O debate contemporâneo sobre carros de combate blindados precisa ser compreendido menos como uma disputa entre plataformas e mais como uma reflexão sobre escolhas estratégicas de Estado. A evolução do campo de batalha, a crescente letalidade dos meios anticarro, a centralidade da informação e as limitações orçamentárias impostas às forças armadas modernas deslocaram o foco da discussão: a questão central deixou de ser qual é o melhor tanque e passou a ser qual combinação de meios melhor atende aos objetivos estratégicos nacionais.
Nesse contexto, a distinção entre Main Battle Tanks (MBT) e Medium ou Modern Main Battle Tanks (MMBT) não é apenas técnica, mas conceitual. Ela reflete diferentes filosofias de emprego, diferentes exigências logísticas e diferentes expectativas quanto ao papel do poder blindado em operações futuras. Para o Exército Brasileiro, cuja missão fundamental é a defesa de um território continental, diverso e com infraestrutura desigual, essa reflexão assume contornos particularmente relevantes.
O MBT tradicional permanece como o instrumento máximo do poder blindado. Concebido para o combate decisivo entre forças equivalentes, ele concentra o maior poder de fogo direto disponível no campo terrestre, associado a níveis elevados de proteção passiva e ativa. Em termos doutrinários clássicos, o MBT é o elemento central das operações de ruptura, exploração e choque, capaz de impor decisões táticas e, em determinados contextos, influenciar diretamente o resultado operacional de uma campanha.
Entretanto, a experiência recente em conflitos de alta intensidade, notadamente na Ucrânia, revelou de forma inequívoca que esse poder vem acompanhado de custos e vulnerabilidades estruturais. MBTs modernos exigem cadeias logísticas extensas, consumo elevado de combustível, manutenção altamente especializada e infraestrutura compatível com seu peso e dimensões. Além disso, sua sobrevivência passou a depender cada vez mais da integração com infantaria, defesa antiaérea de curto alcance, guerra eletrônica e proteção contra drones, o que reforça a ideia de que o tanque pesado, isoladamente, deixou de ser um instrumento autossuficiente.
A guerra na Ucrânia demonstrou que MBTs continuam sendo extremamente eficazes quando empregados de forma combinada, mas também evidenciou que sua presença no campo de batalha é cada vez mais previsível e rastreável. Drones de vigilância persistente, loitering munitions e sistemas anticarro portáteis impõem um ambiente no qual a concentração excessiva de meios pesados se transforma rapidamente em vulnerabilidade. Isso não invalida o MBT, mas o reposiciona como um meio de emprego mais seletivo, associado a missões específicas e a contextos operacionais bem definidos.
É nesse espaço conceitual que surge o MMBT como uma resposta estratégica às transformações do campo de batalha. Diferentemente do tanque pesado clássico, o MMBT não busca supremacia absoluta em proteção ou poder de fogo, mas sim um equilíbrio deliberado entre capacidades. Trata-se de um meio projetado para operar em um ambiente onde mobilidade, flexibilidade e sustentabilidade são tão decisivas quanto a blindagem frontal.
Plataformas como o Kaplan MT, o Tulpar em configurações de combate direto e as variantes de apoio pesado da família CV90 ilustram bem essa lógica. Esses blindados combinam armamento capaz de engajar uma ampla gama de alvos, incluindo carros de combate pesados em determinadas circunstâncias, com peso reduzido, arquitetura digital avançada e maior facilidade de transporte e manutenção. Em termos operacionais, oferecem maior liberdade de manobra, menor dependência logística e melhor adaptação a cenários urbanos, florestais e de infraestrutura limitada.
A experiência ucraniana reforça esse ponto. Embora o conflito tenha envolvido extensivamente MBTs de diversas origens, foram justamente os veículos blindados mais móveis, integrados em rede e capazes de operar de forma distribuída que apresentaram melhores taxas de sobrevivência e maior flexibilidade tática. O sucesso operacional de plataformas como o CV90, amplamente elogiado por tropas ucranianas, não decorreu de invulnerabilidade, mas da combinação de mobilidade, proteção adequada, consciência situacional e integração com infantaria e fogos de apoio. Esses atributos estão muito mais alinhados ao conceito de MMBT do que ao paradigma clássico do tanque pesado isolado.
Ao transpor essa análise para o contexto brasileiro, torna-se evidente que a simples adoção de um modelo pesado, concebido para guerras de manobra em teatros altamente industrializados, não responde plenamente às necessidades nacionais. O Brasil precisa de meios capazes de cobrir grandes extensões territoriais, deslocar-se rapidamente entre regiões, operar em ambientes com infraestrutura limitada e manter-se sustentáveis ao longo do tempo. Além disso, a lógica estratégica brasileira privilegia a dissuasão defensiva e a prontidão regional, e não a projeção de força pesada em cenários externos.
Nesse sentido, o MMBT apresenta-se como uma solução particularmente adequada. Ele permite ampliar a presença blindada do Exército com menor custo unitário, reduz a pressão logística sobre as forças e oferece flexibilidade para uma ampla gama de missões, desde a defesa de fronteiras até operações de manobra em profundidade. Sua arquitetura modular e digital também facilita atualizações ao longo do ciclo de vida, aspecto crucial para uma força que precisa permanecer relevante sem depender de substituições completas e onerosas de frota.
Ainda assim, uma análise honesta de nível Estado-Maior não pode ignorar que o MBT mantém um papel fundamental. Em determinados cenários, especialmente aqueles que envolvem a necessidade de choque frontal, dissuasão explícita ou enfrentamento de forças blindadas equivalentes, o carro de combate pesado continua sendo insubstituível. Sua presença exerce um efeito psicológico e operacional que nenhum meio mais leve consegue replicar integralmente.
Dessa forma, a solução estrategicamente mais coerente para o Brasil não reside na escolha excludente entre MBT ou MMBT, mas na construção de uma força blindada mista, equilibrada e complementar. Um núcleo limitado de MBTs pode ser empregado como elemento de decisão e dissuasão, enquanto uma força mais numerosa de MMBTs amplia a capacidade de presença, mobilidade e sustentação operacional em todo o território nacional. Essa combinação permite ao Exército Brasileiro adaptar-se a diferentes cenários, reduzir vulnerabilidades logísticas e maximizar o retorno estratégico do investimento realizado.
Mais do que uma decisão técnica, essa é uma escolha de Estado. Ela envolve doutrina, indústria, orçamento e visão de longo prazo. Ao optar por um mix equilibrado de MBTs e MMBTs, o Brasil não apenas moderniza sua força blindada, mas alinha seus meios às realidades do século XXI, preservando capacidade dissuasória, ampliando flexibilidade operacional e garantindo sustentabilidade estratégica no tempo.
por Angelo Nicolaci
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