas marítimas. Além disso, o conflito revela a importância de integrar IA e sensores para detecção precoce, sugerindo que o Brasil invista em radares over-the-Horizon e baterias móveis para defender a Amazônia Azul. Sem isso, vulnerabilidades a incursões híbridas, como pirataria ou disputas territoriais, poderiam comprometer a soberania, exigindo parcerias tecnológicas com aliados como Israel ou Suécia para modernizar o arsenal e treinar forças em cenários de guerra assimétrica. 

EVITAR AUTOLIMITAÇÕES ESTRATÉGICAS E CONSTRUIR DISSUASÃO 

Debates no Brasil identificam erros passados, como a renúncia a mísseis de longo alcance em 1995 e a adesão ao Tratado de Não Proliferação Nuclear (TNP), que, embora promovam a imagem pacifista, limitam opções de dissuasão em um mundo multipolar. A Ucrânia, que abdicou de seu arsenal nuclear pós-soviético em troca de garantias de segurança (Memorando de Budapeste, 1994), tornou-se vulnerável à invasão russa, ilustrando como tratados podem falhar sem poder dissuasório autônomo. Para o Brasil, isso significa revisar políticas para preservar capacidades tecnológicas, como o programa nuclear pacífico (submarinos nucleares via PROSUB), sem violar compromissos internacionais, mas garantindo independência estratégica. Lições adicionais incluem o desenvolvimento de armas não-nucleares estratégicas, como hipersônicas ou de precisão, para criar “dissuasão por negação”, ou seja, tornando invasões custosas demais. O conflito também alerta para riscos pós-guerra: o influxo de armas ocidentais para o crime organizado, com relatos de equipamentos da Ucrânia chegando a facções brasileiras via mercado negro, e o retorno de mercenários nacionais com expertise em drones, potencializando ameaças internas como o narcotráfico na Amazônia. Assim, o Brasil deve priorizar inteligência e controle de fronteiras, para proteger seus 17.000 quilômetros de fronteira seca, além de investir em doutrina de dissuasão integrada, inspirada em estudos recentes, para evitar dependências que minem a soberania em cenários de crise global. 

GEOPOLÍTICA: Sanções, Propaganda e Alianças 

As sanções ocidentais contra a Rússia tiveram efeitos limitados, graças a alianças com China, Índia e Irã, que forneceram rotas alternativas para comércio e tecnologia, demonstrando a resiliência de economias diversificadas. A propaganda russa, ao subestimar a resistência ucraniana e promover narrativas internas, levou a erros operacionais e perda de apoio global. Para o Brasil, que manteve neutralidade no conflito, condenando a invasão sem aderir a sanções, isso reforça a estratégia de diversificar parcerias para mitigar impactos em cenários hipotéticos, como disputas no Atlântico Sul ou pressões por recursos amazônicos. A posição prudente reflete lições de autonomia, mas exige preparo para coerções externas, como boicotes econômicos, via fortalecimento de blocos como BRICS e Mercosul. Além disso, os Acordos de Minsk falhados destacam os perigos de negociações apressadas ou assimétricas, alertando o Brasil para abordagens cautelosas em disputas regionais, como com a Venezuela ou na Antártica, priorizando diplomacia respaldada por poder militar. Estudos brasileiros enfatizam a necessidade de contrapor narrativas estrangeiras com comunicação estratégica e inteligência cibernética, evitando que a desinformação corroa a coesão nacional em tempos de tensão geopolítica. Em suma, o conflito ensina que a geopolítica moderna demanda equilíbrio entre neutralidade e prontidão, posicionando o Brasil como ator global resiliente. 

CONCLUSÃO: Recomendações para a Defesa Brasileira 

A guerra Rússia-Ucrânia ensina que soberania depende de preparo autônomo: um país como o Brasil, deve estar preparado militarmente de forma independente, sem depender excessivamente de alianças externas ou tratados internacionais. Isso inclui investimentos em tecnologia, estoques e treinamento próprios, garantindo soberania e resiliência em cenários de conflito. Em essência, “pedaços de papel” (acordos) não substituem força real para deter ameaças. 

A vantagem tecnológica e operacional vem da integração de sensores, fogo de precisão, drones, EW e logística resiliente, não apenas do número bruto de blindados ou aeronaves.  O Brasil deve revisar sua Política Nacional de Defesa, investindo em modernização, estoques e dissuasão, como sugerido em estudos da ESG.  Com recursos naturais abundantes, o país não pode depender de aliados externos, como visto na Ucrânia.  Priorizar orçamento militar, parcerias tecnológicas e treinamento híbrido garantiria resiliência. Em um mundo multipolar, essas lições não são opcionais, são essenciais para preservar a paz pela força. 


por: Mauro Beirão - formado em engenharia mecânica e 35 anos de experiência na indústria de defesa e aeroespacial. 


² Palantir Technologies – Empresa norte-americana de software especializada em Inteligência Artificial 

³ Aeronaves Remotamente Pilotadas 

Fontes de Consulta: 

➢ Repositório Escola Superior de Guerra; 

➢ Portal de Periódicos da Marinha; 

➢ Revista GEO – Revista Interdisciplinar; 

➢ CEBRI Revista – Centro Brasileiro de Relações Internacionais. 

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quinta-feira, 29 de janeiro de 2026

Operadores Não Atribuíveis: Os Homens que Oficialmente Não Existem

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Na guerra contemporânea, o poder raramente se manifesta apenas por divisões blindadas, frotas navais ou esquadrilhas de caça. Cada vez mais, os conflitos decisivos ocorrem abaixo do limiar formal da guerra, em zonas cinzentas onde atribuição, responsabilidade e até a própria existência dos atores são deliberadamente nebulosas. É nesse espaço que surge uma das figuras mais sensíveis e estratégicas do sistema internacional: o operador especial não atribuível.

Trata-se de um homem preparado por estruturas estatais, geralmente oriundo de forças especiais ou de comunidades de inteligência, com formação aprofundada em operações psicológicas, guerra narrativa, infiltração, contrainteligência, sabotagem e emprego preciso da força. A singularidade desse ativo, contudo, não está apenas no nível de treinamento, mas na condição política de seu emprego: ele não é oficialmente reconhecido, não figura em inventários públicos e não pode ser juridicamente atribuído ao Estado que o formou ou emprega.

Essa “inexistência” não é um detalhe administrativo. É, na verdade, o núcleo do seu valor estratégico.

A lógica do ativo não atribuível

No pensamento estratégico moderno, a capacidade de agir sem assumir publicamente a autoria é tão relevante quanto a capacidade de agir com força aberta. Estados que operam em ambientes de competição permanente, mas que buscam evitar escaladas formais, recorrem a ativos não atribuíveis para influenciar cenários, moldar percepções e criar fatos consumados sem cruzar linhas vermelhas explícitas.

Diferentemente de forças regulares, esses operadores não existem para ocupar território ou travar batalhas convencionais. Seu papel é operar na interseção entre política, informação, inteligência e coerção limitada. Eles são instrumentos de ambiguidade estratégica, concebidos para permitir a chamada negação plausível: a possibilidade de um Estado negar, com razoável credibilidade, qualquer vínculo com a ação executada.

Importância geopolítica no século XXI

O uso desse tipo de ativo se intensificou à medida que o sistema internacional se tornou mais fragmentado e competitivo. Conflitos recentes demonstram que a disputa entre potências ocorre de forma contínua, mesmo em tempos de aparente paz. Influenciar processos políticos, desorganizar cadeias críticas, testar defesas adversárias, apoiar aliados informais ou desestimular ações hostis são tarefas frequentemente conduzidas fora do campo militar tradicional.

Nesse contexto, o operador não atribuível cumpre funções que forças convencionais não podem exercer sem gerar crises diplomáticas imediatas. Ele permite ao Estado ampliar sua margem de manobra estratégica, agir em profundidade e manter pressão constante sobre adversários, tudo isso sem a necessidade de mobilizações ostensivas ou declarações formais de conflito.

Além disso, esses ativos são centrais na chamada guerra narrativa. Em um ambiente em que a percepção pública, a legitimidade e o controle da informação são decisivos, a capacidade de influenciar discursos, desorganizar narrativas adversárias e proteger a própria imagem internacional tornou-se um vetor essencial do poder nacional.

Emprego: princípios, não procedimentos

O emprego de operadores não atribuíveis obedece a princípios claros, ainda que envoltos em sigilo. O primeiro deles é o controle político rigoroso. Ao contrário de forças regulares, esses ativos operam sob cadeias decisórias extremamente restritas, com autorização em níveis elevados do Estado.

O segundo princípio é a integração interagências. Seu uso raramente é isolado. Ele ocorre em coordenação com instrumentos diplomáticos, econômicos, informacionais e de inteligência, compondo uma ação estratégica mais ampla.

O terceiro princípio é a limitação deliberada. Essas operações não visam vitórias espetaculares, mas efeitos específicos, mensuráveis e politicamente controláveis. O sucesso está menos no impacto imediato e mais na capacidade de moldar o ambiente estratégico ao longo do tempo.

Por fim, há o princípio do silêncio institucional. Mesmo quando suas ações produzem efeitos evidentes, o Estado preserva a ambiguidade. Não há medalhas públicas, registros históricos oficiais ou reconhecimento formal. O ativo cumpre sua missão e retorna à sombra.

Riscos e dilemas

O uso desse tipo de homem não é isento de riscos. A exposição involuntária pode gerar crises diplomáticas severas, sanções e perda de credibilidade internacional. Há também dilemas éticos e jurídicos relevantes, especialmente quando operações ocorrem em ambientes civis ou em Estados formalmente em paz.

Por isso, países que recorrem a esses ativos investem não apenas em treinamento técnico, mas em seleção rigorosa, disciplina psicológica e mecanismos internos de controle. O operador não atribuível não é um aventureiro, mas um instrumento de Estado, cuja atuação exige maturidade institucional.

Uma ferramenta invisível, mas decisiva

Na prática, o operador especial não atribuível representa uma adaptação do poder militar às realidades do século XXI. Ele não substitui forças convencionais, mas as complementa em um ambiente onde a guerra raramente é declarada e quase sempre disputada nas margens.

Ignorar a existência desse tipo de ativo é ignorar uma parte essencial da dinâmica geopolítica contemporânea. Compreendê-lo não é glorificar a guerra, mas reconhecer que, no mundo atual, o conflito é tão político e informacional quanto militar — e que, muitas vezes, os movimentos mais decisivos são feitos por aqueles que oficialmente não existem.

Zona cinzenta e tipologias de agentes não atribuíveis

A chamada zona cinzenta descreve o espaço entre a paz formal e a guerra declarada. Nesse ambiente, Estados competem de forma contínua, empregando instrumentos que produzem efeitos estratégicos sem ultrapassar, de maneira inequívoca, os limiares jurídicos e políticos que acionariam respostas abertas. Os operadores não atribuíveis são peças centrais dessa lógica, mas não atuam sozinhos nem de forma homogênea. Há classes distintas de agentes, definidas menos por nacionalidade e mais pela função estratégica que cumprem.

Uma primeira classe é a dos operadores estatais diretos não atribuíveis: indivíduos formados por estruturas militares ou de inteligência e empregados sob negação plausível. Eles operam em missões sensíveis, de curto ou médio prazo, com objetivos delimitados e forte controle político. Sua principal característica é a integração fina com a estratégia nacional do Estado patrocinador.

Uma segunda classe envolve intermediários estatais ou paraestatais. Aqui entram estruturas que mantêm vínculos funcionais com o Estado, mas operam com graus adicionais de separação institucional. Essa camada adiciona amortecimento político, reduzindo riscos de atribuição direta e ampliando a flexibilidade de emprego em ambientes particularmente sensíveis.

Uma terceira classe, cada vez mais relevante, é a de operadores de terceiros países. Nesses casos, Estados recorrem a indivíduos ou células de outra nacionalidade, selecionados por afinidade cultural, acesso geográfico, histórico operacional ou simples conveniência política. O valor estratégico dessa opção está na multiplicação das camadas de negação: mesmo em caso de exposição, a cadeia de responsabilidade torna-se difusa, complexa e difícil de comprovar.

A lógica do emprego indireto

O recurso a operadores não atribuíveis de outras nacionalidades não decorre apenas de oportunismo, mas de cálculo estratégico. Em cenários delicados, especialmente quando o custo diplomático de uma ligação direta seria elevado, a externalização do vetor humano permite ao Estado agir sem se tornar o foco imediato da retaliação política, econômica ou militar.

Essa prática é observada sobretudo em disputas assimétricas, rivalidades regionais prolongadas e conflitos de baixa intensidade, nos quais a escalada aberta não interessa a nenhuma das partes. O objetivo não é a demonstração de força, mas a gestão do ambiente estratégico: desorganizar lideranças, reduzir capacidades adversárias, gerar dissuasão silenciosa ou alterar correlações de poder de forma incremental.

É importante destacar que, do ponto de vista analítico, essas ações não devem ser entendidas como improviso ou terceirização irresponsável da força. Ao contrário, envolvem planejamento sofisticado, avaliação de riscos e um entendimento claro de que o principal ativo protegido não é o operador em si, mas a plausibilidade da negação estatal.

Importância estratégica e limites

Na arquitetura contemporânea de poder, a zona cinzenta tornou-se permanente. Estados que ignoram esse domínio tendem a operar em desvantagem, reagindo apenas quando os efeitos já se consolidaram. Por isso, a capacidade de empregar, coordenar ou neutralizar agentes não atribuíveis, próprios ou de terceiros, passou a ser um indicador relevante de maturidade estratégica.

Ao mesmo tempo, o uso desse instrumento impõe limites claros. Quanto mais difusa a atribuição, maior a dificuldade de controle político fino e maior o risco de efeitos colaterais indesejados. Estados eficazes nesse domínio são aqueles que combinam ambiguidade externa com disciplina interna, evitando que a lógica da zona cinzenta degrade em descontrole ou erosão de legitimidade.

Em síntese, a atuação de agentes e operadores na zona cinzenta não é uma anomalia do sistema internacional, mas uma de suas engrenagens centrais. Compreendê-la é essencial para entender como o poder realmente se exerce no século XXI, não apenas nos campos de batalha visíveis, mas nos espaços onde a guerra não é declarada e, justamente por isso, nunca deixa de acontecer.



por Angelo Nicolaci


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Xmobots, Petrobras e Marinha do Brasil avançam na integração de SARP para defesa naval e monitoramento ambiental

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A Marinha do Brasil dá mais um passo consistente rumo à consolidação do emprego de sistemas autônomos no ambiente marítimo ao avançar em cooperação com a brasileira Xmobots para testes operacionais de Sistemas Aéreos Remotamente Pilotados (SARP) voltados a missões navais e offshore. Mais do que um acordo pontual, o movimento revela uma engrenagem estratégica em formação, unindo defesa, indústria e setor energético em torno de um mesmo eixo: autonomia tecnológica e presença inteligente no mar.

Os testes serão realizados na Base Aérea Naval de São Pedro da Aldeia, no Rio de Janeiro, e também a bordo de embarcações da Marinha, onde serão avaliados requisitos técnicos e operacionais para o uso contínuo dos SARP em cenários reais. Trata-se de um estágio decisivo, pois operar no ambiente naval exige robustez estrutural, resistência à salinidade, ventos e instabilidade de convés, além de integração segura com sistemas de comando, controle e comunicações já consolidados na Força.

Entre as plataformas envolvidas estão o Nauru 1000C e o Nauru 500C, dois vetores que simbolizam a maturidade crescente da indústria nacional de aeronaves não tripuladas. O Nauru 1000C, com autonomia de até dez horas, já acumula experiência em missões de monitoramento de fronteiras com o Exército Brasileiro, demonstrando capacidade de vigilância prolongada e cobertura de amplas áreas. Já o Nauru 500C carrega um marco relevante: é o primeiro eVTOL brasileiro certificado pela ANAC para voos BVLOS, característica que o torna especialmente atrativo para operações embarcadas, onde a decolagem e o pouso vertical eliminam a dependência de pistas e ampliam a flexibilidade tática.

A adaptação dessas aeronaves ao contexto naval amplia o horizonte de missões que vão desde patrulha marítima e monitoramento ambiental até inspeção de plataformas e proteção de rotas estratégicas. Em um momento em que a Amazônia Azul assume papel cada vez mais central na equação econômica e geopolítica brasileira, a adoção de SARP de origem nacional representa simultaneamente ganho operacional e fortalecimento da Base Industrial de Defesa, reduzindo vulnerabilidades externas e agregando valor tecnológico interno.

A sinergia entre Xmobots, Marinha do Brasil e Petrobras sinaliza algo maior do que a simples introdução de novos equipamentos. O que se desenha é uma mudança estrutural na forma como o país encara tecnologias críticas, conectando defesa, energia e inovação em uma mesma arquitetura estratégica. Ao combinar recursos, conhecimento técnico e demanda operacional real, o Brasil avança na construção de capacidades próprias em sistemas autônomos de monitoramento, ampliando sua margem de independência e sua capacidade de resposta.

Não se trata apenas de aeronaves sobrevoando o mar. Trata-se de consciência situacional ampliada, de presença persistente e de inteligência aplicada ao espaço marítimo. Sistemas autônomos passam a atuar como multiplicadores de força, estendendo os olhos e os ouvidos da Esquadra muito além do horizonte visível. É tecnologia a serviço da soberania, inovação alinhada à estratégia e, sobretudo, um indicativo claro de que o domínio do futuro passa, inevitavelmente, pelo domínio dos sistemas que operam sem piloto, mas nunca sem propósito.


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quarta-feira, 28 de janeiro de 2026

MBT e MMBT no século XXI: escolhas estratégicas, poder blindado e a construção de uma força terrestre adequada à realidade brasileira

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O debate contemporâneo sobre carros de combate blindados precisa ser compreendido menos como uma disputa entre plataformas e mais como uma reflexão sobre escolhas estratégicas de Estado. A evolução do campo de batalha, a crescente letalidade dos meios anticarro, a centralidade da informação e as limitações orçamentárias impostas às forças armadas modernas deslocaram o foco da discussão: a questão central deixou de ser qual é o melhor tanque e passou a ser qual combinação de meios melhor atende aos objetivos estratégicos nacionais.

Nesse contexto, a distinção entre Main Battle Tanks (MBT) e Medium ou Modern Main Battle Tanks (MMBT) não é apenas técnica, mas conceitual. Ela reflete diferentes filosofias de emprego, diferentes exigências logísticas e diferentes expectativas quanto ao papel do poder blindado em operações futuras. Para o Exército Brasileiro, cuja missão fundamental é a defesa de um território continental, diverso e com infraestrutura desigual, essa reflexão assume contornos particularmente relevantes.

O MBT tradicional permanece como o instrumento máximo do poder blindado. Concebido para o combate decisivo entre forças equivalentes, ele concentra o maior poder de fogo direto disponível no campo terrestre, associado a níveis elevados de proteção passiva e ativa. Em termos doutrinários clássicos, o MBT é o elemento central das operações de ruptura, exploração e choque, capaz de impor decisões táticas e, em determinados contextos, influenciar diretamente o resultado operacional de uma campanha.

Entretanto, a experiência recente em conflitos de alta intensidade, notadamente na Ucrânia, revelou de forma inequívoca que esse poder vem acompanhado de custos e vulnerabilidades estruturais. MBTs modernos exigem cadeias logísticas extensas, consumo elevado de combustível, manutenção altamente especializada e infraestrutura compatível com seu peso e dimensões. Além disso, sua sobrevivência passou a depender cada vez mais da integração com infantaria, defesa antiaérea de curto alcance, guerra eletrônica e proteção contra drones, o que reforça a ideia de que o tanque pesado, isoladamente, deixou de ser um instrumento autossuficiente.

A guerra na Ucrânia demonstrou que MBTs continuam sendo extremamente eficazes quando empregados de forma combinada, mas também evidenciou que sua presença no campo de batalha é cada vez mais previsível e rastreável. Drones de vigilância persistente, loitering munitions e sistemas anticarro portáteis impõem um ambiente no qual a concentração excessiva de meios pesados se transforma rapidamente em vulnerabilidade. Isso não invalida o MBT, mas o reposiciona como um meio de emprego mais seletivo, associado a missões específicas e a contextos operacionais bem definidos.

É nesse espaço conceitual que surge o MMBT como uma resposta estratégica às transformações do campo de batalha. Diferentemente do tanque pesado clássico, o MMBT não busca supremacia absoluta em proteção ou poder de fogo, mas sim um equilíbrio deliberado entre capacidades. Trata-se de um meio projetado para operar em um ambiente onde mobilidade, flexibilidade e sustentabilidade são tão decisivas quanto a blindagem frontal.

Plataformas como o Kaplan MT, o Tulpar em configurações de combate direto e as variantes de apoio pesado da família CV90 ilustram bem essa lógica. Esses blindados combinam armamento capaz de engajar uma ampla gama de alvos, incluindo carros de combate pesados em determinadas circunstâncias, com peso reduzido, arquitetura digital avançada e maior facilidade de transporte e manutenção. Em termos operacionais, oferecem maior liberdade de manobra, menor dependência logística e melhor adaptação a cenários urbanos, florestais e de infraestrutura limitada.

A experiência ucraniana reforça esse ponto. Embora o conflito tenha envolvido extensivamente MBTs de diversas origens, foram justamente os veículos blindados mais móveis, integrados em rede e capazes de operar de forma distribuída que apresentaram melhores taxas de sobrevivência e maior flexibilidade tática. O sucesso operacional de plataformas como o CV90, amplamente elogiado por tropas ucranianas, não decorreu de invulnerabilidade, mas da combinação de mobilidade, proteção adequada, consciência situacional e integração com infantaria e fogos de apoio. Esses atributos estão muito mais alinhados ao conceito de MMBT do que ao paradigma clássico do tanque pesado isolado.

Ao transpor essa análise para o contexto brasileiro, torna-se evidente que a simples adoção de um modelo pesado, concebido para guerras de manobra em teatros altamente industrializados, não responde plenamente às necessidades nacionais. O Brasil precisa de meios capazes de cobrir grandes extensões territoriais, deslocar-se rapidamente entre regiões, operar em ambientes com infraestrutura limitada e manter-se sustentáveis ao longo do tempo. Além disso, a lógica estratégica brasileira privilegia a dissuasão defensiva e a prontidão regional, e não a projeção de força pesada em cenários externos.

Nesse sentido, o MMBT apresenta-se como uma solução particularmente adequada. Ele permite ampliar a presença blindada do Exército com menor custo unitário, reduz a pressão logística sobre as forças e oferece flexibilidade para uma ampla gama de missões, desde a defesa de fronteiras até operações de manobra em profundidade. Sua arquitetura modular e digital também facilita atualizações ao longo do ciclo de vida, aspecto crucial para uma força que precisa permanecer relevante sem depender de substituições completas e onerosas de frota.

Ainda assim, uma análise honesta de nível Estado-Maior não pode ignorar que o MBT mantém um papel fundamental. Em determinados cenários, especialmente aqueles que envolvem a necessidade de choque frontal, dissuasão explícita ou enfrentamento de forças blindadas equivalentes, o carro de combate pesado continua sendo insubstituível. Sua presença exerce um efeito psicológico e operacional que nenhum meio mais leve consegue replicar integralmente.

Dessa forma, a solução estrategicamente mais coerente para o Brasil não reside na escolha excludente entre MBT ou MMBT, mas na construção de uma força blindada mista, equilibrada e complementar. Um núcleo limitado de MBTs pode ser empregado como elemento de decisão e dissuasão, enquanto uma força mais numerosa de MMBTs amplia a capacidade de presença, mobilidade e sustentação operacional em todo o território nacional. Essa combinação permite ao Exército Brasileiro adaptar-se a diferentes cenários, reduzir vulnerabilidades logísticas e maximizar o retorno estratégico do investimento realizado.

Mais do que uma decisão técnica, essa é uma escolha de Estado. Ela envolve doutrina, indústria, orçamento e visão de longo prazo. Ao optar por um mix equilibrado de MBTs e MMBTs, o Brasil não apenas moderniza sua força blindada, mas alinha seus meios às realidades do século XXI, preservando capacidade dissuasória, ampliando flexibilidade operacional e garantindo sustentabilidade estratégica no tempo.


por Angelo Nicolaci


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