quinta-feira, 8 de janeiro de 2026

Haiti 2010: entre os escombros, a coragem do soldado brasileiro

Haiti, 12 de janeiro de 2010. Às 16h50, um terremoto de magnitude 7 na escala Richter atingiu o sul da ilha de Hispaniola e lançou o país em um dos maiores desastres humanitários do século XXI. Em poucos segundos, Porto Príncipe foi reduzida a escombros. Prédios desabaram como castelos de areia, hospitais deixaram de existir, ruas desapareceram sob concreto e poeira. O Haiti entrou em colapso absoluto.

No coração daquela tragédia estava a sede da Missão das Nações Unidas para a Estabilização do Haiti, a MINUSTAH, instalada no Hotel Christopher. O Brasil, que desde 2004 liderava o componente militar da missão, foi duramente atingido. Naquele instante, o país perdeu alguns de seus melhores homens, em um episódio que marcaria para sempre a história das Forças Armadas brasileiras em operações de paz.

Entre os militares presentes no prédio estava o então Tenente-Coronel Adriano de Souza Azevedo, do Exército Brasileiro. Era seu primeiro dia de trabalho na missão. Ele participava de uma reunião administrativa ao lado de outros oficiais, em um ambiente organizado, com bandeiras que simbolizavam a cooperação internacional. Em segundos, aquele cenário desapareceu.

O tremor inicial foi seguido por um impacto violento. O prédio começou a ceder de forma desordenada e avançou para frente antes de colapsar por completo. Na tentativa instintiva de fuga, Azevedo presenciou a morte de seu adjunto, o Major Guimarães, atingido quando tentava descer a escada. A estrutura se fechou sobre todos. Luz, ar e referências desapareceram.

Preso sob os escombros, ferido e cercado pela morte, o oficial brasileiro enfrentou momentos de absoluto desespero. O que permaneceu gravado em sua memória não foi apenas a dor física, mas os sons: o último suspiro de pessoas esmagadas e o ruído contínuo de equipamentos ainda ligados sob toneladas de concreto. Um retrato cru da fragilidade humana diante da força da natureza.

Foi então que surgiu uma fresta mínima de luz. Pequena, quase imperceptível, mas suficiente para reacender a vontade de viver. Com uma força que nasce da disciplina, do treinamento e da coragem moldada ao longo de toda uma carreira, Azevedo arrancou tijolos com as próprias mãos e atravessou a parede. Tornou-se um dos apenas cinco sobreviventes do desabamento do Hotel Christopher, onde cerca de 130 pessoas morreram soterradas.

Ferido na perna, exausto e ainda sob risco de novos tremores, ele poderia ter buscado abrigo. Não o fez. Sabia que outros ainda estavam presos sob os escombros. Entre eles, o Tenente-Coronel Alexandre Santos, companheiro de farda e de missão. Para Azevedo, sobreviver não significava encerrar a missão. Significava continuar.

Ao lado do Tenente-Coronel Celso Kersul, retornou ao local mais instável e perigoso possível. Sem equipamentos adequados, improvisaram técnicas de progressão e rapel em uma estrutura prestes a desmoronar novamente. Tremores secundários continuavam a atingir a região. Ainda assim, horas depois, Alexandre Santos foi retirado com vida. Mais tarde, Jude Brice, funcionário civil da ONU, também foi salvo graças à persistência e liderança do militar brasileiro.

O exemplo de Azevedo rompeu a paralisia causada pelo choque inicial. Outros militares e civis passaram a agir. As ruas de Porto Príncipe revelavam um cenário difícil de descrever: corpos empilhados, famílias desorientadas, feridos clamando por socorro. Para permitir o deslocamento das viaturas e salvar vidas, corpos precisaram ser afastados. A decisão foi imediata e coletiva. O Brasil, mesmo ferido, assumia novamente a linha de frente.

Nos dias seguintes, as tropas brasileiras desempenharam papel central nas operações de resgate, assistência humanitária, segurança e apoio médico. Mesmo após perder oficiais, sargentos e praças, o Brasil não recuou. Manteve-se firme, organizado e humano, honrando o compromisso assumido com a paz e com o povo haitiano.

Pelos atos de coragem, liderança e abnegação, Adriano de Souza Azevedo foi agraciado com a Medalha do Pacificador com Palma, uma das mais altas condecorações do Exército Brasileiro. Mais do que uma medalha, o reconhecimento simboliza um comportamento que representa o melhor do soldado brasileiro. Ao recordar aqueles dias, Azevedo sempre destacou algo que vai além do heroísmo individual: o espírito de equipe, a capacidade do brasileiro de agir quando tudo ao redor desmorona.

O terremoto de 2010 deixou mais de 200 mil mortos e mais de um milhão e meio de desabrigados no Haiti. Para o Brasil, deixou uma dor profunda, mas também um legado incontestável. Ali, longe de casa, homens de farda honraram seu juramento até as últimas consequências.

Esta matéria também carrega um reconhecimento pessoal e profissional. Nosso editor mantém amizade e profundo respeito pelo Cel Adriano de Souza Azevedo, não apenas pelo episódio no Haiti, mas por uma trajetória marcada pela liderança serena, pela coragem silenciosa e pelo compromisso inabalável com seus comandados. Seu exemplo não se resume àquele dia trágico, mas se estende por toda uma vida dedicada ao serviço.

Ao final, rendemos homenagem aos militares brasileiros que tombaram no Haiti, aos que sobreviveram carregando marcas visíveis e invisíveis, e a todos que, mesmo diante do caos absoluto, escolheram permanecer, agir e salvar vidas. Homens como Azevedo e tantos outros que fizeram do uniforme não um símbolo de poder, mas de responsabilidade.

Que seus nomes jamais sejam esquecidos.
Que seu exemplo continue vivo.

E que o heroísmo brasileiro, forjado na disciplina, na coragem e na humanidade, siga sendo referência onde quer que o Brasil seja chamado a servir.



por Angelo Nicolaci


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