sábado, 8 de agosto de 2026

Grifo-F/BR x EL/M-2032: quando o desempenho dos radares contam apenas parte da história

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A comparação entre os radares empregados pelo F-5M da FAB e pelo AF-1M da Marinha mostra que alcance de detecção não é sinônimo de capacidade de combate.

Quando dois radares entram em comparação, é natural que o primeiro dado que chame atenção seja o alcance. É objetivo, fácil de colocar lado a lado e cria rapidamente a impressão de que existe um vencedor. Mas, no combate aéreo, a história é bem mais complexa.

A comparação entre o Grifo-F/BR, empregado nos F-5M da Força Aérea Brasileira, e o EL/M-2032, instalado nos AF-1M "Skyhawk" da Marinha do Brasil, é um bom exemplo disso. Os dois sistemas foram escolhidos para modernizar aeronaves de gerações anteriores, mas responderam a requisitos diferentes e foram incorporados a arquiteturas de combate distintas.

EL/M-2032

A primeira diferença aparece justamente nos números divulgados para os dois sistemas. A Marinha do Brasil informa que o EL/M-2032 empregado no AF-1M possui modos ar-ar, ar-mar e ar-solo, além de capacidade de acompanhamento de alvos marítimos. Segundo a Força Naval, o radar pode alcançar até 128 quilômetros no modo ar-ar e até 256 quilômetros no rastreamento de alvos marítimos.

O Grifo-F/BR, por sua vez, equipa os F-5M modernizados pela FAB e integra um conjunto muito mais amplo de modificações realizadas na aeronave. O sistema oferece capacidade multimodo, incluindo operação look-down/shoot-down, e foi integrado à arquitetura de missão do caça e ao emprego de armamentos como o míssil ar-ar Derby. É nesse ponto que uma comparação baseada exclusivamente em alcance começa a apresentar suas limitações.

Um radar não possui um único alcance operacional. A distância na qual um contato pode ser detectado depende de fatores como a assinatura radar do alvo (RCS), seu aspecto em relação à aeronave, altitude, velocidade, condições do ambiente eletromagnético e o modo de operação utilizado pelo sensor.

Um alvo de grande assinatura, voando em determinada condição, poderá ser detectado a uma distância muito superior àquela obtida contra um alvo de menor assinatura RCS ou em outro aspecto. Por isso, números de alcance máximo não podem ser tratados como uma espécie de régua universal para definir qual radar é superior. E existe outro detalhe ainda mais importante: detectar não é o mesmo que combater.

A detecção é apenas o primeiro elo de uma cadeia que envolve acompanhamento, classificação, identificação, geração de solução de tiro, transferência de informações, decisão de engajamento e emprego do armamento.

Um radar pode enxergar mais longe, mas isso não significa automaticamente que a aeronave terá uma vantagem proporcional no combate. É justamente por isso que o contexto de cada programa de modernização precisa ser considerado.

No caso do AF-1M, o EL/M-2032 foi incorporado a uma plataforma cuja modernização buscou ampliar significativamente as capacidades do antigo A-4KU Skyhawk. A aeronave recebeu novos sistemas de missão, cockpit digital, guerra eletrônica, comunicações e outros equipamentos, além do novo radar.

A capacidade de trabalhar nos modos ar-ar, ar-mar e ar-solo é particularmente relevante para uma aeronave destinada a operar dentro da estrutura da Aviação Naval e no ambiente onde o domínio marítimo é parte central do cenário operacional. O F-5M seguiu outra lógica.

A FAB precisava manter operacionalmente relevante uma frota de aeronaves concebidas décadas antes, transformando-as em plataformas capazes de operar em um ambiente de combate muito diferente daquele para o qual haviam sido originalmente projetadas.

GRIFO-F

O programa de modernização incorporou o radar Grifo-F/BR e também novos aviônicos, computador de missão, sistemas de guerra eletrônica, comunicações, data-link e capacidade de empregar armamentos modernos.

O resultado não foi simplesmente um F-5 com um radar novo. Foi uma nova arquitetura de missão instalada sobre uma plataforma antiga. Essa diferença é fundamental para compreender por que não faz sentido afirmar que o F-5M é inferior ao AF-1M apenas porque os números divulgados para o alcance do radar são diferentes.

O radar do caça precisa ser analisado dentro do sistema de combate ao qual pertence. E, no caso da FAB, isso nos leva diretamente ao E-99M.

A defesa aérea brasileira foi estruturada para operar com diferentes sensores e plataformas trabalhando de forma integrada. As aeronaves de alerta antecipado e controle aéreo ampliam a consciência situacional e permitem que os caças recebam informações sobre o ambiente operacional que vão muito além daquilo que conseguiriam obter apenas com o sensor instalado na própria aeronave. Isso muda completamente a interpretação sobre o F-5M.

A ideia de que o caça estaria praticamente “cego” sem o E-99 parte de uma visão na qual cada aeronave precisaria construir sozinha toda a imagem do campo de batalha. Não é essa a lógica da guerra aérea moderna.

Em uma arquitetura conectada, o caça continua utilizando seu próprio radar. Ele precisa detectar, acompanhar e atuar sobre os contatos que estejam dentro de sua capacidade. Mas pode receber informações de outras plataformas e sistemas, reduzindo o tempo necessário para procurar determinado setor e aumentando sua consciência sobre o cenário.

O E-99, portanto, não existe para compensar uma suposta incapacidade absoluta do radar do F-5M. Ele existe porque uma aeronave de alerta antecipado exerce uma função diferente e complementar, produzindo uma visão muito mais ampla do espaço aéreo e contribuindo para coordenar as aeronaves de combate.

O mesmo raciocínio vale para o armamento. A presença do Derby no F-5M representa uma mudança importante em sua capacidade de combate além do alcance visual. Mas o míssil não deve ser analisado isoladamente.

Para que uma arma BVR seja empregada de maneira eficiente, é necessário combinar informações de sensores, processamento, consciência situacional, comunicação e uma solução de engajamento adequada. A capacidade de combate nasce dessa combinação. É por isso que o debate sobre Grifo-F/BR e EL/M-2032 é mais interessante do que parece.

A Marinha escolheu um radar com características adequadas às necessidades do AF-1M e ao ambiente em que a aeronave deveria operar. A FAB adotou outra solução para o F-5M, dentro de um programa que buscava transformar uma plataforma antiga em um caça capaz de permanecer relevante na defesa aérea brasileira.

Não são necessariamente escolhas comparáveis em uma escala simples de “melhor” ou “pior", são respostas diferentes para problemas diferentes. Isso não significa ignorar as diferenças entre os sistemas.

O EL/M-2032 apresenta características de alcance e modos de operação que o tornam uma solução relevante para o AF-1M, especialmente na atuação sobre o ambiente marítimo. O Grifo-F/BR, por outro lado, foi incorporado a uma arquitetura de combate na qual o radar é apenas uma das ferramentas disponíveis ao F-5M.

É justamente essa diferença entre sensor e sistema de combate que costuma desaparecer quando a discussão fica restrita às fichas técnicas. O radar é importante, muito importante, mas ele não luta sozinho.

A aeronave precisa transformar a informação obtida pelo sensor em consciência situacional. Essa informação precisa ser processada, compartilhada quando necessário e utilizada para orientar uma decisão. Depois, o armamento precisa ser capaz de transformar essa decisão em efeito.

Nesse ponto, o F-39E Gripen introduz uma mudança de patamar na FAB. A incorporação de um caça equipado com radar AESA, sistemas avançados de guerra eletrônica, sensores modernos, processamento mais poderoso e elevada capacidade de integração em rede representa uma mudança geracional em relação ao F-5M.

Mas isso não apaga a lógica pela qual o F-5M foi modernizado. O programa não pretendia transformar o F-5 em um caça de quinta geração. Pretendia extrair o máximo de uma plataforma existente e mantê-la capaz de cumprir suas funções dentro da estrutura de defesa aérea brasileira. É justamente por isso que comparar apenas o alcance dos radares pode produzir uma conclusão errada.

O EL/M-2032 pode apresentar números superiores em determinadas condições e modos de operação. Isso é uma informação relevante. Mas a pergunta operacional não termina aí, o que importa é o que aquela informação permite fazer.

Um radar que detecta um contato precisa estar conectado a um sistema capaz de transformar aquela detecção em consciência situacional e, posteriormente, em capacidade de engajamento.

É nesse ponto que a comparação entre Grifo-F/BR e EL/M-2032 deixa de ser apenas uma disputa entre dois equipamentos e passa a revelar duas formas diferentes de construir capacidade de combate.

No fim, os números contam apenas uma parte da história. O verdadeiro valor de um radar aparece quando ele deixa de ser apenas um sensor e passa a funcionar como parte de um sistema de combate. É nessa integração entre radar, guerra eletrônica, comunicações, data-link, armamento, plataforma e operador que se mede a capacidade real de uma aeronave.

E é justamente por isso que, quando colocamos Grifo-F/BR e EL/M-2032 lado a lado, a pergunta mais interessante não é simplesmente qual deles enxerga mais longe. É entender o que cada um permite que o vetor faça com aquilo que conseguiu enxergar.


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Exército demonstra integração de drones ao Proteus-SGP na viatura Guaiucurus

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Solução apresentada no CTEx conecta sensores aéreos ao sistema de gerenciamento da plataforma e leva vídeo e telemetria diretamente ao BMS, ampliando a capacidade de reconhecimento e a consciência situacional

No campo de batalha moderno, enxergar primeiro continua sendo uma vantagem, mas já não basta. A informação precisa chegar rapidamente a quem está em condições de transformá-la em decisão. Foi justamente essa lógica que esteve no centro de uma demonstração realizada pelo Exército Brasileiro no Centro Tecnológico do Exército (CTEx), onde a viatura Guaiucurus recebeu em tempo real dados provenientes de um sistema aéreo remotamente pilotado (SARP).

A demonstração realizada em 31 de julho durante a Exposição de Materiais alusiva ao Dia do Quadro de Engenheiros Militares, mostrou a integração de telemetria e vídeo de um drone ao Battle Management System (BMS) da plataforma por meio do Proteus-SGP.

Na prática, o que antes poderia funcionar como dois sistemas independentes passa a fazer parte de uma mesma arquitetura operacional. O SARP atua como sensor aéreo, enquanto a Guaiucurus recebe e apresenta essas informações à tripulação dentro de seu próprio ambiente de gerenciamento.

A diferença parece simples, mas possui consequências importantes. Com o drone operando à frente ou sobre determinada área, a viatura pode ampliar sua percepção do terreno sem necessariamente precisar se expor para obter aquela informação. O comandante passa a receber na própria interface da plataforma imagens e dados produzidos por um sensor que está fora da viatura, inclusive informações provenientes da câmera térmica.

É nesse ponto que a demonstração deixa de ser apenas uma integração tecnológica e passa a representar uma mudança na doutrina de emprego da plataforma.

Do sensor aéreo ao comandante

Durante uma missão de reconhecimento, a capacidade de observar além da linha de visada da viatura pode fazer diferença entre avançar às cegas ou tomar uma decisão baseada em informações atualizadas.

O drone pode ser empregado como um sensor avançado, observando uma área de interesse e transmitindo suas informações para a Guaiucurus. A tripulação, por sua vez, recebe esse dado dentro do sistema de gerenciamento da plataforma.

A integração da câmera térmica amplia ainda mais essa possibilidade. O sensor aéreo pode produzir imagens em condições nas quais a observação convencional apresenta limitações, permitindo que a tripulação tenha uma percepção diferente do terreno durante operações noturnas ou em ambientes de baixa visibilidade.

Mais do que receber uma imagem, a Guaiucurus passa a receber informação de um sensor que não está fisicamente dentro dela.

Essa diferença é importante porque aproxima a plataforma terrestre de uma lógica de combate em rede, na qual a capacidade de uma unidade não está limitada aos sensores instalados diretamente sobre seu veículo.

Proteus-SGP evolui como arquitetura de integração

O Proteus-SGP não surgiu agora. O sistema vem sendo desenvolvido pelo Exército Brasileiro há anos com uma proposta que vai além de simplesmente reunir informações em uma tela.

A ideia é criar uma arquitetura capaz de integrar os diferentes sistemas eletrônicos da plataforma, permitindo que sensores, comunicações e sistemas de missão trabalhem dentro de um mesmo ambiente.

O projeto já passou por avaliações em plataformas como o VBTP-MR Guarani e o VBMT-LR Guaicurus, dentro de um processo que busca ampliar a integração dos sistemas embarcados e fornecer ao comandante uma visão mais completa da plataforma e do ambiente operacional.

O desenvolvimento também está relacionado aos conceitos de Generic Vehicle Architecture (GVA) e NATO Generic Vehicle Architecture (NGVA), utilizados como referência para a integração de sistemas eletrônicos em veículos militares.

A evolução apresentada no Guaiucurus acrescenta uma camada importante a esse conceito. O sistema passa a incorporar dados produzidos fora da própria viatura, conectando o domínio aéreo ao terrestre.

Isso abre uma possibilidade particularmente importante para plataformas que precisam permanecer em serviço durante décadas. Enquanto a estrutura física de um veículo possui um ciclo de vida longo, sensores, computadores, rádios e sistemas de missão evoluem em ritmo muito mais rápido.

Uma arquitetura de integração permite acompanhar parte dessa evolução sem transformar cada nova tecnologia em um projeto completamente independente.

A viatura como parte de uma rede

A demonstração também ajuda a compreender como está mudando o papel das plataformas terrestres. Uma viatura de reconhecimento deixa de ser apenas um veículo equipado com seus próprios sensores e passa a funcionar como um nó dentro de uma rede maior. Ela pode receber informações produzidas por drones, compartilhar seus próprios dados e, dependendo da arquitetura empregada, alimentar outros elementos da força. Nesse modelo, não é necessário que todos os sensores estejam fisicamente concentrados na mesma plataforma.

O SARP pode observar uma área distante. O Guaiucurus pode utilizar essa informação para orientar sua movimentação. Outros elementos podem receber posteriormente os dados produzidos pelo conjunto. O ganho está na integração.

É justamente aí que o Proteus-SGP ganha relevância. Ao funcionar como uma camada de gerenciamento e integração, o sistema permite aproximar diferentes equipamentos dentro de uma mesma arquitetura operacional.

Essa abordagem também cria espaço para futuras incorporações de sensores, sistemas de comunicação e equipamentos de missão, acompanhando a evolução tecnológica sem necessariamente exigir uma nova plataforma a cada ciclo de modernização.

Reconhecimento com maior profundidade

A aplicação mais evidente da capacidade apresentada está nas missões de reconhecimento. Uma plataforma terrestre precisa obter o máximo possível de informações antes de comprometer sua posição. O emprego de um SARP permite ampliar a profundidade da observação enquanto a viatura permanece em uma posição mais protegida.

Isso pode ser especialmente relevante em terrenos onde obstáculos naturais ou urbanos limitam a observação direta.

O drone pode ultrapassar uma elevação, observar uma área além de uma construção ou acompanhar um setor enquanto a viatura permanece em uma posição de espera. As informações retornam à plataforma e passam a integrar o quadro apresentado ao comandante.

A câmera térmica acrescenta outra camada a esse processo, permitindo explorar diferenças de assinatura térmica que não seriam necessariamente percebidas pelos sensores convencionais.

O resultado é uma consciência situacional construída a partir de diferentes fontes. A viatura não precisa necessariamente enxergar tudo por seus próprios meios. Ela precisa estar conectada aos sensores capazes de enxergar aquilo que seus próprios sistemas não conseguem.

Mais do que modernizar uma viatura

O avanço apresentado no CTEx mostra uma mudança importante na forma de pensar a modernização dos meios terrestres.

Durante muito tempo, a evolução de uma viatura esteve associada principalmente à proteção, mobilidade e poder de fogo. Esses elementos continuam fundamentais, mas a dimensão digital passou a ocupar espaço cada vez maior.

Uma plataforma equipada com sensores modernos, mas incapaz de compartilhar suas informações, possui uma limitação que não está necessariamente relacionada ao desempenho de seus equipamentos.

Da mesma forma, um drone capaz de produzir imagens de alta qualidade perde parte de seu potencial se a informação não chegar rapidamente ao elemento que precisa utilizá-la. A integração entre SARP, Proteus-SGP e BMS busca justamente reduzir essa distância.

O dado é produzido no ar, transmitido para a plataforma terrestre, integrado ao sistema e apresentado ao comandante. A cadeia entre sensor e decisão se torna mais curta.

Essa é uma das características que definem a transformação digital dos campos de batalha contemporâneos.

Um passo na direção do combate conectado

A demonstração realizada pelo Exército Brasileiro não representa apenas a conexão entre um drone e uma viatura. Ela mostra uma arquitetura na qual diferentes plataformas podem começar a compartilhar informações em tempo real, ampliando a capacidade de uma força sem necessariamente aumentar proporcionalmente o número de sistemas empregados.

Para a Guaiucurus, isso significa transformar o SARP em uma extensão de sua capacidade de reconhecimento. Para o Proteus-SGP, representa uma evolução de seu papel como elemento de integração dos sistemas embarcados.

E, para a força terrestre, aponta para um modelo no qual plataformas, sensores e sistemas de comando e controle passam a trabalhar de maneira cada vez mais conectada.

O que foi apresentado no CTEx pode parecer discreto diante de um novo veículo ou de um novo sistema de armas, mas possui um peso crescente no campo de batalha moderno. Quando diferentes plataformas conseguem compartilhar informações em tempo real, a vantagem deixa de estar apenas em quem possui o melhor sensor ou a viatura mais protegida. Passa também a estar nas mãos de quem consegue transformar informação em decisão antes do adversário.


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Pacto de Meca: Türkiye, Arábia Saudita e Paquistão desenham novo eixo de dissuasão no Oriente Médio

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Acordo que estabelece que um ataque armado contra qualquer um dos três países será considerado uma agressão contra todos representa mais do que uma aproximação política: ele cria uma nova camada de segurança entre o Golfo, Anatólia e o Sul da Ásia

A assinatura em Meca do "Acordo Conjunto de Defesa de Meca" por Türkiye, Arábia Saudita e Paquistão marca uma mudança relevante na arquitetura de segurança do Oriente Médio. O ponto central do entendimento é direto: um ataque armado contra qualquer um dos três Estados será considerado um ataque contra todos. Ao mesmo tempo, os governos envolvidos fizeram questão de apresentar o acordo como defensivo, sem apontar formalmente um adversário específico e sem substituir os compromissos bilaterais ou multilaterais já existentes.

À primeira vista, pode parecer apenas mais um acordo de cooperação entre países que já mantêm relações militares próximas. O elemento que muda sua dimensão estratégica, porém, é a combinação de três capacidades bastante distintas.

Türkiye traz uma força militar de grande, a segunda maior da OTAN, e uma indústria de defesa que deixou de ser apenas consumidora de tecnologia estrangeira para se tornar exportadora e desenvolvedora de sistemas próprios. A Arábia Saudita acrescenta recursos financeiros, infraestrutura estratégica e uma posição geográfica central para o Golfo e as rotas energéticas. O Paquistão, por sua vez, introduz uma dimensão militar que nenhum dos outros dois possui: uma força armada experiente e um arsenal nuclear. É justamente essa composição que torna o pacto particularmente relevante.

Da relação bilateral ao mecanismo trilateral

O acordo não surgiu do vazio. Türkiye, Arábia Saudita e Paquistão já mantinham relações militares em diferentes níveis, enquanto Ancara e Islamabad possuem uma cooperação particularmente estreita no setor de defesa.

O relacionamento entre Paquistão e Arábia Saudita também ganhou uma nova dimensão com o Acordo Estratégico de Defesa Mútua, firmado em setembro de 2025. O IISS avaliou à época que o entendimento tinha potencial para consolidar e revitalizar décadas de cooperação militar, diplomática e econômica, embora seus mecanismos de implementação permanecessem pouco transparentes.

Essa relação já começou a produzir efeitos concretos. Em abril de 2026, o Ministério da Defesa saudita anunciou a chegada de uma força militar paquistanesa à Base Aérea King Abdulaziz, incluindo aeronaves de caça e apoio, vinculada ao acordo bilateral de defesa. O objetivo declarado era elevar a coordenação militar e a prontidão operacional entre as duas forças.

Portanto, o novo pacto trilateral não parte de uma folha em branco. Ele amplia uma estrutura que já vinha sendo construída.

A variável Türkiye muda o cálculo

A entrada formal de Türkiye acrescenta uma dimensão que vai além da simples ampliação do número de forças disponíveis.

A Türkiye é membro da OTAN desde 1952 e possui a segunda maior força militar da Aliança. Sua posição geográfica também lhe proporciona acesso ao Mediterrâneo, ao Mar Negro e ao Oriente Médio, enquanto os Estreitos Turcos dão a Ancara uma posição singular sobre as comunicações marítimas entre o Mar Negro e o Mediterrâneo.

Mas talvez o aspecto mais importante seja a transformação de sua Base Industrial de Defesa. O setor turco vem ampliando sua capacidade de desenvolver e exportar aeronaves, drones, mísseis, sistemas eletrônicos, navios e veículos blindados. Esse processo transformou a indústria de defesa da Türkiye uma ferramenta de política externa e de construção de parcerias estratégicas.

A aproximação com Riad também possui uma dimensão industrial. A participação de empresas turcas em grandes eventos de defesa na Arábia Saudita e a assinatura de acordos entre os dois países demonstram que a relação ultrapassa a esfera diplomática e avança para a cooperação tecnológica e comercial.

Isso é importante porque o pacto pode evoluir de uma garantia política de segurança para uma arquitetura de cooperação militar-industrial. E essa talvez seja uma das consequências mais relevantes do acordo.

Riad busca mais autonomia estratégica

A posição saudita merece atenção especial. Durante décadas, a segurança do reino esteve profundamente vinculada à presença e às capacidades norte-americanas. Isso não significa que a Arábia Saudita esteja abandonando os Estados Unidos. O cenário é mais complexo. Riad parece estar adotando uma estratégia de diversificação de garantias e fornecedores, evitando depender de um único parceiro para sua segurança.

Os números ajudam a dimensionar a capacidade financeira disponível. Segundo o SIPRI, a Arábia Saudita gastou aproximadamente US$ 83,2 bilhões em defesa no ano de 2025, tornando-se o oitavo maior investidor em defesa no mundo. A Türkiye gastou cerca de US$ 30 bilhões, enquanto o Paquistão registrou US$ 11,9 bilhões. Somados, os três países representaram aproximadamente US$ 125 bilhões em despesas militares em 2025.

Mas dinheiro, isoladamente, não produz capacidade militar. É justamente aí que a combinação se torna interessante: Riad possui recursos para financiar aquisição, infraestrutura e desenvolvimento tecnológico; Türkiye possui uma crescente capacidade industrial; e Islamabad oferece experiência operacional, treinamento e uma estrutura militar que mantém estreitos vínculos com a Arábia Saudita há décadas.

O componente nuclear precisa ser tratado com cautela

Existe inevitavelmente uma discussão sobre o fato do Paquistão ser uma potência nuclear.

Seria, entretanto, um erro interpretar automaticamente o novo acordo como uma extensão da dissuasão nuclear paquistanesa para a Arábia Saudita.

Até o momento, não há indicação pública de que o pacto estabeleça qualquer compromisso nuclear. O próprio desenho divulgado pelas partes é convencional e defensivo, enquanto análises anteriores sobre a relação Paquistão-Arábia Saudita apontam que a dissuasão nuclear paquistanesa permanece fundamentalmente orientada para a ameaça percebida proveniente da Índia. Essa distinção é fundamental.

O valor estratégico do Paquistão para o acordo não depende necessariamente da transferência ou extensão de um guarda-chuva nuclear. Islamabad possui forças convencionais significativas, capacidade aérea, defesa antiaérea, experiência em operações e uma estrutura militar capaz de projetar contingentes para fora de seu território.

A presença paquistanesa na Arábia Saudita demonstra que essa cooperação pode assumir forma operacional concreta sem necessariamente cruzar a linha nuclear.

O verdadeiro teste será operacional

É aqui que o entusiasmo em torno do acordo precisa encontrar uma dose de realismo. Declarar que um ataque contra um membro será considerado um ataque contra todos produz dissuasão política, mas não significa automaticamente que exista uma força conjunta pronta para responder de maneira integrada.

O comunicado do acordo não detalha quais forças seriam empregadas, em quanto tempo, sob qual comando, com quais regras de engajamento ou mediante quais mecanismos de consulta. Também não está claro até que ponto o compromisso obrigará cada país a realizar determinada ação militar em defesa dos demais. Essa é uma diferença fundamental entre aliança declaratória e aliança operacional.

Para transformar o pacto em capacidade militar efetiva seriam necessários exercícios combinados, procedimentos de comando e controle, intercâmbio de inteligência, protocolos de mobilização, interoperabilidade de comunicações, planejamento logístico e, sobretudo, definição de quais cenários acionariam a resposta coletiva. Sem esses elementos, o acordo funciona principalmente como mecanismo de sinalização estratégica. E sinalização em geopolítica também é capacidade.

O problema da geografia

Existe ainda um desafio estrutural. Os três países estão separados por grandes distâncias e pertencem a ambientes estratégicos distintos. A Türkiye está diretamente ligada ao Mediterrâneo Oriental, Mar Negro, Cáucaso e Oriente Médio. A Arábia Saudita está no centro do Golfo e da Península Arábica. O Paquistão está inserido no Sul da Ásia, com sua principal preocupação militar convencional historicamente concentrada na Índia, além de enfrentar desafios em sua fronteira ocidental.

Isso significa que a cláusula de defesa coletiva não elimina os cálculos nacionais. Pelo contrário, em uma crise real, cada capital terá de decidir até onde está disposta a ir.

Para Islamabad, por exemplo, um conflito que envolvesse diretamente a Arábia Saudita poderia exigir a redistribuição de recursos militares de seu principal teatro estratégico, o Sul da Ásia. Para Türkiye, a questão seria ainda mais complexa diante de seus compromissos com a OTAN, sua posição no Mediterrâneo Oriental e seus próprios interesses no Oriente Médio.

A existência do pacto, portanto, não significa que os três países passem a compartilhar automaticamente uma mesma percepção de ameaça.

O impacto sobre o Irã

Embora os signatários afirmem que o acordo não é dirigido contra nenhum país específico, é impossível ignorar o ambiente no qual ele foi assinado.

O Irã é uma das principais variáveis estratégicas desse novo arranjo. A escalada regional e os ataques contra Estados do Golfo elevaram significativamente a percepção de risco em Riad e nas demais monarquias da região.

Entretanto, existe uma variável importante: o Paquistão mantém uma relação geográfica e diplomática com Irã.

Os dois países compartilham uma extensa fronteira e possuem interesses comuns em questões como controle fronteiriço, terrorismo e segurança regional. Islamabad precisa administrar cuidadosamente essa relação.

Assim, o Paquistão não necessariamente deseja transformar o pacto em uma estrutura explicitamente anti-Irã. Isso ajuda a explicar por que a linguagem oficial enfatiza a natureza defensiva do acordo.

Israel também precisa entrar no cálculo

A equação não termina em Teerã. Türkiye e o Paquistão vêm adotando posições críticas em relação às operações israelenses, enquanto a Arábia Saudita procura equilibrar suas preocupações de segurança com seus interesses econômicos e diplomáticos.

O resultado é uma configuração na qual o pacto pode funcionar como mecanismo de dissuasão em múltiplas direções, sem necessariamente constituir uma aliança militar ofensiva contra Israel ou contra o Irã.

Essa ambiguidade é provavelmente deliberada. Ela permite que os três países ampliem sua margem de manobra sem assumir publicamente um compromisso de guerra contra um adversário específico.

O fator Estados Unidos

Também seria precipitado interpretar o acordo como uma simples ruptura saudita com Washington. O que está ocorrendo parece mais próximo de uma redistribuição do risco estratégico.

A Arábia Saudita continua dependente de sistemas norte-americanos em áreas críticas de sua defesa. Ao mesmo tempo, busca aprofundar relações com Türkiye, Paquistão e outros parceiros.

Para Riad, a lógica parece ser menos "substituir os Estados Unidos" e mais evitar que a segurança nacional saudita dependa exclusivamente de Washington. Essa distinção é essencial.

Diante do cenário no qual ataques de mísseis, drones e ameaças às rotas marítimas podem ocorrer em múltiplos eixos, possuir diferentes parceiros capazes de fornecer meios, treinamento, inteligência e apoio operacional aumenta a resiliência estratégica.

Mais do que um pacto, um laboratório de cooperação militar

O ponto que merece maior atenção daqui para frente será observar se o acordo avançará para uma estrutura institucional.

Se Türkiye, Arábia Saudita e Paquistão começarem a estabelecer exercícios trilaterais regulares, centros de coordenação, mecanismos de inteligência compartilhada e programas conjuntos de defesa, estaremos diante de algo qualitativamente diferente.

A dimensão industrial pode ser ainda mais importante. A Türkiye já demonstrou capacidade de transformar relações políticas em contratos de defesa, enquanto a Arábia Saudita possui recursos financeiros e ambições de desenvolver sua própria indústria de defesa. O Paquistão, por sua vez, oferece experiência acumulada em produção, manutenção e emprego de sistemas militares em ambiente operacional.

Esse triângulo pode produzir cadeias de cooperação tecnológica, produção conjunta e transferência de conhecimento, especialmente em drones, guerra eletrônica, defesa aérea, munições guiadas, sistemas navais e comando e controle.

O histórico recente já mostra que essa convergência não é apenas teórica. A cooperação naval entre Türkiye e Paquistão avançou para a construção conjunta de navios da classe MILGEM, enquanto Riad vem ampliando sua relação com a indústria turca.

Uma nova geometria de poder

O significado maior do Acordo de Meca está justamente na mudança da geometria estratégica. Durante décadas, a segurança do Oriente Médio foi estruturada predominantemente em torno de grandes potências externas e alianças bilaterais. O movimento atual aponta para algo diferente: potências regionais tentando construir mecanismos próprios de dissuasão e cooperação.

Não estamos diante de uma nova OTAN islâmica, pelo menos não neste momento. A comparação é tentadora, mas tecnicamente prematura. Falta ao acordo uma estrutura institucional, comando militar integrado, mecanismos públicos de acionamento e o nível de interoperabilidade existente na Aliança Atlântica.

O que existe hoje é algo mais interessante e, talvez, mais adaptável: uma arquitetura trilateral de segurança baseada em interesses convergentes, capaz de crescer conforme as circunstâncias.

A grande questão agora não é saber se Türkiye, Arábia Saudita e Paquistão possuem capacidade militar relevante. Os três possuem. A questão é saber até onde estarão dispostos a transformar essa capacidade nacional em capacidade coletiva.

Se o acordo permanecer restrito à declaração política, seu impacto será principalmente diplomático e dissuasório. Se evoluir para planejamento operacional, exercícios combinados, integração de inteligência e cooperação industrial, poderá representar o surgimento de um novo polo de poder militar entre o Mediterrâneo, o Golfo e o Sul da Ásia. E é justamente essa evolução que deverá ser acompanhada de perto nos próximos meses.


Por Angelo Nicolaci


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sexta-feira, 7 de agosto de 2026

Exército Brasileiro testa radar SENTIR M20 em cenário que combina vigilância terrestre e detecção aérea

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Novo sistema radar desenvolvido no Brasil foi submetido a testes no Campo de Provas da Marambaia, avaliando sua capacidade de detectar pessoas e aeronaves em diferentes condições de distância, altitude e velocidade

A capacidade de vigilância do Exército Brasileiro ganhou mais um importante capítulo com a realização de uma série de testes técnicos envolvendo o radar SENTIR M20. A atividade, conduzida pelo Centro de Avaliações do Exército (CAEx), buscou verificar em condições controladas, o desempenho do sistema na detecção de alvos terrestres e aéreos, incluindo pessoas e aeronaves em movimento.

Os ensaios ocorreram nos dias 21 e 22 de julho, no Campo de Provas da Marambaia no Rio de Janeiro, e fazem parte do processo de avaliação de materiais destinados ao emprego pela Força Terrestre. O objetivo foi verificar a capacidade do SENTIR M20 de detectar uma pessoa a pé a distâncias de até 4 quilômetros, além de acompanhar aeronaves a até 12 quilômetros, considerando diferentes parâmetros de altitude e velocidade.

Para a avaliação do desempenho contra alvos terrestres, foi empregado um militar equipado com armamento e capacete, permitindo reproduzir uma situação operacional mais próxima daquela encontrada em campo. Já para os ensaios de detecção aérea, o Exército utilizou um helicóptero HM-1 Pantera K2 do 2º Batalhão de Aviação do Exército (2º BAvEx).

A atividade foi conduzida na chamada Linha V (Rampa) sob coordenação da Primeira-Tenente do Quadro de Engenheiros Militares - Engenharia Eletrônica, Rebeca Ribeiro Kurchchoff, adjunta da Seção de Avaliação de Material de Emprego Militar. Engenheiros e técnicos do CAEx, além de militares do 2º BAvEx, também participaram dos testes.

Mais do que uma simples verificação de alcance, esse tipo de ensaio é fundamental para determinar como um sistema de sensores se comporta diante de diferentes tipos de alvos e condições de emprego. Para uma força terrestre que amplia progressivamente sua capacidade de operar em ambientes multidomínio, a integração entre vigilância, consciência situacional e resposta operacional tornou-se um elemento cada vez mais relevante.

Tecnologia nacional aplicada à defesa

O SENTIR M20 representa um dos resultados da aproximação entre o Exército Brasileiro e a indústria nacional de defesa. O radar de vigilância terrestre é fruto da parceria com a Embraer, dentro de uma iniciativa apoiada pela Financiadora de Estudos e Projetos (FINEP).

Essa relação entre Forças Armadas, indústria e instituições públicas de fomento é particularmente importante para o desenvolvimento de tecnologias críticas no Brasil. Além de atender a uma necessidade operacional específica, projetos dessa natureza contribuem para preservar conhecimento tecnológico no país e ampliar a capacidade da Base Industrial de Defesa de desenvolver soluções próprias.

No campo operacional, um radar capaz de identificar e acompanhar alvos terrestres amplia a consciência situacional das tropas, permitindo detectar movimentações antes que estas estejam visualmente perceptíveis aos elementos de uma unidade. Quando associado a outros sensores e sistemas de comando e controle, esse tipo de capacidade pode contribuir para formar uma imagem mais completa do ambiente operacional.

A realização dos testes com o SENTIR M20 também evidencia a importância do CAEx dentro do ciclo de desenvolvimento e aquisição de sistemas militares. É nessa etapa que os equipamentos deixam o ambiente de desenvolvimento e passam a ser submetidos a critérios técnicos e operacionais que determinarão sua adequação ao emprego pela Força Terrestre.

No caso do SENTIR M20, a avaliação envolvendo simultaneamente um alvo terrestre e uma aeronave amplia a compreensão sobre a versatilidade do sistema. O emprego do HM-1 Pantera K2 como alvo aéreo acrescenta uma dimensão prática aos ensaios, permitindo verificar o comportamento do radar diante de uma plataforma real em voo.

O processo integra o esforço do Sistema de Ciência, Tecnologia e Inovação do Exército para colocar à disposição da Força Terrestre equipamentos seguros, confiáveis e adequados às necessidades do campo de batalha contemporâneo.

A evolução desse tipo de capacidade é especialmente relevante diante de um ambiente operacional no qual a detecção antecipada deixou de estar restrita às grandes plataformas. Drones, equipes de reconhecimento, veículos leves e outros elementos de baixa assinatura passaram a exigir sensores capazes de ampliar a percepção do campo de batalha em tempo real.

Nesse contexto, sistemas nacionais como o SENTIR M20 assumem importância que vai além de suas características individuais. Eles fazem parte de uma arquitetura maior de sensores, comunicações e sistemas de comando e controle que permitirá ao Exército Brasileiro avançar na construção de uma força mais conectada, capaz de detectar, acompanhar e responder com maior rapidez às ameaças presentes no ambiente operacional.


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Alemanha e Países Baixos ampliam aquisição do BOXER RCT30 com mais 69 veículos

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A Alemanha e os Países Baixos ampliaram seus programas de modernização das forças terrestres com a aquisição de mais 69 veículos de combate de infantaria sobre rodas BOXER RCT30. O novo lote foi contratado pela OCCAR junto à ARTEC, joint venture formada pela KNDS Deutschland e pela Rheinmetall.

A aquisição corresponde a realização de uma opção prevista no contrato firmado em 2025, que contemplava inicialmente 222 unidades. Do novo lote, 35 veículos serão destinados à Bundeswehr, enquanto os Países Baixos receberão outros 34 exemplares.

Com a nova encomenda, a Alemanha amplia sua frota de BOXER RCT30, enquanto o Exército Real dos Países Baixos passa a contar com um total de 106 veículos nessa configuração. O movimento reforça a estratégia de aquisição conjunta adotada pelos dois países para ampliar a padronização de meios, a interoperabilidade e a eficiência logística entre suas forças terrestres.

Segundo a KNDS, a cooperação entre Alemanha e Países Baixos em programas de defesa já envolve plataformas como o carro de combate Leopard 2 e a família BOXER. A aquisição conjunta permite elevar os volumes de produção e, consequentemente, contribuir para acelerar as entregas, além de favorecer a formação de pessoal, a manutenção e a disponibilidade de peças e sistemas comuns.

Há décadas temos orgulho de ser parceiros do Exército Holandês. Seja no LEOPARD 2 ou no sistema BOXER, para citar apenas os programas de aquisição mais recentes que a Alemanha e os Países Baixos realizaram em conjunto, isso demonstra o que a cooperação europeia pode alcançar”, afirmou Florian Hohenwarter, CEO da KNDS Deutschland.

O executivo destacou ainda que a adoção de sistemas comuns contribui diretamente para a interoperabilidade entre as forças armadas dos dois países, além de produzir efeitos positivos sobre o treinamento e a logística.

BOXER RCT30 assume papel central nas Forças Médias

O BOXER RCT30 foi desenvolvido sobre a plataforma blindada sobre rodas BOXER, já empregada por diversos países, combinando sua elevada mobilidade e proteção com uma torre de 30 mm derivada do sistema utilizado no veículo blindado de combate de infantaria PUMA.

Na Bundeswehr, o veículo recebe a designação "Schakal" e terá papel central na estrutura das chamadas “Forças Médias”, conceito concebido para combinar a mobilidade estratégica das formações sobre rodas com poder de fogo e proteção compatíveis com operações de maior intensidade.

A torre RCT30 proporciona ao veículo capacidade de engajamento de alvos terrestres, incluindo ameaças móveis, com o emprego do armamento de 30 mm mesmo durante o deslocamento. Essa característica amplia a capacidade da infantaria mecanizada de acompanhar forças blindadas e realizar ações de combate mantendo mobilidade e proteção.

Outro elemento importante da configuração é a integração do sistema de mísseis anticarro MELLS, permitindo ao BOXER RCT30 enfrentar ameaças blindadas de maior porte, incluindo MBTs. A arquitetura do veículo também incorpora capacidade para combater drones e aeronaves, ampliando o espectro de ameaças que podem ser enfrentadas pelo sistema.

O BOXER RCT30 transporta seis militares de infantaria equipados, permitindo que o veículo funcione não apenas como plataforma de combate, mas também como meio protegido de transporte e apoio às tropas mecanizadas.

Padronização e interoperabilidade europeia

A ampliação da frota alemã e holandesa ocorre dentro de um movimento mais amplo de fortalecimento da cooperação militar europeia e de racionalização dos programas de aquisição. A utilização de plataformas comuns permite reduzir diferenças entre cadeias logísticas, facilitar o treinamento conjunto e ampliar a capacidade de emprego combinado.

Com a nova contratação, o BOXER RCT30 passa a possuir contratos firmados com quatro países, ampliando sua presença no mercado europeu de veículos de combate de infantaria sobre rodas.

A expansão do programa também reforça o papel da família BOXER como uma das principais plataformas blindadas sobre rodas em serviço no continente europeu, combinando modularidade, proteção e mobilidade com diferentes configurações de missão.


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Portões Abertos celebra os 110 anos da Aviação Naval e destaca evolução de capacidades da Força

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A Base Aérea Naval de São Pedro da Aldeia (BAeNSPA) recebeu milhares de visitantes durante o tradicional Portões Abertos, evento que neste ano celebrou um marco histórico: "Os 110 anos da Aviação Naval Brasileira". Mais de 60 mil pessoas passaram pela base neste ensolarado domingo (2), para conhecer de perto aeronaves de asa fixa, helicópteros, demonstrações operacionais e o trabalho desenvolvido diariamente pelos homens e mulheres que compõem o braço aéreo da Marinha do Brasil.

O GBN Defense esteve presente acompanhando toda a programação com sua equipe liderada pelo editor, Angelo Nicolaci, que também atua como correspondente no Brasil do portal argentino Zona Militar, uma das principais publicações especializadas em Defesa da América Latina. Durante o evento, Nicolaci entrevistou o Comandante da Força Aeronaval (ComForAerNav), Contra-Almirante (FN) Alexandre Vasconcelos Tonini, que apresentou um panorama dos principais programas em andamento na Aviação Naval e dos investimentos que vêm transformando a capacidade operacional da Força.

Ao comentar a importância da celebração, o ComForAerNav destacou o sucesso do evento e o papel da aproximação entre a Marinha e a sociedade.

"A nossa Aviação Naval hoje realizou o Portões Abertos aqui em São Pedro da Aldeia, recebendo cerca de 60 mil pessoas. Um dos eventos em comemoração aos 110 anos da Aviação Naval, muito importante para a nossa Marinha. Sendo o braço aéreo do Poder Naval."

A expressiva participação do público demonstra o interesse crescente da sociedade pelos temas ligados à Defesa Nacional. Em um país de dimensões continentais com uma área marítima de 5,7 milhões de quilômetros quadrados, a nossa "Amazônia Azul", sob sua responsabilidade, aproximar a população da realidade das Forças Armadas também significa fortalecer a compreensão sobre a importância estratégica do Poder Naval e da Aviação Naval para a proteção dos interesses brasileiros.

Uma nova geração de aviadores navais

Entre os principais anúncios feitos pelo Contra-Almirante (FN) Tonini está a renovação da frota destinada à formação dos futuros pilotos da Marinha.

"Nós estamos recebendo novas aeronaves de instrução, os IH-18 que estão substituindo nossos veteranos guerreiros Bell IH-6, que estão fazendo o seu último curso de formação de pilotos. Ano que vem todos os nossos aviadores navais serão formados apenas nos novos IH-18, então tem uma contribuição muito grande para a nossa Aviação Naval, para a nossa Marinha e para o nosso país."

A declaração marca oficialmente o encerramento de um capítulo importante na história da Aviação Naval. Após décadas formando gerações de aviadores, os tradicionais IH-6B JetRanger III entram em sua reta final de operação na instrução básica. A partir do próximo curso, essa missão será desempenhada exclusivamente pelos novos IH-18, cuja incorporação representa muito mais do que uma simples substituição de plataforma.

Os novos helicópteros oferecem um ambiente de instrução alinhado às exigências da aviação militar contemporânea, com aviônicos digitais, maior desempenho e tecnologias que aproximam o treinamento inicial da realidade operacional encontrada nas aeronaves atualmente empregadas pela Força Aeronaval. Trata-se de um investimento que impactará diretamente a qualidade da formação dos futuros pilotos pelos próximos anos.

Os "Linces" entram em uma nova fase operacional

Outro destaque apresentado pelo ComForAerNav foi a conclusão da modernização dos helicópteros AH-11B Wild Lynx, pertencentes ao 1º Esquadrão de Helicópteros de Esclarecimento e Ataque (EsqdHA-1 "Lince").

"Nós estamos recebendo a sexta aeronave modernizada, o nosso 'Lince'. A última aeronave está chegando no final deste mês, no dia 31 de agosto, para completar a frota modernizada, completando a frota de seis aeronaves AH-11B modernizadas."

A modernização dos AH-11B representa um dos programas mais importantes da Aviação Naval na última década. Muito além de uma extensão da vida útil, as aeronaves receberam novos motores LHTEC CTS800-4N, aviônicos atualizados e melhorias estruturais que ampliam significativamente sua disponibilidade e desempenho operacional.

Na prática, a Marinha preserva uma capacidade essencial para operações de esclarecimento, vigilância e ataque embarcado, mantendo um vetor plenamente compatível com os atuais desafios do ambiente marítimo e preparado para operar ao lado dos novos meios que estão sendo incorporados à Esquadra, como as Fragatas Classe Tamandaré.

Uma Aviação Naval em transformação

Ao resumir o atual momento vivido pela Força, o Contra-Almirante (FN) Tonini foi direto ao destacar a evolução da capacidade operacional.

"Então a Aviação Naval está cada vez mais crescendo de importância, adquirindo meios modernos para contribuir com o Poder Naval na defesa da nossa Amazônia Azul."

A afirmação sintetiza um processo que vem sendo observado de forma consistente nos últimos anos. A modernização dos helicópteros AH-11B "Lince", a incorporação dos IH-18, a retomada de capacidades importantes como o voo noturno em Guerra Antissubmarino, a integração com as futuras Fragatas Classe Tamandaré e a manutenção da capacidade embarcada demonstram que a Aviação Naval atravessa uma fase de renovação que vai além da simples aquisição de equipamentos.

O foco está na preservação e no fortalecimento de capacidades estratégicas. Em um ambiente onde a vigilância marítima, a proteção das linhas de comunicação e a defesa das riquezas existentes na Amazônia Azul assumem importância crescente, investir na Aviação Naval significa ampliar significativamente a capacidade de resposta da Marinha do Brasil diante de cenários cada vez mais complexos.

Uma Aviação Naval mais diversa

Outro ponto ressaltado pelo Comandante foi a evolução da participação feminina na atividade aérea.

"Temos também o ingresso das mulheres. As primeiras mulheres se formaram no ano passado, as duas primeiras aviadoras navais, e temos mais uma tenente fazendo o curso este ano. Então estamos abrindo espaço para as mulheres. A Marinha é pioneira com as mulheres, assim como também é a pioneira na aviação militar no Brasil."

A formação das primeiras aviadores navais representa um marco institucional importante. Mais do que ampliar a participação feminina, a iniciativa fortalece a capacidade da Força ao incorporar novos talentos a uma atividade altamente especializada, acompanhando uma evolução já observada nas principais marinhas do mundo.

Encerrando sua entrevista, o Contra-Almirante (FN) Tonini ressaltou que manter esse contato direto com a sociedade também faz parte da missão da Aviação Naval.

"Então é um orgulho muito grande para a nossa Marinha do Brasil estar aqui com a sociedade comemorando os 110 anos da Aviação Naval, estar sempre focada na defesa da Pátria, na salvaguarda da vida humana e também nessa comunicação com a nossa sociedade. É uma satisfação muito grande ter dado a oportunidade para a nossa sociedade estar em contato com os nossos meios, com os nossos militares, em um dia em família com a nossa Aviação Naval.

No Ar os Homens do Mar,  

ADSUMUS, 

Viva a Marinha,

Tudo Pela Nossa Pátria !!!"


Análise GBN Defense

Celebrar 110 anos é olhar para o passado, mas também definir os rumos do futuro. E a mensagem transmitida pelo Comandante da Força Aeronaval durante o Portões Abertos deixa claro que a Marinha compreende esse desafio.

Os programas apresentados não representam aquisições isoladas. A chegada dos IH-18 garante uma formação compatível com os desafios tecnológicos da aviação militar contemporânea. A modernização dos AH-11B preserva uma capacidade embarcada indispensável para o Poder Naval. Paralelamente, a incorporação de novas aviadoras e a continuidade da modernização da Aviação Naval demonstram uma preocupação que vai além da renovação de equipamentos: trata-se de investir simultaneamente em pessoas, doutrina e capacidade operacional.

Neste momento em que o Atlântico Sul ganha crescente relevância geopolítica e a Amazônia Azul concentra ativos estratégicos fundamentais para o Brasil, manter uma Aviação Naval moderna, bem treinada e plenamente integrada à Esquadra deixa de ser apenas uma necessidade militar. Torna-se um elemento essencial da estratégia nacional de defesa da nossa soberania.

Mais do que celebrar um legado iniciado em 1916, a Aviação Naval demonstra que continua preparada para escrever os próximos capítulos de sua história, preservando uma capacidade que permanece indispensável para que a Marinha do Brasil possa exercer com eficiência, sua missão constitucional de defender a soberania e os interesses marítimos brasileiros.


por Angelo Nicolaci


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