sábado, 24 de outubro de 2026

Análise: Energia nuclear no mar - o desafio brasileiro de transformar conhecimento em capacidade industrial

A experiência brasileira no setor nuclear pode abrir caminhos para novas aplicações na economia do mar, da propulsão de navios mercantes à geração de energia offshore. O desafio será transformar conhecimento tecnológico em capacidade industrial, segurança regulatória e oportunidades economicamente sustentáveis.

A discussão sobre o emprego da energia nuclear no ambiente marítimo ganha uma nova dimensão internacional. Durante décadas, a tecnologia esteve associada principalmente à propulsão de submarinos, porta-aviões e outros meios militares. Agora, diante da pressão para reduzir as emissões do transporte marítimo e da busca por fontes de energia capazes de atender a operações industriais em regiões remotas, suas aplicações civis voltam a despertar interesse.

Para o Brasil, esse movimento merece atenção. O país desenvolveu competências relevantes em tecnologia nuclear, avançou no domínio do ciclo do combustível e mantém um programa de propulsão nuclear naval. Essa experiência oferece uma base importante, mas não significa que o país esteja automaticamente preparado para construir, licenciar e operar navios mercantes nucleares ou instalações de geração de energia embarcadas.

A oportunidade está em conectar capacidades existentes a novos mercados, identificando aplicações nas quais a tecnologia possa oferecer vantagens concretas.

Em artigo publicado em 30 de setembro de 2026 na Revista Economia do Mar, o Almirante de Esquadra da Reserva Petrônio Augusto Siqueira de Aguiar, Secretário Naval de Segurança Nuclear e Qualidade, destacou a necessidade de fazer a inovação avançar em conjunto com a regulação e a segurança. Essa reflexão serve de ponto de partida para examinar como o Brasil pode aproveitar a evolução da energia nuclear marítima para fortalecer sua indústria, ampliar a autonomia tecnológica e conquistar espaço na economia azul.

Uma base tecnológica que precisa encontrar novas aplicações

O Programa Nuclear da Marinha (PNM) constitui um dos principais pilares da experiência brasileira nessa área. Ao longo de décadas, contribuiu para o desenvolvimento de competências em enriquecimento de urânio, domínio do ciclo do combustível nuclear e engenharia de sistemas relacionados à propulsão naval.

O Laboratório de Geração de Energia Nucleoelétrica (LABGENE), no Centro Industrial e Nuclear de Aramar, representa uma etapa fundamental desse esforço. Concebido como protótipo em escala real da planta de propulsão nuclear do futuro submarino brasileiro convencionalmente armado de propulsão nuclear, o laboratório permitirá validar soluções de projeto e ensaiar condições de operação do sistema.

A relevância dessa trajetória ultrapassa o ambiente militar. Projetos nucleares exigem conhecimento em engenharia, materiais, instrumentação, controle, fabricação de componentes, sistemas de segurança, manutenção especializada e formação de recursos humanos. Essas competências podem beneficiar outros segmentos da economia, desde que existam investimentos e requisitos técnicos que permitam sua aplicação em projetos concretos.

É necessário, entretanto, distinguir o desenvolvimento de uma planta de propulsão para um submarino militar daquele de um reator comercial para um navio mercante. Embora compartilhem princípios físicos e conhecimentos de engenharia, os dois projetos podem apresentar diferenças substanciais em requisitos operacionais, manutenção, segurança, custos, sistemas auxiliares e certificação.

Uma planta concebida para atender às necessidades de um submarino não se transforma automaticamente em uma solução comercial competitiva. O Brasil precisará identificar quais conhecimentos podem ser aproveitados diretamente, quais exigem adaptação e quais tecnologias ainda dependem de desenvolvimento próprio ou cooperação internacional.

Essa avaliação permitirá estabelecer uma trajetória realista entre o conhecimento acumulado e as possíveis aplicações civis.

A experiência internacional mostra que tecnologia não garante rentabilidade

A propulsão nuclear naval possui uma história consolidada, mas sua aplicação comercial apresenta desafios importantes. Os Estados Unidos lançaram o NS Savannah, primeiro navio mercante civil de propulsão nuclear, cuja operação começou em 1962. A embarcação demonstrou a viabilidade técnica da tecnologia, mas não alcançou competitividade econômica nas condições da época.

Outras experiências reforçaram essas dificuldades. O cargueiro alemão Otto Hahn, que também operou como plataforma de pesquisa, acumulou experiência de navegação antes de ser convertido para propulsão convencional. O navio japonês Mutsu, por sua vez, enfrentou dificuldades técnicas e políticas que comprometeram sua trajetória.

Esses projetos não provam que a propulsão nuclear comercial seja inviável em qualquer cenário. Foram desenvolvidos sob condições tecnológicas, econômicas e regulatórias diferentes das atuais, mas continuam sendo referências importantes para compreender os obstáculos envolvidos.

A questão não é apenas se um reator pode movimentar um navio, mas se o sistema completo pode operar com segurança e competitividade ao longo de seu ciclo de vida. Construção, manutenção, licenciamento, formação de tripulações, seguros, gestão do combustível, resíduos e descomissionamento precisam integrar a análise econômica.

Também é necessário considerar o acesso aos portos, a aceitação pelos países visitados e a disponibilidade de infraestrutura especializada. Vantagens de autonomia e densidade energética podem perder relevância se os custos operacionais ou as restrições portuárias comprometerem a atividade comercial.

O perfil da missão será determinante. Rotas longas, consumo energético elevado e operação contínua podem favorecer a avaliação da propulsão nuclear. Em embarcações menores, rotas curtas ou operações com infraestrutura de abastecimento amplamente disponível, outras tecnologias podem apresentar melhor relação entre custo e benefício.

O Brasil deve, portanto, identificar os segmentos nos quais a energia nuclear ofereça vantagens mensuráveis, em vez de tratá-la como solução universal para o transporte marítimo.

A economia azul vai além dos navios mercantes

A propulsão nuclear comercial é apenas uma das possibilidades em discussão. Outro campo envolve instalações nucleares flutuantes capazes de fornecer eletricidade e calor a complexos industriais, atividades offshore e regiões costeiras ou remotas.

Entre as aplicações que merecem estudo estão o fornecimento de energia a instalações industriais, sistemas de dessalinização e localidades isoladas. Dependendo da potência necessária, da infraestrutura existente e das condições operacionais, uma planta embarcada poderia complementar ou substituir determinadas soluções terrestres.

Essas possibilidades exigem, contudo, avaliações específicas. Uma usina nuclear flutuante não é simplesmente um navio mercante equipado com um reator: sua finalidade, localização, conexão à rede, requisitos de segurança e relação com a infraestrutura portuária ou costeira são distintos.

O mesmo cuidado se aplica aos Pequenos Reatores Modulares (SMR, na sigla em inglês). A categoria reúne projetos com diferentes desenhos, potências e níveis de maturidade tecnológica. Padronização e construção modular podem oferecer vantagens, mas custos, licenciamento e requisitos de segurança variam conforme a solução adotada.

Para o Brasil, a análise deve considerar a extensão da costa, a concentração industrial em determinadas regiões, a produção de petróleo e gás em águas profundas, a infraestrutura portuária e as necessidades energéticas de áreas afastadas dos grandes centros.

A presença de atividades offshore, por si só, não justifica a adoção de uma solução nuclear. É necessário compará-la com cabos submarinos, geração terrestre, sistemas híbridos, armazenamento de energia e outras alternativas, considerando custos, riscos operacionais, impactos ambientais e logística de manutenção.

A vantagem estratégica surgirá onde a energia nuclear oferecer benefícios demonstráveis de confiabilidade, autonomia, densidade energética ou redução de emissões ao longo do ciclo de vida.

ATLAS: o Brasil participa da construção das regras internacionais

Um dos desenvolvimentos relevantes para o futuro dessa tecnologia ocorreu em 26 e 27 de agosto de 2026, em Washington, nos Estados Unidos, com o lançamento da iniciativa ATLAS (Atomic Technologies Licensed for Applications at Sea), promovida pela Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA), em colaboração com a Organização Marítima Internacional (IMO).

A iniciativa busca aproximar os setores nuclear e marítimo para enfrentar questões que ultrapassam o desenvolvimento de reatores. Entre elas estão segurança, licenciamento, proteção física nuclear, salvaguardas, responsabilidade civil e compatibilidade entre as regras aplicáveis a instalações nucleares e embarcações.

A participação brasileira merece atenção. A Secretaria Naval de Segurança Nuclear e Qualidade (SecNSNQ), com representantes da Autoridade Marítima, da academia e da indústria, integra os seis grupos de projeto da ATLAS. Os trabalhos abrangem normas internacionais de segurança, marcos jurídicos e regulatórios, classificação marítima, salvaguardas, proteção física nuclear e elaboração de um roteiro para implantação dessas tecnologias.

Essa participação oferece ao Brasil a oportunidade de acompanhar desde as etapas iniciais a construção dos referenciais que poderão orientar futuras aplicações nucleares no mar.

As regras internacionais influenciam diretamente a certificação, os custos de conformidade, a aceitação das embarcações e sua capacidade de operar em diferentes jurisdições. Para um país interessado em desenvolver competências industriais nesse segmento, participar das discussões também permite apresentar sua experiência regulatória e suas capacidades técnicas.

Isso não significa que a ATLAS já tenha estabelecido um regime definitivo de licenciamento para navios nucleares comerciais. A iniciativa estrutura o diálogo e o trabalho técnico necessários para enfrentar questões ainda em aberto.

A IMO também trabalha na revisão do Código de Segurança para Navios Nucleares (Nuclear Code) e das disposições pertinentes da Convenção Internacional para a Salvaguarda da Vida Humana no Mar (SOLAS). O cronograma divulgado pela organização prevê a adoção do código revisado e de emendas relacionadas em 2030.

O processo evidencia que a expansão dessa tecnologia depende de regras claras, responsabilidades definidas e critérios reconhecidos internacionalmente. Sem esses elementos, mesmo um projeto tecnicamente promissor pode enfrentar dificuldades para obter seguros, acessar portos e operar em rotas internacionais.

Para o Brasil, contribuir para a construção desse ambiente regulatório pode ser tão importante quanto desenvolver equipamentos.

Regulação e segurança como condições para a confiança

A operação de uma instalação nuclear no mar exige uma combinação de responsabilidades que ultrapassa o licenciamento convencional de uma embarcação.

Segurança nuclear, proteção radiológica, proteção física, salvaguardas e preparação para emergências precisam ser consideradas desde a concepção do projeto. Em operações internacionais, somam-se questões de jurisdição, responsabilidades do Estado de bandeira, atuação dos países costeiros e regras aplicáveis em portos estrangeiros.

A localização e o perfil operacional de cada instalação determinarão quais autoridades participarão do licenciamento e como serão organizadas as respostas a incidentes. Uma embarcação mercante que percorra diferentes países enfrenta desafios distintos daqueles de uma instalação estacionada junto a um complexo industrial.

Também será necessário estabelecer responsabilidades relacionadas a seguros, ameaças cibernéticas, resposta a emergências e gestão do combustível e dos resíduos durante todo o ciclo de vida.

O Brasil já dispõe de uma estrutura regulatória nuclear naval associada à Marinha, por meio da SecNSNQ. A experiência acumulada poderá contribuir para o debate internacional, mas a ampliação das aplicações civis exigirá coordenação permanente entre autoridades nucleares, marítimas, ambientais e portuárias, além das demais instituições competentes.

A segurança não deve ser tratada apenas como exigência burocrática ou custo adicional. Ela constitui uma condição para a confiança pública, a aceitação internacional e a continuidade das operações.

A oportunidade industrial: transformar conhecimento em capacidade produtiva

A energia nuclear marítima também pode abrir oportunidades para a Base Industrial de Defesa e para outros segmentos tecnológicos brasileiros. Engenharia, instrumentação, sistemas de controle, materiais especiais, fabricação de componentes, integração de sistemas, manutenção e treinamento são algumas das áreas que podem participar de uma cadeia industrial desse tipo.

Universidades, centros de pesquisa, estaleiros, fornecedores industriais e organizações com experiência nuclear também poderiam ampliar a cooperação em projetos de desenvolvimento e qualificação tecnológica.

Esse potencial, porém, não deve ser confundido com uma capacidade nacional já consolidada em todos os segmentos. A fabricação de componentes nucleares exige processos rigorosos de garantia da qualidade, rastreabilidade, certificação e atendimento a requisitos de segurança. A construção de navios mercantes nucleares demandaria, adicionalmente, competências específicas de engenharia naval e integração de sistemas.

Uma estratégia brasileira consistente precisaria mapear as capacidades existentes, identificar quais podem ser adaptadas e determinar onde seriam necessários investimentos, parcerias internacionais ou transferência de tecnologia.

Esse levantamento permitiria identificar oportunidades realistas, evitando tanto a dependência integral de fornecedores externos quanto a tentativa prematura de nacionalizar tecnologias sem maturidade ou justificativa econômica suficiente.

A dimensão comercial deve integrar esse planejamento desde o início. É necessário identificar potenciais clientes, condições de operação, custos totais e vantagens em relação às alternativas disponíveis. Um equipamento tecnicamente funcional não representa, por si só, um produto comercialmente viável.

A construção de uma cadeia industrial voltada às aplicações nucleares marítimas exigiria, portanto, continuidade de pesquisa, formação de pessoal, previsibilidade de recursos e objetivos compatíveis com as necessidades nacionais.

A experiência dos programas estratégicos brasileiros demonstra que autonomia tecnológica duradoura depende não apenas do desenvolvimento inicial, mas também da capacidade de manter fornecedores, realizar manutenção, atualizar sistemas e sustentar a demanda ao longo do tempo.

Descarbonização não significa escolher uma única tecnologia

A pressão internacional para reduzir as emissões do transporte marítimo ajuda a explicar o renovado interesse pela energia nuclear. A IMO estabeleceu uma estratégia para alcançar emissões líquidas zero de gases de efeito estufa do transporte marítimo internacional até 2050, embora sua implementação dependa de medidas regulatórias, tecnológicas e econômicas ainda em desenvolvimento.

A geração nuclear não depende da combustão contínua de combustíveis fósseis no reator, mas uma avaliação ambiental completa precisa considerar a construção das instalações, o ciclo do combustível, a manutenção, os resíduos, o descomissionamento e as emissões associadas à cadeia de suprimentos.

A propulsão nuclear também concorrerá com outras alternativas, como combustíveis de menor intensidade de carbono, biocombustíveis, metanol, amônia, eletrificação em aplicações específicas, assistência eólica e melhorias de eficiência energética.

Nenhuma dessas soluções oferece a mesma combinação de características para todos os tipos de embarcação. A escolha depende da potência exigida, da distância percorrida, da velocidade, da disponibilidade de combustível, da infraestrutura e dos custos ao longo da vida útil.

Para o Brasil, a abordagem mais sólida é avaliar diferentes rotas de descarbonização e concentrar esforços nas aplicações em que as competências nacionais possam produzir vantagens concretas. A energia nuclear marítima merece ser estudada com seriedade, sem que isso implique tratá-la como solução inevitável.

O desafio brasileiro é transformar oportunidade em estratégia

A participação na ATLAS permite ao Brasil acompanhar a evolução das regras internacionais e contribuir para o debate sobre o uso seguro de tecnologias nucleares no mar. Paralelamente, a experiência acumulada pelo Programa Nuclear da Marinha oferece uma base de conhecimento para estudos sobre novas aplicações.

O próximo passo é converter essa convergência em uma agenda nacional de avaliação tecnológica, industrial e econômica. Isso exige identificar aplicações prioritárias, mapear competências, avaliar lacunas tecnológicas, estudar modelos de financiamento e comparar os benefícios da energia nuclear com os de outras soluções.

Também será necessário aproximar a indústria naval, o setor nuclear, os centros de pesquisa, os operadores marítimos e os potenciais usuários de energia.

Essa agenda não precisa começar pela construção de um navio mercante nuclear. Pode avançar por estudos de viabilidade, desenvolvimento de componentes, simulações, pesquisa em segurança, formação profissional e participação em projetos internacionais. Cada etapa deve estar vinculada a objetivos verificáveis e à avaliação rigorosa de custos, riscos e benefícios.

O Brasil possui ativos relevantes para acompanhar essa transformação: experiência nuclear, indústria de defesa, infraestrutura marítima e necessidades energéticas diversificadas. Transformá-los em oportunidades comerciais dependerá da continuidade institucional, da mobilização de investimentos e da conexão entre pesquisa, indústria e demanda.

A reflexão do Almirante Petrônio Augusto Siqueira de Aguiar sobre a necessidade de aproximar inovação e segurança encontra, nessa discussão, uma dimensão adicional: ambas precisam estar associadas à viabilidade econômica e à capacidade produtiva.

A energia nuclear no mar pode abrir uma nova frente para a indústria e a economia azul brasileira. O resultado, contudo, não dependerá apenas da capacidade de desenvolver um reator, mas de construir o ecossistema necessário para operá-lo com segurança, competitividade e aceitação internacional.

Para um país que busca ampliar sua autonomia tecnológica e aproveitar melhor seu potencial marítimo, o caminho não é ignorar essa oportunidade nem apostar nela sem critérios. É estudá-la com profundidade, preparar-se para os padrões internacionais e identificar onde o conhecimento nacional pode se transformar em capacidade industrial, geração de valor e desenvolvimento de longo prazo. A oportunidade existe. Convertê-la em vantagem brasileira dependerá das escolhas feitas agora.


Por Angelo Nicolaci


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