quarta-feira, 9 de setembro de 2026

BRICS chega a Nova Délhi diante do desafio de transformar peso econômico em resultados concretos

 

A 18ª Cúpula do BRICS será realizada em 12 e 13 de setembro, em Nova Délhi, sob uma presidência indiana que pretende deslocar o centro da discussão do campo das grandes declarações políticas para resultados concretos em comércio, finanças, tecnologia e cadeias de suprimentos.

O encontro ocorre no cenário marcado pela fragmentação das cadeias globais de produção, disputas comerciais, conflitos armados, restrições à exportação de tecnologias estratégicas e avanço acelerado da inteligência artificial. Para a Índia, esses fatores reforçam a necessidade de aumentar a capacidade de seus membros de reduzir vulnerabilidades sem transformar o BRICS um bloco econômico fechado.

Sob o lema “Building for Resilience, Innovation, Cooperation and Sustainability”, a presidência indiana estruturou sua agenda em torno de três grandes pilares: cooperação política e de segurança, cooperação econômica e financeira e intercâmbio entre povos. Ao longo de 2026, mais de 350 reuniões e encontros de alto nível foram realizados em mais de 25 cidades indianas como preparação para a cúpula.

A prioridade econômica está na construção de mecanismos capazes de facilitar o comércio entre os próprios integrantes. A Índia vem defendendo uma estratégia para 2030 que abrange comércio de bens e serviços, investimentos, economia digital, indústria, inovação e cooperação financeira, além de maior participação das micro, pequenas e médias empresas nas cadeias internacionais de valor.

A questão das cadeias de suprimentos ganhou importância diante da experiência dos últimos anos. Pandemia, guerras, restrições comerciais e problemas no transporte marítimo demonstraram como a concentração da produção em determinados países ou regiões pode transformar uma interrupção localizada em um problema global.

A proposta indiana é criar maior resiliência sem estabelecer uma estrutura comercial fechada. O objetivo é diversificar fornecedores, ampliar as conexões entre os mercados do BRICS e reduzir a exposição a choques externos, mantendo simultaneamente a Organização Mundial do Comércio (OMC) como referência para o sistema multilateral. A própria reunião de ministros do Comércio realizada em Jaipur no mês de agosto, avançou nas discussões sobre a Estratégia para a Parceria Econômica 2030.

No setor financeiro, a agenda também é pragmática. Em vez de concentrar esforços na criação de uma moeda única do BRICS, proposta que enfrenta obstáculos econômicos, monetários e políticos consideráveis, o grupo trabalha com alternativas como liquidações em moedas nacionais, integração de sistemas de pagamentos e maior utilização de tecnologias financeiras.

Essa abordagem já havia sido defendida pelo Brasil durante sua presidência do grupo em 2025. O governo brasileiro deixou claro naquele período que uma moeda comum não estava em discussão e que o objetivo era reduzir custos das transações comerciais e financeiras entre os membros.

A tecnologia é outro eixo em que a Índia pretende ampliar a cooperação. Inteligência artificial, infraestrutura digital, computação de alto desempenho, novas redes de comunicação e tecnologias críticas passaram a ocupar espaço crescente dentro da estrutura do BRICS. A programação indiana de 2026 inclui, inclusive, grupos de trabalho dedicados a IA, tecnologias digitais e inovação.

Essa agenda possui uma dimensão estratégica. O acesso a tecnologias críticas passou a ser diretamente influenciado por disputas geopolíticas, controles de exportação e competição industrial. Para economias emergentes, desenvolver capacidades próprias ou estabelecer parcerias alternativas significa reduzir dependências e aumentar a margem de manobra diante das grandes potências.

A expansão do BRICS, entretanto, tornou o processo decisório mais complexo. O grupo reúne atualmente Brasil, Rússia, Índia, China, África do Sul, Egito, Etiópia, Irã, Emirados Árabes Unidos, Indonésia e Arábia Saudita. São economias com estruturas produtivas, sistemas políticos e interesses estratégicos bastante diferentes.

Essa diversidade é simultaneamente uma força e uma limitação. O conjunto possui peso econômico, energético, demográfico e territorial significativo, mas não existe uma visão comum sobre temas como a relação com os Estados Unidos, a guerra na Ucrânia, a segurança no Oriente Médio ou a própria velocidade da transformação do sistema internacional.

A relação entre Índia e China é um dos exemplos mais importantes. Os dois países possuem interesses econômicos convergentes em determinadas áreas, mas também mantêm uma competição estratégica própria. Para Nova Délhi, portanto, fortalecer o BRICS não significa necessariamente aceitar uma orientação política definida por Pequim ou Moscou.

Essa característica explica parte da estratégia indiana de priorizar temas nos quais o consenso é mais viável: comércio, pagamentos, tecnologia, desenvolvimento, infraestrutura, saúde, energia e financiamento.

O debate sobre a governança internacional permanece, contudo, no centro da agenda. A Índia defende maior participação das economias emergentes nas instituições multilaterais, incluindo Organização das Nações Unidas, Fundo Monetário Internacional, Banco Mundial e Organização Mundial do Comércio.

A reforma do Conselho de Segurança da ONU também permanece como uma questão relevante para o Brasil e para a própria Índia. Ambos defendem maior representação dos países em desenvolvimento na estrutura decisória internacional, embora os interesses nacionais nem sempre coincidam em todas as questões.

O papel brasileiro

Para o Brasil, a cúpula de Nova Délhi representa uma oportunidade que vai muito além da dimensão diplomática. O principal interesse brasileiro está em transformar o peso político do BRICS em acesso efetivo a mercados, investimentos, tecnologia e financiamento.

O país possui uma posição particularmente relevante dentro do grupo por combinar uma das maiores economias emergentes, grande capacidade agrícola, recursos minerais, matriz energética diversificada e potencial de produção de combustíveis de baixo carbono. Isso permite ao Brasil negociar a partir de ativos concretos, e não apenas de alinhamentos políticos.

No comércio, o desafio brasileiro é ampliar a diversificação das exportações e aumentar o valor agregado dos produtos destinados aos mercados do BRICS. A existência de grandes compradores de alimentos, energia, minerais e produtos industriais abre oportunidades, mas também exige que o Brasil avance em infraestrutura, logística, financiamento e competitividade industrial.

A agenda tecnológica também interessa diretamente ao país. A cooperação em inteligência artificial, computação, infraestrutura digital e tecnologias críticas pode permitir ao Brasil ampliar sua capacidade de desenvolvimento próprio e estabelecer parcerias industriais com países que possuem competências complementares.

Nesse ponto, o Brasil precisa evitar uma posição meramente comercial. O objetivo estratégico deveria ser transformar o BRICS em plataforma para projetos conjuntos de pesquisa, desenvolvimento e produção, especialmente em setores nos quais o país já possui capacidade instalada.

O mesmo raciocínio vale para defesa. O Brasil possui uma Base Industrial de Defesa relevante, com competências em aeronaves, sistemas navais, veículos militares, sensores, comunicações, mísseis e sistemas não tripulados. Uma agenda de cooperação tecnológica dentro do BRICS pode abrir espaço para novos mercados e projetos conjuntos, desde que sejam preservadas as necessidades brasileiras de propriedade intelectual, transferência de tecnologia e autonomia operacional.

O Novo Banco de Desenvolvimento, o NDB, é outro instrumento importante. O Brasil pode buscar maior utilização do banco para financiar infraestrutura, energia, transporte, digitalização e projetos capazes de elevar a produtividade nacional. O ponto central é transformar o financiamento multilateral em projetos que gerem capacidade econômica permanente, e não apenas crédito para obras isoladas.

No campo diplomático, o Brasil também possui uma vantagem específica: sua capacidade de dialogar simultaneamente com diferentes polos de poder. O país mantém relações econômicas profundas com China, Estados Unidos, Europa, Rússia e demais integrantes do BRICS. Essa posição permite a Brasília atuar como interlocutor e evitar que o grupo seja reduzido a uma estrutura de confronto com o Ocidente.

Esse talvez seja o principal interesse brasileiro na atual configuração do BRICS. O país pode defender uma ordem internacional mais representativa sem transformar sua participação no grupo em alinhamento automático a qualquer potência.

A cúpula de Nova Délhi, portanto, será um teste não apenas para a Índia, mas para o próprio modelo de funcionamento do BRICS ampliado. Se o grupo conseguir produzir mecanismos concretos de comércio, pagamentos, financiamento, tecnologia e integração produtiva, sua relevância internacional tende a crescer de maneira consistente.

Para o Brasil, o resultado mais importante não será uma nova declaração política, mas a capacidade de converter sua participação no bloco em investimentos, mercados, tecnologia, financiamento e maior autonomia estratégica.

O BRICS já possui peso suficiente para influenciar a economia internacional. O próximo passo é demonstrar que também consegue transformar esse peso em resultados mensuráveis para seus integrantes.


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