terça-feira, 6 de outubro de 2026

Iêmen lança ofensiva para retomar Bab el-Mandeb e amplia pressão sobre os houthis

 

O governo internacionalmente reconhecido do Iêmen iniciou uma nova ofensiva militar contra os houthis com o objetivo de recuperar territórios sob controle do movimento e restabelecer a autoridade do Estado. Batizada de “Fajr al-Yemen” ou “Dawn of Yemen”, a operação foi anunciada em 5 de outubro pelo presidente do Conselho de Liderança Presidencial, Rashad al-Alimi, um dia depois do governo determinar o início das operações militares em todo o país. Entre os principais objetivos declarados estão a retomada das instituições estatais e da capital, Sanaa.

A primeira fase da ofensiva concentrou-se no oeste da província de Taiz, junto ao Estreito de Bab el-Mandeb. Forças das Brigadas dos Gigantes e das Forças Escudo da Nação, apoiadas pela Resistência Popular, anunciaram a tomada do distrito de Dhubab e de posições estratégicas nas proximidades do estreito. Segundo o governo, as forças também assumiram o controle do aeroporto de Dhubab e interromperam a ligação terrestre entre Dhubab e Mocha, atingindo uma importante rota de suprimento. A informação foi divulgada pela agência estatal Saba e posteriormente reportada por veículos internacionais, enquanto fontes houthis contestaram os avanços.

A importância da operação ultrapassa o território iemenita. Bab el-Mandeb conecta o Mar Vermelho ao Golfo de Áden e constitui uma passagem estratégica para o transporte marítimo entre o Oceano Índico, o Oriente Médio e o Mediterrâneo. A ONU já havia alertado em setembro para a intensificação dos combates na costa oeste e para o avanço dos houthis em direção ao estreito, embora o tráfego comercial ainda não tivesse sido interrompido naquele momento.

A Arábia Saudita participa diretamente da operação por meio do apoio à força governamental iemenita. O comando da coalizão afirmou em 4 de outubro que mantinha suporte operacional completo às Forças Armadas do Iêmen e no dia seguinte, informou que suas aeronaves forneciam cobertura às tropas terrestres. O envolvimento saudita também ganhou dimensão naval: em 6 de outubro, a coalizão anunciou uma operação na província de Al-Hudaydah contra instalações que, segundo sua avaliação, estavam associadas a ataques contra as rotas marítimas do sul do Mar Vermelho.

Segundo o comando da coalizão, a operação naval destruiu depósitos de armas, instalações destinadas ao armazenamento de embarcações carregadas de explosivos e minas navais. Riad afirmou que a ação tinha como objetivo impedir ataques iminentes contra as vias marítimas e proteger a navegação em Bab el-Mandeb. No mesmo dia, a coalizão informou também ter destruído uma plataforma de lançamento de mísseis balísticos em Sanaa e uma instalação de armazenamento em Saada que, segundo a versão saudita, continha 20 mísseis.

A ofensiva terrestre vem sendo acompanhada por ataques contra a infraestrutura militar Houthi em diferentes frentes. O porta-voz das Forças Armadas iemenitas, coronel Majed Abdullah al-Nuzaili, afirmou em 5 de outubro que as forças governamentais haviam realizado 1.122 operações de ataque contra posições de artilharia e lançadores de foguetes, fortificações, linhas de suprimento, reforços e centros de comando e controle em Saada, Al-Jawf, Taiz e na costa oeste. Segundo a própria avaliação militar iemenita, 1.747 integrantes Houthis foram “neutralizados” e 364 veículos, equipamentos e meios de transporte ou apoio logístico foram destruídos ou inutilizados.

Esses números, porém, devem ser tratados como uma alegação oficial das forças governamentais, e não como perdas independentemente verificadas. Não há, até o momento, confirmação pública equivalente por parte dos Houthis ou de uma fonte independente capaz de validar integralmente a dimensão das perdas anunciadas.

A operação também amplia a pressão sobre uma estrutura militar que combina controle territorial com capacidade de ataque à distância. Os Houthis empregam mísseis e aeronaves não tripuladas contra alvos no Iêmen e na Arábia Saudita e, segundo autoridades sauditas, têm ameaçado embarcações no sul do Mar Vermelho e em Bab el-Mandeb. O governo saudita afirmou que essas ações representam uma ameaça à liberdade de navegação e ao comércio internacional.

A dimensão marítima tornou-se particularmente relevante porque o controle das áreas costeiras permite aos Houthis pressionar as rotas que ligam Bab el-Mandeb ao litoral do Mar Vermelho. A resposta da coalizão, por sua vez, passou a combinar apoio aéreo às forças terrestres com ações navais contra depósitos de armas, minas e embarcações explosivas. O conflito, portanto, deixou de ser apenas uma disputa por território e voltou a envolver diretamente a segurança de uma das principais passagens marítimas da região.

A ofensiva ocorre após meses de deterioração da situação militar. Em setembro, a ONU registrou avanço Houthi na direção de Bab el-Mandeb e o início de uma contraofensiva governamental em várias frentes. A nova operação marca uma ruptura ainda maior com o período de relativa redução da violência iniciado pelo cessar-fogo de 2022, recolocando o controle territorial e marítimo no centro da disputa.

O resultado imediato da ofensiva ainda não permite afirmar que o governo tenha consolidado o controle de todo o estreito. A tomada de Dhubab e de posições estratégicas ao redor de Bab el-Mandeb representa um avanço relevante, mas a situação permanece dinâmica e as forças houthis continuam capazes de realizar ataques com mísseis e drones. A própria necessidade de operações navais e de ataques contra infraestrutura de lançamento demonstra que o controle territorial não elimina automaticamente a capacidade de ameaça à navegação.

Análise do Nicolaci

A ofensiva “Dawn of Yemen” recoloca Bab el-Mandeb no centro estratégico da guerra do Iêmen. A combinação entre avanço terrestre, apoio aéreo saudita e operações navais contra minas, embarcações explosivas e depósitos de armas indica que o objetivo vai além da recuperação de território: trata-se de reduzir a capacidade Houthi de transformar a costa iemenita em plataforma de pressão sobre o tráfego marítimo comercial.

Para o governo de Sana’a, a retomada de Dhubab e das posições próximas ao estreito representa uma tentativa de recuperar profundidade estratégica e limitar a liberdade de ação houthi no litoral. Para a Arábia Saudita, a operação também responde diretamente à ameaça contra seu território e suas linhas marítimas. O ponto decisivo, contudo, será a capacidade de manter essas posições e impedir que os houthis recomponham suas forças e preservem capacidade de ataque à distância. Bab el-Mandeb continuará sendo, portanto, um dos principais indicadores da evolução militar do conflito e da segurança marítima no Mar Vermelho.


Por Angelo Nicolaci


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