O debate sobre a autonomia estratégica brasileira no campo da defesa frequentemente permanece aprisionado a um falso dilema entre dependência tecnológica dos Estados Unidos e cooperação industrial com países europeus. Essa leitura, além de limitada, ignora transformações profundas no sistema internacional e, sobretudo, desconsidera experiências concretas de países que conseguiram romper esse ciclo fora do eixo euro‑atlântico tradicional. Entre esses casos, a trajetória da indústria de defesa da Türkiye se impõe como uma das mais relevantes, e mais subestimadas, referências para o Brasil.
Desde 2019, o GBN Defense acompanha de forma sistemática e direta a evolução da base industrial de defesa da Türkiye. Esse acompanhamento não se deu apenas no plano analítico ou jornalístico, mas por meio de interlocução institucional contínua, presença em agendas diplomáticas, visitas à Embaixada da Türkiye no Brasil e diálogos recorrentes com representantes do governo turco e executivos da indústria de defesa daquele país. Ao longo desse período, o GBN tem trazido ao debate estratégico brasileiro uma constatação elementar, mas frequentemente ignorada: a necessidade de o Brasil estabelecer uma parceria mais firme, estruturada e de longo prazo com a indústria de defesa da Türkiye, não como alternativa ideológica, mas como escolha pragmática de política de Estado.
A Türkiye não emergiu como potência industrial de defesa por acaso, tampouco por alinhamento automático a qualquer bloco geopolítico. Ancara fez uma escolha estratégica deliberada: reduzir vulnerabilidades externas, eliminar dependências críticas e construir uma base industrial capaz de sustentar autonomia operacional, liberdade de exportação e capacidade de evolução tecnológica contínua. Esse tripé, autonomia decisória, domínio industrial e escala produtiva, é exatamente o que o Brasil afirma buscar há décadas, mas raramente consegue materializar de forma consistente.
O caso turco é particularmente instrutivo porque demonstra que soberania não nasce de discursos, mas de políticas industriais persistentes, continuidade estratégica e aceitação do risco inerente ao desenvolvimento tecnológico. Ao longo de mais de vinte anos, a Türkiye investiu de forma sistemática na substituição de importações em áreas sensíveis, no fortalecimento de empresas privadas nacionais com forte apoio estatal e na criação de escala por meio de exportações. O resultado é tangível: hoje, a indústria de defesa da Türkiye projeta capacidade tecnológica e industrial nos domínios terrestre, aéreo, naval, espacial e cibernético.
No domínio aeroespacial, a Türkiye construiu um dos ecossistemas mais completos fora do eixo tradicional ocidental. Empresas como a Baykar consolidaram o país como referência global em sistemas de aeronaves remotamente pilotadas, com plataformas testadas em combate real, arquitetura flexível e, sobretudo, concebidas fora das amarras de regimes restritivos como ITAR e BAFA. Essa liberdade de emprego, integração e exportação confere um diferencial estratégico central, especialmente relevante para países que necessitam preservar autonomia decisória ao longo do ciclo de vida do sistema.
Nesse mesmo domínio, a Turkish Aerospace Industries (TAI) desenvolveu capacidades que vão além dos drones. O helicóptero de ataque ATAK representa um exemplo concreto de integração de sensores, armamentos e sistemas de missão em uma plataforma nacional, com potencial de adaptação a requisitos específicos do operador. Já o Hürjet surge como uma solução particularmente interessante para o Brasil: uma aeronave LIFT capaz de cumprir missões de treinamento avançado, apoio aéreo aproximado, ataque leve e, em determinados cenários, funções de caça leve. Em um contexto de restrições orçamentárias e necessidade de versatilidade operacional, o Hürjet representa uma alternativa coerente para complementar a aviação de combate brasileira, preservando doutrina, treinamento e capacidade de transição para vetores mais complexos.
Complementando esse ecossistema, empresas como a Aselsan e a Roketsan posicionaram a Türkiye como um ator relevante em sistemas de defesa aérea, sensores, guerra eletrônica e munições guiadas. Trata-se de um conjunto integrado de capacidades que permite não apenas a aquisição de plataformas, mas o desenvolvimento de uma arquitetura de defesa aérea e de ataque em profundidade, com potencial real de integração a sistemas nacionais brasileiros.
No domínio terrestre, a maturidade da indústria da Türkiye é igualmente evidente e particularmente relevante para as necessidades brasileiras. Empresas como a Otokar dominam todo o ciclo de projeto, engenharia, testes e produção de viaturas blindadas modernas e modulares, com histórico comprovado de produção em escala e exportação para dezenas de países. O interesse brasileiro em plataformas como o Tulpar não se explica apenas por suas características técnicas, mas pela possibilidade concreta de cooperação industrial profunda, integração de sistemas nacionais e produção local.
Nesse mesmo espectro, o FNSS Kaplan MT se destaca como um carro de combate médio equilibrado, concebido para operar em ambientes urbanos, fronteiriços e de alta complexidade geográfica, oferecendo uma solução coerente entre mobilidade, proteção e poder de fogo, características que dialogam diretamente com o cenário operacional brasileiro. Já o FNSS ZAHA representa uma alternativa moderna para substituir ou complementar o atual CLAnf, incorporando conceitos contemporâneos de mobilidade anfíbia, proteção modular e integração de sistemas, alinhados às exigências atuais do combate expedicionário.
A experiência turca no desenvolvimento do carro de combate Altay completa esse quadro. Embora a produção esteja atualmente sob responsabilidade da BMC, o núcleo tecnológico do projeto foi concebido pela Otokar, acumulando conhecimento crítico em arquitetura veicular, integração de sistemas, blindagem e gestão de grandes programas industriais. Esse tipo de aprendizado é precisamente o que falta ao Brasil em seus programas de sistemas de combate pesado e que dificilmente será adquirido por meio de aquisições prontas ou transferências tecnológicas limitadas.
No domínio naval, a Türkiye também construiu uma indústria robusta e diversificada, capaz de projetar, fabricar e integrar plataformas modernas para patrulha costeira, proteção da zona econômica exclusiva e projeção de poder regional. Estaleiros como a STM e a Sedef demonstram competências avançadas em corvetas, fragatas, navios de assalto, embarcações rápidas e sistemas de combate integrados. As soluções navais turcas privilegiam modularidade, arquitetura aberta e integração de sensores e armamentos, oferecendo ao parceiro estratégico liberdade de adaptação tecnológica e transferência real de know‑how.
Para o Brasil, cuja Marinha enfrenta o desafio simultâneo de renovar meios, preservar capacidade industrial e garantir autonomia operacional, essas plataformas representam oportunidades concretas de codesenvolvimento e integração com sistemas nacionais, fortalecendo a base industrial de defesa e reduzindo dependências externas ao longo do ciclo de vida.
O ponto central, contudo, vai além de plataformas específicas. O verdadeiro diferencial estratégico da Türkiye reside no modelo de cooperação que oferece. Diferentemente de parcerias marcadas por transferências tecnológicas simbólicas ou condicionadas, a indústria turca opera sob a lógica do codesenvolvimento, da produção local e da integração plena de sistemas nacionais do parceiro. Trata‑se de pragmatismo industrial: o próprio sucesso da Türkiye depende da construção de redes internacionais que ampliem escala, reduzam custos e consolidem sua posição no mercado global.
Para o Brasil, isso é decisivo. Autonomia em defesa não significa produzir tudo internamente, mas preservar liberdade de decisão após a aquisição. Significa poder integrar sistemas de diferentes origens, modernizar plataformas sem autorizações externas, exportar produtos desenvolvidos em parceria e evitar que decisões políticas de terceiros se transformem em gargalos operacionais.
Nada disso implica romper ou substituir relações com Estados Unidos ou Europa. A lógica não é de exclusão, mas de diversificação estratégica. Em defesa, diversificar parceiros é reduzir riscos. Apostar em um único eixo é aceitar vulnerabilidades sistêmicas. A indústria de defesa da Türkiye não é um substituto automático, mas um complemento de altíssimo valor estratégico, especialmente em um mundo cada vez mais multipolar, no qual autonomia relativa deixou de ser luxo e passou a ser condição de sobrevivência.
Ignorar essa oportunidade por inércia diplomática ou apego a paradigmas ultrapassados seria um erro estratégico. O mundo já mudou, a indústria de defesa global já se reorganizou e a Türkiye é uma das evidências mais claras dessa transformação. Cabe ao Brasil decidir se continuará como comprador recorrente de soluções prontas ou se construirá poder industrial, tecnológico e militar com parceiros dispostos a compartilhar risco, conhecimento e futuro.
No fim, poder militar duradouro não se adquire por catálogo. Ele é construído ao longo do tempo, com escolhas estratégicas coerentes, parceiros adequados e visão de Estado. A Türkiye oferece exatamente isso: uma oportunidade concreta de transformar discurso em capacidade.
por Angelo Nicolaci
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