A experiência acumulada na guerra da Ucrânia está influenciando não apenas os sistemas que os Estados Unidos desenvolvem, mas também a maneira como suas Forças Armadas testam e incorporam novas capacidades. Na fronteira sul, o Exército norte-americano passou a utilizar o ambiente operacional associado ao emprego de drones por organizações criminosas para avaliar tecnologias de detecção, rastreamento e neutralização de pequenas aeronaves não tripuladas, aproximando empresas de defesa, unidades operacionais e estruturas de testes em um ciclo de experimentação mais curto.
Essa abordagem foi aplicada durante o exercício Falcon Peak 26.2, conduzido pela Joint Interagency Task Force 401 ao longo de setembro no Yuma Proving Ground, no Arizona, em apoio ao U.S. Northern Command e à Joint Task Force–Southern Border. O exercício avaliou sistemas de diferentes fornecedores em cenários que reproduziram incursões de pequenos drones e reuniu capacidades de detecção por sensores, derrota eletrônica e engajamento cinético. A atividade também estabeleceu corredores permanentes para testes e avaliação de sistemas C-UAS no Yuma Proving Ground, criando uma estrutura destinada a permitir novas avaliações com unidades militares, indústria e desenvolvedores comerciais.
A escolha desse ambiente está relacionada ao aumento da atividade de drones na região. Segundo o Brigadeiro-General Brian Filler, vice-comandante de operações da Força-Tarefa Conjunta da Fronteira Sul, os militares norte-americanos registraram 378 incursões de drones nos 30 dias anteriores à avaliação. De acordo com as autoridades, a maior parte desses sistemas é composta por plataformas comerciais equipadas com câmeras e empregadas para vigilância associada a atividades de contrabando e tráfico de pessoas. A Reuters também informou que o Exército dos EUA derrubou 11 drones associados a cartéis utilizando sistemas laser desde a implantação dessa capacidade na fronteira, em agosto.
Embora essa ameaça esteja muito distante, em complexidade e intensidade, dos sistemas empregados por Rússia e Ucrânia, o cenário apresenta uma característica importante para o desenvolvimento militar: é uma ameaça real, recorrente e suficientemente variável para permitir que sensores, algoritmos, enlaces de comando e sistemas de neutralização sejam avaliados fora de condições puramente laboratoriais. A diferença em relação a um campo de batalha convencional está principalmente no tipo de alvo e na finalidade de seu emprego, mas os problemas técnicos de detectar uma aeronave pequena, determinar sua trajetória, classificar seu comportamento e selecionar uma resposta adequada continuam relevantes para o desenvolvimento de sistemas C-UAS.
A experiência ucraniana como referência para o ciclo de desenvolvimento
A principal influência da Ucrânia sobre esse processo norte-americano não está limitada às características dos drones empregados no conflito. O aspecto que interessa particularmente aos planejadores dos Estados Unidos é a velocidade com que operadores e fabricantes conseguem modificar sistemas a partir da experiência obtida em combate. A guerra criou um ciclo contínuo no qual uma nova ameaça é identificada, uma solução é testada, suas limitações são observadas em operação e modificações são incorporadas em períodos que podem ser muito menores do que os normalmente associados aos programas militares convencionais.
O Brigadeiro-General Matthew Ross, diretor da JIATF 401, apontou justamente essa capacidade de adaptação como uma das referências para os Estados Unidos. Segundo ele, os planejadores observam a velocidade com que a Ucrânia consegue adaptar suas capacidades diariamente ou semanalmente e procuram reproduzir esse processo. O objetivo não é simplesmente copiar um equipamento utilizado no conflito, mas aproximar o ciclo de desenvolvimento tecnológico da velocidade com que as ameaças estão evoluindo.
Essa questão possui implicações diretas para os programas C-UAS. Um sistema selecionado hoje pode ser confrontado, poucos meses depois, por uma ameaça que utiliza outra frequência de comunicação, apresenta assinatura diferente, emprega navegação alternativa ou incorpora maior grau de autonomia. A eficiência de uma solução, portanto, não pode ser avaliada apenas pela capacidade demonstrada durante sua seleção inicial; é necessário que exista uma estrutura capaz de testar continuamente seu desempenho e incorporar modificações à medida que o ambiente operacional muda.
O Yuma Proving Ground está sendo estruturado para atender justamente a essa necessidade. O Falcon Peak 26.2 foi utilizado para estabelecer padrões de medição para diferentes categorias de sistemas, enquanto os novos corredores permanentes permitirão repetir avaliações e comparar soluções sob parâmetros comuns. A estrutura foi concebida para integrar o processo de teste às unidades operacionais, à indústria e aos desenvolvedores comerciais, reduzindo a distância entre uma tecnologia experimental e sua avaliação militar.
Uma arquitetura que combina sensores, guerra eletrônica e efeitos cinéticos
Outro aspecto relevante do Falcon Peak é a forma como o Exército dos EUA está tratando a defesa contra drones. Em vez de procurar um único equipamento capaz de resolver toda a ameaça, os testes foram organizados em diferentes camadas, abrangendo sensores, sistemas de derrota eletrônica e meios de engajamento cinético. O Yuma Test Center estruturou três corredores destinados justamente a essas categorias, permitindo avaliar diferentes formas de neutralização dentro de um mesmo processo de experimentação.
Essa arquitetura parte de uma sequência operacional que começa com a detecção e identificação do alvo e termina com a escolha e execução da resposta. Um radar pode fornecer a primeira indicação de uma incursão, enquanto câmeras e outros sensores contribuem para a classificação do objeto. A partir dessas informações, o sistema de comando e controle precisa determinar se o drone representa uma ameaça e qual meio disponível possui maior probabilidade de neutralizá-lo dentro do tempo e das condições existentes.
O Falcon Peak também empregou o Lattice, plataforma autônoma de comando e controle, como referência para avaliar a integração entre sensores e meios de resposta. Isso permite deslocar a avaliação do desempenho de cada equipamento isoladamente para a capacidade de uma arquitetura sensor-atirador funcionar como um conjunto, aspecto particularmente importante quando o tempo disponível entre a detecção e o engajamento é reduzido.
Essa integração também possui uma dimensão econômica. O custo de neutralizar um drone precisa ser compatível com o valor e com a ameaça representada pelo alvo. Um sistema comercial de baixo custo utilizado para vigilância não necessariamente exige o emprego de um interceptor de elevado valor ou de um armamento destinado a ameaças de maior complexidade. Dependendo da situação, interferência eletrônica, armas automáticas, interceptadores ou outras soluções de menor custo podem oferecer uma resposta mais adequada.
O problema é ainda mais significativo quando se considera a possibilidade de emprego simultâneo de vários drones. Nesse cenário, a capacidade de uma defesa C-UAS passa a depender não apenas do alcance ou da precisão de determinado equipamento, mas da quantidade de alvos que pode acompanhar, classificar e engajar simultaneamente, além da capacidade de distribuir os efeitos disponíveis de maneira racional.
A indústria como parte do processo operacional
O Falcon Peak também evidencia uma mudança na relação entre o Exército norte-americano e o setor privado de tecnologia de defesa. Empresas como Anduril, Teledyne FLIR, Allen Control Systems e Powerus apresentaram diferentes soluções durante o exercício, incluindo drones, sensores, sistemas automatizados de armas e interceptadores. A participação de empresas desse perfil permite ao Exército comparar tecnologias em um mesmo ambiente e identificar quais soluções apresentam desempenho compatível com as necessidades operacionais.
A importância dessa aproximação está relacionada à velocidade de desenvolvimento característica do setor de sistemas não tripulados. Empresas menores conseguem, em determinados casos, alterar software, sensores, algoritmos ou componentes com maior rapidez do que os ciclos tradicionais de aquisição militar permitem. Para o usuário militar, entretanto, velocidade de desenvolvimento não é suficiente: a tecnologia precisa demonstrar confiabilidade, integração, capacidade de manutenção e desempenho repetível em condições operacionais.
É por isso que a estrutura criada no Yuma Proving Ground possui importância além do próprio Falcon Peak. Ao estabelecer parâmetros comuns de avaliação e permitir que diferentes fornecedores sejam submetidos a cenários semelhantes, o Exército passa a dispor de uma metodologia para separar uma demonstração tecnológica de uma capacidade efetivamente utilizável por suas unidades. A avaliação deixa de ser apenas uma apresentação de produto e passa a considerar o desempenho dentro de uma cadeia operacional.
Da fronteira ao campo de batalha de alta intensidade
A utilização da fronteira como ambiente de experimentação também precisa ser observada dentro de uma estratégia mais ampla. O Exército dos EUA não está utilizando esse cenário como substituto dos exercícios destinados à guerra convencional, mas como uma oportunidade adicional para testar tecnologias contra ameaças concretas.
Em setembro, por exemplo, o XVIII Airborne Corps utilizou grupos de até 100 drones durante o exercício Scarlet Dragon para avaliar sensores, comando e controle, guerra eletrônica e defesa contra ataques simultâneos. O cenário é significativamente diferente daquele encontrado na fronteira, pois procura reproduzir uma situação mais próxima de um conflito de alta intensidade, no qual sistemas não tripulados podem ser empregados em volume e integrados a outras capacidades de combate.
Essa combinação de ambientes permite avaliar diferentes partes do mesmo problema. A fronteira oferece condições reais de vigilância e incursões de pequenos drones em um espaço operacional sensível, enquanto exercícios de grande escala permitem testar a capacidade de uma força militar lidar com ataques coordenados e maior densidade de alvos. Em ambos os casos, a questão central permanece a mesma: detectar, classificar, decidir e neutralizar dentro de um intervalo de tempo compatível com a ameaça.
O próprio Exército dos EUA já ampliou esse esforço para exercícios internacionais. Durante o Yudh Abhyas 2026, realizado na Índia em setembro, forças norte-americanas e indianas empregaram o M-LIDS para desenvolver interoperabilidade e familiaridade com capacidades destinadas à detecção e derrota de aeronaves não tripuladas.
O conjunto dessas iniciativas indica que Washington está tratando C-UAS como uma capacidade transversal, que precisa estar disponível para diferentes tipos de unidades e ambientes operacionais. A preocupação não está restrita à proteção de uma instalação ou de uma formação específica, mas envolve a capacidade de incorporar sensores, guerra eletrônica, comando e controle e meios de engajamento às diferentes estruturas da força.
A velocidade de adaptação como requisito militar
A experiência ucraniana demonstra que o desenvolvimento de sistemas não tripulados e antidrone não pode ser tratado como um processo concluído com a entrada de determinado equipamento em serviço. A evolução da ameaça exige ciclos sucessivos de avaliação, atualização e treinamento, enquanto a força precisa preservar a capacidade de integrar novas soluções às redes e sistemas que já utiliza.
É nesse ponto que o modelo adotado pelo Exército dos EUA ganha maior relevância. A criação de uma infraestrutura permanente de testes no Yuma Proving Ground permite transformar a experimentação em atividade contínua, com participação simultânea de unidades militares, centros de avaliação, indústria e desenvolvedores. Em vez de esperar que uma nova ameaça produza uma deficiência operacional para então iniciar um programa de resposta, a estrutura procura manter o processo de avaliação funcionando de forma permanente.
Para o Exército norte-americano, a fronteira com o México oferece assim um ambiente complementar aos campos de treinamento convencionais. A atividade de drones associada aos cartéis não reproduz a complexidade tecnológica da guerra entre Rússia e Ucrânia, mas cria oportunidades para testar sensores, redes, sistemas de comando e controle e diferentes métodos de neutralização diante de alvos reais e recorrentes.
A principal consequência da experiência ucraniana, nesse caso, não está em um equipamento específico apresentado no Falcon Peak, mas na mudança do processo de desenvolvimento. A capacidade de identificar uma deficiência, testar uma solução, medir seu desempenho, modificá-la e devolvê-la rapidamente ao ambiente operacional passa a ser considerada parte da própria capacidade militar.
O movimento norte-americano indica, portanto, que a guerra dos drones está produzindo mudanças que ultrapassam o desenvolvimento de aeronaves não tripuladas e seus sistemas de defesa. Ela também está modificando os processos de teste, aquisição, integração e atualização tecnológica das forças armadas, aproximando o ciclo de desenvolvimento militar da velocidade com que a ameaça evolui no campo de batalha.
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