A aquisição da Serra Verde, empresa responsável pela operação da mina de Pela Ema, em Minaçu (GO), pela norte-americana USA Rare Earth colocou em evidência um dos principais desafios da política mineral brasileira: transformar grandes reservas de recursos estratégicos em capacidade industrial e tecnológica dentro do país. A operação, avaliada em aproximadamente US$ 2,8 bilhões, foi concluída em 3 de setembro e envolve uma das poucas minas fora da Ásia com capacidade de produzir comercialmente quatro terras raras consideradas essenciais para a indústria de alta tecnologia: neodímio, praseodímio, disprósio e térbio.
O negócio chamou a atenção de Juliana Benicio, candidata a Deputada Federal pelo Rio de Janeiro e ex-secretária municipal de Inovação, Ciência e Tecnologia de Niterói. À frente da pasta, Juliana participou da articulação do Distrito de Inovação da Cantareira, projeto que aproximou o município de universidades, centros de pesquisa e grandes empresas de tecnologia, incluindo NVIDIA e IBM. A iniciativa também prevê infraestrutura de computação de alto desempenho e pesquisa em inteligência artificial e computação quântica.
Essa experiência ajuda a contextualizar a crítica apresentada por Juliana em relação à aquisição da Serra Verde. Para ela, o problema não está na entrada de capital estrangeiro em si, mas no risco de o Brasil concentrar sua participação na extração enquanto as etapas mais sofisticadas da cadeia produtiva permanecem no exterior. Sua posição é de que investimentos internacionais podem ser importantes para o país, desde que também resultem em capacidade tecnológica, formação profissional e geração de valor no território brasileiro.
Para Juliana, o ponto central está no valor agregado. A separação dos elementos de terras raras, a produção de metais e ligas e, principalmente, a fabricação de ímãs permanentes envolvem processos tecnológicos mais complexos e maior geração de valor. Na avaliação da candidata, se essas etapas forem realizadas fora do Brasil, o país poderá fornecer uma matéria-prima estratégica sem necessariamente desenvolver a indústria, as tecnologias e os profissionais associados a ela.
A preocupação ganha dimensão concreta no caso da Serra Verde. Com a aquisição, a USA Rare Earth passa a integrar a produção da mina brasileira a uma estrutura internacional que reúne capacidades de processamento, metalização e fabricação de ímãs. O movimento cria uma cadeia verticalizada, na qual o minério extraído em Goiás passa a fazer parte de uma estratégia industrial mais ampla controlada pela empresa norte-americana.
A operação também conta com forte apoio dos Estados Unidos. O governo norte-americano comprometeu US$ 750 milhões no arranjo financeiro relacionado à aquisição, enquanto foi estabelecido um contrato de compra futura de produtos da companhia. A estrutura demonstra como as terras raras deixaram de ser tratadas apenas como uma questão de mineração e passaram a integrar políticas de segurança econômica, indústria e defesa.
É nesse ponto que a avaliação de Juliana ganha relevância para o debate brasileiro. A experiência acumulada em Niterói reforça justamente a diferença entre simplesmente atrair uma empresa estrangeira e criar condições para que sua presença produza conhecimento, infraestrutura, empregos qualificados e novas capacidades tecnológicas. No caso das terras raras, ela defende que o Brasil utilize sua posição como detentor de recursos estratégicos para negociar contrapartidas capazes de manter no território nacional etapas industriais, formação de mão de obra especializada e desenvolvimento tecnológico.
O problema é que o Brasil ainda possui uma participação muito pequena no processamento desses minerais. Apesar de estar entre os países com maiores reservas de terras raras e outros minerais críticos, o país responde por apenas uma fração do processamento mundial. A diferença entre possuir a jazida e dominar a tecnologia necessária para transformar o minério em produtos industriais representa justamente uma das principais vulnerabilidades da cadeia brasileira.
Essa diferença é especialmente importante porque as terras raras estão presentes em tecnologias que ultrapassam o mercado de mineração. Ímãs permanentes produzidos a partir desses elementos são utilizados em motores elétricos, equipamentos eletrônicos, sistemas de geração de energia e diferentes aplicações militares. Quem domina o processamento e a fabricação desses componentes controla uma etapa muito mais estratégica da cadeia do que aquele que simplesmente fornece o minério.
A disputa internacional confirma essa mudança de cenário. Os Estados Unidos buscam reduzir sua dependência das cadeias concentradas na Ásia e vêm utilizando investimentos públicos, contratos de fornecimento e parcerias com empresas para ampliar sua capacidade doméstica de processamento e fabricação. A China, por sua vez, permanece como principal potência mundial em diferentes etapas da cadeia de terras raras.
Para o Brasil, o caso Serra Verde expõe uma decisão que vai além da propriedade de uma mina. A questão é definir quanto valor econômico e tecnológico o país pretende capturar a partir de seus próprios recursos naturais. A crítica de Juliana Benicio coloca esse ponto em evidência a partir de uma experiência concreta de gestão em ciência, tecnologia e inovação: o investimento estrangeiro pode contribuir para o desenvolvimento nacional, mas a presença de capital externo não substitui uma política industrial brasileira capaz de estabelecer quais tecnologias, processos produtivos e conhecimentos estratégicos precisam permanecer no país.
As terras raras oferecem ao Brasil uma oportunidade que não se limita à exportação de mais uma commodity. O desafio está em transformar a vantagem geológica em capacidade industrial, tecnológica e estratégica. Sem essa etapa, o país corre o risco de continuar rico em recursos minerais, mas dependente de outros países justamente nas tecnologias que dão a esses recursos seu maior valor.
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