domingo, 14 de junho de 2026

Exército dos EUA busca sucessor para o M777 e reforça tendência global de adoção da artilharia sobre rodas

A busca do Exército dos Estados Unidos por um substituto para o obuseiro rebocado M777A2 revela não apenas uma necessidade de modernização, mas também uma mudança profunda na forma como as grandes forças militares enxergam o emprego da artilharia no campo de batalha contemporâneo.

Por meio do programa Mobile Tactical Cannon (MTC), o Exército norte-americano pretende adquirir inicialmente 484 sistemas de artilharia autopropulsada sobre rodas, número que poderá crescer futuramente para substituir uma parcela ainda maior de sua frota de obuseiros rebocados. A iniciativa surge em um momento em que os conflitos recentes, particularmente na Ucrânia, vêm demonstrando a importância da mobilidade, da capacidade de sobrevivência e da rapidez na execução de missões de fogo.

Durante décadas, o M777 representou uma solução eficiente graças ao seu baixo peso e facilidade de transporte estratégico. Entretanto, a evolução dos sistemas de vigilância, radares de contrabateria, drones e munições de precisão reduziu significativamente as vantagens dos sistemas rebocados em operações de alta intensidade. Atualmente, a capacidade de disparar e mudar rapidamente de posição tornou-se um fator crítico para a sobrevivência das unidades de artilharia.

Ao contrário de programas anteriores marcados por longos ciclos de desenvolvimento e cancelamentos sucessivos, Washington optou por uma solução pragmática: avaliar sistemas já existentes, testados e em produção, reduzindo riscos e acelerando a entrada em serviço da nova capacidade.

A competição reúne alguns dos mais avançados sistemas de artilharia do mundo. Entre eles está o francês CAESAR, que acumulou ampla experiência operacional e se consolidou como um dos principais sucessos de exportação da indústria de defesa europeia. Outro forte concorrente é o alemão RCH 155, um sistema altamente automatizado derivado das tecnologias empregadas no Panzerhaubitze (PzH) 2000 e que vem conquistando espaço em diversos mercados internacionais.

A Coreia do Sul participa da disputa com o K9 Mobile Howitzer, derivado do consagrado K9 Thunder, atualmente um dos sistemas de artilharia mais difundidos globalmente. Já a BAE Systems oferece o Archer, desenvolvido originalmente para o Exército Sueco e que também ganhou notoriedade após seu emprego no contexto do conflito na Ucrânia.

Entre os concorrentes, um dos casos mais interessantes é o SIGMA, apresentado pela Elbit America. Embora tenha origem tecnológica israelense, o sistema foi adaptado para atender aos requisitos industriais norte-americanos, utilizando um caminhão Oshkosh produzido nos Estados Unidos e uma cadeia produtiva amplamente localizada no país.

O cenário evidencia uma realidade cada vez mais comum no setor de defesa: mesmo as maiores potências militares do mundo recorrem a soluções desenvolvidas no exterior quando estas oferecem respostas mais rápidas e eficientes às necessidades operacionais. Mais do que a origem do projeto, o foco está na capacidade militar entregue, na transferência de conhecimento e na geração de empregos e investimentos no próprio território nacional.

A competição norte-americana também chama atenção por reunir sistemas provenientes de países com os quais Washington mantém diferentes graus de divergência política, econômica ou estratégica. Ainda assim, a análise permanece centrada no desempenho operacional, nos custos, na maturidade tecnológica e na capacidade de produção.

O contraste com o caso brasileiro

A postura adotada pelos Estados Unidos lança luz sobre uma questão que continua gerando debates no Brasil. Após anos de estudos, avaliações operacionais, testes de campo e análises técnicas conduzidas pelo Exército Brasileiro, o sistema ATMOS da Elbit Systems, foi declarado vencedor do programa VBCOAP 155 mm SR, destinado à renovação da artilharia de campanha sobre rodas da Força Terrestre.

A escolha não ocorreu por acaso. O ATMOS foi submetido a um rigoroso processo de avaliação conduzido pelo Exército Brasileiro, que analisou desempenho operacional, mobilidade, precisão, logística, suporte industrial e potencial de transferência de tecnologia. Ao final desse processo, a Força definiu qual sistema melhor atendia aos seus requisitos operacionais e às necessidades futuras da artilharia brasileira.

No entanto, quando o programa avançava para sua etapa final de contratação, o processo foi bloqueado pelo governo federal. A suspensão não decorreu de qualquer questionamento técnico por parte do Exército, nem de mudanças nos requisitos operacionais do programa. O entrave surgiu em razão de posicionamentos políticos e ideológicos relacionados a Israel e ao conflito no Oriente Médio.

O episódio criou uma situação incomum e preocupante para o setor de defesa nacional. Pela primeira vez em muitos anos, uma decisão técnica construída ao longo de anos de trabalho por uma das Forças Armadas foi interrompida por fatores externos ao processo militar. Em outras palavras, o Exército Brasileiro concluiu qual era a melhor solução para sua necessidade operacional, mas foi impedido de seguir adiante com a contratação.

O contraste com a postura norte-americana é evidente. Enquanto Washington avalia sistemas franceses, alemães, suecos, sul-coreanos e israelenses com foco exclusivo na capacidade militar oferecida por cada proposta, o Brasil interrompeu um programa já decidido tecnicamente por razões alheias ao desempenho operacional do equipamento selecionado.

A consequência prática é que a modernização da artilharia brasileira permanece paralisada. Enquanto os principais exércitos do mundo aceleram a incorporação de sistemas autopropulsados sobre rodas, uma das capacidades que mais demonstraram relevância nos conflitos recentes, o Exército Brasileiro continua aguardando uma definição para um programa considerado prioritário.

Mais do que a aquisição de um novo obuseiro, a questão envolve a credibilidade dos processos de obtenção de defesa do Brasil. Quando uma Força realiza avaliações durante anos, seleciona uma solução e vê o resultado ser bloqueado por razões ideológicas, transmite-se uma mensagem preocupante para a indústria nacional e internacional: vencer tecnicamente uma concorrência pode não ser suficiente para garantir sua concretização.

A experiência norte-americana demonstra que necessidades operacionais, fortalecimento industrial e interesses estratégicos podem coexistir de forma pragmática. Já o caso brasileiro evidencia os riscos de permitir que agendas políticas conjunturais interfiram em programas estratégicos de longo prazo. Em um ambiente internacional marcado por crescentes incertezas e desafios à segurança, a capacidade de preservar critérios técnicos nas decisões de defesa torna-se não apenas uma questão de gestão, mas um elemento essencial para a construção de capacidades militares críveis e para a preservação da soberania nacional.


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