segunda-feira, 5 de outubro de 2026

Exército Brasileiro amplia capacitação em Artilharia de Mísseis e Foguetes

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O Exército Brasileiro ampliou a capacitação de militares especializados em Artilharia de Mísseis e Foguetes com a conclusão do Curso Avançado de Artilharia de Mísseis e Foguetes, realizado pelo Centro de Instrução de Artilharia de Mísseis e Foguetes (CI Art Msl Fgt), em Formosa (GO).

A atividade foi realizada entre 10 de agosto e 2 de outubro e teve como público-alvo sargentos da Artilharia. A formação buscou aprofundar conhecimentos relacionados ao emprego de sistemas de mísseis e foguetes, abrangendo conteúdos técnicos e procedimentos necessários às atividades de planejamento e execução do tiro.

A etapa final do curso ocorreu durante a Escola de Fogo de Instrução (EsFI), que possibilitou aos militares aplicar, em atividade prática, os conhecimentos adquiridos ao longo da formação. O exercício envolveu procedimentos relacionados ao planejamento e à execução de missões de tiro com os meios de Artilharia de Mísseis e Foguetes.

Segundo o Exército, a capacitação também contempla conhecimentos relacionados à logística e ao planejamento do emprego desses sistemas, ampliando a preparação dos militares que atuarão nas diferentes funções relacionadas à capacidade de mísseis e foguetes.

O CI Art Msl Fgt está instalado no complexo do Forte Santa Bárbara, em Formosa, estrutura que concentra organizações e capacidades relacionadas à Artilharia de Mísseis e Foguetes do Exército Brasileiro.

A formação ocorre no contexto do Programa Estratégico do Exército ASTROS-FOGOS. Conforme informado pela Força Terrestre, após a reestruturação dos Programas Estratégicos do Exército, o programa passou a incorporar iniciativas anteriormente vinculadas ao Programa Estratégico Defesa Antiaérea.

Com a mudança, o ASTROS-FOGOS passou a contemplar, além das capacidades relacionadas à Artilharia de Mísseis e Foguetes, iniciativas voltadas à recuperação e ao desenvolvimento de capacidades de defesa antiaérea.

A estrutura existente em Formosa reúne atividades de instrução, preparação e emprego relacionadas aos sistemas de mísseis e foguetes, constituindo um dos principais polos do Exército Brasileiro para essa área.

A conclusão do curso representa mais uma etapa na formação e especialização dos recursos humanos destinados ao emprego dessas capacidades, mantendo a qualificação do pessoal como parte do processo de desenvolvimento do Programa Estratégico ASTROS-FOGOS.


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Saab UK e Kraken desenvolvem embarcação autônoma equipada com radar Giraffe 1X para detectar drones

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A Saab UK e a Kraken Technology Group anunciaram nesta segunda-feira (5) o desenvolvimento de uma embarcação de superfície autônoma experimental equipada com o radar Giraffe 1X, destinada à detecção de sistemas aéreos não tripulados (UAS) no ambiente marítimo. O protótipo combina o radar tridimensional da Saab com a plataforma não tripulada K3 Scout, desenvolvida pela Kraken.

Segundo as empresas, a solução foi concebida para aplicações relacionadas à proteção de transporte marítimo, portos, instalações de energia offshore e outras infraestruturas críticas diante da crescente utilização de drones.

O K3 Scout é descrito pela Kraken como uma embarcação de superfície não tripulada de baixa assinatura e alto desempenho, capaz de operar de forma totalmente autônoma. A plataforma foi desenvolvida para receber diferentes cargas úteis e pode atuar de maneira independente ou integrada a embarcações de superfície convencionais.

A integração do Giraffe 1X acrescenta ao K3 Scout uma capacidade de detecção e acompanhamento de alvos aéreos. O radar 3D da Saab foi projetado para detectar e rastrear ameaças em tempo real, incluindo alvos de pequenas dimensões. De acordo com as empresas, a combinação deverá permitir fornecer alerta antecipado sobre possíveis incursões de drones.

O conceito está relacionado ao modelo de “marinha híbrida” adotado pelo Reino Unido, no qual embarcações autônomas são empregadas em conjunto com meios convencionais. A proposta está contemplada no Plano de Investimento em Defesa do governo britânico.

Saab UK e Kraken informaram que desenvolveram o protótipo funcional em menos de sete meses. O processo incluiu testes no mar para avaliar o desempenho do radar integrado à plataforma em condições marítimas.

“Esta é uma capacidade pioneira, fabricada no Reino Unido e pronta para implantação, que desenvolvemos em conjunto com a Kraken em menos de sete meses. Isso reflete a força da nossa parceria, a maturidade e a flexibilidade de nossas respectivas tecnologias, bem como nossa capacidade de responder rapidamente à evolução do cenário de ameaças e às necessidades de nossos clientes”, afirmou Andy Fraser, diretor-geral da Saab UK.

“A embarcação protótipo de busca e detecção de drones da Kraken e da Saab UK é exatamente o que o K3 Scout foi projetado para fazer: integrar-se a cargas úteis relevantes para a missão e operar em ambientes marítimos adversos”, afirmou Mal Crease, CEO e fundador da Kraken Technology Group.

O sistema permanece em fase experimental. As empresas apontam como potenciais aplicações a proteção de áreas portuárias, transporte marítimo, ativos de energia offshore e infraestrutura nacional contra ameaças representadas por drones.


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IACIT apresenta radar RMT 0200 e plataforma MIND na Meteorological Technology World Expo 2026

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A IACIT apresenta, entre 6 e 8 de outubro, no RAI Amsterdam, na Holanda, duas soluções desenvolvidas no Brasil para monitoramento meteorológico e apoio à tomada de decisão: o radar meteorológico RMT 0200 e a plataforma MIND (Meteorologia Integrada de Nowcasting para Decisores). Os sistemas são apresentados na Meteorological Technology World Expo 2026, um dos principais eventos internacionais dedicados a tecnologias de meteorologia, hidrometeorologia, meteoceanografia e monitoramento ambiental, que reúne mais de 150 fornecedores e profissionais de dezenas de países.

Desenvolvido e fabricado no Brasil, o RMT 0200 opera em banda S, possui dupla polarização e transmissão 100% em estado sólido, com alcance de até 400 quilômetros. A arquitetura foi concebida para ampliar a capacidade de detecção e acompanhamento de fenômenos meteorológicos, inclusive em condições severas, fornecendo dados para redes que dependem de observação atmosférica contínua.

O sistema já possui aplicação operacional na Força Aérea Brasileira. Cinco unidades do RMT 0200 integram atualmente a rede meteorológica da FAB e formam um cinturão de monitoramento na Região de Informação de Voo da Amazônia, a FIR-AZ. Outros sete equipamentos estão previstos, ampliando a cobertura meteorológica da Força Aérea em diferentes regiões do país.

A presença do radar na rede da FAB tem relevância direta para a atividade aeronáutica, na qual a identificação de condições meteorológicas adversas é componente do planejamento e da segurança das operações. A expansão da rede permitirá aumentar a área coberta pelos sensores e melhorar a disponibilidade de informações sobre a evolução dos fenômenos atmosféricos.

Uma unidade do RMT 0200 também está em operação no Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais (CEMADEN). O equipamento fornece dados que contribuem para o acompanhamento de eventos meteorológicos severos e para a análise das condições que podem afetar áreas vulneráveis a desastres geohidrológicos.

Enquanto o radar amplia a capacidade de observação, o MIND atua sobre a etapa seguinte: a organização e análise das informações. A plataforma reúne dados de radares, estações meteorológicas, satélites e modelos numéricos, utilizando processamento avançado e Inteligência Artificial para acompanhar a evolução das condições atmosféricas, identificar situações de risco e gerar alertas.

A proposta é oferecer ao operador uma visão integrada da situação meteorológica em tempo real, reduzindo a necessidade de analisar separadamente diferentes fontes de informação. O sistema pode ser empregado em centros de controle de tráfego aéreo, estruturas de defesa civil e outras operações nas quais decisões precisam ser tomadas a partir da evolução rápida das condições meteorológicas.

O conceito de nowcasting ganha importância justamente nesses cenários. Previsões de maior prazo continuam essenciais para planejamento, mas determinadas decisões dependem da capacidade de acompanhar fenômenos em desenvolvimento e estimar sua evolução em intervalos curtos. A combinação de observação, modelos e processamento automatizado busca reduzir o intervalo entre a detecção de uma condição adversa e a adoção de medidas operacionais.

“Participar da Meteorological Technology com o RMT 0200 e o MIND é uma oportunidade de mostrar que o Brasil tem capacidade para desenvolver e produzir tecnologias de alto nível para aplicações meteorológicas críticas. São soluções que nasceram de demandas concretas, foram desenvolvidas por nossa engenharia e hoje estão inseridas em operações que exigem precisão, disponibilidade e confiabilidade”, afirma Luiz Teixeira, CEO da IACIT.

A participação da empresa também ocorre em conjunto com a TECO-2026, conferência técnica da Organização Meteorológica Mundial dedicada a instrumentos e métodos de observação. O ambiente reúne fabricantes, instituições, serviços meteorológicos e potenciais parceiros internacionais, ampliando as oportunidades de cooperação e negócios para tecnologias brasileiras.

Com quatro décadas de atuação, a IACIT desenvolve e fabrica sistemas para aplicações críticas nos setores de meteorologia, defesa, controle do espaço aéreo e segurança pública. A presença do RMT 0200 em redes da FAB e do CEMADEN demonstra que a tecnologia já possui emprego no Brasil, enquanto a apresentação do MIND amplia a oferta da empresa para uma etapa cada vez mais relevante: transformar dados meteorológicos distribuídos em informação operacional para decisões em tempo real.

A combinação entre o RMT 0200 e o MIND representa uma evolução coerente da cadeia de monitoramento: sensores para ampliar a cobertura e processamento para transformar os dados coletados em informação utilizável. Para o Brasil, o ponto mais relevante está no domínio nacional dessas duas camadas, especialmente em aplicações associadas à aviação e ao monitoramento de eventos severos.

A expansão prevista da rede RMT 0200 na FAB também merece atenção porque cria uma infraestrutura nacional de observação meteorológica de maior alcance e distribuição. Em um país continental, a capacidade de ampliar a cobertura e integrar diferentes fontes de dados possui impacto que ultrapassa a meteorologia, alcançando diretamente a segurança da navegação aérea, o gerenciamento do espaço aéreo e a resposta a eventos extremos.


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Arandú 2026: Brasil e Argentina colocam suas novas capacidades blindadas, mecanizadas e de apoio de fogo à prova no Sul do Brasil

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O Exercício Combinado Arandú 2026 entra em sua fase decisiva com a chegada ao terreno de uma estrutura militar concebida para testar, em condições reais, aquilo que Brasil e Argentina vêm construindo desde o início do atual ciclo de planejamento. A edição deste ano encerra o ciclo 2024–2026 com uma “Simulação Viva” em Santa Maria e Rosário do Sul, no Rio Grande do Sul, depois de uma etapa de preparação dos Estados-Maiores e de uma fase de simulação construtiva realizada em 2025. O Exército Brasileiro informa que aproximadamente 2 mil militares serão empregados no terreno, enquanto o deslocamento argentino já colocou em movimento elementos da I Brigada Blindada e da X Brigada Mecanizada, incluindo carros de combate TAM 2C-A2, VCBR 8×8 Stryker e veículos de apoio transportados por ferrovia.

O deslocamento ferroviário argentino é uma das primeiras manifestações concretas da dimensão operacional do exercício. Os meios foram concentrados em Zárate e embarcados em formações da Urquiza Cargas para seguir em direção ao Rio Grande do Sul. O próprio Exército Argentino publicou em 2 de outubro imagens da operação, identificando o transporte ferroviário como parte do desdobramento para Operação Arandú junto ao Exército Brasileiro. A movimentação ganhou especial relevância porque não envolve apenas transporte administrativo: deslocar uma força mecanizada através de uma fronteira internacional exige planejamento de concentração, carregamento, segurança, desembarque, manutenção e posterior reorganização das unidades no teatro de operações.

Entre os meios argentinos, o TAM 2C-A2 representa a continuidade de um programa de modernização de uma capacidade que permanece central à força blindada argentina. O Exército Argentino informou em setembro que prosseguia no Quartel Militar Boulogne a produção e integração dos veículos destinados ao segundo esquadrão modernizado, ao mesmo tempo em que novas tripulações concluíam sua certificação no Regimiento de Caballería de Tanques 8. O processo demonstra que a modernização não se limita à plataforma: envolve formação de operadores, manutenção, adaptação das unidades e transformação das características técnicas do material em capacidade operacional.

A presença do Stryker acrescenta uma segunda dimensão à força argentina. Os primeiros VCBR 8×8 foram formalmente entregues à X Brigada Mecanizada em março de 2026, depois de uma etapa de formação de operadores e especialistas, e o Exército Argentino iniciou naquele momento a capacidade operacional inicial do sistema. Em agosto, o Ministério da Defesa argentino avançou ainda mais ao formalizar uma LOA para a aquisição de até 235 veículos Stryker em diferentes configurações, incluindo transporte de infantaria, comando, evacuação médica e apoio de fogo. A Arandú, portanto, ocorre justamente no momento em que a Argentina começa a transformar a introdução dessa plataforma em uma capacidade mecanizada mais ampla.

A diferença entre o TAM 2C-A2 e o Stryker também é importante para compreender o desenho do exercício. O primeiro é um carro de combate sobre lagartas, concebido em torno de proteção, mobilidade tática e poder de fogo; o segundo é uma família de veículos blindados 8×8 destinada a proporcionar mobilidade protegida e diferentes capacidades dentro de uma força mecanizada. Colocá-los no mesmo ambiente operacional não significa comparar plataformas de forma direta, mas verificar como capacidades distintas podem ser combinadas dentro de uma mesma estrutura de armas combinadas.

Do lado brasileiro, a Arandú 2026 ocorre em paralelo a uma transformação igualmente significativa da Cavalaria. O Centauro II BR representa uma nova geração de viatura blindada de combate de cavalaria sobre rodas e vem sendo incorporado à Força Terrestre como parte da substituição progressiva de meios mais antigos. O próprio Exército Brasileiro registra que a plataforma foi empregada pela primeira vez em uma operação tática pela 6ª Brigada de Infantaria Blindada durante a Operação Punhos de Aço 2025, onde os Centauro II foram empregados em conjunto com Viaturas Blindadas de Transporte de Pessoal Média Sobre Rodas Guarani.

A importância do Centauro II no Arandú está justamente nessa possibilidade de integração. O veículo brasileiro não é equivalente ao TAM 2C-A2 nem ao Stryker, mas acrescenta à força brasileira uma combinação de mobilidade sobre rodas, proteção, sensores e poder de fogo adequada às missões de Cavalaria. Sua presença dentro de uma atividade bilateral permite observar como uma plataforma brasileira de nova geração pode operar dentro de uma arquitetura que também inclui forças mecanizadas, infantaria, apoio de fogo, reconhecimento, engenharia e comando e controle.

O Guarani completa essa lógica pelo lado brasileiro. A experiência da própria Operação Arandú demonstra que as Viaturas Blindadas de Transporte de Pessoal da família Guarani podem integrar forças de diferentes naturezas, proporcionando mobilidade protegida à infantaria mecanizada. O interesse em 2026, porém, não está simplesmente em colocar Guarani e Centauro II ao lado dos meios argentinos, mas em verificar como diferentes unidades e plataformas conseguem compartilhar informações, receber ordens, manter o ritmo de deslocamento e cumprir tarefas dentro de uma mesma estrutura operacional.

Essa integração é uma consequência direta da forma como a Arandú foi planejado. A etapa de 2025, realizada entre 14 e 19 de setembro em Santa Maria, reuniu mais de 320 militares dos dois países em um jogo de guerra utilizando o sistema COMBATER. A simulação reproduziu avanços de forças blindadas e mecanizadas, operações aeromóveis e aerotransportadas e missões de forças de operações especiais, além de exigir a integração entre inteligência, logística, comunicações e comando. O Exército Argentino deixou registrado que aquela fase fazia parte do processo que culminaria na atividade com tropas no terreno em 2026.

A passagem do ambiente virtual para a execução real altera completamente o nível de exigência. Um Estado-Maior pode estabelecer uma sequência de movimentos no computador, mas uma força no terreno precisa lidar com disponibilidade mecânica, consumo de combustível, recuperação de viaturas, trânsito de colunas, manutenção, comunicações, alimentação, munição, condições meteorológicas e limitações impostas pelo próprio terreno. A interoperabilidade passa, então, a ser medida não apenas pela existência de procedimentos comuns, mas pela capacidade de unidades diferentes executarem esses procedimentos sob as mesmas condições operacionais.

É nesse ponto que a composição da Arandú 2026 se torna mais ampla do que a presença dos blindados que chamam maior atenção nas imagens. A concepção do exercício contempla forças blindadas e mecanizadas, elementos de infantaria, Cavalaria, operações aeromóveis, forças aerotransportadas, operações especiais, aviação de Exército, engenharia, apoio de fogo, inteligência, comunicações, comando e controle e logística. A documentação oficial argentina define como objetivo desenvolver procedimentos e técnicas operacionais comuns para permitir a participação integrada de frações dos dois Exércitos e ampliar a interoperabilidade entre organizações de diferentes naturezas operacionais.

A aviação de Exército e as capacidades aeromóveis e aerotransportadas acrescentam outra dimensão à atividade. No modelo de planejamento já empregado no ciclo Arandú, essas forças não funcionam como elementos independentes, mas como componentes de uma manobra maior. Operações aeromóveis podem alterar rapidamente a posição de tropas, enquanto forças aerotransportadas podem ser empregadas para conquistar ou bloquear áreas específicas. A integração dessas capacidades com forças blindadas e mecanizadas exige sincronização de inteligência, comando, comunicações e apoio logístico muito superior à necessária para uma atividade limitada a unidades terrestres.

As forças de operações especiais também fazem parte desse desenho. Na fase de simulação de 2025, foram modeladas missões de reconhecimento e ações contra objetivos críticos, exigindo que essas frações fossem incorporadas à manobra geral. Isso é relevante porque demonstra que a Arandú não foi concebido como uma simples competição ou demonstração entre unidades blindadas, mas como uma atividade de planejamento e condução de operações combinadas, na qual diferentes capacidades precisam produzir efeitos complementares.

A engenharia de combate constitui outro elemento que não pode ser tratado como apoio secundário. O histórico operacional da Arandú demonstra a utilização de meios de transposição de obstáculos e apoio à mobilidade, e a própria documentação do ciclo atual mantém a engenharia dentro da arquitetura de capacidades que precisam ser integradas. Em uma operação de forças mecanizadas, a velocidade da manobra pode depender tanto da capacidade de combate dos veículos quanto da possibilidade de superar obstáculos, manter itinerários, recuperar viaturas e sustentar a mobilidade da força.

O apoio de fogo acrescenta uma camada adicional. O Sistema ASTROS representa uma das capacidades brasileiras de maior alcance dentro da estrutura terrestre e sua integração a uma atividade como a Arandú amplia o exercício para além da interação entre forças blindadas e mecanizadas. Uma força de armas combinadas precisa coordenar aquisição de alvos, decisão, comando, comunicações, execução dos fogos e avaliação de seus efeitos, mantendo simultaneamente o apoio às unidades de manobra e a segurança da própria estrutura.

A participação do ASTROS também precisa ser compreendida dentro da evolução mais ampla do Exército Brasileiro. O sistema vem passando por modernização e integração de novos recursos de comando e controle, buscando ampliar sua capacidade de operar dentro de uma arquitetura digitalizada. Na Arandú, sua relevância está menos na simples presença de uma bateria de mísseis e foguetes e mais na oportunidade de integrar apoio de fogo de maior alcance a uma força combinada cuja manobra envolve plataformas sobre rodas e lagartas, infantaria, reconhecimento e demais elementos de apoio.

A dimensão logística aparece, portanto, em praticamente todas as fases do exercício. O transporte ferroviário argentino é apenas a parte mais visível dessa cadeia. Depois do deslocamento estratégico, os meios precisam ser recebidos, abastecidos, mantidos, redistribuídos e integrados às unidades brasileiras. Para uma força combinada, isso exige planejamento prévio sobre rotas, comunicações, manutenção, abastecimento, recuperação e disponibilidade de peças e equipamentos. A interoperabilidade logística pode ser menos visível que a interoperabilidade tática, mas determina diretamente quanto tempo uma força consegue permanecer empregada.

O próprio processo argentino de introdução do Stryker evidencia essa preocupação. Antes da chegada dos veículos à unidade operacional, o Exército Argentino realizou treinamento de operadores, certificação de tripulações, instrução de tiro e capacitação de especialistas em diagnóstico eletrônico e manutenção. A Força também enviou pessoal para atividades técnicas nos Estados Unidos com o objetivo de estruturar o suporte logístico de longo prazo. O fato de esses veículos agora serem deslocados para um exercício bilateral significa que a plataforma já passou da fase puramente administrativa de aquisição e entrou em uma etapa de emprego operacional.

O mesmo princípio se aplica ao Centauro II. O Exército Brasileiro não está simplesmente recebendo uma nova viatura; está incorporando um sistema que exige doutrina, treinamento, manutenção, munição, simuladores, logística e integração com outras organizações. O emprego do Centauro II junto ao Guarani na Operação Punhos de Aço mostrou justamente essa característica: a nova plataforma foi inserida dentro de uma estrutura de Cavalaria na qual diferentes meios precisam cumprir funções complementares.

A comparação entre as forças brasileira e argentina também precisa ser feita com cautela. O Brasil chega a Arandú com uma estrutura que inclui Guarani, Centauro II, meios mecanizados e outras capacidades já consolidadas na Força Terrestre. A Argentina chega com o TAM 2C-A2 em processo de modernização e com o Stryker entrando simultaneamente em sua estrutura operacional. São processos diferentes, mas que agora passam a ser colocados em contato dentro de uma mesma atividade. É justamente essa diferença que torna o exercício útil para os dois lados.

O cenário operacional também amplia a exigência. A documentação oficial apresentada pelo governo argentino para a autorização da atividade descreve a Arandú 2026 como um exercício combinado com tropas no terreno, estruturado sobre um cenário fictício de defesa convencional, com diferentes tipos de operações e emprego de munição real. O cenário não representa uma ameaça concreta entre Brasil e Argentina; trata-se de uma construção de adestramento destinada a criar problemas militares que obriguem as forças participantes a planejar e executar operações integradas.

Essa distinção é particularmente importante porque o deslocamento argentino para o Brasil gerou interpretações equivocadas nas redes sociais. Vídeos do transporte ferroviário dos veículos foram utilizados fora de contexto para alimentar especulações sobre uma intervenção no território brasileiro. O próprio Exército Argentino, porém, identificou as imagens publicadas em 2 de outubro como parte do deslocamento logístico para o Arandú junto ao Exército Brasileiro. A documentação oficial do exercício também estabelece sua finalidade e seu caráter bilateral.

O aspecto mais relevante da Arandú 2026, portanto, não será a quantidade de TAM, Stryker, Centauro II ou Guarani que aparecerá nas imagens, mas a maneira como esses meios serão empregados dentro de uma estrutura maior. Um carro de combate, uma viatura de combate de cavalaria 8×8, uma viatura de transporte de pessoal, um sistema de mísseis e foguetes, um helicóptero ou uma fração de operações especiais produzem efeitos diferentes. O valor militar surge quando esses efeitos são planejados e sincronizados dentro de uma mesma operação.

Para o Brasil, o exercício oferece ainda uma oportunidade particular de observar o emprego do Centauro II em um ambiente internacional e combinado, enquanto sua própria estrutura de Cavalaria passa por transformação. Para a Argentina, a atividade ocorre em um momento igualmente significativo, com o TAM 2C-A2 avançando em sua modernização e o Stryker iniciando sua trajetória operacional. A aproximação dos dois processos cria uma oportunidade de treinamento que dificilmente poderia ser obtida por meio de exercícios exclusivamente nacionais.

A Arandú 2026 deve ser acompanhado, portanto, como um exercício de interoperabilidade em sentido amplo. O deslocamento ferroviário dos meios argentinos, a concentração das forças brasileiras, a integração dos Estados-Maiores, o emprego de blindados e mecanizados, a presença de aviação, operações aeromóveis e aerotransportadas, forças especiais, engenharia, apoio de fogo, inteligência, comunicações e logística fazem parte de uma mesma arquitetura. A questão central será verificar se essa arquitetura consegue funcionar quando retirada do ambiente de planejamento e colocada sob as limitações concretas do terreno.

Depois de uma etapa de planejamento bilateral e de uma simulação construtiva em 2025, a Arandú chega em 2026 ao momento em que os procedimentos precisam ser convertidos em ação. TAM 2C-A2, Stryker, Centauro II, Guarani e ASTROS são os meios que mais facilmente capturam a atenção, mas representam apenas parcelas de uma força muito maior. O resultado do exercício estará na capacidade de Brasil e Argentina integrarem essas plataformas a pessoas, doutrina, comando, inteligência, fogo, mobilidade e sustentação.

É essa transição da compatibilidade entre Estados-Maiores para a interoperabilidade efetivamente testada no terreno que torna a Arandú 2026 particularmente relevante. Mais do que reunir equipamentos de duas forças terrestres, Brasil e Argentina estão colocando à prova um modelo de emprego combinado construído ao longo de anos. A chegada dos meios argentinos ao Rio Grande do Sul marca apenas o início dessa avaliação; o que realmente importará será a capacidade de transformar diferentes plataformas, unidades e especialidades em uma força capaz de operar de maneira coordenada dentro de um mesmo cenário.


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EUA transformam fronteira com o México em laboratório de guerra antidrone

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A experiência acumulada na guerra da Ucrânia está influenciando não apenas os sistemas que os Estados Unidos desenvolvem, mas também a maneira como suas Forças Armadas testam e incorporam novas capacidades. Na fronteira sul, o Exército norte-americano passou a utilizar o ambiente operacional associado ao emprego de drones por organizações criminosas para avaliar tecnologias de detecção, rastreamento e neutralização de pequenas aeronaves não tripuladas, aproximando empresas de defesa, unidades operacionais e estruturas de testes em um ciclo de experimentação mais curto.

Essa abordagem foi aplicada durante o exercício Falcon Peak 26.2, conduzido pela Joint Interagency Task Force 401 ao longo de setembro no Yuma Proving Ground, no Arizona, em apoio ao U.S. Northern Command e à Joint Task Force–Southern Border. O exercício avaliou sistemas de diferentes fornecedores em cenários que reproduziram incursões de pequenos drones e reuniu capacidades de detecção por sensores, derrota eletrônica e engajamento cinético. A atividade também estabeleceu corredores permanentes para testes e avaliação de sistemas C-UAS no Yuma Proving Ground, criando uma estrutura destinada a permitir novas avaliações com unidades militares, indústria e desenvolvedores comerciais.

A escolha desse ambiente está relacionada ao aumento da atividade de drones na região. Segundo o Brigadeiro-General Brian Filler, vice-comandante de operações da Força-Tarefa Conjunta da Fronteira Sul, os militares norte-americanos registraram 378 incursões de drones nos 30 dias anteriores à avaliação. De acordo com as autoridades, a maior parte desses sistemas é composta por plataformas comerciais equipadas com câmeras e empregadas para vigilância associada a atividades de contrabando e tráfico de pessoas. A Reuters também informou que o Exército dos EUA derrubou 11 drones associados a cartéis utilizando sistemas laser desde a implantação dessa capacidade na fronteira, em agosto.

Embora essa ameaça esteja muito distante, em complexidade e intensidade, dos sistemas empregados por Rússia e Ucrânia, o cenário apresenta uma característica importante para o desenvolvimento militar: é uma ameaça real, recorrente e suficientemente variável para permitir que sensores, algoritmos, enlaces de comando e sistemas de neutralização sejam avaliados fora de condições puramente laboratoriais. A diferença em relação a um campo de batalha convencional está principalmente no tipo de alvo e na finalidade de seu emprego, mas os problemas técnicos de detectar uma aeronave pequena, determinar sua trajetória, classificar seu comportamento e selecionar uma resposta adequada continuam relevantes para o desenvolvimento de sistemas C-UAS.

A experiência ucraniana como referência para o ciclo de desenvolvimento

A principal influência da Ucrânia sobre esse processo norte-americano não está limitada às características dos drones empregados no conflito. O aspecto que interessa particularmente aos planejadores dos Estados Unidos é a velocidade com que operadores e fabricantes conseguem modificar sistemas a partir da experiência obtida em combate. A guerra criou um ciclo contínuo no qual uma nova ameaça é identificada, uma solução é testada, suas limitações são observadas em operação e modificações são incorporadas em períodos que podem ser muito menores do que os normalmente associados aos programas militares convencionais.

O Brigadeiro-General Matthew Ross, diretor da JIATF 401, apontou justamente essa capacidade de adaptação como uma das referências para os Estados Unidos. Segundo ele, os planejadores observam a velocidade com que a Ucrânia consegue adaptar suas capacidades diariamente ou semanalmente e procuram reproduzir esse processo. O objetivo não é simplesmente copiar um equipamento utilizado no conflito, mas aproximar o ciclo de desenvolvimento tecnológico da velocidade com que as ameaças estão evoluindo.

Essa questão possui implicações diretas para os programas C-UAS. Um sistema selecionado hoje pode ser confrontado, poucos meses depois, por uma ameaça que utiliza outra frequência de comunicação, apresenta assinatura diferente, emprega navegação alternativa ou incorpora maior grau de autonomia. A eficiência de uma solução, portanto, não pode ser avaliada apenas pela capacidade demonstrada durante sua seleção inicial; é necessário que exista uma estrutura capaz de testar continuamente seu desempenho e incorporar modificações à medida que o ambiente operacional muda.

O Yuma Proving Ground está sendo estruturado para atender justamente a essa necessidade. O Falcon Peak 26.2 foi utilizado para estabelecer padrões de medição para diferentes categorias de sistemas, enquanto os novos corredores permanentes permitirão repetir avaliações e comparar soluções sob parâmetros comuns. A estrutura foi concebida para integrar o processo de teste às unidades operacionais, à indústria e aos desenvolvedores comerciais, reduzindo a distância entre uma tecnologia experimental e sua avaliação militar.

Uma arquitetura que combina sensores, guerra eletrônica e efeitos cinéticos

Outro aspecto relevante do Falcon Peak é a forma como o Exército dos EUA está tratando a defesa contra drones. Em vez de procurar um único equipamento capaz de resolver toda a ameaça, os testes foram organizados em diferentes camadas, abrangendo sensores, sistemas de derrota eletrônica e meios de engajamento cinético. O Yuma Test Center estruturou três corredores destinados justamente a essas categorias, permitindo avaliar diferentes formas de neutralização dentro de um mesmo processo de experimentação.

Essa arquitetura parte de uma sequência operacional que começa com a detecção e identificação do alvo e termina com a escolha e execução da resposta. Um radar pode fornecer a primeira indicação de uma incursão, enquanto câmeras e outros sensores contribuem para a classificação do objeto. A partir dessas informações, o sistema de comando e controle precisa determinar se o drone representa uma ameaça e qual meio disponível possui maior probabilidade de neutralizá-lo dentro do tempo e das condições existentes.

O Falcon Peak também empregou o Lattice, plataforma autônoma de comando e controle, como referência para avaliar a integração entre sensores e meios de resposta. Isso permite deslocar a avaliação do desempenho de cada equipamento isoladamente para a capacidade de uma arquitetura sensor-atirador funcionar como um conjunto, aspecto particularmente importante quando o tempo disponível entre a detecção e o engajamento é reduzido.

Essa integração também possui uma dimensão econômica. O custo de neutralizar um drone precisa ser compatível com o valor e com a ameaça representada pelo alvo. Um sistema comercial de baixo custo utilizado para vigilância não necessariamente exige o emprego de um interceptor de elevado valor ou de um armamento destinado a ameaças de maior complexidade. Dependendo da situação, interferência eletrônica, armas automáticas, interceptadores ou outras soluções de menor custo podem oferecer uma resposta mais adequada.

O problema é ainda mais significativo quando se considera a possibilidade de emprego simultâneo de vários drones. Nesse cenário, a capacidade de uma defesa C-UAS passa a depender não apenas do alcance ou da precisão de determinado equipamento, mas da quantidade de alvos que pode acompanhar, classificar e engajar simultaneamente, além da capacidade de distribuir os efeitos disponíveis de maneira racional.

A indústria como parte do processo operacional

O Falcon Peak também evidencia uma mudança na relação entre o Exército norte-americano e o setor privado de tecnologia de defesa. Empresas como Anduril, Teledyne FLIR, Allen Control Systems e Powerus apresentaram diferentes soluções durante o exercício, incluindo drones, sensores, sistemas automatizados de armas e interceptadores. A participação de empresas desse perfil permite ao Exército comparar tecnologias em um mesmo ambiente e identificar quais soluções apresentam desempenho compatível com as necessidades operacionais.

A importância dessa aproximação está relacionada à velocidade de desenvolvimento característica do setor de sistemas não tripulados. Empresas menores conseguem, em determinados casos, alterar software, sensores, algoritmos ou componentes com maior rapidez do que os ciclos tradicionais de aquisição militar permitem. Para o usuário militar, entretanto, velocidade de desenvolvimento não é suficiente: a tecnologia precisa demonstrar confiabilidade, integração, capacidade de manutenção e desempenho repetível em condições operacionais.

É por isso que a estrutura criada no Yuma Proving Ground possui importância além do próprio Falcon Peak. Ao estabelecer parâmetros comuns de avaliação e permitir que diferentes fornecedores sejam submetidos a cenários semelhantes, o Exército passa a dispor de uma metodologia para separar uma demonstração tecnológica de uma capacidade efetivamente utilizável por suas unidades. A avaliação deixa de ser apenas uma apresentação de produto e passa a considerar o desempenho dentro de uma cadeia operacional.

Da fronteira ao campo de batalha de alta intensidade

A utilização da fronteira como ambiente de experimentação também precisa ser observada dentro de uma estratégia mais ampla. O Exército dos EUA não está utilizando esse cenário como substituto dos exercícios destinados à guerra convencional, mas como uma oportunidade adicional para testar tecnologias contra ameaças concretas.

Em setembro, por exemplo, o XVIII Airborne Corps utilizou grupos de até 100 drones durante o exercício Scarlet Dragon para avaliar sensores, comando e controle, guerra eletrônica e defesa contra ataques simultâneos. O cenário é significativamente diferente daquele encontrado na fronteira, pois procura reproduzir uma situação mais próxima de um conflito de alta intensidade, no qual sistemas não tripulados podem ser empregados em volume e integrados a outras capacidades de combate.

Essa combinação de ambientes permite avaliar diferentes partes do mesmo problema. A fronteira oferece condições reais de vigilância e incursões de pequenos drones em um espaço operacional sensível, enquanto exercícios de grande escala permitem testar a capacidade de uma força militar lidar com ataques coordenados e maior densidade de alvos. Em ambos os casos, a questão central permanece a mesma: detectar, classificar, decidir e neutralizar dentro de um intervalo de tempo compatível com a ameaça.

O próprio Exército dos EUA já ampliou esse esforço para exercícios internacionais. Durante o Yudh Abhyas 2026, realizado na Índia em setembro, forças norte-americanas e indianas empregaram o M-LIDS para desenvolver interoperabilidade e familiaridade com capacidades destinadas à detecção e derrota de aeronaves não tripuladas.

O conjunto dessas iniciativas indica que Washington está tratando C-UAS como uma capacidade transversal, que precisa estar disponível para diferentes tipos de unidades e ambientes operacionais. A preocupação não está restrita à proteção de uma instalação ou de uma formação específica, mas envolve a capacidade de incorporar sensores, guerra eletrônica, comando e controle e meios de engajamento às diferentes estruturas da força.

A velocidade de adaptação como requisito militar

A experiência ucraniana demonstra que o desenvolvimento de sistemas não tripulados e antidrone não pode ser tratado como um processo concluído com a entrada de determinado equipamento em serviço. A evolução da ameaça exige ciclos sucessivos de avaliação, atualização e treinamento, enquanto a força precisa preservar a capacidade de integrar novas soluções às redes e sistemas que já utiliza.

É nesse ponto que o modelo adotado pelo Exército dos EUA ganha maior relevância. A criação de uma infraestrutura permanente de testes no Yuma Proving Ground permite transformar a experimentação em atividade contínua, com participação simultânea de unidades militares, centros de avaliação, indústria e desenvolvedores. Em vez de esperar que uma nova ameaça produza uma deficiência operacional para então iniciar um programa de resposta, a estrutura procura manter o processo de avaliação funcionando de forma permanente.

Para o Exército norte-americano, a fronteira com o México oferece assim um ambiente complementar aos campos de treinamento convencionais. A atividade de drones associada aos cartéis não reproduz a complexidade tecnológica da guerra entre Rússia e Ucrânia, mas cria oportunidades para testar sensores, redes, sistemas de comando e controle e diferentes métodos de neutralização diante de alvos reais e recorrentes.

A principal consequência da experiência ucraniana, nesse caso, não está em um equipamento específico apresentado no Falcon Peak, mas na mudança do processo de desenvolvimento. A capacidade de identificar uma deficiência, testar uma solução, medir seu desempenho, modificá-la e devolvê-la rapidamente ao ambiente operacional passa a ser considerada parte da própria capacidade militar.

O movimento norte-americano indica, portanto, que a guerra dos drones está produzindo mudanças que ultrapassam o desenvolvimento de aeronaves não tripuladas e seus sistemas de defesa. Ela também está modificando os processos de teste, aquisição, integração e atualização tecnológica das forças armadas, aproximando o ciclo de desenvolvimento militar da velocidade com que a ameaça evolui no campo de batalha.


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A guerra da Ucrânia não matou o carro de combate. Ela matou o conceito de carro de combate isolado

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A guerra na Ucrânia produziu uma das maiores rupturas conceituais no pensamento militar terrestre desde o final da Guerra Fria, mas essa ruptura não pode ser resumida pela afirmação de que “os drones mataram os carros de combate”. A conclusão é sedutora porque as imagens de carros de combate destruídos por minas, munições vagantes, mísseis anticarro, artilharia e drones FPV se tornaram uma das representações mais visíveis do conflito. O problema é que uma plataforma ser vulnerável não significa que ela tenha se tornado obsoleta. Carros de combate sempre puderam ser destruídos; o que mudou de maneira radical foi a capacidade de encontrá-los, identificá-los, acompanhá-los e direcionar efeitos contra eles em uma velocidade que reduz drasticamente a liberdade de manobra de uma força convencional.

É justamente essa distinção que precisa estar no centro do debate. A experiência ucraniana não demonstra que proteção, mobilidade e fogo direto deixaram de ser necessários. Demonstra que essas capacidades não podem mais ser consideradas suficientes quando entregues por uma plataforma empregada de maneira isolada. O carro de combate continua sendo uma das poucas plataformas capazes de combinar proteção, mobilidade tática e poder de fogo direto pesado para acompanhar e apoiar forças mecanizadas em determinadas situações, mas passou a depender de uma arquitetura muito mais ampla para transformar essas características em poder de combate efetivo. Em outras palavras, a Ucrânia não matou o carro de combate; matou a ideia de que ele possa ser tratado como uma ilha de poder dentro do campo de batalha.

O primeiro erro é confundir vulnerabilidade com obsolescência

A história militar mostra que nenhuma plataforma permanece invulnerável depois que o adversário desenvolve meios específicos para neutralizá-la. O surgimento da artilharia moderna, das minas, dos canhões anticarro, dos mísseis guiados e, posteriormente, de munições especializadas sempre obrigou os carros de combate a evoluir. A existência de uma ameaça capaz de destruir uma plataforma, portanto, não responde à pergunta sobre sua utilidade. A questão relevante é saber se as missões que ela desempenha continuam necessárias e se existe outra combinação de meios capaz de cumprir essas missões com o mesmo nível de proteção, mobilidade e poder de fogo.

A própria evolução da guerra na Ucrânia oferece uma resposta importante. As perdas de carros de combate russos e ucranianos estão relacionadas à combinação de minas, sistemas anticarro, munições vagantes, artilharia, drones e problemas de emprego tático, mas a adaptação contínua dessas plataformas demonstra que elas permanecem associadas a funções relevantes no campo de batalha. A questão passou a ser como aumentar sua sobrevivência e adaptar seu emprego às novas ameaças, e não simplesmente abandoná-las.

Essa diferença é fundamental porque, se a simples capacidade de destruição de uma plataforma fosse suficiente para decretar sua obsolescência, praticamente nenhum sistema militar sobreviveria ao primeiro ciclo de inovação tecnológica. O que determina a permanência de uma capacidade é a relação entre aquilo que ela entrega, o custo necessário para neutralizá-la e a existência ou não de alternativas capazes de produzir o mesmo efeito. O carro de combate continua oferecendo algo que drones, veículos leves, artilharia ou sistemas anticarro, individualmente, não conseguem substituir: a possibilidade de levar poder de fogo direto protegido até o espaço onde forças terrestres precisam combater e, em determinadas condições, manobrar e permanecer sob fogo.

O que a Ucrânia demonstrou, portanto, não foi que o carro de combate deixou de ser útil, mas que sua utilidade depende cada vez mais de como ele está inserido no sistema de combate.

O verdadeiro adversário passou a ser a transparência do campo de batalha

A transformação mais profunda está na capacidade de observação. O campo de batalha contemporâneo possui uma densidade de sensores muito maior do que aquela existente nas guerras que moldaram grande parte da doutrina de emprego dos carros de combate durante o século XX. Drones comerciais e militares, sensores eletro-ópticos e térmicos, imagens de satélite, inteligência de sinais, radares, observadores avançados, sistemas de guerra eletrônica e redes digitais permitem que uma atividade antes relativamente difícil de detectar passe a produzir uma assinatura identificável em poucos minutos.

Isso modifica a relação entre concentração e poder de combate. Concentrar forças continua sendo necessário para produzir determinados efeitos, mas a concentração também produz assinatura. Uma coluna de blindados, uma posição de reunião, um posto de comando, uma bateria de artilharia ou uma unidade logística podem ser detectados antes de iniciarem a ação para a qual foram organizados. O problema, portanto, não é simplesmente que existem mais armas anticarro; é que o adversário dispõe de mais oportunidades para descobrir onde está o alvo e construir uma cadeia de engajamento contra ele.

O resultado é uma redução do tempo entre detecção e ataque. O carro de combate que antes dependia principalmente de sua proteção para sobreviver a determinadas ameaças agora precisa ser protegido também pela capacidade da força de evitar detecção, reduzir sua assinatura, degradar os sensores adversários, operar sob cobertura, mudar de posição, receber alerta antecipado e responder rapidamente. A sobrevivência passa a ser resultado da combinação entre as características físicas da plataforma e o comportamento da unidade à qual ela pertence.

O drone é apenas o elemento mais visível de uma mudança maior: a transformação do campo de batalha em um ambiente no qual encontrar o inimigo tornou-se muito mais fácil e permanecer concentrado sem ser localizado tornou-se muito mais difícil. O drone não substituiu o carro de combate. Mudou o preço de permanecer exposto.

O crescimento dos FPV e das munições vagantes criou uma situação particularmente difícil para veículos blindados. Um sistema relativamente barato pode obrigar uma plataforma extremamente cara a abandonar uma posição, interromper uma missão ou consumir recursos de proteção. Entretanto, seria um erro transformar essa relação em uma equação simples segundo a qual um drone barato “substituiu” um carro de combate caro.

Um FPV pode destruir ou danificar um blindado, mas não ocupa terreno. Pode atingir uma posição, mas não substitui automaticamente o fogo de uma peça de artilharia. Pode observar uma área, mas não substitui todas as capacidades de um sistema de reconhecimento especializado. Pode atacar uma trincheira, mas não substitui a infantaria necessária para conquistar e manter a posição.

O valor militar do drone está justamente em sua capacidade de aumentar a eficiência de outras armas. Ele pode encontrar o alvo para a artilharia, corrigir o fogo, acompanhar uma força adversária, identificar uma brecha, detectar movimentação, fornecer consciência situacional para uma unidade blindada ou atacar diretamente uma ameaça de oportunidade. A guerra passa, portanto, de uma lógica de substituição para uma lógica de complementaridade.

Essa é uma das principais diferenças entre afirmar que “drones mataram carros de combate” e compreender o que realmente aconteceu. A proliferação de sistemas não tripulados alterou a forma de localizar, acompanhar e atacar forças terrestres, mas também ampliou a capacidade dessas próprias forças de observar, decidir e empregar seus demais sistemas com maior precisão.

O carro de combate deixou de ser uma plataforma autossuficiente

Durante boa parte do século XX, o desenvolvimento do carro de combate buscou concentrar na própria plataforma uma parcela significativa das capacidades necessárias ao combate direto. Isso não significa que ele tenha sido concebido para operar sozinho, a doutrina de armas combinadas existe justamente porque nenhuma arma funciona adequadamente sem as demais, mas a plataforma carregava consigo uma parcela extraordinariamente grande da capacidade necessária para sobreviver e combater.

Blindagem, canhão, motor, sistemas de pontaria e tripulação permitiam que uma seção ou pelotão de carros de combate enfrentasse determinadas ameaças sem depender imediatamente de uma rede digital de sensores e de uma arquitetura permanente de proteção contra sistemas não tripulados. Essa condição mudou.

Hoje, a plataforma precisa saber mais sobre o ambiente antes de entrar nele. Precisa receber informações de sensores externos, compreender onde estão as ameaças anticarro, operar com consciência da presença de drones inimigos e preservar sua conectividade sob guerra eletrônica. Precisa de engenharia quando obstáculos e minas impedem a progressão, de infantaria para proteção aproximada e combate em áreas onde possui limitações, de artilharia para produzir efeitos que o fogo direto não consegue alcançar e de logística para manter elevada disponibilidade.

O carro de combate continua sendo uma plataforma relevante, mas o poder de combate que ele representa deixou de estar contido dentro da própria plataforma.

A experiência de 2023 é mais complexa do que a imagem de um carro de combate destruído

A contraofensiva ucraniana de 2023 é frequentemente utilizada como argumento definitivo contra a guerra de manobra. A sequência de veículos ocidentais atingidos em campos minados tornou-se uma espécie de símbolo da suposta morte do blindado. Entretanto, a análise militar do episódio revela um problema muito mais amplo.

Um estudo publicado pelo Exército dos Estados Unidos em 2025 sobre a experiência ucraniana no eixo Orikhiv–Tokmak mostra que a dificuldade não foi simplesmente a presença de minas ou drones. A força enfrentou um sistema defensivo em profundidade, com obstáculos, campos minados, trincheiras, posições anticarro, fogos indiretos e capacidade de observação. Entre junho e novembro de 2023, forças ucranianas avançaram aproximadamente 20 quilômetros nesse eixo, ao custo de 518 veículos, incluindo 91 carros de combate e 24 veículos de engenharia. O estudo conclui que a experiência evidencia a importância da inteligência detalhada, da organização adequada da força de abertura de corredores, da sincronização entre funções e da capacidade de reduzir obstáculos em profundidade.

Essa constatação é extremamente importante para o debate sobre o futuro dos carros de combate porque demonstra que um veículo blindado pode ser tecnicamente competente e ainda assim fracassar quando inserido em uma operação que não consiga sincronizar suas diversas capacidades.

Em um dos primeiros episódios analisados, veículos de diferentes características de mobilidade tiveram dificuldade para acompanhar os meios de engenharia. Em uma tentativa, a força não conseguiu permanecer adequadamente dentro dos corredores abertos e os veículos acabaram imobilizados e expostos ao fogo direto. A análise americana identifica problemas de reconhecimento, composição da força, apoio direto, redução de obstáculos, sincronização e massa de meios de engenharia.

A conclusão é muito diferente de “os Leopard não funcionaram” ou “os carros de combate foram derrotados pelos drones”. O que esses episódios revelaram foi a dificuldade de executar uma operação complexa de armas combinadas diante de um sistema defensivo preparado e profundamente protegido.

A engenharia talvez seja uma das maiores lições que desapareceram do debate público

A experiência ucraniana também recolocou em evidência uma capacidade frequentemente eclipsada pelo debate sobre plataformas: a engenharia de combate. Uma força blindada pode possuir centenas de carros de combate e ainda ser incapaz de avançar se não conseguir atravessar um campo minado, superar um fosso anticarro, remover obstáculos, abrir e manter corredores e proteger os meios responsáveis pela redução.

O estudo do Exército dos Estados Unidos demonstra como a profundidade dos obstáculos russos excedeu, em determinadas situações, as estimativas ucranianas e como a capacidade de abrir uma passagem tornou-se um dos principais fatores limitadores da progressão. A engenharia não estava apenas abrindo uma rota; estava fazendo isso sob observação e fogo, enquanto o adversário empregava minas, munições vagantes e guerra eletrônica para atacar os próprios meios responsáveis pela abertura dos corredores.

O carro de combate precisa atravessar o obstáculo, mas o sistema que permite que ele atravesse é tão importante quanto o próprio veículo. Sem engenharia suficiente, o blindado pode transformar-se de instrumento de manobra em alvo imóvel. Sem fogos para suprimir o defensor, o equipamento de engenharia pode ser destruído antes de cumprir sua função. Sem reconhecimento adequado, a força pode abrir uma passagem onde não existe profundidade suficiente para sustentar a progressão. Sem recuperação, um veículo imobilizado pode bloquear o próprio corredor.

A guerra, portanto, não pergunta apenas se o blindado consegue avançar. Pergunta se a brigada inteira consegue criar as condições para que o carro de combate avance.

A questão da massa também mudou

Existe uma aparente contradição no campo de batalha contemporâneo: a concentração de forças é mais perigosa porque aumenta a assinatura, mas determinadas operações continuam exigindo massa para superar obstáculos e produzir efeitos. Essa contradição é um dos problemas centrais do combate terrestre contemporâneo.

Uma força que se dispersa demais perde capacidade de concentração de fogo e pode não possuir potência suficiente para romper uma posição. Uma força que se concentra excessivamente se torna um alvo mais atraente para sensores e fogos. A solução não está em abandonar a massa, mas em aprender a concentrar efeitos sem necessariamente concentrar todos os meios físicos no mesmo lugar durante todo o tempo.

Isso exige planejamento e sincronização rigorosos, disciplina nas comunicações, emprego de medidas de dissimulação, adequada dispersão dos meios e capacidade de concentrá-los rapidamente no momento e no local em que a situação operacional exigir.

A experiência ucraniana mostra, inclusive, que a própria engenharia de corredores sofre desse problema. O estudo do Exército dos Estados Unidos observa que uma força precisa reunir quantidade suficiente de equipamentos para reduzir obstáculos em toda a profundidade do sistema defensivo, mas essa concentração ocorre justamente sob observação e ataque do inimigo.

Esse é um dos grandes paradoxos do campo de batalha moderno: a massa continua necessária, mas tornou-se muito mais difícil de esconder, proteger e empregar de forma concentrada. Grandes volumes de tropas e veículos ainda são necessários para romper posições, explorar corredores, sustentar uma linha de avanço e manter a pressão sobre o adversário. O problema é que a mesma concentração que produz poder de combate também facilita a detecção, a identificação e o engajamento por sensores, drones, artilharia e outros sistemas de ataque.

Isso não elimina a necessidade de massa. Muda a forma como ela precisa ser empregada. A concentração de meios passa a depender de informação precisa, sincronização e capacidade de reduzir o tempo de exposição. Uma força precisa ser capaz de dispersar seus elementos durante o deslocamento, preservar sua assinatura, coordenar diferentes componentes e concentrá-los rapidamente quando necessário, sem permanecer tempo suficiente em uma área para permitir ao adversário completar o ciclo de detecção, decisão e engajamento.

É justamente nesse ponto que a qualidade da informação ganha importância. A vantagem já não está apenas em possuir mais meios, mas em saber onde concentrá-los, quando fazê-lo e por quanto tempo mantê-los expostos. O campo de batalha passa a premiar as forças capazes de transformar informação em decisão e decisão em ação antes que o adversário consiga completar o mesmo processo.

A guerra eletrônica entrou definitivamente na equação da sobrevivência

Nenhuma análise séria sobre a experiência ucraniana pode tratar os drones como sistemas independentes da guerra eletrônica. Quanto mais uma força depende de comunicação, navegação, transmissão de vídeo, enlaces de dados e controle remoto, mais esses sistemas se tornam alvos. A capacidade de empregar um drone depende não apenas da existência física do equipamento, mas da possibilidade de mantê-lo conectado, transmitir informações e receber comandos em um ambiente no qual o adversário também procura interferir, localizar e degradar essas redes.

Isso produz uma corrida permanente entre sensor, enlace, interferência e adaptação. Quando uma frequência, protocolo ou método de controle passa a ser explorado pelo adversário, surge a necessidade de alterar procedimentos, equipamentos e formas de emprego. O mesmo vale para os sistemas destinados a neutralizar essas ameaças: uma capacidade de guerra eletrônica que funciona hoje pode perder eficácia amanhã diante de mudanças nos enlaces, na autonomia dos sistemas ou nos métodos empregados para contornar a interferência.

A guerra eletrônica, portanto, deixa de ser uma capacidade de apoio periférica e passa a fazer parte da própria sobrevivência das unidades. Uma força blindada capaz de detectar o drone inimigo, interferir em seu enlace, proteger suas próprias comunicações, preservar a navegação e manter sua consciência situacional possui uma vantagem que não aparece simplesmente na ficha técnica do carro de combate.

Da mesma forma, um carro de combate equipado com excelentes sensores e sistemas de proteção, mas inserido em uma unidade incapaz de manter suas comunicações, preservar seus enlaces e responder à presença de sistemas não tripulados, terá dificuldade para transformar todo seu potencial tecnológico em capacidade operacional.

A plataforma, portanto, é somente uma parte da equação. Sua efetividade depende da rede que a conecta, dos sensores que ampliam sua percepção, dos sistemas que protegem sua assinatura e das unidades que conseguem empregar seus efeitos de maneira coordenada. No campo de batalha contemporâneo, a sobrevivência do carro de combate começa muito antes do primeiro disparo, na capacidade de evitar ser localizado, compreendido e engajado pelo adversário.

A infantaria voltou a ser ainda mais importante, não menos

Outro erro comum é imaginar que a proliferação dos drones tornou a infantaria menos necessária. A experiência da Ucrânia aponta na direção oposta: drones ampliam a capacidade de observar, identificar e atacar, mas não substituem o soldado responsável por ocupar e manter o terreno.

A guerra continua sendo física. Uma posição fortificada precisa ser tomada, uma trincheira precisa ser limpa, um corredor precisa ser protegido, um obstáculo precisa ser reduzido e uma área precisa ser controlada para impedir que o adversário volte a utilizá-la. A proliferação de sistemas não tripulados tornou essa tarefa mais complexa, porque a infantaria passou a operar sob vigilância quase permanente e com maior risco de exposição, mas não eliminou sua necessidade.

É nesse ambiente que o carro de combate e a infantaria continuam formando uma relação essencial. O blindado oferece proteção, mobilidade e poder de fogo direto, enquanto a infantaria amplia a capacidade de observar, ocupar, proteger e controlar o terreno, inclusive em áreas onde o carro de combate não consegue operar com a mesma liberdade.

O mesmo princípio se aplica à artilharia. O carro de combate não substitui os fogos indiretos, assim como uma bateria de artilharia não oferece a mesma capacidade de fogo direto protegido e de acompanhamento imediato das tropas em determinadas situações. A efetividade do conjunto depende menos da substituição de uma capacidade por outra do que da combinação de diferentes meios, cada qual empregado segundo aquilo que pode fazer melhor, com seus efeitos sincronizados no tempo e no espaço.

O conceito correto é “sistema de sistemas”

É nesse ponto que a discussão deixa de ser exclusivamente sobre blindados e passa a envolver a própria arquitetura da força. Um carro de combate moderno não atua isoladamente: sua capacidade de produzir efeitos depende de uma cadeia que começa na obtenção da informação e termina na sustentação logística da operação.

Sensores precisam detectar e identificar; comando e controle precisam transformar dados em decisões; comunicações precisam preservar o fluxo de informações; fogos precisam ser coordenados; a guerra eletrônica precisa proteger as próprias redes e degradar as do adversário; a engenharia precisa garantir a mobilidade; a infantaria precisa proteger, ocupar e controlar o terreno; e a logística precisa manter todos esses elementos em condições de continuar combatendo.

Essa arquitetura funciona como um ciclo contínuo de detecção, decisão, ação, avaliação e reposicionamento. Quanto menor o tempo necessário para completar esse ciclo e quanto maior a capacidade de preservar suas próprias funções enquanto interrompe as do adversário, maior será a vantagem operacional.

É por isso que a avaliação de um carro de combate não pode mais se limitar à comparação entre calibre, massa, espessura de proteção ou potência do motor. Essas características continuam fundamentais, mas seu valor depende da capacidade da força de empregá-las dentro de um sistema que permita ao carro de combate detectar antes, decidir mais rapidamente, sobreviver ao contato e continuar operando depois dele.

Essa é a mudança central produzida pela experiência ucraniana: não a substituição do carro de combate por drones, mas a transformação do modo como o carro de combate precisa ser empregado.

Do campo de batalha à realidade brasileira

É justamente essa mudança que leva a discussão ao Brasil. O debate sobre o futuro dos carros de combate do Exército Brasileiro não deveria começar pela escolha entre MMBT e MBT, mas pela capacidade de combate terrestre que o país pretende possuir nas próximas décadas.

Isso significa considerar, simultaneamente, quantidade, proteção, poder de fogo, mobilidade, sensores, proteção ativa, comando e controle, disponibilidade, recuperação, engenharia, reconhecimento, drones, guerra eletrônica, defesa antiaérea, artilharia, logística, treinamento e capacidade industrial. A plataforma é apenas um dos componentes dessa equação.

Nesse contexto, MMBT e MBT representam diferentes maneiras de equilibrar essas capacidades. O peso interfere diretamente na infraestrutura necessária para seu emprego, no transporte estratégico, na recuperação, na manutenção e na capacidade de operar em determinadas regiões. Ao mesmo tempo, uma redução de massa pode trazer ganhos de mobilidade e flexibilidade logística, mas também pode significar compromissos em proteção, capacidade de crescimento e sobrevivência, dependendo da solução adotada.

O próprio debate dentro do Exército já reconhece que a comparação entre carros de combate médios e carros de combate principais ultrapassa os aspectos puramente técnicos e envolve fatores operacionais, logísticos e estratégicos. A extensão territorial brasileira, as distâncias, a diversidade geográfica e os desafios de transporte entram diretamente nessa equação.

A dimensão brasileira torna essa análise particularmente relevante. O país reúne grandes distâncias, infraestrutura heterogênea e ambientes operacionais distintos, o que impede que características desenvolvidas para outros teatros sejam simplesmente transportadas para a realidade nacional. O veículo precisa ser analisado junto com aquilo que permitirá deslocá-lo, recuperá-lo, abastecê-lo, repará-lo e mantê-lo disponível.

Há ainda uma segunda dimensão: a industrial. Para um programa de carros de combate com horizonte de décadas, a capacidade nacional de sustentar, modernizar e evoluir a plataforma precisa entrar na equação desde o início. Não se trata apenas de receber veículos, mas de preservar a capacidade de manter a força operacional, dominar componentes críticos, integrar novos sistemas e reduzir vulnerabilidades decorrentes de dependências externas.

É aqui que a experiência da Ucrânia deixa de ser apenas uma discussão sobre o desempenho de determinado veículo e passa a oferecer uma referência para a própria estruturação da força brasileira. O desafio não é encontrar o carro de combate que, isoladamente, pareça mais completo, mas estabelecer uma combinação sustentável de plataformas, quantidade, proteção, reconhecimento, drones, guerra eletrônica, fogos, engenharia, defesa antiaérea, recuperação, logística, treinamento e indústria.

A questão central, portanto, não é simplesmente escolher entre MMBT e MBT. É determinar qual arquitetura de força permitirá ao Exército produzir poder de combate suficiente, manter disponibilidade ao longo do tempo e adaptar-se à evolução das ameaças. A Ucrânia não eliminou o carro de combate. Elevou o padrão necessário para empregá-lo.

No campo de batalha contemporâneo, a sobrevivência e a eficácia de um carro de combate começam muito antes do disparo e terminam muito depois dele. A plataforma continua sendo fundamental, mas seu valor real está na capacidade da força de empregá-la dentro de um sistema que consiga detectar, decidir, proteger, manobrar, atacar, recuperar e sustentar.

É essa passagem da plataforma isolada para a capacidade de combate integrada que deveria orientar a próxima geração de carros de combate do Exército Brasileiro.



por Angelo Nicolaci


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