domingo, 1 de novembro de 2026

OTAN transforma redes 5G em sensores e testa nova arquitetura de vigilância e defesa no Báltico

0 comentários

A evolução dos conflitos contemporâneos está ampliando o conceito de campo de batalha e redefinindo o papel de infraestruturas que, até pouco tempo, eram consideradas essencialmente civis. Redes de telecomunicações, sistemas de transmissão de dados e estruturas comerciais de conectividade começam a ser incorporados ao planejamento militar, não apenas como meios de comunicação, mas também como elementos capazes de contribuir para a vigilância, a identificação de ameaças e a tomada de decisões.

Essa transformação esteve no centro do Digital Backbone Experimentation 2026 (DiBaX 2026), exercício de experimentação tecnológica conduzido pela OTAN na Letônia, entre 19 e 30 de outubro. A iniciativa reuniu estruturas da Aliança, forças armadas, instituições de defesa e empresas de tecnologia para avaliar como redes 5G, comunicações via satélite, sensores, inteligência artificial e sistemas antidrones podem operar de maneira integrada em um ambiente operacional marcado por interferências, ameaças assimétricas e necessidade de resposta rápida.

Um dos aspectos mais relevantes foi a investigação do emprego de torres comerciais de telefonia móvel como sensores passivos. A proposta é explorar a infraestrutura de transmissão 5G para identificar objetos em movimento dentro de sua área de cobertura, acrescentando uma nova fonte de informação à arquitetura de vigilância militar. Em regiões urbanas, onde existe elevada densidade de antenas, essa capacidade pode ampliar a percepção do ambiente e complementar os dados obtidos por radares, sensores eletro-ópticos, sistemas infravermelhos e outros meios especializados.

Não se trata de substituir radares militares ou transformar automaticamente cada estação de telefonia em um sensor de defesa. O que a OTAN procura avaliar é a possibilidade de aproveitar sinais e dados gerados por infraestruturas já existentes para ampliar a consciência situacional, reduzindo lacunas de observação e oferecendo informações adicionais aos sistemas de comando e controle.

Redes civis a serviço da prontidão militar

A utilização de redes comerciais de telecomunicações em operações militares responde a uma necessidade concreta: permitir que forças aliadas estabeleçam conectividade segura desde os primeiros momentos de um deslocamento, antes mesmo da chegada de toda a infraestrutura própria de comunicações da OTAN.

Durante o DiBaX 2026, um dos cenários avaliou o chamado network slicing, tecnologia que permite dividir uma rede física em segmentos virtuais com características e prioridades específicas. Na prática, uma parcela da infraestrutura 5G do país anfitrião pode ser reservada para o uso militar, com mecanismos de proteção e gerenciamento destinados a assegurar a transmissão de dados e os serviços de comando e controle.

A aplicação é particularmente relevante em operações expedicionárias e no reforço do flanco oriental da Aliança. Uma força que chega a determinado território precisa estabelecer rapidamente comunicações com seus escalões superiores, compartilhar informações e coordenar movimentos. Utilizar redes locais, desde que devidamente protegidas e integradas, pode reduzir o tempo necessário para alcançar essa capacidade.

Entretanto, a dependência de infraestrutura civil também introduz vulnerabilidades. Redes comerciais podem ser alvo de ataques cibernéticos, sabotagem física, interrupções de energia e ações de guerra eletrônica. Por isso, o experimento também avaliou mecanismos para preservar a conectividade quando determinado enlace se torna indisponível, degradado ou comprometido.

A solução passa pela integração de diferentes meios de comunicação, incluindo redes celulares, enlaces de rádio, satélites e sistemas de dispersão troposférica. A ideia é permitir que os dispositivos alternem entre caminhos disponíveis conforme as condições do ambiente, preservando o fluxo de informações essenciais mesmo diante de interferências ou interrupções.

Essa capacidade de adaptação é central em um cenário no qual a superioridade eletromagnética deixou de ser uma condição garantida. A guerra eletrônica pode comprometer comunicações, navegação e transmissão de dados, afetando diretamente a coordenação de forças terrestres, aéreas e navais. Uma arquitetura capaz de utilizar caminhos alternativos e priorizar comunicações críticas pode representar uma vantagem operacional significativa.

O espectro eletromagnético como espaço de disputa

A resiliência das comunicações depende também de uma gestão eficiente do espectro eletromagnético. Em operações que envolvem múltiplos sistemas, diferentes frequências e grande quantidade de dispositivos, conflitos de utilização podem comprometer o desempenho das redes e provocar interferências entre equipamentos próprios.

Nesse contexto, a Agência de Comunicações e Informação da OTAN (NCIA) testou uma solução de gerenciamento e coordenação do espectro, desenvolvida internamente, destinada a permitir que diferentes sistemas de rádio utilizem faixas de frequência de maneira mais eficiente.

Durante os testes, foram observadas melhorias no aproveitamento do espectro, incluindo a capacidade de determinados sistemas alterarem suas frequências em questão de segundos. O objetivo é reduzir conflitos, administrar prioridades e preservar os enlaces considerados essenciais para a missão.

A experimentação também envolveu a integração de uma rede 5G experimental com infraestrutura de comunicações via satélite da Agência Espacial Europeia (ESA). A conexão entre o centro de pesquisa da ESA em Noordwijk, nos Países Baixos, e instalações na Letônia demonstrou como redes terrestres e não terrestres podem compor uma arquitetura integrada, ampliando a conectividade em áreas onde a infraestrutura convencional é insuficiente ou vulnerável.

O conceito vai além de garantir acesso à internet em ambientes remotos. Para as forças armadas, significa manter a capacidade de transmitir dados, coordenar unidades e compartilhar informações em um teatro de operações no qual a mobilidade e a dispersão das tropas podem dificultar o estabelecimento de redes convencionais.

Inteligência artificial e interoperabilidade: reduzindo o tempo entre informação e decisão

Outro eixo importante do DiBaX 2026 foi a integração entre sistemas de comando e controle de diferentes origens, apoiada por ferramentas de inteligência artificial. O desafio é antigo: forças de países distintos utilizam plataformas, protocolos e estruturas de dados que nem sempre foram desenvolvidos para se comunicar diretamente.

A dificuldade de integração pode gerar atrasos, exigir conversões manuais e comprometer a velocidade de resposta. Em operações multinacionais, nas quais informações precisam circular entre diferentes escalões de comando, essas limitações representam um problema que ultrapassa a dimensão técnica e alcança o próprio planejamento operacional.

Durante o exercício, a OTAN avançou na integração de sua plataforma Maven Smart System com um sistema militar nacional, utilizando inteligência artificial agêntica para superar barreiras de interoperabilidade. A integração, segundo declarações do comandante supremo aliado para Transformação, almirante Pierre Vandier, foi realizada em poucas horas, apesar de os sistemas não terem sido originalmente concebidos para operar em conjunto.

A inteligência artificial agêntica se diferencia de ferramentas que apenas respondem a comandos ou analisam dados isoladamente. Ela pode executar sequências de tarefas, identificar requisitos de integração e auxiliar na realização de processos necessários para que diferentes sistemas troquem informações. No contexto militar, isso pode reduzir o trabalho de adaptação entre plataformas e acelerar a disponibilização de dados aos responsáveis pela decisão.

A iniciativa também se relaciona ao programa Next Generation Targeting, voltado à melhoria dos processos de identificação, análise e validação de alvos. A proposta é reunir informações provenientes de diferentes sensores e sistemas, organizá-las e disponibilizá-las aos comandantes com maior rapidez.

Isso não elimina a necessidade de validação humana nem transfere automaticamente à inteligência artificial a autoridade para decidir pelo emprego da força. A velocidade proporcionada pela tecnologia precisa estar acompanhada de mecanismos de controle, rastreabilidade e responsabilidade sobre as decisões. Em operações militares, uma informação incorreta ou uma identificação equivocada pode produzir consequências graves.

Defesa antidrones e integração multinacional

O DiBaX 2026 também serviu de ambiente para experimentações vinculadas à iniciativa Layered Counter-UAS (LCI-X), dedicada ao desenvolvimento de uma defesa antidrones em camadas. O conceito busca conectar sensores, sistemas de comando e controle e diferentes meios de neutralização, permitindo que ameaças sejam detectadas e enfrentadas de acordo com suas características e o contexto operacional.

A relevância dessa abordagem está diretamente relacionada à transformação dos drones em instrumentos de emprego recorrente nos conflitos contemporâneos. Aeronaves não tripuladas de baixo custo, plataformas FPV e sistemas de maior alcance podem ameaçar instalações, comboios, posições de artilharia e infraestruturas críticas. A resposta exige uma combinação de radares, sensores eletro-ópticos, sistemas de guerra eletrônica, interceptadores e armamentos convencionais.

Durante as atividades, foram avaliadas formas de compartilhar dados entre sensores e sistemas de neutralização de diferentes fabricantes e países. Também foram realizados cenários envolvendo interferência eletrônica e operações com drones, evidenciando a necessidade de coordenar o emprego dos recursos disponíveis para evitar que medidas de neutralização afetem as próprias comunicações e sistemas aliados.

Um dos exemplos mais expressivos da integração multinacional foi a simulação de uma ameaça aérea não tripulada que partiu da Lituânia, cruzou a fronteira e foi engajada por um sistema antidrones em território letão. O cenário demonstrou a importância de compartilhar informações e coordenar respostas entre países diante de ameaças que não respeitam fronteiras nacionais.

O episódio evidencia uma questão central para a defesa coletiva: a eficácia de um sistema antidrones não depende apenas da capacidade individual de detectar ou neutralizar uma aeronave, mas também da rapidez com que a informação chega ao sistema responsável pela resposta. A integração entre sensores, centros de comando e meios de interceptação passa a ser tão importante quanto o desempenho isolado de cada equipamento.

A infraestrutura crítica também faz parte do campo de batalha

A experimentação realizada na Letônia aponta para uma mudança importante na relação entre infraestrutura civil e capacidade militar. Torres de telecomunicações, redes de transmissão de dados, satélites e centros de processamento passam a ser considerados elementos que podem contribuir diretamente para a vigilância e a condução de operações.

Essa integração, contudo, amplia a superfície de exposição a ameaças. Uma rede utilizada simultaneamente por serviços civis e militares precisa contar com mecanismos robustos de segregação, autenticação, criptografia, redundância e proteção contra ataques cibernéticos e físicos. Também exige planejamento para situações nas quais o operador comercial não consiga manter o serviço ou quando a própria infraestrutura se torne alvo de uma ação hostil.

No Báltico, essa preocupação está associada ao ambiente de segurança regional, marcado por tensões, incursões de drones e vulnerabilidades de infraestruturas submarinas e de comunicações. O DiBaX 2026 procurou justamente testar soluções aplicáveis a situações de crise que podem ocorrer abaixo do limiar de um conflito convencional, mas que exigem capacidade de identificação, atribuição e resposta coordenada.

A experimentação reuniu países aliados, organismos da OTAN e mais de 60 empresas e entidades tecnológicas. A participação de companhias como Nokia, Ericsson e Thales, além da atuação da empresa letã LMT Defence como integradora tecnológica, demonstra a importância atribuída à cooperação entre forças armadas, operadores de infraestrutura e indústria.

O objetivo não se limita a apresentar tecnologias promissoras. A experimentação busca identificar incompatibilidades, limitações e requisitos técnicos antes que essas soluções avancem para processos de adoção e emprego operacional. A própria liderança da OTAN reconhece que o maior desafio seguinte é transformar os resultados dos testes em capacidades efetivamente incorporadas pelas forças aliadas.

O que essa transformação representa para o Brasil

A experiência da OTAN oferece elementos importantes para o debate brasileiro sobre defesa, infraestrutura crítica e autonomia tecnológica. O Brasil possui dimensões continentais, extensa rede de telecomunicações, infraestrutura energética e logística distribuída por regiões estratégicas, além de responsabilidades sobre a Amazônia, o Atlântico Sul e a chamada Amazônia Azul.

A proteção desses espaços exige mais do que a aquisição de equipamentos militares isolados. Depende da capacidade de integrar radares, sensores, aeronaves, sistemas não tripulados, satélites, redes de comunicação e centros de comando e controle em uma arquitetura capaz de compartilhar informações de maneira segura e tempestiva.

Nesse contexto, o emprego de redes civis em apoio às operações militares merece ser estudado, especialmente para ampliar a cobertura de comunicações e desenvolver soluções complementares de vigilância. Entretanto, qualquer iniciativa dessa natureza precisa considerar a soberania sobre os dados, a segurança das infraestruturas, a continuidade dos serviços e a capacidade de operação em situações de crise.

Também existe uma oportunidade para a Base Industrial de Defesa. O desenvolvimento de soluções nacionais de integração de sensores, gerenciamento do espectro eletromagnético, comunicações resilientes, inteligência artificial e sistemas antidrones pode reduzir dependências externas e fortalecer a capacidade brasileira de adaptar tecnologias às suas próprias necessidades operacionais.

O desafio não está em reproduzir automaticamente o modelo da OTAN, mas em compreender os princípios que orientam essa transformação: interoperabilidade desde a concepção, integração entre setores civil e militar, redundância das comunicações, domínio sobre os dados e capacidade de decisão mesmo em ambientes degradados.

A experiência do DiBaX 2026 reforça que a superioridade militar contemporânea não será definida apenas pela quantidade de plataformas ou pelo poder de fogo disponível. Ela dependerá, cada vez mais, da capacidade de conectar sensores, redes, sistemas de armas e centros de decisão em uma estrutura segura, resiliente e capaz de operar sob pressão.

As torres de telefonia 5G testadas como sensores representam apenas uma parte dessa transformação. O movimento mais amplo é a incorporação da infraestrutura digital ao ambiente operacional, convertendo conectividade em informação e informação em vantagem militar.


GBN Defense - A informação começa aqui 

Continue Lendo...

Terras raras: a corrida pelo subsolo brasileiro expõe a urgência de proteger a soberania industrial e tecnológica

0 comentários

A disputa internacional por minerais críticos está colocando o Brasil diante de uma questão que vai muito além da mineração. Detentor de reservas expressivas de terras raras, o Brasil começa a atrair o interesse de grandes grupos internacionais, fundos de investimento e governos que enxergam nesses recursos uma condição essencial para sustentar suas indústrias de alta tecnologia, a transição energética e, sobretudo, suas capacidades de defesa.

O problema é que, enquanto as principais economias mundiais estruturam políticas para assegurar o acesso a esses minerais e controlar as etapas industriais de maior valor agregado, o Brasil ainda precisa transformar seu potencial geológico em capacidade produtiva, tecnológica e estratégica. A movimentação de empresas estrangeiras sobre projetos nacionais demonstra que essa disputa já está em curso, e que a ausência de uma política industrial suficientemente robusta pode fazer com que o País permaneça limitado à condição de fornecedor de matérias-primas para cadeias produtivas controladas no exterior.

A questão ganhou uma dimensão ainda mais concreta com a aquisição da Serra Verde pela norte-americana USA Rare Earth, uma operação avaliada em aproximadamente US$ 2,8 bilhões. A companhia brasileira opera a mina Pela Ema, em Minaçu, Goiás, considerada a única produtora comercial de terras raras do Brasil. A conclusão da aquisição, anunciada em setembro de 2026, colocou o empreendimento sob controle de um grupo americano que pretende integrar a produção brasileira à sua própria estratégia industrial.

O episódio merece atenção especial porque não se trata apenas de uma transação empresarial. O governo dos Estados Unidos mobilizou instrumentos públicos para assegurar o acesso à produção. Em agosto, o Departamento de Guerra anunciou um investimento de US$ 750 milhões em uma estrutura financeira destinada a apoiar contratos de fornecimento dos produtos da Serra Verde. O arranjo integra uma iniciativa de US$ 1,55 bilhão, que também inclui um compromisso de compra de US$ 300 milhões pela Defense Logistics Agency e US$ 500 milhões de financiamento bancário.

O contrato prevê fornecimento de longo prazo, por 15 anos, abrangendo a totalidade da produção da primeira fase da operação, com preços mínimos garantidos para os elementos magnéticos contemplados. A iniciativa está vinculada ao esforço americano para construir uma cadeia de suprimentos independente da China, abrangendo desde a mineração até a fabricação de ímãs permanentes destinados a aplicações industriais e militares.

O recado estratégico é claro: Washington não está tratando terras raras simplesmente como commodities. Está utilizando instrumentos financeiros, compromissos de aquisição e política industrial para garantir matérias-primas essenciais à sua segurança econômica e à sua Base Industrial de Defesa.

Enquanto isso, a movimentação chinesa também começa a ganhar espaço no Brasil. A Shenghe Resources, empresa chinesa com atuação internacional no setor, assinou um memorando de entendimento com a WEG Mineração e a Fenrir do Brasil, companhia que possui projeto de pesquisa mineral em Minas Gerais, incluindo elementos associados às terras raras. Mais recentemente, o CEO da Ore Minerals confirmou negociações com investidores e fundos chineses interessados em aportar capital e tecnologia em projetos brasileiros.

É importante distinguir essas iniciativas de uma aquisição efetivamente concluída. Até o momento, não há confirmação pública de que um grupo chinês tenha comprado uma nova mina em Minas Gerais. Entretanto, os acordos e as negociações demonstram que o interesse estrangeiro envolve não apenas a obtenção de matéria-prima, mas também a participação em projetos, o acesso a tecnologias e a construção de relações comerciais de longo prazo.

Outro movimento que merece acompanhamento é a aquisição da australiana Meteoric Resources pela também australiana Lynas Rare Earths, em uma operação avaliada em aproximadamente R$ 3,5 bilhões. A Meteoric detém o Projeto Caldeira, no sul de Minas Gerais, uma das iniciativas de maior potencial no desenvolvimento de terras raras no País. A transação, condicionada à aprovação das autoridades brasileiras, coloca diante do novo marco regulatório um importante teste sobre a capacidade do Estado de estabelecer condições para a transferência de controle de ativos estratégicos.

A Lynas já possui experiência industrial em separação e processamento de terras raras, com operações na Austrália e na Malásia. A empresa informou que estudará a possibilidade de desenvolver processamento adicional no Brasil, mas ainda não assumiu compromisso definitivo de instalar uma unidade industrial de separação no território nacional. Essa distinção é fundamental: a aquisição de um projeto mineral por uma empresa que domina tecnologias de processamento não significa, automaticamente, que essas capacidades serão transferidas ao País.

Da riqueza mineral à dependência industrial

É justamente nesse ponto que reside uma das maiores vulnerabilidades brasileiras. A cadeia de terras raras é tecnologicamente complexa e não termina na extração do minério. Após a lavra, são necessárias etapas de concentração, tratamento químico, separação dos elementos individuais, purificação, produção de óxidos, metalização e fabricação de ligas. Somente depois dessas etapas é possível avançar para a produção de ímãs permanentes de alto desempenho, componentes fundamentais para diversas tecnologias modernas.

A diferença econômica e estratégica entre essas etapas é expressiva. Exportar concentrados minerais significa fornecer um insumo que será transformado em produtos de maior valor em outros países. Dominar a separação, a metalurgia e a fabricação de ímãs significa participar de segmentos industriais que concentram conhecimento, propriedade intelectual, empregos especializados e capacidade de inovação.

Os ímãs permanentes de neodímio e praseodímio, frequentemente associados ao disprósio e ao térbio para melhorar seu desempenho em determinadas condições de temperatura, são utilizados em motores elétricos, turbinas eólicas, robótica, sistemas aeronáuticos, sensores e equipamentos de elevada complexidade tecnológica.

No campo militar, esses materiais integram cadeias industriais relacionadas a motores, atuadores, sistemas de controle, radares, sensores e equipamentos eletrônicos. Sua disponibilidade pode influenciar diretamente a capacidade de produção e manutenção de sistemas de defesa.

Portanto, a dependência externa nessa cadeia não representa apenas uma questão comercial. No cenário de tensões geopolíticas, restrições de exportação ou interrupções logísticas, a falta de acesso a determinados materiais pode comprometer programas industriais e militares, elevar custos e limitar a autonomia de desenvolvimento tecnológico.

A experiência internacional demonstra que as grandes potências compreenderam essa relação. Os Estados Unidos, por exemplo, passaram a utilizar recursos públicos para estimular a produção doméstica e garantir fornecimento de minerais estratégicos. A China, por sua vez, consolidou ao longo de décadas uma posição dominante no processamento e na fabricação de ímãs permanentes, utilizando escala industrial, domínio tecnológico e integração produtiva como instrumentos de competitividade e influência econômica.

O Brasil, apesar de possuir uma base mineral expressiva, ainda não dispõe de uma cadeia industrial de terras raras plenamente integrada.

O capital estrangeiro e a necessidade de proteger ativos estratégicos

A presença de investidores internacionais não deve ser tratada automaticamente como uma ameaça. Projetos minerais exigem investimentos elevados, tecnologia, conhecimento especializado e acesso a mercados. A cooperação internacional pode acelerar o desenvolvimento de capacidades que o Brasil ainda não possui.

Entretanto, existe uma diferença fundamental entre atrair investimentos e transferir o controle de ativos estratégicos sem assegurar contrapartidas compatíveis com o interesse nacional.

Uma análise publicada pela Repórter Brasil em parceria com a Associated Press identificou que empresas estrangeiras respondiam por aproximadamente 42% dos requerimentos de pesquisa de terras raras apresentados à Agência Nacional de Mineração até junho de 2026. Mais significativo ainda: essas empresas estavam presentes em 31 dos 45 processos mais avançados, incluindo projetos em operação ou em fase de pré-operação comercial.

O dado evidencia a dimensão da presença internacional sobre os direitos minerários brasileiros. Não significa que empresas estrangeiras controlem 42% das reservas nacionais, mas demonstra que uma parcela expressiva da exploração e do desenvolvimento de novos projetos está vinculada a grupos sediados fora do País.

A questão exige uma política de Estado capaz de avaliar não apenas a legalidade das operações societárias, mas também seus efeitos sobre a segurança econômica, tecnológica e estratégica brasileira.

A Lei nº 15.506, de 16 de setembro de 2026, que instituiu a Política Nacional de Minerais Críticos e Estratégicos, representa um avanço institucional nesse sentido. A legislação criou o Conselho Nacional para Industrialização de Minerais Críticos e Estratégicos e estabeleceu mecanismos de triagem e homologação de mudanças de controle societário, participações estrangeiras relevantes, acesso a informações geológicas estratégicas e determinados contratos internacionais de fornecimento.

O marco legal também estabelece a valorização e a agregação de valor em território nacional como princípios da política mineral, além de prever instrumentos de financiamento, incentivos e apoio à pesquisa, ao beneficiamento e à transformação mineral.

Contudo, a existência de um marco regulatório não encerra o problema. Seu resultado dependerá da regulamentação, da capacidade técnica de fiscalização, da transparência dos processos e, principalmente, da disposição do Estado de estabelecer contrapartidas concretas para operações envolvendo ativos estratégicos.

O Brasil precisa avançar na definição de critérios que permitam avaliar mudanças de controle estrangeiro considerando a relevância do depósito mineral, sua contribuição para setores essenciais, a concentração de mercado, o destino da produção, o acesso a informações estratégicas e o impacto sobre a autonomia tecnológica nacional.

Não se trata de fechar o mercado ou impedir a participação internacional. Trata-se de estabelecer limites e condições proporcionais à importância dos ativos envolvidos, evitando que a abertura econômica resulte na perda de capacidade de decisão sobre recursos fundamentais ao desenvolvimento do País.

Beneficiamento nacional: o investimento que não pode mais ser adiado

A proteção dos direitos minerários precisa caminhar junto com uma política industrial capaz de viabilizar a transformação dos recursos dentro do Brasil.

Não adianta estabelecer mecanismos para controlar a transferência de ativos se o País não oferecer condições para desenvolver sua própria cadeia produtiva. Sem financiamento, infraestrutura, energia competitiva, segurança regulatória, pesquisa aplicada e demanda industrial, os projetos continuarão dependendo de grupos estrangeiros para avançar.

Nesse contexto, o papel do BNDES, da Finep, dos institutos de pesquisa e das universidades é fundamental. O financiamento público precisa ser direcionado não apenas à abertura de novas minas, mas também à instalação de plantas de separação química, unidades de produção de óxidos, metalurgia de terras raras, fabricação de ligas e produção de ímãs permanentes.

A iniciativa envolvendo a St George Mining, o governo de Minas Gerais e o grupo brasileiro Lima & Pergher, que estudam a implantação de um polo de processamento e refino em Uberlândia, aponta uma possibilidade de avanço nessa direção. O projeto ainda está em avaliação, mas contempla a possibilidade de receber concentrados e produtos intermediários e avançar até materiais destinados à fabricação de ímãs.

Também merece atenção a iniciativa MagBras, voltada à construção de uma cadeia nacional de fabricação de ímãs de terras raras. São movimentos que precisam ser acompanhados e sobretudo, transformados em empreendimentos industriais efetivos.

O País necessita de uma estratégia de longo prazo, com metas de produção, financiamento previsível, formação de profissionais, desenvolvimento de processos próprios e integração entre empresas, universidades e centros tecnológicos.

A construção dessa capacidade não ocorrerá apenas com incentivos pontuais ou anúncios de investimento. Exige continuidade orçamentária, coordenação institucional e compromisso de diferentes governos com uma política industrial que não fique sujeita aos ciclos eleitorais.

Soberania mineral também é soberania de Defesa

Para o Brasil, a discussão possui uma dimensão adicional. A Base Industrial de Defesa depende de uma cadeia de fornecedores capaz de assegurar componentes, materiais e tecnologias essenciais ao desenvolvimento e à sustentação dos sistemas militares.

O desenvolvimento de radares, sistemas de comunicação, sensores, aeronaves, veículos militares, equipamentos navais e armamentos de precisão exige acesso a materiais e componentes cuja produção está concentrada em poucos países.

A dependência de fornecedores externos pode se converter em vulnerabilidade em momentos de crise internacional, especialmente quando restrições comerciais ou disputas geopolíticas afetam o acesso a tecnologias consideradas sensíveis.

Nesse sentido, a política de minerais críticos precisa dialogar diretamente com a Política Nacional de Defesa e com a Estratégia Nacional de Defesa. A integração entre o setor mineral, a indústria de transformação, a pesquisa científica e a Base Industrial de Defesa deve ser tratada como uma questão de planejamento estratégico nacional.

O Brasil possui reservas, universidades, pesquisadores, empresas industriais e uma base científica que pode sustentar o desenvolvimento dessa cadeia. O desafio é conectar esses ativos em um programa nacional de industrialização, capaz de transformar conhecimento em produtos, capacidade produtiva e autonomia tecnológica.

A disputa internacional pelas terras raras brasileiras não deve ser interpretada apenas como uma oportunidade de atrair bilhões em investimentos. Ela também revela o interesse de outras potências em assegurar recursos que consideram essenciais à sua própria segurança econômica e militar.

O País precisa decidir qual posição pretende ocupar nesse cenário. Pode continuar fornecendo recursos minerais para alimentar cadeias industriais estrangeiras ou utilizar sua riqueza geológica como fundamento para desenvolver uma indústria nacional de alto valor agregado.

A escolha exige instrumentos regulatórios eficientes, investimentos de longo prazo e uma política de Estado que reconheça a importância desses recursos para além de sua contribuição à balança comercial.

Porque soberania não significa simplesmente possuir reservas em nosso território. Significa ter capacidade de decidir como explorá-las, dominar as tecnologias necessárias à sua transformação e assegurar que os benefícios econômicos, industriais e estratégicos permaneçam, em parcela relevante, no Brasil.

O minério está no nosso território. O conhecimento precisa estar em nossas instituições, a capacidade produtiva em nossa indústria e a decisão estratégica nas mãos do Estado brasileiro.


Por Angelo Nicolaci


GBN Defense - A informação começa aqui

Continue Lendo...

sábado, 31 de outubro de 2026

Análise: Na guerra contemporânea, destruir a capacidade de decisão de um adversário pode ser tão importante quanto destruir seus meios militares.

0 comentários

A transformação dos conflitos armados nas últimas décadas ampliou significativamente o campo de disputa entre Estados e forças militares. A superioridade deixou de depender exclusivamente da quantidade de meios disponíveis, do poder de fogo ou da capacidade de ocupar posições estratégicas. Embora esses fatores continuem determinantes, a evolução tecnológica e a crescente integração dos ambientes operacional, informacional e digital introduziram uma dimensão cuja importância cresce à medida que as forças armadas se tornam mais conectadas: a capacidade de preservar a percepção da realidade, interpretar corretamente as informações e tomar decisões em condições de incerteza.

Diante de um ambiente no qual sensores, radares, satélites, aeronaves não tripuladas, sistemas de comunicação e plataformas de inteligência alimentam continuamente os centros de comando, a qualidade da decisão passou a depender de uma complexa rede de informações e relações humanas. Essa integração oferece vantagens consideráveis, permitindo ampliar a consciência situacional, reduzir o tempo de resposta e coordenar meios distribuídos em diferentes domínios. Entretanto, também cria vulnerabilidades. Quando a informação é manipulada, quando os canais de comunicação são comprometidos ou quando a confiança nos sistemas de inteligência é abalada, a capacidade de combate pode ser afetada mesmo sem que um único meio militar seja fisicamente destruído.

É nesse contexto que a guerra cognitiva ganha relevância. Mais do que uma evolução da propaganda ou da desinformação, o conceito procura compreender como ações coordenadas podem influenciar a percepção, o julgamento, a confiança e o comportamento de indivíduos e organizações, atingindo diretamente os processos que sustentam a tomada de decisão. O objetivo pode ser induzir uma interpretação equivocada do cenário, produzir hesitação, comprometer a coesão de uma estrutura de comando ou dificultar a identificação de ameaças reais em meio a um volume crescente de informações.

A questão, portanto, não se limita a convencer uma população de determinada narrativa. No ambiente militar, o problema adquire consequências operacionais concretas: um comandante pode dispor de tropas, armamentos, comunicações e logística, mas perder a capacidade de empregar esses recursos adequadamente se sua compreensão do campo de batalha estiver comprometida.

A dimensão cognitiva e a transformação do ambiente operacional

A exploração das percepções humanas não é uma novidade na história militar. Engano, dissimulação, operações psicológicas, propaganda e ações destinadas a abalar o moral adversário acompanham os conflitos desde a Antiguidade. O que mudou foi a escala, a velocidade, a capacidade de personalização e a integração dessas atividades com recursos tecnológicos.

A digitalização das sociedades ampliou a quantidade de informações disponíveis e reduziu o intervalo entre um acontecimento e sua circulação. Imagens, vídeos, mensagens, documentos e dados operacionais podem alcançar simultaneamente públicos civis, militares e autoridades políticas. A inteligência artificial acrescenta novas possibilidades de produção e manipulação de conteúdo, enquanto plataformas digitais permitem disseminar narrativas em grande escala e explorar características específicas dos públicos atingidos.

Em abril de 2023, o Allied Command Transformation (ACT), comando da OTAN responsável pelo desenvolvimento de conceitos e capacidades futuras, apresentou sua definição de guerra cognitiva como atividades sincronizadas com outros instrumentos de poder para influenciar atitudes e comportamentos por meio da influência, proteção ou perturbação da cognição individual e coletiva. A formulação demonstra que o conceito não está restrito à circulação de informações falsas, mas envolve a interação entre fatores psicológicos, tecnológicos, sociais e estratégicos.

O debate, entretanto, ainda está em desenvolvimento. Um estudo acadêmico de Christoph Deppe e Gary S. Schaal, publicado em novembro de 2024 na revista Frontiers in Big Data, examinou criticamente o conceito exploratório da OTAN e identificou dificuldades de delimitação e diferenciação em relação a ameaças híbridas, manipulação e interferência informacional estrangeira. Essa ressalva é importante: nem toda campanha de desinformação constitui, isoladamente, guerra cognitiva, assim como nem toda falha de julgamento pode ser atribuída à ação deliberada de um adversário. A análise exige identificar intenção hostil, mecanismos empregados e efeitos pretendidos, sem transformar o conceito em uma explicação genérica para qualquer problema informacional.

A contribuição mais importante dessa abordagem está em reconhecer que o ser humano continua sendo parte essencial dos sistemas militares, mesmo quando suas atividades são apoiadas por processos altamente automatizados. A tecnologia pode ampliar a capacidade de observação e processamento, mas a interpretação do cenário, a avaliação de riscos e a responsabilidade pelo emprego da força permanecem vinculadas a decisões humanas e às estruturas institucionais que as sustentam.

A guerra cognitiva no ambiente político: disputas internas e erosão institucional

Embora suas aplicações militares despertem atenção crescente, a dimensão cognitiva da disputa entre atores políticos merece ser examinada com a mesma seriedade. O ambiente político reúne condições particularmente sensíveis à manipulação de percepções: divergências ideológicas, interesses econômicos, conflitos sociais, disputas eleitorais e diferentes interpretações sobre o funcionamento das instituições. Em sociedades democráticas, a pluralidade de opiniões é legítima e necessária. O problema surge quando mecanismos deliberados de manipulação procuram transformar divergências naturais em instrumentos de desestabilização.

Agentes políticos internos, grupos de interesse e estruturas organizadas podem recorrer a técnicas de influência para favorecer determinados objetivos de poder. Isso pode envolver a apresentação seletiva de informações, a circulação coordenada de conteúdos enganosos, a exploração de acontecimentos reais fora de seu contexto e a construção de narrativas destinadas a comprometer a confiança em adversários, autoridades ou instituições. A manipulação também pode procurar criar a impressão de que determinada posição representa uma maioria social incontestável, quando sua visibilidade decorre de mecanismos artificiais de amplificação.

É importante distinguir esse fenômeno da disputa política legítima. Campanhas eleitorais, críticas a governos, mobilizações populares e divergências sobre decisões institucionais fazem parte da vida democrática. A existência de discursos contundentes ou de críticas às instituições não comprova uma operação cognitiva. A caracterização exige observar a presença de manipulação deliberada, coordenação, ocultação de interesses, falsificação de fontes ou outras práticas destinadas a distorcer o processo de formação da opinião pública.

O risco estratégico aparece quando a competição política deixa de se concentrar na apresentação de propostas e na avaliação de resultados e passa a explorar sistematicamente a incapacidade de diferentes grupos de compartilhar uma base mínima de fatos verificáveis. Nesse ambiente, acontecimentos semelhantes podem ser apresentados como realidades incompatíveis, fontes confiáveis passam a ser rejeitadas exclusivamente por sua associação percebida a determinado grupo e a própria verificação de informações é interpretada como uma ação política.

A consequência pode ultrapassar o desgaste de uma liderança específica. A confiança na Justiça, nas autoridades eleitorais, nos órgãos de segurança, na imprensa e nos mecanismos de fiscalização pode ser afetada simultaneamente. Quando a legitimidade dessas estruturas passa a ser contestada sem que existam evidências proporcionais às acusações, a sociedade pode encontrar dificuldades para reconhecer decisões legítimas, resolver conflitos e aceitar procedimentos institucionais.

Essa situação interessa particularmente a atores que procuram ampliar sua influência sobre o Estado. A desconfiança generalizada pode dificultar a formação de consensos, comprometer a continuidade administrativa e reduzir a capacidade de implementar políticas públicas. Em um cenário de polarização persistente, decisões estratégicas podem ficar subordinadas à necessidade de responder permanentemente a crises políticas e informacionais.

A guerra cognitiva, nesse contexto, não precisa produzir uma mudança imediata de governo ou provocar uma ruptura institucional. Seus efeitos podem ser graduais, manifestando-se na deterioração das relações de confiança, na fragmentação da percepção coletiva e na dificuldade de estabelecer prioridades nacionais. A disputa pelo poder passa, assim, a envolver também a capacidade de influenciar a maneira como a sociedade interpreta os acontecimentos e avalia as instituições responsáveis por conduzir o Estado.

Disputas eleitorais: influência, manipulação e legitimidade democrática

Os processos eleitorais constituem períodos especialmente sensíveis porque concentram a atenção pública, ampliam a circulação de informações políticas e submetem instituições e candidatos a um nível elevado de escrutínio. A rapidez com que conteúdos são produzidos e compartilhados pode reduzir o tempo disponível para verificar denúncias, corrigir informações falsas e esclarecer acontecimentos controversos.

Nesse ambiente, operações de influência podem procurar interferir na percepção dos eleitores sem necessariamente atacar a infraestrutura responsável pela votação. A divulgação de conteúdos fabricados, a manipulação de imagens e gravações, a apresentação de pesquisas falsas, a circulação de acusações sem comprovação e a exploração de episódios reais fora de contexto podem alterar a compreensão pública sobre candidatos, partidos e instituições.

Outro objetivo possível é comprometer antecipadamente a confiança no processo eleitoral. Em vez de concentrar esforços na defesa de uma candidatura, uma campanha de manipulação pode procurar disseminar a percepção de que as instituições responsáveis pela eleição não são confiáveis, de modo que resultados desfavoráveis sejam recebidos com desconfiança independentemente das evidências disponíveis.

Essa distinção é relevante porque influência eleitoral e comprometimento técnico da votação são fenômenos diferentes. Uma operação pode procurar alterar percepções e preferências políticas sem acessar sistemas eleitorais, modificar registros ou interferir diretamente na apuração. Confundir essas modalidades dificulta a identificação da ameaça e pode produzir respostas institucionais inadequadas.

Uma avaliação conjunta divulgada em setembro de 2024 pelo Office of the Director of National Intelligence (ODNI), nos Estados Unidos, descreveu esforços de atores estrangeiros para explorar divisões políticas e influenciar a opinião pública durante o ciclo eleitoral daquele ano. O documento também chamou atenção para uma prática particularmente preocupante: o chamado perception hacking, no qual um agente procura convencer o público de que houve uma interferência no processo eleitoral, inclusive quando não existe evidência de que a votação tenha sido efetivamente comprometida.

O relatório conjunto da CISA, do FBI e do ODNI, publicado em abril de 2024, também observou que técnicas empregadas em operações estrangeiras de influência podem ser utilizadas por agentes domésticos. Essa constatação amplia o debate: os instrumentos de manipulação não são exclusivos de governos estrangeiros e podem ser apropriados por estruturas internas interessadas em explorar vulnerabilidades políticas e sociais.

A inteligência artificial acrescenta outra dificuldade. Conteúdos audiovisuais sintéticos podem simular declarações, reproduzir vozes e criar situações que nunca aconteceram. Mesmo quando uma falsificação é posteriormente desmentida, sua circulação inicial pode produzir efeitos difíceis de reverter, especialmente quando ocorre em momentos de grande atenção pública.

O desafio das instituições democráticas não é impedir a circulação de opiniões divergentes ou restringir o debate político, mas assegurar condições para que os cidadãos possam distinguir informação verificável de conteúdo deliberadamente manipulado. A transparência dos procedimentos, a capacidade de resposta institucional, a independência jornalística e a fiscalização técnica são componentes importantes dessa proteção.

A intervenção externa velada: quando outro Estado explora as divisões internas

A dimensão geopolítica da guerra cognitiva ganha especial relevância quando um Estado procura influenciar os processos políticos, sociais ou institucionais de outro país sem assumir publicamente a autoria das ações. Nesse caso, a operação pode ser estruturada para que seus efeitos pareçam decorrer exclusivamente de conflitos domésticos, disputas ideológicas ou mobilizações espontâneas.

O objetivo não precisa ser instalar um governo específico ou determinar diretamente o resultado de uma eleição. Pode envolver enfraquecer a confiança nas instituições, ampliar divergências sobre política externa, dificultar a construção de consensos, comprometer alianças estratégicas ou criar resistência social a decisões que contrariem os interesses do Estado interveniente.

Uma característica importante dessas operações é a possibilidade de utilizar estruturas intermediárias. Em vez de uma comunicação direta e identificável entre o governo estrangeiro e o público do país-alvo, podem existir organizações, plataformas, indivíduos e canais que aparentam atuar de forma independente. Alguns intermediários podem conhecer a origem e os objetivos da iniciativa; outros podem reproduzir conteúdos sem saber que participam de uma campanha mais ampla.

Essa arquitetura permite que narrativas sejam incorporadas ao debate local e reproduzidas por atores que possuem legitimidade ou credibilidade junto a determinados públicos. O conteúdo pode circular em veículos de comunicação, páginas digitais, organizações aparentemente independentes ou perfis pessoais, dificultando a identificação de uma coordenação central.

O emprego de intermediários não significa que toda organização ou pessoa que reproduza uma narrativa convergente com interesses estrangeiros esteja envolvida em uma operação. A convergência de opiniões pode ser espontânea. Para estabelecer uma relação de influência organizada, são necessárias evidências que permitam identificar vínculos, coordenação, financiamento, controle editorial, infraestrutura compartilhada ou outros elementos de conexão.

O Serviço Europeu de Ação Externa (EEAS) desenvolveu o conceito de Foreign Information Manipulation and Interference (FIMI), utilizado para caracterizar atividades de manipulação e interferência informacional estrangeira. A abordagem procura identificar não apenas conteúdos falsos, mas também as estruturas, os canais, os intermediários e os mecanismos que permitem produzir e distribuir essas campanhas.

Em seu terceiro relatório sobre ameaças FIMI, publicado em março de 2025, o EEAS descreveu redes de canais digitais, sites que imitavam veículos legítimos, contas inautênticas e intermediários utilizados para ampliar narrativas em diferentes países. O relatório também identificou a adaptação de conteúdos às características culturais e políticas dos públicos locais, uma prática que pode aumentar sua aparência de legitimidade.

A quarta edição do relatório, publicada em março de 2026, avançou na análise da infraestrutura dessas operações. Com base em casos documentados durante 2025, o documento registrou 540 incidentes globalmente e a mobilização de aproximadamente 10.500 canais e sites. O próprio relatório ressalva que os números representam uma amostra seletiva de atividades identificadas e não uma medição completa de todas as operações existentes. Também descreveu o emprego de redes intermediárias e estruturas opacas que dificultam a atribuição direta de responsabilidade aos atores envolvidos.

Essa característica é central para compreender a intervenção externa velada. O Estado interessado pode procurar manter distância formal entre suas estruturas oficiais e os canais que disseminam determinada narrativa, criando uma cadeia de intermediários que dificulta demonstrar a origem da operação. A chamada plausível negação não significa que a autoria seja impossível de descobrir, mas que sua comprovação pode exigir investigações técnicas, financeiras, documentais e de inteligência.

Outro mecanismo consiste em explorar acontecimentos e conflitos que já existem no país-alvo. Tensões sociais, divergências sobre política econômica, controvérsias institucionais e disputas sobre política externa podem ser amplificadas sem que o agente externo precise criar artificialmente esses problemas. A intervenção pode se limitar a aumentar sua visibilidade, estimular interpretações conflitantes ou favorecer conteúdos que contribuam para os objetivos estratégicos de quem promove a operação.

O resultado pretendido pode ser uma sociedade progressivamente dividida, com instituições submetidas a uma contestação permanente e menor capacidade de construir respostas coletivas. Em determinadas circunstâncias, isso pode comprometer a liberdade de ação de um governo e reduzir sua capacidade de manter compromissos internacionais, conduzir políticas de Defesa ou sustentar relações estratégicas.

A interferência externa também pode ocorrer sem qualquer tentativa de alterar diretamente uma eleição. Um país pode procurar influenciar a percepção pública sobre uma aliança militar, um acordo comercial, um programa de aquisição de Defesa, uma parceria tecnológica ou uma decisão diplomática. Se a pressão informacional produzir custos políticos suficientes, o governo atingido poderá enfrentar dificuldades para executar uma política que considera estratégica.

Essa possibilidade demonstra que a guerra cognitiva pode atuar como instrumento de projeção de poder. Em vez de empregar força militar convencional, o Estado interveniente procura influenciar o ambiente no qual as decisões do adversário são formuladas, reduzindo sua margem de manobra e explorando vulnerabilidades internas.

É justamente por isso que a atribuição exige cuidado. Uma campanha de influência pode ter origem externa, interna ou resultar da convergência entre diferentes interesses. Sem evidências técnicas e documentais, atribuir uma disputa política doméstica a um governo estrangeiro pode ser tão prejudicial à estabilidade institucional quanto deixar de identificar uma interferência comprovada.

O caso Flávio Bolsonaro: o despistamento informacional como cobertura operacional

O episódio envolvendo a saída de Flávio Bolsonaro do Brasil após o resultado do segundo turno das eleições de 2026, oferece um exemplo expressivo de como a manipulação do ambiente informacional pode ser empregada para favorecer uma operação política e dificultar a percepção de seus movimentos reais. O aspecto mais significativo não está apenas na saída do senador do território brasileiro, mas na sequência de informações divulgadas sobre seu paradeiro antes mesmo da viagem ter sido efetivamente realizada.

Horas antes de sua saída, começaram a circular informações de que Flávio Bolsonaro já estaria nos Estados Unidos. A narrativa foi reproduzida por aliados e veículos de comunicação, criando a percepção de que o deslocamento internacional havia ocorrido. Entretanto, a cronologia posteriormente reconstruída revelou que ele ainda se encontrava em território brasileiro naquele momento. A família cruzou a fronteira com a Argentina na noite de 27 de outubro, e a aeronave utilizada no deslocamento partiu de Puerto Iguazú já na madrugada do dia 28, seguindo posteriormente para os Estados Unidos.

Essa antecipação da informação não pode ser analisada isoladamente. Ao divulgar um destino como se já tivesse sido alcançado, enquanto a movimentação real ainda estava em curso, criou-se uma discrepância entre a percepção pública e a realidade operacional. A imprensa, os observadores e as próprias instituições passaram a lidar com uma informação que apontava para uma situação diferente daquela que efetivamente se desenrolava. O resultado foi a produção de ruído, a dispersão da atenção e a dificuldade de acompanhar, em tempo real, a sequência dos acontecimentos.

O contexto torna o episódio ainda mais relevante. Os passaportes brasileiros comum e diplomático do senador haviam sido cancelados, e a Polícia Federal informou que um alerta migratório havia sido inserido no sistema de controle. Ainda assim, Flávio Bolsonaro conseguiu deixar o Brasil e ingressar na Argentina, de onde prosseguiu sua viagem internacional. A ausência de registro oficial de saída pelos postos migratórios brasileiros e a confirmação argentina de seu ingresso mediante documentação válida ampliam as questões sobre a rota utilizada, os meios empregados e a eventual participação de estruturas de apoio.

A dimensão informacional, entretanto, é o elemento que merece especial atenção sob a perspectiva da guerra cognitiva. A divulgação antecipada de uma localização que não correspondia à realidade pode ter funcionado como uma ação de despistamento, produzindo uma cobertura narrativa para o deslocamento efetivo. Em vez de simplesmente ocultar a movimentação, a estratégia teria sido criar uma versão antecipada dos acontecimentos, induzindo os observadores a acreditar que a operação já havia sido concluída.

Esse tipo de ação ganha outra dimensão quando associado à possibilidade de uma estrutura de apoio capaz de integrar comunicação política, intermediários, recursos logísticos e articulação internacional. Reportagens apontaram a participação de aliados norte-americanos na organização do transporte, enquanto autoridades dos Estados Unidos negaram que o governo americano tivesse facilitado a saída. As informações sobre a atuação de agentes externos e a logística empregada precisam ser confrontadas com os registros e as investigações disponíveis. Ainda assim, a convergência entre o despistamento informacional e a execução de um deslocamento internacional demonstra por que a análise não deve se limitar ao conteúdo das mensagens divulgadas, mas também considerar os efeitos que elas podem produzir sobre uma operação concreta.

O episódio ilustra uma característica central da guerra cognitiva: a informação pode ser utilizada não apenas para influenciar opiniões, mas para modificar a percepção do ambiente em que decisões e ações estão acontecendo. Quando uma narrativa é deliberadamente antecipada para criar uma realidade pública diferente da sequência efetiva dos fatos, ela pode funcionar como instrumento de proteção, distração e despistamento. Nesse contexto, a superioridade informacional deixa de ser apenas uma vantagem estratégica e passa a representar um recurso operacional.

O caso também evidencia que operações dessa natureza não precisam necessariamente partir de uma estrutura militar formal. A convergência entre agentes políticos, redes de comunicação, intermediários e eventuais apoios externos pode produzir efeitos semelhantes aos de uma operação coordenada de influência, especialmente quando existe capacidade de sincronizar a narrativa pública com a execução de uma ação no mundo real. É justamente nessa interseção entre informação, poder político e capacidade operacional que a guerra cognitiva revela sua dimensão mais sensível. 

O comando e controle como alvo estratégico

A evolução dos sistemas de comando, controle, comunicações, computadores, inteligência, vigilância e reconhecimento, reunidos sob a sigla C4ISR, modificou profundamente a maneira como as forças militares planejam e conduzem operações. A integração de sensores e plataformas permite acompanhar movimentos, compartilhar informações e coordenar ações em escalas geográficas cada vez maiores.

Em uma operação conjunta, por exemplo, informações obtidas por um radar terrestre podem ser compartilhadas com uma aeronave de alerta antecipado, um centro de operações aéreas e unidades navais. A integração dessas informações permite construir uma imagem operacional comum, reduzindo lacunas de percepção entre os diferentes componentes da força.

Entretanto, essa mesma integração estabelece uma dependência crescente da integridade dos dados. Se uma informação falsa ingressa em um sistema de inteligência e é reproduzida por diferentes plataformas, pode adquirir aparência de confirmação independente. Se um relatório incorreto é incorporado à avaliação de situação, as decisões subsequentes podem ser construídas sobre uma premissa equivocada. A repetição de uma informação em diferentes canais não comprova sua autenticidade quando todos dependem da mesma origem.

É nesse ponto que a guerra cognitiva encontra a guerra cibernética e a guerra eletrônica. Embora sejam campos distintos, podem atuar de maneira complementar.

A guerra cibernética pode comprometer sistemas, alterar dados, interromper serviços ou obter acesso não autorizado a redes. A guerra eletrônica pode interferir no uso do espectro eletromagnético, degradando comunicações, sensores e sistemas de navegação. Já as operações de informação podem explorar os efeitos dessas ações, difundindo interpretações falsas sobre o que ocorreu, quem foi atingido ou quais capacidades permanecem disponíveis.

A diferença entre interferência e falsificação de sinais de navegação ilustra bem o problema. O jamming procura bloquear ou degradar um sinal, tornando sua utilização difícil ou impossível. O spoofing, por sua vez, busca induzir o receptor a aceitar sinais falsos como se fossem legítimos. Enquanto o primeiro pode produzir uma perda perceptível de capacidade, o segundo pode gerar uma percepção incorreta da própria posição ou do ambiente, dependendo das características do sistema e das condições de ataque.

Quando essas ações são sincronizadas com informações manipuladas, o adversário pode enfrentar um quadro operacional no qual não sabe com segurança quais sensores continuam confiáveis, quais comunicações foram comprometidas e quais relatos correspondem a acontecimentos reais. O resultado pretendido não precisa ser a destruição física do centro de comando. Pode ser a degradação da confiança necessária para que ele funcione.

O comando permanece instalado, os operadores continuam trabalhando e os sistemas podem até apresentar disponibilidade técnica. Ainda assim, a organização pode perder velocidade, coerência e capacidade de coordenação porque seus integrantes precisam gastar tempo crescente verificando informações, resolvendo contradições e buscando autorização para agir.

Essa vulnerabilidade não significa que a digitalização seja um erro. Significa que a modernização precisa considerar, desde sua concepção, a possibilidade de operar em ambientes nos quais a conectividade, a precisão dos dados e a disponibilidade dos sistemas não possam ser presumidas.

A disputa pelo ciclo decisório

A compreensão do processo decisório militar encontra uma referência importante no modelo OODA, desenvolvido pelo estrategista e oficial da Força Aérea dos Estados Unidos John Boyd. A sigla representa observar, orientar, decidir e agir (Observe, Orient, Decide, Act).

O modelo descreve um processo contínuo pelo qual um indivíduo ou organização interpreta o ambiente, forma uma compreensão da situação, escolhe um curso de ação e executa a decisão, incorporando os resultados à observação seguinte.

Sua importância não deve ser reduzida à ideia simplificada de que vence quem decide mais rapidamente. A velocidade isolada não garante uma decisão correta. Um comandante que recebe informações incorretas e reage imediatamente pode cometer um erro mais grave do que aquele que utiliza tempo adicional para verificar a situação. A orientação, etapa na qual os dados são interpretados à luz da experiência, do conhecimento, da doutrina e das circunstâncias, é fundamental para a qualidade de todo o ciclo.

A guerra cognitiva procura explorar justamente essa relação entre informação e interpretação. Pode interferir na observação, introduzindo dados falsos ou ocultando acontecimentos relevantes; na orientação, estimulando conclusões equivocadas; na decisão, criando dúvidas e conflitos de avaliação; ou na ação, induzindo respostas desproporcionais ou atrasos operacionais.

O problema torna-se particularmente complexo quando diferentes escalões de comando recebem versões distintas de uma mesma situação. Uma unidade pode identificar determinada ameaça, enquanto o centro superior recebe informações que contradizem o relato. Se não houver procedimentos confiáveis para validar a origem dos dados e estabelecer prioridades, a cadeia de comando pode ser consumida por disputas internas de interpretação.

A preservação da consciência situacional depende, portanto, não apenas da quantidade de informações disponíveis, mas da capacidade de estabelecer sua procedência, confiabilidade, atualidade e relevância operacional.

Inteligência artificial: acelerador da decisão ou amplificador de vulnerabilidades?

A inteligência artificial acrescenta uma nova camada a esse cenário. Sistemas capazes de processar grandes volumes de imagens, identificar padrões, cruzar dados e produzir recomendações podem reduzir significativamente o trabalho de análise e apoiar decisões em ambientes complexos.

Em operações militares, essas ferramentas podem auxiliar na interpretação de imagens de satélite, no acompanhamento de movimentos, na identificação de alterações em áreas de interesse e na organização de informações provenientes de múltiplas fontes. Quando adequadamente integradas, podem contribuir para ampliar a consciência situacional e liberar profissionais para atividades que exigem julgamento especializado.

Entretanto, a capacidade de processar informações não equivale à capacidade de compreender integralmente a realidade operacional. Modelos de inteligência artificial dependem da qualidade dos dados, dos critérios utilizados em seu desenvolvimento e das condições nas quais são empregados. Informações incompletas, desatualizadas ou deliberadamente manipuladas podem produzir resultados inadequados, inclusive quando apresentados em relatórios tecnicamente convincentes.

Existe também o risco de dependência excessiva da automação. Quando uma recomendação produzida por um sistema passa a ser aceita sem questionamento suficiente, o operador pode perder a disposição ou a capacidade de contestar resultados que não correspondam ao cenário observado. Esse fenômeno torna-se especialmente relevante quando o tempo disponível para a decisão é reduzido e a autoridade humana tende a confiar na aparente objetividade da ferramenta.

Uma publicação do NATO Command and Control Centre of Excellence, divulgada em novembro de 2025, examinou a integração entre seres humanos e máquinas no comando e controle operacional. O estudo destaca oportunidades proporcionadas pela colaboração entre pessoas e sistemas de inteligência artificial, mas também identifica riscos associados à perda de habilidades pela dependência da automação e à necessidade de preservar diversidade cognitiva nas decisões conjuntas.

Em agosto de 2026, o U.S. Army War College Press publicou a monografia Fighting with Data, de C. Anthony Pfaff, dedicada às implicações da inteligência artificial para os sistemas de comando orientados pelo conceito de Mission Command. O estudo chama atenção para uma transformação importante: à medida que máquinas assumem parte do trabalho de reunir e processar informações, os comandantes passam a dedicar mais esforço à interpretação do significado dos dados, à avaliação das incertezas e à escolha de como agir.

A questão não é escolher entre decisões humanas ou automatizadas. É estabelecer uma arquitetura na qual a tecnologia amplie a capacidade humana sem eliminar a possibilidade de questionamento, validação e intervenção. Em aplicações militares, essa distinção possui consequências diretas para a segurança operacional e para a responsabilidade pelo emprego da força.

Mission Command: preservar a iniciativa quando a conectividade falha

A vulnerabilidade de estruturas excessivamente dependentes de autorizações centralizadas não é desconhecida da doutrina militar. Uma das respostas desenvolvidas para operar em ambientes complexos é o conceito de Mission Command, empregado na doutrina do Exército dos Estados Unidos.

A publicação doutrinária ADP 6-0, de julho de 2019, estabelece uma filosofia de comando baseada na confiança mútua, compreensão compartilhada, intenção clara do comandante, ordens orientadas à missão, iniciativa disciplinada e aceitação prudente de riscos.

Na prática, o comandante estabelece o propósito, os objetivos e os limites da operação, permitindo que os subordinados exerçam julgamento e iniciativa para cumprir a missão quando as circunstâncias se modificam ou quando não é possível obter orientação imediata do escalão superior.

Essa abordagem é especialmente relevante em ambientes contestados. Uma força que depende de comunicação permanente com seu comando superior pode enfrentar dificuldades significativas quando sofre interferência eletrônica, ataques cibernéticos ou interrupções de conectividade. Se seus comandantes subordinados não estiverem preparados para agir dentro da intenção previamente estabelecida, a degradação das comunicações pode produzir paralisia operacional.

A descentralização, entretanto, não significa ausência de coordenação ou liberdade irrestrita. Ela depende de treinamento, competência profissional, confiança e conhecimento compartilhado da missão. Sem esses elementos, a delegação de autoridade pode produzir fragmentação e comprometer a unidade de esforço.

A doutrina norte-americana também ressalta que a iniciativa disciplinada permite aos subordinados ajustar sua atuação diante de acontecimentos imprevistos, respeitando os objetivos estabelecidos pelo comando superior. Essa capacidade não substitui a necessidade de comunicações resilientes, mas reduz a dependência de orientações constantes para cada decisão.

A discussão revela que a resiliência do comando não pode ser medida apenas pela redundância de equipamentos ou pela existência de canais alternativos. Também precisa considerar a preparação das pessoas, a clareza das responsabilidades e a capacidade institucional de continuar operando sob incerteza.

O desafio brasileiro: soberania, interoperabilidade e resiliência decisória

Para o Brasil, a discussão possui implicações que ultrapassam a modernização de sistemas individuais. A dimensão territorial, a extensão das fronteiras, a importância da Amazônia, a vastidão da Amazônia Azul e a necessidade de coordenar meios das três Forças tornam a integração das capacidades de comando, controle e inteligência um componente relevante da Defesa Nacional.

A Política Nacional de Defesa, a Estratégia Nacional de Defesa e o Livro Branco de Defesa Nacional aprovados pelo Decreto nº 12.725, de 18 de novembro de 2025, oferecem uma referência institucional importante para essa discussão.

Entre as capacidades do Estado para a Defesa Nacional contempladas nesses documentos estão a cibernética, a coordenação e o controle, a gestão da informação, o desenvolvimento tecnológico, a comunicação estratégica e a resiliência. A gestão da informação é definida como a capacidade de garantir a obtenção, proteção, produção e difusão dos conhecimentos necessários ao processo decisório, à coordenação e ao controle dos meios disponíveis ao Estado.

A formulação é particularmente significativa porque reconhece a informação como elemento estruturante da capacidade estatal de agir. Não basta coletar dados: é necessário protegê-los, transformá-los em conhecimento e assegurar que cheguem aos responsáveis pelas decisões em tempo e condições adequadas.

O Livro Branco também registra a preocupação com ataques cibernéticos contra serviços essenciais e infraestruturas críticas, destacando a necessidade de ampliar a resiliência nacional e a cooperação entre o poder público e a iniciativa privada. No âmbito militar, o documento descreve o desenvolvimento do Programa da Defesa Cibernética na Defesa Nacional e a atuação do Comando de Defesa Cibernética, responsável por coordenar capacidades voltadas à proteção dos interesses da Defesa no espaço cibernético.

A ampliação do Exercício Guardião Cibernético, envolvendo Forças Armadas, órgãos públicos e setores estratégicos como energia, finanças, telecomunicações e área nuclear, também demonstra a importância de preparar diferentes instituições para responder a incidentes que podem ultrapassar os limites de uma organização militar.

Entretanto, a guerra cognitiva exige uma abordagem mais abrangente. A proteção das redes e dos sistemas é indispensável, mas não resolve isoladamente os riscos relacionados à interpretação de informações, à confiança institucional e à qualidade das decisões.

Na Marinha do Brasil, por exemplo, a integração de informações provenientes de radares, sensores embarcados, aeronaves, sistemas de vigilância e meios de superfície e submarinos depende de redes capazes de compartilhar dados com segurança e confiabilidade. Em um cenário de operações marítimas, a capacidade de distinguir uma ameaça real de uma informação manipulada pode influenciar o emprego de meios, a proteção de rotas e a coordenação com outras forças.

Na Amazônia, as grandes distâncias, as limitações de infraestrutura e as particularidades geográficas tornam a continuidade das comunicações um desafio adicional. A capacidade de manter o comando mesmo diante de interrupções exige sistemas alternativos, procedimentos previamente estabelecidos e unidades preparadas para operar com autonomia dentro de suas atribuições.

No espaço aéreo, a integração entre radares, centros de controle, aeronaves e sistemas de defesa também depende da qualidade dos dados compartilhados e da capacidade de manter uma imagem operacional confiável diante de interferências e tentativas de manipulação.

Esses cenários reforçam a importância da interoperabilidade entre as Forças. Não basta que cada organização disponha de sistemas modernos se eles não conseguem compartilhar informações de maneira segura, padronizada e compreensível. A integração precisa abranger tecnologias, procedimentos, doutrina e formação de pessoal.

A Base Industrial de Defesa possui papel estratégico nesse processo. O desenvolvimento nacional de sistemas de comunicação, sensores, radares, ferramentas de inteligência, softwares de comando e controle e tecnologias de proteção cibernética contribui para reduzir dependências externas e ampliar a capacidade de adaptação às necessidades operacionais brasileiras.

Essa autonomia não significa que todos os componentes devam ser produzidos nacionalmente ou que a cooperação internacional deva ser descartada. Significa assegurar que o Brasil tenha capacidade de compreender, integrar, manter, proteger e quando necessário, modificar os sistemas dos quais depende para exercer sua soberania e conduzir suas operações.

A proteção da soberania e a resiliência institucional

A discussão sobre guerra cognitiva também exige que a Defesa Nacional considere a proteção do ambiente informacional e a capacidade das instituições de reconhecer e responder a interferências externas. Essa responsabilidade não deve ser confundida com o controle estatal do debate público ou com a classificação de divergências políticas como ameaças à segurança nacional.

Em uma democracia, a liberdade de expressão, a imprensa independente, o pluralismo político e o direito à crítica são elementos essenciais da legitimidade institucional. Uma política de proteção contra manipulação informacional precisa preservar essas garantias, evitando que o combate à interferência seja utilizado como justificativa para restringir opiniões legítimas ou silenciar questionamentos.

A resposta exige mecanismos de verificação técnica, transparência, cooperação entre instituições e capacidade de atribuir responsabilidades com base em evidências. Também depende de uma sociedade capaz de reconhecer a diferença entre divergência política, erro jornalístico, informação falsa e operação coordenada de influência.

Para o Brasil, essa capacidade precisa considerar tanto as vulnerabilidades digitais quanto as relações entre Estado, sociedade, meios de comunicação e setores estratégicos. A proteção da soberania não se resume à segurança de redes militares: envolve a capacidade de preservar a autonomia das decisões nacionais diante de pressões, manipulações e tentativas de interferência.

Isso também demanda atenção à dependência tecnológica. Sistemas estrangeiros podem oferecer capacidades avançadas e contribuir para a interoperabilidade internacional, mas a ausência de domínio sobre componentes essenciais, dados, manutenção e atualização pode criar limitações estratégicas. A cooperação precisa ser acompanhada de capacidade nacional para avaliar riscos e preservar a continuidade das operações.

A resiliência institucional, portanto, não depende de eliminar divergências ou estabelecer uma interpretação oficial dos acontecimentos. Depende de garantir que decisões públicas e militares possam ser tomadas com base em informações verificáveis, procedimentos transparentes e estruturas capazes de resistir à manipulação.

A superioridade decisória como capacidade militar

A guerra cognitiva ainda enfrenta desafios conceituais, metodológicos e doutrinários. Não existe uma fórmula universal capaz de identificar e neutralizar todas as tentativas de manipulação da percepção humana, tampouco se pode atribuir automaticamente qualquer erro operacional à ação de um adversário. A incerteza é inerente à guerra, e decisões equivocadas podem decorrer de limitações humanas, falhas de inteligência, problemas de comunicação ou circunstâncias imprevisíveis.

O que se pode afirmar é que a crescente integração entre sistemas digitais, sensores, inteligência artificial e estruturas de comando amplia a importância da proteção do processo decisório. Uma força militar precisa ser capaz de identificar a origem das informações, avaliar sua confiabilidade, reconhecer contradições e preservar a iniciativa mesmo quando seus sistemas enfrentam degradação.

Essa necessidade também alcança a dimensão política e institucional. Um Estado que não consegue distinguir divergência legítima de manipulação organizada, ou que não dispõe de mecanismos confiáveis para investigar interferências externas, pode encontrar dificuldades para preservar sua autonomia decisória. A capacidade de identificar a origem de uma campanha, estabelecer responsabilidades e responder proporcionalmente passa a integrar a própria defesa da soberania.

Isso exige treinamento que reproduza ambientes de informação contestada, exercícios com interrupções de comunicação, validação de fontes, procedimentos alternativos de comando e avaliação crítica das recomendações produzidas por sistemas automatizados. Também exige uma cultura profissional na qual questionar um dado inconsistente seja entendido como parte da responsabilidade operacional, e não como resistência à autoridade ou à tecnologia.

Para o Brasil, incorporar essa perspectiva ao planejamento de Defesa significa compreender que soberania não se limita ao domínio territorial ou à posse de equipamentos. Ela também depende da capacidade de conhecer o próprio ambiente estratégico, proteger os sistemas que sustentam as decisões e preservar a liberdade de ação diante de pressões externas.

A modernização militar precisa, portanto, ser acompanhada pelo desenvolvimento de doutrina, formação de recursos humanos, interoperabilidade, autonomia tecnológica e resiliência institucional. A aquisição de plataformas sofisticadas perde parte de seu valor quando a força não consegue integrá-las, interpretar corretamente as informações que produzem ou continuar operando diante de uma perturbação coordenada.

A superioridade militar continuará dependendo do poder de fogo, da mobilidade, da proteção, da logística e da capacidade de empregar forças. Entretanto, sua eficácia será cada vez mais condicionada à qualidade do processo que transforma informação em decisão e decisão em ação.

Na guerra contemporânea, comprometer esse processo pode reduzir a capacidade de combate de uma força sem que o adversário precise destruir fisicamente seus principais meios. No ambiente político, a mesma lógica de influência pode ser utilizada para explorar divisões, comprometer a confiança institucional e limitar a autonomia de um Estado, inclusive por meio de operações externas cuja origem permaneça inicialmente dissimulada.

Preservar essa capacidade exige mais do que tecnologia: requer instituições preparadas, comandantes capazes de exercer julgamento sob pressão, uma sociedade com acesso a informações verificáveis e uma estrutura de Defesa que compreenda a integridade informacional como parte da soberania nacional.


Por Angelo Nicolaci


GBN Defense - A informação começa aqui

Continue Lendo...
 

GBN Defense - A informação começa aqui Copyright © 2012 Template Designed by BTDesigner · Powered by Blogger