A participação da Corveta Barroso na nona edição da IBSAMAR, exercício naval que reuniu Brasil, Índia e África do Sul, reforçou a presença da Marinha do Brasil, uma iniciativa estratégica de cooperação entre três países com interesses relevantes no Atlântico Sul e no Oceano Índico. Realizada nas proximidades de Simon’s Town, na África do Sul, a atividade reuniu navios de superfície, submarino, helicópteros e aeronaves de combate, proporcionando treinamento combinado em diferentes áreas das operações navais.
A edição de 2026 contou com a participação da Barroso, contando com helicóptero AH-11B Super Lynx integrando seu DAE (Destacamento Aéreo Embarcado), da Marinha do Brasil. A Índia enviou a fragata INS Tarkash e um helicóptero Chetak, enquanto a África do Sul participou com as fragatas SAS Amatola e SAS King Sekhukhune I, o navio SAS Adam Kok III, o submarino SAS Manthatisi, helicópteros Oryx e aeronaves de combate Gripen de sua Força Aérea.
A composição dos meios permitiu desenvolver atividades que ultrapassaram as tradicionais manobras de formação e navegação conjunta. A programação contemplou exercícios de guerra de superfície, defesa antiaérea, guerra antissubmarino, interdição marítima, busca e salvamento, combate à pirataria, controle de avarias e combate a incêndios, além de atividades de tiro real e familiarização entre as tripulações.
A fase de mar ocorreu entre 15 e 19 de outubro, após uma etapa em porto dedicada ao planejamento, intercâmbio profissional e preparação dos procedimentos operacionais. O encerramento oficial foi realizado em 20 de outubro, em Simon’s Town. A diferença entre os cinco dias de exercícios no mar mencionados pela Marinha brasileira e os dez dias de atividades contabilizados pelo Ministério da Defesa indiano decorre dos diferentes períodos considerados, incluindo as etapas preparatórias e de porto.
Um dos aspectos de maior relevância técnica foi o trabalho de interoperabilidade entre os meios participantes. A integração de comunicações e comando e controle recebeu atenção especial, com emprego do sistema indiano NISHAR, descrito como uma plataforma comum de comunicações que permitiu estabelecer conectividade em tempo real entre os navios e o comando da força-tarefa conjunta.
A capacidade de compartilhar informações, coordenar movimentos e transmitir orientações entre unidades de diferentes Marinhas é um requisito essencial para operações combinadas. Embora cada país mantenha seus próprios sistemas e procedimentos, exercícios como a IBSAMAR permitem desenvolver padrões comuns de comunicação e familiarizar as tripulações com as particularidades dos meios parceiros. Essa integração é especialmente importante em cenários que envolvem ameaças simultâneas e exigem respostas coordenadas.
Entre as atividades acompanhadas por autoridades e convidados durante o Distinguished Visitors’ Day, em 19 de outubro, destacou-se uma demonstração de abordagem marítima realizada a bordo da fragata sul-africana SAS Amatola. O cenário simulou a interceptação de uma embarcação suspeita de transportar contrabando, representada pelo SAS Adam Kok III. A ação envolveu meios navais, helicópteros e equipes especializadas das três nações, demonstrando procedimentos de abordagem, busca e apreensão de embarcações.
O exercício também permitiu aprofundar a cooperação em guerra antissubmarino, com a participação do submarino SAS Manthatisi, além de atividades envolvendo helicópteros embarcados e aeronaves de combate. A presença de diferentes plataformas ampliou o espectro do treinamento, aproximando a dinâmica do exercício de situações nas quais forças navais precisam operar em conjunto diante de ameaças provenientes de diferentes domínios.
Para a Marinha do Brasil, a participação da Barroso representou também a continuidade de uma relação construída ao longo de quase duas décadas. Realizada desde 2008, com periodicidade bienal e interrupção em 2020, a IBSAMAR chegou à nona edição em 2026. A corveta brasileira participou pela terceira vez, dando continuidade à presença nacional em uma iniciativa que fortalece os vínculos profissionais e operacionais entre as três Marinhas.
A escolha de Simon’s Town confere dimensão geográfica e estratégica ao exercício. Localizada nas proximidades do Cabo da Boa Esperança, a região está em uma importante passagem marítima entre o Atlântico Sul e o Oceano Índico. A segurança das rotas comerciais, a liberdade de navegação e a estabilidade dos espaços marítimos são interesses compartilhados por Brasil, Índia e África do Sul, países que ocupam posições relevantes em suas respectivas regiões oceânicas.
A IBSAMAR está vinculada ao Fórum de Diálogo IBAS, mecanismo de cooperação entre os três países que busca ampliar a articulação política, econômica e técnica no âmbito da cooperação Sul-Sul. No campo naval, o exercício representa uma manifestação concreta desse relacionamento, criando oportunidades para intercâmbio de experiências, aperfeiçoamento de procedimentos e construção de confiança entre as forças participantes. Não se trata de uma aliança militar ou de um compromisso de defesa coletiva, mas de uma iniciativa de cooperação e treinamento combinado.
Após a conclusão da IBSAMAR IX, a Corveta Barroso seguiu em sua comissão pela costa africana, com previsão de escala em Walvis Bay, na Namíbia, onde a Marinha do Brasil planejava realizar um exercício de passagem (PASSEX) com a Marinha namibiana. A atividade prevista ampliaria a agenda de cooperação naval brasileira na região, embora sua efetiva realização dependa de confirmação posterior.
A participação brasileira na IBSAMAR IX evidencia a importância de manter a presença da Marinha em exercícios multinacionais que contribuam para o preparo das tripulações e para a capacidade de operar em conjunto com forças parceiras. A interoperabilidade não se estabelece apenas por acordos ou declarações diplomáticas: depende de treinamento, comunicação, conhecimento mútuo e experiência prática no mar.
Em um ambiente marítimo marcado pela importância das rotas comerciais e pela crescente complexidade das ameaças, a cooperação entre Brasil, Índia e África do Sul amplia as oportunidades de aprendizado e fortalece os instrumentos de diálogo e coordenação no Atlântico Sul e no Oceano Índico. Para o Brasil, a presença da Barroso nesse exercício reafirma o valor da diplomacia naval como ferramenta de relacionamento internacional e de preparo operacional da Esquadra.
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