sábado, 26 de setembro de 2026

Da Marambaia ao cerrado: França e Brasil ampliam interoperabilidade militar em diferentes ambientes operacionais

A participação de 40 militares franceses da 9e Brigade d’Infanterie de Marine na Operação Formosa 2026 amplia uma cooperação militar entre França e Brasil que ganhou densidade ao longo dos anos e possui uma característica que nenhum outro país europeu compartilha com o Brasil: uma fronteira terrestre na Amazônia. São cerca de 730 quilômetros entre o Amapá e a Guiana Francesa, conectando diretamente uma potência europeia ao espaço amazônico sul-americano.

Essa condição dá à relação franco-brasileira uma dimensão geográfica própria, que se soma a uma parceria de Defesa construída em diferentes ambientes e níveis. Em 2026, essa aproximação foi exercitada do litoral do Rio de Janeiro ao ambiente ribeirinho de Minas Gerais e, posteriormente, ao cerrado de Goiás, colocando militares dos dois países diante de diferentes condições de terreno, mobilidade, logística e emprego.

A sequência começou no litoral fluminense. Em abril, durante a Operação Jeanne d’Arc 2026, forças francesas e brasileiras participaram do exercício Marambaia 26, realizado na ilha de Marambaia. A atividade envolveu ações no mar, sob o mar, no ar e em terra, incluindo guerra antissubmarino, operações anfíbias e emprego de tropas terrestres. Segundo o Estado-Maior das Forças Armadas francesas, o exercício teve entre seus objetivos trabalhar a interoperabilidade por meio de uma série de sequências de treinamento complexas.

O exercício colocou meios das duas forças dentro de uma mesma arquitetura operacional. O grupo francês, formado pelo porta-helicópteros anfíbio Dixmude e pela fragata Aconit, empregou seus próprios meios anfíbios e também CLAnf brasileiros embarcados no Dixmude para a projeção de tropas em terra. Aeronaves brasileiras e francesas realizaram operações coordenadas, enquanto tropas conduziram manobras conjuntas na ilha. A integração exigiu coordenação entre planejamento, comunicações, meios navais, aviação e tropas em terra.

Em seguida, a cooperação deixou o ambiente marítimo e avançou para o interior do país. Entre junho e julho, militares franceses participaram da Operação Furnas 2026, em São José da Barra, Minas Gerais, exercício conduzido pelo Corpo de Fuzileiros Navais no ambiente do Lago de Furnas. A operação reuniu cerca de 2 mil militares e empregou meios terrestres, navais e aéreos em atividades ribeirinhas, de apoio à Defesa Civil e de preparação para missões de paz.

A participação francesa acrescentou ao intercâmbio uma realidade operacional diferente daquela encontrada em Marambaia. Navegação, mobilidade fluvial, emprego de pequenas frações, controle de margens e projeção de tropas em ambiente ribeirinho exigem procedimentos distintos daqueles empregados em uma operação anfíbia marítima. O exercício permitiu, assim, comparar técnicas e formas de emprego em um cenário mais próximo das condições encontradas em determinados ambientes interiores brasileiros.

A terceira etapa ocorreu em Goiás. A Operação Formosa 2026 reuniu aproximadamente 3.000 militares brasileiros das Forças Armadas e contou com 40 militares franceses da 9e Brigade d’Infanterie de Marine. A presença francesa levou a cooperação para um cenário terrestre marcado por grandes distâncias e características distintas dos ambientes marítimo e ribeirinho trabalhados anteriormente.

Mais do que somar três exercícios, a sequência de 2026 permite observar como a interoperabilidade é construída na prática. O desafio não está apenas em empregar equipamentos compatíveis, mas em coordenar planejamento, comando e controle, comunicações, procedimentos táticos, logística e emprego de meios diferentes. A mudança de ambiente funciona como um teste adicional porque obriga cada força a adaptar seus procedimentos sem perder a capacidade de atuar em conjunto.

A experiência também possui importância particular para a França. A Guiana Francesa mantém presença militar francesa permanente na América do Sul e coloca Paris diante de desafios relacionados à segurança de seu território, ao controle de fronteiras e ao combate a atividades ilícitas. Em julho de 2026, autoridades francesas e brasileiras reforçaram justamente essa agenda durante reuniões em Brasília e na região do Oiapoque, com acordos voltados à segurança, combate à criminalidade ambiental e ao garimpo ilegal.

Para o Brasil, a proximidade geográfica cria uma circunstância diferente daquela existente com os demais parceiros europeus. A cooperação com a França envolve uma relação de Defesa entre dois países que, além de manterem interesses estratégicos convergentes, compartilham uma fronteira diretamente inserida no contexto amazônico. Isso amplia o espaço para intercâmbio de experiências relacionadas à presença estatal, segurança fronteiriça e atuação em áreas de difícil acesso.

A dimensão militar faz parte de uma relação estratégica mais ampla. A parceria França-Brasil foi lançada em 2006 e renovada durante a visita do presidente Emmanuel Macron ao Brasil, em março de 2024. O novo plano de ação bilateral abrange Defesa, espaço, energia, economia, educação e cooperação transfronteiriça entre a Guiana Francesa e o Amapá.

No campo da Defesa, a relação também ultrapassa os exercícios. França e Brasil desenvolveram programas de grande complexidade tecnológica, entre eles o Programa de Desenvolvimento de Submarinos (PROSUB) e o programa de helicópteros H-XBR. A experiência acumulada nessas iniciativas criou canais permanentes de cooperação entre Forças Armadas, instituições públicas e empresas dos dois países.

Essa dimensão industrial ajuda a dar profundidade à interoperabilidade. O contato recorrente entre militares permite compreender requisitos operacionais e limitações de cada força, enquanto a cooperação tecnológica aproxima empresas e instituições de pesquisa. Em 2026, essa agenda avançou também no setor de munições, com a assinatura de um Memorando de Entendimento entre KNDS e IMBEL durante a Eurosatory, com apoio da Direction générale de l’armement (DGA) francesa.

A cooperação, portanto, não se resume à presença de contingentes estrangeiros em exercícios. Existe uma combinação entre treinamento militar, intercâmbio doutrinário, relacionamento institucional e cooperação industrial. Cada dimensão possui objetivos próprios, mas o contato recorrente entre os dois países contribui para criar conhecimento mútuo sobre capacidades, procedimentos e necessidades operacionais.

No caso brasileiro, esse intercâmbio também permite aproveitar experiências estrangeiras sem reproduzir automaticamente modelos externos. França e Brasil possuem doutrinas, estruturas, territórios e necessidades diferentes. O valor da cooperação está justamente na possibilidade de confrontar essas experiências, identificar convergências e limitações e adaptar aquilo que fizer sentido às necessidades nacionais.

A participação dos 40 militares franceses em Formosa se insere nesse processo. O contingente representa uma parcela pequena do efetivo total do exercício, mas sua relevância está na continuidade de uma relação que, em 2026, colocou militares franceses e brasileiros em três ambientes distintos: o litoral de Marambaia, o cenário ribeirinho de Furnas e o cerrado de Formosa.

O aspecto mais relevante dessa sequência é justamente a continuidade. A interoperabilidade não se consolida em um único exercício nem pela simples compatibilidade entre equipamentos. Ela depende de treinamento recorrente, conhecimento pessoal entre os militares, familiaridade com procedimentos e capacidade de adaptar meios e doutrinas diante de diferentes cenários.

Para França e Brasil, essa construção ganha peso adicional pela existência de uma fronteira comum na Amazônia e por uma parceria estratégica que combina Defesa, tecnologia, indústria e cooperação transfronteiriça. Marambaia, Furnas e Formosa mostram, em escala operacional, como essa relação vem sendo construída: colocando forças diferentes diante de problemas concretos e permitindo que a experiência acumulada seja convertida em maior capacidade de atuação coordenada.


Por Angelo Nicolaci


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