quarta-feira, 21 de outubro de 2026

EDGE destaca papel estratégico da AKAER e aponta novas oportunidades para a engenharia brasileira

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Com mais de 30 anos de experiência e 10 milhões de horas de engenharia acumuladas, empresa brasileira passa a integrar o grupo dos Emirados Árabes Unidos, ampliando as possibilidades de cooperação tecnológica e participação em programas internacionais.

A aquisição da AKAER pela EDGE Group dos Emirados Árabes Unidos, representa um novo capítulo para a engenharia aeroespacial brasileira e para a estratégia de expansão internacional do conglomerado de defesa. Concluída em setembro de 2026, a operação incorpora ao grupo uma empresa com mais de três décadas de experiência no desenvolvimento de soluções para os setores aeroespacial e de defesa, além de uma equipe multidisciplinar com capacidade para atuar desde a concepção de projetos até sua industrialização.

Em publicação recente, a EDGE Group destacou três aspectos centrais da aquisição: a experiência acumulada pela AKAER, a importância do mercado brasileiro para os planos de longo prazo do grupo e as oportunidades de combinar a engenharia nacional com seu portfólio internacional de tecnologias avançadas.

A dimensão técnica da operação ajuda a compreender seu alcance. A AKAER acumula mais de 10 milhões de horas de engenharia, resultado de sua atuação em projetos aeroespaciais complexos e do desenvolvimento de competências que abrangem estruturas, sistemas, integração e industrialização. Para a EDGE, essa experiência representa a incorporação de uma base de engenharia estabelecida no Brasil, capaz de contribuir para programas do grupo em diferentes mercados.

Engenharia brasileira integrada a um grupo internacional

Fundada em São José dos Campos, um dos principais polos aeroespaciais do país, a AKAER consolidou sua atuação em projetos de alta complexidade para os setores aeronáutico, espacial e de defesa. Sua experiência inclui participação em programas relevantes da indústria aeronáutica, como o cargueiro KC-390, o caça Gripen NG, o turco TAI Hürjet e diferentes famílias de aeronaves comerciais e executivas. 

A empresa também já mantinha relacionamento industrial com a EDGE antes da aquisição. Em 2023, as duas companhias firmaram um memorando de entendimento (MoU) para estudar oportunidades de desenvolvimento e produção de sistemas e equipamentos de alta tecnologia. Entre as áreas contempladas estavam tecnologias de guiagem, sensores e soluções para aplicações aeroespaciais e de defesa. 

Essa relação anterior oferece uma base para a integração das capacidades das duas empresas. A AKAER agrega experiência de engenharia e industrialização, enquanto a EDGE reúne um portfólio diversificado de tecnologias de defesa, sistemas autônomos e soluções avançadas, além de presença comercial internacional. A combinação pode facilitar o desenvolvimento de novos produtos e ampliar as possibilidades de participação em programas conduzidos pelo grupo.

O alcance efetivo dessa integração, contudo, dependerá das decisões sobre investimentos, distribuição de responsabilidades industriais e definição dos programas que serão desenvolvidos ou produzidos no Brasil.

O que a aquisição representa para o Brasil

A EDGE apresenta o país como um polo estratégico para seus investimentos, destacando a disponibilidade de profissionais altamente qualificados, a infraestrutura industrial e as oportunidades de crescimento no setor aeroespacial e de defesa.

A continuidade das operações da AKAER no Brasil é um aspecto importante dessa estratégia. A estrutura local permite preservar competências técnicas, relações com clientes e conhecimento acumulado pela equipe brasileira. A operação também foi estruturada para manter o enquadramento da empresa como Empresa Estratégica de Defesa (EED), com participação societária da SIATT. 

A manutenção desse status é relevante porque a classificação como EED está associada a requisitos legais e regulatórios específicos da Base Industrial de Defesa brasileira. A preservação da estrutura local, entretanto, não elimina a necessidade de acompanhar como serão organizadas a governança, a propriedade intelectual e a participação da engenharia nacional nos projetos futuros.

O principal potencial para o país está na possibilidade de transformar a presença de um grupo internacional em novas atividades de engenharia, desenvolvimento tecnológico e industrialização realizadas no Brasil. Para que isso se concretize, será importante que a AKAER participe não apenas como fornecedora de serviços de engenharia, mas também de etapas relevantes do desenvolvimento e da produção de sistemas de maior valor agregado.

Oportunidades em programas estratégicos

A aquisição também pode ampliar as possibilidades de colaboração em áreas como sistemas não tripulados, tecnologias eletro-ópticas e infravermelhas, aplicações espaciais e integração de sistemas avançados. Essas áreas estão entre as capacidades que a EDGE busca fortalecer com a incorporação da empresa brasileira. 

A experiência da AKAER em projetos complexos pode contribuir para aproximar as necessidades de programas internacionais da capacidade produtiva brasileira. Ao mesmo tempo, a estrutura global da EDGE poderá oferecer oportunidades de acesso a novos mercados, desde que os projetos sejam acompanhados de investimentos, responsabilidades industriais definidas e condições comerciais sustentáveis.

Para a Base Industrial de Defesa, o resultado mais significativo será a capacidade de ampliar o trabalho de engenharia realizado no país e gerar novas oportunidades para profissionais, fornecedores e empresas nacionais. A simples mudança de controle societário não garante esses resultados; eles dependerão de como a integração será executada e de quais atividades permanecerão efetivamente sob responsabilidade das equipes brasileiras.

A conclusão da aquisição consolida a presença da EDGE no Brasil e aproxima duas estruturas com competências complementares. O próximo passo será transformar essa combinação em programas concretos, com desenvolvimento tecnológico, industrialização e participação brasileira capazes de gerar resultados de longo prazo para o setor aeroespacial e de defesa.


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Portugal avança na construção de navio logístico na Türkiye e abre uma referência de interesse para a Marinha do Brasil

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Com entrega prevista para 2028, o NRP Fernando Pessoa integra a modernização da Marinha Portuguesa e oferece ao Brasil uma oportunidade para avaliar a capacidade industrial turca, em meio à necessidade futura de substituir seu atual navio-tanque.

A Marinha Portuguesa avançou na renovação de sua capacidade logística com a cerimônia de assentamento do primeiro bloco da quilha do futuro NRP Fernando Pessoa, realizada em 20 de outubro, no estaleiro ADA Shipyard em Tuzla, Istambul, na Türkiye. A embarcação será a segunda unidade de uma nova classe de Navios Reabastecedores de Esquadra e Logísticos, projetada para ampliar a autonomia das operações navais portuguesas.

A cerimônia foi presidida pelo chefe do Estado-Maior da Armada de Portugal, almirante Jorge Nobre de Sousa, e contou com a presença do comandante naval da Marinha da Türkiye, almirante Kadir Yıldız, além de representantes militares e civis dos dois países. O projeto combina a modernização da frota portuguesa com a capacidade de construção naval turca, inserindo o estaleiro de Istambul no programa estratégico para Lisboa.

Com 137 metros de comprimento e deslocamento de aproximadamente 11 mil toneladas, o NRP Fernando Pessoa terá propulsão híbrida, combinando sistemas diesel e elétrico, e velocidade máxima superior a 18 nós. A guarnição será composta por 50 militares, com alojamentos adicionais para receber temporariamente mais de 100 pessoas.

O navio transportará e fornecerá combustível para embarcações e aeronaves, água potável, munições e carga geral, além de oferecer apoio logístico diversificado e recursos hospitalares ampliados. Essas capacidades permitirão sustentar operações prolongadas, apoiar forças navais afastadas de suas bases e contribuir para missões humanitárias e de resposta a catástrofes.

O programa inclui também o NRP Luís de Camões. Juntos, os dois navios deverão ampliar a capacidade portuguesa de manter unidades navais em operação por períodos mais longos, reforçando a presença do país no Atlântico e o cumprimento de compromissos internacionais, como a OTAN. A entrega do NRP Fernando Pessoa está prevista para o final de 2028.

A construção na Türkiye demonstra a participação da indústria naval turca em programas internacionais de modernização de frotas, uma experiência que pode interessar a países que buscam renovar suas capacidades e avaliar alternativas de cooperação industrial.

O programa português representa oportunidade para o Brasil?

A experiência merece atenção da Marinha do Brasil. A extensão do litoral, a proteção da Amazônia Azul e a necessidade de operar em áreas distantes tornam o reabastecimento no mar essencial para ampliar a permanência de escoltas e outros meios navais em missão, reduzindo a dependência de apoio em terra.

Atualmente, a Marinha brasileira dispõe do Navio-Tanque Almirante Gastão Motta, incorporado em 1991, para o apoio logístico oceânico à Esquadra. Além da idade, a embarcação possui casco simples, característica que impõe limitações diante de determinadas exigências ambientais e condições de operação internacional. A aplicação dessas restrições depende das normas e do contexto operacional, mas a configuração do navio é um fator relevante no planejamento de longo prazo. A dependência de uma única plataforma também reforça a importância de preparar sua futura substituição.

Nesse cenário, acompanhar a construção do NRP Fernando Pessoa pode oferecer ao Brasil uma referência concreta para avaliar a indústria naval turca. O andamento do cronograma, a execução do projeto e a capacidade de entrega do estaleiro são aspectos que podem ajudar a dimensionar a experiência industrial da Türkiye na construção de navios logísticos dessa categoria.

Existe um canal institucional que pode facilitar esse acompanhamento. Em abril de 2026, durante a LAAD, as Marinhas do Brasil e de Portugal assinaram um instrumento de entendimento voltado à cooperação e ao intercâmbio de informações sobre programas navais. Esse mecanismo abre espaço para conhecer melhor a experiência portuguesa com o projeto, incluindo aspectos de contratação, construção e avaliação da capacidade de entrega do fornecedor turco.

O intercâmbio não significa que o Brasil adotará o mesmo projeto. As necessidades brasileiras exigem avaliação própria de requisitos operacionais, capacidade de transporte e transferência de combustível, autonomia, custos de ciclo de vida e integração com os meios existentes, além de construção no Brasil. Ainda assim, as informações obtidas por meio da cooperação com Portugal podem contribuir para uma análise mais fundamentada de alternativas disponíveis no mercado internacional.

A perspectiva ganha outra dimensão com o Acordo sobre Cooperação em Indústria de Defesa entre Brasil e Türkiye, assinado em 2022 e aprovado pelo Congresso Nacional em setembro de 2025. O instrumento estabelece uma base para ampliar a cooperação técnico-industrial entre os dois países, criando condições para examinar oportunidades que envolvam desenvolvimento de capacidades, participação industrial e transferência de conhecimento.

A combinação dos dois mecanismos, com o intercâmbio de informações navais entre Brasil e Portugal e o acordo de cooperação em defesa entre Brasília e Ancara, abre uma janela interessante para estudar possíveis caminhos para a renovação da capacidade logística naval brasileira. A experiência portuguesa pode servir tanto para observar o desempenho da indústria turca quanto para compreender como um parceiro europeu estruturou a contratação de uma nova classe de navios de apoio.

Para o Brasil, o desafio será transformar essas referências em uma avaliação alinhada às suas próprias necessidades, considerando a participação da indústria nacional, a sustentação ao longo da vida útil e a autonomia operacional. Com a futura substituição do Almirante Gastão Motta no horizonte do planejamento naval, acompanhar um programa em execução na Türkiye por meio de um parceiro que já mantém relação institucional com a Marinha brasileira pode representar uma oportunidade concreta de ampliar o conhecimento disponível antes de uma eventual decisão.


por Angelo Nicolaci


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Elbit Systems compra empresa canadense e amplia capacidade de guerra submarina com drones autônomos

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Aquisição da International Submarine Engineering incorpora veículos subaquáticos não tripulados ao portfólio da empresa israelense, com aplicações em vigilância, caça a submarinos e neutralização de minas navais.

A israelense Elbit Systems concluiu a aquisição da canadense International Submarine Engineering (ISE), especializada em robótica e sistemas subaquáticos autônomos e operados remotamente. Anunciada em 20 de outubro, a operação amplia a presença da fabricante israelense no ambiente submarino e abre caminho para integrar veículos não tripulados subaquáticos às suas plataformas de superfície, sistemas de vigilância e estruturas de comando e controle. 

Sediada na região de Vancouver, no Canadá, a ISE atua no desenvolvimento e na fabricação de veículos subaquáticos autônomos (AUVs), veículos operados remotamente (ROVs), sistemas computadorizados de controle e soluções robóticas. Fundada em 1974, a empresa já entregou mais de 250 veículos subaquáticos a clientes em mais de 20 países, segundo os dados divulgados pela Elbit.

O valor da aquisição não foi revelado. A companhia informou que o preço pago não é material para seus resultados financeiros, sem detalhar as condições comerciais da transação.

Da superfície ao fundo do mar

A incorporação da ISE complementa uma capacidade que a Elbit vem desenvolvendo há anos com o Seagull, seu veículo de superfície não tripulado (USV). Projetado para missões navais, o sistema pode ser empregado em operações de vigilância, contramedidas de minas e guerra antissubmarino.

Com a nova aquisição, a empresa pretende avançar de plataformas de superfície para uma arquitetura que também inclua veículos capazes de operar debaixo d’água. A proposta é integrar aeronaves não tripuladas (VANTs), embarcações de superfície autônomas e veículos subaquáticos em uma estrutura comum de missão, sem excluir o emprego independente de cada sistema.

A combinação amplia as opções para operações de inteligência, vigilância e reconhecimento (ISR), nas quais diferentes plataformas podem coletar informações de áreas distintas e contribuir para a construção de um quadro operacional compartilhado. No ambiente naval, essa integração pode ajudar a monitorar áreas extensas, investigar contatos suspeitos e acompanhar atividades próximas a portos, rotas marítimas e infraestruturas submarinas.

A Elbit também reúne em seu portfólio sistemas de comando e controle, sensores eletro-ópticos, sonar, comunicações e guerra eletrônica. A aquisição da ISE acrescenta a esses recursos a experiência em robótica subaquática, permitindo à companhia oferecer soluções que conectem a detecção de ameaças à coleta de dados e à coordenação dos meios empregados.

Vigilância, minas e guerra antissubmarino

Entre as áreas que a Elbit pretende desenvolver com a tecnologia canadense estão a vigilância subaquática, as contramedidas de minas navais e a guerra antissubmarino. São missões nas quais veículos não tripulados podem reduzir a exposição de tripulações e ampliar a persistência das operações.

Os AUVs navegam de forma autônoma conforme uma missão programada, enquanto os ROVs são controlados remotamente por operadores. Dependendo da configuração, essas plataformas podem transportar sensores para mapear o fundo do mar, inspecionar estruturas, localizar objetos e coletar informações sobre atividades subaquáticas.

Na guerra de minas, veículos desse tipo podem pesquisar áreas de risco e identificar possíveis artefatos explosivos antes que navios tripulados atravessem a região. Na guerra antissubmarino, sensores e plataformas não tripuladas podem contribuir para a busca e o acompanhamento de contatos, embora a detecção efetiva dependa dos equipamentos embarcados, das condições ambientais e da integração com outros meios navais.

A aquisição não significa, por si só, que a Elbit já disponha de uma nova capacidade operacional plenamente integrada. A empresa apresentou a operação como uma expansão de seu portfólio, mas não divulgou um cronograma para a integração dos sistemas da ISE, nem anunciou contratos específicos associados à combinação das tecnologias.

Mercado de sistemas navais não tripulados

A compra ocorre em um momento de expansão do interesse militar por plataformas não tripuladas capazes de operar em diferentes ambientes. A vigilância do fundo do mar, a proteção de cabos e outras infraestruturas submarinas, a localização de minas e o acompanhamento de submarinos estão entre as missões que impulsionam o desenvolvimento dessas tecnologias.

A tendência também se reflete na evolução do Seagull. A Elbit vem desenvolvendo versões de diferentes dimensões e demonstrou aplicações voltadas à desminagem e à guerra antissubmarino. Em 2022, uma unidade participou do evento Digital Horizon, promovido pelo Comando Central dos Estados Unidos no golfo Pérsico para avaliar o emprego de sistemas não tripulados.

A estratégia naval da companhia também inclui cooperação industrial internacional. Em fevereiro de 2026, a Elbit e a alemã TKMS anunciaram a inauguração de uma linha de produção de componentes para submarinos em Israel. Em maio, as empresas firmaram um memorando de entendimento para explorar oportunidades de desenvolvimento, integração e comercialização de soluções avançadas de defesa naval. 

A aquisição da ISE reforça essa direção, acrescentando uma especialização que a Elbit não possuía na mesma escala em seu portfólio divulgado. O objetivo é conectar sistemas aéreos, de superfície e subaquáticos em operações coordenadas, ampliando a oferta da empresa para marinhas que buscam maior cobertura de vigilância e capacidade de atuação sem expor continuamente suas tripulações.

O resultado dependerá da integração técnica dos veículos, sensores e sistemas de comando, além da capacidade de transformar a combinação industrial em soluções operacionais adotadas por clientes. A transação, contudo, sinaliza que o desenvolvimento de capacidades navais está cada vez mais ligado à combinação de plataformas tripuladas e autônomas em múltiplos ambientes.


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Su-30SM cai durante treinamento em Kaliningrado e expõe desafios para a aviação russa no Báltico

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Os dois pilotos sobreviveram após a ejeção; acidente ocorreu no enclave estratégico cercado por países da OTAN, e suas causas ainda são desconhecidas.

Um caça Su-30 das Forças Armadas russas caiu nesta quarta-feira, 21 de outubro, durante um voo de treinamento na região de Kaliningrado. Os dois tripulantes conseguiram ejetar antes do impacto e foram resgatados. Segundo o Ministério da Defesa russo, a aeronave caiu em uma área desabitada e voava sem munição. As causas do acidente ainda não foram esclarecidas. 

A imprensa russa identificou a aeronave como um Su-30SM e informou que os dois pilotos sofreram ferimentos e foram hospitalizados. O local da queda fica no distrito de Chernyakhovsky, entre as localidades de Timofeevka e Zeleny Bor, próximo de uma das principais áreas de operação da aviação militar russa no enclave. Moscou não divulgou a unidade à qual pertencia o caça nem apresentou uma hipótese oficial para o acidente.

Perda em uma área estratégica para Moscou

Kaliningrado ocupa uma posição singular na estrutura militar russa. Separado do restante do território nacional, o enclave está situado entre a Polônia e a Lituânia, integrantes da OTAN, e permite à Rússia manter presença militar no mar Báltico, próximo das rotas marítimas e das fronteiras orientais da Aliança.

A aviação baseada na região reúne aeronaves de combate da Frota do Báltico e unidades das Forças Aeroespaciais russas. Nesse contexto, os caças Su-30SM e Su-30SM2 cumprem missões de combate aéreo e ataque, além de contribuir para a presença militar de Moscou na região.

Relatos russos relacionaram o acidente ao aumento da atividade de reconhecimento de países da OTAN nas proximidades do enclave. No entanto, não há evidências públicas que vinculem esses voos à queda. A ocorrência aconteceu durante uma atividade de treinamento, e qualquer associação com operações estrangeiras seria especulativa enquanto não houver resultados da investigação.

Frota relativamente pequena e entregas em lotes

A disponibilidade de aeronaves em Kaliningrado é um elemento importante para compreender o impacto da perda. Uma análise publicada pelo portal especializado Defence24 aponta que o regimento de aviação mista da Frota do Báltico recebeu oito Su-30SM e, posteriormente, 13 exemplares da versão modernizada Su-30SM2. Os dois últimos aviões desse lote chegaram em novembro de 2025. 

O mesmo levantamento descreve a renovação da aviação regional como gradual, com entregas em pequenos lotes. A perda de um caça não significa, por si só, uma alteração decisiva no equilíbrio militar do Báltico, mas reduz a disponibilidade da frota e exige reposição de material e recursos para manter a prontidão operacional.

Em julho de 2026, a estatal russa Rostec anunciou novas entregas de Su-30SM2 e de caças-bombardeiros Su-34 ao Ministério da Defesa. O comunicado, porém, não identificou os destinos das aeronaves, portanto não permite afirmar que os novos exemplares tenham sido enviados a Kaliningrado. 

Su-30SM: capacidade multimissão

Derivado da família Su-27, o Su-30SM é um caça pesado, bimotor e biposto, desenvolvido para cumprir missões de superioridade aérea, escolta e ataque contra alvos terrestres e marítimos. O segundo tripulante pode dividir as tarefas de navegação, gerenciamento de sensores e emprego de armamentos, especialmente em missões complexas ou de maior duração.

A versão Su-30SM2 incorpora melhorias em sistemas e equipamentos, com o objetivo de ampliar as capacidades de combate e aproximar parte de sua configuração à de outros aviões russos modernizados. Ambas as variantes podem empregar diferentes armamentos, de acordo com a missão e a configuração utilizada.

A causa da queda permanece o ponto central a esclarecer. Sem informações sobre os registros de manutenção, os parâmetros do voo e os exames dos destroços, não é possível atribuir o acidente a falha mecânica, erro humano ou deficiência de algum sistema. A investigação também deverá determinar se haverá necessidade de inspeções adicionais em outras aeronaves do mesmo tipo.

Por enquanto, o episódio confirma a perda de um caça em uma área de elevada importância militar, mas não permite concluir que exista um problema sistêmico na frota. O impacto operacional dependerá das conclusões da investigação e da capacidade russa de manter a disponibilidade de suas unidades aéreas no Báltico.


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Reino Unido coloca caças Typhoon na defesa da Arábia Saudita contra ataques houthis

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Decisão amplia o envolvimento direto da RAF na proteção do território saudita, após ataques contra o aeroporto de Riad, e reforça o apoio britânico às operações de defesa aérea do reino.

O Reino Unido empregará caças Eurofighter Typhoon para interceptar drones e mísseis houthis direcionados contra cidades e infraestruturas estratégicas da Arábia Saudita. Anunciada em 20 de outubro, a medida amplia a participação direta da Royal Air Force (RAF) na defesa do reino, em meio à intensificação dos ataques e à deterioração da segurança regional.

A decisão foi tomada após novos ataques contra alvos sauditas, incluindo o Aeroporto Internacional Rei Khalid, em Riad. Até então, o apoio britânico incluía equipamentos de defesa aérea e reabastecimento em voo para aeronaves sauditas. Com a entrada dos Typhoon, Londres passa a contribuir também com caças próprios para missões de interceptação sobre o território do aliado.

O governo britânico delimitou a missão como estritamente defensiva: os aviões deverão proteger o espaço aéreo saudita, sem realizar ataques contra posições houthis no Iêmen. O número de aeronaves e o cronograma de emprego não foram divulgados.

Reforço operacional e apoio logístico

O pacote britânico inclui ainda uma aeronave de transporte Airbus A400M, destinada à movimentação de material militar dentro da Arábia Saudita, e o envio de assessores para apoiar os oficiais sauditas. Londres também estendeu por mais 90 dias o apoio de reabastecimento em voo às operações aéreas defensivas do reino.

Esse último componente tem implicações que vão além da proteção imediata do espaço aéreo saudita. Segundo o Ministério da Defesa britânico, o suporte abrange operações destinadas a degradar capacidades militares houthis no Iêmen quando estas representam uma ameaça aos sauditas e aos iemenitas. Embora os Typhoon britânicos não devam executar ataques ofensivos, o apoio logístico pode contribuir para missões realizadas por aeronaves sauditas contra alvos militares em território iemenita.

A distinção é importante: Londres amplia sua participação militar, mas separa a missão de interceptação atribuída aos próprios caças do apoio às operações conduzidas pela Arábia Saudita.

O desafio de enfrentar drones e mísseis

O Eurofighter Typhoon é um caça multimissão com capacidade de interceptação e combate ar-ar. Sua utilização contra ameaças não tripuladas depende, contudo, da detecção e identificação dos alvos, das condições de engajamento e dos armamentos disponíveis. Drones de ataque e mísseis apresentam perfis distintos de velocidade, altitude e trajetória, exigindo respostas compatíveis com cada ameaça.

A presença de caças não elimina a necessidade de uma defesa aérea integrada. Radares, sensores, centros de comando e sistemas terrestres precisam compartilhar informações para detectar os alvos e coordenar a resposta. Essa integração também permite escolher o meio de interceptação mais adequado, uma questão relevante diante do custo de empregar armamentos sofisticados contra drones relativamente baratos.

O governo britânico não especificou quais armas serão utilizadas pelos Typhoon nem detalhou a integração operacional com os sistemas sauditas. Assim, ainda não há elementos para avaliar a capacidade de interceptação que será acrescentada à defesa aérea do reino.

A dimensão regional da decisão

A ampliação do apoio ocorre em um cenário no qual a segurança saudita está ligada à estabilidade do comércio e do fornecimento de energia. A escalada no Iêmen e as ameaças no entorno do Mar Vermelho aumentam a preocupação com rotas marítimas estratégicas, especialmente o estreito de Bab al-Mandab, passagem importante para o tráfego entre a Ásia, o Oriente Médio e a Europa. 

Para o Reino Unido, a instabilidade pode produzir efeitos econômicos diretos, pressionando os custos de energia, transporte e operações comerciais. O reforço militar também reafirma a parceria de defesa com Riad, em um momento no qual os ataques houthis ampliam o risco para a infraestrutura civil e os interesses regionais.

Londres, entretanto, reconhece que a força militar não oferece uma solução duradoura para o conflito iemenita e mantém o apoio a um processo político conduzido pelas Nações Unidas. Por ora, a mobilização dos Typhoon representa um passo adicional para proteger o território saudita, sem anunciar uma nova campanha ofensiva britânica contra os houthis.


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BAE Systems testa drone com três foguetes Hydra 70 guiados a laser para abater drones

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Versão militar do T-150 foi equipada com lançador triplo de foguetes de 70 mm e demonstrou capacidade de engajar sucessivos alvos aéreos durante uma única missão.

A britânica BAE Systems testou uma nova configuração de seu sistema antidrones, baseada em uma aeronave não tripulada equipada com três foguetes Hydra 70 dotados de guiamento a laser (APKWS). A demonstração ocorreu no fim de setembro, na Base Aérea de Eglin na Flórida, durante o exercício Mission Capabilities Joint Readiness Experimentation, conduzido pelo Departamento de Defesa dos Estados Unidos.

A plataforma utilizada foi o TRV-150, versão militar do drone T-150, desenvolvido pela Malloy Aeronautics, subsidiária da BAE Systems. Adaptada para transportar um lançador triplo de foguetes de 70 mm, a aeronave demonstrou capacidade de engajar múltiplos alvos aéreos em sequência, sem precisar retornar ao solo para rearmamento.

A principal evolução em relação aos testes de julho de 2025 está no aumento da capacidade de transporte de armamentos. Na demonstração anterior, a configuração utilizava uma única munição de precisão. Com três foguetes disponíveis, o sistema pode realizar mais engajamentos durante a mesma saída. A empresa, porém, não divulgou o número exato de alvos interceptados nos novos ensaios.

Foguetes Hydra 70 recebem guiamento a laser

O sistema utiliza foguetes Hydra 70 equipados com kits APKWS (Advanced Precision Kill Weapon System), desenvolvidos pela própria BAE Systems. O conjunto incorpora guiamento a laser a foguetes originalmente não guiados, convertendo-os em munições de precisão.

A solução aproveita um armamento já utilizado por diferentes plataformas militares, dispensando o desenvolvimento de uma munição inteiramente nova. Essa abordagem pode oferecer uma alternativa economicamente mais acessível a determinados mísseis antiaéreos dedicados, embora o custo efetivo de cada interceptação dependa da configuração empregada e dos resultados obtidos contra cada tipo de ameaça.

O guiamento a laser exige a designação adequada do alvo e condições que permitam conduzir o engajamento. Velocidade, altitude e manobrabilidade do drone adversário também influenciam o resultado. Assim, os testes não permitem concluir que o sistema terá o mesmo desempenho contra todas as categorias de aeronaves não tripuladas.

De drone logístico a plataforma armada

O T-150 foi concebido para transportar cargas e operar por decolagem e pouso vertical, sem depender de pistas convencionais. Sua adaptação para missões de combate amplia as possibilidades de emprego de uma plataforma originalmente desenvolvida para funções logísticas.

A versão TRV-150 foi adaptada aos requisitos do Exército dos Estados Unidos pela SURVICE Engineering, enquanto a integração do lançador de foguetes ficou a cargo da divisão FalconWorks da BAE Systems.

A aeronave também possui experiência em operações marítimas. Em 2025, drones T-150 transportaram suprimentos entre navios do grupo de ataque de porta-aviões da Marinha Real britânica durante um destacamento de oito meses na região do Indo-Pacífico.

A BAE Systems pretende explorar o emprego do sistema antidrones em ambientes marítimos, nos quais aeronaves não tripuladas representam uma ameaça crescente a navios e instalações portuárias. Para isso, a plataforma armada precisará operar integrada aos sensores de detecção, aos sistemas de comando e controle e às demais camadas de defesa.

Foguetes guiados ampliam as opções contra drones

A iniciativa britânica acompanha a busca por alternativas capazes de enfrentar ataques com aeronaves não tripuladas sem depender exclusivamente de mísseis antiaéreos de custo elevado. A conversão de foguetes de 70 mm em munições guiadas permite aproveitar tecnologias existentes em uma nova função, embora sua viabilidade dependa das características do alvo e das condições de interceptação.

Entre as soluções internacionais está o FZ275 LGR da Thales, que também utiliza guiamento a laser. A empresa apresentou ainda o LGR275 Proxy, variante concebida para ampliar a capacidade de engajamento de alvos aéreos com o emprego de um sensor de proximidade. Outra alternativa é o CIRIT, da turca Roketsan, foguete guiado a laser de 70 mm destinado principalmente ao ataque contra alvos terrestres.

O diferencial da configuração da BAE Systems está na combinação entre uma plataforma não tripulada de transporte e um lançador com múltiplas munições. Em cenários com ataques simultâneos, essa arquitetura pode ampliar a capacidade de resposta e permitir sucessivos engajamentos sem que a aeronave precise retornar imediatamente para recarga.

O desafio será comprovar a eficácia contra ameaças de diferentes velocidades e altitudes, especialmente diante da evolução dos drones de ataque. A integração com redes de sensores e comando, assim como o custo por interceptação, será determinante para estabelecer o valor operacional da solução.


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Exército dos EUA testa míssil Spike NLOS no ISV-U e amplia capacidade de ataque móvel da infantaria

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Demonstração com 17 engajamentos avalia o emprego de um míssil de precisão em uma viatura tática leve; no Brasil, o Corpo de Fuzileiros Navais utiliza o ISV como plataforma do programa SMACE.

O Exército dos Estados Unidos realizou uma demonstração de tiro real do míssil Spike NLOS a partir da viatura Infantry Squad Vehicle–Utility (ISV-U), em um teste voltado à ampliação da capacidade de ataque de precisão da infantaria leve. A atividade durou três dias no campo de provas de Dugway, em Utah, e envolveu 17 engajamentos contra alvos simulados, segundo informações divulgadas pela Lockheed Martin.

A demonstração marcou a primeira utilização do Spike NLOS nessa variante do ISV. A maioria dos disparos foi realizada por militares do próprio Exército norte-americano, após treinamento conduzido naquela semana. Além de verificar a integração entre o míssil e a viatura, o exercício permitiu avaliar a operação do sistema pelas tropas.

Viatura leve ganha capacidade de ataque de precisão

Concebido para transportar soldados e equipamentos em terrenos difíceis, o Infantry Squad Vehicle privilegia a mobilidade e a capacidade de acompanhar formações de infantaria. Sua arquitetura permite adaptar a plataforma a diferentes missões, incluindo o transporte de equipamentos especializados.

Com a integração do Spike NLOS, o ISV-U passa a oferecer uma opção de ataque de precisão sem exigir uma plataforma de combate pesada dedicada. O míssil pode engajar alvos além da linha de visada direta, ampliando as possibilidades de emprego quando obstáculos ou características do terreno limitam a observação visual.

Essa configuração permite combinar deslocamento rápido, escolha de posições de lançamento e reposicionamento após o engajamento. O desempenho operacional, porém, depende também da integração dos sensores, das comunicações e dos procedimentos de coordenação com as demais unidades.

M-LRPSM busca ampliar o poder de fogo da infantaria

A demonstração integra os esforços associados ao requisito Mobile-Long-Range Precision-Strike Missile (M-LRPSM), iniciativa do Exército dos Estados Unidos destinada a ampliar a capacidade de ataque móvel de precisão das brigadas de infantaria.

A proposta é permitir que essas unidades engajem alvos a maiores distâncias e disponham de mais autonomia para enfrentar ameaças relevantes, reduzindo a dependência exclusiva de apoio de fogo externo. A combinação de mísseis de precisão com viaturas leves oferece novas possibilidades de posicionamento e emprego tático.

O desenvolvimento está associado à iniciativa Transformation in Contact, que permite às unidades militares experimentar novas configurações e fornecer avaliações a partir da experiência prática. Os resultados dos testes contribuem para aperfeiçoar a integração e orientar as próximas etapas do programa.

A demonstração de tiro real representa um avanço na avaliação da solução, mas não significa, por si só, que a configuração esteja plenamente incorporada às unidades operacionais. A continuidade dos ensaios e a validação dos requisitos serão determinantes para sua evolução.

Spike NLOS amplia as opções de engajamento

Desenvolvido pela empresa israelense Rafael, o Spike NLOS pertence a uma família de mísseis de precisão concebidos para atacar alvos a distâncias superiores às normalmente associadas a sistemas anticarro de curto alcance. Sua capacidade de engajar objetivos além da linha de visada direta amplia as opções de ataque em ambientes nos quais a observação visual é limitada.

A integração a uma viatura leve busca disponibilizar essa capacidade a unidades que precisam preservar a mobilidade e operar com uma estrutura logística compatível com a infantaria. Em vez de depender exclusivamente de veículos especializados de maior porte, os comandantes passam a contar com outra possibilidade de posicionar armamentos de precisão junto às tropas.

A eficácia desse emprego não depende apenas do alcance do míssil. A identificação correta dos alvos, a qualidade das informações recebidas, a confiabilidade das comunicações e a coordenação entre as unidades são fatores essenciais, sobretudo em ambientes marcados pela presença de drones e pela ameaça constante de ataques de precisão.

Mobilidade e dispersão no campo de batalha

A iniciativa norte-americana acompanha uma transformação na organização das forças terrestres, que buscam distribuir sensores e armamentos por plataformas móveis para aumentar a flexibilidade das unidades. Essa abordagem complementa, mas não substitui, o emprego de blindados, artilharia e outros meios de apoio.

A possibilidade de dispersar os sistemas e mudar rapidamente de posição pode dificultar sua localização pelo adversário. Em contrapartida, viaturas leves oferecem proteção mais limitada do que veículos de combate blindados, exigindo planejamento cuidadoso, consciência situacional e coordenação com os demais elementos da força.

O desafio está em equilibrar mobilidade, poder de fogo e sobrevivência. A integração de um armamento avançado a uma plataforma leve só alcança seu potencial quando acompanhada por treinamento, suporte logístico e procedimentos operacionais adequados.

Brasil: ISV-U integra o programa SMACE dos Fuzileiros Navais

No Brasil, o Corpo de Fuzileiros Navais da Marinha do Brasil também emprega o conceito de viatura leve multifuncional no desenvolvimento do Sistema de Mísseis Anticarro Expedicionário (SMACE). O programa utiliza o ISV-U, da GM Defense, como plataforma para integrar drones e o míssil anticarro MAX 1.2 AC, desenvolvido pela SIATT em parceria com o Centro Tecnológico do Exército.

Apresentado na Operação Formosa 2026, o sistema busca reunir mobilidade, reconhecimento e capacidade de engajamento anticarro em uma configuração voltada às necessidades expedicionárias do CFN. Os drones ampliam as possibilidades de observação e identificação de alvos, enquanto o MAX 1.2 AC acrescenta capacidade de enfrentamento de veículos blindados.

Embora os programas tenham armamentos e requisitos operacionais distintos, ambos exploram a versatilidade das viaturas leves para ampliar as capacidades da infantaria. Nos Estados Unidos, o foco está na avaliação do Spike NLOS como sistema de ataque móvel de precisão; no Brasil, o ISV-U serve de base ao SMACE, que combina sistemas não tripulados e armamento anticarro para apoiar as operações do Corpo de Fuzileiros Navais.


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Parlamento líbio aprova acordo marítimo com a Türkiye e amplia alcance de Ancara no Mediterrâneo

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A reversão da posição do Parlamento do leste da Líbia aproxima antigos adversários, fortalece a estratégia turca no Mediterrâneo Oriental e provoca reação de Grécia e União Europeia, sem encerrar a disputa jurídica sobre as fronteiras marítimas.

A aprovação unânime em 20 de outubro do memorando de delimitação marítima entre a Líbia e a Türkiye pela Câmara dos Representantes sediada no leste líbio, marca uma mudança relevante no tabuleiro geopolítico do Mediterrâneo Oriental. Seis anos depois de rejeitar o acordo e defender o rompimento das relações políticas com Ancara, o Parlamento revogou suas decisões anteriores e respaldou o entendimento firmado em 2019 pelo então Governo de Acordo Nacional, sediado em Trípoli.

A decisão aproxima dois campos que estiveram em lados opostos da guerra civil líbia e amplia o apoio político ao acordo dentro de um país ainda dividido. Para a Türkiye, o resultado representa um avanço diplomático: ao construir relações também com as autoridades do leste, Ancara reduz sua dependência de um único polo de poder e aumenta as possibilidades de preservar seus interesses na Líbia, independentemente de como evolua a disputa interna pelo controle do país.

O alcance dessa mudança, porém, precisa ser delimitado. A votação reforça a sustentação política do memorando, mas não resolve as objeções da Grécia, Egito e Chipre, nem produz automaticamente reconhecimento internacional das fronteiras marítimas reivindicadas pelos signatários.

Um acordo concebido durante a guerra

Assinado em 27 de novembro de 2019, o memorando surgiu em um momento crítico da guerra civil líbia. As forças comandadas por Khalifa Haftar avançavam sobre Trípoli, ameaçando derrubar o governo reconhecido internacionalmente e apoiado pela Türkiye.

Ancara interveio em favor das autoridades ocidentais, enviando assessores militares, equipamentos e aeronaves não tripuladas. A assistência turca contribuiu para reverter a ofensiva contra a capital e consolidou a influência de Ancara como um dos fatores determinantes do equilíbrio militar líbio.

O acordo marítimo fazia parte de uma estratégia que ultrapassava o conflito terrestre. O documento estabeleceu coordenadas para a delimitação das áreas de jurisdição marítima entre os dois países, incluindo reivindicações sobre a plataforma continental e a zona econômica exclusiva. Para a Türkiye, ofereceu uma base diplomática para contestar interpretações sobre os direitos marítimos das ilhas gregas que, na visão turca, restringem excessivamente sua projeção no Mediterrâneo.

A Grécia rejeita essa interpretação. Atenas sustenta que o memorando desconsidera os direitos marítimos de suas ilhas, incluindo Creta, e contesta a legitimidade da delimitação proposta. A divergência envolve a aplicação do direito internacional do mar, a geografia da região e a sobreposição de reivindicações sobre áreas com potencial econômico e importância estratégica.

O documento foi registrado nas Nações Unidas em dezembro de 2019, mas esse procedimento não representa uma validação jurídica de seu conteúdo pela organização. A controvérsia permanece aberta e passou a integrar uma disputa regional mais ampla, na qual acordos concorrentes e projetos de infraestrutura se cruzam com interesses energéticos e estratégicos.

A reaproximação com Haftar altera as alianças

A aprovação pelo Parlamento oriental ganha significado adicional por representar uma reversão política. Em 2020, a Câmara havia rejeitado os memorandos firmados com a Türkiye e aprovado o rompimento das relações políticas com Ancara, em meio à oposição à intervenção turca na guerra civil.

Agora, a mesma instituição revogou essas decisões. A mudança ocorre após a ampliação dos contatos entre autoridades turcas e o campo militar liderado por Haftar, incluindo iniciativas de cooperação relacionadas a instalações militares e sistemas avançados de vigilância, segundo informações publicadas pela Al Jazeera.

A aproximação demonstra que as divisões da guerra civil já não impedem, por si só, a construção de entendimentos pragmáticos. Para o campo oriental, o relacionamento com Ancara pode abrir oportunidades de cooperação militar, econômica e diplomática. Para a Türkiye, o contato com os dois polos líbios amplia sua margem de manobra e reduz os riscos de ver seus interesses comprometidos por uma eventual reorganização política em Trípoli.

Isso não significa que as rivalidades tenham desaparecido ou que os antigos alinhamentos tenham sido integralmente abandonados. O campo de Haftar mantém relações com outros atores regionais, entre eles o Egito, que se opõe ao memorando marítimo turco-líbio. A nova convergência revela, contudo, que os interesses das autoridades líbias não coincidem necessariamente com as prioridades de todos os seus parceiros externos.

Também não há elementos suficientes para afirmar que a aprovação decorreu de uma troca específica de concessões. O que os fatos demonstram é que a reaproximação política e militar criou condições favoráveis para uma mudança de posição que em 2020 parecia improvável.

Energia e infraestrutura no centro da disputa

O memorando tem implicações que vão além da delimitação cartográfica. As reivindicações sobre a plataforma continental e a zona econômica exclusiva estão relacionadas aos direitos de exploração de recursos do subsolo marinho e podem influenciar futuras negociações sobre projetos energéticos e infraestrutura submarina.

O Mediterrâneo Oriental tornou-se um espaço de competição em torno do gás natural, das rotas de abastecimento e das conexões entre mercados. Nesse contexto, Ancara utiliza o acordo com a Líbia para sustentar sua interpretação das áreas marítimas e contestar iniciativas que considera incompatíveis com seus interesses.

A disputa também afeta projetos de infraestrutura. Em outubro de 2026, a Grécia informou que um projeto de interconexão elétrica submarina entre o território europeu e Chipre, com possível extensão a Israel, buscava retomar levantamentos do fundo marinho. A Türkiye contesta parte das atividades em áreas abrangidas por suas reivindicações baseadas no memorando de 2019.

A aprovação parlamentar fortalece politicamente a posição turca, mas não autoriza, por si só, novas concessões de exploração, não confirma descobertas de gás e tampouco garante a execução de projetos comerciais. Esses resultados dependem de decisões adicionais, viabilidade econômica, estudos técnicos e da capacidade de administrar as controvérsias entre os países envolvidos.

O ganho imediato de Ancara é diplomático: o acordo deixa de enfrentar a oposição formal do Parlamento oriental líbio, que anteriormente o rejeitava, e passa a contar com respaldo político de campos que disputaram o controle do país.

Grécia e União Europeia reagem

A resposta grega foi imediata. Atenas rejeitou a aprovação e reafirmou que considera o memorando ilegal e sem fundamento jurídico, alegando que o acordo viola o direito internacional do mar e os direitos soberanos de outros países. O governo grego também declarou que comunicou sua posição a parceiros e aliados e que adotará as medidas necessárias para proteger seus interesses. 

A União Europeia, por sua vez, afirmou que o acordo prejudica os direitos soberanos de terceiros, não está de acordo com o direito do mar e é inválido. Em declaração conjunta, os presidentes do Conselho Europeu e da Comissão Europeia reiteraram o apoio do bloco à Grécia e a Chipre e manifestaram oposição à interferência externa na Líbia.

O Egito também se opõe ao memorando e firmou com a Grécia, em agosto de 2020, um acordo próprio de delimitação da zona econômica exclusiva. A posição do Cairo torna a aproximação entre Ancara e o campo oriental líbio particularmente relevante: autoridades que mantiveram relações próximas com o Egito agora respaldam um entendimento contestado pelo governo egípcio.

Essa convergência não significa que o Cairo tenha perdido sua influência no leste da Líbia ou que Haftar tenha rompido com seus parceiros tradicionais. Ela indica, antes, que a competição regional se tornou mais complexa, com atores locais dispostos a diversificar suas relações para ampliar as próprias opções políticas e estratégicas.

Para Atenas e Bruxelas, o desafio passa a ser não apenas contestar o conteúdo do memorando, mas lidar com seu novo respaldo político dentro da Líbia. A votação não elimina as objeções internacionais, porém reduz o espaço para tratar o acordo como uma iniciativa sustentada exclusivamente pelo governo de Trípoli.

O respaldo político não encerra a disputa jurídica

A aprovação parlamentar precisa ser distinguida de uma decisão judicial internacional. O registro do memorando nas Nações Unidas não equivale à validação de suas disposições por uma corte, assim como a aprovação pelo Parlamento oriental não resolve a controvérsia sobre os direitos marítimos de terceiros.

O artigo 34 da Convenção de Viena sobre o Direito dos Tratados estabelece, como regra geral, que um tratado não cria obrigações ou direitos para um terceiro Estado sem seu consentimento. Assim, um acordo bilateral não pode, por si só, eliminar direitos marítimos que outro país reivindique com base no direito internacional.

Também não existe uma regra segundo a qual todas as ilhas recebem necessariamente o mesmo efeito na delimitação marítima. A avaliação depende da geografia, das circunstâncias relevantes e das normas aplicáveis. É nesse ponto que se concentra parte essencial da divergência entre as posições turca e grega.

A Türkiye não é parte da Convenção das Nações Unidas sobre o Direito do Mar de 1982. Isso, contudo, não a exclui automaticamente de todas as normas internacionais aplicáveis ao uso dos mares, já que princípios de direito internacional consuetudinário também podem ser relevantes para a análise das reivindicações.

A votação amplia o respaldo político ao memorando, mas não substitui o reconhecimento por outros países nem resolve as questões jurídicas em disputa. A evolução do caso dependerá das posições diplomáticas dos envolvidos, de eventuais negociações e dos mecanismos jurídicos que as partes estejam dispostas a aceitar.

Uma vitória diplomática, ainda sem desfecho estratégico

A aprovação do memorando pela Câmara dos Representantes do leste líbio representa um avanço para a estratégia turca no Mediterrâneo Oriental. Ancara conseguiu aproximar-se de um campo político que rejeitou o acordo durante anos e que esteve em conflito com seus aliados em Trípoli.

O resultado amplia a capacidade turca de atuar em diferentes centros de poder líbios e fortalece a posição diplomática do país em uma disputa marítima de longo prazo. Ao mesmo tempo, expõe a flexibilidade das alianças regionais: antigas rivalidades podem dar lugar a entendimentos quando os interesses políticos, militares ou econômicos convergem.

O ganho, entretanto, não deve ser confundido com uma vitória jurídica definitiva. Grécia, Egito, Chipre e União Europeia mantêm suas objeções, e a aprovação não altera automaticamente os limites marítimos reconhecidos internacionalmente nem assegura benefícios econômicos concretos.

A principal mudança está nas condições políticas que sustentam o acordo. Ao conquistar o respaldo do Parlamento oriental, a Türkiye reduz uma das resistências internas líbias ao memorando e amplia suas opções para preservar influência no país. A disputa pelo Mediterrâneo Oriental continua aberta, mas Ancara passa a enfrentá-la com uma base política mais ampla dentro da Líbia.



por Angelo Nicolaci


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terça-feira, 20 de outubro de 2026

Türkiye amplia cooperação industrial de defesa com Catar, Paquistão e Indonésia, abrindo novas perspectivas para o Brasil

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Memorando previsto para ser assinado em Doha reforça a estratégia turca de produção conjunta e transferência de tecnologia. Experiências internacionais e acordos já firmados com empresas brasileiras apontam oportunidades nos setores terrestre, aeronáutico e de mísseis.

A Türkiye avança na construção de uma rede internacional de cooperação na indústria de defesa. Um memorando de entendimento envolvendo Türkiye, Catar, Paquistão e Indonésia está previsto para ser assinado em Doha, segundo informações divulgadas em 20 de outubro pela Presidência das Indústrias de Defesa turca (SSB). A iniciativa busca aprofundar relações industriais existentes, integrar cadeias de fornecimento e ampliar as capacidades de produção conjunta.

A proposta reflete uma mudança na forma como Ancara busca ampliar sua presença no mercado internacional. Em vez de limitar as relações à exportação de equipamentos acabados, a indústria turca procura estabelecer parcerias que envolvam fabricação local, desenvolvimento tecnológico, capacitação de mão de obra e participação dos países compradores em diferentes etapas do ciclo de vida dos sistemas militares. O anúncio, contudo, não significa que novos contratos tenham sido firmados entre os quatro participantes.

Produção local e transferência de tecnologia

No Catar, a cooperação com a Türkiye inclui a instalação de capacidades industriais voltadas à fabricação de equipamentos de defesa. A BARQ, empresa estabelecida a partir da parceria entre a turca ASELSAN e a catariana Barzan Holding, representa um exemplo dessa aproximação, com atuação relacionada a sistemas de armas remotamente controlados e soluções eletro-ópticas.

O modelo permite associar a experiência tecnológica de uma empresa estrangeira aos investimentos e às estruturas industriais do país parceiro. Para o Catar, a iniciativa contribui para desenvolver competências locais; para a Türkiye, amplia a presença de seus fornecedores e cria condições para manter vínculos industriais com um mercado estratégico.

No Paquistão, a cooperação alcança um dos segmentos mais complexos da indústria militar: a construção naval. O programa de quatro corvetas da classe Babur, derivadas do projeto turco MILGEM, prevê duas unidades construídas na Türkiye e outras duas no estaleiro de Karachi. A execução compartilhada envolve a participação da indústria paquistanesa em atividades de construção e integração, criando oportunidades para absorção de conhecimentos de engenharia naval e produção.

A importância desse formato vai além da distribuição das unidades entre dois países. A participação de um estaleiro local em um programa naval de maior complexidade pode ampliar competências em fabricação, montagem, integração de sistemas e manutenção. O alcance tecnológico efetivamente transferido, entretanto, depende das atividades previstas nos contratos e da autonomia concedida à indústria receptora.

A Indonésia oferece outro exemplo, agora no setor terrestre. O KAPLAN MT, conhecido localmente como Harimau, foi desenvolvido pela turca FNSS em parceria com a PT Pindad. O programa combina conhecimentos das duas empresas e inclui transferência de tecnologia para permitir a produção local.

A FNSS fabricou os protótipos e as primeiras unidades de série, enquanto a PT Pindad passou a assumir a produção na Indonésia, conforme a evolução do programa. A iniciativa demonstra como uma parceria inicialmente apoiada na capacidade de desenvolvimento de uma empresa estrangeira pode contribuir para estabelecer uma base produtiva no país comprador.

Os três casos apresentam diferentes níveis de cooperação, mas compartilham um princípio: o equipamento funciona como ponto de partida para uma relação industrial mais ampla. O memorando anunciado para Doha poderá criar condições para aprofundar essa lógica entre os quatro países, embora seus efeitos concretos dependam do conteúdo final do instrumento e de eventuais acordos de implementação.

Exportações sustentam a expansão da indústria turca

A aproximação com novos parceiros ocorre em um período de forte crescimento das exportações turcas de defesa e aeroespacial. Segundo dados divulgados pela SSB, o setor exportou mais de US$ 10 bilhões em 2025, alcançando aproximadamente US$ 10,05 bilhões, alta de 48% em relação ao ano anterior. Em 2024, as exportações haviam somado cerca de US$ 7,1 bilhões.

Em 20 de outubro de 2026, a SSB informou que as exportações acumuladas entre 2023 e os primeiros nove meses de 2026 ultrapassaram US$ 30 bilhões. Esse volume corresponde a mais de 55% dos aproximadamente US$ 54 bilhões registrados pelo setor desde 2012, segundo os dados divulgados pelas autoridades turcas.

Os números ajudam a dimensionar a velocidade da expansão industrial, mas também evidenciam a importância de distinguir exportações realizadas de contratos assinados e encomendas futuras. São indicadores diferentes: enquanto as exportações refletem entregas contabilizadas, os contratos podem abranger programas cuja execução se estenderá por vários anos.

A estratégia turca combina o desenvolvimento de produtos próprios com acordos internacionais de produção, fornecimento de componentes e suporte. Essa combinação permite às empresas disputar mercados em que o comprador exige não apenas desempenho e preço competitivos, mas também participação industrial, acesso a serviços de manutenção e maior segurança no abastecimento de peças.

A sustentação desses vínculos pode ser decisiva para a continuidade dos negócios. Navios, aeronaves, veículos blindados e sistemas de armas exigem suporte logístico, reparos, atualizações e treinamento ao longo de décadas. Quando parte dessas atividades é realizada no país usuário, a aquisição inicial pode abrir caminho para uma relação industrial de longo prazo.

Brasil e Türkiye já possuem uma agenda industrial concreta

Para o Brasil, a expansão turca interessa especialmente porque a relação bilateral já ultrapassou o campo das declarações diplomáticas. Existem iniciativas empresariais concretas em engenharia aeronáutica, fabricação de componentes e integração de sistemas de defesa, além de possibilidades de cooperação no setor terrestre.

Um dos casos mais visíveis é o Tulpar, carro de combate (MMBT) desenvolvido pela turca Otokar. A plataforma está entre as alternativas observadas no contexto das discussões brasileiras sobre a futura família de carros de combate, incluindo configurações destinadas ao combate e ao transporte de tropas.

Em setembro de 2026, uma delegação do Exército Brasileiro acompanhou na Itália, uma demonstração de tiro real do Tulpar equipado com a torre HITFACT MkII, da Leonardo, armada com um canhão de 120 mm. A atividade ocorreu no contexto da avaliação da configuração oferecida ao mercado, mas não representa uma decisão de aquisição pelo Brasil. 

A configuração com canhão de 120 mm amplia as possibilidades de emprego da plataforma como veículo de combate de maior poder de fogo. Sua avaliação, porém, deve considerar o conjunto da solução: proteção, mobilidade, integração dos sistemas, logística, custo de ciclo de vida e compatibilidade com os requisitos operacionais do Exército.

Uma eventual escolha do Tulpar também abriria uma discussão industrial. O Brasil precisaria avaliar quais atividades poderiam ser executadas localmente, desde a fabricação de componentes e a montagem até a manutenção, a integração de equipamentos nacionais e as futuras modernizações. Esses benefícios não decorrem automaticamente da compra: dependem das condições contratuais e do nível de participação industrial efetivamente negociado.

Na aviação, a cooperação já conta com um instrumento formal. Em 1º de abril de 2025, durante a LAAD Defence & Security, no Rio de Janeiro, a Embraer e a Turkish Aerospace assinaram um memorando para explorar oportunidades de cooperação industrial relacionadas à família de aeronaves comerciais E2.

O entendimento prevê discussões sobre uma possível parceria que aproveite as capacidades turcas na fabricação e montagem de estruturas metálicas e compostas, na montagem de fuselagens e em atividades de teste e produção. A iniciativa também contempla a possibilidade de colaboração em pesquisa e desenvolvimento. Não se trata, contudo, de um contrato definitivo para transferir a produção de aeronaves E2 à Türkiye.

A cooperação entre a Türkiye e a indústria aeronáutica brasileira também aparece no programa HÜRJET, treinador avançado supersônico desenvolvido pela Turkish Aerospace. A brasileira Akaer foi selecionada para desenvolver partes da estrutura da aeronave e sistemas associados à fuselagem traseira, além de participar de atividades de engenharia estrutural em outras seções do projeto.

A participação da empresa brasileira evidencia uma modalidade de cooperação particularmente relevante para a Base Industrial de Defesa: a exportação de conhecimento de engenharia. Em vez de fornecer apenas componentes fabricados sob especificação de terceiros, empresas nacionais podem assumir responsabilidades de projeto, cálculo estrutural e integração de sistemas, acumulando experiência aplicável a outros programas.

No setor de mísseis, a aproximação entre as duas indústrias assumiu uma forma diferente. Durante a LAAD 2025, a turca Kale Jet Engines assinou com a brasileira SIATT um acordo de fornecimento de motores turbojato KTJ-3200 destinados ao míssil antinavio MANSUP-ER.

O acordo prevê a integração do motor turco ao míssil desenvolvido pela SIATT, permitindo combinar um componente fornecido pela indústria estrangeira com um sistema de armas concebido no Brasil. O caso demonstra que a cooperação internacional pode ocorrer em um nível altamente especializado, no qual o país mantém a responsabilidade pelo desenvolvimento de seu produto, mas depende de fornecedores externos para determinados subsistemas.

Esse arranjo também evidencia um ponto que merece atenção: a participação de fornecedores estrangeiros em sistemas nacionais exige planejamento para garantir disponibilidade de componentes, continuidade de fornecimento, suporte técnico e condições adequadas para futuras evoluções do produto. O equilíbrio entre acesso a tecnologias externas e domínio nacional sobre os sistemas é parte central da política industrial de defesa.

Do acordo bilateral à capacidade industrial brasileira

Brasil e Türkiye assinaram, em 25 de março de 2022, um Acordo sobre Cooperação em Indústria de Defesa. O instrumento estabelece uma base jurídica para iniciativas conjuntas no setor, respeitando as legislações nacionais e os interesses das partes. Em setembro de 2025, o Congresso Nacional aprovou seu texto por meio do Decreto Legislativo nº 195, publicado no Diário Oficial da União.

O acordo oferece uma estrutura para aprofundar a cooperação, mas não determina a contratação de equipamentos específicos nem assegura, por si só, transferência de tecnologia. Cada programa precisa estabelecer responsabilidades, investimentos, direitos de propriedade intelectual, requisitos de segurança e condições de acesso às tecnologias envolvidas.

É nesse ponto que a experiência turca com seus parceiros ganha relevância para o Brasil. A produção de blindados na Indonésia, a construção naval compartilhada com o Paquistão e as parcerias industriais no Catar demonstram que existem diferentes formas de estruturar a participação local. A escolha depende da maturidade tecnológica do parceiro, do volume de encomendas, da capacidade de investimento e dos objetivos estratégicos de cada programa.

Para a indústria brasileira, o objetivo deve ser transformar oportunidades comerciais em competências duradouras. Isso significa buscar participação em engenharia, fabricação, integração, manutenção e modernização, além de definir quais conhecimentos precisam permanecer acessíveis às empresas e aos profissionais nacionais.

O interesse pelo Tulpar, a cooperação entre Embraer e Turkish Aerospace, a participação da Akaer no HÜRJET e o fornecimento de motores para o MANSUP-ER ilustram caminhos diferentes de aproximação. Cada um envolve condições técnicas e comerciais próprias, mas todos oferecem referências para discutir o equilíbrio entre cooperação internacional e autonomia industrial.

O memorando previsto para Doha reforça a estratégia turca de ampliar sua presença internacional por meio de relações industriais mais profundas. Para o Brasil, o movimento serve como referência para avaliar como acordos bilaterais e parcerias empresariais podem evoluir para programas com responsabilidades definidas, participação produtiva e resultados tecnológicos mensuráveis.

A medida do sucesso, portanto, não será a quantidade de memorandos assinados, mas a capacidade de convertê-los em projetos sustentáveis, com investimentos, produção, suporte e desenvolvimento de competências. É nesse resultado concreto que a cooperação entre Brasil e Türkiye poderá demonstrar seu verdadeiro alcance estratégico.


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