sexta-feira, 25 de setembro de 2026

Exército Brasileiro acompanha tiro real do TULPAR com canhão de 120 mm na Itália

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O Exército Brasileiro acompanhou em 23 de setembro, em Nettuno, na Itália, uma demonstração de tiro real do TULPAR equipado com a torre HITFACT MkII, da Leonardo, armada com um canhão de 120 mm. A atividade coloca a plataforma turca entre as soluções que vêm sendo observadas pelo Brasil para a renovação de seus blindados sobre lagartas.

A delegação brasileira foi chefiada pelo Vice-Chefe do Estado-Maior do Exército, General de Divisão Eduardo Tavares Martins. Os militares acompanharam os disparos e o funcionamento do conjunto formado pelo chassi sobre lagartas, torre, estabilização e sistema de controle de tiro.

O TULPAR empregado nos ensaios utiliza a torre HITFACT MkII com canhão de alma lisa 120/45 mm. O sistema reúne sensores eletro-ópticos, estabilização e recursos digitais de aquisição e engajamento de alvos, enquanto o veículo oferece uma arquitetura modular para diferentes configurações.

A campanha incluiu disparos com o veículo parado e em movimento. Foram realizados 12 tiros com munição de treinamento DM-88 contra um alvo a aproximadamente 1.300 metros. Segundo os dados divulgados pelos fabricantes, os disparos apresentaram índices de acerto de 99,97% na condição estática e 95,07% com o veículo em movimento a 20 km/h.

Para o Exército Brasileiro, um dos pontos que diferencia a proposta está na torre. A HITFACT MkII também equipa o Centauro II 8x8, já incorporado à Força, o que abre espaço para maior comunalidade em treinamento, manutenção, conhecimento técnico e parte da infraestrutura de apoio. Não se trata, porém, de transformar os dois veículos em sistemas equivalentes: o Centauro II e o TULPAR respondem a conceitos operacionais diferentes.

Outro aspecto é a flexibilidade do TULPAR. O veículo pode receber diferentes motores, transmissões e sistemas de missão, permitindo configurar a plataforma de acordo com os requisitos do operador. Para um programa que deverá permanecer em serviço por décadas, essa capacidade de evolução pesa tanto quanto o desempenho apresentado em um ensaio específico.

O canhão de 120 mm também muda a posição do TULPAR dentro da discussão brasileira. O calibre oferece poder de fogo superior ao normalmente encontrado em veículos de combate de infantaria e aproxima a configuração, pelo armamento, do universo dos carros de combate principais. A torre pode ainda utilizar a família de munições guiadas Vulcano 120, ampliando as opções para engajamentos de precisão.

O interesse brasileiro, entretanto, não se resume ao calibre ou à precisão do tiro. A renovação dos blindados sobre lagartas envolve uma combinação de proteção, mobilidade, sensores, logística, manutenção, custo de operação e capacidade de produção e suporte no país. É nesse conjunto que uma eventual solução precisa fazer sentido para o Exército.

A presença da delegação brasileira em Nettuno ganha importância justamente por permitir observar o TULPAR em uma situação que vai além da apresentação estática. O tiro real coloca em evidência a integração entre plataforma e armamento e acrescenta elementos concretos ao conhecimento que o Brasil vem acumulando sobre as alternativas para sua próxima geração de blindados.


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Airbus prepara oferta do Eurofighter a Portugal e amplia disputa pela substituição dos F-16

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A Airbus pretende apresentar entre o fim de outubro e o início de novembro uma proposta não solicitada a Portugal para fornecer caças Eurofighter Typhoon, antecipando-se à abertura formal do processo destinado a substituir os F-16 da Força Aérea Portuguesa. A iniciativa amplia a disputa por um programa que envolve não apenas a renovação da capacidade de combate aéreo portuguesa, mas também decisões de longo prazo sobre alianças, indústria de defesa, financiamento e autonomia tecnológica.

Portugal ainda não lançou oficialmente uma concorrência para substituir sua frota de F-16M modernizados. O país opera atualmente 28 aeronaves desse modelo, cuja introdução remonta à década de 1990, e o governo português já indicou que a substituição deverá considerar critérios técnicos, financeiros, industriais e geopolíticos antes de uma decisão política.

A proposta da Airbus deverá incluir alternativas de financiamento público e privado destinadas a distribuir o impacto dos pagamentos ao longo do programa, além de participação da indústria portuguesa e mecanismos de cooperação militar. O objetivo é apresentar o Eurofighter não apenas como uma aeronave, mas como parte de uma relação estratégica mais ampla com os países europeus envolvidos em seu desenvolvimento e produção.

O Eurofighter é produzido por um consórcio formado por Airbus, BAE Systems e Leonardo, envolvendo Alemanha, Espanha, Reino Unido e Itália. Para Lisboa, uma eventual escolha representaria maior inserção em uma cadeia industrial europeia de defesa e poderia ampliar a cooperação com esses países em áreas que ultrapassam a operação do próprio caça.

A Airbus sustenta que o perfil operacional da Força Aérea Portuguesa favorece o Typhoon. Segundo Ivan González Exposito, responsável pela campanha do Eurofighter em Portugal, as principais missões portuguesas concentram-se no policiamento aéreo, nas missões de alerta de reação rápida da OTAN e na proteção do espaço aéreo e das águas nacionais. A empresa utiliza esse argumento para defender que as capacidades do Typhoon atendem diretamente ao emprego previsto por Lisboa.

A comparação, contudo, não se limita ao desempenho individual dos aviões. O F-35 Lightning II da Lockheed Martin, permanece entre os principais concorrentes, ao lado do Rafale da Dassault Aviation, e do Gripen E da Saab. Cada alternativa envolve diferentes níveis de furtividade, sensores, integração em rede, armamentos, custos de ciclo de vida, participação industrial e inserção política dentro das estruturas de defesa europeias e da OTAN.

A dimensão industrial ganhou peso no debate português. Empresas estrangeiras já vêm estabelecendo entendimentos com o setor aeroespacial e de defesa local, buscando inserir companhias portuguesas nas respectivas cadeias de fornecimento, manutenção e desenvolvimento. A Dassault, por exemplo, formalizou em setembro um acordo com o AED Cluster Portugal relacionado ao Rafale, enquanto acordos semelhantes já haviam sido estabelecidos com Airbus, Lockheed Martin e Saab.

O governo português também sinaliza que pretende utilizar a competição para ampliar o retorno nacional da futura aquisição. O ministro da Defesa, Nuno Melo, afirmou que o processo deverá envolver uma avaliação técnica e comparativa das alternativas, considerando suas vantagens relativas e o contexto geopolítico. Segundo o ministro, a decisão será política, mas deverá ser sustentada por uma análise técnica conduzida no momento adequado.

Nesse cenário, a ofensiva comercial da Airbus ocorre antes mesmo da abertura formal da concorrência e busca estabelecer parâmetros para o debate. Ao oferecer simultaneamente financiamento, participação industrial e cooperação militar, o consórcio procura transformar a aquisição de uma nova frota de caças em um pacote mais amplo de relacionamento estratégico entre Portugal e seus parceiros europeus.

A disputa também ocorre em um momento de reavaliação das prioridades de defesa no continente. Para Portugal, substituir os F-16 significa definir a principal capacidade de combate aéreo do país para as próximas décadas, com impacto direto sobre infraestrutura, treinamento, logística, armamentos, manutenção e integração com a OTAN. A escolha, portanto, terá efeitos que permanecerão muito além do contrato inicial de aquisição.

Enquanto o processo oficial não é aberto, Airbus, Lockheed Martin, Dassault e Saab buscam consolidar suas posições junto ao governo, à Força Aérea e à indústria portuguesa. A apresentação antecipada do Eurofighter mostra que a competição já começou na prática, mesmo que a disputa formal ainda não tenha sido iniciada.


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Editorial - EDEF expõe o desafio que Brasília ainda precisa enfrentar: sem orçamento, a inovação da BID não vira capacidade de Defesa

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A "Operação Formosa 2026" ao lançar a "I Exposição de Defesa Expedicionária em Formosa" (EDEF), coloca diante de Brasília uma questão que ultrapassa a demonstração de equipamentos e tecnologias: o Brasil possui empresas capazes de desenvolver soluções sofisticadas para suas Forças Armadas, mas ainda precisa transformar essa capacidade tecnológica em produção continuada, escala industrial e presença sustentável no mercado. A feira demonstra que existe conhecimento, engenharia e capacidade empresarial para desenvolver sistemas nacionais, mas também evidencia o principal obstáculo enfrentado por uma indústria de alta complexidade: desenvolver um produto é apenas uma etapa de um ciclo que precisa terminar em aquisição, produção, emprego operacional, exportação e novos investimentos em tecnologia.

A relação entre as Forças Armadas e a Base Industrial de Defesa não pode, portanto, ficar limitada à apresentação de protótipos, avaliações técnicas ou demonstrações operacionais. O setor privado assume riscos relevantes ao desenvolver produtos que podem levar anos para atingir maturidade, enquanto os programas militares possuem ciclos igualmente longos e dependem de decisões orçamentárias que precisam atravessar diferentes governos. Quando não existe previsibilidade sobre a demanda futura, o investimento privado torna-se mais arriscado, os projetos avançam em ritmo irregular e empresas passam a ter dificuldade para preservar equipes especializadas e fornecedores capazes de acompanhar a evolução tecnológica.

Esse problema aparece justamente no intervalo entre desenvolvimento e aquisição. Uma empresa pode apresentar um sistema tecnicamente adequado, realizar testes, receber avaliações positivas e demonstrar capacidade operacional, mas, sem orçamento para uma encomenda compatível com a necessidade de defesa, o projeto corre o risco de permanecer em pequenas séries ou simplesmente deixar de avançar. Em setores nos quais os custos de engenharia, certificação, ferramental, integração e qualificação são elevados, produzir poucas unidades não permite diluir adequadamente os investimentos realizados no desenvolvimento, reduz a capacidade de aperfeiçoamento do produto e limita a sua competitividade internacional.

É nesse ponto que muitos projetos brasileiros acabam encontrando o que poderia ser chamado de “praia” da indústria de Defesa: conseguem chegar ao estágio de demonstração tecnológica, mas não atravessam a distância entre protótipo e capacidade industrial. O problema não está necessariamente na qualidade da solução desenvolvida, mas na ausência de uma sequência de decisões capaz de transformar tecnologia em produto, produto em série, série em escala e escala em mercado. Sem esse ciclo, o conhecimento permanece fragmentado e o investimento realizado não produz todo o retorno tecnológico, militar e econômico que poderia gerar.

A escala é particularmente importante porque uma cadeia industrial de Defesa não é formada apenas pela empresa responsável pelo produto final. Ao redor de um sistema complexo existe uma rede de fabricantes de componentes, empresas de software, eletrônica, sensores, materiais, usinagem, tratamento de superfícies, manutenção, logística, engenharia, certificação e serviços especializados. Quando a produção é interrompida ou reduzida a volumes muito pequenos, os efeitos atingem toda essa cadeia, dificultando a manutenção de fornecedores e aumentando o custo de retomada de programas no futuro.

Por isso, a aquisição nacional possui uma função que vai além do atendimento imediato às necessidades das Forças Armadas. Quando o próprio país de origem utiliza um sistema desenvolvido por sua indústria, cria-se uma referência operacional para o mercado externo. Isso não significa que um produto nacional necessariamente precise ser adquirido pelo Brasil para ser exportado, mas na prática, a existência de usuários domésticos, histórico operacional, suporte logístico e capacidade de evolução reduz incertezas para potenciais compradores estrangeiros e demonstra que existe uma estrutura nacional capaz de sustentar o produto ao longo de sua vida útil.

A exportação, por sua vez, pode ampliar significativamente essa escala. O mercado brasileiro é relevante, mas limitado diante dos volumes que determinadas indústrias precisam alcançar para amortizar investimentos em pesquisa e desenvolvimento. Uma empresa que consegue combinar encomendas nacionais com vendas externas amplia sua base de clientes, aumenta a produção, distribui custos fixos por uma quantidade maior de unidades e obtém recursos para financiar novas gerações de produtos. É nesse ponto que a política de exportação deixa de ser apenas uma questão comercial e passa a integrar a própria política de Defesa.

O Estado possui instrumentos para participar desse processo sem substituir a iniciativa privada. Crédito de longo prazo, garantias à exportação, apoio à pesquisa, mecanismos de financiamento, acordos de cooperação, diplomacia econômica e participação institucional em negociações internacionais podem reduzir obstáculos que uma empresa brasileira dificilmente consegue enfrentar sozinha. Produtos de Defesa também estão submetidos a decisões políticas, requisitos de segurança, autorizações governamentais e relações estratégicas entre Estados, o que torna a atuação diplomática particularmente relevante para ampliar mercados.

Essa dimensão econômica precisa ser incorporada de maneira mais clara ao debate nacional. A Base Industrial de Defesa não representa apenas um conjunto de empresas que fornece equipamentos para as Forças Armadas. O próprio Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços reconhece o setor como estratégico para a soberania, a inovação, a geração de empregos qualificados, o desenvolvimento de capacidades industriais de alta complexidade, a reindustrialização e a inserção brasileira nas cadeias globais de valor.

O dinheiro destinado a um programa de Defesa também não permanece integralmente dentro da empresa contratada. Ele percorre uma cadeia econômica que envolve salários, fornecedores, serviços, aquisição de máquinas, contratação de engenharia, transporte, manutenção, tecnologia, pesquisa, universidades e uma série de atividades que geram circulação de renda e arrecadação em diferentes níveis da Federação. Em audiência no Senado, dados apresentados com referência à SEPROD apontaram que cada R$ 1 investido em Defesa pode gerar R$ 9,80 em valor para o PIB, além de destacar o efeito da cadeia de fornecedores e da geração de empregos.

É importante distinguir esse multiplicador econômico de uma suposta devolução automática de recursos ao Tesouro. O retorno não significa que praticamente todo o valor gasto volte diretamente aos cofres públicos na forma de impostos. Parte do efeito ocorre pela atividade econômica adicional gerada ao longo da cadeia, enquanto outra parcela retorna ao setor público por meio de tributos, contribuições, salários, consumo, contratação de serviços e outros fluxos econômicos. A diferença é importante porque permite defender o investimento em Defesa com base em seus efeitos concretos, sem transformar uma estimativa de multiplicação econômica em uma promessa de arrecadação direta.

O caso de Itaguaí é uma demonstração prática desse processo. A implantação do Programa de Desenvolvimento de Submarinos, o PROSUB, não criou apenas uma estrutura para a construção e manutenção de submarinos da Marinha do Brasil. O programa formou uma concentração de capacidades industriais e tecnológicas envolvendo a Itaguaí Construções Navais (ICN), a Nuclebrás Equipamentos Pesados (NUCLEP), a Amazul, fornecedores nacionais e instituições vinculadas à pesquisa, engenharia e desenvolvimento tecnológico. Estudos sobre o programa identificaram efeitos positivos sobre o entorno de Itaguaí, incluindo geração de empregos, aumento da arrecadação municipal e contratação de empresas locais, além da possibilidade de formação de um cluster de Defesa no Estado do Rio de Janeiro.

O efeito econômico de um empreendimento dessa natureza também aparece nas atividades que não pertencem diretamente ao setor de Defesa. Uma cadeia industrial desse porte demanda soldadores, mecânicos, eletricistas, profissionais de logística, transporte, alimentação, limpeza, construção, manutenção predial, tecnologia da informação, hospedagem, comércio e serviços diversos. Restaurantes, lojas, empresas de manutenção, prestadores especializados e pequenos fornecedores passam a atender uma demanda criada por um programa militar, demonstrando que o impacto econômico de uma grande iniciativa de Defesa ultrapassa o perímetro da instalação militar ou da empresa responsável pelo contrato.

O PROSUB também evidencia outro aspecto importante: programas de longo prazo conseguem criar competências que permanecem no país. A formação de mão de obra especializada, a transferência de tecnologia, a nacionalização de componentes e a criação de fornecedores não desaparecem necessariamente quando uma etapa específica do programa termina. Parte desse conhecimento pode ser reaplicada em outros projetos, fortalecendo a capacidade industrial nacional. Um relatório produzido pela Escola Superior de Guerra, por exemplo, registra mais de 20 mil empregos diretos e indiretos associados ao PROSUB, além de destacar capacitação profissional, nacionalização, transferência de tecnologia e integração de empresas brasileiras à cadeia produtiva.

O Programa Fragatas Classe Tamandaré oferece outro exemplo desse mecanismo, agora em Itajaí, Santa Catarina. O programa deslocou para o município uma parcela relevante da atividade industrial relacionada à construção naval militar e criou uma demanda que alcança empresas, serviços e fornecedores ligados à construção, integração, manutenção e suporte. O Ipea realizou estudo específico sobre os benefícios econômicos gerados pelo programa no município, analisando a relação entre sua execução e a atividade econômica local.

A lógica se repete em diferentes escalas. Um contrato de Defesa pode movimentar empresas de engenharia, oficinas, fabricantes de componentes, fornecedores de aço e materiais especiais, empresas de tecnologia, universidades, centros de pesquisa e prestadores de serviços que, isoladamente, sequer seriam classificados como integrantes da indústria de defesa. Uma empresa de usinagem pode fornecer para Defesa e também atender posteriormente setores de energia ou petróleo; uma empresa de eletrônica pode desenvolver uma solução para uma aeronave e adaptá-la para aplicações civis; sistemas de comunicação, sensores, softwares, materiais e tecnologias autônomas podem encontrar utilização em agricultura, mineração, logística, infraestrutura, segurança, energia e espaço.

Essa capacidade de gerar tecnologias de uso dual é justamente uma das razões pelas quais a Estratégia Nacional de Defesa associou historicamente a reorganização da BID às necessidades das Forças Armadas e ao desenvolvimento de tecnologias nacionais com potencial de aplicação civil. A política industrial de Defesa, portanto, não deve ser analisada somente pela quantidade de equipamentos entregues aos militares, mas também pela capacidade de criar competências tecnológicas que possam ser aproveitadas por outros segmentos da economia.

O investimento em Defesa também produz efeitos sobre a formação de capital humano. Projetos complexos demandam engenheiros, técnicos, programadores, pesquisadores, especialistas em materiais, profissionais de integração de sistemas e trabalhadores qualificados. A existência de programas de longo prazo oferece às universidades, institutos tecnológicos e escolas técnicas um mercado capaz de absorver esse conhecimento, enquanto empresas passam a ter maior incentivo para formar e reter profissionais. Quando esses programas são interrompidos, o país não perde apenas máquinas ou contratos: pode perder equipes inteiras e conhecimento acumulado ao longo de anos.

É por isso que a discussão sobre orçamento de Defesa não deveria se limitar à dimensão contábil do gasto. Existe uma diferença econômica importante entre consumir recursos para adquirir um produto estrangeiro pronto e utilizar parte desse recurso para desenvolver, fabricar, integrar e manter uma capacidade nacional. A importação pode ser necessária quando não existe solução doméstica ou quando determinados requisitos exigem tecnologia externa, mas a participação nacional, sempre que tecnicamente e economicamente viável, permite que uma parcela maior do valor permaneça no país e alimente a cadeia produtiva brasileira.

Essa lógica também ajuda a explicar por que países que possuem grandes indústrias de Defesa utilizam suas próprias Forças Armadas como clientes iniciais de tecnologias nacionais. China, Türkiye, Índia, Coreia do Sul e Emirados Árabes Unidos adotaram, em diferentes contextos e com modelos próprios, mecanismos que combinam demanda estatal, investimento tecnológico, financiamento, desenvolvimento industrial e busca por mercados externos. Não se trata de reproduzir qualquer desses modelos no Brasil, mas de compreender que grandes capacidades industriais de Defesa normalmente resultam de uma combinação entre Estado, indústria, pesquisa, financiamento e mercado.

O Brasil já percorreu esse caminho em escala relevante. Durante as décadas de 1970 e 1980, empresas como Engesa, Avibras e Embraer formaram parte de uma indústria de Defesa que alcançou presença internacional significativa. O país chegou a figurar entre os principais exportadores mundiais de produtos de Defesa naquele período, enquanto empresas brasileiras desenvolviam veículos blindados, foguetes, aeronaves e outros sistemas com forte participação nacional. O Ministério da Defesa reconhece que o Brasil chegou a ocupar posição de destaque entre os exportadores de produtos de Defesa nos anos 1980.

A crise do início dos anos 1990 mostrou, entretanto, como rapidamente essa capacidade pode ser comprometida quando a demanda externa desaparece e o mercado doméstico não consegue absorver a produção. O fim da Guerra Fria e a redução das encomendas internacionais, somados à retração das compras nacionais, atingiram diretamente a indústria brasileira. A Engesa entrou em falência em 1993, enquanto projetos como o Tamoio e o Charrua, desenvolvidos pela Bernardini, não chegaram a se consolidar como programas de produção em escala. Estudos sobre a trajetória da indústria brasileira de blindados associam esse período à queda da demanda interna, à redução dos investimentos e à interrupção de projetos tecnológicos.

A experiência da Mectron representa outro tipo de vulnerabilidade. A empresa havia desenvolvido competências importantes em sistemas eletrônicos e mísseis, incluindo participação em programas estratégicos, mas sua trajetória empresarial acabou submetida a processos de aquisição, reorganização societária e dificuldades relacionadas ao grupo controlador. O caso demonstra que conhecimento tecnológico acumulado em empresas de alta complexidade também pode ficar vulnerável quando não existe uma combinação estável de demanda, financiamento, capital e política industrial capaz de preservar essas competências ao longo do tempo.

A Avibras representa, atualmente, um caso ainda mais emblemático porque sua trajetória atravessa diferentes ciclos da indústria brasileira de Defesa. A empresa foi uma das grandes referências nacionais no desenvolvimento de foguetes e sistemas de artilharia de foguetes, alcançou mercados internacionais e posteriormente enfrentou sucessivas dificuldades financeiras. A situação atual da companhia, incluindo a mudança de controle e as expectativas de novos investimentos e expansão internacional, demonstra que a gestão privada possui papel fundamental, mas também evidencia que a sobrevivência de uma empresa dessa complexidade não depende exclusivamente de seus acionistas.

Gestão privada é necessária, mas uma BID de alta complexidade não se sustenta apenas com capital privado. O Estado precisa criar as condições de mercado para que o investimento tecnológico tenha onde se apoiar. Isso envolve política de Defesa, política industrial, financiamento adequado, garantias, instrumentos de exportação, diplomacia, encomendas nacionais e previsibilidade orçamentária. Sem esses elementos, mesmo uma empresa tecnicamente competente pode encontrar dificuldade para financiar ciclos de desenvolvimento que ultrapassam o horizonte normal de retorno de um investimento privado.

O mesmo princípio vale para empresas menores que aparecem na EDEF 2026. Muitas delas desenvolveram soluções específicas a partir de necessidades identificadas pelas Forças Armadas e investiram recursos próprios ou obtiveram apoio de instituições públicas para chegar a protótipos e produtos. O problema seguinte é criar condições para que essas empresas tenham uma demanda suficientemente previsível para contratar profissionais, ampliar instalações, qualificar fornecedores, certificar produtos e desenvolver novas versões.

A previsibilidade orçamentária é, portanto, parte da própria infraestrutura industrial da Defesa. Não basta anunciar programas de longo prazo se os recursos destinados à sua execução são frequentemente contingenciados, adiados ou distribuídos de maneira incompatível com o ciclo de produção. Uma indústria que precisa investir hoje para entregar daqui a três, cinco ou dez anos necessita de alguma visibilidade sobre a demanda futura para tomar decisões de capital, contratar profissionais e estabelecer contratos com fornecedores.

Essa previsibilidade também reduz custos para o próprio Estado. Quando uma linha de produção é mantida, a empresa conserva ferramentas, profissionais, fornecedores e conhecimento acumulado. Quando um programa é interrompido por longos períodos, a retomada normalmente exige reconstrução de equipes, requalificação de fornecedores, reativação de instalações e atualização de processos, muitas vezes a custos superiores aos que seriam necessários para manter uma produção mínima contínua.

A política de Defesa precisa, portanto, trabalhar com o conceito de ciclo de vida. O custo de um sistema não está limitado à aquisição inicial, mas inclui desenvolvimento, produção, treinamento, manutenção, modernização, reposição, atualização tecnológica e eventual substituição. Quando uma parcela relevante desse ciclo é realizada no país, o recurso empregado na Defesa alimenta competências que podem permanecer disponíveis para o Estado durante décadas.

Essa visão também modifica a forma de analisar o retorno de um programa de defesa. O benefício não está apenas no equipamento entregue à tropa. Existe o valor operacional para as Forças Armadas, o conhecimento tecnológico desenvolvido, a cadeia produtiva mobilizada, os empregos criados, a formação de profissionais, os impostos gerados, a infraestrutura instalada, os fornecedores qualificados, as possibilidades de exportação e as aplicações civis derivadas da tecnologia desenvolvida. O Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços reconhece justamente essa combinação entre soberania, inovação, emprego qualificado e desenvolvimento industrial como parte estratégica do setor de Defesa.

O desafio, nesse sentido, é fazer com que o investimento em defesa produza o maior efeito nacional possível sem transformar a política de Defesa em simples instrumento de política industrial. A necessidade militar deve continuar sendo o ponto de partida: as Forças Armadas precisam receber capacidades adequadas às suas missões. A partir dessa necessidade, entretanto, cabe ao Estado buscar soluções que preservem conhecimento nacional, estimulem a cadeia produtiva e reduzam dependências estratégicas quando isso for técnica e economicamente viável.

A BID também precisa ser competitiva. Proteção estatal sem exigência de desempenho pode gerar empresas dependentes de contratos públicos e produtos pouco competitivos. O objetivo deve ser diferente: utilizar a demanda do Estado como instrumento de escala inicial, desenvolvimento tecnológico e qualificação industrial, criando condições para que as empresas posteriormente disputem mercados internacionais com qualidade, preço, suporte logístico e capacidade de atualização.

É justamente por isso que exportação e diplomacia precisam caminhar juntas. Uma empresa brasileira pode possuir um produto competitivo e ainda assim enfrentar dificuldades para entrar em determinados mercados por razões políticas, financeiras ou estratégicas. A atuação do Estado brasileiro pode contribuir por meio de acordos, missões oficiais, garantias, mecanismos de financiamento e articulação diplomática. Em Defesa, o comprador estrangeiro não avalia apenas o produto; avalia também a capacidade do país fornecedor de garantir suporte, continuidade, peças, treinamento e relacionamento institucional.

Quanto maior a escala de exportação, maior também a capacidade de reduzir custos unitários e preservar linhas de produção. Isso beneficia as próprias Forças Armadas brasileiras, que passam a contar com uma base industrial mais robusta e produtos que podem ser continuamente modernizados. O exportador, por sua vez, passa a ter receita externa, acesso a novos mercados e maior capacidade de financiar pesquisa e desenvolvimento.

A economia nacional ganha ainda com a permanência dessas competências. Uma empresa que domina sistemas de guiagem, sensores, materiais compostos, inteligência artificial, comunicações seguras, propulsão, eletrônica embarcada ou integração de sistemas possui ativos tecnológicos que podem encontrar aplicações fora do mercado de defesa. Em vez de importar continuamente essas capacidades, o país pode desenvolver competências próprias e transformá-las em novos produtos e serviços.

Essa é uma das razões pelas quais a BID deve ser tratada como instrumento de soberania tecnológica. A dependência externa não significa apenas comprar um equipamento de outro país; significa depender de decisões estrangeiras para manutenção, atualização, disponibilidade de componentes e acesso a determinadas tecnologias. Em situações de crise internacional, sanções, mudanças de alianças ou interrupções de cadeias globais, essa dependência pode se transformar em uma vulnerabilidade operacional.

O papel do Estado, portanto, não é simplesmente gastar mais em Defesa, mas gastar de maneira capaz de construir capacidade. Isso exige planejamento, priorização, acompanhamento de resultados, contratos de longo prazo, mecanismos de financiamento e estabilidade dos programas considerados estratégicos. Exige também que a indústria cumpra seus compromissos de desempenho, custo, prazo e qualidade, evitando que a defesa da produção nacional seja confundida com tolerância a ineficiência.

É justamente nesse ponto que a EDEF 2026 deve ser observada. O evento demonstra que existe uma indústria capaz de apresentar soluções, interagir com usuários militares e desenvolver tecnologias para diferentes necessidades operacionais, mas o valor dessa capacidade será determinado pelo que ocorrer depois da demonstração. O desafio está em transformar avaliação em decisão, decisão em contrato, contrato em produção, produção em escala e escala em capacidade permanente de desenvolvimento e exportação.

O Brasil já demonstrou que possui engenharia, conhecimento e empresas capazes de desenvolver tecnologias de Defesa. Também já demonstrou, pela experiência das últimas décadas, que essa capacidade pode desaparecer quando a demanda se interrompe e a continuidade deixa de existir. A história da Engesa, dos projetos da Bernardini, da trajetória da Avibras e das dificuldades enfrentadas por empresas como a extinta Mectron mostra que a perda de capacidade industrial ocorre gradualmente: a redução da demanda compromete a produção, a produção insuficiente enfraquece fornecedores, a perda de escala reduz investimentos, equipes deixam de ser preservadas e, ao final, o país pode perder a capacidade de desenvolver aquilo que antes dominava.

Reconstruir esse conhecimento é muito mais difícil e caro do que preservá-lo, e essa é a razão pela qual a discussão sobre a BID precisa superar a lógica de eventos, anúncios e contratos isolados. O empresário precisa investir e administrar com eficiência; as Forças Armadas precisam definir requisitos e avaliar capacidades; a indústria precisa entregar desempenho, qualidade e competitividade; os bancos e agentes de fomento precisam oferecer instrumentos compatíveis com os ciclos tecnológicos; a diplomacia precisa contribuir para abrir mercados; e o Estado precisa dar previsibilidade orçamentária às decisões de longo prazo. Nenhum desses atores, isoladamente, consegue sustentar uma indústria de Defesa de alta complexidade.

Sem essa convergência, o Brasil continuará correndo o risco de produzir tecnologias relevantes que não chegam a se transformar em capacidades militares permanentes. Com uma demanda doméstica previsível, produção em escala, financiamento adequado, apoio à exportação e continuidade dos programas, o ciclo pode funcionar de maneira oposta: a encomenda nacional sustenta a produção, a produção preserva a cadeia tecnológica, a escala melhora a competitividade, a exportação amplia o mercado e a receita e o conhecimento acumulados alimentam novos ciclos de desenvolvimento.

É esse ambiente que determinará se a nova geração da BID brasileira conseguirá consolidar o processo de reconstrução iniciado no começo dos anos 2000 ou se continuará vulnerável a ciclos de expansão e retração. A EDEF 2026 oferece uma fotografia do que o país é capaz de desenvolver hoje; o desafio de Brasília é assegurar que essas capacidades não permaneçam restritas à demonstração, mas encontrem orçamento, programas de aquisição, escala produtiva, financiamento e mercados capazes de mantê-las ativas por décadas. O Brasil já construiu uma indústria de Defesa de grande relevância, perdeu parte expressiva dela e levou décadas para recuperar competências. A oportunidade atual é transformar essa reconstrução em capacidade industrial permanente, reduzindo a dependência externa, fortalecendo as Forças Armadas e criando condições para que a inovação brasileira alcance escala e mercado.


Por Angelo Nicolaci — jornalista, analista e especialista em Geopolítica e Defesa, fundador e editor do GBN Defense. Atuante como consultor e conselheiro, com interlocução junto a representações diplomáticas, adidos de defesa, autoridades, instituições e indústria de defesa no Brasil e no exterior. Desde 2017, atua na aproximação Brasil–Türkiye e nos debates sobre Defesa, Geopolítica e Relações Internacionais.


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"I EDEF 2026" aproxima a BID de usuários militares e abre vitrine internacional em Formosa

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A "I Exposição de Defesa Expedicionária" (EDEF 2026) realizada entre 22 e 24 de setembro no Centro de Instrução de Formosa (CIF), em Goiás, levou para o ambiente operacional da "Operação Formosa 2026" uma parcela significativa das capacidades desenvolvidas pela Base Industrial de Defesa (BID) brasileira. Mais de 15 empresas participaram da exposição, apresentando veículos, mísseis, sistemas não tripulados, radares, sensores, munições e soluções de comando, controle e defesa antidrone.

O diferencial da EDEF 2026 está justamente no ambiente em que ocorre. Em vez de concentrar indústria e público em uma exposição convencional, a iniciativa colocou os produtos diante de militares envolvidos em uma operação de grande porte, permitindo relacionar as soluções apresentadas aos requisitos efetivos de emprego. Essa aproximação envolve desde a identificação de necessidades operacionais até a avaliação de tecnologias em campo e o desenvolvimento de novos sistemas.

Entre os equipamentos apresentados esteve o Centauro II da IDV, plataforma do programa VBC Cav-MSR do Exército Brasileiro. A viatura 8x8 utiliza a torre HITFACT MkII, armada com canhão de 120 mm, reunindo mobilidade, proteção e poder de fogo em uma plataforma de elevada mobilidade tática. Embora operado pelo Exército Brasileiro, o veículo foi apresentado na EDEF pela própria IDV, responsável pelo programa industrial.

O Centauro II também aparece em outro debate dentro das Forças Armadas brasileiras. A plataforma está entre as consideradas como potencial substituta dos SK-105 Kürassier utilizados pelo Corpo de Fuzileiros Navais, embora não exista, até o momento, qualquer definição. A possibilidade é particularmente relevante no contexto de uma força expedicionária, na qual mobilidade, proteção e capacidade de fogo precisam ser combinadas em uma mesma plataforma.

No programa VBC Cav, conforme apurado pelo correspondente do Zona Militar no Brasil, Angelo Nicolaci, a produção do Centauro II deverá avançar para o Brasil após a conclusão do quinto lote. A transferência amplia a participação nacional no programa e está relacionada ao processo de nacionalização da fabricação da plataforma.

Outro produto da IDV exposto em Formosa foi o VBTP-MR Guarani, operado pelo Exército Brasileiro, desenvolvido e produzido no país pela empresa em sua unidade de Sete Lagoas, Minas Gerais. A presença simultânea do Guarani e do Centauro II permitiu observar duas plataformas de categorias distintas dentro da atual estrutura de veículos blindados do Exército e de sua cadeia industrial nacional.

Também no campo de comando, controle e comunicações, o Centro Tecnológico do Exército (CTEx) demonstrou em Formosa as capacidades desenvolvidas no Projeto RDS DEFESA. A versão veicular V4 foi instalada em uma VBTP-MSR Guarani do 36º Batalhão de Infantaria Mecanizada e no Posto de Comando da Força Conjunta Componente, permitindo comunicação segura de voz, transmissão de dados de localização e rastreamento dos deslocamentos. O rádio foi integrado ao SPECTRA, sistema desenvolvido pelo Centro de Apoio a Sistemas Operativos (CASOP) da Marinha do Brasil, demonstrando na prática a interoperabilidade entre sistemas de comando, controle e comunicações das Forças Armadas. O equipamento também passou por testes operacionais conduzidos por militares do Centro de Avaliações do Exército (CAEx), dentro do processo de Teste e Avaliação, enquanto sua instalação, configuração e operação envolveram militares do Batalhão de Comando e Controle do Corpo de Fuzileiros Navais.

No segmento de armas anticarro, a SIATT, integrante do EDGE Group, apresentou o Sistema de Míssil Anticarro Expedicionário (SMACE). A solução emprega o Max 1.2 AC associado a sistemas não tripulados e a uma plataforma 4x4 leve de emprego expedicionário. A empresa está integrando o sistema a uma viatura GMC 4x4 dessa categoria, também adotada pelas forças norte-americanas.

A proposta do SMACE vai além da integração física do míssil à viatura. Sua arquitetura permite utilizar sistemas não tripulados para reconhecimento, detecção e aquisição de alvos, estabelecendo uma estrutura conectada entre sensores, plataformas e armamento. O conceito atende a diferentes cenários de emprego terrestre, litorâneo, anfíbio e expedicionário, nos quais a mobilidade e a capacidade de identificar alvos antes do engajamento são fatores relevantes.

No campo da defesa costeira, o MANSUP, Míssil Antinavio de Superfície, também esteve entre as capacidades apresentadas. Desenvolvido pela indústria brasileira para emprego naval, o armamento pode igualmente ser integrado ao sistema ASTROS para lançamento terrestre, permitindo explorar a mesma família de mísseis em diferentes arquiteturas de emprego e acrescentando uma capacidade antinavio baseada em terra.

A ADTECH - SD levou para a EDEF o SARP Harpia, o radar AESA portátil Atalaia e o Sistema de Monitoramento e Defesa Antidrone SIMAD. O conjunto cobre diferentes etapas da vigilância e proteção contra ameaças aéreas não tripuladas, desde detecção e acompanhamento até a resposta contra drones.

O Harpia já é empregado em atividades de segurança pública nos estados do Acre e do Amazonas, além de estar em estudos para integração a outras secretarias. Durante a Operação Furnas 2026, o sistema chamou a atenção do Corpo de Fuzileiros Navais diante da possibilidade de emprego pela Força Expedicionária da Marinha e também a bordo de navios da Marinha do Brasil. O Atalaia, por sua vez, oferece uma solução radar AESA transportável, capaz de proporcionar ampla cobertura do terreno para a detecção e acompanhamento de drones e de aeronaves militares hostis, enquanto o SIMAD é direcionado à detecção, acompanhamento e defesa contra sistemas não tripulados.

A Modirum/Gespi apresentou soluções voltadas principalmente às necessidades da Marinha do Brasil e do Corpo de Fuzileiros Navais, incluindo drones de ataque do tipo loitering munition, munições e outros recursos destinados ao emprego operacional. A diversidade de sistemas expostos demonstra que a EDEF não ficou limitada aos grandes programas de plataformas, abrangendo também tecnologias destinadas a ampliar a capacidade de unidades menores e forças expedicionárias.

A Xmobots Defense levou à Operação Formosa 2026 o Nauru 100D, nas configurações ISR e UCAV, e o XSIS 222A, submetendo os sistemas a demonstrações em ambiente operacional. Entre as atividades, duas plataformas Nauru foram empregadas de forma coordenada, explorando capacidades de Inteligência, Vigilância e Reconhecimento (ISR), aquisição de informações e ampliação da consciência situacional. O emprego conjunto dos sistemas permitiu avaliar, em um cenário de exercício militar de grande escala, a integração entre diferentes plataformas não tripuladas e sua aplicação em missões que exigem coleta de dados, acompanhamento do campo de batalha e apoio à tomada de decisão.

A exposição ocorreu dentro de uma operação que reuniu as três Forças Armadas brasileiras. Marinha do Brasil, Exército Brasileiro e Força Aérea Brasileira, permitindo que os sistemas apresentados pela BID fossem observados dentro de um cenário marcado pela interoperabilidade e por diferentes necessidades de emprego militar.

O componente internacional foi outro elemento relevante da edição deste ano. A Operação Formosa contou com 115 militares estrangeiros, sendo 55 norte americanos do USMC, 40 militares da Tropa de Marinha do Exército Francês e 20 fuzileiros navais paraguaios. Esses contingentes participaram efetivamente das atividades do exercício, realizando ações combinadas e intercâmbio com as forças brasileiras.

A EDEF também recebeu observadores estrangeiros e adidos militares de diferentes países. A presença desse público ampliou a exposição internacional dos sistemas brasileiros, que puderam ser conhecidos no cenário associado a uma operação militar realística, e não somente por meio de apresentações comerciais. Para as empresas da BID, esse contato cria uma oportunidade de demonstrar capacidades e identificar possíveis interesses externos em suas soluções.

A edição de 2026 teve, contudo, uma particularidade: não houve presença da imprensa na Operação Formosa, em razão das restrições relacionadas ao Defeso Eleitoral. A limitação ocorreu justamente em uma edição que reuniu forças brasileiras, tropas estrangeiras, observadores, adidos militares e empresas da indústria de defesa em um mesmo ambiente.

O conjunto apresentado em Formosa evidencia uma BID que atua em diferentes níveis tecnológicos e operacionais, desde veículos blindados de grande porte e sistemas de armas até radares, drones, sensores, munições e sistemas de defesa antidrone. A EDEF permitiu que esses produtos fossem colocados diante dos usuários militares em um contexto no qual requisitos operacionais, mobilidade, integração e interoperabilidade deixam de ser apenas características de catálogo e passam a ser avaliados sob a perspectiva de seu emprego.

Nesse sentido, a principal característica da EDEF está na aproximação entre quem desenvolve e fabrica os sistemas e quem efetivamente os utiliza. A exposição cria condições para que necessidades identificadas no exercício alimentem processos de avaliação, aperfeiçoamento e desenvolvimento tecnológico, enquanto a indústria pode apresentar soluções já disponíveis ou em evolução diretamente aos operadores.

A presença simultânea de militares brasileiros e estrangeiros também dá à EDEF uma dimensão que ultrapassa o mercado doméstico. Para a BID, colocar seus sistemas diante de contingentes dos Estados Unidos, França e Paraguai, além de observadores e adidos de outros países, significa apresentar capacidades nacionais em um ambiente operacional multinacional, associando produto, emprego e experiência prática.

Mais do que uma feira inserida na programação da Operação Formosa, a EDEF abre um espaço próprio como ponto de encontro entre requisitos militares, desenvolvimento tecnológico e indústria de defesa nacional.


Por Angelo Nicolaci


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quinta-feira, 24 de setembro de 2026

Acidente com Hawk T2 leva RAF a suspender operações da frota de treinamento

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Dois pilotos da Royal Air Force (RAF) sofreram ferimentos leves após ejetarem de um Hawk T2 que caiu na quarta-feira (23), nas proximidades da RAF Valley, em Anglesey, no País de Gales. A aeronave havia acabado de decolar para uma missão de treinamento quando ocorreu o incidente. Os dois tripulantes foram encaminhados para atendimento médico e, segundo a RAF, devem se recuperar completamente.

O acidente ocorreu próximo à localidade de Pencarnisiog, a poucos quilômetros da base utilizada pela No. 4 Flying Training School, responsável pelo treinamento avançado de pilotos da RAF e da Royal Navy. A aeronave caiu em uma área afastada de concentrações urbanas e não houve registro de vítimas ou feridos no solo.

A RAF determinou a suspensão preventiva dos voos dos Hawk T1 e Hawk T2 enquanto a investigação sobre o acidente prossegue. A medida também afeta os Hawk T1 empregados pelos Red Arrows, embora essa variante tenha função distinta da versão T2 utilizada no treinamento avançado. Até o momento, a Força Aérea britânica não divulgou a causa do acidente.

Registros feitos por testemunhas indicam que a aeronave apresentou dificuldades logo após a decolagem. Há relatos de uma chama durante a aceleração, seguida por uma subida anormal e pela ejeção dos dois pilotos. Essas informações serão avaliadas pelos investigadores, mas não permitem estabelecer a origem da emergência.

O Hawk T2 ocupa uma posição importante no sistema britânico de formação de pilotos de combate. A aeronave prepara aviadores para a transição para caças de primeira linha, incluindo o Eurofighter Typhoon e o F-35, funcionando como uma etapa entre a formação básica e a operação de aeronaves de maior desempenho e complexidade.

A RAF recebeu 28 Hawk T2 para essa função, e a aeronave perdida no acidente representa a primeira baixa dessa variante desde sua entrada em serviço britânica. A frota relativamente pequena torna a disponibilidade das aeronaves um fator relevante para manter o fluxo de treinamento, especialmente diante das necessidades de formação associadas à aviação de combate britânica.

O acidente ocorre enquanto o Reino Unido já trabalha na substituição do Hawk T2. Problemas anteriores de disponibilidade, incluindo dificuldades relacionadas ao propulsor Adour, contribuíram para a revisão do planejamento de vida útil da frota e para o avanço de estudos destinados a desenvolver um novo sistema britânico de treinamento a jato.

A suspensão atual, contudo, não deve ser associada automaticamente aos problemas anteriores. A RAF ainda precisa determinar se houve falha mecânica, problema operacional ou uma combinação de fatores. A investigação deverá analisar os dados do voo, a aeronave, os sistemas envolvidos e as circunstâncias que levaram os pilotos a realizar a ejeção.

O episódio também evidencia a importância da disponibilidade da frota de treinamento para a geração de capacidade de combate. Enquanto a RAF amplia sua operação de aeronaves como Typhoon e F-35, precisa manter uma cadeia de formação capaz de entregar pilotos qualificados em quantidade suficiente para sustentar essas forças.

Por enquanto, a prioridade britânica é esclarecer as circunstâncias do acidente e definir as condições para o retorno seguro dos Hawk às operações. A perda da aeronave, somada à suspensão preventiva da frota, coloca o programa de treinamento avançado sob atenção justamente no período em que o Reino Unido prepara a próxima geração de seu sistema de formação de pilotos de combate.


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DDX: Itália assina contrato de €3,7 bilhões e inicia nova geração de destróieres

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A Itália deu nesta quinta-feira (24) o primeiro passo contratual para sua nova geração de grandes navios de superfície. A Orizzonte Sistemi Navali (OSN), joint venture formada por Fincantieri e Leonardo, assinou com a OCCAR um contrato avaliado em aproximadamente €3,7 bilhões para o programa DDX, destinado ao desenvolvimento, construção, estudos logísticos e suporte inicial em serviço de dois novos destróieres para a Marina Militare. A primeira unidade tem entrega prevista para 2033 e a segunda para 2035, enquanto o acordo contempla cerca de €1,3 bilhão em opções.

O DDX representa uma mudança de escala na capacidade de combate da frota italiana. O projeto foi concebido para ampliar a defesa aérea e antimíssil da força naval e integrar, desde a concepção, sensores, sistemas de armas, comando e controle, gerenciamento da plataforma e meios não tripulados em uma arquitetura digital única. A proposta coloca o navio dentro de uma lógica multidomínio na qual a capacidade de produzir, processar e distribuir informação passa a ser determinante para o emprego do armamento.

Com 180 metros de comprimento e deslocamento de aproximadamente 13.500 toneladas, o DDX terá autonomia estimada em 4.000 milhas náuticas e tripulação de cerca de 251 militares. A Fincantieri será responsável pela integração da plataforma, enquanto a Leonardo desenvolverá o sistema de combate. Essa divisão concentra nas duas principais empresas italianas as competências necessárias para integrar arquitetura naval, energia, sensores, software, comunicações e armamentos em um único sistema operacional.

O núcleo eletrônico será baseado no SADOC 5 C5I, associado a um radar AESA de alta potência e totalmente digital em banda S. O conjunto será integrado ao sistema de armas da MBDA e projetado para emprego contra diferentes classes de ameaças aéreas e de mísseis, incluindo ameaças balísticas e hipersônicas. A arquitetura está vinculada ao projeto Michelangelo, da Leonardo, que busca ampliar a capacidade de coordenação e gerenciamento da batalha aérea a partir de uma mesma estrutura de combate.

A relevância desse arranjo está na integração entre detecção e decisão. Em um cenário de saturação por mísseis, drones e aeronaves, o alcance individual de um sensor deixa de ser suficiente se a informação não puder ser rapidamente correlacionada e distribuída para os elementos capazes de reagir. O DDX foi concebido para operar com forças multinacionais altamente conectadas, permitindo o compartilhamento de informações entre diferentes plataformas e centros de comando.

A arquitetura física também foi desenvolvida para sustentar o crescimento tecnológico ao longo da vida útil do navio. O projeto incorpora uma sub-rede elétrica em corrente contínua, armazenamento de energia e novas soluções para o equilíbrio térmico e elétrico da plataforma. Também estão previstas evoluções no sistema de gerenciamento do navio e no sistema de estabilização integrado ao governo. Na prática, a capacidade energética passa a ser tratada como componente da arquitetura de combate e não apenas como requisito de propulsão e serviços de bordo.


Outro elemento central é o conceito Navis Sapiens, desenvolvido pela Fincantieri para transformar o navio em uma plataforma digital capaz de coletar, correlacionar e utilizar os dados produzidos pelos próprios sistemas. A arquitetura deverá ser conectada ao ambiente de terra por meio do Fincantieri Digital Ecosystem, permitindo integração entre o navio e a infraestrutura naval, além de aplicações voltadas à manutenção preditiva, logística e suporte ao ciclo de vida.

Essa digitalização também abre espaço para uma utilização mais ampla de sistemas não tripulados. Segundo a Fincantieri, o DDX poderá gerenciar de forma integrada veículos de superfície e submarinos não tripulados, utilizando esses meios para ampliar a capacidade de descoberta e proteção contra ameaças aéreas, de superfície e submarinas. O destróier passa, dessa forma, a funcionar como um nó de comando para sensores e plataformas distribuídas além dos limites físicos do próprio casco.

A consequência operacional é importante: o navio não precisa necessariamente expor seus próprios sensores a todas as áreas de interesse. Meios não tripulados podem ser empregados para ampliar a vigilância, investigar contatos ou produzir informações adicionais, enquanto o DDX permanece como elemento de processamento, coordenação e decisão. Essa distribuição permite aumentar a consciência situacional sem exigir que cada missão seja executada exclusivamente pelos sistemas embarcados no combatente principal.

O programa também foi concebido considerando a evolução tecnológica durante décadas de serviço. A arquitetura deverá permitir a incorporação futura de novas capacidades, e a OCCAR destaca a preocupação com espaço e margem de crescimento para tecnologias que ainda estão em desenvolvimento, incluindo armas de energia dirigida. Essa característica é particularmente relevante para um navio cuja entrada em serviço ocorrerá apenas na próxima década e que deverá permanecer operacional por várias décadas.

Industrialmente, o DDX concentra uma parcela significativa da capacidade italiana de defesa naval. A OSN é controlada pela Fincantieri, com 51%, e pela Leonardo, com 49%. Os contratos associados às duas empresas somam aproximadamente €3,5 bilhões, sendo cerca de €1,8 bilhão destinados à Fincantieri, incluindo aproximadamente €800 milhões em opções, e €1,7 bilhão à Leonardo, com cerca de €480 milhões em opções. O escopo contempla não apenas construção, mas desenvolvimento, integração, estudos logísticos e suporte inicial.

A estrutura evidencia uma política industrial de longo prazo. Um programa dessa dimensão mantém demanda por engenharia naval, eletrônica, software, sensores, sistemas de armas, gerenciamento energético e manutenção especializada durante todo o ciclo de desenvolvimento e entrada em serviço. A continuidade desse trabalho também preserva competências que dificilmente podem ser reconstruídas rapidamente depois de perdidas, particularmente em áreas de alta complexidade tecnológica.

O DDX deve ainda ser entendido como parte de uma arquitetura maior de renovação da Marina Militare. A Itália mantém programas paralelos envolvendo fragatas FREMM, PPA e submarinos U212 NFS, formando uma frota em que diferentes classes assumem funções distintas, mas precisam compartilhar informações e operar dentro de uma mesma estrutura de comando. Nesse modelo, o destróier passa a concentrar capacidades de maior alcance e complexidade na defesa aérea, antimíssil e coordenação da força.

Há uma questão de classificação e substituição que merece precisão. A Fincantieri apresenta o DDX como evolução e substituição dos destróieres classe Horizon, enquanto a OCCAR enquadra o programa no processo de renovação dos grandes navios de superfície italianos e cita a substituição dos destróieres classe Durand de la Penne. A diferença está na forma como cada organização descreve a transição da frota, mas não altera o objetivo central do programa: introduzir uma nova geração de combatentes de superfície com capacidades significativamente superiores de defesa aérea, comando e controle e integração de sistemas.

O DDX demonstra, portanto, uma transformação que já ultrapassa a simples evolução de armamentos. A Itália está desenvolvendo um conceito no qual casco, energia, sensores, software, comunicações, sistemas de armas e plataformas não tripuladas são projetados para funcionar dentro de uma mesma arquitetura. O resultado pretendido é uma unidade capaz de atuar como sensor, centro de comando, plataforma de defesa aérea e antimíssil e controlador de sistemas distribuídos.

Com a assinatura realizada hoje, a Itália inicia um programa que deverá atravessar toda a próxima década antes da entrada em serviço da primeira unidade. O verdadeiro alcance do DDX, entretanto, estará menos no número de navios construídos do que na capacidade industrial e tecnológica desenvolvida para mantê-los relevantes diante da rápida evolução dos mísseis, drones, guerra eletrônica, inteligência artificial, sistemas autônomos e operações multidomínio. É nesse ponto que o programa deixa de ser apenas um projeto naval italiano e passa a oferecer uma referência concreta sobre o caminho tecnológico que os grandes combatentes de superfície estão tomando.


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Drones avançam no Brasil e colocam soberania tecnológica, indústria e Defesa diante de um novo desafio

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O Brasil entrou em uma nova etapa no emprego de sistemas aéreos remotamente pilotados (SARPs). Em agosto de 2026, havia 177 mil drones cadastrados na Agência Nacional de Aviação Civil (Anac), com mais de 10 mil novos registros por mês, mais de 400 mil autorizações de voo realizadas pelo Departamento de Controle do Espaço Aéreo (DECEA) e mais de 5 mil quilômetros de rotas de entrega já em operação. Os números apresentados durante audiência pública da Comissão de Ciência, Tecnologia, Inovação e Informática (CCT) do Senado mostram que os drones deixaram de representar apenas uma tecnologia emergente e passaram a integrar atividades econômicas, serviços públicos, segurança e Defesa.

O crescimento ocorre em múltiplos setores, da agricultura à logística, saúde, busca e salvamento, meio ambiente, manutenção urbana e segurança pública. Na Amazônia, por exemplo, a tecnologia pode reduzir limitações impostas pelas grandes distâncias e ampliar a conexão com comunidades isoladas, enquanto aplicações de vigilância oferecem às forças de segurança uma visão aérea em tempo real. A própria Secretaria Nacional de Aviação Civil destacou durante a audiência que o setor já contribui para reduzir desigualdades geográficas, ampliar o acesso a serviços e criar oportunidades de inovação, além de possuir aplicações diretamente relacionadas à soberania e à Defesa nacional.

Essa diversidade transforma o setor em uma infraestrutura tecnológica transversal, na qual aeronaves, sensores, comunicações, software, controle de tráfego e processamento de dados passam a compor uma mesma cadeia de valor. O senador Astronauta Marcos Pontes, autor do requerimento que levou o tema à CCT, resumiu a dimensão dessa expansão ao afirmar que “esse é um setor que tem crescido bastante” e que esse crescimento envolve também indústria e geração de empregos.

A dimensão desse mercado levou a CCT a iniciar uma série de audiências públicas para discutir a criação de um Programa Nacional de Drones. O objetivo é reunir diferentes demandas para subsidiar a construção de um marco capaz de organizar a atividade, ampliar a segurança das operações e reduzir entraves ao desenvolvimento tecnológico e industrial. A audiência realizada em 8 de setembro reuniu representantes do Ministério de Portos e Aeroportos, Anac, Aeronáutica e empresas do setor.

A discussão revelou que o principal obstáculo já não é demonstrar a utilidade dos drones, mas criar as condições para que a expansão do mercado resulte em capacidade tecnológica brasileira. Entre os gargalos apresentados pela Secretaria Nacional de Aviação Civil estão a carga tributária, a necessidade de incentivos à cadeia produtiva nacional, a formação de profissionais especializados, o fomento à pesquisa, o acesso a crédito e financiamento e a coordenação entre os diferentes atores envolvidos. A construção da política nacional também exige articulação entre órgãos federais, estados e municípios.

Esse problema possui ainda uma dimensão regulatória. A Secretaria Nacional de Aviação Civil informou que trabalha em uma Política Nacional de Mobilidade Aérea Avançada que inclui drones e sistemas de gerenciamento do tráfego aéreo não tripulado. Uma tomada de subsídios realizada entre março e maio recebeu 854 contribuições, de 49 participantes, além de 21 documentos institucionais. O processo identificou a necessidade de harmonizar normas, integrar os ambientes de gerenciamento do tráfego aéreo convencional e não tripulado e utilizar mecanismos experimentais, como sandboxes regulatórios, para testar novas tecnologias antes de sua expansão.

A proposta contempla também a possibilidade de o Brasil desenvolver soluções regulatórias compatíveis com a evolução tecnológica. A construção de corredores, zonas de operação e ambientes de testes permite validar procedimentos antes de ampliar as atividades. A própria experiência brasileira já conta com estruturas que podem apoiar ensaios, enquanto a integração entre Anac, DECEA, Anatel e demais órgãos se torna necessária à medida que aumentam as operações fora da linha de visada.

A necessidade de coordenação cresce na mesma proporção que as operações avançam. A Anac utiliza uma metodologia baseada em análise de risco, enquanto o DECEA administra o acesso ao espaço aéreo. A integração desses ambientes será essencial para permitir operações mais complexas sem criar conflitos com aviões e helicópteros. Nesse processo, identificação remota, comunicação e compartilhamento de informações de posição, altitude e velocidade tornam-se elementos importantes para ampliar a consciência situacional no espaço aéreo.

Essa evolução cria, paralelamente, uma nova demanda de segurança. Quanto maior o número de aeronaves não tripuladas, maior também a necessidade de fiscalização, identificação e capacidade de resposta diante de equipamentos que operem de maneira irregular em áreas restritas. A discussão envolve desde interferências nas comunicações até a proteção de aeroportos e outras infraestruturas críticas. Durante a audiência, também foi ressaltado que o avanço da inteligência artificial amplia a superfície de risco sobre sistemas de comunicação e navegação utilizados pelos drones.

Para a Defesa, entretanto, o debate assume outra escala. O major-brigadeiro do Ar Frederico Casarino apresentou à CCT a experiência da Força Aérea Brasileira com o RQ-900, sistema de origem israelense empregado há mais de 15 anos e que, segundo a exposição, já acumula 8,5 mil horas de voo. A plataforma possui capacidade de reconhecimento aeroespacial, controle aéreo avançado, vigilância aeroespacial e apoio às ações do Estado, inclusive em atividades de monitoramento na Amazônia Legal.

A experiência operacional demonstra que um sistema remotamente pilotado é muito mais complexo que sua aeronave. O RQ-900 depende de enlaces de comunicação, antenas, estação de pilotagem remota, geradores, operadores e infraestrutura de apoio. “Não é só, digamos assim, a aeronave”, explicou Casarino ao apresentar o sistema empregado pela FAB. Segundo ele, um conjunto do RQ-900 custa em torno de US$ 15 milhões, valor que levou a Força Aérea a discutir quanto desse investimento poderia ser direcionado à indústria brasileira.

É justamente nessa experiência que aparece uma das principais questões estratégicas do programa brasileiro: substituir uma lógica baseada na aquisição da plataforma por outra voltada ao domínio da arquitetura tecnológica. A FAB apresentou requisitos para uma nova aeronave de inteligência, vigilância e reconhecimento com sensores eletro-ópticos e infravermelhos, radar de abertura sintética, capacidades de guerra eletrônica, integração ao Link BR2 e possibilidade de emprego armado. O objetivo é permitir operações sobre o território nacional e a Zona Econômica Exclusiva.

O projeto está sendo estruturado por meio de uma encomenda tecnológica destinada à indústria nacional. Segundo Casarino, 49 empresas demonstraram interesse, 39 assinaram termos de confidencialidade e 21 propostas, apresentadas por 23 empresas, foram encaminhadas à Força Aérea. O processo ainda estava em fase de estudo de viabilidade durante a audiência.

Os requisitos apresentados incluem uma aeronave com capacidade de carga útil de aproximadamente 400 quilos, operação em torno do nível de voo 200, alcance superior a 500 milhas e uma estação de controle em solo. A proposta considera duas possibilidades de propulsão: uma solução a turbina e outra a hélice. No primeiro caso, a FAB informou que já existe uma iniciativa nacional envolvendo a Aero Concepts e o Instituto de Aeronáutica e Espaço (IAE), enquanto o desenvolvimento do motor a hélice depende de fomento. Em uma eventual fase de industrialização, está previsto inicialmente um lote pioneiro de 24 aeronaves, com possibilidade de acréscimo de outras 12 unidades.

A nacionalização da propulsão possui importância que ultrapassa o próprio programa de drones. Durante a audiência, Casarino afirmou que “hoje o Brasil possui uma turbina 100% nacional a jato”, resultado de uma iniciativa envolvendo o IAE e parceiros da indústria. O senador Marcos Pontes ressaltou, na sequência, a complexidade tecnológica envolvida no desenvolvimento de turbinas, particularmente nos campos de materiais e termodinâmica.

Essa capacidade mostra que a discussão não parte de uma ausência completa de competências. O desafio está em conectar capacidades que já existem em instituições de pesquisa, empresas e Forças Armadas em uma cadeia industrial capaz de produzir, atualizar e sustentar sistemas completos. A própria turbina desenvolvida no país possui aplicações além da propulsão aeronáutica, incluindo uma configuração apresentada pelo IAE para geração de energia elétrica a partir de etanol em áreas isoladas.

É nesse contexto que surge o conceito do Droden, o Drone de Defesa Nacional, pensado como uma plataforma comum às três Forças Armadas. A proposta recupera parte da experiência do antigo projeto Acauã, desenvolvido pelo IAE em conjunto com o Centro Tecnológico do Exército (CTEx) e o Instituto de Pesquisas da Marinha (IPqM), mas procura estruturar desde o início uma arquitetura conjunta. Segundo Casarino, a intenção é criar uma capacidade nacional que permita às Forças compartilhar plataforma, estação de controle, treinamento e parte da infraestrutura de apoio.

A lógica é preservar uma base comum enquanto sensores, sistemas de missão e outros componentes podem evoluir de acordo com os requisitos de cada Força. Na primeira etapa, a proposta prevê uma capacidade básica de inteligência, vigilância e reconhecimento, com sensor óptico integrado, estação de controle e operação em linha de visada. Em uma segunda fase, capacidades específicas seriam incorporadas sem alterar a plataforma e a estação de solo. A preocupação é evitar que cada evolução tecnológica obrigue a substituição completa da infraestrutura, elevando custos e fragmentando a cadeia produtiva.

Casarino sintetizou essa arquitetura ao afirmar que “a arquitetura do sistema, não é só a aeronave”. A observação é central para compreender a dimensão do projeto: o domínio tecnológico não está apenas na fabricação do vetor, mas na capacidade de integrar estação de controle, enlaces, antenas, sensores, software, apoio de solo e sistemas de missão.

A proposta também prevê um Centro de Adestramento Conjunto de Operadores, o Caco, com possibilidade de instalação em regiões com menor saturação do espaço aéreo. A ideia é padronizar treinamento e doutrina entre as três Forças e, ao mesmo tempo, criar um ambiente permanente de desenvolvimento operacional. A perspectiva apresentada pela FAB é que as três Forças possam operar a capacidade a partir de 2029, dentro de um horizonte global de aproximadamente três anos para requisitos conjuntos, desenvolvimento industrial, produção inicial, aquisição e entrada em operação.

O próprio Casarino, contudo, apresentou uma ressalva importante: a intenção é que o sistema seja nacional, mas a possibilidade de uma solução estrangeira não está descartada caso os desafios tecnológicos não sejam superados. Isso evidencia a diferença entre estabelecer um requisito de soberania e efetivamente possuir capacidade industrial para atendê-lo. O projeto apresentado ainda está em fase de viabilidade, não constituindo uma contratação concluída.

A frase utilizada pelo oficial ao defender o desenvolvimento nacional resume a orientação estratégica apresentada pela FAB: “O melhor parceiro do Brasil é o próprio Brasil.” A declaração não elimina a necessidade de cooperação internacional, mas explicita a preocupação em reduzir dependências justamente nos componentes que determinam a capacidade de evolução de um sistema militar.

A preocupação com dependência externa também aparece no setor privado. O CEO da SkyDrones, Ulf Bogdawa, chamou atenção para a segurança dos dados, a entrada irregular de equipamentos importados e as dificuldades enfrentadas por empresas menores para acessar programas de inovação e financiamento. O problema ultrapassa a origem física do drone: uma plataforma estrangeira pode envolver componentes, software, serviços e arquiteturas de dados sobre os quais o usuário brasileiro possui diferentes níveis de controle.

O dado é especialmente relevante quando se considera que os drones passam a operar sobre infraestrutura crítica, instalações militares, áreas produtivas, fronteiras e territórios ambientalmente sensíveis. O controle da informação produzida pelos sensores torna-se, portanto, parte da própria capacidade operacional. A soberania tecnológica não depende apenas de quem fabrica a aeronave, mas também de quem controla os enlaces, o processamento, o armazenamento, o software e os mecanismos de atualização do sistema.

O setor privado também apontou dificuldades para transformar inovação em produção. A distância entre universidades, centros de pesquisa e mercado, a formação de engenheiros e o acesso de pequenas empresas a mecanismos de financiamento aparecem como obstáculos à formação de uma cadeia industrial permanente. Pedro Curcio Júnior, presidente da Associação Brasileira das Empresas de Drones (ABDrone), destacou justamente esse problema ao defender que instrumentos como Finep e BNDES alcancem também empresas menores, capazes de transformar protótipos em produtos.

A questão da escala é decisiva. Uma empresa que precisa manter engenharia, certificação, produção e evolução tecnológica necessita de demanda previsível. No setor militar, encomendas das Forças Armadas podem funcionar como clientes iniciais e permitir a maturação de tecnologias críticas; no mercado civil, a ampliação das aplicações pode formar uma base comercial capaz de sustentar a cadeia entre diferentes ciclos de aquisição.

A experiência da Speedbird demonstra que existe também uma dimensão internacional. A empresa relatou operações em 14 países e apresentou a expansão da logística aérea não tripulada como um campo em que o Brasil já possui conhecimento operacional e regulatório acumulado. A experiência mostra que determinadas empresas nacionais conseguiram transformar desenvolvimento tecnológico em capacidade comercial e exportadora, embora isso não elimine os gargalos estruturais identificados na audiência.

A própria operação comercial demonstra por que a regulação precisa acompanhar a tecnologia. A Speedbird relatou operações coordenadas com Anac e DECEA e defendeu a ampliação de sistemas de identificação remota e de aeronaves cooperativas para que o espaço aéreo não tripulado possa crescer sem perder capacidade de coordenação. A expansão do setor dependerá, portanto, não apenas de fabricar mais aeronaves, mas de criar uma infraestrutura capaz de integrá-las com segurança ao ambiente aeronáutico existente.

É nesse ponto que o conceito de emprego dual ganha importância. Tecnologias desenvolvidas para Defesa podem encontrar aplicações em agricultura, logística, monitoramento ambiental e segurança, enquanto avanços produzidos pelo mercado civil podem reduzir custos e acelerar soluções utilizadas pelas Forças Armadas. Sensores, comunicações, navegação, processamento de imagens, inteligência artificial, materiais e propulsão são áreas nas quais as fronteiras entre aplicações militares e civis tendem a se tornar cada vez menos definidas.

O próprio desenho apresentado pela FAB procura explorar essa convergência ao propor uma plataforma comum às três Forças. Se executado conforme apresentado, o conceito poderá criar uma demanda institucional capaz de reunir empresas que hoje desenvolvem soluções fragmentadas e direcionar recursos para competências consideradas críticas. O resultado dependerá, contudo, da continuidade dos requisitos, do financiamento e das decisões de aquisição ao longo do ciclo de desenvolvimento.

A experiência histórica brasileira mostra que programas estratégicos podem produzir efeitos muito além de seus objetivos originais quando existe continuidade entre pesquisa, desenvolvimento, aquisição e industrialização. Durante a audiência, a trajetória do Acauã e de outros projetos nacionais foi apresentada como parte desse esforço de construção de competências. No caso dos drones, entretanto, existe uma dificuldade adicional: sensores, software, inteligência artificial, guerra eletrônica e sistemas autônomos evoluem em ciclos muito mais curtos, exigindo capacidade permanente de atualização.

Por isso, o debate no Senado não diz respeito apenas à quantidade de drones que o Brasil terá nos próximos anos. Ele envolve a posição que o país pretende ocupar em uma cadeia tecnológica que já influencia agricultura, logística, segurança, infraestrutura, vigilância e Defesa. A audiência mostrou que o Brasil possui um mercado em expansão, empresas com capacidade de exportação, centros de pesquisa, experiência operacional militar e instrumentos públicos de financiamento, mas também revelou lacunas em coordenação, formação de pessoal, financiamento, componentes nacionais e integração institucional.

A soberania tecnológica, nesse cenário, não estará definida apenas pela fabricação da fuselagem de uma aeronave. Ela estará associada à capacidade de projetar, fabricar, integrar, atualizar e sustentar o conjunto de tecnologias que transforma uma plataforma em um sistema operacional: propulsão, sensores, comunicações, navegação, software, processamento, guerra eletrônica, infraestrutura de solo e dados. É justamente nessa camada que se encontra parte relevante do valor estratégico e onde a dependência externa pode limitar a liberdade de emprego e evolução de uma capacidade militar.

O Brasil está, portanto, diante de uma oportunidade que ultrapassa o mercado de drones. A construção de uma política nacional poderá conectar demanda civil, pesquisa, indústria e Defesa, desde que os diferentes instrumentos sejam coordenados e tenham continuidade. O que está em discussão no Senado é, em última análise, como transformar uma expansão tecnológica que já acontece no país em capacidade industrial permanente, domínio de tecnologias críticas e autonomia para desenvolver e sustentar sistemas que terão papel crescente na economia, na segurança e na Defesa nacional.


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