Finda a Segunda Guerra Mundial (1939-1945), maior conflito armado da história da humanidade, e vitoriosos os Aliados – dentre eles o Brasil –, retornaram à Pátria verde e amarela vinte e cinco mil homens e mulheres, veteranos da Força Expedicionária Brasileira (FEB), triunfantes, orgulhosos e inteiramente transformados. Os quase quinhentos pracinhas mortos, que lutaram contra o nazifascismo, em prol da liberdade e da democracia, seriam posteriormente repatriados, em 1960, como símbolos de coragem, heroísmo e amor incondicional ao País.
Os febianos, uma vez distribuídos em diferentes organizações militares espalhadas pelo Brasil, fossem oficiais ou praças, de escola ou reservistas efetivados, ao interagirem com seus camaradas, sistematicamente transformavam as estruturas Exército, à luz de experiências adquiridas, conhecimentos absorvidos e novas doutrinas aprendidas e testadas em combate. Reverberavam, no dia a dia da caserna, as agruras e aventuras dos campos de batalha, profundamente impregnados pela visão aterradora de uma guerra total e pela miséria humana e social correspondente.
A Escola Superior de Guerra (ESG) surge justamente neste contexto, em 1949, fundada sob a inspiração de duas escolas norte-americanas, uma civil e outra militar (Vianna, 2020). Segundo José Murilo de Carvalho (2019, p. 209), a ESG seria “o Góes coletivo”, voltada para pensar e implementar “a política do Exército”, fazendo referência ao famoso aforismo do General Góes Monteiro, Chefe do Estado-Maior do Exército, quando da criação da FEB. Era preconizada, dessa forma, "a política do Exército ao invés da política no Exército", em clara alusão à necessidade urgente de preparação para a guerra, afastando desavenças políticas e enfatizando a Instituição como de caráter permanente e de Estado.
A ESG nasceu com o objetivo principal de “criar lideranças civis e militares para enfrentar a eventualidade de um novo estilo de guerra, não mais circunscrita à frente de batalha e ao palco de lutas, mas transformada em fato total, que afeta a sociedade por inteiro e toda a estrutura de uma nação” (Cordeiro de Farias in Camargo; Góes, 2001, p. 354). Na atualidade, sua missão se mantém fiel à orientação inicial, com o desenvolvimento e a disseminação de conhecimentos de Defesa, Segurança e Desenvolvimento Nacional, dentro da finalidade de ampliar o envolvimento da sociedade nestes temas, gerando discussões, propostas e soluções objetivas e inovadoras.
Com a visão de futuro orientada a ser reconhecida como um Instituto de Altos Estudos de excelência nacional e de referência internacional, a ESG cultua importantes valores: a busca do bem comum; o engrandecimento do ser humano; a conduta ética; a integridade; o pensamento eclético; a liberdade de expressão; a busca da excelência na produção de conhecimento; a integração entre civis e militares; a prática do civismo; o sentimento patriótico; e o de pertencimento, externado pelo orgulho de integrar um estabelecimento caracterizado por inúmeras entregas ao Brasil.
É expressão corrente identificar a influência dos veteranos da FEB na criação e no desenvolvimento inicial da ESG. De fato, coube a eles este protagonismo, a começar pelo seu primeiro comandante, o então General de Divisão Oswaldo Cordeiro de Farias. Durante a 2ª Guerra Mundial, Cordeiro de Farias esteve à frente da Artilharia Divisionária brasileira, na condição de General de Brigada. Liderou a ESG de 1949 até 1952, compondo a primeira turma de diplomados no Curso Superior de Guerra, em 1950, junto a outros renomados expedicionários: General de Divisão Euclydes Zenóbio da Costa, General de Brigada Agnaldo Caiado de Castro, Coronel Emílio Maurel Filho, Tenente-Coronel Jurandir de Bizarria Mamede e Tenente-Coronel Afonso Henrique de Miranda Corrêa (Brasil, 1999).
Nesse escopo, ressalta-se haverem comandado a ESG outros seis veteranos da FEB. O último deles, no ano de 1981, General de Exército Alacyr Frederico Werner, chefiou a Subseção de Foto-Informação da 2ª Seção do Estado-Maior da 1ª DIE, como capitão (Motta, 2001a). Humberto de Alencar Castelo Branco foi mais um ilustre febiano a se formar na ESG, à época General de Brigada. Antigo Chefe da 3ª Seção (Operações) do Estado-Maior da 1ª Divisão de Infantaria Divisionária (1ª DIE), Castelo Branco foi também Subcomandante e Diretor do Departamento de Estudos da Escola, entre 1956 e 1958.
Durante sete décadas, passaram pelo Corpo Permanente da ESG diversas personalidades da intelectualidade brasileira, igualmente veteranos da FEB e destacadas figuras da vida nacional: os Generais Golbery do Couto e Silva e Carlos de Meira Mattos, além dos Coronéis Amerino Raposo Filho, Hélio Mendes, Joaquim Victorino Portella Ferreira Alves e Sergio Gomes Pereira. Aliam-se a eles outros tantos cidadãos que, convocados pelo esforço de guerra, combateram como praças na Itália, reintegraram-se à vida civil no pós-guerra e tornaram-se referências no serviço público e na iniciativa privada, como o engenheiro Djalma Dutra Ururahy e o advogado Joaquim Manoel Xavier da Silveira.
Os efeitos positivos da influência febiana na “casa onde estuda-se o destino do Brasil” se fizeram sentir de todos os níveis da escala hierárquica, transpassando as funções diretivas e diretamente acadêmicas. Para se ter uma ideia, em meados de 1950, no primeiro ano de funcionamento pleno da ESG, havia treze sargentos no corpo permanente, dos quais três eram veteranos da FEB. Serviam como auxiliares administrativos, desempenhavam funções técnicas e compunham as equipes de instrução militar do contingente de cabos e soldados. Eram eles os 2º Sargentos Benno Armindo Schirmer, Fortunato Scarpelli e Geraldo Camargo.
Merece uma especial menção Benno Armindo Schirmer. Na FEB, o 3º Sargento Benno, inicialmente destinado ao Depósito de Pessoal, foi posteriormente transferido para o 11º Regimento de Infantaria, em janeiro de 1945. Fluente em alemão, atuou como intérprete na linha de frente, interrogando prisioneiros capturados até o fim da guerra. Comandou patrulhas e liderou ações na Batalha de Montese. Reconhecido com as Medalhas de Guerra e de Campanha, foi também condecorado com a Cruz de Combate de 2ª Classe, por ato de bravura (Motta, 2001b).
De volta ao Brasil, o 3º Sargento Benno foi classificado no 4º Grupo de Artilharia de Dorso, depois 1º Grupo do 4º Regimento de Obuses 105mm, em Juiz de Fora-MG, antes de ser transferido para a ESG, em 1950, designado para trabalhar como auxiliar da 3ª Seção (Operações). Lá, atuou como operador cinematográfico, gravador e desenhista, elogiado sempre pelo seu comprometimento e alto rendimento (Motta, 2001b). Chegou ao posto de Capitão e foi transferido para a reserva como Major, em outubro de 1966. Se estabeleceu em Novo Hamburgo-RS, onde presidiu, por longos anos, a Seção Regional do Vale do Rio dos Sinos da Associação Nacional dos Veteranos da Força Expedicionária Brasileira (ANVFEB). Faleceu em 25 de abril de 2016, aos 92 anos de idade.
Com o passar dos anos, a importância e a pujança da ESG só robusteceram, privilegiando a cultura, fomentando a pesquisa, aguçando o pensamento crítico e irradiando mentalidade de Defesa Nacional pelo Brasil e no exterior. Como consequência natural, surgiu, em 2011, o Campus Brasília da ESG que, em 2021, evoluiu para a Escola Superior de Defesa (ESD). Hoje, a ESG e a ESD se somam e se completam, atuando de forma integrada, harmônica e sinérgica, subordinadas ao Ministério da Defesa.
Em 2025, ano em que se comemoram oito décadas das vitórias da FEB na 2ª Guerra Mundial, nossos bravos pracinhas, por tudo que fizeram e representam ao Brasil, são heróis sempre lembrados. Ao correlacionar as influências da FEB com a criação e o despertar da ESG, pretende-se, sobretudo, evidenciar e caracterizar a longa duração do espírito dos expedicionários brasileiros em todo o espectro social, não restrito apenas aos anos de guerra, mas entendido como uma experiência profunda, formadora e transformadora, que permanece inspirando o Exército de Caxias, as Forças Armadas e o País.
Autores:
Daniel Mata Roque
General de Brigada Andre Luiz de Souza Dias
GBN Defense - A informação começa aqui


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Excelente e claro texto. Parabéns aos autores. A história bem contada e escrita, divulga de forma fidedigna os fatos. Professora Drª Margarida Bernardes
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