domingo, 9 de agosto de 2026

Brasil não gasta “quatro vezes mais que a média mundial” em Defesa: manchete distorce dado do SIPRI

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Mantendo nosso compromisso de trazer informação e notícias precisas, o GBN Defense busca esclarecer uma distorção que vem ganhando espaço nas redes sociais e sendo reproduzida de forma equivocada por algumas mídias a respeito do crescimento de 13% na despesa militar brasileira em 2025. Embora esse crescimento tenha sido superior à média mundial, isso não significa que o Brasil tenha passado a gastar quatro vezes mais que a média global, como algumas manchetes vêm sugerindo.

Com apenas 1,1% do PIB destinado à Defesa, o Brasil permanece abaixo da média mundial, enquanto bloqueios orçamentários continuam afetando programas estratégicos e dificultando o planejamento de longo prazo das Forças Armadas.

A manchete que circula no ambiente digital afirma que o Brasil teria elevado seu gasto militar “quatro vezes acima da média mundial”. A afirmação parte de um dado verdadeiro, divulgado pelo Stockholm International Peace Research Institute (SIPRI), mas apresenta esse dado de uma maneira que altera seu significado e pode levar o leitor a uma conclusão que os números do próprio instituto não sustentam.

De acordo com o SIPRI, a despesa militar brasileira cresceu 13% em termos reais em 2025, alcançando aproximadamente US$ 23,9 bilhões. No mesmo período, o gasto militar mundial cresceu 2,9%. A comparação entre os dois percentuais permite afirmar que o crescimento brasileiro foi aproximadamente quatro vezes superior ao crescimento médio mundial. O que não se pode afirmar, a partir desses números, é que o Brasil passou a gastar quatro vezes mais que a média mundial em Defesa.

A diferença entre as duas afirmações é relevante porque uma trata da taxa de crescimento, enquanto a outra trata do nível de gasto. São indicadores distintos e não podem ser utilizados como equivalentes.

A própria base de dados do SIPRI demonstra isso quando se observa a relação entre a despesa militar e o Produto Interno Bruto. Em 2025, o gasto militar brasileiro correspondeu a aproximadamente 1,1% do PIB, enquanto a média mundial chegou a 2,5%. Portanto, quando se considera o peso relativo da Defesa dentro da economia, o Brasil permanece significativamente abaixo da média internacional.

Esse indicador é particularmente importante porque permite comparar países com economias de tamanhos muito diferentes. Um aumento expressivo da despesa brasileira em determinado ano não significa, por si só, que o país esteja destinando uma parcela extraordinária de sua riqueza nacional à Defesa. Na realidade, trata-se de uma tentativa de repor as perdas astronômicas registradas nos anos anteriores, razão pela qual o crescimento de 13% precisa ser analisado em relação ao orçamento anterior.

O crescimento percentual não representa uma corrida armamentista

O Brasil aparece na 21ª posição entre os países com maiores despesas em Defesa, com aproximadamente US$ 23,9 bilhões em 2025. O valor está muito distante dos gastos das principais potências militares. Estados Unidos, China, Rússia, Alemanha e Índia, por exemplo, concentram uma parcela significativa das despesas militares mundiais, em uma escala que não pode ser comparada diretamente ao orçamento brasileiro.

O gasto militar global alcançou aproximadamente US$ 2,887 trilhões em 2025, segundo o SIPRI. Nesse contexto, o crescimento brasileiro representa uma elevação relevante dentro da série histórica nacional, mas não caracteriza uma mudança de posição do Brasil para um patamar de gasto militar comparável ao das grandes potências.

Por isso, a utilização do crescimento de 13% para construir a ideia de que o Brasil estaria gastando “quatro vezes acima da média mundial” constitui uma distorção do indicador original. O dado de crescimento é verdadeiro; a conclusão apresentada pela manchete não corresponde ao significado estatístico do dado.

É nesse ponto que a classificação da manchete como fake news, ou no mínimo informação enganosa, se torna pertinente. Não porque o percentual divulgado pelo SIPRI seja falso, mas porque a forma como ele é apresentado transforma uma comparação de crescimento em uma afirmação sobre o nível de gasto militar brasileiro.

A diferença não é meramente semântica. Ela altera a percepção do leitor sobre a situação orçamentária das Forças Armadas.

O que está dentro dos US$ 23,9 bilhões?

Outro aspecto que precisa ser considerado é a própria composição da despesa militar. O valor divulgado pelo SIPRI não corresponde exclusivamente aos recursos disponíveis para aquisição de novos equipamentos.

A metodologia do instituto considera diferentes componentes da atividade militar, incluindo pessoal, operação, manutenção, infraestrutura, aquisição de equipamentos, pesquisa e desenvolvimento e outras despesas relacionadas à atividade de Defesa.

Isso significa que os US$ 23,9 bilhões não podem ser interpretados como um montante integralmente disponível para reaparelhamento e modernização.

Essa distinção é essencial para compreender a situação brasileira. A manutenção de efetivos, o funcionamento das organizações militares, a operação dos meios existentes, a infraestrutura e os compromissos contratuais consomem parcela significativa dos recursos disponíveis. O restante precisa ser distribuído entre projetos de modernização, aquisição de equipamentos, pesquisa, desenvolvimento tecnológico e manutenção dos programas estratégicos.

Consequentemente, um aumento da despesa militar agregada não significa necessariamente que exista aumento proporcional dos recursos efetivamente disponíveis para investimento.

A falta de previsibilidade continua sendo um problema estrutural

Mesmo com o crescimento registrado pelo SIPRI, as Forças Armadas continuam enfrentando restrições orçamentárias e dificuldades relacionadas à previsibilidade dos recursos.

A questão não está apenas no volume total autorizado para a Defesa, mas na capacidade de transformar a previsão orçamentária em recursos efetivamente disponíveis ao longo do exercício e, principalmente, na possibilidade de manter esse fluxo financeiro durante vários anos.

Programas estratégicos de Defesa possuem características diferentes de projetos convencionais do setor público. O desenvolvimento de um submarino, de uma fragata, de uma aeronave de combate, de um sistema de mísseis ou de uma infraestrutura estratégica exige planejamento plurianual, contratos de longo prazo, formação de mão de obra especializada, manutenção de uma cadeia industrial e disponibilidade financeira compatível com os cronogramas estabelecidos.

Quando ocorre uma interrupção ou redução significativa dos recursos, o efeito nem sempre aparece imediatamente. Em muitos casos, o impacto inicial ocorre na execução contratual, na postergação de etapas, na redução de investimentos ou na necessidade de reprogramar cronogramas. Com o tempo, essas decisões podem afetar custos, disponibilidade de meios e capacidade operacional.

Por isso, a previsibilidade orçamentária possui importância semelhante ao próprio volume de recursos.

O bloqueio de R$ 1,43 bilhão da Marinha

O caso da Marinha do Brasil demonstra de maneira concreta a diferença entre despesa militar agregada e disponibilidade efetiva de recursos para programas estratégicos.

Em 2026, a Força sofreu um bloqueio de aproximadamente R$ 1,43 bilhão. Documentos encaminhados pela Marinha ao Ministério da Defesa apontaram impactos sobre diferentes áreas, incluindo o Programa Nuclear da Marinha, o PROSUB, o Programa de Obtenção de Navios-Patrulha, contratos relacionados a sistemas de armas, pesquisa científica na Antártica e atividades de manutenção.

A própria Marinha alertou que a manutenção prolongada das restrições poderia provocar aumento gradual da indisponibilidade de meios e reduzir sua capacidade de presença e resposta.

É importante registrar que isso não significa que a Marinha tenha interrompido suas operações. A questão apresentada pela Força está relacionada ao efeito acumulativo da restrição financeira. Uma redução temporária pode ser administrável; sua permanência, entretanto, aumenta a pressão sobre manutenção, contratos, disponibilidade de meios e continuidade de programas.

Esse episódio demonstra por que a simples divulgação de um crescimento percentual do gasto militar não é suficiente para avaliar a situação financeira de uma Força Armada.

Uma Marinha pode registrar crescimento de seu orçamento anual e, simultaneamente, enfrentar dificuldades para executar determinados programas se os recursos forem bloqueados, contingenciados ou liberados em ritmo incompatível com os compromissos assumidos.

O problema está também no horizonte de planejamento

O planejamento militar brasileiro trabalha com programas que se estendem por décadas. O PROSUB, por exemplo, não pode ser analisado apenas pelo orçamento de um exercício. O mesmo ocorre com o Programa Nuclear da Marinha, com o Programa de Fragatas Classe Tamandaré, com a modernização da Força Aérea Brasileira e com os projetos de transformação do Exército Brasileiro, esses programas dependem de continuidade.

Uma indústria que participa de um projeto estratégico precisa manter capacidade produtiva, profissionais especializados, fornecedores e investimentos. Da mesma maneira, as Forças precisam manter cronogramas de aquisição, treinamento, infraestrutura, manutenção e suporte logístico.

A falta de previsibilidade pode gerar um problema que não aparece imediatamente nas estatísticas de gasto militar: o aumento do custo necessário para entregar a mesma capacidade originalmente planejada.

Por esse motivo, o debate sobre orçamento de Defesa precisa considerar não apenas quanto está previsto, mas também quanto é efetivamente empenhado, liquidado e pago, quais recursos são bloqueados durante o exercício e qual é a previsibilidade para os anos seguintes.

O aumento de 13% precisa ser colocado no contexto correto

O dado divulgado pelo SIPRI é relevante e não deve ser ignorado. O Brasil efetivamente aumentou sua despesa militar em 13% em 2025, enquanto o crescimento mundial foi de 2,9%. O erro está em transformar essa diferença de crescimento em uma afirmação sobre o nível de gasto.

O próprio SIPRI mostra que o Brasil destinou aproximadamente 1,1% de seu PIB à Defesa, diante de uma média mundial de 2,5%. Portanto, a análise dos dados não permite concluir que o país esteja realizando um esforço militar quatro vezes superior ao restante do mundo.

Também não é possível utilizar o crescimento da despesa agregada como sinônimo de aumento equivalente da capacidade militar.

A capacidade de Defesa resulta da combinação entre orçamento, previsibilidade, disponibilidade financeira, pessoal, infraestrutura, treinamento, manutenção, tecnologia e continuidade dos programas de aquisição e desenvolvimento.

Quando parte desses recursos é bloqueada ou sofre alterações ao longo do exercício, o crescimento nominal do orçamento pode não se converter integralmente em novas capacidades.

A necessidade de uma discussão mais precisa

O Brasil precisa discutir seu orçamento de Defesa com maior precisão técnica. Isso significa reconhecer que as Forças Armadas possuem necessidades permanentes de custeio e manutenção, ao mesmo tempo em que precisam executar programas de modernização que demandam recursos plurianuais.

Também significa reconhecer que o Brasil ainda apresenta uma participação da despesa militar no PIB inferior à média mundial, apesar do crescimento registrado em 2025.

Nesse contexto, a manchete que apresenta o Brasil como um país que teria aumentado seu gasto militar “quatro vezes acima da média mundial” não descreve corretamente o fenômeno.

O Brasil cresceu quatro vezes mais que a média mundial em taxa de crescimento da despesa militar, segundo os percentuais divulgados pelo SIPRI. Isso não significa que o país gaste quatro vezes mais que a média mundial e tampouco demonstra que os recursos destinados à Defesa sejam suficientes para atender às necessidades das Forças.

A classificação da manchete como fake news, no sentido de uma informação enganosa produzida pela interpretação incorreta de um dado verdadeiro, é adequada quando se observa o efeito produzido pela formulação. O número de 13% é real; a conclusão de que o Brasil estaria gastando quatro vezes acima da média mundial não é.

Mais importante ainda, essa narrativa pode produzir uma percepção equivocada sobre a realidade orçamentária da Defesa brasileira ao apresentar crescimento nominal como se fosse sinônimo de abundância de recursos e de expansão proporcional da capacidade militar.

Os fatos observados no orçamento das Forças apontam para uma realidade mais complexa. O Brasil aumentou sua despesa militar, mas continua abaixo da média mundial quando o indicador é relacionado ao PIB e permanece sujeito a bloqueios e restrições que afetam a execução de programas estratégicos.

O bloqueio de R$ 1,43 bilhão enfrentado pela Marinha é um exemplo concreto de que a discussão não pode se limitar ao valor global anunciado para a Defesa.

Para uma Força Armada, o planejamento precisa considerar não apenas o tamanho do orçamento, mas a estabilidade dos recursos durante o exercício e a capacidade de projetá-los para os anos seguintes. Sem essa previsibilidade, programas estratégicos ficam sujeitos às oscilações do ciclo fiscal e a modernização militar perde eficiência.

O debate sobre a Defesa brasileira, portanto, precisa superar comparações simplificadas de percentuais. O crescimento de 13% é um dado relevante, mas sua interpretação exige considerar o peso da despesa no PIB, sua composição, a execução efetiva do orçamento, os bloqueios ocorridos durante o exercício e a continuidade dos programas estratégicos.

É somente a partir desse conjunto de indicadores que se pode avaliar de maneira responsável se o Brasil está efetivamente aumentando sua capacidade de Defesa ou apenas registrando crescimento nominal de despesas em um ambiente que ainda apresenta limitações importantes de financiamento e previsibilidade.



Por Angelo Nicolaci


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sábado, 8 de agosto de 2026

Brasil e Suécia ampliam parceria estratégica em Defesa e tecnologia

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Visita da chanceler sueca a Brasília reforça relação construída a partir do Gripen e que agora avança sobre indústria, inovação, segurança e tecnologias estratégicas

A relação entre Brasil e Suécia atravessa uma fase de maior densidade estratégica. A visita da ministra dos Negócios Estrangeiros da Suécia, Maria Malmer Stenergard a Brasília em 5 de agosto, e os atos adotados durante sua passagem pelo país reforçam uma aproximação que ao longo dos últimos anos, deixou de estar concentrada na aquisição do Gripen e passou a envolver uma agenda mais ampla de Defesa, tecnologia, indústria, inovação e segurança.

O movimento merece ser observado dentro de uma perspectiva de longo prazo. A escolha do Gripen pelo Brasil em 2013, não resultou apenas na renovação de parte da frota de caça da Força Aérea Brasileira. O programa F-X2 criou uma estrutura de cooperação industrial e tecnológica que envolveu a Saab, a Embraer, empresas da Base Industrial de Defesa, centros de pesquisa e a própria FAB, permitindo que profissionais brasileiros participassem de atividades que ultrapassam a simples operação da aeronave.

A evolução do programa transformou a relação entre os dois países. O Brasil passou de comprador a participante de uma cadeia internacional de produção e desenvolvimento, com montagem final de aeronaves em território nacional e absorção de conhecimento em diferentes áreas relacionadas ao projeto. A apresentação, em 2026, do primeiro F-39E Gripen produzido no Brasil representa uma das etapas mais importantes desse processo, porque demonstra que a parceria conseguiu criar uma capacidade industrial que não existia no país antes da implementação do programa.

Esse aspecto é particularmente relevante para a política brasileira de Defesa porque a autonomia tecnológica não pode ser medida apenas pela quantidade de equipamentos produzidos nacionalmente. Ela também depende da capacidade de compreender, integrar, modificar, manter e evoluir sistemas complexos ao longo de seu ciclo de vida. O programa Gripen proporcionou ao Brasil uma experiência nesse sentido, envolvendo engenharia, produção, integração de sistemas e formação de recursos humanos especializados. É sobre essa base que a nova etapa da relação Brasil-Suécia começa a ser construída.

Uma parceria que ganhou novas dimensões

Os instrumentos jurídicos e institucionais desenvolvidos ao longo dessa relação mostram que os dois países passaram a tratar a cooperação de Defesa de maneira mais abrangente. O acordo-quadro bilateral de Defesa estabeleceu uma estrutura permanente para o relacionamento, enquanto mecanismos específicos passaram a disciplinar o intercâmbio de informações classificadas e a transferência de produtos e tecnologias sensíveis.

O Protocolo sobre Controle de Exportação de Produtos de Defesa, firmado entre Brasil e Suécia e promulgado pelo governo brasileiro em 2026, é particularmente importante nesse contexto. O documento estabelece procedimentos para a transferência de produtos, tecnologias e softwares de Defesa entre os dois países e também estabelece parâmetros para eventuais transferências a terceiros, mantendo os controles previstos pelas legislações nacionais.

Embora instrumentos dessa natureza tenham uma aparência predominantemente jurídica, eles possuem impacto direto sobre a capacidade de desenvolver programas tecnológicos conjuntos. Uma relação industrial de longo prazo exige regras claras sobre propriedade intelectual, transferência de tecnologia, proteção de informações e eventual comercialização de produtos desenvolvidos em cooperação. Sem esse ambiente regulatório, projetos de maior complexidade tendem a enfrentar limitações que vão muito além da questão financeira.

No caso brasileiro, essa estrutura ganha importância justamente porque o país passou a deter conhecimento e participação industrial em um programa de alta complexidade tecnológica. Quanto maior for a participação brasileira em futuras evoluções do Gripen ou em novos projetos, maior será a necessidade de mecanismos que permitam administrar corretamente o fluxo de tecnologias entre os dois países.

A transformação do Brasil dentro do programa Gripen

O principal resultado estratégico do F-X2 para o Brasil não está apenas na incorporação de uma nova aeronave de combate, mas na experiência acumulada pela indústria nacional durante o processo.

A participação brasileira permitiu ampliar competências em engenharia aeronáutica, integração de sistemas e produção de estruturas e componentes, ao mesmo tempo em que aproximou empresas nacionais de uma cadeia internacional altamente especializada. A Embraer passou a exercer um papel importante dentro do programa e outras empresas brasileiras foram incorporadas à cadeia de fornecimento.

Isso cria uma possibilidade que precisa ser considerada nas próximas etapas da política de Defesa brasileira. O conhecimento adquirido não deveria ficar limitado à produção das aeronaves previstas no contrato atual, porque isso significaria tratar uma capacidade industrial de longo prazo como consequência temporária de um único programa.

A experiência internacional demonstra que grandes programas militares possuem maior valor estratégico quando conseguem gerar competências que permanecem depois do encerramento das encomendas iniciais. Para o Brasil, essa é uma questão particularmente importante porque a continuidade de sua Base Industrial de Defesa depende da capacidade de transformar projetos específicos em linhas permanentes de desenvolvimento tecnológico e produção.

A relação com a Suécia oferece condições para isso, principalmente porque a Saab atua em diferentes áreas de alta tecnologia e porque o Brasil já possui uma estrutura industrial integrada ao ecossistema do Gripen.

A Suécia também está em transformação

O aprofundamento da relação acontece simultaneamente a uma mudança significativa na posição estratégica sueca. A entrada da Suécia na OTAN alterou a estrutura de segurança do país e ampliou suas responsabilidades dentro da arquitetura de defesa coletiva europeia.

A guerra na Ucrânia também acelerou a necessidade de expansão das capacidades militares europeias, criando uma demanda maior por aeronaves, sistemas de vigilância, sensores, munições, comando e controle e outras tecnologias de Defesa. Para a indústria sueca, esse ambiente representa uma oportunidade de expansão, mas também exige aumento de capacidade produtiva e maior integração com os sistemas dos países aliados.

Nesse cenário, a relação com o Brasil pode assumir uma importância adicional para Estocolmo. O país possui uma indústria aeroespacial consolidada, experiência na produção do Gripen e capacidade de desenvolver e integrar sistemas complexos, além de uma posição estratégica no Atlântico Sul que não se confunde com as prioridades de segurança europeias.

Para Brasília, a situação também cria uma oportunidade. A ampliação das demandas da indústria sueca pode favorecer novas iniciativas de cooperação e aumentar o interesse por uma cadeia industrial brasileira que já possui conhecimento específico sobre os sistemas desenvolvidos pela Saab.

Essa relação, entretanto, dependerá da capacidade dos dois países de transformar a cooperação existente em novos projetos e não apenas em mecanismos de manutenção do programa atual.

O próximo passo está na tecnologia

A experiência acumulada no Gripen abre possibilidades que podem alcançar outros segmentos da Defesa. O conhecimento desenvolvido em integração de sistemas, sensores, guerra eletrônica, comunicações, software e comando e controle pode contribuir para projetos futuros brasileiros, desde que exista uma política consistente para preservar e ampliar essas competências. Essa é uma das principais questões que se apresentam para o Brasil.

O país possui empresas capazes de desenvolver soluções sofisticadas, mas historicamente enfrenta dificuldades para manter programas de longo prazo quando as encomendas diminuem ou os recursos públicos sofrem restrições. O risco é que uma capacidade construída durante anos seja gradualmente perdida por falta de continuidade.

No caso do Gripen, esse problema seria particularmente significativo porque o programa representou um dos maiores esforços recentes de transferência de conhecimento tecnológico para a indústria brasileira no setor aeronáutico militar.

Preservar essa estrutura significa manter profissionais especializados, fornecedores, infraestrutura de produção e capacidade de engenharia em atividade. Também significa encontrar novas aplicações para o conhecimento acumulado, inclusive em projetos que não estejam necessariamente vinculados ao caça.

Uma relação que interessa aos dois países

A aproximação entre Brasil e Suécia também deve ser analisada pela complementaridade existente entre as duas indústrias. A Suécia possui empresas com amplo domínio em tecnologias militares avançadas, enquanto o Brasil reúne uma indústria aeroespacial consolidada e uma experiência significativa em integração e produção adquirida ao longo do programa Gripen.

Essa combinação pode permitir que futuras iniciativas sejam desenvolvidas com maior participação brasileira desde as primeiras etapas, ampliando o valor econômico e tecnológico da cooperação.

Para o Brasil, isso significaria aproveitar uma relação já consolidada para avançar em áreas nas quais ainda existe dependência externa. Para a Suécia, significaria contar com um parceiro que já conhece seus processos industriais, possui infraestrutura adequada e pode contribuir para ampliar a capacidade de produção e desenvolvimento.

A existência de uma relação institucional construída ao longo de mais de uma década reduz parte das dificuldades normalmente encontradas em novos acordos de cooperação tecnológica, principalmente porque os dois países já possuem experiência prática em administrar projetos complexos e compartilhar informações sensíveis.

O desafio da continuidade brasileira

O maior desafio para Brasília, entretanto, permanece sendo a capacidade de garantir continuidade.

A transferência de tecnologia não produz autonomia automaticamente. O conhecimento precisa ser empregado, atualizado e ampliado. Da mesma forma, uma linha de produção não representa uma capacidade industrial permanente se não houver novos projetos capazes de manter profissionais e fornecedores ativos.

Essa questão está diretamente relacionada ao próprio modelo brasileiro de Defesa. Programas estratégicos normalmente possuem ciclos de desenvolvimento e aquisição que atravessam diferentes governos, enquanto o orçamento está sujeito a mudanças de prioridade e às condições fiscais de cada período.

A parceria com a Suécia pode ajudar o Brasil a superar parte desse problema, mas não pode substituí-lo. A decisão de transformar o conhecimento adquirido em uma política industrial permanente continuará sendo brasileira.

É nesse ponto que a nova etapa da relação ganha maior importância. O Brasil não precisa apenas preservar aquilo que recebeu ou aprendeu com o programa Gripen, mas utilizar essa experiência como ponto de partida para ampliar sua capacidade tecnológica.

Defesa, indústria e política externa

A visita da chanceler sueca também mostra como a cooperação em Defesa passou a se conectar com uma agenda diplomática mais ampla. Para o Brasil, a aproximação com a Suécia oferece acesso a uma indústria tecnológica avançada e fortalece uma parceria europeia que não está limitada às tradicionais relações de fornecimento militar.

Para a Suécia, a presença no Brasil amplia sua capacidade de relacionamento com uma das principais economias do Sul Global e com um país que possui uma indústria de Defesa relevante e interesses estratégicos próprios no Atlântico Sul.

A mudança é importante porque a relação bilateral passa a combinar interesses comerciais, industriais, tecnológicos e estratégicos. O Gripen continua sendo o elemento mais visível dessa aproximação, mas o relacionamento construído a partir dele já possui instrumentos e competências suficientes para avançar em outras áreas.

Os atos adotados durante a visita de Maria Malmer Stenergard a Brasília devem ser compreendidos dentro desse processo. Eles não representam uma ruptura com o modelo de cooperação construído desde o F-X2, mas uma tentativa de ampliar e institucionalizar uma relação que amadureceu ao longo dos últimos anos.

Para o Brasil, o resultado mais importante dessa parceria continuará sendo a capacidade de transformar cooperação internacional em conhecimento nacional. A produção do Gripen, a participação da indústria brasileira e a formação de profissionais especializados demonstraram que isso é possível, mas também deixaram evidente que esse patrimônio precisa ser continuamente utilizado para não perder valor.

A relação com a Suécia chega, portanto, a um momento em que o principal desafio não é mais estabelecer uma parceria, mas decidir até onde os dois países estão dispostos a levá-la. O Brasil já possui uma base industrial construída em torno do Gripen e uma experiência que pode servir de plataforma para novos projetos. A Suécia, por sua vez, atravessa uma fase de expansão de suas capacidades de Defesa e de maior integração tecnológica com seus aliados.

Se essa convergência for acompanhada por planejamento de longo prazo e continuidade dos investimentos brasileiros, a parceria poderá avançar para uma dimensão que ultrapasse definitivamente o programa F-X2, transformando a experiência acumulada na última década em uma relação mais ampla de desenvolvimento tecnológico, produção e cooperação estratégica em Defesa.


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Soberania no discurso, contingenciamento na prática: o que Lula promete para a Defesa em 2026

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A proposta de governo coloca autonomia estratégica, Base Industrial de Defesa e previsibilidade orçamentária no centro da agenda, mas a realidade fiscal brasileira continua impondo limites à capacidade de transformar projetos em poder dissuasório sustentável.

A proposta de governo apresentada por Lula para campanha presidencial de 2026 coloca a Defesa Nacional em uma posição que merece atenção. O documento não trata as Forças Armadas apenas como instrumento de proteção territorial, mas como parte de uma estratégia mais ampla de soberania, desenvolvimento tecnológico, política externa e reindustrialização. Ao afirmar que não existe projeção internacional soberana sem capacidade de Defesa, o programa estabelece uma relação direta entre a capacidade brasileira de atuar no cenário internacional e a existência de instrumentos materiais capazes de sustentar essa atuação.

A premissa é coerente com a realidade estratégica de um país como o Brasil. Com dimensões continentais, extensa faixa de fronteiras, uma área marítima de enorme importância econômica e estratégica, recursos naturais relevantes e pretensões de maior protagonismo internacional, o país precisa possuir capacidade própria para proteger seus interesses. A questão, portanto, não está na necessidade de fortalecer a Defesa, mas na distância que historicamente existe entre a ambição expressa nos documentos oficiais e a capacidade do Estado de garantir recursos suficientes para sustentar essa ambição durante décadas.

É justamente nesse ponto que a proposta de 2026 merece uma leitura crítica. O programa fala em autonomia estratégica, inovação tecnológica, fortalecimento da Base Industrial e Tecnológica de Defesa, defesa cibernética, inteligência, proteção das fronteiras, Amazônia e Amazônia Azul, além de uma política externa mais ativa e de uma capacidade de dissuasão compatível com as responsabilidades brasileiras. Entretanto, todas essas metas possuem uma característica em comum: dependem de continuidade orçamentária. Não basta estabelecer uma prioridade política em determinado momento se no exercício seguinte, a capacidade de financiamento estiver novamente submetida às mesmas incertezas que historicamente afetam os programas estratégicos das Forças Armadas.

Entre a soberania pretendida e o orçamento disponível

O próprio programa de governo reconhece essa dificuldade ao defender que a Defesa precisa contar com um orçamento compatível com suas necessidades e responsabilidades. O documento apresenta como uma conquista do atual governo a aprovação de uma legislação destinada a aumentar a previsibilidade e a continuidade dos investimentos em projetos estratégicos, vinculando essa estabilidade não apenas à modernização das Forças Armadas, mas também ao fortalecimento da Base Industrial de Defesa.

A mudança de abordagem é importante. Durante décadas, o Brasil conviveu com programas militares concebidos para horizontes de longo prazo, mas financiados dentro de uma lógica essencialmente anual. O resultado é conhecido: projetos que avançam em determinado período, sofrem reprogramações em momentos de restrição fiscal e posteriormente precisam ser retomados, muitas vezes com custos superiores aos inicialmente previstos. Esse ciclo não produz apenas atrasos. Ele compromete a capacidade de planejamento das Forças, reduz a previsibilidade para fornecedores e pode afetar justamente a autonomia tecnológica que os programas pretendem construir.

A Defesa possui uma característica que torna esse problema particularmente grave. O investimento inicial é apenas uma parte do custo de uma capacidade militar. Um caça moderno exige treinamento, manutenção, infraestrutura, armamentos, peças e suporte logístico durante todo seu ciclo de vida. Uma fragata não se transforma em poder naval simplesmente porque foi entregue à Marinha; ela precisa permanecer disponível para navegar, operar seus sensores e sistemas de armas e cumprir os ciclos de manutenção previstos. O mesmo vale para submarinos, blindados, radares, sistemas de comunicação e praticamente qualquer outro meio de emprego militar.

Por isso, a discussão sobre previsibilidade não deveria estar restrita aos grandes contratos. Ela precisa alcançar a operação e a manutenção das capacidades existentes, porque é nessa etapa que uma parcela significativa da capacidade militar efetivamente se materializa.

Os R$ 5 bilhões anuais e o limite da solução

A Lei Complementar 221/2025 representa uma tentativa de enfrentar parte desse problema. O mecanismo permite excluir determinadas despesas de projetos estratégicos de Defesa das regras fiscais, limitado ao menor valor entre a dotação do Novo PAC destinada à Defesa e R$ 5 bilhões por exercício, durante até seis exercícios a partir de 2026. No limite máximo, a medida pode representar até R$ 30 bilhões ao longo do período.

Trata-se de uma iniciativa relevante e que deve ser reconhecida como tal. Ao criar um tratamento fiscal diferenciado para determinados investimentos estratégicos, o governo admite implicitamente que projetos de Defesa não podem ser submetidos integralmente à mesma lógica de uma despesa convencional de curto prazo. Um programa de submarinos, uma nova classe de navios ou a produção de aeronaves militares exige compromissos financeiros que atravessam diferentes governos e diferentes ciclos econômicos.

Entretanto, é preciso evitar uma interpretação exagerada desse mecanismo. Os R$ 5 bilhões anuais não constituem um orçamento adicional livre para as Forças Armadas, nem significam que toda a estrutura de Defesa estará protegida contra bloqueios e contingenciamentos. O mecanismo está direcionado a determinadas despesas de capital e aos projetos enquadrados nos critérios estabelecidos pela legislação. A rotina operacional das Forças continua dependendo do orçamento geral e das decisões fiscais tomadas ao longo de cada exercício.

Essa distinção é fundamental porque existe uma diferença considerável entre garantir dinheiro para construir uma nova capacidade e garantir recursos para manter disponível aquilo que já foi construído. O teste veio no próprio ano de 2026

É nesse contexto que o bloqueio de R$ 1,43 bilhão enfrentado pela Marinha em 2026 ganha relevância para a análise da proposta eleitoral. A restrição atingiu áreas relacionadas à manutenção de meios e programas estratégicos, envolvendo iniciativas como o Programa Nuclear da Marinha, o PROSUB, a obtenção de navios-patrulha e contratos relacionados a mísseis e sistemas de armas.

A própria Marinha deixou claro que o bloqueio não representava uma paralisação imediata de suas operações, o que é importante para evitar interpretações alarmistas. O alerta, entretanto, está relacionado ao efeito progressivo que a manutenção das restrições pode provocar sobre a disponibilidade dos meios. Em uma Força Armada, os efeitos de uma redução orçamentária raramente aparecem de maneira instantânea. Eles normalmente se acumulam ao longo do tempo, quando uma manutenção é adiada, uma peça não é adquirida, uma docagem é reprogramada, um ciclo de treinamento é reduzido ou uma atividade de apoio deixa de receber os recursos necessários.

É justamente essa característica que torna o episódio relevante para a discussão eleitoral. O governo apresenta a previsibilidade orçamentária como um dos elementos necessários para garantir a continuidade dos programas estratégicos, mas, no mesmo exercício em que o novo mecanismo de proteção fiscal começa a vigorar, a Força Naval  se vê diante de uma restrição bilionária capaz de afetar progressivamente sua disponibilidade operacional caso seja mantida.

Isso não significa que exista uma contradição absoluta entre as duas coisas. O bloqueio decorre de uma conjuntura fiscal mais ampla e não representa necessariamente uma decisão específica de reduzir a capacidade militar da Marinha. Mas o episódio evidencia que a proteção criada para determinados investimentos não resolveu a vulnerabilidade estrutural do orçamento de Defesa como um todo.

O governo investiu, mas a modernização não encerra a discussão

Também seria equivocado construir essa análise a partir da afirmação de que o governo Lula não realizou investimentos na Defesa. A própria proposta eleitoral apresenta uma série de resultados obtidos desde 2023, incluindo a execução de R$ 20,4 bilhões em projetos estratégicos, a entrega de sete caças F-39E Gripen, a produção da primeira aeronave em território brasileiro, a aquisição de três KC-390, a entrega da primeira de quatro fragatas e a produção de viaturas blindadas.

São resultados concretos e representam avanços relevantes para as capacidades militares brasileiras e para a indústria nacional. O problema está em considerar que a entrega desses equipamentos encerra o processo de modernização. Na realidade, ela inicia uma nova etapa.

O F-39E Gripen precisa de horas de voo, manutenção, armamentos, treinamento de pilotos e técnicos e infraestrutura adequada. O KC-390 precisa ser sustentado ao longo de seu ciclo de vida. As fragatas da classe Tamandaré precisarão de recursos para manutenção, tripulações treinadas, munições, sensores e sistemas de armas. Os blindados produzidos precisam permanecer disponíveis para emprego. Em todos esses casos, a capacidade militar depende de uma cadeia de sustentação que continua exigindo recursos muito depois da fotografia oficial da entrega.

Essa é uma das maiores dificuldades do debate público brasileiro sobre Defesa: frequentemente se contabiliza o que foi adquirido, mas não se mede com a mesma atenção o quanto está efetivamente disponível para emprego e quanto custa manter essa disponibilidade.

A Base Industrial de Defesa também depende da continuidade

A proposta de 2026 procura transformar a Base Industrial de Defesa em um dos instrumentos da política de desenvolvimento econômico. O conceito é particularmente relevante porque uma indústria militar tecnologicamente sofisticada pode gerar efeitos sobre setores civis, formar profissionais altamente especializados, ampliar a capacidade de inovação e criar produtos com potencial de exportação. Mas existe uma condição para que esse modelo funcione: previsibilidade de demanda.

Empresas que desenvolvem tecnologias sensíveis não conseguem estruturar investimentos de longo prazo se não tiverem alguma segurança sobre a continuidade dos programas que sustentam suas linhas de produção. O desenvolvimento de um radar, de um sistema de guerra eletrônica, de um míssil ou de uma aeronave envolve investimentos em engenharia, infraestrutura, certificação, cadeia de fornecedores e pessoal altamente qualificado. Quando os programas são interrompidos ou reprogramados repetidamente, o impacto pode atingir muito mais do que o cronograma de entrega de determinado equipamento.

O Brasil já experimentou esse problema em diferentes momentos de sua história. A indústria de Defesa nacional demonstrou capacidade de desenvolver produtos sofisticados, mas também enfrentou períodos em que a falta de encomendas e a instabilidade financeira comprometeram competências construídas ao longo de anos. Recuperar posteriormente uma capacidade industrial perdida costuma ser muito mais caro do que preservá-la de maneira contínua.

Por isso, a promessa de utilizar a Defesa como vetor de neoindustrialização só será plenamente sustentável se o Estado conseguir transformar a previsibilidade em política permanente de demanda, e não apenas em exceção fiscal destinada a determinados projetos.

Amazônia, fronteiras e Amazônia Azul exigem presença permanente

O programa também estabelece a proteção das fronteiras, da Amazônia e da Amazônia Azul como prioridades estratégicas. A escolha é coerente com a dimensão territorial brasileira e com o valor econômico e geopolítico dessas regiões, mas também evidencia a dimensão do desafio orçamentário.

A proteção de áreas tão extensas não pode ser realizada por meio de iniciativas episódicas. Exige aeronaves disponíveis, navios capazes de permanecer no mar, sensores funcionando, sistemas de comunicação operacionais, unidades terrestres treinadas e uma estrutura permanente de comando e controle. O mesmo raciocínio se aplica à vigilância das fronteiras e ao combate aos ilícitos transnacionais.

Quando a proposta fala em ampliar essa capacidade, portanto, não está falando apenas de comprar novos equipamentos. Está assumindo um compromisso de sustentação operacional que precisará ser financiado durante todo o período de vida desses sistemas.

É justamente nesse ponto que a discussão sobre soberania precisa abandonar o terreno abstrato. A soberania brasileira sobre a Amazônia Azul, por exemplo, não é reforçada simplesmente porque o país possui uma nova fragata em seu inventário. Ela é reforçada quando essa fragata está disponível, tripulada, abastecida, armada e integrada aos demais sistemas de vigilância e comando.

O protagonismo internacional também precisa de sustentação material

A política externa ocupa espaço significativo na proposta de 2026. O programa pretende aprofundar a integração sul-americana, fortalecer o Mercosul, ampliar a aproximação com o BRICS e o Sul Global e manter uma presença mais ativa junto à África, Ásia, Oriente Médio e Europa. O Atlântico Sul também é apresentado como área de importância estratégica para o Brasil.

Essa agenda pode ser executada prioritariamente por meios diplomáticos, como tradicionalmente ocorre na política externa brasileira. Entretanto, o próprio programa estabelece que a projeção internacional precisa estar acompanhada de capacidade de Defesa e dissuasão.

A relação é importante porque diplomacia e capacidade militar não são alternativas excludentes. Um país pode defender a solução pacífica dos conflitos, atuar pelo multilateralismo e, ao mesmo tempo, manter Forças Armadas capazes de proteger seus interesses caso o ambiente estratégico se deteriore.

A dissuasão, porém, depende de credibilidade. E credibilidade não é construída apenas com documentos estratégicos ou declarações políticas. Ela depende da existência de capacidades que possam ser empregadas quando necessário.

Quanto maior a ambição internacional do Brasil, portanto, maior será a necessidade de compatibilizar essa ambição com os recursos destinados à Defesa.

Seria igualmente equivocado atribuir toda essa dificuldade ao atual governo. A instabilidade do orçamento de Defesa é um problema estrutural brasileiro e atravessa diferentes administrações, independentemente de suas orientações políticas.

O Brasil possui programas que exigem décadas para serem concluídos, mas continua submetendo parcela importante das decisões de financiamento à dinâmica fiscal de cada exercício. Governos mudam, prioridades econômicas mudam, crises aparecem e o orçamento é novamente reorganizado.

O resultado é uma tensão permanente entre a necessidade de construir capacidades futuras e a obrigação de manter as capacidades presentes.

É justamente por isso que a proposta de 2026 precisa ser analisada com uma régua mais exigente. O governo reconhece o problema e apresenta uma solução parcial por meio de mecanismos de previsibilidade para projetos estratégicos. A questão é saber se essa solução conseguirá sobreviver às mesmas pressões fiscais que historicamente atingem a Defesa. A experiência de 2026 mostra que essa pergunta ainda está aberta.

A diferença entre ter e poder empregar

Talvez o ponto central para compreender essa discussão esteja na diferença entre patrimônio militar e capacidade de defesa.

Um país pode possuir determinado número de aeronaves, navios, blindados ou sistemas de armas e ainda assim não conseguir empregar todos eles simultaneamente. A disponibilidade depende de manutenção, peças, combustível, munição, treinamento, infraestrutura e pessoal. Essa realidade é particularmente importante quando se fala em modernização.

A incorporação de novas plataformas é fundamental, mas não substitui a necessidade de manter as existentes. Uma Força Armada moderna precisa de um ciclo contínuo que começa no desenvolvimento tecnológico, passa pela aquisição e incorporação e continua durante décadas por meio de manutenção, modernização, treinamento e reposição de estoques. É justamente esse ciclo que torna a previsibilidade orçamentária tão importante.

Sem ela, o Estado pode até conseguir realizar grandes investimentos pontuais, mas terá dificuldade para transformar esses investimentos em capacidade militar sustentada.

O desafio colocado pela proposta de 2026

A proposta de governo de Lula para a eleição de 2026 apresenta, portanto, uma agenda de Defesa ambiciosa, em vários aspectos, coerente com os interesses estratégicos permanentes do Brasil. O fortalecimento da Base Industrial de Defesa, a autonomia tecnológica, a proteção das fronteiras, da Amazônia e da Amazônia Azul, o desenvolvimento da capacidade cibernética e a manutenção de uma estrutura de dissuasão são objetivos que ultrapassam governos e deveriam integrar qualquer estratégia nacional de longo prazo. O ponto crítico está na execução.

O governo pode apresentar resultados concretos desde 2023, como os novos Gripen, KC-390, fragatas e blindados, e ao mesmo tempo continuar enfrentando um problema estrutural de financiamento da Defesa. Uma realidade não elimina a outra. O Brasil avançou em determinados programas, mas ainda precisa resolver como manter essas capacidades disponíveis e como garantir que os projetos estratégicos tenham continuidade independentemente das oscilações fiscais.

É justamente por isso que o bloqueio de R$ 1,43 bilhão enfrentado pela Marinha em 2026 possui um significado que vai além do valor nominal. Ele funciona como um teste para a promessa de previsibilidade apresentada pelo próprio governo. Se uma política de Defesa pretende ser tratada como instrumento de soberania, precisa existir uma separação mais clara entre o que pode ser ajustado em uma crise fiscal e aquilo que representa capacidade estratégica indispensável ao Estado.

A Lei Complementar 221 representa um passo nessa direção ao proteger determinadas despesas de projetos estratégicos, mas seus limites também mostram que ainda não existe uma blindagem abrangente da política de Defesa. O desafio permanece sendo construir um modelo no qual investimento, operação, manutenção e desenvolvimento tecnológico sejam tratados como partes de uma mesma estratégia, e não como despesas que competem entre si a cada novo ciclo orçamentário.

No fim, é justamente aí que a proposta eleitoral de 2026 precisa ser colocada à prova. A soberania defendida pelo programa exige mais do que novos contratos e entregas. Exige que o Brasil consiga manter seus meios operacionais, preservar suas cadeias industriais, financiar suas tecnologias críticas e sustentar suas Forças Armadas durante os períodos em que o orçamento estiver sob maior pressão.

A questão, portanto, não é simplesmente se o governo Lula investiu ou não em Defesa. Os números e os programas em andamento mostram que houve investimentos. A questão mais profunda é se o modelo proposto consegue superar a velha dificuldade brasileira de transformar investimentos pontuais em capacidades militares sustentáveis ao longo de décadas.

Porque quando um governo afirma que não existe projeção internacional soberana sem capacidade de Defesa, ele estabelece para si mesmo uma obrigação que vai além do discurso eleitoral. A partir desse momento, a previsibilidade orçamentária deixa de ser apenas uma reivindicação das Forças Armadas e passa a ser parte da própria política de soberania que o programa promete defender.

E é justamente nesse ponto que 2026 coloca o governo diante de sua maior contradição: enquanto a proposta eleitoral apresenta a Defesa como instrumento permanente de soberania, a execução orçamentária continua demonstrando que diante das pressões fiscais, parte dessa mesma capacidade ainda pode ser colocada na mesa de negociação.

A pergunta que permanece para a campanha é, portanto, menos ideológica e muito mais objetiva: o próximo governo pretende apenas reconhecer que a soberania exige uma Defesa forte ou está disposto a construir um orçamento capaz de sustentá-la quando a realidade fiscal deixar de ser favorável?


Por Angelo Nicolaci


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Grifo-F/BR x EL/M-2032: quando o desempenho dos radares contam apenas parte da história

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A comparação entre os radares empregados pelo F-5M da FAB e pelo AF-1M da Marinha mostra que alcance de detecção não é sinônimo de capacidade de combate.

Quando dois radares entram em comparação, é natural que o primeiro dado que chame atenção seja o alcance. É objetivo, fácil de colocar lado a lado e cria rapidamente a impressão de que existe um vencedor. Mas, no combate aéreo, a história é bem mais complexa.

A comparação entre o Grifo-F/BR, empregado nos F-5M da Força Aérea Brasileira, e o EL/M-2032, instalado nos AF-1M "Skyhawk" da Marinha do Brasil, é um bom exemplo disso. Os dois sistemas foram escolhidos para modernizar aeronaves de gerações anteriores, mas responderam a requisitos diferentes e foram incorporados a arquiteturas de combate distintas.

EL/M-2032

A primeira diferença aparece justamente nos números divulgados para os dois sistemas. A Marinha do Brasil informa que o EL/M-2032 empregado no AF-1M possui modos ar-ar, ar-mar e ar-solo, além de capacidade de acompanhamento de alvos marítimos. Segundo a Força Naval, o radar pode alcançar até 128 quilômetros no modo ar-ar e até 256 quilômetros no rastreamento de alvos marítimos.

O Grifo-F/BR, por sua vez, equipa os F-5M modernizados pela FAB e integra um conjunto muito mais amplo de modificações realizadas na aeronave. O sistema oferece capacidade multimodo, incluindo operação look-down/shoot-down, e foi integrado à arquitetura de missão do caça e ao emprego de armamentos como o míssil ar-ar Derby. É nesse ponto que uma comparação baseada exclusivamente em alcance começa a apresentar suas limitações.

Um radar não possui um único alcance operacional. A distância na qual um contato pode ser detectado depende de fatores como a assinatura radar do alvo (RCS), seu aspecto em relação à aeronave, altitude, velocidade, condições do ambiente eletromagnético e o modo de operação utilizado pelo sensor.

Um alvo de grande assinatura, voando em determinada condição, poderá ser detectado a uma distância muito superior àquela obtida contra um alvo de menor assinatura RCS ou em outro aspecto. Por isso, números de alcance máximo não podem ser tratados como uma espécie de régua universal para definir qual radar é superior. E existe outro detalhe ainda mais importante: detectar não é o mesmo que combater.

A detecção é apenas o primeiro elo de uma cadeia que envolve acompanhamento, classificação, identificação, geração de solução de tiro, transferência de informações, decisão de engajamento e emprego do armamento.

Um radar pode enxergar mais longe, mas isso não significa automaticamente que a aeronave terá uma vantagem proporcional no combate. É justamente por isso que o contexto de cada programa de modernização precisa ser considerado.

No caso do AF-1M, o EL/M-2032 foi incorporado a uma plataforma cuja modernização buscou ampliar significativamente as capacidades do antigo A-4KU Skyhawk. A aeronave recebeu novos sistemas de missão, cockpit digital, guerra eletrônica, comunicações e outros equipamentos, além do novo radar.

A capacidade de trabalhar nos modos ar-ar, ar-mar e ar-solo é particularmente relevante para uma aeronave destinada a operar dentro da estrutura da Aviação Naval e no ambiente onde o domínio marítimo é parte central do cenário operacional. O F-5M seguiu outra lógica.

A FAB precisava manter operacionalmente relevante uma frota de aeronaves concebidas décadas antes, transformando-as em plataformas capazes de operar em um ambiente de combate muito diferente daquele para o qual haviam sido originalmente projetadas.

GRIFO-F

O programa de modernização incorporou o radar Grifo-F/BR e também novos aviônicos, computador de missão, sistemas de guerra eletrônica, comunicações, data-link e capacidade de empregar armamentos modernos.

O resultado não foi simplesmente um F-5 com um radar novo. Foi uma nova arquitetura de missão instalada sobre uma plataforma antiga. Essa diferença é fundamental para compreender por que não faz sentido afirmar que o F-5M é inferior ao AF-1M apenas porque os números divulgados para o alcance do radar são diferentes.

O radar do caça precisa ser analisado dentro do sistema de combate ao qual pertence. E, no caso da FAB, isso nos leva diretamente ao E-99M.

A defesa aérea brasileira foi estruturada para operar com diferentes sensores e plataformas trabalhando de forma integrada. As aeronaves de alerta antecipado e controle aéreo ampliam a consciência situacional e permitem que os caças recebam informações sobre o ambiente operacional que vão muito além daquilo que conseguiriam obter apenas com o sensor instalado na própria aeronave. Isso muda completamente a interpretação sobre o F-5M.

A ideia de que o caça estaria praticamente “cego” sem o E-99 parte de uma visão na qual cada aeronave precisaria construir sozinha toda a imagem do campo de batalha. Não é essa a lógica da guerra aérea moderna.

Em uma arquitetura conectada, o caça continua utilizando seu próprio radar. Ele precisa detectar, acompanhar e atuar sobre os contatos que estejam dentro de sua capacidade. Mas pode receber informações de outras plataformas e sistemas, reduzindo o tempo necessário para procurar determinado setor e aumentando sua consciência sobre o cenário.

O E-99, portanto, não existe para compensar uma suposta incapacidade absoluta do radar do F-5M. Ele existe porque uma aeronave de alerta antecipado exerce uma função diferente e complementar, produzindo uma visão muito mais ampla do espaço aéreo e contribuindo para coordenar as aeronaves de combate.

O mesmo raciocínio vale para o armamento. A presença do Derby no F-5M representa uma mudança importante em sua capacidade de combate além do alcance visual. Mas o míssil não deve ser analisado isoladamente.

Para que uma arma BVR seja empregada de maneira eficiente, é necessário combinar informações de sensores, processamento, consciência situacional, comunicação e uma solução de engajamento adequada. A capacidade de combate nasce dessa combinação. É por isso que o debate sobre Grifo-F/BR e EL/M-2032 é mais interessante do que parece.

A Marinha escolheu um radar com características adequadas às necessidades do AF-1M e ao ambiente em que a aeronave deveria operar. A FAB adotou outra solução para o F-5M, dentro de um programa que buscava transformar uma plataforma antiga em um caça capaz de permanecer relevante na defesa aérea brasileira.

Não são necessariamente escolhas comparáveis em uma escala simples de “melhor” ou “pior", são respostas diferentes para problemas diferentes. Isso não significa ignorar as diferenças entre os sistemas.

O EL/M-2032 apresenta características de alcance e modos de operação que o tornam uma solução relevante para o AF-1M, especialmente na atuação sobre o ambiente marítimo. O Grifo-F/BR, por outro lado, foi incorporado a uma arquitetura de combate na qual o radar é apenas uma das ferramentas disponíveis ao F-5M.

É justamente essa diferença entre sensor e sistema de combate que costuma desaparecer quando a discussão fica restrita às fichas técnicas. O radar é importante, muito importante, mas ele não luta sozinho.

A aeronave precisa transformar a informação obtida pelo sensor em consciência situacional. Essa informação precisa ser processada, compartilhada quando necessário e utilizada para orientar uma decisão. Depois, o armamento precisa ser capaz de transformar essa decisão em efeito.

Nesse ponto, o F-39E Gripen introduz uma mudança de patamar na FAB. A incorporação de um caça equipado com radar AESA, sistemas avançados de guerra eletrônica, sensores modernos, processamento mais poderoso e elevada capacidade de integração em rede representa uma mudança geracional em relação ao F-5M.

Mas isso não apaga a lógica pela qual o F-5M foi modernizado. O programa não pretendia transformar o F-5 em um caça de quinta geração. Pretendia extrair o máximo de uma plataforma existente e mantê-la capaz de cumprir suas funções dentro da estrutura de defesa aérea brasileira. É justamente por isso que comparar apenas o alcance dos radares pode produzir uma conclusão errada.

O EL/M-2032 pode apresentar números superiores em determinadas condições e modos de operação. Isso é uma informação relevante. Mas a pergunta operacional não termina aí, o que importa é o que aquela informação permite fazer.

Um radar que detecta um contato precisa estar conectado a um sistema capaz de transformar aquela detecção em consciência situacional e, posteriormente, em capacidade de engajamento.

É nesse ponto que a comparação entre Grifo-F/BR e EL/M-2032 deixa de ser apenas uma disputa entre dois equipamentos e passa a revelar duas formas diferentes de construir capacidade de combate.

No fim, os números contam apenas uma parte da história. O verdadeiro valor de um radar aparece quando ele deixa de ser apenas um sensor e passa a funcionar como parte de um sistema de combate. É nessa integração entre radar, guerra eletrônica, comunicações, data-link, armamento, plataforma e operador que se mede a capacidade real de uma aeronave.

E é justamente por isso que, quando colocamos Grifo-F/BR e EL/M-2032 lado a lado, a pergunta mais interessante não é simplesmente qual deles enxerga mais longe. É entender o que cada um permite que o vetor faça com aquilo que conseguiu enxergar.


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Exército demonstra integração de drones ao Proteus-SGP na viatura Guaiucurus

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Solução apresentada no CTEx conecta sensores aéreos ao sistema de gerenciamento da plataforma e leva vídeo e telemetria diretamente ao BMS, ampliando a capacidade de reconhecimento e a consciência situacional

No campo de batalha moderno, enxergar primeiro continua sendo uma vantagem, mas já não basta. A informação precisa chegar rapidamente a quem está em condições de transformá-la em decisão. Foi justamente essa lógica que esteve no centro de uma demonstração realizada pelo Exército Brasileiro no Centro Tecnológico do Exército (CTEx), onde a viatura Guaiucurus recebeu em tempo real dados provenientes de um sistema aéreo remotamente pilotado (SARP).

A demonstração realizada em 31 de julho durante a Exposição de Materiais alusiva ao Dia do Quadro de Engenheiros Militares, mostrou a integração de telemetria e vídeo de um drone ao Battle Management System (BMS) da plataforma por meio do Proteus-SGP.

Na prática, o que antes poderia funcionar como dois sistemas independentes passa a fazer parte de uma mesma arquitetura operacional. O SARP atua como sensor aéreo, enquanto a Guaiucurus recebe e apresenta essas informações à tripulação dentro de seu próprio ambiente de gerenciamento.

A diferença parece simples, mas possui consequências importantes. Com o drone operando à frente ou sobre determinada área, a viatura pode ampliar sua percepção do terreno sem necessariamente precisar se expor para obter aquela informação. O comandante passa a receber na própria interface da plataforma imagens e dados produzidos por um sensor que está fora da viatura, inclusive informações provenientes da câmera térmica.

É nesse ponto que a demonstração deixa de ser apenas uma integração tecnológica e passa a representar uma mudança na doutrina de emprego da plataforma.

Do sensor aéreo ao comandante

Durante uma missão de reconhecimento, a capacidade de observar além da linha de visada da viatura pode fazer diferença entre avançar às cegas ou tomar uma decisão baseada em informações atualizadas.

O drone pode ser empregado como um sensor avançado, observando uma área de interesse e transmitindo suas informações para a Guaiucurus. A tripulação, por sua vez, recebe esse dado dentro do sistema de gerenciamento da plataforma.

A integração da câmera térmica amplia ainda mais essa possibilidade. O sensor aéreo pode produzir imagens em condições nas quais a observação convencional apresenta limitações, permitindo que a tripulação tenha uma percepção diferente do terreno durante operações noturnas ou em ambientes de baixa visibilidade.

Mais do que receber uma imagem, a Guaiucurus passa a receber informação de um sensor que não está fisicamente dentro dela.

Essa diferença é importante porque aproxima a plataforma terrestre de uma lógica de combate em rede, na qual a capacidade de uma unidade não está limitada aos sensores instalados diretamente sobre seu veículo.

Proteus-SGP evolui como arquitetura de integração

O Proteus-SGP não surgiu agora. O sistema vem sendo desenvolvido pelo Exército Brasileiro há anos com uma proposta que vai além de simplesmente reunir informações em uma tela.

A ideia é criar uma arquitetura capaz de integrar os diferentes sistemas eletrônicos da plataforma, permitindo que sensores, comunicações e sistemas de missão trabalhem dentro de um mesmo ambiente.

O projeto já passou por avaliações em plataformas como o VBTP-MR Guarani e o VBMT-LR Guaicurus, dentro de um processo que busca ampliar a integração dos sistemas embarcados e fornecer ao comandante uma visão mais completa da plataforma e do ambiente operacional.

O desenvolvimento também está relacionado aos conceitos de Generic Vehicle Architecture (GVA) e NATO Generic Vehicle Architecture (NGVA), utilizados como referência para a integração de sistemas eletrônicos em veículos militares.

A evolução apresentada no Guaiucurus acrescenta uma camada importante a esse conceito. O sistema passa a incorporar dados produzidos fora da própria viatura, conectando o domínio aéreo ao terrestre.

Isso abre uma possibilidade particularmente importante para plataformas que precisam permanecer em serviço durante décadas. Enquanto a estrutura física de um veículo possui um ciclo de vida longo, sensores, computadores, rádios e sistemas de missão evoluem em ritmo muito mais rápido.

Uma arquitetura de integração permite acompanhar parte dessa evolução sem transformar cada nova tecnologia em um projeto completamente independente.

A viatura como parte de uma rede

A demonstração também ajuda a compreender como está mudando o papel das plataformas terrestres. Uma viatura de reconhecimento deixa de ser apenas um veículo equipado com seus próprios sensores e passa a funcionar como um nó dentro de uma rede maior. Ela pode receber informações produzidas por drones, compartilhar seus próprios dados e, dependendo da arquitetura empregada, alimentar outros elementos da força. Nesse modelo, não é necessário que todos os sensores estejam fisicamente concentrados na mesma plataforma.

O SARP pode observar uma área distante. O Guaiucurus pode utilizar essa informação para orientar sua movimentação. Outros elementos podem receber posteriormente os dados produzidos pelo conjunto. O ganho está na integração.

É justamente aí que o Proteus-SGP ganha relevância. Ao funcionar como uma camada de gerenciamento e integração, o sistema permite aproximar diferentes equipamentos dentro de uma mesma arquitetura operacional.

Essa abordagem também cria espaço para futuras incorporações de sensores, sistemas de comunicação e equipamentos de missão, acompanhando a evolução tecnológica sem necessariamente exigir uma nova plataforma a cada ciclo de modernização.

Reconhecimento com maior profundidade

A aplicação mais evidente da capacidade apresentada está nas missões de reconhecimento. Uma plataforma terrestre precisa obter o máximo possível de informações antes de comprometer sua posição. O emprego de um SARP permite ampliar a profundidade da observação enquanto a viatura permanece em uma posição mais protegida.

Isso pode ser especialmente relevante em terrenos onde obstáculos naturais ou urbanos limitam a observação direta.

O drone pode ultrapassar uma elevação, observar uma área além de uma construção ou acompanhar um setor enquanto a viatura permanece em uma posição de espera. As informações retornam à plataforma e passam a integrar o quadro apresentado ao comandante.

A câmera térmica acrescenta outra camada a esse processo, permitindo explorar diferenças de assinatura térmica que não seriam necessariamente percebidas pelos sensores convencionais.

O resultado é uma consciência situacional construída a partir de diferentes fontes. A viatura não precisa necessariamente enxergar tudo por seus próprios meios. Ela precisa estar conectada aos sensores capazes de enxergar aquilo que seus próprios sistemas não conseguem.

Mais do que modernizar uma viatura

O avanço apresentado no CTEx mostra uma mudança importante na forma de pensar a modernização dos meios terrestres.

Durante muito tempo, a evolução de uma viatura esteve associada principalmente à proteção, mobilidade e poder de fogo. Esses elementos continuam fundamentais, mas a dimensão digital passou a ocupar espaço cada vez maior.

Uma plataforma equipada com sensores modernos, mas incapaz de compartilhar suas informações, possui uma limitação que não está necessariamente relacionada ao desempenho de seus equipamentos.

Da mesma forma, um drone capaz de produzir imagens de alta qualidade perde parte de seu potencial se a informação não chegar rapidamente ao elemento que precisa utilizá-la. A integração entre SARP, Proteus-SGP e BMS busca justamente reduzir essa distância.

O dado é produzido no ar, transmitido para a plataforma terrestre, integrado ao sistema e apresentado ao comandante. A cadeia entre sensor e decisão se torna mais curta.

Essa é uma das características que definem a transformação digital dos campos de batalha contemporâneos.

Um passo na direção do combate conectado

A demonstração realizada pelo Exército Brasileiro não representa apenas a conexão entre um drone e uma viatura. Ela mostra uma arquitetura na qual diferentes plataformas podem começar a compartilhar informações em tempo real, ampliando a capacidade de uma força sem necessariamente aumentar proporcionalmente o número de sistemas empregados.

Para a Guaiucurus, isso significa transformar o SARP em uma extensão de sua capacidade de reconhecimento. Para o Proteus-SGP, representa uma evolução de seu papel como elemento de integração dos sistemas embarcados.

E, para a força terrestre, aponta para um modelo no qual plataformas, sensores e sistemas de comando e controle passam a trabalhar de maneira cada vez mais conectada.

O que foi apresentado no CTEx pode parecer discreto diante de um novo veículo ou de um novo sistema de armas, mas possui um peso crescente no campo de batalha moderno. Quando diferentes plataformas conseguem compartilhar informações em tempo real, a vantagem deixa de estar apenas em quem possui o melhor sensor ou a viatura mais protegida. Passa também a estar nas mãos de quem consegue transformar informação em decisão antes do adversário.


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