sábado, 19 de setembro de 2026

MQ-9 Reaper: podemos ver ataques de precisão contra o narcoterrorismo no Brasil?

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A informação de que os Estados Unidos preparam a transferência de drones MQ-9 Reaper atualmente empregados na África para a área de responsabilidade do Comando Sul (SOUTHCOM) abre uma questão que vai muito além do reposicionamento de aeronaves remotamente pilotadas. Segundo seis fontes ouvidas pela CNN, a movimentação integra uma ampliação de meios militares destinados a operações antidrogas e antiterrorismo na América do Sul, enquanto Washington avança na preparação de operações terrestres com países parceiros. O Pentágono ainda não confirmou oficialmente o deslocamento.

O momento em que essa movimentação ocorre é particularmente relevante. Desde 2025, os Estados Unidos ampliaram o emprego de capacidades militares no Caribe e no Pacífico Oriental dentro da Operação Southern Spear, apresentada pelo SOUTHCOM como uma campanha de combate ao narcoterrorismo no Hemisfério Ocidental. O próprio comando americano afirma que a operação já envolveu ações cinéticas contra embarcações associadas ao tráfico e que pretende ampliar a pressão sobre organizações classificadas por Washington como terroristas.

O MQ-9 Reaper se encaixa exatamente nessa arquitetura porque sua principal vantagem não está apenas na capacidade de ataque. Trata-se de uma plataforma de inteligência, vigilância e reconhecimento capaz de permanecer por longos períodos sobre uma determinada área, acompanhar alvos, produzir dados para aquisição de objetivos e, em determinadas configurações e sob regras de emprego específicas, realizar ataques de precisão. A transferência de aeronaves do AFRICOM para o SOUTHCOM, portanto, representa também a transferência de uma capacidade persistente de coleta e produção de inteligência para o entorno estratégico sul-americano.

É nesse ponto que a questão brasileira começa a ganhar outra dimensão. Em 28 de maio de 2026, o Departamento de Estado americano designou formalmente o Primeiro Comando da Capital (PCC) e o Comando Vermelho (CV) como Specially Designated Global Terrorists (SDGT), afirmando que as organizações representariam risco à segurança de cidadãos americanos e à segurança nacional, política externa ou economia dos Estados Unidos. A medida possui efeitos jurídicos e financeiros dentro da estrutura americana, mas não altera automaticamente a classificação jurídica dessas organizações perante o ordenamento brasileiro.

A designação foi acompanhada por medidas concretas contra estruturas associadas ao PCC. Em julho, o Departamento do Tesouro americano sancionou indivíduos e empresas ligados à organização, afirmando que uma rede com ramificações em São Paulo e na Flórida teria movimentado mais de US$ 30 milhões em recursos ilícitos e utilizado o sistema financeiro americano para lavagem de dinheiro. O movimento demonstra que Washington já trata determinadas estruturas brasileiras não apenas como problema policial doméstico, mas como parte de uma rede criminosa transnacional com impacto direto sobre interesses americanos.

Essa mudança de enquadramento é essencial para compreender o termo “narcoterrorismo” empregado pelo SOUTHCOM. Quando uma organização deixa de ser tratada exclusivamente como uma estrutura de crime organizado e passa a ser enquadrada pelo governo americano dentro de sua arquitetura antiterrorismo, ampliam-se os instrumentos disponíveis a Washington: sanções financeiras, inteligência, cooperação policial, operações de interdição e, dentro das decisões políticas e jurídicas americanas, emprego de capacidades militares.

Isso não significa que a designação americana autorize, por si só, um ataque contra o PCC ou o CV em território brasileiro. A questão é muito mais complexa. O Brasil permanece um Estado soberano, e sua Constituição estabelece como princípios das relações internacionais a independência nacional, a não intervenção, a igualdade entre os Estados, a defesa da paz e a solução pacífica dos conflitos. Também atribui às Forças Armadas a missão de defesa da Pátria.

No plano internacional, a questão é igualmente sensível. O artigo 2º, parágrafo 4º, da Carta das Nações Unidas estabelece a obrigação dos Estados de se absterem da ameaça ou do uso da força contra a integridade territorial ou a independência política de outro Estado. Existem debates jurídicos complexos sobre legítima defesa, consentimento estatal, operações contra atores não estatais e outras hipóteses, mas nenhuma dessas discussões transforma automaticamente a classificação unilateral de uma organização criminosa em autorização para o emprego de força estrangeira no território de outro país.

A própria diplomacia brasileira já identificou essa possibilidade como uma questão concreta. Em documento encaminhado pelo Ministério das Relações Exteriores ao Congresso em julho, o Itamaraty alertou para a possibilidade de uso da força militar dos Estados Unidos em território brasileiro após a classificação do PCC e do CV. O documento não afirma que Washington tenha decidido realizar uma operação no Brasil, mas demonstra que Brasília considera necessário avaliar esse cenário dentro da nova relação entre a designação americana das facções e a ampliação das capacidades militares do SOUTHCOM.

É nesse intervalo entre possibilidade jurídica e capacidade militar que o MQ-9 se torna particularmente relevante. Uma plataforma dessa natureza permite construir uma cadeia operacional que começa muito antes do disparo de qualquer armamento: coleta persistente de informações, identificação de padrões, acompanhamento de deslocamentos, correlação com inteligência de sinais e outras fontes, confirmação de um possível alvo, avaliação de danos e, somente então, eventual emprego de força. O elemento decisivo, portanto, não é simplesmente possuir um drone armado, mas controlar a arquitetura de inteligência que transforma dados em decisão operacional.

Para o Brasil, esse é talvez o aspecto mais sensível da questão. Caso Washington amplie sua presença de ISR na América do Sul, o debate não deveria se limitar à possibilidade de um MQ-9 operar a partir de um país parceiro. A questão estratégica é saber quem estará enxergando os corredores marítimos e terrestres, quem terá acesso aos dados coletados, onde essas informações serão processadas, quais critérios serão empregados para identificar alvos e quem terá autoridade para determinar uma ação contra eles.

Há ainda uma diferença fundamental entre cooperação e intervenção. Os Estados Unidos já procuraram o Brasil para discutir cooperação no combate ao narcotráfico. Em julho, durante a Conferência de Ministros da Defesa das Américas, o Ministério da Defesa informou que Washington buscava parceiros no continente para essa finalidade e que o ministro José Mucio demonstrara interesse na parceria, destacando que o combate ao narcotráfico no Brasil é prioritariamente conduzido pelo Ministério da Justiça e Segurança Pública.

Uma arquitetura cooperativa poderia envolver compartilhamento de inteligência, rastreamento de aeronaves e embarcações, intercâmbio de dados, apoio tecnológico e operações conduzidas pelas próprias autoridades brasileiras. Outra situação, completamente diferente, seria uma decisão unilateral de empregar força contra um alvo localizado em território brasileiro. Entre esses dois extremos existe uma extensa zona de possibilidades, e é justamente nela que a evolução da presença americana na região precisa ser observada.

O fator geográfico também não pode ser ignorado. A América do Sul possui extensas áreas de fronteira terrestre, corredores fluviais, litoral continental e rotas marítimas utilizadas pelo crime organizado para movimentar drogas, armas, recursos financeiros e pessoas. Colômbia e Equador aparecem hoje como pontos particularmente importantes na nova estratégia americana, e a CNN informou que a transferência dos Reaper ocorre em paralelo à preparação de operações com parceiros sul-americanos.

Para o Brasil, isso coloca em evidência a importância de possuir uma arquitetura própria de consciência situacional. SISFRON, SIVAM/SIPAM, E-99M, satélites, radares, sistemas de guerra eletrônica, inteligência de sinais, SARP e os sensores embarcados da Marinha não devem ser vistos como programas isolados. Em conjunto, constituem os componentes de uma capacidade nacional de ISR que precisa acompanhar a dimensão territorial, marítima e estratégica do país.

A Amazônia Azul acrescenta uma variável ainda mais importante. Uma eventual expansão da presença americana de inteligência no Atlântico Sul não precisaria estar relacionada diretamente ao território brasileiro para produzir efeitos sobre o ambiente estratégico nacional. A capacidade de acompanhar embarcações, rotas logísticas e movimentações marítimas amplia a consciência sobre um espaço onde o Brasil possui interesses econômicos, energéticos, militares e ambientais de primeira ordem. Nesse contexto, soberania não significa apenas controlar fisicamente o território, mas também possuir capacidade própria de observá-lo e interpretar o que acontece ao seu redor.

Por isso, a pergunta proposta no título não deve ser respondida simplesmente com um “sim” ou “não”. Hoje, não há evidência pública de que os Estados Unidos tenham decidido realizar ataques de precisão contra organizações criminosas dentro do território brasileiro. A transferência anunciada dos MQ-9 para o SOUTHCOM tampouco constitui, por si só, indicação de uma operação contra o Brasil. O que existe é uma combinação concreta de fatores: uma nova arquitetura militar americana no Hemisfério Ocidental, operações cinéticas já realizadas contra alvos associados ao narcotráfico, preparação para ações terrestres com parceiros sul-americanos, designação do PCC e do CV dentro da estrutura antiterrorista americana e preocupação expressa pelo próprio Itamaraty com a possibilidade de emprego de força americana em território nacional.

O ponto central, portanto, não é imaginar uma guerra entre Estados Unidos e Brasil, cenário para o qual não há evidência disponível. O desafio estratégico é compreender até onde pode avançar uma política americana que passa a tratar determinadas organizações criminosas latino-americanas como ameaças terroristas e que, simultaneamente, desloca para a América do Sul meios capazes de produzir inteligência persistente e ataques de precisão.

Se essa arquitetura continuar avançando, o Brasil terá de definir com clareza os limites da cooperação, os mecanismos de compartilhamento de inteligência, as regras para emprego de meios estrangeiros e, sobretudo, sua própria capacidade de produzir consciência situacional independente. A questão do MQ-9, no fim, é apenas a parte visível de uma transformação maior: a disputa não é somente pelo controle dos alvos, mas pelo controle dos sensores, dos dados e da decisão que antecede o uso da força.

É essa dimensão que torna o movimento americano relevante para o Brasil. Antes de perguntar se um Reaper poderá algum dia lançar uma arma de precisão contra um alvo em território nacional, é preciso observar quem estará fornecendo a inteligência que identifica esse alvo, quem validará essa informação e sob qual autoridade será tomada a decisão de empregar a força. No ambiente estratégico que começa a se desenhar no Hemisfério Ocidental, essa pode ser a questão mais importante de todas.


Por Angelo Nicolaci


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sexta-feira, 18 de setembro de 2026

TULPAR conclui tiro real com a HITFACT MkII de 120 mm e reforça candidatura no programa de blindados do Exército

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A Otokar e a Leonardo concluíram com sucesso a integração e os testes de tiro real do TULPAR equipado com a torre HITFACT MkII de 120 mm. A configuração combina o poder de fogo de um canhão de grande calibre com a mobilidade, proteção e arquitetura modular da plataforma turca sobre lagartas, em uma solução destinada a ampliar o emprego de armamentos de 120 mm em veículos de menor massa que os carros de combate principais convencionais.

Antes dos disparos, as equipes das duas empresas conduziram um programa de integração envolvendo as interfaces mecânicas, elétricas, eletrônicas e de software entre o chassi e a torre. Foram realizadas verificações funcionais, inspeções de segurança e procedimentos de validação para avaliar o desempenho, a confiabilidade e a interoperabilidade do conjunto.

Na sequência, o TULPAR foi submetido a uma campanha de tiro real em condições estáticas e dinâmicas. Os ensaios avaliaram o funcionamento do armamento, do sistema de controle de tiro, da estabilização e da integração geral entre a torre e a plataforma. Segundo Otokar e Leonardo, todos os objetivos previstos para a campanha foram atingidos.

A HITFACT MkII pode receber um canhão raiado de 105/52 mm ou um canhão de alma lisa 120/45 mm de baixo recuo. Na configuração testada, foi empregada a segunda opção. A mesma família de torre equipa o Centauro II 8x8 do Exército Brasileiro, estabelecendo uma conexão tecnológica relevante para a avaliação da solução no mercado brasileiro.

A torre possui arquitetura modular e totalmente digitalizada, com sistemas eletro-ópticos panorâmicos destinados ao comandante e ao atirador. Segundo a Leonardo, o conjunto proporciona capacidades de observação, detecção e aquisição de alvos, além da possibilidade de emprego da munição guiada Vulcano 120 para engajamentos de precisão.

A HITFACT MkII foi projetada para integração em diferentes plataformas, incluindo veículos sobre rodas e sobre lagartas. No caso do TULPAR, a solução permite associar o canhão de 120 mm a um veículo de porte médio, mantendo uma arquitetura com margem para diferentes configurações e futuras atualizações.

O TULPAR foi desenvolvido como uma família modular de veículos blindados sobre lagartas, com peso bruto entre 28 e 45 toneladas. A arquitetura permite configurar a plataforma para funções como carro de combate médio, veículo de combate de infantaria, apoio de fogo, defesa antiaérea, morteiro, recuperação e evacuação médica, utilizando uma base comum.

Essa característica permite estruturar diferentes capacidades a partir de uma mesma família de veículos, com potencial para racionalizar treinamento, manutenção e suporte logístico. A plataforma também foi projetada para incorporar novos equipamentos e sistemas ao longo de sua vida operacional.

A Otokar informa que o TULPAR passou por testes em diferentes condições climáticas e de terreno e oferece proteção balística e contra minas. Sua arquitetura foi concebida com capacidade de crescimento para acompanhar a incorporação de novos sensores, sistemas de proteção e equipamentos eletrônicos.

A própria torre pode receber uma estação remotamente controlada HItrole CUAS, equipada com o canhão Leonardo Blaze de 30x113 mm, permitindo ampliar a capacidade de resposta contra ameaças aéreas de baixa altitude, incluindo sistemas não tripulados.

Para o Brasil, o ponto central está na combinação entre uma plataforma sobre lagartas de arquitetura modular e uma torre de 120 mm cuja família já integra um programa do Exército Brasileiro. A experiência acumulada com a HITFACT MkII no Centauro II pode representar uma vantagem na avaliação de treinamento, manutenção, suporte e eventual comunalidade de componentes e conhecimentos técnicos.

É também nesse contexto que o TULPAR ganha relevância na disputa brasileira. A plataforma reúne uma faixa de peso de 28 a 45 toneladas, diferentes possibilidades de configuração, capacidade de crescimento e integração comprovada com um sistema de armas de 120 mm. A isso se soma a possibilidade de transferência de tecnologia e participação da indústria brasileira, aspecto que poderá ser decisivo caso seja acompanhado por uma proposta concreta de nacionalização, manutenção e desenvolvimento local.

Na avaliação do GBN Defense, esse conjunto coloca o TULPAR entre os candidatos mais fortes para o futuro programa de blindados sobre lagartas do Exército Brasileiro. A vantagem potencial não está em uma característica isolada, mas na combinação entre arquitetura modular, poder de fogo, capacidade de evolução e a possibilidade de estabelecer uma relação industrial de longo prazo com o Brasil. A presença da HITFACT MkII no Centauro II acrescenta ainda uma referência já existente dentro da própria Força Terrestre.

Existe, entretanto, uma ressalva importante. Até o momento, o TULPAR não foi adotado operacionalmente por nenhum país, nem mesmo pela própria Türkiye. A ausência de um usuário de série reduz a experiência operacional disponível sobre a plataforma e exige uma avaliação cuidadosa de aspectos como confiabilidade em serviço, cadeia de suprimentos, disponibilidade, sustentação e evolução do produto ao longo de décadas.

Esse fator não elimina o potencial da proposta, mas aumenta a importância das condições que eventualmente forem estabelecidas em um contrato. Para o Brasil, uma possível seleção ganharia dimensão estratégica se acompanhada por transferência efetiva de tecnologia, participação da indústria nacional, capacidade local de manutenção e garantias de suporte durante todo o ciclo de vida. Nesse cenário, o país poderia participar não apenas da operação, mas também da evolução da plataforma.

O sucesso da campanha de tiro com a HITFACT MkII representa, portanto, uma etapa relevante na maturação da configuração de 120 mm. O TULPAR passa a apresentar uma solução integrada e testada em condições reais de emprego, embora ainda precise superar a ausência de um operador de série. Para o programa brasileiro, o resultado reforça sua candidatura e coloca o blindado turco, na avaliação do GBN Defense, como um dos concorrentes que atualmente apresentam o conjunto mais consistente de capacidades e possibilidades industriais para atender aos futuros requisitos do Exército Brasileiro.


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Entre o orçamento e a ameaça: como o Brasil poderia construir uma defesa costeira em camadas

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A discussão sobre defesa costeira no Brasil precisa começar por uma premissa objetiva: não existe espaço fiscal, material ou operacional para transformar os aproximadamente 8,5 mil quilômetros de litoral em uma muralha militar contínua, coberta por radares, baterias de mísseis, guarnições permanentes e posições fortificadas. Além da aquisição inicial, uma estrutura dessa natureza exigiria recursos permanentes para operação, manutenção, treinamento, infraestrutura, comunicações, logística e reposição de estoques. A questão, portanto, não é encontrar uma solução que permita vigiar cada quilômetro da costa individualmente, mas construir uma arquitetura capaz de concentrar informação, presença e poder de resposta onde eles produzam maior efeito.

Essa mudança de abordagem é particularmente importante diante da dimensão da Amazônia Azul, com aproximadamente 5,7 milhões de km² sob jurisdição brasileira e uma concentração crescente de interesses econômicos e estratégicos. Petróleo e gás, rotas comerciais, portos, pesca, cabos submarinos, instalações offshore e recursos naturais convivem em um mesmo espaço marítimo. Nenhum sensor ou plataforma isoladamente consegue produzir consciência situacional permanente sobre esse ambiente. A resposta precisa ser uma rede integrada, na qual satélites, radares, aeronaves, sistemas não tripulados, navios e instalações costeiras compartilhem informações dentro de uma arquitetura de comando e controle.

É nesse contexto que o SisGAAz deve ser tratado como infraestrutura central, e não apenas como mais um projeto da Marinha. Seu valor está na capacidade de integrar diferentes fontes de informação e transformar dados dispersos em consciência situacional. A lógica é simples: detectar, identificar, acompanhar, correlacionar e disponibilizar a informação para quem precisa decidir. A defesa costeira passa a ser consequência dessa arquitetura, e não o ponto de partida.

A primeira camada deve ser formada pelos sensores. Satélites podem oferecer cobertura ampla; radares terrestres acompanham setores específicos; sistemas embarcados ampliam a capacidade de observação; sensores instalados em infraestrutura offshore acrescentam pontos avançados; e aeronaves remotamente pilotadas permitem deslocar a capacidade de vigilância conforme a necessidade. Quanto maior a diversidade de fontes, menor a dependência de um único sistema e maior a possibilidade de confirmar informações antes de uma decisão operacional.

Nesse conjunto, os sistemas aéreos remotamente pilotados de longa permanência merecem uma posição própria. A Amazônia Azul exige persistência, e não apenas alcance. Um drone capaz de permanecer muitas horas sobre determinada área pode manter uma linha de observação que seria economicamente difícil de sustentar com aeronaves tripuladas. A FAB já possui experiência com o Hermes RQ-900, empregado em missões de reconhecimento e monitoramento, oferecendo uma referência concreta de capacidade de grande autonomia já incorporada à estrutura brasileira.

A proposta, contudo, não deveria ficar restrita a aeronaves de maior porte. O Brasil também possui soluções nacionais que podem ser empregadas em quantidade maior e em missões distribuídas. O Harpia, desenvolvido pela ADTECH SD, pode transmitir dados em tempo real e foi concebido para missões de monitoramento e reconhecimento. Sua capacidade atualmente homologada pela ANAC limita o emprego do enlace convencional a aproximadamente 180 quilômetros em linha de visada, mas essa limitação está relacionada à configuração de comunicação homologada e não necessariamente ao alcance físico da aeronave. A utilização de comunicação satelital amplia substancialmente o horizonte de emprego e permite manter o fluxo de dados em tempo real em distâncias muito superiores.

Essa característica abre uma possibilidade particularmente interessante para a vigilância marítima brasileira. Um SARP de baixo custo operacional pode ser empregado em maior quantidade, inclusive lançado a partir de navios, e mediante as adaptações e certificações necessárias, de estruturas offshore, funcionando como um sensor avançado temporariamente posicionado onde a situação exigir. Em vez de utilizar uma aeronave de grande porte para cada missão de vigilância, o Brasil poderia distribuir sistemas menores por diferentes setores e aumentar significativamente a densidade de seus sensores.

O RQ-900 e o Harpia, portanto, não devem ser colocados em uma disputa de substituição. Eles ocupam categorias diferentes dentro de uma arquitetura escalonada. O primeiro oferece maior capacidade de permanência, cobertura e carga útil; o segundo pode contribuir para multiplicar os pontos de observação a um custo muito menor. Essa combinação poderia ser complementada por outros SARP nacionais conforme a evolução tecnológica e as necessidades das Forças.

A transmissão em tempo real é tão importante quanto a aeronave. O dado produzido pelo drone precisa chegar ao sistema de comando e controle, ser correlacionado com informações de radar, AIS, satélites, navios, aeronaves tripuladas e sensores offshore e, a partir daí, transformar-se em uma imagem operacional coerente. O valor militar do SARP não está apenas na capacidade de enxergar, mas na velocidade com que aquilo que foi observado pode ser incorporado ao processo de decisão.

A aviação tripulada continuaria indispensável. Aeronaves de patrulha marítima possuem maior velocidade, autonomia, capacidade de carga e flexibilidade para determinadas missões, além de permitirem intervenção direta em situações que exigem presença humana. A combinação entre persistência dos drones e mobilidade da aviação tripulada permite reservar os meios mais complexos para as situações que realmente exigem suas capacidades, reduzindo o desgaste provocado por missões rotineiras de vigilância.

A segunda grande camada precisa ser naval. Não existe consciência marítima completa sem presença física no mar, e isso exige mais navios-patrulha. O Brasil precisa aumentar a disponibilidade de Navios-Patrulha e, especialmente, de Navios-Patrulha Oceânicos, capazes de permanecer por longos períodos em áreas afastadas da costa e executar fiscalização, inspeção naval, busca e salvamento, combate a ilícitos, proteção de instalações e presença de Estado.

O problema não é apenas substituir unidades antigas. Uma frota numericamente limitada obriga a Marinha a escolher onde estará presente e por quanto tempo. Mais NPaOc permitem distribuir essa presença por diferentes setores da Amazônia Azul, enquanto os dados provenientes de satélites, plataformas, radares e drones orientam os navios para as áreas que efetivamente necessitam de investigação ou presença. O Programa de Obtenção de Navios-Patrulha, o PRONAPA, já estabelece uma base para essa expansão, contemplando unidades destinadas à inspeção naval e fiscalização das águas brasileiras. A questão passa a ser continuidade, escala e previsibilidade de produção.

O navio, nesse modelo, deixa de ser apenas uma plataforma de patrulha e passa a integrar a própria rede de sensores. Sistemas embarcados, link de dados e aeronaves não tripuladas podem ampliar a área observada por cada unidade. Uma plataforma naval empregando SARPs pode funcionar como centro móvel de coleta e distribuição de informações, ampliando sua área de consciência situacional sem depender exclusivamente de seus próprios sensores.

A terceira camada está em terra. O Exército e o Corpo de Fuzileiros Navais já possui uma capacidade que pode assumir papel mais claro dentro de uma arquitetura conjunta de defesa costeira: o ASTROS. A proposta não exige necessariamente a criação de uma nova família de viaturas, mas o aumento progressivo do número de lançadores, munições e unidades disponíveis e principalmente, o estabelecimento de uma doutrina conjunta para emprego contra ameaças marítimas.

A mobilidade é justamente uma das vantagens desse conceito. Em vez de construir posições fixas e previsíveis ao longo do litoral, unidades dotadas de capacidade de fogos de longo alcance poderiam ser deslocadas entre diferentes setores conforme a situação. Isso reduz a necessidade de uma infraestrutura permanente de grandes dimensões e aumenta a capacidade de concentração de meios em áreas consideradas prioritárias.

A evolução dessa capacidade ganha outra dimensão com o MANSUP-ER. O catálogo oficial da Base Industrial de Defesa descreve o sistema como uma evolução com alcance superior a 200 quilômetros e possibilidade de lançamento a partir de plataformas navais e terrestres, incluindo emprego em defesa costeira. O aspecto mais importante, porém, não é simplesmente o alcance do míssil. É a possibilidade de conectá-lo a uma cadeia nacional de sensores, comando e controle e decisão, transformando informação em capacidade de resposta.

O MANSUP-ER, nesse contexto, não deve ser entendido como uma bateria isolada esperando por um alvo. Seu valor depende de uma arquitetura capaz de fornecer dados confiáveis, atualizados e suficientemente precisos para orientar a decisão. Da mesma forma, ampliar o número de lançadores sem garantir munição, manutenção, treinamento, comunicações e disponibilidade operacional produziria apenas uma capacidade nominal. O investimento precisa ser feito no sistema completo.

É justamente por isso que uma defesa costeira em camadas começa pelos sensores. Um sistema de armas de longo alcance pode possuir elevada capacidade técnica, mas terá seu valor reduzido se não houver uma rede capaz de detectar e acompanhar o ambiente marítimo. A sequência operacional precisa conectar sensor, processamento, comando, decisão e resposta, com redundância suficiente para continuar funcionando mesmo diante da perda ou degradação de determinados nós.

Nesse ponto surge uma oportunidade de grande relevância estratégica nas estruturas offshore da Petrobras. Em vez de transformar plataformas de produção em posições militares, o conceito seria utilizar parte dessas instalações como nós avançados de sensoriamento marítimo. As plataformas continuariam dedicadas à sua atividade econômica, sem armamento, sem guarnição de combate e sem transformação em fortificações. A infraestrutura adicional seria destinada a funções como controle marítimo, segurança da navegação, acompanhamento do tráfego, proteção das próprias instalações, resposta a emergências e coleta de informações ambientais e oceanográficas.

A proposta encontra precedente institucional na cooperação já estabelecida entre Petrobras e Marinha. Em agosto de 2026, as duas instituições assinaram um Protocolo de Intenções que inclui monitoramento e proteção marítima, logística offshore, resposta a emergências, busca e salvamento, pesquisa científica, tecnologia e inovação. Isso oferece uma base concreta para discutir uma expansão da capacidade de monitoramento sem transformar instalações civis em unidades militares.

A natureza dos sensores é fundamental para essa proposta. Não seria necessário apresentá-los como equipamentos militares. Radares de vigilância de superfície, câmeras eletro-ópticas, sistemas de identificação automática de embarcações, sensores meteorológicos e oceanográficos e outros dispositivos podem ser adquiridos e operados prioritariamente para controle e segurança marítima. As informações produzidas poderiam, dentro dos instrumentos legais e institucionais apropriados, alimentar a consciência situacional do Estado e também ser aproveitadas pelos sistemas de inteligência e defesa.

É aqui que o conceito de uso dual deixa de ser apenas uma justificativa e passa a ser um elemento de engenharia financeira do projeto. Se a infraestrutura for concebida como sistema de monitoramento, controle e segurança marítima, e não como aquisição de “sensores militares”, existe espaço para estudar seu enquadramento em mecanismos destinados ao setor marítimo. O Fundo da Marinha Mercante deve receber destaque nesse modelo como uma possível fonte complementar de financiamento. A legislação do FMM contempla investimentos relacionados à Marinha Mercante, à proteção do tráfego marítimo, à aquisição e instalação de equipamentos para embarcações, à infraestrutura portuária e aquaviária e a projetos de pesquisa e desenvolvimento. Isso abre uma frente que merece ser estudada para determinados componentes de uma arquitetura de monitoramento marítimo de uso dual.

A questão é particularmente relevante porque o FMM não representa uma nova rubrica dentro do orçamento do Ministério da Defesa. Trata-se de um instrumento financeiro próprio, destinado ao financiamento de projetos ligados ao setor marítimo, inclusive infraestrutura aquaviária. A utilização de seus recursos para componentes compatíveis com suas finalidades poderia, portanto, reduzir a parcela de investimentos que necessariamente teria de sair diretamente do orçamento de Defesa, preservando recursos militares para aquilo que é inequivocamente militar: meios de combate, munição, comando e controle específico, doutrina, treinamento e prontidão. O Orçamento de 2026, inclusive, prevê recursos do FMM para financiamentos à infraestrutura aquaviária, portuária e construção/manutenção naval.

O ponto precisa ser tratado com precisão jurídica. Não existe autorização automática para utilizar o FMM na aquisição de sensores militares destinados à Defesa. O caminho defensável seria estruturar o investimento a partir de sua finalidade primária: controle marítimo, segurança da navegação, monitoramento do tráfego, proteção de instalações offshore e resposta a emergências. A eventual utilização dos dados pela Defesa seria uma aplicação secundária dentro de uma arquitetura estatal de compartilhamento e fusão de informações. Cada projeto precisaria ser submetido ao enquadramento jurídico e técnico correspondente e à análise dos órgãos responsáveis pelo FMM.

A vantagem é que o mesmo investimento passaria a atender diferentes usuários. A atividade marítima civil teria maior segurança, a indústria offshore receberia uma camada adicional de monitoramento, a navegação poderia contar com mais informação, os mecanismos de busca e salvamento ganhariam capacidade de detecção e o Estado teria acesso a uma fonte adicional de consciência situacional. A Defesa se beneficiaria desse ecossistema sem que toda a infraestrutura precisasse ser classificada ou financiada como equipamento militar.

Essa separação também possui impacto orçamentário. Parte da infraestrutura de sensoriamento poderia ser financiada por instrumentos associados à atividade marítima, reduzindo a pressão sobre o orçamento do Ministério da Defesa. Isso não elimina os custos da defesa: integração de sistemas, centros de comando, segurança cibernética, pessoal, treinamento, doutrina, manutenção de capacidades específicas e emprego dos meios de combate continuariam exigindo recursos de Defesa. O ganho está em não obrigar uma única pasta a financiar sozinha uma infraestrutura que produz benefícios para todo o setor marítimo.

Mas uma arquitetura de vigilância não pode ser construída em substituição à Esquadra. O Brasil precisa manter investimentos contínuos na renovação e na evolução tecnológica dos meios navais, evitando o ciclo em que a aquisição de uma nova classe é seguida por longos períodos sem novos investimentos até que os navios envelheçam. A própria lógica do Programa Fragatas Classe Tamandaré aponta para a renovação da Esquadra, a construção nacional, a transferência de tecnologia e a gestão do ciclo de vida. A experiência acumulada nessa construção precisa ser transformada em continuidade industrial e evolução incremental das capacidades.

Isso significa que novas tecnologias de monitoramento, guerra eletrônica, inteligência, comunicações, sensores e processamento de dados precisam ser incorporadas continuamente à frota. A primeira Tamandaré já demonstra a direção dessa evolução: além de seus sensores de detecção e acompanhamento, a classe dispõe de sistemas de monitoramento de guerra eletrônica capazes de acompanhar emissões eletromagnéticas e de radiofrequência, integrados ao seu sistema de gerenciamento de combate. O passo seguinte deve ser ampliar essa capacidade para além dos navios de combate, criando meios especializados em coleta, processamento e distribuição de inteligência.

Nesse contexto, merece estudo a possibilidade de desenvolver dois navios especializados em inteligência de sinais (SIGINT), utilizando o mesmo casco-base da classe Tamandaré. A proposta não seria simplesmente construir uma fragata com menos armamento, mas aproveitar uma plataforma naval já conhecida pela indústria brasileira e adaptá-la para uma missão diferente: coleta de emissões eletromagnéticas, inteligência eletrônica e de comunicações, análise do espectro eletromagnético, interceptação e geolocalização de sinais dentro dos parâmetros legais aplicáveis, além de vigilância técnica e apoio à construção da consciência situacional marítima.

Dois navios dessa natureza poderiam constituir uma capacidade especializada de grande valor para a Marinha, principalmente se concebidos desde o início para operar integrados ao SisGAAz e às demais estruturas de inteligência, comando e controle. Um poderia manter presença em determinada área enquanto o outro estivesse em manutenção, treinamento ou empregado em outro setor, permitindo uma disponibilidade muito superior àquela obtida com uma única unidade. A utilização do casco-base da Tamandaré também permitiria aproveitar conhecimento de projeto, cadeia logística, infraestrutura industrial e experiência acumulada na construção nacional, embora a configuração interna, os mastros, antenas, sistemas de recepção e processamento e a arquitetura de missão fossem substancialmente diferentes.

O ganho não estaria apenas na coleta de sinais. Um navio SIGINT seria um elemento móvel de inteligência capaz de permanecer no mar por períodos prolongados, aproximando a capacidade de coleta das áreas de interesse e conectando informações obtidas no espectro eletromagnético com dados provenientes de satélites, aeronaves, drones, navios e sensores costeiros. Em uma arquitetura de defesa em camadas, isso acrescentaria uma dimensão que radares convencionais e sistemas eletro-ópticos não conseguem oferecer sozinhos.

A mesma racionalidade deve orientar a expansão dos navios-patrulha. Essas unidades exercem funções que ultrapassam a dimensão estritamente militar, incluindo fiscalização, inspeção naval, busca e salvamento, proteção ambiental, combate a ilícitos e segurança do tráfego marítimo. Isso reforça a necessidade de tratá-las como parte da infraestrutura permanente de presença do Estado no mar, embora sua aquisição e operação permaneçam vinculadas às necessidades e ao planejamento da Marinha.

O resultado seria uma arquitetura distribuída em profundidade. Satélites ofereceriam cobertura ampla; sensores offshore acrescentariam pontos avançados; drones de longa permanência manteriam vigilância persistente; SARP menores aumentariam a densidade dos pontos de observação; aeronaves tripuladas proporcionariam mobilidade e capacidade especializada; navios-patrulha transformariam informação em presença física; meios SIGINT acrescentariam inteligência sobre o espectro eletromagnético; e sistemas como ASTROS e MANSUP-ER constituiriam a camada de resposta para situações que ultrapassassem o nível de patrulhamento e fiscalização. Fragatas, submarinos e outros meios de maior complexidade permaneceriam disponíveis para cenários que exigissem maior poder de combate.

Essa distribuição reduz a dependência de uma única plataforma ou de um único ponto do litoral. Uma informação obtida por um sensor offshore pode ser correlacionada com um satélite, confirmada por um SARP, investigada por uma aeronave de patrulha, acompanhada por um NPaOc e complementada por informações provenientes de sistemas SIGINT. Se a situação evoluir, a arquitetura já terá condições de encaminhar a informação para os sistemas responsáveis pela decisão e eventual resposta. O ganho não está apenas em possuir mais equipamentos, mas em fazer com que equipamentos diferentes trabalhem sobre a mesma imagem operacional.

A geografia brasileira também recomenda abandonar soluções uniformes. A região do pré-sal possui características diferentes das áreas amazônicas; grandes complexos portuários apresentam demandas distintas de setores de menor densidade populacional; e instalações críticas exigem níveis diferentes de vigilância. Uma arquitetura em camadas permite concentrar investimentos onde uma interrupção produziria maior impacto econômico, estratégico ou militar, sem obrigar o país a reproduzir a mesma estrutura ao longo de toda a costa.

O conceito também pode produzir efeitos importantes sobre a Base Industrial de Defesa. Sensores, radares, sistemas de comunicação, software de fusão de dados, links satelitais, SARP, integração de sistemas e plataformas navais criam demanda tecnológica em diferentes segmentos da indústria brasileira. A construção continuada de navios-patrulha e eventualmente de navios especializados em inteligência, acrescentaria uma frente industrial de longo prazo para estaleiros, fornecedores de sistemas, eletrônica, propulsão, comunicações e manutenção. A lógica de uso dual ainda amplia o mercado potencial, permitindo que determinadas tecnologias atendam simultaneamente Defesa, petróleo e gás, portos, segurança marítima, pesquisa e proteção ambiental.

A defesa costeira brasileira, portanto, não precisa começar pela compra de uma quantidade gigantesca de mísseis. Precisa começar pela capacidade de saber o que acontece no mar, manter presença onde necessário e dispor de meios capazes de transformar informação em ação. Sem sensores, o armamento de longo alcance perde parte de seu valor; sem meios navais e aéreos suficientes, a informação não necessariamente se converte em presença; sem inteligência, a massa de dados produzida pela rede não alcança todo o seu potencial; e sem capacidade de resposta, a vigilância fica limitada ao conhecimento do problema.

O caminho mais racional é construir essa capacidade progressivamente, aproveitando programas existentes, infraestrutura já instalada e tecnologias nacionais. SisGAAz, sensores offshore, RQ-900, Harpia e outros SARP, aviação de patrulha, satélites, Navios-Patrulha Oceânicos, demais meios de superfície, futuros navios SIGINT, submarinos, ASTROS e MANSUP/MANSUP-ER não precisam ser tratados como projetos independentes. Eles podem constituir diferentes elementos de uma mesma arquitetura nacional de vigilância, inteligência, presença, decisão e resposta.

A questão central, portanto, deixa de ser quanto custaria proteger cada quilômetro da costa e passa a ser quanto custa construir uma rede capaz de detectar, compreender, acompanhar e responder às ameaças prioritárias. Essa mudança transforma a defesa costeira de um projeto monumental, caro e pouco executável em um processo incremental de construção de capacidade. O Brasil não precisa erguer uma muralha no litoral. Precisa construir uma rede capaz de enxergar o mar, compreender o que acontece nele, manter presença onde ela é necessária, produzir inteligência sobre o ambiente e concentrar poder de resposta onde a situação exigir.


Por Angelo Nicolaci


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PLOA 2027 amplia espaço para a Defesa, mas execução e previsibilidade serão decisivas

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O Projeto de Lei Orçamentária Anual (PLOA) de 2027 coloca novamente a Defesa no centro de uma discussão que vai muito além do valor global destinado ao Ministério. A proposta encaminhada pelo governo federal ao Congresso Nacional em 31 de agosto prevê R$ 147,68 bilhões para o Ministério da Defesa, dentro de uma programação que amplia o espaço destinado aos investimentos e à modernização das Forças Armadas. O texto, formalizado pelo PLN 24/2026, ainda está em tramitação e poderá sofrer alterações durante a análise legislativa.

A dimensão mais relevante da proposta aparece na distribuição dos recursos entre os programas estratégicos. No Exército Brasileiro, o Programa Forças Blindadas conta com aproximadamente R$ 1,02 bilhão, enquanto o ASTROS-FOGOS recebe R$ 671,4 milhões. O Sistema Integrado de Monitoramento de Fronteiras (SISFRON) aparece com R$ 467 milhões, e a implantação do sistema de Aviação do Exército e Drones reúne R$ 520 milhões. Dentro do programa de Defesa Nacional, o Comando do Exército concentra aproximadamente R$ 4,822 bilhões, dos quais cerca de R$ 2,998 bilhões estão classificados como projetos.

O Programa Forças Blindadas representa uma das maiores dotações individuais da Força Terrestre e está inserido em um processo mais amplo de transformação da frota blindada brasileira. A programação de 2027 prevê recursos para a continuidade desse esforço, que envolve diferentes famílias de viaturas e sistemas e possui execução distribuída ao longo de vários exercícios. O próprio formato do PLOA, entretanto, não vincula automaticamente a totalidade da dotação a um determinado modelo ou contrato, uma vez que essa definição depende das programações e instrumentos de execução correspondentes.

No ASTROS-FOGOS, os R$ 671,4 milhões previstos dão continuidade ao desenvolvimento de uma capacidade de artilharia de foguetes e mísseis de longo alcance. A iniciativa envolve aquisição e desenvolvimento de sistemas, munições, componentes, equipamentos e infraestrutura associados à manutenção e à expansão da capacidade. No SISFRON, os R$ 467 milhões destinam-se à continuidade de uma arquitetura que combina sensores, radares, comunicações e sistemas de comando e controle para ampliar a consciência situacional ao longo das fronteiras brasileiras.

A Aviação do Exército e os sistemas não tripulados também ganham espaço na programação, com R$ 520 milhões destinados à implantação do sistema de Aviação do Exército e Drones. O valor se insere em uma transformação que aproxima cada vez mais aeronaves tripuladas, sistemas remotamente pilotados, sensores e capacidades de inteligência, vigilância e reconhecimento, refletindo mudanças observadas no emprego de meios aéreos nos conflitos contemporâneos.

Na Força Aérea Brasileira, o principal volume de investimento dentro do programa de Defesa Nacional continua concentrado no FX-2. O PLOA 2027 reserva R$ 2,891 bilhões para o programa do F-39 Gripen, recursos que abrangem a aquisição das aeronaves e os sistemas associados, incluindo armamentos, simuladores, logística inicial, suporte e atividades relacionadas à transferência e integração tecnológica. O programa contempla 36 aeronaves, sendo 28 F-39E monopostos e oito F-39F bipostos, com previsão de mais quatro entregas ao longo de 2027.

A dimensão do FX-2 dentro do orçamento aeronáutico revela a importância que a renovação da aviação de caça continua ocupando no planejamento da FAB. Dos aproximadamente R$ 4,259 bilhões destinados ao programa de Defesa Nacional sob responsabilidade do Comando da Aeronáutica, cerca de R$ 3,845 bilhões correspondem a projetos. O Gripen absorve, sozinho, parcela significativa desse montante, refletindo não apenas a aquisição das aeronaves, mas a estrutura necessária para transformar a nova plataforma em capacidade operacional completa.

O KC-390 Millennium aparece em seguida entre os principais projetos, com R$ 571,8 milhões previstos para a continuidade de sua implantação. A programação está relacionada à expansão da capacidade brasileira de transporte aéreo, incluindo missões de lançamento de cargas e paraquedistas, reabastecimento em voo, evacuação aeromédica e combate a incêndios. O programa também possui dimensão industrial relevante, uma vez que sua execução envolve uma cadeia produtiva brasileira integrada ao desenvolvimento e à fabricação da aeronave.

A programação da FAB não se limita aos dois principais projetos. O PLOA também contempla recursos para modernização dos A-29 Super Tucano, sistemas não tripulados, projetos de mísseis e outras iniciativas relacionadas à evolução das capacidades de combate e apoio. A estrutura demonstra que a renovação da Força Aérea ocorre simultaneamente em diferentes camadas, envolvendo aviação de caça, transporte estratégico, aeronaves de ataque, sistemas autônomos, armamentos e infraestrutura de comando e controle.

Na Marinha do Brasil, a proposta concentra recursos em programas igualmente caracterizados por longos ciclos de desenvolvimento. O PLOA prevê aproximadamente R$ 900 milhões para o programa das fragatas Classe Tamandaré, R$ 115 milhões para o programa de navios-patrulha e cerca de R$ 1,429 bilhão para o desenvolvimento da planta de propulsão nuclear associada ao submarino de propulsão nuclear brasileiro. O PROSUB aparece com aproximadamente R$ 852,5 milhões. A combinação desses investimentos evidencia que a modernização naval envolve simultaneamente construção de meios, domínio tecnológico, infraestrutura e desenvolvimento de capacidades de longo prazo.

A distribuição dos recursos entre Exército, Marinha e Força Aérea revela uma característica fundamental do orçamento de Defesa: grande parte dos programas relevantes não pode ser concluída dentro de um único exercício. Blindados, sistemas de artilharia, vigilância de fronteiras, aeronaves de combate, transporte estratégico, fragatas e submarinos exigem cronogramas plurianuais, contratos de longo prazo e continuidade industrial.

É justamente nesse ponto que o histórico de 2026 passa a ser relevante para a leitura do PLOA 2027.

Em março, o governo federal anunciou um bloqueio inicial de R$ 1,6 bilhão nas despesas sujeitas aos limites fiscais. Em maio, uma nova rodada acrescentou R$ 22,1 bilhões, elevando o bloqueio global para R$ 23,678 bilhões. A medida alcançou as despesas discricionárias do Executivo e veio acompanhada de restrições aos limites de empenho.

O Ministério da Defesa esteve entre as pastas atingidas pelas medidas de contenção. Posteriormente, em julho, o governo anunciou o desbloqueio de R$ 5,7 bilhões, reduzindo o bloqueio global para aproximadamente R$ 17,94 bilhões. A Defesa permaneceu submetida a uma contenção superior a R$ 4 bilhões na nova programação, mostrando que a alteração do bloqueio global não significou a eliminação das restrições para a pasta.

O comportamento do orçamento ao longo do exercício demonstra por que a diferença entre dotação, limite de empenho, empenho, liquidação e pagamento precisa estar no centro da análise. O valor inscrito no PLOA representa uma etapa do processo orçamentário; sua transformação em capacidade militar depende da disponibilidade financeira e da execução efetiva ao longo do exercício.

Para programas estratégicos, essa diferença possui consequências concretas. Um contrato de defesa envolve engenharia, produção, integração, testes, qualificação, treinamento, infraestrutura e suporte logístico. A alteração do ritmo financeiro pode deslocar etapas, modificar cronogramas de entrega e aumentar a distância entre a previsão inicial e a incorporação efetiva de uma capacidade.

O impacto também alcança diretamente a Base Industrial de Defesa. Empresas que participam de programas de alta complexidade precisam planejar capacidade produtiva, equipamentos, mão de obra especializada e fornecedores com anos de antecedência. A previsibilidade dos contratos e dos pagamentos interfere diretamente na decisão de investir, ampliar instalações, contratar profissionais e desenvolver novas tecnologias.

Esse fator ganha importância adicional em projetos nos quais o Brasil busca ampliar o conteúdo tecnológico nacional. A continuidade de encomendas permite preservar competências, formar profissionais e manter fornecedores especializados dentro da cadeia produtiva. Interrupções ou reprogramações sucessivas podem produzir efeitos que ultrapassam o exercício orçamentário e comprometer investimentos realizados com horizonte de longo prazo.

Para as Forças Armadas, a consequência aparece na outra ponta. Quando uma entrega é adiada, o equipamento que deveria ser substituído ou complementado permanece em serviço por mais tempo. Isso pode ampliar custos de manutenção, prolongar a utilização de sistemas antigos e postergar a disponibilidade de novas capacidades operacionais.

A questão, portanto, não está em defender um orçamento imune a qualquer ajuste fiscal. O governo precisa administrar receitas, despesas e metas fiscais dentro das regras estabelecidas. O problema está em compatibilizar essa gestão com compromissos que o próprio Estado classificou como estratégicos e cuja execução depende de continuidade durante vários exercícios.

O próprio Ministério da Defesa reconhece institucionalmente a necessidade dessa previsibilidade. Ao tratar dos projetos estratégicos inseridos no Novo PAC, a pasta afirma que a articulação com órgãos como Casa Civil, Ministério da Fazenda e Ministério do Planejamento busca garantir regularidade e previsibilidade dos recursos necessários à execução completa dos projetos.

Essa premissa é particularmente importante diante do volume de programas previstos no PLOA 2027. O Estado brasileiro não está simplesmente adquirindo equipamentos isolados. Está sustentando programas que envolvem desenvolvimento tecnológico, infraestrutura, produção industrial, formação de pessoal e operação durante décadas.

O desafio para 2027 será, portanto, fazer com que a expansão prevista no PLOA alcance a execução orçamentária e, posteriormente, a capacidade operacional. A diferença entre esses estágios é onde se mede a efetividade de uma política pública de Defesa.

A tramitação no Congresso Nacional será a primeira etapa. A proposta ainda poderá sofrer alterações antes da aprovação da Lei Orçamentária. Depois disso, o Executivo terá de administrar sua execução durante o exercício, definindo a programação financeira e os limites de empenho de acordo com as condições fiscais.

O acompanhamento não poderá se limitar, portanto, ao valor aprovado. Será necessário observar quanto foi efetivamente empenhado, quanto foi liquidado, quanto foi pago e qual foi a execução física correspondente. O próprio Ministério da Defesa disponibiliza dados de execução orçamentária que permitem acompanhar essa diferença entre a previsão inicial e o resultado efetivamente alcançado.

Essa distinção é fundamental porque o histórico recente mostra que orçamento aprovado e recurso efetivamente executado são grandezas diferentes. Em 2025, por exemplo, o Ministério da Defesa teve dotação final de R$ 133,4 bilhões, empenhou R$ 132 bilhões, liquidou R$ 124,8 bilhões e efetivamente pagou R$ 118,5 bilhões. Os números mostram como a execução se transforma progressivamente entre a autorização orçamentária e o desembolso financeiro.

O PLOA 2027 apresenta, nesse contexto, uma oportunidade concreta de ampliar os investimentos em capacidades militares. Mas a qualidade dessa política não será determinada apenas pelo tamanho da dotação apresentada em agosto. Será medida pela capacidade de preservar os programas prioritários durante o exercício, cumprir compromissos financeiros e transformar recursos públicos em meios efetivamente disponíveis para as Forças Armadas.

Para o Exército, isso significa dar continuidade à renovação da frota blindada, ao ASTROS-FOGOS, ao SISFRON e à evolução da Aviação do Exército e dos sistemas não tripulados. Para a FAB, significa sustentar o FX-2, o KC-390 e os demais programas de modernização. Para a Marinha, significa manter o ritmo dos programas navais e tecnológicos que formam a base de sua renovação de meios e de sua autonomia estratégica.

O indicador mais importante de 2027 será, portanto, a distância entre o planejamento e a entrega. Se os recursos previstos forem efetivamente executados, convertidos em contratos, produção, tecnologia, infraestrutura e novos meios, o crescimento orçamentário terá correspondência concreta na capacidade militar brasileira. Se os cronogramas forem novamente submetidos a sucessivas reprogramações financeiras, a discussão deixará de ser sobre o tamanho do orçamento e passará a ser sobre a capacidade do Estado de cumprir aquilo que ele próprio colocou no planejamento.

Para uma política de Defesa construída sobre projetos que atravessam governos e décadas, essa diferença é essencial. A soberania não se constrói apenas com programas inscritos no orçamento, mas com continuidade suficiente para que esses programas saiam da previsão financeira, atravessem a cadeia industrial e cheguem efetivamente à operação.


Por Angelo Nicolaci


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Argentina abre caminho para reconstruir sua força naval com US$ 3,5 bilhões

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Projeto de Orçamento 2027 prevê crédito para três submarinos convencionais e duas fragatas, enquanto a Armada busca recuperar capacidades perdidas

O Poder Executivo argentino encaminhou ao Congreso de la Nación o Projeto de Presupuesto General de la Administración Nacional para 2027, que prevê uma autorização de até US$ 3,5 bilhões em operações de crédito público destinadas ao reequipamento da Armada Argentina. A proposta contempla três submarinos convencionais, com limite de US$ 2,3 bilhões, e duas fragatas multimissão, com até US$ 1,2 bilhão.

Os recursos estão distribuídos em dois programas. Os submarinos serão destinados à Fuerza de Submarinos, com a Base Naval Mar del Plata como referência, enquanto as fragatas deverão integrar a Flota de Mar, sediada em Puerto Belgrano. O projeto não define classe, fabricante ou configuração dos futuros navios, deixando essas decisões para as etapas posteriores de requisitos, seleção e contratação.

O ponto financeiro exige uma distinção importante: os US$ 3,5 bilhões não constituem uma dotação imediatamente disponível para aquisição dos meios. O Artigo 42 autoriza a realização das operações de crédito, permitindo ao Poder Executivo estruturar financiamentos de longo prazo. A contratação dos empréstimos e dos equipamentos dependerá da tramitação orçamentária e das negociações subsequentes.

A dimensão do programa ganha relevância diante da atual situação da força submarina argentina. Durante o Fraterno XXXIX, a própria Armada registrou oficialmente que não dispõe de submarinos operacionais. O exercício realizado com a Marinha do Brasil permitiu que oficiais e suboficiais argentinos mantivessem o adestramento específico a bordo do Submarino Humaitá (S41).

O mesmo exercício expôs, na prática, a diferença entre possuir uma estrutura naval e manter uma capacidade operacional completa. Enquanto o Humaitá participou das ações de guerra antissubmarino, militares argentinos puderam realizar treinamento submarino embarcados no meio brasileiro. A recuperação dessa capacidade exigirá, portanto, mais que a construção dos cascos: será necessário recompor tripulações, infraestrutura, manutenção, sistemas de combate, armamentos e cadeia logística.

A opção por três SSK indica uma tentativa de estabelecer uma capacidade submarina com maior continuidade operacional. O número permite trabalhar com ciclos de manutenção e adestramento sem depender de uma única unidade disponível, embora a efetividade dessa estrutura dependa da disponibilidade técnica e do suporte ao longo do ciclo de vida.

A questão dos submarinos ganhou um componente industrial concreto em 2026. Após visita a Buenos Aires em maio, o ministro da Defesa José Múcio Monteiro afirmou que os três submarinos Scorpène que a Argentina negocia com a França poderiam ser construídos no Brasil, utilizando a estrutura do Complexo Naval de Itaguaí. A possibilidade envolve o Naval Group, parceiro francês do PROSUB, e a infraestrutura industrial brasileira criada para a construção dos quatro submarinos convencionais da Classe Riachuelo.

A hipótese não surgiu agora. Em 2023, o então ministro da Defesa argentino Jorge Taiana visitou a Itaguaí Construções Navais para conhecer o processo de fabricação dos Scorpène brasileiros, identificado oficialmente pela Argentina como uma das alternativas para recuperar sua capacidade submarina. Na ocasião, Taiana também manteve reunião bilateral com José Múcio, na qual o processo de fabricação dos submarinos em Itaguaí esteve entre os temas tratados.

O cenário de 2026 acrescenta uma possibilidade industrial mais concreta: a utilização de Itaguaí como local de construção das futuras unidades argentinas. O PROSUB já estabeleceu no Brasil infraestrutura, mão de obra especializada e capacidade industrial para a produção de submarinos derivados do Scorpène. Os quatro S-BR brasileiros foram construídos no Complexo Naval de Itaguaí, com transferência de tecnologia e assistência técnica do Naval Group.

Para a Argentina, esse modelo poderia reduzir a necessidade de desenvolver do zero uma estrutura industrial específica para a construção dos submarinos. Para o Brasil, uma eventual encomenda externa permitiria ampliar a utilização de competências acumuladas pelo PROSUB e preservar uma cadeia produtiva especializada em uma área de elevada complexidade tecnológica. A concretização desse arranjo, porém, dependeria da definição do modelo financeiro, industrial e contratual da operação.

Na força de superfície, as duas fragatas previstas para Puerto Belgrano representam o segundo eixo da recuperação naval. O valor autorizado, de até US$ 1,2 bilhão, ainda não está associado a uma classe específica. Durante o Fraterno XXXIX, a EMGEPRON apresentou às autoridades navais argentinas a solução das Fragatas Classe Tamandaré, baseada no projeto MEKO A-100 da TKMS e construída no Brasil pelo TKMS Estaleiro Brasil Sul, em Itajaí. A apresentação não representa uma decisão argentina pela classe, mas coloca uma solução naval produzida no Brasil entre as possibilidades de cooperação que poderão ser discutidas no processo de renovação da Armada Argentina.

A Tamandaré também carrega um componente industrial brasileiro relevante. O programa é executado pela Águas Azuis, formada pela TKMS, Embraer Defesa & Segurança e Atech, com participação de aproximadamente 40% de conteúdo local em equipamentos e serviços, além de transferência de tecnologia e mobilização de uma cadeia de fornecedores nacionais. A Atech responde pelo desenvolvimento e integração de sistemas como o gerenciamento de combate e o gerenciamento integrado da plataforma, enquanto a Embraer participa com competências em sensores, sistemas e integração.

A experiência brasileira no Fraterno XXXIX criou, nesse contexto, uma referência operacional concreta. A participação da Fragata Tamandaré (F200) e do Submarino Humaitá permitiu à Armada Argentina operar e treinar ao lado de meios que incorporam tecnologias e conceitos empregados pela Marinha do Brasil em sua atual renovação de capacidades. O exercício envolveu ações de superfície, guerra antissubmarino, tiro naval, operações aéreas e procedimentos de salvamento submarino.

O planejamento de 2027 também contempla programas que não dependem dessa autorização de crédito. Entre eles está a aquisição de quatro helicópteros navais leves, com previsão de $37,616 bilhões de pesos, destinados ao emprego orgânico embarcado. A Armada também mantém o programa de helicópteros AW109, cujo adiantamento e custos de financiamento foram registrados como pagos em março de 2026.

A Argentina passou ainda a contar com mecanismos adicionais de financiamento para o reequipamento militar. O Decreto 314/2026 colocou em funcionamento o Plan ARMA, destinado a direcionar parte dos recursos provenientes da venda, locação ou privatização de determinados ativos estatais para modernização, reequipamento e infraestrutura de Defesa. O mecanismo complementa os recursos orçamentários e o FONDEF.

A decisão sobre os submarinos ainda não está tomada. O orçamento argentino de 2027 autoriza até US$ 2,3 bilhões em operações de crédito para três unidades convencionais, mas não define fornecedor nem local de construção. O Scorpène permanece entre as alternativas avaliadas, enquanto o processo de seleção e financiamento continua em negociação.

O mesmo princípio vale para as fragatas. A apresentação da solução Tamandaré demonstra que o Brasil já dispõe de uma plataforma construída em território nacional, com participação de empresas brasileiras e transferência de tecnologia, que pode ser considerada em futuras discussões de cooperação naval. Isso não significa que exista uma decisão argentina pela classe, mas estabelece uma possibilidade adicional dentro de um processo que ainda está em fase de definição.

Para o Brasil, a eventual recuperação da força naval argentina também possui uma dimensão industrial. A incorporação de três submarinos e duas novas fragatas ampliaria as capacidades navais disponíveis no Atlântico Sul e poderia criar oportunidades adicionais de cooperação, adestramento e participação da indústria brasileira em programas de defesa de um país vizinho.

O ponto decisivo estará na execução. Entre a autorização de crédito e a entrada de um navio em serviço existe um ciclo que envolve financiamento, seleção, contrato, construção, treinamento, integração de sistemas e estrutura logística. Em programas navais dessa dimensão, a capacidade de manter os recursos ao longo de vários exercícios será determinante para transformar a autorização orçamentária em meios efetivamente operacionais.

O Orçamento 2027, portanto, não entrega uma nova Armada à Argentina, mas estabelece as condições financeiras para que Buenos Aires possa iniciar esse processo. São US$ 3,5 bilhões em capacidade de crédito para dois dos principais componentes de uma força naval moderna, enquanto as alternativas industriais começam a ganhar contornos mais definidos. Nesse cenário, o Brasil aparece potencialmente em duas frentes distintas, submarinos, por meio da infraestrutura de Itaguaí e da experiência acumulada no PROSUB, e fragatas, por meio da Classe Tamandaré e da capacidade industrial construída em Itajaí, sem que qualquer uma dessas possibilidades represente, neste momento, um contrato ou uma decisão definitiva de aquisição.


Por Angelo Nicolaci


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