A intensificação das tensões geopolíticas em diferentes regiões do mundo tem reconfigurado de forma significativa as agendas de segurança e defesa de diversos países. O sistema internacional atravessa um período de crescente fragmentação estratégica, marcado pela multiplicação de conflitos regionais, pela competição entre grandes potências e pela securitização acelerada de tecnologias emergentes, com impactos diretos sobre a estabilidade regional e a autonomia decisória dos Estados.
Na América do Sul, a prisão de Nicolás Maduro e o consequente agravamento da crise política e institucional na Venezuela alteraram de forma relevante o equilíbrio estratégico regional. A intensificação das tensões entre os Estados Unidos e a Venezuela, somada à incerteza quanto à governabilidade, ao controle das forças de segurança e à dinâmica interna do país vizinho, introduz novos vetores de instabilidade no entorno estratégico do Brasil, que até então se caracterizava por baixos níveis de conflito interestatal.
Esse novo cenário amplia a complexidade dos desafios relacionados à vigilância de fronteiras, ao controle de fluxos migratórios, ao combate a ilícitos transnacionais e à preservação da soberania nacional, exigindo maior capacidade de antecipação, dissuasão e resposta por parte do Estado brasileiro.
Nesse contexto, a Base Industrial de Defesa (BID) assume papel ainda mais central como instrumento de autonomia estratégica, política industrial de alto valor agregado e inserção internacional qualificada. Sua relevância deve ser compreendida para além da dimensão estritamente militar, abrangendo a geração de capacidades tecnológicas críticas, a resiliência do Estado frente a cenários de instabilidade regional e a consolidação do Brasil como ator responsável e previsível no campo da segurança e da defesa.
A BASE INDUSTRIAL DE DEFESA BRASILEIRA COMO ATIVO ESTRATÉGICO DE ESTADO
Sob a perspectiva adotada por organismos multilaterais e centros de análise estratégica, a indústria de defesa constitui um dos pilares da capacidade estatal em contextos de incerteza geopolítica. No caso brasileiro, a BID é composta por um ecossistema industrial diversificado, que abrange os domínios aeroespacial, naval, terrestre, espacial, cibernético, comunicações e eletroeletrônico, fomentando empresas de alta tecnologia, plenamente estabelecidas e integradas ao setor produtivo do país independentemente da origem de seu capital. O critério relevante para avaliação estratégica não reside no país de origem das empresas, mas na capacidade de investimentos, na transferência de tecnologias, na geração de valor local, na retenção de competências tecnológicas, na formação de capital humano altamente qualificado e na aderência dessas capacidades às prioridades de defesa e segurança nacionais.
EXPANSÃO DAS EXPORTAÇÕES E INSERÇÃO INTERNACIONAL
Nos últimos anos, a Base Industrial de Defesa brasileira apresentou um crescimento expressivo de suas exportações, refletindo ganhos de competitividade, maturidade tecnológica e reconhecimento internacional de seus produtos e sistemas. O aumento significativo das vendas externas demonstra a capacidade da BID de atender a padrões internacionais rigorosos, operar em cadeias globais de valor e competir em mercados altamente regulados. Do ponto de vista das relações internacionais, esse desempenho projeta o Brasil como um fornecedor relevante de produtos e sistemas de defesa, ampliando sua presença diplomática, fortalecendo parcerias estratégicas e contribuindo para sua política externa por meio de instrumentos de cooperação industrial e tecnológica. Entretanto, essa inserção internacional mais robusta contrasta com um desafio estrutural persistente no plano doméstico.
A ASSIMETRIA ENTRE CAPACIDADE INDUSTRIAL E A DEMANDA INTERNA
Apesar da evolução tecnológica e do desempenho exportador da BID, as Forças Armadas brasileiras enfrentam limitações significativas de absorção dessas capacidades, em razão de sucessivos cortes orçamentários e da elevada rigidez do orçamento de defesa, historicamente concentrado em despesas obrigatórias. Essa assimetria gera um paradoxo estratégico: o Brasil dispõe de uma Base Industrial de Defesa capaz de desenvolver e produzir sistemas avançados, mas ainda carece de previsibilidade orçamentária e continuidade programática para incorporá-los de forma sistemática às suas próprias forças. Sob a ótica de políticas públicas, essa desconexão reduz o efeito multiplicador dos investimento em defesa, enfraquece a indução tecnológica gerada por encomendas governamentais, limita o planejamento de longo prazo da indústria e amplia a dependência da BID em relação ao mercado externo, tornando-a mais vulnerável a ciclos internacionais e restrições geopolíticas.
THINK TANKS* internacionais frequentemente apontam que a demanda doméstica estável é elemento crítico para a sustentabilidade de uma indústria de defesa, não apenas como cliente, mas como indutor de inovação, padronização e soberania operacional.
IMPLICAÇÕES PARA AUTONOMIA ESTRATÉGICA E POLÍTICA EXTERNA
A persistência de baixos níveis de investimento em aquisição e modernização de meios compromete a credibilidade dissuasória do país e restringe a sua capacidade de atuação autônoma em cenários regionais e multilaterais. Além disso, limita a plena exploração dos benefícios estratégicos associados à BID, tais como:
➢ Domínio do ciclo de vida dos sistemas;
➢ Autonomia do suporte logístico e de manutenção;
➢ Capacidade de adaptação rápida a novos cenários de ameaça;
➢ Continuidade logística e operacional das Forças Armadas em cenários de crise;
➢ Redução de vulnerabilidades externas em sistemas sensíveis;
➢ Capacidade nacional de manutenção, modernização e integração de plataformas estratégicas;
➢ Flexibilidade diplomática, ao diminuir dependências críticas de fornecedores externos.
Para países com ambições de protagonismo regional, a literatura estratégica destaca a importância de alinhar política industrial de defesa, planejamento militar e política externa, evitando que capacidades industriais avancem de forma dissociada das necessidades operacionais do Estado.
EMPRESAS BRASILEIRAS COM CAPITAL INTERNACIONAL E INSERÇÃO GLOBAL
A presença de empresas brasileiras com capital internacional na BID deve ser analisada sob uma ótica pragmática e estratégica. Em um setor caracterizado por cadeias globais altamente reguladas e intensivas em tecnologia, a participação em programas internacionais amplia o acesso a mercados, padrões tecnológicos e processos industriais avançados. A experiência internacional demonstra que países com BID robusta combinam capital nacional e internacional, desde que preservem o controle soberano sobre requisitos operacionais, propriedade intelectual sensível e ciclos de vida dos sistemas estratégicos.
CONSIDERAÇÕES FINAIS
O fortalecimento da Base Industrial de Defesa brasileira ocorre em um momento de profunda transformação do ambiente internacional. O crescimento das exportações confirma a relevância e a competitividade da BID, mas também expõe uma fragilidade estrutural que é a limitada capacidade do Estado brasileiro de absorver, de forma contínua e previsível, as soluções que ele próprio ajuda a desenvolver.
Para organismos internacionais e centros de análise estratégica, a principal questão não é a existência de capacidades industriais, mas a coerência entre ambição estratégica, financiamento público e governança institucional. Superar essa assimetria exige uma abordagem de política de Estado, que reconheça a BID, que é composta por empresas nacionais e empresas brasileiras com capital internacional, como um instrumento central da autonomia estratégica brasileira, capaz de contribuir simultaneamente para a segurança nacional, o desenvolvimento tecnológico e a inserção internacional do país.
* Think tanks são instituições dedicadas à produção de conhecimento aplicado, com foco em análise, pesquisa e formulação de propostas para orientar políticas públicas, estratégias governamentais, decisões empresariais e debates da sociedade.
por Mauro Beirão
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