quarta-feira, 12 de agosto de 2026

Escudo das Américas - Além de Washington: como a América Latina pode responder à nova arquitetura de segurança

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A transformação da arquitetura de segurança do Hemisfério Ocidental não coloca a América Latina diante de uma escolha simples entre alinhamento ou oposição aos Estados Unidos. O desafio é bem mais complexo: preservar capacidade de decisão, ampliar a autonomia estratégica, e ao mesmo tempo construir mecanismos de cooperação que permitam aos países da região participar da definição das regras de segurança que afetarão diretamente seus interesses.

A discussão sobre uma nova arquitetura de segurança para o Hemisfério Ocidental não pode, portanto, ser reduzida à atuação de Washington. Os Estados Unidos continuam concentrando a maior capacidade militar, tecnológica, econômica e de inteligência do continente, além de uma extensa rede de alianças e acordos que lhes confere enorme influência sobre o ambiente estratégico regional. Entretanto, a forma como essa nova arquitetura será consolidada também dependerá das escolhas dos países latino-americanos, sobretudo, da sua capacidade de participar ativamente desse processo.

É nesse ponto que surge uma questão central para os próximos anos: qual será o papel da América Latina na definição de sua própria arquitetura de segurança?

A resposta não está na construção de uma estrutura destinada a simplesmente contrapor-se à influência norte-americana, tampouco na aceitação automática das prioridades estabelecidas por Washington. O desafio está em construir capacidade suficiente para que os países da região possam cooperar sem abrir mão de sua capacidade de decisão e negociar sem transformar dependência em estratégia.

Para o Brasil, essa questão assume uma dimensão ainda maior. Pela extensão do nosso território, população, economia, recursos naturais, base industrial, capacidade tecnológica e posição geográfica, o país reúne atributos que podem lhe conferir papel relevante na configuração do ambiente estratégico sul-americano e hemisférico. Mas peso geopolítico não significa por si só capacidade de decisão. É justamente a distância entre potencial e capacidade efetiva que estará no centro desta análise.

A América Latina não é um bloco estratégico homogêneo

Um dos primeiros obstáculos para qualquer tentativa de construir uma resposta regional às transformações do ambiente estratégico do Hemisfério Ocidental é reconhecer uma realidade frequentemente ignorada nos debates políticos: a América Latina não constitui um bloco estratégico homogêneo.

A existência de uma identidade histórica, cultural e geográfica comum não significa que os Estados da região compartilhem a mesma percepção de ameaça, os mesmos interesses nacionais ou a mesma disposição para estabelecer compromissos no campo da segurança e da defesa. As prioridades variam conforme a posição geográfica, a estrutura econômica, os recursos disponíveis, as relações com as grandes potências, e sobretudo, a natureza dos problemas que cada país considera prioritários.

Essa heterogeneidade não é apenas uma interpretação acadêmica. Ela pode ser observada nas próprias políticas oficiais dos Estados latino-americanos.

O México constitui talvez o exemplo mais evidente de uma realidade estratégica distinta daquela observada na América do Sul. A proximidade territorial com os Estados Unidos, a profunda interdependência econômica e a extensão da fronteira compartilhada fazem com que questões como tráfico de drogas, tráfico de armas, fluxos migratórios, inteligência e combate ao crime organizado transnacional ocupem posição central em sua agenda de segurança.

A própria Secretaría de Relaciones Exteriores do México estabeleceu em março de 2026, que a cooperação de segurança com Washington ocorre sob os princípios de respeito à soberania e à integridade territorial, responsabilidade compartilhada e diferenciada, confiança mútua e “cooperação sem subordinação”. O governo mexicano também afirma que as operações contra o crime organizado são planejadas e executadas pelas forças de segurança mexicanas, ainda que exista estreita colaboração com as agências norte-americanas.

A formulação é particularmente importante porque demonstra que proximidade estratégica não significa necessariamente ausência de autonomia. Para o México, a relação com os Estados Unidos é uma variável estrutural de sua segurança nacional, mas a própria política oficial procura enquadrar essa cooperação dentro de limites definidos pela soberania mexicana.


A realidade brasileira é diferente. O Brasil não possui uma agenda de segurança concentrada em uma única fronteira ou ameaça. Sua dimensão continental produz um conjunto muito mais amplo de interesses estratégicos. A Política Nacional de Defesa (PND) e a Estratégia Nacional de Defesa (END) definem como prioridades a proteção da soberania e do território nacional e vinculam a defesa brasileira à construção de capacidades militares, tecnológicas e industriais próprias. O conceito brasileiro de entorno estratégico também ultrapassa a América do Sul e alcança o Atlântico Sul, a costa ocidental africana e a Antártica.

No caso brasileiro, portanto, a equação de segurança envolve simultaneamente a extensa fronteira terrestre, a Amazônia, o Atlântico Sul, as linhas de comunicação marítima, os recursos naturais, a infraestrutura crítica, o espaço aéreo e espacial, além da necessidade de preservar uma Base Industrial de Defesa capaz de sustentar capacidades estratégicas no longo prazo.

A dimensão marítima ilustra particularmente bem essa diferença. O próprio Ministério da Defesa considera o Atlântico Sul uma área prioritária da política de defesa brasileira. A "Amazônia Azul" possui 5,7 milhões de km², enquanto mais de 95% do comércio exterior brasileiro circula por via marítima e cerca de 95% do petróleo nacional é extraído no mar. Isso produz uma percepção estratégica que não pode ser simplesmente transplantada para outros países latino-americanos.

A Colômbia, por sua vez, apresenta outra configuração. Sua experiência acumulada no combate ao narcotráfico, às organizações criminosas e aos grupos armados produziu uma arquitetura de cooperação em segurança muito mais estreita com os Estados Unidos. Em março de 2025, o governo colombiano informou que seu comandante-geral das Forças Armadas esteve em Washington para aprofundar a cooperação bilateral em segurança e defesa, incluindo reuniões com autoridades norte-americanas, agências de segurança e inteligência e representantes do Congresso dos Estados Unidos.

Dias depois, a própria Cancillería colombiana destacou a continuidade da cooperação com o Departamento de Estado, Departamento de Justiça, DEA, ONDCP e CIA para enfrentar redes de narcotráfico e ameaças transnacionais.

Isso não significa que a Colômbia deixe de possuir interesses estratégicos próprios. Significa que sua experiência operacional e sua estrutura de cooperação internacional fizeram com que determinadas ameaças, particularmente o crime organizado transnacional e o narcotráfico, assumissem peso muito maior em sua agenda de segurança do que possuem em países como Brasil ou Argentina.

No Chile, a lógica é novamente diferente. A política externa chilena atribui importância ao direito internacional, à estabilidade regional, à cooperação e ao diálogo político, ao mesmo tempo em que incorpora de maneira crescente questões relacionadas à segurança pública, ao crime organizado transnacional, aos oceanos e à Antártica. Em março de 2026, o chanceler chileno Francisco Pérez Mackenna afirmou que o país participa ativamente de fóruns nos quais são formuladas estratégias regionais de segurança, compartilhadas informações de inteligência criminal e construídos mecanismos jurídicos para enfrentar o crime além das fronteiras chilenas.

A posição geográfica também produz uma agenda particular. O Chile possui uma projeção estratégica essencialmente marítima no Pacífico, mas mantém simultaneamente interesses permanentes na Antártica e nos espaços marítimos associados. Seu Ministério das Relações Exteriores mantém uma estrutura específica para acompanhar os interesses chilenos no Território Antártico e nos espaços marítimos, antárticos e subantárticos.

A Argentina apresenta outro vetor estratégico relevante: o Atlântico Sul e a Antártica. A própria política externa argentina define o Atlântico Sul como espaço de importância estratégica, associando-o à soberania, aos recursos naturais, às atividades científicas, à pesca, aos hidrocarbonetos e à projeção antártica. O governo argentino informa que seu espaço marítimo abrange aproximadamente 6,683 milhões de km² e trata a presença e o exercício de soberania sobre esse espaço como objetivo permanente do Estado.

A questão das Malvinas acrescenta uma dimensão que simplesmente não existe para a maior parte dos demais países latino-americanos. Em abril de 2026, a Cancillería argentina reafirmou oficialmente que o país mantém seu reclame de soberania sobre as Ilhas Malvinas, Geórgia do Sul e Sandwich do Sul e os espaços marítimos circundantes, buscando fazê-lo por meios pacíficos e conforme o direito internacional.

Assim, mesmo entre Brasil, Argentina e Chile, países frequentemente agrupados quando se fala em segurança do Cone Sul, existem diferenças relevantes de percepção estratégica. Para Brasília, o Atlântico Sul está relacionado à proteção da Amazônia Azul, das linhas de comunicação marítimas, dos recursos energéticos e da projeção estratégica brasileira. Para Buenos Aires, o Atlântico Sul está inseparavelmente ligado às Malvinas, à plataforma continental e à Antártica. Para Santiago, a agenda marítima está fortemente associada ao Pacífico, à projeção antártica e à preservação de seus interesses marítimos.

Essas diferenças ajudam a explicar por que projetos destinados a produzir uma arquitetura única de segurança latino-americana frequentemente encontram dificuldades políticas. Não existe uma ameaça única capaz de produzir o mesmo grau de percepção de risco em toda a região.

Há, contudo, um ponto importante: heterogeneidade não significa incapacidade de cooperação. Na realidade, pode significar exatamente o contrário.

Quando os países não compartilham uma mesma visão estratégica abrangente, a alternativa mais viável pode ser abandonar a tentativa de construir uma arquitetura totalizante e concentrar esforços em áreas nas quais exista convergência concreta de interesses.

O combate ao crime organizado transnacional, vigilância de fronteiras, inteligência compartilhada, segurança marítima, busca e salvamento, proteção de infraestruturas críticas, resposta a desastres, cibersegurança, combate à pesca ilegal, monitoramento de espaços amazônicos e marítimos, e o desenvolvimento conjunto de determinadas capacidades tecnológicas são exemplos de agendas nas quais interesses nacionais diferentes podem produzir resultados convergentes.

A experiência regional já oferece instrumentos para isso. O Ministério da Defesa brasileiro registra, por exemplo, que o PROSUL trabalha com uma abordagem flexível de cooperação envolvendo infraestrutura, energia, saúde, defesa, segurança, combate ao crime e prevenção e resposta a desastres naturais.

No Atlântico Sul, a Zona de Paz e Cooperação do Atlântico Sul (ZOPACAS) oferece outro exemplo. Criada em 1986, a iniciativa passou por diferentes fases e incorporou, ao longo do tempo, temas relacionados à segurança marítima, proteção ambiental e governança dos espaços oceânicos. O próprio Ministério da Defesa brasileiro registra que o mecanismo passou a ser associado ao conceito de entorno estratégico brasileiro, abrangendo a América do Sul, o Atlântico Sul, a costa ocidental africana e a Antártica.

Essa visão também aparece no pensamento diplomático brasileiro contemporâneo. Em discurso de fevereiro de 2025, o então ministro das Relações Exteriores Mauro Vieira afirmou que o entorno estratégico brasileiro é formado pela América do Sul e pelo Atlântico Sul e defendeu que essas regiões permaneçam protegidas de interferências extrarregionais.

O ponto central, portanto, não é tentar transformar a América Latina em uma aliança militar convencional ou um bloco estratégico com uma única percepção de ameaça. O objetivo mais realista seria construir uma rede de capacidades e mecanismos de cooperação capazes de funcionar mesmo quando as percepções políticas dos governos não forem coincidentes, essa distinção é fundamental.

Uma arquitetura regional sustentável não precisa exigir que México, Brasil, Colômbia, Argentina, Chile e os demais países concordem sobre todas as ameaças ou sobre o papel dos Estados Unidos no continente. Ela precisa apenas identificar onde seus interesses se cruzam e criar mecanismos capazes de transformar essas convergências em capacidades permanentes.

Nesse sentido, a diversidade estratégica latino-americana deixa de ser apenas um obstáculo e passa a ser também uma característica que pode favorecer uma arquitetura mais flexível. Em vez de uma estrutura rígida baseada em alinhamentos políticos, a região poderia avançar por uma arquitetura modular, formada por diferentes níveis de cooperação e participação, conforme o interesse e a capacidade de cada Estado.

É provavelmente nesse modelo menos ideológico, mais funcional e orientado por capacidades concretas, que reside uma das poucas possibilidades realistas da América Latina ampliar sua participação na definição da própria arquitetura de segurança.

O primeiro passo é definir o que precisa ser protegido

Antes de discutir alianças, exercícios militares, sistemas de armas ou aquisição de equipamentos, existe uma questão mais elementar e talvez mais importante que precisa ser respondida pelos países latino-americanos: o que, exatamente, precisa ser protegido?

A pergunta parece simples, mas sua resposta mudou profundamente nas últimas décadas.

Durante grande parte do século XX, o planejamento de defesa esteve estruturado em torno de conceitos relativamente tradicionais de soberania: território, fronteiras, espaço aéreo, águas jurisdicionais, instalações militares e capacidade de dissuasão. Esses elementos continuam sendo fundamentais. O que mudou foi a natureza dos ativos cuja interrupção pode comprometer a segurança e a capacidade de funcionamento de um Estado.

Hoje, uma interrupção prolongada no fornecimento de energia, a paralisação de um porto estratégico, o rompimento de um cabo submarino, a indisponibilidade de um sistema de navegação por satélite, um ataque contra redes de telecomunicações ou a interrupção de uma cadeia logística crítica podem produzir consequências econômicas, políticas e militares muito antes de qualquer confronto convencional.

O próprio Estado brasileiro reconhece essa transformação. O Gabinete de Segurança Institucional (GSI) define infraestrutura crítica como o conjunto de instalações, serviços e bens cuja interrupção ou destruição pode provocar impactos sociais, econômicos, políticos, internacionais ou sobre a segurança nacional. A Política Nacional de Segurança de Infraestruturas Críticas estabelece mecanismos específicos para identificar riscos, definir responsabilidades e organizar medidas preventivas e reativas. Isso altera a própria lógica do planejamento estratégico.

Proteger um Estado passou a significar também proteger os sistemas que permitem que esse Estado continue funcionando, como: Energia, água, telecomunicações, transportes, portos, aeroportos, redes digitais, centros de dados, satélites, sistemas de navegação, cadeias de suprimento, instalações industriais e infraestrutura financeira passaram a integrar, em diferentes níveis, o ambiente de segurança nacional.




Os cabos submarinos representam um dos exemplos mais claros dessa mudança. Segundo a Agência Nacional de Telecomunicações, essa infraestrutura é responsável por mais de 90% da transmissão de dados entre países e continentes. No caso brasileiro, os cabos instalados na costa conectam o sistema nacional de telecomunicações aos demais continentes e funcionam como uma das principais portas de entrada e saída do tráfego digital da América Latina.

A relevância estratégica desse sistema foi explicitamente reconhecida pela própria Anatel. Em 2023, conselheiros da agência defenderam a necessidade de uma política de segurança nacional específica para cabos submarinos, destacando que essas estruturas constituem infraestrutura crítica e que sua interrupção pode produzir impactos que ultrapassam o setor de telecomunicações.

A preocupação não é meramente teórica. Em maio de 2026, a Anatel abriu uma tomada de subsídios para atualizar as regras aplicáveis aos cabos submarinos, incluindo requisitos mínimos de segurança física e cibernética, governança interinstitucional e medidas para reduzir riscos decorrentes da concentração geográfica dessas infraestruturas. A agência informou que essa infraestrutura concentra aproximadamente 99% do tráfego de dados do país.

Esse dado ajuda a compreender a dimensão estratégica do problema. Um país pode possuir forças armadas modernas e ainda assim, permanecer vulnerável se não tiver capacidade de proteger os sistemas dos quais dependem sua economia, suas comunicações e sua própria capacidade de coordenação nacional.

A mesma lógica pode ser aplicada ao ambiente marítimo. Para o Brasil, o exemplo da Amazônia Azul é particularmente expressivo. A Marinha do Brasil estima em aproximadamente 5,7 milhões de km² a área marítima associada ao conceito, incluindo a Zona Econômica Exclusiva e a extensão da Plataforma Continental. É nesse espaço que são produzidos mais de 95% do petróleo e cerca de 85% do gás natural brasileiros, enquanto aproximadamente 95% do comércio exterior trafega pelo mar. A região também abriga portos, instalações energéticas, recursos minerais, atividades pesqueiras e infraestrutura de telecomunicações. 


Isso significa que a proteção do Atlântico Sul não pode ser reduzida à defesa contra uma eventual força naval adversária. É necessário considerar a segurança das plataformas de exploração, dos terminais portuários, das rotas de navegação, dos canais de acesso, dos cabos submarinos, das instalações industriais e das linhas de comunicação marítimas. Uma ameaça contra qualquer desses elementos pode produzir efeitos que se propagam rapidamente pela economia nacional. A mesma lógica se aplica, em escala regional, a outros espaços geográficos.

A Amazônia possui importância que transcende as fronteiras brasileiras, tanto pela dimensão ambiental quanto pela presença de recursos naturais, biodiversidade, rios, infraestrutura energética e rotas de comunicação. O Caribe concentra importantes corredores marítimos, instalações portuárias e conexões comerciais entre América do Norte, América Central, América do Sul e Europa. O Estreito de Magalhães possui relevância histórica e estratégica como passagem natural entre os oceanos Atlântico e Pacífico, enquanto o extremo sul do continente está diretamente conectado às questões antárticas.

A consequência é direta: a segurança latino-americana precisa ser pensada também em termos de conectividade e continuidade dos fluxos. Uma interrupção localizada pode produzir efeitos muito além do ponto onde ocorreu.

Um ataque cibernético contra uma empresa de energia pode afetar serviços essenciais. A interrupção de um porto pode comprometer cadeias de exportação. A perda de um cabo submarino pode degradar a conectividade internacional. A indisponibilidade de sistemas de posicionamento e navegação pode afetar aviação, navegação, logística e operações militares. Uma ruptura no fornecimento de componentes críticos pode paralisar linhas industriais inteiras.

Essa interdependência introduz um elemento particularmente importante no planejamento de defesa: a vulnerabilidade não está necessariamente concentrada no ponto de maior valor militar, mas naquele cuja interrupção produz maior efeito sistêmico. É nesse ambiente que as ameaças híbridas e assimétricas ganham relevância.

Um ataque convencional contra território continua sendo uma possibilidade que não pode ser descartada. Entretanto, entre a normalidade e a guerra aberta existe um amplo espectro de ações capazes de produzir efeitos estratégicos: espionagem tecnológica, intrusão cibernética, sabotagem, interferência em sistemas de comunicação e navegação, operações de influência, desinformação, criminalidade transnacional, pressão econômica e manipulação de cadeias de suprimentos.

A fronteira entre segurança, defesa e proteção de infraestrutura torna-se, portanto, progressivamente mais difícil de estabelecer. O próprio Ministério da Defesa brasileiro reconhece essa transformação ao tratar os setores nuclear, cibernético e espacial como estratégicos para a Defesa Nacional. A Estratégia Nacional de Defesa atribui responsabilidades específicas a cada uma dessas áreas e estabelece como objetivo ampliar a capacidade científica, tecnológica e de recursos humanos do Brasil.

No setor cibernético, a orientação oficial é ainda mais explícita: sistemas de informação e comunicação são considerados base do desenvolvimento nacional, enquanto a proteção das infraestruturas críticas é tratada como elemento necessário à segurança nacional.

Essa constatação possui uma consequência regional importante, poucos países latino-americanos possuem, isoladamente, todos os recursos necessários para proteger de maneira integral seus ativos estratégicos.

Não se trata apenas da quantidade de tropas ou de equipamentos militares. A proteção de uma infraestrutura crítica exige sensores, inteligência, comunicações seguras, capacidade de vigilância, resposta cibernética, redundância de sistemas, meios de transporte, pessoal especializado, capacidade industrial e mecanismos de coordenação entre órgãos militares, civis e empresas privadas. É justamente nessa área que a cooperação regional pode adquirir valor concreto.

O compartilhamento de informações sobre ameaças, monitoramento marítimo, vigilância de fronteiras, proteção de cabos e infraestrutura energética, cooperação cibernética, sistemas de alerta antecipado, interoperabilidade de comunicações e protocolos conjuntos de resposta a emergências são capacidades que podem ser desenvolvidas sem exigir que todos os países adotem a mesma doutrina militar ou a mesma posição geopolítica.

O desafio, portanto, não é construir uma estrutura capaz de proteger tudo, em todos os lugares e simultaneamente. É identificar quais ativos são vitais, quais vulnerabilidades podem produzir efeitos sistêmicos e quais capacidades precisam existir antes que uma crise aconteça, essa mudança de perspectiva é decisiva.

A pergunta estratégica já não deve ser apenas “quantos meios militares um país possui?”, mas também “quanto tempo sua sociedade, sua economia, suas Forças Armadas e seu Estado conseguem continuar funcionando se determinados sistemas forem interrompidos?”

Essa é uma medida muito mais sofisticada de resiliência nacional, e é também onde começa uma arquitetura de segurança regional verdadeiramente funcional: não pela definição de um inimigo comum, mas pela identificação dos ativos cuja proteção é essencial para que os países latino-americanos preservem sua soberania, sua capacidade econômica e sua liberdade de decisão.

Soberania não significa isolamento

Existe uma dificuldade recorrente no debate latino-americano sobre Defesa: a tendência de tratar soberania e cooperação internacional como conceitos incompatíveis. Essa interpretação, porém, confunde autonomia estratégica com isolamento.

Um Estado soberano não é aquele que se recusa a cooperar. É aquele que possui capacidade para decidir em quais áreas cooperará, com quem cooperará e quais competências não poderá transferir integralmente a terceiros.

Essa distinção é particularmente importante dentro do ambiente internacional no qual nenhum país, nem mesmo as grandes potências, produz isoladamente todos os componentes necessários à sua segurança.

O Brasil é um exemplo dessa lógica. A política brasileira de Defesa não estabelece a autossuficiência absoluta como objetivo. A Estratégia Nacional de Defesa reconhece a importância da cooperação internacional, e simultaneamente, estabelece como prioridade a redução da dependência tecnológica externa em setores considerados estratégicos. O documento vincula a capacidade de defesa à autonomia tecnológica e à existência de uma Base Industrial de Defesa capaz de desenvolver e sustentar capacidades essenciais ao país. A lógica é diferente daquela de simplesmente produzir tudo internamente.

Um país pode cooperar militarmente com os Estados Unidos, França, Reino Unido, Israel, Suécia, Türkiye ou qualquer outro parceiro, e simultaneamente, preservar seus próprios interesses estratégicos. A cooperação pode ampliar capacidades, acelerar a transferência de conhecimento, reduzir custos, aumentar a interoperabilidade e permitir acesso a tecnologias que seriam muito mais caras ou demoradas para desenvolver de forma independente.

O problema surge quando a relação produz dependências críticas sem alternativas viáveis. Nesse caso, uma parceria inicialmente concebida como instrumento de fortalecimento da capacidade nacional pode transformar-se em uma vulnerabilidade estratégica.

A questão não é, portanto, saber se um país utiliza equipamentos estrangeiros. Praticamente todos utilizam. A questão é saber qual grau de liberdade permanece quando o ambiente político se deteriora, uma crise diplomática surge ou o fornecedor decide restringir o acesso a determinado componente, atualização ou serviço. É aqui que a autonomia estratégica precisa ser compreendida em termos qualitativos.

Um sistema de armas adquirido no exterior pode representar um enorme ganho operacional e ao mesmo tempo, gerar dependências em áreas como manutenção, munição, software, atualizações, peças de reposição, treinamento, suporte logístico e acesso a determinados dados. A capacidade militar efetiva, nesse caso, não é determinada apenas pelo equipamento que aparece no inventário, mas também pela capacidade de mantê-lo disponível e empregá-lo durante um período prolongado de crise. Nesse ponto, a experiência internacional oferece exemplos concretos e atuais dessa realidade.

O conflito na Ucrânia demonstrou que a sustentação de operações militares modernas depende de cadeias industriais, estoques, capacidade de reposição, manutenção e produção continuada. A guerra também expôs as limitações de modelos baseados exclusivamente na disponibilidade inicial de equipamentos, mostrando que a capacidade de produzir munições, reparar sistemas e substituir perdas pode ser tão importante quanto possuir plataformas tecnologicamente avançadas.

Essa questão ganhou dimensão ainda maior com a ampliação da guerra eletrônica, dos sistemas não tripulados, da guerra cibernética e do emprego intenso de munições de precisão. Nos teatros de operações de alta intensidade, a sustentabilidade industrial passa a ser parte da capacidade militar.

É por isso que a autonomia não deve ser medida pelo número de equipamentos nacionais presentes no inventário, mas pela capacidade de controlar ou assegurar os elementos críticos necessários para que essas capacidades permaneçam operacionais.

O conceito brasileiro de Base Industrial de Defesa segue exatamente essa lógica. O Ministério da Defesa define a BID como o conjunto de empresas estatais e privadas, organizações civis e militares e instituições relacionadas à produção e ao desenvolvimento de bens e serviços de defesa. Entre seus objetivos está a obtenção e manutenção de capacidades tecnológicas estratégicas e a redução da dependência externa em áreas consideradas essenciais. Essa visão ajuda a compreender por que determinados programas militares possuem importância que ultrapassa a aquisição de uma plataforma.

Quando o Brasil desenvolve localmente um radar, um sistema de comunicação, um míssil, um sensor, um software, uma capacidade de guerra eletrônica ou uma solução de comando e controle, o ganho estratégico não está apenas no equipamento entregue às Forças Armadas. Existe também um ganho relacionado à capacidade de conhecer, modificar, atualizar, reparar e sustentar aquele sistema sem depender integralmente de uma autorização externa. Isso não significa que todos os componentes precisem ser nacionais.

Em muitos casos, a produção integral seria economicamente irracional. Microeletrônica avançada, determinados semicondutores, componentes aeronáuticos, materiais especiais, sensores, motores e outros itens possuem cadeias globais extremamente complexas. Tentar nacionalizar integralmente todas essas tecnologias poderia consumir recursos que seriam mais bem empregados na construção de competências específicas.

A questão estratégica é outra: identificar quais dependências são aceitáveis e quais podem comprometer a liberdade de ação nacional.

Essa análise exige conhecer toda a cadeia de fornecimento. E, para isso, algumas perguntas precisam ser respondidas: quem produz o componente crítico? Quem detém a propriedade intelectual? Quem controla o software? Quem pode autorizar ou bloquear atualizações? Onde estão localizadas as linhas de manutenção? Quanto tempo seria necessário para substituir o fornecedor? Existe uma segunda fonte de suprimento? Há estoque estratégico suficiente? O país possui capacidade para produzir localmente determinados componentes?

E, principalmente: o sistema continuará funcionando se a relação política com o fornecedor for interrompida?

Essas perguntas são muito mais relevantes para medir a autonomia estratégica de um país do que simplesmente contabilizar quantas plataformas estão disponíveis em seu inventário.

Um país pode possuir dezenas de aeronaves modernas, e ainda assim, apresentar elevada vulnerabilidade se depender de um único fornecedor para componentes fundamentais, armamentos, manutenção ou atualizações. Da mesma maneira, uma força naval pode dispor de navios tecnologicamente sofisticados, mas enfrentar limitações severas se não possuir capacidade de manutenção, estoque de peças e munição compatível com uma crise prolongada. A autonomia, portanto, não está necessariamente na propriedade do equipamento, ela está na capacidade de sustentar a decisão de empregá-lo.

Essa distinção também ajuda a compreender por que a transferência de tecnologia possui valor estratégico. Quando um contrato estabelece apenas a entrega de um produto acabado, o país comprador adquire uma capacidade operacional. Quando existe transferência efetiva de conhecimento, participação industrial, domínio de processos e formação de recursos humanos, parte dessa capacidade passa a permanecer no território nacional.

O Programa de Desenvolvimento de Submarinos (PROSUB) oferece um exemplo brasileiro dessa abordagem. O programa não foi estruturado simplesmente como uma aquisição de submarinos junto a França. Sua lógica envolve construção no Brasil, desenvolvimento industrial, transferência de tecnologia e preparação de competências nacionais associadas ao objetivo de ampliar a capacidade brasileira de projetar e construir submarinos, inclusive o submarino convencionalmente armado com propulsão nuclear. A própria Marinha do Brasil considera o domínio tecnológico associado ao programa uma capacidade estratégica para o país.

O mesmo princípio pode ser observado em outros programas estratégicos brasileiros, nos quais a participação da indústria nacional e o domínio de tecnologias críticas são considerados componentes do resultado desejado, e não simples efeitos colaterais da aquisição de equipamentos, como a aquisição dos caças suecos F-39E/F Gripen. 

Existe, portanto, uma diferença fundamental entre comprar capacidade e construir capacidadeComprar capacidade pode ser indispensável, especialmente quando existe uma lacuna operacional imediata. Construir capacidade, porém, determina quanto daquela competência permanecerá disponível quando as condições externas mudarem. É nesse ponto que a cooperação internacional deixa de ser vista como ameaça à soberania e passa a ser compreendida como instrumento de soberania.

Uma parceria bem estruturada pode permitir acesso a tecnologias, treinamento, doutrina e equipamentos que ampliam rapidamente a capacidade nacional. Ao mesmo tempo, acordos que asseguram participação industrial, transferência de tecnologia, capacitação de pessoal, manutenção local e acesso ao conhecimento necessário para sustentar o sistema podem reduzir vulnerabilidades futuras.

A autonomia estratégica, portanto, não exige que um país escolha entre dependência e autossuficiência. Existe um terceiro caminho: interdependência administrada. Nesse modelo, o país reconhece que continuará integrado a cadeias internacionais, mas procura evitar concentrações de dependência em áreas que possam comprometer sua liberdade de decisão. Diversifica fornecedores quando necessário, preserva competências nacionais críticas, mantém estoques e alternativas, desenvolve capacidade industrial e estabelece mecanismos de cooperação que reduzam o risco de interrupção.

Essa abordagem é particularmente relevante para a América Latina. Nenhum país da região, isoladamente, possui condições econômicas e tecnológicas para dominar toda a cadeia de tecnologias necessárias à Defesa moderna. Entretanto, diferentes países possuem competências complementares. O Brasil possui uma das maiores bases industriais e tecnológicas de Defesa da região; a Argentina preserva competências relevantes em determinadas áreas aeroespaciais e nucleares; o Chile possui capacidades importantes em sistemas marítimos e vigilância; a Colômbia acumulou experiência operacional e de inteligência no combate a ameaças transnacionais; e outros países possuem competências específicas que podem ser integradas em projetos cooperativos.

O desafio seria transformar essas competências dispersas em capacidade regional complementar, sem exigir que os países abandonem suas relações com parceiros externos. Essa talvez seja uma das formas mais realistas de ampliar a autonomia latino-americana.

Não se trata de criar uma indústria de defesa completamente independente do restante do mundo. Trata-se de evitar que uma crise externa seja capaz de paralisar capacidades consideradas essenciais à segurança nacional.

Por isso, a pergunta estratégica não deveria ser apenas “quanto de nossa Defesa é nacional?” A pergunta mais importante é: “Quais capacidades não podemos perder, quais dependências podemos aceitar e quais competências precisamos necessariamente dominar?”

A resposta a essas perguntas oferece uma definição muito mais realista de soberania no século XXI. Soberania não significa fechar fronteiras tecnológicas ou recusar alianças. Significa possuir alternativas suficientes para que uma parceria permaneça sendo uma escolha e não se transforme durante uma situação de crise em uma condição de sobrevivência.

O Brasil ocupa uma posição particular

Nesse cenário, o Brasil ocupa uma posição particular. Não apenas por sua dimensão territorial ou econômica, mas porque reúne em um mesmo Estado, características que o colocam em uma condição singular dentro da América Latina: escala continental, extensa projeção marítima, recursos naturais estratégicos, fronteiras com quase todos os países sul-americanos, capacidade industrial e tecnológica com uma estrutura industrial de Defesa capaz de desenvolver projetos de elevada complexidade.

O território brasileiro possui aproximadamente 8,5 milhões de km² e faz fronteira com dez países sul-americanos, sendo o único Estado do continente a não possuir fronteira terrestre apenas com Chile e Equador. Essa posição geográfica transforma o Brasil em um elemento inevitável de qualquer discussão sobre segurança e estabilidade na América do Sul.

A dimensão marítima amplia ainda mais essa relevância. A Amazônia Azul compreende 5,7 milhões de km² de espaço marítimo sob jurisdição ou interesse estratégico brasileiro. É nesse ambiente que estão concentradas importantes reservas de petróleo e gás, atividades pesqueiras, infraestrutura portuária, rotas comerciais e parte essencial da infraestrutura de comunicação internacional do país. Mais de 95% do comércio exterior brasileiro é transportado por via marítima, segundo dados da Marinha do Brasil.

A posição brasileira também é diferenciada pela existência de uma Base Industrial de Defesa diversificada, formada por empresas de diferentes portes e por instituições científicas e tecnológicas capazes de atuar em segmentos que vão da construção naval e aeronáutica aos sistemas de comando e controle, radares, sensores, mísseis, comunicações, guerra eletrônica e sistemas espaciais.

Essa capacidade não surgiu de maneira espontânea. É resultado de décadas de políticas públicas, investimentos estatais, formação de recursos humanos e programas estratégicos que buscaram preservar competências consideradas relevantes para a soberania nacional. 

Alguns desses programas possuem impacto que ultrapassa a simples incorporação de equipamentos às Forças Armadas. O Programa de Desenvolvimento de Submarinos (PROSUB), por exemplo, foi estruturado para ampliar a capacidade brasileira de projetar, construir e manter submarinos, incorporando conhecimento tecnológico e capacidade industrial ao longo do processo. O programa inclui a construção de submarinos convencionais da classe Riachuelo e o desenvolvimento do submarino convencionalmente armado com propulsão nuclear, o SNCA-BR, associado ao domínio de tecnologias estratégicas. 

O Programa Nuclear da Marinha possui importância ainda mais ampla. Seu objetivo não se limita à aplicação militar da tecnologia nuclear, mas envolve o domínio do ciclo do combustível e o desenvolvimento do sistema de propulsão nuclear naval. A própria Marinha considera o domínio dessas tecnologias parte de uma capacidade estratégica de Estado.

No setor aeronáutico, o programa F-39 Gripen representa outro exemplo de como aquisição e desenvolvimento de capacidade podem ser combinados. O programa envolve transferência de tecnologia, participação da indústria brasileira e formação de recursos humanos, além da incorporação de competências relacionadas ao desenvolvimento e à integração de sistemas aeronáuticos. A Força Aérea Brasileira, em conjunto com empresas brasileiras participantes do programa, considera essa transferência de conhecimento um dos elementos estratégicos da parceria.

No domínio terrestre, o Sistema Integrado de Monitoramento de Fronteiras (Sisfron) demonstra outra característica da estratégia brasileira: a necessidade de transformar a dimensão territorial em capacidade efetiva de vigilância e resposta. O sistema foi concebido para ampliar a capacidade de monitoramento das fronteiras terrestres por meio da integração de sensores, comunicações, centros de comando e controle e meios de resposta.

No espaço aéreo e no ambiente de defesa antiaérea, o Brasil também vem desenvolvendo capacidades destinadas a ampliar a consciência situacional e a proteção de áreas e estruturas consideradas estratégicas. Sistemas de radares, sensores, centros de comando e controle e meios de defesa aérea formam uma arquitetura que progressivamente deixa de ser composta por plataformas isoladas e passa a operar como uma rede integrada.

O ponto central, entretanto, é que a existência desses programas não garante automaticamente autonomia estratégica. Um programa de Defesa somente se transforma em capacidade geopolítica quando consegue permanecer operacional ao longo do tempo. Isso exige muito mais do que a entrega física de uma plataforma. É necessário assegurar financiamento, cadeia industrial, disponibilidade de peças, manutenção, munição, treinamento, formação e retenção de pessoal, infraestrutura de apoio, atualização tecnológica e capacidade de absorver novas tecnologias ao longo do ciclo de vida. Essa questão é particularmente relevante em sistemas de defesa de alta complexidade.

Uma aeronave de combate não representa apenas a aeronave. Ela depende de motores, sensores, armamentos, software, simuladores, infraestrutura, técnicos especializados, cadeia logística, manutenção e atualização permanente. Um submarino não é apenas o casco e seus sistemas embarcados. Depende de uma infraestrutura industrial extremamente complexa, pessoal altamente especializado e uma cadeia de fornecedores capaz de sustentar o meio durante décadas.

O mesmo vale para radares, sistemas de defesa antiaérea, satélites, veículos blindados, mísseis e sistemas de comando e controle. A capacidade militar real está, portanto, menos relacionada ao momento da incorporação de um equipamento do que à capacidade de mantê-lo operacional durante todo o seu ciclo de vida. Essa distinção possui consequências diretas para a posição brasileira no ambiente regional.

Se o Brasil consegue manter programas estratégicos de forma contínua, preservar suas empresas e instituições de pesquisa, formar recursos humanos e atualizar suas capacidades, o país não apenas fortalece sua própria Defesa. Ele amplia também sua capacidade de participar da construção da arquitetura de segurança sul-americana.

Se, ao contrário, programas são interrompidos repetidamente, contratos sofrem descontinuidade, linhas de produção são perdidas ou competências industriais deixam de existir, o impacto ultrapassa a dimensão administrativa. A perda de uma capacidade industrial estratégica pode representar também a perda de uma opção geopolítica futura. É nesse ponto que a questão orçamentária deixa de ser exclusivamente fiscal.

A previsibilidade dos recursos destinados à Defesa determina em grande medida, a capacidade de planejar programas que possuem ciclos de desenvolvimento de dez, vinte ou até mais de trinta anos. Projetos de submarinos, aeronaves de combate, sistemas espaciais, radares e mísseis não podem ser conduzidos segundo a lógica de investimentos de curto prazo.

A própria Estratégia Nacional de Defesa estabelece que a continuidade dos programas estratégicos é necessária para assegurar a capacidade de defesa e reduzir vulnerabilidades tecnológicas. O documento também relaciona o fortalecimento da Base Industrial de Defesa à autonomia tecnológica e à capacidade de mobilização nacional.

Existe, portanto, uma relação direta entre orçamento, indústria, tecnologia e geopolítica. Um país que não consegue financiar de maneira previsível seus programas estratégicos pode até preservar sua posição diplomática no curto prazo, mas reduz progressivamente os instrumentos materiais que sustentam essa posição. Essa é uma questão particularmente sensível para o Brasil porque sua escala cria expectativas que não existem na mesma proporção para a maioria dos demais países sul-americanos.

Quando Brasília participa de discussões sobre segurança regional, proteção da Amazônia, segurança marítima, combate a ilícitos transnacionais, defesa do Atlântico Sul ou cooperação tecnológica, sua capacidade de influência não decorre apenas de sua diplomacia. Ela também está relacionada à existência de capacidades concretas que possam ser empregadas, compartilhadas, integradas ou oferecidas em cooperação.

É a combinação entre peso econômico, escala territorial, capacidade industrial, tecnologia, força militar e diplomacia que transforma um país em ator estruturante. Por isso, a questão brasileira não deve ser apresentada simplesmente como a necessidade de “gastar mais com Defesa”O problema é mais sofisticado e complexo.

É necessário garantir que os recursos disponíveis sejam capazes de sustentar capacidades consideradas estratégicas, preservar competências industriais e tecnológicas e impedir que projetos fundamentais sejam reduzidos a ciclos sucessivos de início, interrupção e retomada.

A diferença é significativa, um orçamento maior pode ampliar uma capacidade de defesa. Um orçamento previsível pode permitir que essa capacidade exista de forma permanente, e é a permanência que produz efeito estratégico.

No contexto de uma transformação da arquitetura de segurança do Hemisfério Ocidental, essa característica pode ser decisiva. O Brasil possui escala e competências para desempenhar um papel maior na definição do ambiente estratégico sul-americano, mas esse papel não será determinado apenas pelo tamanho de seu território ou pela dimensão de sua economia, será determinado pela capacidade de transformar esses atributos em poder nacional sustentável.

Em outras palavras, o Brasil já possui muitos dos elementos necessários para exercer maior influência regional. O desafio está em conectá-los, e sobretudo, garantir que permaneçam disponíveis quando forem necessários.

Geopolítica, no fim, não é apenas possuir potencial. É possuir capacidade para transformar potencial em ação e sustentá-la pelo tempo necessário.

A oportunidade de uma rede latino-americana de capacidades

A América Latina dificilmente construirá no curto prazo uma estrutura militar integrada comparável à OTAN. As diferenças políticas entre os governos, os distintos níveis de capacidade militar, as prioridades nacionais e as diferentes percepções sobre ameaças tornam pouco realista imaginar no horizonte próximo, uma aliança de defesa coletiva com elevado grau de integração e compromissos automáticos. Isso, entretanto, não significa que a região esteja condenada à fragmentação.

Entre uma aliança militar convencional e a ausência de qualquer mecanismo de cooperação existe um espaço estratégico considerável. É justamente nesse espaço que pode surgir uma alternativa mais pragmática: uma rede latino-americana de capacidades compartilhadas.

A diferença conceitual é importante, uma aliança tradicional procura estabelecer compromissos políticos e militares abrangentes. Uma rede de capacidades parte de outro princípio: os países não precisam concordar sobre tudo para cooperar naquilo que possuem interesse comumEssa lógica permitiria que diferentes Estados participassem de diferentes iniciativas, conforme suas necessidades, capacidades e prioridades estratégicas.

Um país com maior capacidade de vigilância marítima poderia contribuir para o monitoramento do Atlântico e do Pacífico. Outro poderia oferecer centros de treinamento, capacidades de inteligência ou sistemas de vigilância de fronteiras. Um terceiro poderia contribuir com infraestrutura de resposta a desastres. Outros poderiam participar de mecanismos de segurança cibernética, compartilhamento de informações ou combate ao crime organizado transnacional.

O resultado não seria uma força militar latino-americana única, seria algo potencialmente mais flexível: uma arquitetura formada por módulos de cooperação capazes de funcionar de maneira independente, mas conectados por padrões comuns. E essa proposta não partiria do zero.

A região já acumulou experiências institucionais que demonstram a possibilidade de construir mecanismos de cooperação sem eliminar a autonomia dos Estados. A UNASUL chegou a estabelecer um Conselho de Defesa Sul-Americano e um Centro de Estudos Estratégicos de Defesa destinado a produzir estudos e contribuir para a coordenação e harmonização de políticas de Defesa na América do Sul.

Embora a trajetória política da organização tenha limitado a continuidade de diversas iniciativas, a experiência é relevante por demonstrar que existiu, em determinado momento, uma tentativa concreta de construir instrumentos regionais de diálogo, transparência e cooperação em Defesa.

A Zona de Paz e Cooperação do Atlântico Sul (ZOPACAS) oferece outro precedente. Criada em 1986 por iniciativa brasileira e estabelecida pela Assembleia Geral das Nações Unidas, a organização reúne países da América do Sul e da costa ocidental africana em torno de temas que incluem paz, segurança, desenvolvimento, proteção ambiental e conservação de recursos. O próprio Ministério da Defesa brasileiro considera a ZOPACAS um mecanismo relevante para a cooperação no Atlântico Sul. Esses precedentes mostram que a região não precisa começar necessariamente pela criação de uma nova grande organização, pode começar pela construção de interoperabilidade.

E interoperabilidade não significa apenas fazer aeronaves, navios ou tropas de diferentes países operarem juntas. Ela começa em níveis muito mais básicos: padrões de comunicação, procedimentos comuns, protocolos de troca de dados, terminologias compatíveis, sistemas de identificação, treinamento conjunto e capacidade de compartilhar informações de maneira segura.

A partir daí, podem ser construídas capacidades mais sofisticadas, como um sistema regional de consciência situacional marítima, por exemplo, que poderia integrar informações provenientes de diferentes países para acompanhar embarcações, identificar comportamentos suspeitos, combater pesca ilegal, tráfico de drogas e armas, além de aumentar a segurança das rotas comerciais.

O mesmo princípio poderia ser aplicado às fronteiras terrestres, com sensores, radares, aeronaves, sistemas não tripulados e centros de comando que poderiam compartilhar informações selecionadas de acordo com protocolos previamente estabelecidos. Cada país permaneceria responsável por seu território e por suas decisões operacionais, mas teria acesso a uma imagem mais ampla dos movimentos que atravessam as fronteiras.

No ambiente aéreo, a cooperação poderia avançar em direção a mecanismos de compartilhamento de informações de tráfego, vigilância e alerta antecipado, particularmente em regiões de fronteira e áreas de interesse comum.

No domínio cibernético, a possibilidade é ainda maior. A Organização dos Estados Americanos (OEA) já mantém programas destinados a ampliar as capacidades de segurança cibernética dos Estados membros por meio de assistência técnica, treinamento, exercícios de gestão de crises, intercâmbio de boas práticas e cooperação entre instituições públicas e privadas.

A experiência demonstra que não é necessário criar uma estrutura militar supranacional para desenvolver capacidades comuns, é possível estabelecer redes de alerta, centros de competência, mecanismos de compartilhamento de indicadores de comprometimento, protocolos de resposta e exercícios multinacionais mantendo integralmente a soberania dos Estados participantes. A mesma lógica pode ser aplicada à resposta a desastres.

A OEA possui uma Convenção Interamericana destinada a facilitar a assistência em casos de desastres, estabelecendo mecanismos para que um Estado possa solicitar ou receber assistência de outro. O instrumento demonstra que a cooperação regional pode ser estruturada em torno de necessidades concretas sem exigir uma integração política ou militar abrangente.

Esse talvez seja um dos caminhos mais promissores para a América Latina: começar pelas áreas em que a cooperação produz benefícios imediatos e baixo custo político, como: Busca e salvamento, combate a incêndios florestais, resposta a terremotos e enchentes, evacuação médica, proteção de infraestrutura crítica e assistência humanitária são atividades nas quais a interoperabilidade desenvolvida em tempos de normalidade pode produzir resultados concretos durante uma crise. Com o tempo, essa mesma infraestrutura de cooperação pode servir como base para capacidades de segurança mais sofisticadas.

Há ainda uma dimensão particularmente importante: a produção de conhecimento compartilhado. Uma arquitetura regional de segurança não precisa começar pela aquisição de equipamentos. Pode começar pela criação de centros conjuntos de estudos, intercâmbio de oficiais e especialistas, exercícios de planejamento, análise de ameaças e construção de cenários.

A experiência do Centro de Estudos Estratégicos de Defesa da UNASUL mostra a importância desse componente. A proposta original era justamente produzir conhecimento estratégico regional capaz de contribuir para a coordenação das políticas de Defesa.

Esse tipo de mecanismo poderia ser atualizado para a realidade atual, incorporando temas como inteligência artificial, guerra eletrônica, sistemas autônomos, segurança de cabos submarinos, proteção de infraestrutura espacial, ciberdefesa, vigilância marítima e resiliência de cadeias logísticas. A grande vantagem desse modelo está na modularidade, nem todos os países precisariam participar de todos os mecanismos.

Um Estado poderia integrar plenamente uma rede de segurança marítima e não participar de determinada iniciativa de defesa cibernética. Outro poderia participar de programas de monitoramento amazônico, enquanto um terceiro concentraria sua contribuição em capacidades de resposta a desastres ou treinamento.

Isso reduziria significativamente um dos principais obstáculos à cooperação latino-americana: a necessidade de obter consenso político sobre todos os temas antes de iniciar qualquer iniciativa. Em vez de buscar unanimidade, seria possível trabalhar com geometrias variáveis de cooperação.

Cinco ou seis países poderiam avançar em determinado projeto enquanto outros permanecessem como observadores ou aderentes posteriores. O sucesso de uma iniciativa poderia estimular novas adesões sem exigir que toda a região concordasse simultaneamente. Esse modelo também permitiria preservar as relações estratégicas individuais de cada país.

Um Estado poderia manter sua cooperação militar com os Estados Unidos; outro poderia possuir programas tecnológicos com países europeus; outro poderia desenvolver parcerias com fornecedores asiáticos ou do Oriente Médio. Nada disso impediria que os mesmos países compartilhassem informações sobre segurança marítima, participassem de exercícios de busca e salvamento ou estabelecessem protocolos comuns para proteção de infraestrutura crítica. A cooperação regional não precisaria substituir as alianças existentes. Poderia complementá-las, essa é uma diferença fundamental.

Uma rede latino-americana de capacidades não precisaria ser concebida como instrumento de oposição a Washington, à OTAN ou a qualquer outra potência. Seu objetivo seria aumentar a capacidade dos próprios países latino-americanos de compreender, monitorar e responder aos problemas que afetam diretamente seus territórios e interesses.

O resultado seria uma arquitetura mais distribuída,  ao invés de depender exclusivamente de uma potência externa para produzir consciência situacional, inteligência, vigilância ou resposta a determinadas ameaças, os países da região poderiam construir gradualmente suas próprias redes de informação e capacidades complementares. Isso não eliminaria a necessidade de cooperação extrarregional, mas reduziria a assimetria.

E essa redução da assimetria possui valor estratégico porque amplia a capacidade de negociação dos Estados latino-americanos. Quanto maior a capacidade própria de identificar uma ameaça, compartilhar informações, mobilizar recursos e responder a uma crise, menor será a necessidade de depender de um único parceiro para compreender ou enfrentar determinado problema.

É nesse ponto que a ideia de uma rede latino-americana de capacidades deixa de ser apenas uma proposta de integração regional e passa a adquirir dimensão geopolítica.

Capacidade compartilhada também é poder compartilhado.

A região não precisa necessariamente construir uma grande estrutura militar centralizada para ampliar sua autonomia. Pode construir, passo a passo, uma rede de sensores, informações, protocolos, centros de conhecimento, infraestrutura e capacidades operacionais que aumente a resiliência coletiva sem retirar dos Estados o controle sobre suas próprias decisões.

O objetivo não seria criar uma América Latina militarmente uniforme, seria construir uma América Latina mais conectada, mais consciente de suas vulnerabilidades e mais capaz de responder coletivamente àquilo que nenhum país consegue enfrentar sozinho. Esse modelo talvez seja menos ambicioso no plano institucional, mas pode ser muito mais realista no plano estratégico.

E, justamente por isso, pode oferecer à região algo que projetos anteriores frequentemente não conseguiram produzir: cooperação que sobreviva às mudanças de governo porque está baseada menos em alinhamentos ideológicos e mais em capacidades, interesses e necessidades concretas.

Interoperabilidade será uma escolha estratégica

Um dos elementos mais importantes dessa transformação será a interoperabilidade. Pois, frente ao ambiente estratégico no qual as ameaças atravessam fronteiras, os sistemas de segurança não podem permanecer limitados pelas mesmas fronteiras administrativas. Uma embarcação suspeita pode atravessar diferentes zonas marítimas; uma organização criminosa pode operar simultaneamente em vários países; um ataque cibernético pode atingir servidores localizados em diferentes continentes; e uma crise regional pode exigir que forças de diferentes Estados compartilhem informações e coordenem suas ações em poucas horas. Nesse cenário, possuir equipamentos modernos não é suficiente, é necessário que esses equipamentos consigam conversar entre si.

Interoperabilidade significa, em termos práticos, a capacidade de diferentes forças, sistemas, unidades e organizações trabalharem conjuntamente, compartilhando informações e coordenando ações mesmo quando seus equipamentos, doutrinas ou estruturas administrativas não são idênticos.

Essa capacidade possui pelo menos três dimensões:

  • A primeira é técnica: sistemas de comunicação, sensores, redes de dados, centros de comando e plataformas precisam ser capazes de trocar informações de maneira segura e em tempo adequado.
  • A segunda é operacional: os militares precisam conseguir empregar essas informações em conjunto, com procedimentos compatíveis, regras de engajamento compreendidas e estruturas de comando capazes de coordenar diferentes meios.
  • A terceira é doutrinária: os países precisam possuir conceitos minimamente compatíveis sobre como determinadas operações serão planejadas, executadas e avaliadas.

Sem essas três dimensões, exercícios multinacionais podem produzir uma aparência de integração muito maior do que a capacidade real existente, e essa preocupação já aparece em estruturas militares consolidadas.

A OTAN, por exemplo, desenvolveu ao longo de décadas padrões e procedimentos destinados a garantir interoperabilidade entre forças de diferentes países. A própria organização considera os padrões de interoperabilidade fundamentais para permitir que forças multinacionais compartilhem informações, coordenem operações e empreguem sistemas de diferentes origens.

A experiência demonstra, porém, que interoperabilidade não significa necessariamente uniformidade. Dois países não precisam operar exatamente o mesmo caça, navio, radar ou sistema de comando para compartilhar informações. O que precisam é estabelecer interfaces, protocolos, padrões e procedimentos que permitam que sistemas diferentes funcionem dentro de uma mesma arquitetura operacionalEssa distinção é particularmente importante para a América Latina.

Se a interoperabilidade for construída apenas pela aquisição de equipamentos provenientes de um único fornecedor ou de uma única potência, ela poderá aumentar a capacidade de operação conjunta no curto prazo, mas também poderá criar uma nova forma de dependência no longo prazo. A região corre, nesse caso, o risco de substituir a fragmentação atual por uma dependência tecnológica centralizadaÉ justamente por isso que a interoperabilidade precisa ser tratada como uma escolha estratégica, e não apenas como uma questão técnica. O objetivo deveria ser construir uma arquitetura capaz de conectar sistemas diferentes sem obrigar os países a abandonar suas próprias capacidades. O Brasil oferece um exemplo interessante dessa possibilidade. 

A Força Aérea Brasileira desenvolveu o Link-BR2, sistema de enlace de dados destinado a ampliar a capacidade de troca de informações entre plataformas e centros de comando e controle. A tecnologia permite que diferentes meios compartilhem informações táticas em tempo real, aumentando a consciência situacional e a capacidade de coordenação das forças. A FAB trata o sistema como elemento importante de sua capacidade de comando e controle e de guerra centrada em rede.

O valor estratégico de uma capacidade desse tipo vai muito além do equipamento específico. Quanto mais uma força consegue produzir, processar, distribuir e proteger seus próprios dados, maior é sua capacidade de participar de redes multinacionais sem depender integralmente de um parceiro externo para gerar sua consciência situacional. Isso representa uma diferença fundamental entre interoperabilidade e dependência.

Uma força pode compartilhar dados com parceiros estrangeiros e simultaneamente preservar sua própria cadeia de sensores, processamento, comando e decisão. O mesmo princípio pode ser observado no SISFRON.

O Sistema Integrado de Monitoramento de Fronteiras foi concebido pelo Exército Brasileiro como uma arquitetura de sensores, comunicações, centros de comando e controle e meios de resposta destinada a ampliar a capacidade de monitoramento da faixa de fronteira terrestre.

Uma evolução natural desse conceito, no contexto regional, seria permitir que informações selecionadas sobre movimentos transfronteiriços fossem compartilhadas com países vizinhos, respeitando os limites jurídicos e políticos de cada Estado. Isso poderia ser particularmente útil no combate ao tráfico de drogas, armas, pessoas, veículos roubados e outros ilícitos transnacionais.

O princípio é simples: cada país mantém o controle sobre seus sensores e seus dados, mas determinados dados podem ser compartilhados quando existe interesse operacional comum.

Essa lógica poderia ser aplicada também ao domínio marítimo. Por exemplo, Brasil, Argentina, Chile, Colômbia, Peru e outros países possuem diferentes sistemas de vigilância e controle marítimo. Uma arquitetura regional não precisaria substituir essas estruturas. Poderia conectá-las progressivamente, permitindo que informações sobre embarcações, rotas, atividades suspeitas e eventos de interesse fossem compartilhadas conforme protocolos previamente estabelecidos. Isso criaria uma capacidade de consciência situacional marítima regional muito superior àquela obtida quando cada país observa exclusivamente seu próprio espaço.

O mesmo vale para o espaço aéreo. Sistemas de vigilância aérea, radares, aeronaves de alerta antecipado e centros de comando poderiam compartilhar informações selecionadas para produzir uma visão mais ampla do ambiente regional. Não seria necessário estabelecer um comando aéreo latino-americano ou transferir a soberania sobre o espaço aéreo nacional. Bastaria estabelecer mecanismos de intercâmbio de informações e procedimentos compatíveis. Essa distinção é essencial porque interoperabilidade não exige comando supranacionalCada Estado poderia manter integralmente o controle sobre suas Forças Armadas, seu território, suas regras de engajamento e suas decisões políticas, enquanto determinados sistemas operariam dentro de padrões comuns. É exatamente essa característica que torna a interoperabilidade potencialmente tão útil para a América Latina, pois ela permite construir integração onde existe interesse comum sem exigir integração política onde ela não existe.

Há ainda uma dimensão econômica, padrões comuns podem reduzir custos de desenvolvimento, facilitar manutenção, ampliar mercados para a indústria regional e permitir que diferentes países adquiram componentes compatíveis sem necessariamente comprar sistemas completos de um mesmo fornecedor.

Se a região desenvolvesse padrões comuns para determinados sistemas de comunicação, identificação, comando e controle, drones, sensores ou protocolos de intercâmbio de dados, empresas latino-americanas poderiam passar a produzir soluções destinadas a um mercado regional mais amplo. Nesse ponto, interoperabilidade e Base Industrial de Defesa se encontram.

Um padrão regional pode funcionar também como instrumento de política industrial. Se Brasil, Argentina, Chile, Colômbia e outros países adotarem requisitos técnicos compatíveis em determinadas áreas, uma empresa que desenvolva uma solução para um desses mercados terá maior possibilidade de oferecê-la aos demais. Isso reduz a fragmentação dos mercados nacionais e cria incentivos para investimentos em pesquisa, desenvolvimento e produção.

Naturalmente, existem obstáculos, cada país possui sistemas legados, fornecedores diferentes, níveis distintos de maturidade tecnológica e restrições orçamentárias. Além disso, compartilhar dados militares exige confiança política, mecanismos de proteção de informações e regras claras sobre classificação, acesso e utilização dos dados.

A interoperabilidade também pode criar vulnerabilidades se for mal projetada. Quanto mais sistemas estiverem conectados, maior será a importância da cibersegurança. Uma arquitetura regional de dados precisa ser capaz de determinar quem pode acessar determinada informação, em quais circunstâncias, por quanto tempo e com quais mecanismos de autenticação e auditoria.

Uma rede compartilhada sem segurança adequada pode transformar interoperabilidade em vetor de vulnerabilidade. Por isso, a arquitetura precisa ser construída sobre princípios de segurança desde o projeto, redundância, criptografia, segmentação de redes, autenticação forte e capacidade de operar mesmo quando parte da infraestrutura estiver indisponível.

Existe ainda outro ponto frequentemente negligenciado: a interoperabilidade precisa funcionar também quando a tecnologia falha.

Em uma crise real, satélites podem ficar indisponíveis, redes podem sofrer interferência, sistemas de comunicação podem ser degradados e determinados enlaces podem ser interrompidos. Uma força verdadeiramente interoperável precisa possuir alternativas. Isso significa desenvolver procedimentos que permitam operar com diferentes meios de comunicação, estabelecer redundância e manter capacidades essenciais mesmo diante da perda de determinados sistemas.

Interoperabilidade, portanto, não significa apenas conectar sistemas. Significa construir a capacidade de continuar conectado quando parte deles deixar de funcionar. Essa visão é particularmente importante para a América Latina porque permite pensar em uma arquitetura tecnológica distribuída.

O Brasil poderia manter suas próprias redes e sistemas nacionais; a Argentina, o Chile, a Colômbia e os demais países fariam o mesmo. Em áreas específicas, entretanto, poderiam existir interfaces comuns capazes de conectar essas arquiteturas. O resultado seria uma rede na qual nenhum país precisaria abandonar sua autonomia tecnológica para participar.

Essa abordagem também permitiria à região manter relações estratégicas diversificadas. O Brasil poderia continuar cooperando com os Estados Unidos e países europeus, operar sistemas de origem sueca, francesa ou norte-americana e, simultaneamente, desenvolver tecnologias nacionais. Outros países poderiam manter relações semelhantes com diferentes parceiros.

A interoperabilidade regional funcionaria como uma camada comum sobre arquiteturas nacionais distintas. Essa talvez seja a melhor forma de evitar dois extremos igualmente problemáticos: a fragmentação absoluta, na qual cada país opera em uma ilha tecnológica, e a padronização excessiva, na qual a integração depende da adoção de sistemas controlados por um único fornecedor ou potência.

A escolha estratégica, portanto, não é entre independência tecnológica absoluta e dependência externa, é entre ter capacidade para conectar diferentes parceiros preservando a própria capacidade de decisão ou aceitar que a arquitetura tecnológica de segurança seja definida por terceirosPara a América Latina, essa escolha terá consequências que ultrapassam o campo militar.

Quem define os padrões de comunicação, os protocolos de dados, as interfaces dos sistemas e os requisitos de interoperabilidade também influencia quais empresas terão acesso aos mercados, quais tecnologias serão adotadas e quais dependências serão criadas para as próximas décadas.

Interoperabilidade é, portanto, muito mais do que fazer forças diferentes operarem juntas, é uma decisão sobre como a arquitetura de segurança regional será construída, e principalmente, sobre quem terá capacidade de definir seus padrões.

O Atlântico Sul será um dos principais testes

Entre os espaços estratégicos que poderão definir o grau de autonomia da América Latina nas próximas décadas, poucos são tão relevantes quanto o Atlântico Sul. O oceano não constitui apenas uma extensão geográfica entre América do Sul e África. Ele funciona como uma infraestrutura estratégica sobre a qual estão apoiados fluxos comerciais, energéticos, logísticos, digitais e alimentares que conectam diferentes economias ao sistema internacional. Para o Brasil, essa importância é ainda maior.

A extensa costa brasileira, a concentração de atividades de exploração de petróleo e gás offshore, a presença de importantes portos e terminais, as rotas utilizadas pelo comércio exterior e a existência de cabos submarinos fazem do Atlântico Sul um dos principais espaços de interesse estratégico nacional.

A própria Política Nacional de Defesa brasileira define o Atlântico Sul como parte do entorno estratégico do país e estabelece a necessidade de preservar a paz e a segurança nessa área. A Estratégia Nacional de Defesa, por sua vez, vincula a capacidade de defesa do território brasileiro à proteção dos espaços marítimos e das riquezas existentes em sua plataforma continental.

A dimensão econômica ajuda a explicar essa prioridade: Mais de 95% do comércio exterior brasileiro é transportado por via marítima, enquanto a produção offshore responde pela maior parte do petróleo e do gás natural extraídos no país. A chamada Amazônia Azul, com 5,7 milhões de km², concentra recursos naturais, infraestrutura energética, atividades econômicas e rotas fundamentais para o funcionamento da economia brasileira. Mas o valor estratégico do Atlântico Sul não termina nas águas sob jurisdição brasileira.

A região conecta diretamente os países da América do Sul ao continente africano e às principais rotas marítimas internacionais. É também uma área de circulação de commodities, hidrocarbonetos, minérios, alimentos e produtos industrializados, além de abrigar importantes recursos pesqueiros e ecossistemas de elevado valor ambiental. Essa dimensão transcontinental é uma das razões pelas quais o Atlântico Sul ocupa posição singular na política externa brasileira.

A Zona de Paz e Cooperação do Atlântico Sul (ZOPACAS), criada pela Assembleia Geral das Nações Unidas em 1986, reúne países sul-americanos e africanos e tem entre seus objetivos preservar a região como zona de paz, promover cooperação e evitar a introdução de armamentos nucleares no espaço regional. O mecanismo também passou a incorporar temas relacionados à segurança marítima, desenvolvimento sustentável e proteção dos recursos oceânicos.

A ZOPACAS é particularmente relevante para a discussão desta matéria porque oferece algo que poucas iniciativas regionais possuem: uma estrutura de cooperação que conecta as duas margens do Atlântico Sul.

Isso significa que uma eventual arquitetura de segurança para o Atlântico Sul não precisa necessariamente ser construída exclusivamente entre países sul-americanos. Pois Brasil, Argentina, Uruguai e outros países da costa atlântica sul-americana possuem interesses que se cruzam com os de Angola, Namíbia, África do Sul, Cabo Verde e outras nações africanas.

As ameaças também atravessam essas fronteiras, como a pesca ilegal, não declarada e não regulamentada, tráfico de drogas, contrabando, crimes ambientais, exploração irregular de recursos, acidentes marítimos e ameaças contra infraestrutura crítica não respeitam limites políticos. Uma embarcação envolvida em uma atividade ilícita pode operar em diferentes zonas marítimas, alterar sua rota e explorar lacunas de vigilância entre diferentes jurisdições. É nesse ponto que a consciência situacional marítima ganha valor estratégico.

Nenhum país precisa necessariamente possuir capacidade para monitorar sozinho todo o Atlântico Sul. O que precisa existir é a capacidade de construir uma imagem operacional suficientemente ampla para que cada Estado consiga compreender o que acontece em seu entorno e identificar movimentos que possam representar riscos. Isso pode ser alcançado por meio da integração progressiva de diferentes fontes de informação.

Sistemas de identificação automática de navios, radares costeiros, satélites, aeronaves de patrulha marítima, navios de superfície, sistemas não tripulados, informações portuárias e dados de inteligência podem produzir, quando adequadamente integrados, uma visão muito mais abrangente do ambiente marítimo.

O objetivo não seria criar um sistema único controlado por um órgão supranacional. Cada país continuaria responsável por seus sensores, suas águas jurisdicionais e suas decisões operacionais. O que poderia ser compartilhado seria uma parcela das informações necessárias para identificar ameaças que ultrapassam as fronteiras nacionais. A soberania permaneceria nacional, a consciência situacional poderia ser regional, essa distinção é fundamental.

A Convenção das Nações Unidas sobre o Direito do Mar estabelece diferentes regimes jurídicos para o espaço marítimo, incluindo mar territorial, zona contígua, zona econômica exclusiva e alto-mar. A existência desses regimes significa que a cooperação marítima precisa respeitar as competências e os direitos atribuídos a cada Estado pelo direito internacional.

Isso não impede a cooperação, ao contrário, oferece o marco jurídico dentro do qual ela pode ocorrer. Um mecanismo regional de compartilhamento de informações poderia, por exemplo, permitir que diferentes países recebessem alertas sobre embarcações associadas a atividades ilícitas, alterações suspeitas de rota, pesca irregular ou possíveis ameaças à infraestrutura marítima. A informação permaneceria sob controle do Estado que a produziu, mas poderia ser disponibilizada conforme regras previamente acordadas.

Há, entretanto, uma questão que torna a equação estratégica do Atlântico Sul ainda mais complexa: a disputa de soberania sobre as Ilhas Malvinas, Geórgia do Sul e Sandwich do Sul e os espaços marítimos circundantes.

Para a Argentina, trata-se de uma questão permanente de política de Estado. Buenos Aires reivindica a soberania sobre os arquipélagos e os espaços marítimos correspondentes, enquanto o Reino Unido mantém a administração das ilhas e afirma sua própria soberania sobre os territórios. A disputa permanece no âmbito diplomático, mas possui consequências que ultrapassam a dimensão jurídica.

A presença britânica no Atlântico Sul introduz na região uma capacidade militar de uma potência extrarregional, com infraestrutura, meios aéreos e navais associados à defesa das ilhas. Para Buenos Aires, essa presença constitui parte central da questão de soberania. Para Londres, a manutenção da presença militar está vinculada à defesa dos territórios sob sua administração e à segurança de seus habitantes.

A Organização das Nações Unidas reconhece a existência da disputa de soberania e mantém a questão no âmbito das negociações entre Argentina e Reino Unido. A posição argentina também é reiterada de forma recorrente por sua política externa.

Para a arquitetura de segurança do Atlântico Sul, entretanto, o aspecto mais importante é que a questão das Malvinas não está isolada das demais dimensões estratégicas do espaço marítimo.

A localização dos arquipélagos confere relevância às rotas marítimas do extremo sul do continente, às áreas de pesca, aos recursos naturais e à projeção em direção à Antártica. A posição geográfica também estabelece uma conexão estratégica entre o Atlântico Sul, o entorno do Estreito de Magalhães, as rotas que conduzem ao Pacífico e os espaços marítimos próximos à Antártica.

Isso significa que qualquer discussão sobre uma arquitetura de segurança regional precisa reconhecer que existem diferentes percepções nacionais sobre o mesmo espaço estratégico.

Para a Argentina, a questão das Malvinas está diretamente vinculada à soberania e à projeção nacional no Atlântico Sul e na Antártica. Para o Brasil, embora a disputa não seja uma reivindicação territorial brasileira, a estabilidade do Atlântico Sul possui importância direta para suas linhas de comunicação marítima, recursos energéticos e segurança regional. Para o Reino Unido, as ilhas representam territórios sob sua administração e uma posição estratégica no Atlântico Sul e no acesso à região antártica.

Essa diferença de interesses não impede a cooperação, mas exige que qualquer mecanismo regional seja construído com sensibilidade diplomática e respeito às posições jurídicas de cada Estado, esse talvez seja um dos maiores testes para a ideia de uma rede latino-americana de capacidades.

Seria relativamente simples construir mecanismos de cooperação para busca e salvamento, combate à pesca ilegal ou resposta a desastres. O desafio aumenta quando a arquitetura envolve áreas nas quais existem disputas de soberania ou presença militar de potências extrarregionais. É justamente por isso que a proposta de uma rede de consciência situacional marítima precisa ser diferente de uma aliança militar.

Um sistema destinado a compartilhar informações sobre navegação, segurança marítima, pesca ilegal, acidentes, meteorologia ou proteção de infraestrutura crítica não precisaria assumir posição sobre a soberania das Malvinas.

Cada Estado continuaria mantendo suas próprias posições políticas e jurídicas. A cooperação poderia ocorrer em torno de funções objetivas, e não da resolução prévia de todas as disputas existentes. Essa distinção permitiria que a região avançasse mesmo diante de questões que dificilmente serão solucionadas no curto prazo. Também evitaria que uma arquitetura de segurança fosse transformada em instrumento de disputa diplomática.

No caso brasileiro, essa cautela é particularmente importante. O Brasil mantém tradicionalmente apoio à retomada das negociações entre Argentina e Reino Unido sobre a questão das Malvinas, em consonância com as resoluções das Nações Unidas. Ao mesmo tempo, Brasília possui interesse direto na preservação da estabilidade do Atlântico Sul e na manutenção de suas rotas marítimas e de seus espaços estratégicos.

Essa posição demonstra que cooperação regional não exige uniformidade em todas as questões diplomáticas. É possível cooperar em segurança marítima sem transformar cada mecanismo de cooperação em declaração política sobre disputas territoriais.

Essa pode ser justamente uma das características mais importantes da futura arquitetura regional: separar aquilo que pode ser compartilhado daquilo que continua sendo uma prerrogativa soberana de cada Estado.

No caso do Atlântico Sul, isso significa reconhecer a existência da disputa das Malvinas, compreender seus efeitos estratégicos e, ao mesmo tempo, evitar que ela impeça mecanismos de cooperação em áreas nas quais existe interesse comum.

A questão das Malvinas, portanto, não é apenas um capítulo da história diplomática argentina, ela é também um lembrete de que o Atlântico Sul continua sendo um espaço de competição estratégica, presença militar e interesses extrarregionais.

Há ainda uma dimensão que tende a ganhar importância nos próximos anos: a proteção da infraestrutura crítica instalada no ambiente marítimo.

Cabos submarinos atravessam o Atlântico Sul transportando grandes volumes de dados entre América do Sul, África, Europa e América do Norte. Plataformas de petróleo e gás, terminais portuários e outras estruturas também dependem de um ambiente marítimo relativamente seguro e previsível.

A proteção dessas estruturas exige uma combinação de vigilância física, inteligência, capacidade de resposta e conhecimento permanente do ambiente. Um problema adicional é que grande parte dessas infraestruturas pertence ou é operada por empresas privadas. Isso cria uma nova dimensão para a segurança marítima: Estado e setor privado precisam compartilhar informações suficientes para identificar vulnerabilidades sem transformar informações comerciais ou sensíveis em dados de circulação indiscriminada.

A construção dessa capacidade exige confiança, e confiança não nasce durante uma crise. Ela precisa ser construída em períodos de normalidade por meio de exercícios, intercâmbio de informações, protocolos de comunicação, treinamento conjunto e mecanismos de coordenação.

Nesse aspecto, o Atlântico Sul oferece uma oportunidade particularmente interessante. Exercícios multinacionais já demonstraram que diferentes forças navais e aéreas podem operar conjuntamente em missões de busca e salvamento, patrulhamento, controle marítimo e treinamento. A questão estratégica agora seria transformar parte dessa experiência operacional em mecanismos permanentes de compartilhamento de informação.

O Brasil possui condições particularmente favoráveis para exercer papel relevante nesse processo. A Marinha do Brasil possui experiência acumulada em operações de controle do espaço marítimo, patrulha naval, busca e salvamento e proteção das águas jurisdicionais brasileiras. A Força Aérea Brasileira dispõe de meios de patrulha e vigilância marítima, enquanto o país também desenvolve capacidades espaciais, sistemas de sensoriamento remoto e estruturas de comando e controle. A combinação dessas capacidades pode fazer do Brasil um dos principais nós de uma futura arquitetura de consciência situacional do Atlântico Sul.

Mas existe uma condição, o Brasil não pode transformar essa posição em pretensão de controle regional. A arquitetura somente será sustentável se for percebida pelos demais países como instrumento de cooperação e não como mecanismo de projeção unilateral de poder. Essa é uma diferença importante entre liderança e hegemonia.

Uma liderança brasileira no Atlântico Sul poderia ser construída pela oferta de capacidades, conhecimento, treinamento, infraestrutura e tecnologia. Uma tentativa de centralizar a tomada de decisões provavelmente produziria resistência.

A experiência da ZOPACAS mostra que o Atlântico Sul possui justamente uma tradição diplomática baseada na ideia de cooperação entre países com diferentes capacidades e interesses. A oportunidade agora seria atualizar essa lógica para um ambiente tecnológico completamente diferente.

A ZOPACAS surgiu em uma época na qual a principal preocupação estratégica estava associada à presença militar das grandes potências, à Guerra Fria e à possibilidade de militarização do Atlântico Sul. O ambiente atual é mais complexo.

Hoje, além da presença militar extrarregional, existem ameaças relacionadas à criminalidade transnacional, infraestrutura submarina, segurança cibernética, pesca ilegal, mudanças climáticas, competição por recursos, proteção de cadeias logísticas e crescente utilização de sistemas autônomos.

O desafio, portanto, não é simplesmente “militarizar” a segurança marítima, é desenvolver uma arquitetura capaz de combinar Defesa, segurança marítima, diplomacia, inteligência, ciência, tecnologia, proteção ambiental e participação do setor privado. Essa abordagem também permitiria uma utilização mais eficiente dos recursos disponíveis.

Em vez de cada país tentar reproduzir integralmente todos os meios necessários para monitorar o ambiente marítimo, poderiam ser estabelecidas capacidades complementares. Um país poderia fornecer dados de satélite. Outro poderia contribuir com aeronaves de patrulha. Outro poderia disponibilizar centros de análise. Outro poderia participar com navios ou sistemas não tripulados. A soma dessas capacidades produziria uma percepção regional muito superior àquela obtida individualmente. Isso não significa criar uma força naval latino-americana, significa criar uma rede de vigilância e cooperação marítima, e essa diferença é essencial.

Uma força supranacional exigiria transferência de autoridade, estrutura de comando integrada e compromissos políticos muito mais profundos. Uma rede de informação pode funcionar com acordos mais limitados, objetivos específicos e participação variável. Essa modularidade aumenta a possibilidade de adesão, e também permite que a cooperação avance conforme a confiança entre os países.

Inicialmente, poderiam ser compartilhados apenas dados sobre segurança da navegação e busca e salvamento. Posteriormente, poderiam ser incorporadas informações sobre pesca ilegal e crimes transnacionais. Em uma etapa mais avançada, poderiam ser criados mecanismos para proteger infraestrutura crítica e ampliar a consciência situacional marítima.

A confiança seria construída pela utilidade da cooperação, e não pela imposição de uma estrutura política. Essa pode ser uma das grandes oportunidades estratégicas do Atlântico Sul. A região possui dimensões continentais, recursos naturais relevantes e importância crescente para as cadeias econômicas globais. Ao mesmo tempo, nenhum Estado individual possui recursos ilimitados para monitorá-la de maneira permanente.

A conclusão é quase inevitável: quanto maior a dimensão do espaço a ser protegido, maior será o valor estratégico da informação compartilhada. Nesse sentido, a cooperação marítima não reduziria a soberania dos países latino-americanos, o contrário, ao ampliar a capacidade de cada Estado de conhecer seu entorno, identificar ameaças e reagir a elas, uma rede regional de vigilância e informação poderia fortalecer o próprio exercício da soberania. O Atlântico Sul pode, assim, tornar-se o primeiro grande teste da nova arquitetura de segurança regional.

Se a América Latina conseguir transformar interesses nacionais distintos em uma rede prática de vigilância, informação, resposta e proteção de infraestrutura, terá demonstrado que é possível construir cooperação sem criar uma estrutura supranacional. Nesse caso, compartilhar informação não significaria compartilhar soberania. Significaria ampliar a capacidade de cada país de exercê-la.

A indústria de Defesa pode ser o instrumento de maior valor estratégico

Existe ainda uma dimensão frequentemente subestimada quando se discute uma nova arquitetura de segurança para a América Latina: a capacidade de produzir, sustentar e desenvolver os meios necessários para sua própria Defesa. Não existe autonomia estratégica duradoura sem alguma forma de autonomia industrial e tecnológica.

Um país pode possuir Forças Armadas modernas, sistemas sofisticados e equipamentos de última geração, mas continuará vulnerável se depender integralmente de fornecedores externos para peças críticas, munições, manutenção, atualizações de software, componentes eletrônicos ou serviços especializados. 

Essa vulnerabilidade raramente aparece durante períodos de normalidade. Ela se torna evidente quando uma crise interrompe cadeias logísticas, quando um fornecedor prioriza suas próprias Forças Armadas, quando uma sanção limita o acesso a determinados componentes ou quando uma mudança política transforma uma parceria comercial em uma relação de maior incerteza. Por isso, a indústria de Defesa não deve ser tratada apenas como setor econômico ou como fornecedora das Forças Armadas. Ela é parte da própria arquitetura de segurança. 

A questão não é produzir internamente tudo aquilo que um país utiliza. Como discutido anteriormente, essa seria uma estratégia economicamente inviável para a maioria dos Estados latino-americanos. O objetivo é diferente: identificar quais tecnologias, componentes e processos são suficientemente críticos para que sua indisponibilidade possa comprometer a capacidade militar nacional e, a partir daí, decidir quais competências precisam ser preservadas ou desenvolvidas. Essa distinção muda completamente a lógica da política industrial. Não se trata de buscar autossuficiência absoluta, trata-se de construir resiliência estratégica.

Um país resiliente pode importar determinados componentes, mas possui alternativas de fornecimento, estoques estratégicos, capacidade de manutenção, domínio de tecnologias essenciais e, quando necessário, competência para substituir ou adaptar determinados elementos. Essa capacidade reduz o risco de que uma interrupção externa paralise sistemas militares inteiros. É nesse ponto que a cooperação industrial latino-americana pode adquirir valor estratégico.

A região possui empresas e centros de pesquisa capazes de atuar em diferentes segmentos da Base Industrial de Defesa. O Brasil possui uma estrutura particularmente diversificada, com competências nos setores aeronáutico, naval, terrestre, espacial, de sensores, comunicações, sistemas de comando e controle, mísseis e munições. Argentina, Chile, Colômbia e outros países também possuem empresas, centros tecnológicos e competências específicas que podem complementar essa estrutura. O problema é que essas capacidades permanecem, em grande medida, organizadas em torno de mercados nacionais relativamente pequenos, essa fragmentação reduz escala.

Uma empresa que desenvolve um sistema para atender exclusivamente às necessidades de um único país possui um mercado potencial muito menor do que aquela capaz de oferecer o mesmo produto a vários países que adotam requisitos técnicos compatíveis. É aqui que a interoperabilidade, discutida anteriormente, encontra a política industrial. Padrões comuns podem criar mercados comuns.

Se diferentes países latino-americanos adotarem requisitos compatíveis para determinados sistemas de comunicação, sensores, drones, veículos, munições ou equipamentos de comando e controle, empresas da região poderão desenvolver produtos destinados a um mercado potencialmente muito maior. Isso não significa que todos os países precisem comprar o mesmo equipamento. Significa que os equipamentos precisam ser capazes de operar dentro de uma arquitetura compatível, a diferença é enorme. Uma rede regional de capacidades pode estimular uma rede regional de fornecedores.

Um radar desenvolvido em um país poderia integrar uma arquitetura de comando e controle utilizada por outro. Um sistema de comunicações produzido regionalmente poderia equipar diferentes Forças Armadas. Um veículo não tripulado desenvolvido no Brasil poderia ser empregado em missões de vigilância por países vizinhos. Uma empresa argentina poderia fornecer determinado componente para um programa brasileiro ou chileno. Essa integração criaria algo que a América Latina ainda possui de maneira limitada: cadeias regionais de valor em Defesa.

O benefício não seria apenas econômico. Quanto maior a participação regional em uma cadeia produtiva, maior a capacidade de manter equipamentos operacionais durante crises, adaptar sistemas às necessidades locais e desenvolver soluções sem depender integralmente de decisões tomadas fora da região.

A questão da manutenção é particularmente importante. Em muitos programas militares, o custo e a complexidade da sustentação ao longo de décadas podem superar significativamente o valor inicialmente pago pela aquisição da plataforma.

Uma aeronave de combate, um navio, um radar ou um sistema de defesa aérea não termina seu ciclo econômico quando é entregue à Força Armada, começa ali uma relação de décadas envolvendo manutenção, peças, atualização de software, modernização, treinamento, infraestrutura e eventualmente substituição de componentes. Quem controla essa cadeia controla uma parte significativa da capacidade militar. 

Por isso, a transferência de tecnologia precisa ser analisada para além do número de cursos realizados ou da quantidade de técnicos treinados. A pergunta fundamental é: quais competências permanecerão efetivamente no país depois que o contrato terminar?

Dominar um processo de fabricação, compreender uma arquitetura de sistemas, possuir capacidade de integração, controlar determinados códigos, formar engenheiros e manter uma cadeia de fornecedores são resultados muito mais estratégicos do que simplesmente receber equipamentos montados localmente. É nesse ponto que a experiência brasileira passa a construir relevância.

Programas como o Gripen, o PROSUB, o desenvolvimento de sistemas de monitoramento, radares, mísseis e outros projetos estratégicos demonstram que uma aquisição pode ser utilizada como instrumento para ampliar competências nacionais quando existe uma política deliberada de absorção tecnológica e participação industrial.

Mas esses resultados dependem de continuidade, uma empresa não consegue manter engenheiros especializados, linhas de produção e fornecedores críticos durante períodos prolongados de incerteza se não houver previsibilidade de demanda. Essa é uma das razões pelas quais a política de Defesa e a política industrial precisam estar conectadas. Não existe Base Industrial de Defesa sustentável sem demanda previsível, e não existe capacidade militar sustentável sem uma Base Industrial de Defesa capaz de responder às necessidades das Forças Armadas. Essa relação cria um ciclo.

As Forças Armadas definem uma necessidade operacional. O Estado estabelece uma política de aquisição e desenvolvimento. A indústria investe em capacidade produtiva e tecnológica. O programa gera empregos qualificados, conhecimento e fornecedores. A continuidade da demanda permite preservar essas competências. E essas competências, por sua vez, reduzem vulnerabilidades estratégicas. Quando esse ciclo é interrompido, o efeito pode ser o oposto. Empresas perdem escala, profissionais altamente especializados deixam o setor, fornecedores desaparecem e tecnologias desenvolvidas ao longo de anos podem ser perdidas. A recuperação posterior pode custar muito mais do que teria custado preservar a capacidade original. Por isso, a indústria de Defesa deve ser pensada como infraestrutura estratégica nacional, e em determinadas áreas como infraestrutura estratégica regional.

Essa visão abre espaço para uma possibilidade ainda pouco explorada na América Latina: programas multinacionais desde sua concepção, em vez de cada país desenvolver isoladamente sistemas semelhantes, poderiam ser identificadas áreas nas quais a cooperação ofereça ganhos claros de escala: Sistemas não tripulados, radares, sensores marítimos, comunicações seguras, cibersegurança, munições convencionais, veículos logísticos, sistemas de vigilância de fronteiras e determinadas tecnologias espaciais poderiam constituir pontos de partida.

Não seria necessário estabelecer uma grande organização industrial supranacional. Poderiam ser criados consórcios específicos para determinados projetos, com divisão de responsabilidades entre empresas e instituições de diferentes países. Um país poderia fornecer a plataforma. outro, sensores, um terceiro, sistemas de comunicação, outro poderia produzir componentes, realizar integração ou assumir parte da manutenção. Esse modelo permitiria distribuir conhecimento e investimento, além de reduzir o risco de concentração de toda uma capacidade estratégica em um único fornecedor. 

Também criaria uma consequência geopolítica importante: uma América Latina que produz parte relevante dos equipamentos utilizados por suas próprias Forças Armadas passa a possuir maior capacidade de definir os requisitos tecnológicos de sua arquitetura de segurança. Uma América Latina que apenas compra soluções prontas precisa adaptar sua arquitetura às tecnologias disponíveis no mercado internacional. Essa diferença pode parecer técnica, mas possui consequências políticas. Quem produz também influencia os padrões, quem domina a tecnologia participa da definição das regras. Por isso, a indústria de Defesa pode se tornar um dos instrumentos mais importantes para ampliar a autonomia estratégica regional.

O Brasil ocupa posição particularmente relevante nessa equação. A dimensão de sua economia, o tamanho de suas Forças Armadas, a existência de empresas de elevada capacidade tecnológica e a experiência acumulada em programas complexos permitem ao país atuar como um dos principais polos industriais da região. Mas essa posição não deve ser confundida com a ideia de que o Brasil possa ou deva produzir tudo sozinho.

A oportunidade está justamente em utilizar sua escala para construir cadeias de cooperação industrial com outros países. Uma empresa brasileira pode encontrar em um parceiro argentino uma competência complementar. Uma empresa chilena pode possuir tecnologia específica de sensores ou monitoramento que seja útil a determinado projeto. Empresas colombianas podem contribuir com conhecimentos adquiridos em sistemas de vigilância e segurança de fronteiras. Outros países podem oferecer mercados, mão de obra especializada, infraestrutura ou capacidades industriais específicas.

O resultado pode ser uma Base Industrial de Defesa mais integrada, na qual diferentes países participassem de diferentes segmentos. Isso também teria efeito sobre as exportações. Um mercado regional mais integrado permitiria que empresas latino-americanas desenvolvessem produtos não apenas para atender seus próprios governos, mas também para disputar mercados internacionais com maior escala e capacidade de sustentação.

A exportação, nesse caso, deixaria de ser apenas uma fonte de receita. Ela passaria a funcionar como mecanismo de preservação de linhas de produção, geração de escala e manutenção de competências estratégicas. Esse modelo já é adotado por grandes potências industriais, especialmente na Europa, onde a integração de capacidades industriais de diferentes países deu origem a consórcios, joint ventures e grandes grupos multinacionais de Defesa, capazes de distribuir custos, conhecimento, produção e mercados entre diferentes Estados.

Países com fortes bases industriais de Defesa utilizam seus próprios programas militares para desenvolver tecnologias, preservar empresas estratégicas e posteriormente ampliar mercados por meio das exportações. A América Latina dificilmente reproduzirá esse modelo em sua totalidade, mas pode adaptar parte de sua lógica à realidade regional.

O primeiro passo seria abandonar a visão de que cada aquisição militar termina no momento em que o equipamento é entregue. A aquisição é apenas o início de um ciclo tecnológico e industrial que pode durar décadas.

A pergunta estratégica, portanto, não deveria ser apenas quanto custa determinado equipamento, mas deveria incluir: quanto custa mantê-lo? Onde serão produzidos seus componentes? Quem poderá atualizá-lo? Quais tecnologias permanecerão no país? Existe uma segunda fonte de fornecimento? A indústria nacional poderá participar da modernização? Outros países da região poderiam operar o mesmo sistema? Existe mercado suficiente para sustentar a produção?

Essas perguntas conectam diretamente aquisição, autonomia, indústria e interoperabilidade, e é justamente nessa interseção que pode estar uma das maiores oportunidades estratégicas da América Latina, a região não precisa tentar construir uma indústria capaz de competir em todos os segmentos da Defesa global, precisa identificar onde possui vantagens, onde existem vulnerabilidades críticas e onde a cooperação pode transformar mercados nacionais fragmentados em capacidades regionais sustentáveis.

Nesse processo, o Brasil pode exercer papel de grande relevância, mas para isso também terá de resolver suas próprias limitações: garantir previsibilidade orçamentária aos programas estratégicos, preservar empresas e competências críticas, ampliar a escala de produção e transformar parte de sua capacidade industrial em plataforma de cooperação regional.

A questão, portanto, não é simplesmente produzir mais equipamentos, é produzir capacidade de decisãoPorque, no ambiente estratégico do século XXI, a soberania não termina na fronteira, ela também passa pela fábrica, pelo laboratório, pelo centro de desenvolvimento de software, pela cadeia de fornecedores, pelo estoque de componentes e pela capacidade de manter um sistema funcionando quando o ambiente internacional deixar de ser favorável.

Uma região que não controla nenhuma parte relevante das tecnologias de que depende dificilmente conseguirá controlar plenamente sua própria arquitetura de segurança.

A relação com Washington continuará sendo indispensável

Uma resposta latino-americana à transformação da arquitetura de segurança do Hemisfério Ocidental não significa afastamento dos Estados Unidos, pois qualquer estratégia regional que ignore a dimensão do poder norte-americano estará desconectada da realidade.

Os Estados Unidos continuarão sendo, por ampla margem, a principal potência militar do Hemisfério Ocidental e um dos poucos países do mundo com capacidade de combinar projeção global de força, inteligência estratégica, domínio tecnológico, infraestrutura logística, poder aeroespacial, capacidade naval e uma extensa rede de alianças e parcerias. Essa realidade não deverá mudar no horizonte previsível.

Para os países latino-americanos, portanto, a questão estratégica não é como substituir a presença norte-americana, mas como construir maior capacidade de decisão dentro de uma realidade na qual Washington continuará sendo um ator central.

A cooperação com os Estados Unidos pode produzir benefícios concretos para a região. Intercâmbio de inteligência, treinamento militar, segurança marítima, combate ao tráfico internacional, vigilância de fronteiras, resposta a desastres, operações de busca e salvamento e acesso a determinadas tecnologias podem ampliar significativamente as capacidades dos países participantes. Em diversas áreas, inclusive, a capacidade norte-americana dificilmente poderá ser reproduzida individualmente pelos países latino-americanos. 

Satélites, sistemas de inteligência, aeronaves de alerta e vigilância, redes de comunicações, capacidade de transporte estratégico e estruturas de comando e controle exigem investimentos que ultrapassam a capacidade financeira e tecnológica da maioria dos Estados da região. Isso não significa, entretanto, que a cooperação precise resultar em dependência, a questão central está na forma como essa relação é estruturada.

Um país que possui alternativas tecnológicas, capacidade industrial mínima, pessoal qualificado, infraestrutura própria e domínio sobre suas decisões operacionais possui maior liberdade para escolher quando, como e em que condições cooperar. Já um país que depende integralmente de um único parceiro para treinamento, manutenção, inteligência, munições, peças de reposição ou atualização de seus sistemas possui uma margem de negociação muito menor. A diferença entre essas duas situações não está no grau de proximidade política com Washington, está na existência ou ausência de alternativas.

Por isso, uma relação estratégica madura com os Estados Unidos não deveria ser medida apenas pela quantidade de acordos assinados ou pelo número de exercícios conjuntos realizados. Mass, deveria também ser avaliada pela capacidade de cada país de estabelecer seus próprios requisitos, preservar competências críticas e decidir quais áreas deseja desenvolver autonomamente e quais podem permanecer dependentes de parceiros externos.

Essa lógica não é exclusiva da relação com Washington, ela vale igualmente para qualquer parceria estratégica com países europeus, asiáticos ou do Oriente Médio. A autonomia estratégica não exige distância de todos, exige capacidade de escolha entre diferentes possibilidadesNesse contexto, os Estados Unidos podem continuar desempenhando papel relevante na segurança regional sem necessariamente ocupar todos os espaços da arquitetura latino-americana.

Washington pode fornecer determinadas capacidades que os países da região não possuem, enquanto Brasil, Argentina, Chile, Colômbia e outros Estados desenvolvem competências próprias em áreas nas quais possuem maior vantagem ou interesse estratégico. Essa divisão pode ser mais eficiente do que a tentativa de reproduzir integralmente em cada país, todas as capacidades necessárias para a Defesa.

O exemplo da segurança marítima ajuda a demonstrar essa possibilidade. Os Estados Unidos possuem capacidades de inteligência, vigilância e reconhecimento que podem ampliar significativamente a consciência situacional no Caribe, no Atlântico e no Pacífico. Ao mesmo tempo, países latino-americanos possuem conhecimento territorial, infraestrutura regional e presença permanente em áreas nas quais uma potência externa não consegue necessariamente operar com a mesma proximidade. A combinação dessas capacidades pode produzir resultados superiores aos obtidos isoladamente. 

O mesmo princípio pode ser aplicado ao combate ao crime organizado transnacional. Redes criminosas operam através de diferentes países, utilizam rotas marítimas e terrestres internacionais e exploram diferenças entre legislações, estruturas de fiscalização e capacidades de inteligência. Nesse ambiente, a cooperação com os Estados Unidos pode fornecer recursos, treinamento e informações relevantes. Mas a efetividade da resposta continuará dependendo da capacidade dos próprios países latino-americanos de controlar seus territórios, fronteiras, portos, aeroportos e espaços marítimos. Cooperação externa não substitui capacidade nacional, ela a complementa, essa distinção também é importante quando se trata de tecnologia.

A aquisição de sistemas norte-americanos pode ampliar rapidamente determinadas capacidades militares, mas precisa ser acompanhada de uma avaliação sobre manutenção, atualização, transferência de conhecimento, acesso a componentes e possibilidade de integração com sistemas de outras origens, caso contrário, uma aquisição que inicialmente aumenta a capacidade militar pode ao longo do tempo, criar uma dependência tecnológica difícil de administrar.

A questão não é rejeitar equipamentos ou tecnologias norte-americanas, é evitar que a origem do equipamento determine automaticamente toda a arquitetura tecnológica de uma Força Armada. Esse é um dos motivos pelos quais a interoperabilidade discutida anteriormente assume importância estratégica.

Um país capaz de operar sistemas de diferentes origens possui maior flexibilidade para construir sua arquitetura de Defesa. Pode combinar sensores nacionais com plataformas estrangeiras, integrar sistemas de comunicação de diferentes fornecedores e desenvolver soluções próprias em torno de equipamentos adquiridos no exterior. Essa capacidade de integração pode ser tão importante quanto a plataforma adquirida.

O Brasil possui particular relevância nesse debate porque mantém uma relação histórica de cooperação com os Estados Unidos, mas também desenvolveu ao longo das últimas décadas uma política de diversificação de parceiros e de preservação de determinadas competências nacionais.

A experiência brasileira demonstra que cooperação e autonomia podem coexistir. O país mantém relações de Defesa com Washington, mas também desenvolve programas estratégicos e mantém parcerias com países europeus, asiáticos, Israel e outros atores, além de possuir uma Base Industrial de Defesa própria. Essa diversificação não significa ausência de alinhamentos, significa evitar que uma única relação determine todas as escolhas estratégicas.

Para os países menores da região, essa questão pode ser ainda mais relevante. Estados com recursos militares e econômicos limitados dificilmente conseguirão desenvolver sozinhos todas as capacidades necessárias para enfrentar ameaças contemporâneas. Para eles, a cooperação com potências externas continuará sendo necessária. A questão será como transformar essa necessidade em uma relação que preserve margem de decisão.

Isso pode ocorrer por meio de acordos que estabeleçam claramente objetivos, responsabilidades, acesso a informações, mecanismos de treinamento e condições de utilização dos sistemas fornecidos. Também depende da capacidade de cada Estado de manter alternativas. Ter mais de um fornecedor, desenvolver determinados componentes localmente, manter estoques estratégicos, formar pessoal próprio e preservar capacidade de manutenção são medidas que reduzem os riscos associados à dependência excessiva. Nesse sentido, a relação com Washington não precisa ser vista como uma escolha entre alinhamento e autonomia.

É possível construir uma relação de cooperação estratégica com maior capacidade de negociação. Essa talvez seja a forma mais realista de compreender o futuro do Hemisfério Ocidental. Os Estados Unidos continuarão sendo a principal potência militar da região. Países latino-americanos continuarão necessitando de acesso a determinadas capacidades, tecnologias e estruturas que Washington possui em escala incomparável, mas a evolução da arquitetura regional pode fazer com que essa relação deixe de ser estruturada apenas pela diferença de poder e passe a incorporar uma maior distribuição de capacidades.

Quanto mais os países latino-americanos desenvolverem suas próprias indústrias, sistemas de vigilância, capacidades de inteligência, infraestrutura de comando e controle, recursos humanos e mecanismos de cooperação regional, maior será sua capacidade de negociar com Washington em condições mais favoráveis. A assimetria de poder continuará existindo, o que pode mudar é o grau de dependência produzido por essa assimetria, esse é provavelmente o ponto central.

Autonomia estratégica latino-americana não significa construir uma arquitetura contra os Estados Unidos. Significa construir capacidade suficiente para que a região possa cooperar com Washington sem depender automaticamente de suas escolhas para definir as próprias prioridades de segurança.

Nesse cenário, os Estados Unidos continuariam sendo um dos principais parceiros da região, mas não necessariamente o único eixo sobre o qual toda a arquitetura de segurança precisaria ser organizada.

O desafio chinês e russo também precisa ser considerado

A transformação da arquitetura de segurança do Hemisfério Ocidental também ocorre no ambiente marcado pela crescente competição entre Estados Unidos, China e Rússia, e a América Latina não está isolada dessa disputa.

A presença chinesa cresceu de maneira significativa nas últimas décadas, especialmente nas áreas de comércio, infraestrutura, energia, mineração, financiamento e tecnologia. A Rússia, embora possua uma presença econômica muito menor na região, mantém relações políticas e de Defesa com determinados governos latino-americanos e utiliza instrumentos diplomáticos, militares e de informação para preservar e ampliar sua influência, essas presenças precisam ser analisadas sem simplificações.

A influência chinesa na América Latina, por exemplo, não pode ser compreendida apenas pela quantidade de investimentos realizados ou pelo volume do comércio bilateral. A China tornou-se um importante parceiro comercial de diversos países da região e passou a participar de setores considerados estratégicos, como energia, mineração, infraestrutura portuária, telecomunicações, transporte e tecnologia. Essa presença cria oportunidades econômicas reais, ao mesmo tempo, cria questões que precisam ser incorporadas ao cálculo estratégico dos governos latino-americanos.

Quando uma empresa estrangeira passa a operar uma infraestrutura crítica, quando determinado país depende de um fornecedor externo para uma tecnologia essencial ou quando uma cadeia de suprimentos fica concentrada em um único mercado, a relação deixa de ser exclusivamente comercial, ela passa a possuir uma dimensão estratégica, e esse princípio não é diferente daquele discutido anteriormente em relação aos Estados Unidos. A questão não é simplesmente quem é o fornecedor, é qual grau de dependência está sendo criado.

Um porto, uma rede de telecomunicações, uma infraestrutura energética, um sistema de armazenamento de dados ou uma cadeia de fornecimento de minerais críticos podem possuir importância para a segurança nacional mesmo quando não apresentam qualquer característica diretamente militar. É justamente essa ampliação do conceito de segurança que torna a competição entre grandes potências particularmente relevante para a América Latina.

A infraestrutura física e digital passou a integrar o ambiente estratégico, onde cabos submarinos, redes de telecomunicações, sistemas de computação, satélites, centros de dados, portos, ferrovias, instalações energéticas e cadeias logísticas podem influenciar diretamente a capacidade de um Estado responder a uma crise.

Nesse contexto, a China possui uma vantagem importante: sua capacidade de combinar política industrial, financiamento, comércio exterior e presença tecnológica dentro de uma estratégia nacional de longo prazo.

Para os países latino-americanos, essa capacidade pode representar acesso a investimentos e tecnologias que muitas vezes não estão disponíveis em condições semelhantes por meio de outros parceiros. O problema estratégico surge quando uma oportunidade de curto prazo produz uma dependência de longo prazo que o Estado não avaliou adequadamente. 

Por isso, a questão não deveria ser simplesmente aceitar ou rejeitar a presença chinesa. O debate mais relevante é em quais setores a participação chinesa fortalece a capacidade nacional e em quais setores ela pode criar vulnerabilidades que precisam ser administradasEssa análise deve ser feita projeto por projeto.

Uma obra de infraestrutura convencional não possui necessariamente o mesmo grau de sensibilidade de uma rede nacional de telecomunicações. Um investimento em mineração não produz automaticamente o mesmo tipo de risco que o controle de uma infraestrutura digital crítica. Um acordo comercial não deve ser analisado da mesma maneira que a aquisição de sistemas militares ou tecnologias de uso dual. A capacidade de diferenciar esses níveis de risco é fundamental.

O mesmo raciocínio se aplica à Rússia, embora em uma escala diferente. Pois Moscou não possui na América Latina o mesmo peso econômico que Pequim, mas mantém relações históricas e estratégicas com determinados países, incluindo cooperação militar, venda de equipamentos, treinamento, energia, acordos tecnológicos e relações diplomáticas.

A presença russa também precisa ser compreendida dentro de uma estratégia mais ampla. A capacidade militar russa, sua indústria de Defesa, seu arsenal nuclear, sua experiência operacional e seus instrumentos de influência política fazem de Moscou um ator relevante na competição internacional, mesmo que sua capacidade econômica seja significativamente inferior à dos Estados Unidos e da China. Na América Latina, essa influência é mais concentrada e seletiva. Ela tende a assumir maior importância em países que possuem relações políticas mais próximas com Moscou ou que utilizam equipamentos de origem russa em suas Forças Armadas.

Isso cria uma questão semelhante àquela observada em outras relações de Defesa: quanto maior a dependência de uma determinada cadeia tecnológica, maior o impacto que uma ruptura política ou econômica pode produzir sobre a capacidade militar nacional.

Sanções internacionais, restrições de exportação, dificuldades logísticas e mudanças nas prioridades do fornecedor podem afetar a disponibilidade de peças, munições, manutenção e modernizações. Essa vulnerabilidade não é exclusiva de sistemas russos, ela pode ocorrer com equipamentos norte-americanos, europeus, asiáticos ou de qualquer outra origem. É justamente por isso que a análise estratégica precisa abandonar a lógica de escolher fornecedores com base apenas em alinhamentos políticos.

A pergunta deveria ser: qual combinação de parceiros oferece ao país maior capacidade de manter sua liberdade de ação ao longo do ciclo de vida de suas capacidades estratégicas?

Essa questão conduz diretamente ao conceito de diversificação. Diversificar fornecedores, parceiros tecnológicos, fontes de financiamento e mercados pode reduzir vulnerabilidades e ampliar a capacidade de negociação. Mas diversificação não significa simplesmente substituir uma dependência por várias dependências menores.

Se um país deixa de depender de um único fornecedor para passar a depender de dois ou três fornecedores que controlam tecnologias igualmente críticas, a vulnerabilidade pode apenas assumir uma forma diferente. Por isso, a diversificação precisa estar acompanhada de capacidade própria. O objetivo não é possuir vinte fornecedores, é possuir alternativas reais.

Uma segunda fonte de componentes críticos, capacidade nacional de manutenção, domínio de determinados processos tecnológicos, estoques estratégicos e possibilidade de integração entre sistemas de diferentes origens podem oferecer mais segurança do que simplesmente aumentar o número de parceiros comerciais.

Essa lógica também muda a maneira como a América Latina deveria observar a competição entre grandes potências. A região não precisa escolher entre Washington, Pequim ou Moscou como se estivesse diante de três blocos políticos fechados. Existem diferentes níveis de relacionamento, um país pode manter intensa cooperação de Defesa com os Estados Unidos, negociar infraestrutura com empresas chinesas, desenvolver determinados projetos tecnológicos com parceiros europeus, adquirir equipamentos de outros fornecedores e manter relações diplomáticas com a Rússia sem necessariamente transformar nenhuma dessas relações em alinhamento absoluto. A dificuldade está em estabelecer limites claros para setores considerados críticos.

Algumas áreas podem permanecer abertas à maior competição internacional, outras exigem critérios mais rigorosos de segurança, propriedade intelectual, controle de dados, acesso a códigos, localização da infraestrutura e continuidade do fornecimento. Essa distinção será cada vez mais importante à medida que tecnologias civis e militares se tornam mais interdependentes.

Inteligência artificial, computação em nuvem, sistemas autônomos, sensores, satélites, telecomunicações e processamento de dados possuem aplicações simultaneamente civis e militares. Uma decisão comercial tomada hoje pode, portanto, produzir consequências estratégicas dez ou vinte anos depois. É nesse ponto que a autonomia estratégica volta a se conectar com a indústria. Quanto maior a capacidade regional de desenvolver determinadas tecnologias, menor a necessidade de aceitar soluções externas sem alternativas. Quanto maior a capacidade de produzir, integrar e manter sistemas localmente, maior também a liberdade para negociar com diferentes fornecedores. Essa relação é especialmente importante para o Brasil.

A dimensão do nosso mercado, nossa Base Industrial de Defesa, recursos naturais e a capacidade científica e tecnológica permitem ao Brasil negociar com diferentes centros de poder de uma posição potencialmente mais equilibrada do que a maioria dos Estados latino-americanos, e essa vantagem precisa ser preservada.

O Brasil possui interesses econômicos relevantes tanto nas relações com os Estados Unidos quanto com a China e outros parceiros. Ao mesmo tempo, possui interesses estratégicos próprios que não necessariamente coincidem integralmente com os de nenhuma dessas potências. Essa diferença entre interesses econômicos e interesses estratégicos precisa ser administrada com clareza. Uma relação comercial vantajosa não deve impedir uma avaliação de segurança.

Da mesma forma, uma preocupação estratégica legítima não deveria automaticamente bloquear oportunidades econômicas que possam fortalecer a capacidade nacional. O desafio está em construir mecanismos capazes de separar essas dimensões e ao mesmo tempo compreender onde elas se cruzam. Esse talvez seja um dos pontos mais complexos da nova arquitetura de segurança do Hemisfério Ocidental.

A competição entre grandes potências não desaparecerá, pelo contrário, tende a alcançar áreas cada vez mais próximas da vida econômica e tecnológica dos países latino-americanos. Mas isso não significa que a região precise transformar-se em campo de disputa entre blocos, existe uma terceira possibilidade: construir capacidade suficiente para negociar com diferentes centros de poder sem permitir que qualquer um deles se torne indispensável em todas as áreas críticas.

Essa estratégia exige planejamento de longo prazo, significa avaliar infraestrutura não apenas pelo retorno financeiro, mas também pela importância estratégica. Avaliar sistemas militares não apenas pelo preço de aquisição, mas pela cadeia de sustentação. Avaliar contratos tecnológicos não apenas pela capacidade oferecida hoje, mas pelo grau de controle que permanecerá no país durante as próximas décadas. A questão, portanto, não é escolher entre dependência norte-americana, dependência chinesa ou dependência russa, é evitar que qualquer uma delas se torne estrutural.

Para a América Latina, a diversificação de parceiros pode ser uma vantagem estratégica justamente porque amplia as possibilidades de negociação, mas essa vantagem só será efetiva se vier acompanhada de capacidade própria. Quanto maior o número de opções reais de um país, maior será sua liberdade para escolher, e essa talvez seja a característica mais importante de uma autonomia estratégica possível para a América Latina: não a capacidade de fazer tudo sozinha, mas a capacidade de evitar que qualquer parceiro seja capaz de decidir, sozinho, quais são os limites de sua liberdade de ação.

O risco de uma nova divisão ideológica

Existe, entretanto, um risco considerável no processo de construção da nova arquitetura de segurança para o Hemisfério Ocidental: transformar uma questão essencialmente estratégica em extensão das disputas ideológicas que atravessam a política latino-americana.

Se a discussão for reduzida à divisão entre países ou governos considerados “pró-americanos” e “anti-americanos”, a região poderá perder justamente a oportunidade de construir uma posição própria diante da transformação do ambiente internacional. A política de Defesa não precisa ser construída a partir da escolha permanente de um campo político externo.

O que define a autonomia de uma política de Defesa não é a ausência de parceiros, é a capacidade de estabelecer prioridades nacionais que permaneçam válidas independentemente de quem esteja ocupando o governo. Essa distinção é particularmente importante porque as ameaças que afetam a segurança dos Estados possuem duração muito superior aos ciclos eleitorais.

A proteção das fronteiras, das águas jurisdicionais, dos recursos naturais, das infraestruturas energéticas, das redes digitais, dos cabos submarinos e das cadeias logísticas não deixa de ser uma necessidade porque um governo foi substituído por outro. Da mesma forma, capacidades militares e tecnológicas não podem ser desenvolvidas, abandonadas e reconstruídas de acordo com cada mudança de orientação política.

Um submarino, uma aeronave de combate, um sistema de radar, um satélite, uma rede de vigilância ou uma indústria especializada não são projetos de um único mandato. Seus ciclos de desenvolvimento, aquisição, operação, modernização e substituição podem se estender por décadas. É justamente essa diferença de temporalidade que torna a continuidade das políticas de Defesa tão importante.

Governos trabalham dentro de ciclos políticos relativamente curtos. Programas estratégicos trabalham dentro de ciclos tecnológicos e industriais muito mais longos. Quando essa diferença não é administrada, o resultado pode ser a interrupção de programas, a perda de conhecimento, a desmobilização de cadeias produtivas e o aumento dos custos para recuperar capacidades posteriormente.

O problema não está apenas na interrupção formal de um programa, a instabilidade também pode afetar decisões industriais. Uma empresa dificilmente realizará investimentos de longo prazo em instalações, equipamentos e pessoal altamente especializado se não houver alguma previsibilidade sobre a continuidade dos programas para os quais esses investimentos serão destinados.

Da mesma maneira, parceiros internacionais tendem a avaliar a estabilidade institucional de um país antes de assumir compromissos tecnológicos e industriais de longo prazo, a previsibilidade orçamentária, portanto, possui valor estratégico. É nesse ponto que Defesa e política de Estado precisam se encontrar.

Isso não significa retirar a Defesa do debate democrático. Pois Forças Armadas, orçamento público, aquisição de equipamentos e definição de prioridades estratégicas devem permanecer submetidos às instituições democráticas e ao controle civil. Significa apenas reconhecer que a existência de diferentes posições políticas não precisa produzir uma ruptura permanente nas capacidades essenciais do Estado.

É possível haver divergências sobre o tamanho do orçamento, sobre a prioridade de determinados programas, sobre os parceiros internacionais ou sobre o modelo de emprego das Forças Armadas sem que cada mudança de governo resulte na reconstrução completa da estratégia nacional. Essa maturidade institucional é especialmente importante para países que possuem recursos limitados. Quanto menor o orçamento disponível, maior tende a ser o custo de interromper um programa estratégico.

Um país que leva dez anos para desenvolver determinada capacidade pode perder rapidamente boa parte do investimento realizado se o projeto for abandonado antes de atingir maturidade operacional ou industrial.

A consequência não é apenas financeira, pode envolver a perda de engenheiros, técnicos, fornecedores, infraestrutura e conhecimento acumulado. Por isso, uma arquitetura de segurança regional também depende da capacidade dos países de estabelecer prioridades que sobrevivam aos ciclos eleitorais.

Isso pode ocorrer por diferentes mecanismos: documentos nacionais de Defesa atualizados periodicamente, planos plurianuais de investimento, marcos legais para programas estratégicos, mecanismos de acompanhamento pelo Legislativo, participação da indústria e da comunidade científica e definição clara das capacidades consideradas essenciais para a soberania nacional.

Nenhum desses mecanismos elimina a possibilidade de mudança, eles apenas tornam a mudança mais previsível e menos destrutiva para programas que exigem continuidade. Essa questão também se aplica à cooperação internacional, onde acordos militares e tecnológicos podem perder valor quando cada governo modifica completamente suas prioridades externas.

Um país que pretende construir uma relação estratégica de longo prazo precisa oferecer alguma previsibilidade aos seus parceiros. Isso não significa manter eternamente os mesmos acordos ou fornecedores, mas estabelecer critérios que permitam explicar por que determinada parceria foi escolhida, quais interesses nacionais ela atende e em quais condições poderá ser revista. Essa abordagem reduz o risco de que mudanças políticas transformem relações estratégicas em movimentos pendulares, sujeitos às influências político-partidárias e às prioridades circunstanciais de cada governo, em detrimento de interesses nacionais permanentes e de projetos de Estado que exigem continuidade por décadas.

A América Latina já possui experiências suficientes para demonstrar os custos dessa descontinuidade. Programas de Defesa frequentemente atravessam diferentes governos, mudanças econômicas e alterações de orientação política. Quando conseguem sobreviver a essas transições, acumulam conhecimento e geram capacidades que ultrapassam seus governos de origem. Quando não conseguem, parte significativa do investimento realizado pode ser perdida.

A construção de uma nova arquitetura de segurança exigirá justamente o contrário. Será necessário desenvolver mecanismos que permitam mudar políticas sem destruir capacidadesEssa talvez seja uma das tarefas mais difíceis para os países da região.

Não é necessário que todos os setores políticos concordem sobre a visão de mundo, sobre política externa ou sobre a relação com as grandes potências. Mas seria desejável que existisse algum grau de convergência sobre questões fundamentais: quais espaços precisam ser protegidos, quais capacidades são críticas, quais tecnologias não podem ser completamente abandonadas, quais vulnerabilidades precisam ser reduzidas e quais interesses nacionais devem orientar as relações externas.

A partir desse núcleo de interesses permanentes, cada governo poderia estabelecer suas próprias prioridades e ajustar sua estratégia conforme as circunstâncias internacionais. Isso permitiria preservar a continuidade sem transformar a política de Defesa em uma estrutura rígida. O resultado seria uma política capaz de combinar continuidade estratégica com adaptação políticaEssa diferença é fundamental.

Uma estratégia nacional não precisa permanecer imutável durante décadas. O ambiente internacional muda, novas tecnologias surgem, ameaças desaparecem e outras aparecem. O que precisa permanecer é a capacidade institucional de adaptar a estratégia sem perder as competências fundamentais que sustentam a soberania.

Nesse sentido, o maior risco para a América Latina talvez não seja apenas a pressão exercida pelas grandes potências, pode ser também a incapacidade de construir consensos mínimos sobre seus próprios interesses. Sem continuidade, cada governo começa novamente, cada administração redefine prioridades, revisa programas, altera parceiros e reorganiza investimentos. O resultado acumulado pode ser uma região que possui numerosos projetos, mas poucas capacidades efetivamente consolidadas.

Uma arquitetura de segurança regional exigirá justamente o contrário. Ela precisará ser construída sobre políticas nacionais suficientemente estáveis para permitir que diferentes governos contribuam para o mesmo processo ao longo do tempo. A segurança de um país não pode depender da permanência de um determinado governo, e a autonomia estratégica de uma região não pode depender da permanência de uma determinada orientação ideológica.

O desafio não é eliminar as diferenças políticas. É impedir que elas impeçam a construção das capacidades que permanecerão necessárias quando essas diferenças mudarem.

O caminho passa pela capacidade de escolha

A nova arquitetura de segurança do Hemisfério Ocidental ainda está em formação. Não existe neste momento um modelo definitivo capaz de determinar como a região será organizada nas próximas décadas. As relações de poder estão mudando, novas tecnologias estão alterando o ambiente estratégico e a competição entre grandes potências começa a alcançar áreas que durante muito tempo foram tratadas apenas como questões econômicas ou comerciais.

Essa transformação cria riscos, mas também abre uma oportunidade. Os países latino-americanos podem permanecer na posição de reagir às decisões tomadas pelas grandes potências ou podem desenvolver as capacidades necessárias para participar da definição das regras que irão orientar sua própria segurança. A diferença entre essas duas posições está na capacidade de escolha.

Escolher quais parceiros são necessários. Escolher quais tecnologias podem ser adquiridas externamente e quais competências precisam permanecer sob domínio nacional. Escolher onde cooperar e onde preservar capacidade própria. Escolher quais dependências são aceitáveis e quais podem comprometer a liberdade de ação em uma situação de crise.

Essa capacidade não nasce de um único programa militar, ela resulta da combinação entre Forças Armadas capazes de proteger território, fronteiras e infraestrutura; uma Base Industrial de Defesa capaz de sustentar e modernizar os sistemas empregados; domínio tecnológico suficiente para reduzir vulnerabilidades críticas; capacidade de inteligência para compreender o ambiente estratégico; instrumentos diplomáticos para negociar com diferentes centros de poder; e uma economia capaz de financiar essas escolhas ao longo do tempo.

É por isso que a discussão sobre a nova arquitetura de segurança do Hemisfério Ocidental ultrapassa o campo militar, ela envolve indústria, tecnologia, infraestrutura, energia, comércio, recursos naturais, ciência, diplomacia e política externa. Envolve também a capacidade dos Estados de manter políticas estratégicas durante períodos suficientemente longos para que investimentos realizados hoje produzam capacidades efetivas no futuro.

Nesse processo, a América Latina não precisa construir uma estrutura militar única, tampouco romper suas relações com os Estados Unidos ou substituir um parceiro externo por outro. O caminho mais realista passa pela construção de uma rede de capacidades nacionais e regionais que permita aos países cooperar quando houver interesses comuns, preservar sua autonomia quando necessário e ampliar suas alternativas diante do ambiente internacional cada vez mais competitivo.

O Atlântico Sul, a Amazônia, as fronteiras terrestres, as infraestruturas críticas, os cabos submarinos, as cadeias logísticas e os recursos naturais não serão protegidos apenas por declarações políticas. Exigirão sensores, navios, aeronaves, satélites, sistemas de comunicação, inteligência, pessoal especializado, indústria e capacidade financeira para manter tudo isso funcionando durante décadas, e para o Brasil essa responsabilidade é ainda maior.

O Brasil possui território, população, economia, recursos naturais, posição geográfica, capacidade científica e uma Base Industrial de Defesa que lhe permitem desempenhar papel relevante na construção dessa arquitetura. Mas potencial geopolítico não se transforma automaticamente em influência. Para que o Brasil participe efetivamente da definição da segurança regional, precisará transformar esse potencial em capacidades sustentáveis, preservar seus programas estratégicos, garantir previsibilidade à indústria, ampliar sua capacidade tecnológica e utilizar sua dimensão econômica e diplomática para construir relações de cooperação que atendam aos seus interesses de longo prazo.

O mesmo princípio vale em diferentes escalas para os demais países latino-americanos. Nenhum deles precisa fazer tudo sozinho, mas cada um precisa saber quais capacidades não pode perder, quais dependências pode aceitar, quais competências precisa desenvolver e quais parceiros podem contribuir para ampliar sua margem de decisão. Essa é a diferença entre simplesmente participar de uma arquitetura de segurança definida por outros e participar de sua construção.

A América Latina não precisa escolher entre Washington ou uma alternativa externa para afirmar seus interesses. Também não precisa transformar a diversificação de parceiros em uma nova forma de alinhamento automático, precisa construir condições para escolher, e essa escolha só será efetivamente livre quando estiver sustentada por capacidade militar, tecnológica, industrial, econômica e diplomática suficiente para transformar decisões políticas em resultados concretos.

A próxima década, portanto, não será definida apenas pela potência que exercer maior influência sobre o Hemisfério Ocidental, será definida também pela capacidade dos próprios países latino-americanos de preservar espaço para decidir dentro de uma ordem internacional em transformação.

A questão central não é apenas quem influenciará a nova arquitetura de segurança do Hemisfério Ocidental, é quanto espaço de decisão a América Latina estará preparada para preservar quando essa arquitetura estiver consolidada.



por Angelo Nicolaci


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