sábado, 29 de novembro de 2025

Brasil em Transição Estratégica: Oportunidades e Riscos da Nova PND e END em um Mundo Multipolar

A nova Política Nacional de Defesa (PND), a Estratégia Nacional de Defesa (END) e o Livro Branco de Defesa Nacional (LBDN), aprovados pelo Decreto nº 12.725/2025, representam o esforço mais recente do Estado brasileiro para reposicionar o país diante de uma transição geopolítica complexa: o fim definitivo da unipolaridade e a consolidação de um ambiente multipolar competitivo, volátil e marcado por assimetrias estratégicas.

O documento reconhece que o mundo pós-Guerra Fria não é mais definido pelo predomínio absoluto dos EUA, mas pela emergência de novos polos de poder econômicos, tecnológicos e militares que disputam influência global. Esse diagnóstico, ainda que tardio, é fundamental para um país que aspira autonomia estratégica e pretende reduzir a dependência externa em setores sensíveis.

Uma das principais mudanças do texto é o reposicionamento explícito do Brasil entre as potências emergentes. A política de defesa coloca os BRICS como plataforma prioritária para diversificação de parcerias e fortalecimento da capacidade nacional em áreas estratégicas. O bloco, ampliado desde 2023 com membros como Arábia Saudita, Egito, Emirados Árabes Unidos, Etiópia e Irã, é apontado como ferramenta relevante para uma governança internacional descentralizada e ampliar o acesso a mercados, tecnologias e cadeias produtivas, especialmente no setor de defesa.

Ao mesmo tempo, o LBDN aponta com clareza que a multipolaridade não implica necessariamente estabilidade. Pelo contrário: a competição entre grandes potências e a ausência de mecanismos eficientes de governança global criam riscos adicionais para países de médio porte, como o Brasil. Permanecer “relativamente afastado das principais áreas de tensão” não significa estar imune a seus efeitos, sobretudo no campo econômico, cyber, espacial e energético.

O documento reforça a necessidade de uma capacidade mínima de dissuasão e de preparo constante para proteção da soberania, seja no Atlântico Sul, na Amazônia ou nos espaços cibernético e aeroespacial. Entretanto, a grande questão que permanece sem resposta é se o país terá, de fato, densidade orçamentária e continuidade política para transformar essa intenção em capacidade real.

Outro ponto relevante é o reposicionamento do Brasil como ator ativo em operações de paz e cooperação militar internacional. A narrativa de protagonismo, reforçada pelo histórico brasileiro nas missões da ONU, é positiva, mas deve ser acompanhada de investimentos concretos em interoperabilidade, modernização e capacidade expedicionária, elementos indispensáveis para quem deseja ter voz em fóruns de segurança global.

A nova PND e END acertam ao enfatizar a necessidade de diversificação de parceiros, autonomia industrial e desenvolvimento tecnológico, pilares indispensáveis para qualquer país que pretenda reduzir vulnerabilidades estratégicas. No entanto, para além do discurso, será preciso enfrentar desafios internos que há décadas limitam o avanço brasileiro: ciclos orçamentários instáveis, descontinuidade de programas, dependência de importações sensíveis e falta de visão de longo prazo na indústria de defesa.

Mais do que apontar caminhos, os documentos expõem uma escolha estratégica: ou o Brasil assume papel ativo no novo equilíbrio multipolar, fortalecendo suas capacidades e investindo de maneira contínua, ou permanecerá vulnerável às decisões alheias, sempre reagindo, nunca influenciando.

O desafio está posto. O país terá maturidade para enfrentá-lo?


por Angelo Nicolaci


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