domingo, 4 de janeiro de 2026

A soberania no papel e a guerra na prática: o que a Venezuela ensina ao Brasil

A operação militar conduzida pelos Estados Unidos em território venezuelano expôs, de forma contundente, fragilidades estruturais profundas no sistema de defesa do país. Independentemente de ideologia, alinhamento político ou da figura de Nicolás Maduro, o episódio deve ser analisado como um estudo de caso militar sobre o que ocorre quando um Estado perde sua capacidade real de dissuasão, comando e controle.

Um dos aspectos mais reveladores foi o custo operacional praticamente nulo para os Estados Unidos. Não houve registro de baixas, aeronaves abatidas, navios danificados ou resistência capaz de impor qualquer tipo de desgaste relevante. Do ponto de vista militar, a operação ocorreu em ambiente quase totalmente permissivo. Em poucas horas, forças americanas ingressaram no país, executaram a captura de um alvo de altíssimo valor estratégico, o chefe de Estado, e se retiraram sem necessidade de ocupação territorial ou confronto prolongado.

Esse dado, por si só, já indica um colapso severo da capacidade defensiva venezuelana. Em operações modernas, mesmo contra forças muito superiores, espera-se ao menos a imposição de custos mínimos ao agressor. Quando isso não ocorre, a dissuasão simplesmente inexiste.

A comparação com a Operação Just Cause, no Panamá, em 1989, é inevitável. À época, os Estados Unidos levaram dias para capturar Manuel Noriega, enfrentando resistência localizada, combates urbanos e baixas, mesmo tratando-se de um país muito menor, menos militarizado e com forças armadas significativamente mais limitadas do que as da Venezuela atual. No caso venezuelano, o contraste é evidente: território maior, efetivos superiores, sistemas de defesa aérea mais modernos no papel e, ainda assim, uma reação praticamente inexistente.

O primeiro ponto crítico foi o controle do espaço aéreo. Apesar de a Venezuela dispor de sistemas de defesa aérea de origem russa, como o S-300VM e o Buk-M2, esses meios só são eficazes quando integrados a uma rede funcional de sensores, comando e controle, doutrina clara e operadores treinados. O que se observou foi a incapacidade de detectar, rastrear e neutralizar aeronaves operando em baixa altitude e com elevada coordenação. Isso indica falhas na cobertura radar, na integração entre sistemas e, possivelmente, na cadeia decisória para autorização de engajamento.

A ausência de superioridade aérea agravou ainda mais o cenário. A Força Aérea Venezuelana opera uma frota limitada de caças Su-30MK2, afetada por restrições logísticas, baixa disponibilidade operacional, escassez de peças e treinamento comprometido. Aeronaves que não decolam não produzem dissuasão. Sem prontidão real, o país perdeu a iniciativa desde os primeiros momentos da operação.

No domínio marítimo, a situação foi semelhante. A Venezuela não possui uma marinha capaz de negar o uso do mar a uma potência naval. A carência de meios de vigilância marítima eficazes, a baixa operacionalidade de navios de superfície e submarinos e a ausência de integração com sistemas de defesa costeira permitiram que forças externas operassem com ampla liberdade no entorno estratégico do país.

A vulnerabilidade de infraestruturas críticas também ficou evidente. Bases aéreas, centros de comando, instalações militares e sistemas elétricos foram rapidamente afetados. Isso revela falhas graves em proteção passiva, redundância, dispersão de meios e defesa de pontos sensíveis. Em conflitos contemporâneos, neutralizar energia, comunicações e comando é tão decisivo quanto destruir meios militares convencionais.

No entanto, talvez o fator mais determinante para o colapso defensivo venezuelano esteja na degradação institucional de suas Forças Armadas ao longo dos últimos anos. Desde a ascensão do chavismo ao poder, o Exército venezuelano passou por sucessivos expurgos, perseguições internas e substituição de critérios técnicos por alinhamento ideológico. Oficiais experientes foram afastados, presos ou marginalizados, enquanto promoções passaram a privilegiar lealdade política em detrimento de mérito, competência e preparo profissional.

Esse processo comprometeu profundamente a cadeia de comando, a confiança interna, a moral da tropa e a capacidade de planejamento e execução de operações complexas. Forças armadas ideologicamente aparelhadas tendem a perder eficiência, iniciativa e autonomia tática. A defesa nacional deixa de ser uma função de Estado e passa a servir a um projeto de poder, o que, invariavelmente, enfraquece ambos.

A captura rápida do chefe de Estado também indica falhas graves nos protocolos de proteção do alto comando. Em um sistema de defesa minimamente funcional, a neutralização de um alvo dessa importância exigiria múltiplas camadas de segurança, redundância, dispersão e capacidade de reação escalonada. Nada disso se materializou de forma efetiva.

O caso venezuelano deixa uma lição clara e incômoda: soberania não se sustenta em discurso, narrativa ou alinhamento ideológico. Ela depende de capacidades reais, continuamente mantidas, baseadas em profissionalismo, meritocracia, integração operacional e autonomia tecnológica. Dissuasão não exige paridade absoluta, mas exige credibilidade. E credibilidade se constrói com prontidão, treinamento e instituições sólidas.

Para o Brasil, o episódio serve como alerta estratégico. Um país de dimensões continentais, com vastas fronteiras, extensa área marítima e recursos estratégicos críticos, não pode permitir que suas instituições de defesa sejam fragilizadas por aparelhamento político, cortes estruturais ou abandono da meritocracia. A politização excessiva de instituições de Estado não apenas compromete a defesa, como representa um risco direto à democracia.

A Venezuela tornou-se um exemplo claro do fiasco de substituir profissionalismo por ideologia. Quando a defesa nacional é tratada como instrumento político, o resultado não é soberania, mas vulnerabilidade. E a geopolítica não pune discursos, ela explora fraquezas.

Em defesa, a regra é simples e implacável: quem não impõe custo, perde relevância. Quem não reage, perde controle. E quem abre mão da meritocracia, abre mão da própria soberania.

O caso venezuelano não deve ser observado pelo Brasil com conforto ou distância analítica. Ao contrário, ele expõe vulnerabilidades que, em diferentes proporções, também estão presentes na realidade brasileira. A diferença é que o Brasil ainda preserva instituições profissionais e não passou por um processo sistemático de expurgos ideológicos nas Forças Armadas. Isso, no entanto, não compensa lacunas estruturais graves em capacidade de defesa.

O Brasil não possui hoje capacidade efetiva de controle e defesa de seu espaço marítimo em toda a extensão da chamada Amazônia Azul. A Marinha opera com número limitado de meios de superfície, muitos deles envelhecidos, com restrições de disponibilidade e cobertura insuficiente para uma área marítima que abriga rotas comerciais vitais, reservas energéticas estratégicas e infraestrutura crítica. A capacidade de vigilância, negação de área e resposta rápida é claramente aquém das necessidades de um país com pretensões de soberania plena.

No domínio aéreo, a situação é igualmente preocupante. Embora o Brasil disponha de um sistema de controle do espaço aéreo reconhecido pela sua eficiência no gerenciamento do tráfego, não se pode confundir com capacidade de defesa aérea. Controlar não é o mesmo que defender. A frota de caças é numericamente limitada, concentrada em poucas bases e insuficiente para garantir presença contínua em todas as regiões estratégicas do território nacional. Superioridade aérea regional, em um cenário de crise, não é garantida.

Mais crítica ainda é a quase inexistência de uma defesa antiaérea de médio e longo alcance. O Brasil carece de um sistema integrado de defesa antiaérea capaz de proteger centros de comando, bases militares, infraestrutura energética, polos industriais e áreas sensíveis contra ameaças modernas, como aeronaves de ataque, mísseis de cruzeiro e sistemas não tripulados. Sem essa camada de proteção, qualquer estrutura crítica se torna vulnerável desde os primeiros momentos de um conflito.

Esse conjunto de limitações significa, na prática, que o Brasil não possui hoje uma capacidade robusta de dissuasão. Dissuasão não se constrói com boa vontade diplomática, tradição pacífica ou discurso de neutralidade. Ela depende da capacidade concreta de impor custos inaceitáveis a qualquer agressor potencial. Sem isso, a soberania passa a depender mais da percepção externa de baixo risco do que de poder real.

O exemplo venezuelano deixa claro onde esse caminho pode levar. Quando um país não consegue proteger seu espaço aéreo, seu litoral, suas infraestruturas críticas e seu alto comando, a decisão de intervir deixa de ser política e passa a ser operacional. A ausência de capacidade defensiva transforma qualquer crise em oportunidade para atores externos mais bem preparados.

Para o Brasil, o alerta é estratégico e urgente. Investimento em defesa não é gasto supérfluo, nem projeto ideológico. É política de Estado. Envolve planejamento de longo prazo, fortalecimento da indústria nacional de defesa, domínio tecnológico, integração entre forças e garantia de prontidão real. Sem tecnologia própria, não há autonomia. Sem autonomia, não há soberania.

A manutenção da meritocracia, do profissionalismo e da despolitização das Forças Armadas é condição necessária, mas não suficiente. Sem meios, sem sistemas integrados, sem capacidade antiaérea, sem presença marítima consistente, até instituições sólidas ficam expostas.

A Venezuela mostrou o que acontece quando a defesa é negligenciada, ideologizada e tratada como acessório. O Brasil ainda tem tempo de escolher outro caminho. Mas soberania não se improvisa. Ou se constrói com investimento, tecnologia e planejamento, ou se perde no silêncio, até o dia em que a realidade cobra a conta.

Como nota final, a ironia histórica é inevitável. Nos anos 1990, durante a Operação Serpente Gótica, os Estados Unidos tentaram uma ação de extração de lideranças na Somália, um Estado falido, sem forças armadas convencionais, sem defesa aérea, sem marinha e praticamente sem estrutura estatal. O resultado foi resistência urbana, baixas americanas, helicópteros derrubados e uma retirada sob pressão, episódio que entrou para a história e para o cinema. Três décadas depois, na Venezuela, um país com forças armadas formais, sistemas antiaéreos modernos no papel e discurso constante de soberania, a mesma lógica de operação ocorreu como um "passeio no parque": sem perdas, sem resistência relevante e com o alvo principal removido em poucas horas. Quando até a Somália impõe mais custos do que um Estado organizado, o problema não é externo, é estrutural. E essa é a lição mais dura que a Venezuela deixa para quem ainda confunde soberania com retórica.


por Angelo Nicolaci


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