segunda-feira, 14 de setembro de 2026

Marinha do Brasil na Türkiye: GÖKDENİZ entra no radar da MB?

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A presença de uma delegação da Marinha do Brasil na Türkiye, revelada nos últimos dias, acrescenta um novo elemento à aproximação naval entre os dois países e levanta uma questão que merece ser analisada sob o ponto de vista operacional: estaria a MB avaliando soluções turcas para ampliar a defesa de ponto de seus navios? O GÖKDENİZ 35 mm, desenvolvido pela ASELSAN, poderia estar entre os sistemas observados pela delegação brasileira. Até o momento, porém, não há confirmação oficial de que o equipamento esteja sendo avaliado pela Força.

A movimentação ocorre poucos dias depois da passagem do Navio-Escola Brasil por Istambul, entre 31 de agosto e 4 de setembro. Durante a escala, o comandante do navio, Capitão de Mar e Guerra Ricardo Lima Maia, e integrantes da delegação foram recebidos pelo Vice-Almirante Ramazan Özoğul, comandante da Área Marítima do Norte da Marinha da Türkiye. A visita ocorreu em um momento de intensificação do relacionamento bilateral no setor de defesa, após anos de aproximação política e industrial entre os dois países.

O contexto tecnológico dessa aproximação também merece atenção. A indústria de defesa turca desenvolveu uma cadeia própria de radares, guerra eletrônica, sensores eletro-ópticos, mísseis, sistemas de gerenciamento de combate e armas de defesa aproximada. Para a Marinha brasileira, que precisa ampliar a capacidade de sobrevivência de seus meios diante da evolução das ameaças aéreas, esse conjunto oferece referências que podem ser confrontadas com as necessidades nacionais.

O GÖKDENİZ é um dos exemplos mais relevantes. Desenvolvido pela ASELSAN, o sistema é um CIWS de 35 mm equipado com dois canhões automáticos e concebido para enfrentar mísseis antinavio, aeronaves, helicópteros, VANTs e ameaças assimétricas de superfície. A configuração 100/35StA emprega munição programável ATOM e integra sensores e controle de tiro à solução de defesa aproximada.

O interesse para a MB está menos no calibre do armamento do que na combinação entre detecção, acompanhamento, controle de tiro e munição programável. Essa arquitetura cria uma camada terminal capaz de reagir contra ameaças que atravessem defesas de maior alcance ou sejam detectadas já dentro de uma janela reduzida de resposta. Contra drones e outros vetores de menor custo, também permite discutir uma relação mais equilibrada entre o valor do alvo e o custo do interceptador.

A mudança do ambiente de guerra naval reforça essa questão. Mísseis antinavio de baixa altitude continuam representando uma ameaça crítica, mas agora dividem o espaço operacional com VANTs, munições de ataque de baixo custo e ataques de saturação. A defesa precisa combinar alcance, velocidade de reação, probabilidade de interceptação e custo por engajamento, evitando utilizar uma solução de alto valor contra toda e qualquer ameaça.

É nesse ponto que o GÖKDENİZ deve ser observado em conjunto com o GÖKSUR 100-N, desenvolvido pela ASELSAN em parceria com o TÜBİTAK SAGE. O sistema emprega mísseis para defesa de ponto, possui alcance efetivo declarado de 15 quilômetros, capacidade de engajamento múltiplo e integração ao sistema de gerenciamento de combate. O míssil utiliza buscador infravermelho de imagem e enlace de dados bidirecional, tendo entre seus alvos prioritários mísseis antinavio e de cruzeiro que voam próximo à superfície.

Essa combinação permite analisar uma arquitetura na qual o GÖKSUR atua em uma faixa anterior e o GÖKDENİZ constitui a camada terminal. Para a MB, o interesse está em determinar como sensores, mísseis e armas de defesa aproximada poderiam trabalhar de forma integrada diante de ataques múltiplos.

Outra solução que merece entrar nessa comparação é o LEVENT, da ROKETSAN. Trata-se de um sistema de defesa antiaérea de curto alcance desenvolvido para plataformas navais, com possibilidade de operar integrado aos sensores do navio ou utilizando seus próprios meios de detecção. Os dados fornecidos pela empresa indicam alcance de até 11 quilômetros, buscador infravermelho associado a sensor passivo de radiofrequência e capacidade contra aeronaves, helicópteros, VANTs e mísseis antinavio.

A existência dessas três soluções é relevante porque permite comparar arquiteturas, e não simplesmente equipamentos. GÖKDENİZ, GÖKSUR e LEVENT empregam tecnologias diferentes para enfrentar ameaças semelhantes, oferecendo à MB parâmetros para analisar alcance, sensores, resistência à guerra eletrônica, capacidade contra alvos de baixa assinatura, engajamento múltiplo, logística e integração ao sistema de combate.

A experiência turca ganha ainda mais peso quando observada no nível da plataforma. A modernização da fragata TCG Oruçreis envolveu 21 sistemas, incluindo o radar de vigilância CENK, o radar de controle de tiro AKREP, sistemas de guerra eletrônica ARES e AREAS, o sistema PİRİ, GÖKDENİZ, o sistema de contramedidas contra torpedos HIZIR e o sonar FERSAH. O programa demonstra a capacidade de integrar diferentes subsistemas em uma arquitetura nacional de combate naval.

Esse aspecto é particularmente importante para o Brasil. A eficiência de um sistema de defesa de ponto depende da qualidade dos sensores, do gerenciamento de combate, dos enlaces de dados e da capacidade de identificar e priorizar ameaças. A vantagem não está apenas na arma, mas no tempo necessário para transformar uma detecção em solução de tiro e decisão de engajamento.

A modernização do TCG Oruçreis também oferece uma referência para a atualização de plataformas existentes. Para uma Marinha que precisa conciliar novas construções, manutenção e evolução tecnológica de meios em serviço, programas desse tipo podem fornecer parâmetros sobre como incorporar capacidades contemporâneas sem depender exclusivamente da substituição das plataformas.

Essa possibilidade ganha relevância quando se observa a atual composição da Esquadra. O NAM Atlântico e o NDM Oiapoque desempenham funções distintas das fragatas, mas são plataformas de elevado valor operacional e estratégico, cuja capacidade de autodefesa contra ameaças aéreas poderia ser ampliada. A eventual integração de uma solução de defesa de ponto não significaria transformar esses navios em plataformas de combate autônomas, mas acrescentar uma camada de proteção compatível com sua importância e com as missões que podem desempenhar em ambientes de maior ameaça.

No caso das fragatas classe Tamandaré, a discussão pode ser ainda mais oportuna. Com a Marinha em breve avançando para um segundo lote da classe, a experiência acumulada com as primeiras unidades permitiria avaliar eventuais aprimoramentos na arquitetura de defesa, incluindo uma capacidade de defesa de ponto mais robusta e estruturada em camadas. Sistemas como GÖKDENİZ, GÖKSUR ou outras soluções disponíveis no mercado poderiam ser comparados tecnicamente nesse processo, ao lado das alternativas nacionais.

Não há, até o momento, confirmação pública de que o GÖKDENİZ esteja sendo avaliado para as fragatas classe Tamandaré, o NAM Atlântico, o NDM Oiapoque ou qualquer outro navio brasileiro, tampouco de que a delegação tenha realizado uma avaliação formal do sistema. O que existe é uma oportunidade concreta para observar soluções que respondem a problemas presentes na agenda operacional da MB.

A classe Tamandaré é naturalmente uma referência nesse debate por representar o núcleo da renovação da Esquadra, mas a discussão não precisa ficar limitada a ela. Diferentes classes de navios podem demandar níveis distintos de defesa contra drones, mísseis e outras ameaças aéreas, de acordo com seu valor, missão e área de emprego.

Para a Amazônia Azul, essa questão assume uma dimensão adicional. A Marinha precisa preservar capacidade de presença e reação em uma área marítima de dimensões continentais, o que exige combinar plataformas, sensores e armas dentro de uma arquitetura sustentável. A defesa de ponto é uma dessas capacidades e precisa ser dimensionada de acordo com a importância e a vulnerabilidade de cada meio.

Também existe uma dimensão industrial. Qualquer eventual cooperação deveria considerar a participação da Base Industrial de Defesa brasileira, capacidade de integração nacional, manutenção, treinamento, suporte logístico, domínio de interfaces e possibilidade de evolução do sistema. A experiência turca é interessante justamente porque demonstra como o domínio de componentes críticos pode transformar uma necessidade operacional em capacidade industrial exportável.

Por isso, a pergunta mais importante não é simplesmente se o Brasil deveria comprar o GÖKDENİZ. O ponto é verificar se as soluções desenvolvidas pela Türkiye oferecem vantagens técnicas, operacionais ou industriais que justifiquem sua comparação com alternativas nacionais e estrangeiras.

A passagem do N.E. Brasil por Istambul e a posterior presença de uma delegação da Marinha brasileira ocorrem no momento em que essa comparação pode ser particularmente produtiva. Sem atribuir à missão objetivos que não foram oficialmente divulgados, a aproximação abre espaço para que a MB conheça diretamente uma arquitetura naval construída em torno de sensores, guerra eletrônica, mísseis e defesa aproximada de desenvolvimento nacional.

Se o GÖKDENİZ está efetivamente entre os sistemas observados pela delegação brasileira, ainda não se sabe. Mas suas características, somadas às soluções complementares oferecidas pelo GÖKSUR e pelo LEVENT, justificam que a capacidade turca seja colocada lado a lado com as alternativas disponíveis no mercado internacional e com os caminhos tecnológicos que o próprio Brasil pretende desenvolver.

Para uma Marinha diante de ameaças cada vez mais diversificadas, ampliar o universo de soluções disponíveis é parte da própria construção de capacidade. Nesse sentido, uma avaliação técnica e comparativa do GÖKDENİZ e de seus sistemas complementares poderia oferecer à MB mais um parâmetro para decidir como deverá ser estruturada a defesa de ponto das plataformas que operarão na Amazônia Azul nas próximas décadas.


por Angelo Nicolaci


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domingo, 13 de setembro de 2026

Escudo das Américas: quando a crise diplomática alcança a segurança

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A construção de uma arquitetura de segurança para o Hemisfério Ocidental costuma ser associada a forças armadas, bases, equipamentos, vigilância de fronteiras e capacidade de resposta militar. Essa visão, porém, deixa de fora um componente menos visível e igualmente estratégico: a capacidade dos Estados de compartilhar inteligência, manter canais operacionais e cooperar de forma contínua contra ameaças que não respeitam fronteiras.

Uma reportagem publicada pelo InfoMoney, com informações do The New York Times, expôs uma consequência concreta da atual crise diplomática entre Brasil e Estados Unidos. Segundo a apuração, Washington reteve vistos de dois agentes da Polícia Federal designados para atuar nos Estados Unidos junto ao Homeland Security Investigations e outras agências federais americanas. Em resposta, o Brasil passou a bloquear a autorização para um agente de segurança pública americano trabalhar no país.

O episódio alcançou também a cooperação entre órgãos responsáveis pelo controle de fluxos financeiros e fronteiriços. De acordo com a reportagem, os Estados Unidos recusaram um pedido de visita de agentes da Receita Federal e da Aduana brasileira envolvidos em investigações sobre lavagem de dinheiro e contrabando de armas relacionados a organizações internacionais do narcotráfico.

Não se trata, portanto, apenas de uma disputa sobre vistos ou de um incidente protocolar entre governos. Quando agentes especializados deixam de ocupar postos de ligação, visitas técnicas são interrompidas e canais de contato passam a sofrer restrições, uma crise política começa a produzir efeitos sobre a capacidade operacional dos próprios Estados.

Brasil e Estados Unidos possuem uma trajetória de cooperação em investigações contra crimes internacionais, incluindo fraude, tráfico e organizações criminosas transnacionais. A presença de um adido da agência americana de Imigração e Alfândega no Brasil há mais de duas décadas é um dos elementos que demonstram a existência de uma estrutura institucional construída muito antes da atual conjuntura. Ações conjuntas anteriores contribuíram para desarticular esquemas internacionais de corrupção, redes de pirataria e organizações de tráfico de pessoas.

Esse histórico é relevante porque evidencia uma característica particular do combate ao crime organizado: a ameaça não precisa esperar pela diplomacia para continuar operando. Uma organização criminosa pode movimentar dinheiro por diferentes jurisdições, adquirir armamentos em um país, transportar drogas por outro e utilizar estruturas financeiras localizadas em uma terceira nação. A resposta estatal, entretanto, continua condicionada à capacidade de cooperação entre autoridades soberanas.

É nesse ponto que a segurança hemisférica encontra uma de suas vulnerabilidades mais importantes. Um sistema de inteligência pode possuir tecnologia avançada, mas perde eficiência quando informações deixam de circular. Uma força policial pode possuir recursos e competência investigativa, mas encontra limitações quando precisa de dados que estão sob jurisdição estrangeira. Uma estrutura aduaneira pode identificar uma carga suspeita, mas depende de parceiros para acompanhar sua origem, destino e conexões financeiras.

A consequência da deterioração dessa cooperação tampouco precisa ser imediata ou facilmente mensurável. O risco está na perda progressiva de consciência situacional, no aumento do tempo necessário para produzir respostas e na fragmentação de investigações que, por natureza, deveriam ser integradas. Para organizações criminosas transnacionais, qualquer redução na capacidade de coordenação dos Estados representa uma oportunidade.

Isso coloca Brasil e Estados Unidos diante de uma contradição estratégica. Washington pode utilizar instrumentos diplomáticos para defender seus interesses e pressionar o governo brasileiro. Brasília, da mesma forma, possui o direito de preservar sua soberania e responder a medidas que considere inadequadas. O problema surge quando mecanismos de cooperação construídos para enfrentar ameaças permanentes passam a ser contaminados por disputas conjunturais.

Para o Brasil, autonomia estratégica não pode ser confundida com isolamento. Um país de dimensões continentais, com extensas fronteiras terrestres, ampla faixa marítima, grandes portos e posição central nas rotas do crime organizado sul-americano precisa ampliar suas próprias capacidades de inteligência, vigilância e segurança. Mas isso não elimina a necessidade de cooperação internacional seletiva quando existem interesses convergentes.

Para os Estados Unidos, o princípio é igualmente válido. Se Washington pretende fortalecer uma arquitetura de segurança para o Hemisfério Ocidental, essa estrutura não pode depender exclusivamente da convergência política entre governos. Uma arquitetura realmente resiliente precisa preservar canais institucionais capazes de funcionar mesmo durante períodos de tensão diplomática.

É justamente aqui que o conceito de “Escudo das Américas” ultrapassa a dimensão militar. O escudo não é formado apenas por aeronaves, navios, sistemas de vigilância, forças especiais ou capacidades de inteligência. Ele também é constituído por instituições, protocolos, intercâmbio de informações e confiança operacional. Sem esses elementos, equipamentos e capacidades nacionais podem existir simultaneamente sem necessariamente produzir uma resposta integrada.

O episódio entre Brasília e Washington revela, portanto, uma questão maior: quem garante a continuidade da segurança quando os governos deixam de concordar? Se a cooperação contra o crime transnacional pode ser interrompida pela deterioração das relações políticas, então parte da arquitetura hemisférica permanece vulnerável à conjuntura.

Essa vulnerabilidade interessa diretamente ao Brasil. A construção de uma política de Estado para segurança e defesa exige desenvolver capacidades nacionais suficientes para que o país não dependa de um único parceiro, ao mesmo tempo em que preserva canais de cooperação com diferentes nações. Diversificação, nesse contexto, não significa afastamento dos Estados Unidos, mas redução de vulnerabilidades estratégicas.

O mesmo princípio vale para a própria ideia de um sistema de segurança hemisférico. Seu grau de maturidade não deveria ser medido apenas pela quantidade de recursos militares disponíveis, mas pela capacidade de seus integrantes continuarem cooperando quando surgem divergências políticas. Um escudo que funciona apenas quando todos concordam não é uma arquitetura de segurança plenamente resiliente.

A crise atual entre Brasil e Estados Unidos oferece, assim, uma demonstração concreta de um problema que será cada vez mais relevante no Hemisfério Ocidental: ameaças transnacionais exigem respostas permanentes, enquanto relações entre Estados continuam sujeitas às mudanças de governos, interesses e conjunturas.

O verdadeiro desafio do Escudo das Américas não é apenas construir capacidade para enfrentar o inimigo externo. É criar uma arquitetura suficientemente sólida para que as divergências entre os próprios Estados não abram brechas para aqueles que operam justamente onde as fronteiras políticas deixam de funcionar.


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CTEx e IDV avançam no desenvolvimento de novas versões do Guarani e da VLEGA Chivunk

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O Centro Tecnológico do Exército (CTEx) realizou nos dias 8 e 9 de setembro, uma reunião de acompanhamento dos projetos de novas viaturas militares desenvolvidas em parceria com a IDV em Sete Lagoas (MG). O encontro reuniu o Chefe do Departamento de Ciência e Tecnologia (DCT), General de Exército Hertz Pires do Nascimento, o Chefe do CTEx, General de Brigada Maurício Ramos de Resende Neves, além de engenheiros militares e representantes das áreas técnica e gerencial da empresa.

A agenda teve como objetivo alinhar os cronogramas e as próximas etapas dos projetos conduzidos conjuntamente pelo Exército Brasileiro e pela IDV. Entre os programas acompanhados estão novas versões da família Guarani e a Viatura Leve de Emprego Geral Aerotransportável (VLEGA) Chivunk, atualmente em diferentes estágios de desenvolvimento e avaliação.

No programa Guarani, os protótipos das versões Ambulância e Posto de Comando têm conclusão prevista para novembro de 2026. Após essa etapa, as viaturas serão submetidas a testes de engenharia realizados pela própria empresa, antes do início do processo formal de Teste e Avaliação pelo Centro de Avaliações do Exército (CAEx).

A previsão é que o processo de Teste e Avaliação das duas configurações seja concluído em 2027, permitindo o início da produção seriada em 2028. As novas versões ampliam as possibilidades de emprego da família Guarani, incorporando configurações específicas para funções de apoio e comando dentro da estrutura mecanizada da Força Terrestre.

Já o lote piloto da VLEGA Chivunk deverá iniciar o processo de Teste e Avaliação no CAEx em outubro de 2026. A previsão é concluir essa etapa em dezembro do mesmo ano, permitindo a entrega das viaturas à tropa no início de 2027.

A diferença nos cronogramas demonstra os distintos estágios de maturidade dos projetos. Enquanto as versões Ambulância e Posto de Comando do Guarani ainda avançam pelas etapas de desenvolvimento e avaliação antes da produção seriada, o Chivunk está mais próximo da disponibilização das primeiras unidades para emprego operacional.

A participação do CTEx e do CAEx é parte fundamental desse processo, permitindo que os sistemas desenvolvidos pela indústria sejam submetidos a avaliações segundo os requisitos estabelecidos pelo Exército antes de sua incorporação à frota da Força. Essa estrutura também permite identificar eventuais necessidades de ajustes técnicos durante o ciclo de desenvolvimento e avaliação.

Os projetos reforçam ainda a participação da Base Industrial de Defesa no desenvolvimento de soluções destinadas às necessidades específicas do Exército Brasileiro. A continuidade desses programas contribui para preservar competências de engenharia, capacidade produtiva e conhecimento tecnológico associados ao desenvolvimento de viaturas militares no país.

Com os cronogramas definidos, 2026 e 2027 serão etapas importantes para os dois programas. A previsão de entrega do lote piloto do Chivunk à tropa em 2027 e de início da produção seriada das novas configurações do Guarani em 2028 indica uma evolução gradual dos projetos, desde o desenvolvimento e a avaliação técnica até sua efetiva incorporação à capacidade operacional da Força Terrestre.


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sábado, 12 de setembro de 2026

Comandante do Exército discute modernização e orçamento durante plenária da ABIMDE

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O Comandante do Exército Brasileiro, General de Exército Tomás Miguel Miné Ribeiro Paiva, participou em 9 de setembro, da Reunião Plenária da Associação Brasileira das Indústrias de Materiais de Defesa e Segurança (ABIMDE), em São Paulo. Durante a palestra “O Brasil e sua Capacidade de Defesa Terrestre”, o comandante apresentou prioridades da Força Terrestre e discutiu com representantes da Base Industrial de Defesa e Segurança (BIDS) os desafios para a modernização dos meios militares.

Entre os temas abordados estiveram a renovação das frotas blindada e aérea, os sistemas de apoio de fogo, veículos e sistemas não tripulados, o monitoramento de fronteiras e a defesa cibernética. O General Tomás também destacou a inteligência artificial e a formação de recursos humanos como componentes cada vez mais relevantes para a capacidade militar, diante da velocidade de incorporação de novas tecnologias aos conflitos contemporâneos.

A Amazônia foi utilizada como exemplo das demandas impostas ao Exército em áreas de grandes dimensões e infraestrutura limitada. Segundo o comandante, as características da região ampliam a importância da mobilidade, logística, comunicações, vigilância e integração de informações, além de exigirem maior velocidade no processo de decisão.

Nesse cenário, o comandante identificou oportunidades para a indústria nacional em segmentos como drones, componentes, veículos, embarcações e munições. Também ressaltou que a capacidade industrial não deve se limitar à entrega dos equipamentos, destacando a necessidade de estruturas de manutenção e suporte ao longo de todo o ciclo de vida dos sistemas empregados pelo Exército.

A previsibilidade orçamentária esteve entre os principais pontos discutidos durante o encontro. Para o General Tomás, a regularidade dos recursos é necessária para que os projetos tenham continuidade e para que empresas possam assumir compromissos de longo prazo relacionados ao desenvolvimento, produção e fornecimento de equipamentos de defesa.

“Eu acho que é sempre desejável que o Estado proteja os seus ativos e proteja as suas indústrias de defesa. Mas acho que a principal proteção é através de investimento”, afirmou o comandante.

Ao tratar da relação entre produção nacional e aquisição de sistemas estrangeiros, o General Tomás apontou a necessidade de equilibrar o desenvolvimento de soluções brasileiras com as demandas operacionais que exigem respostas em prazos mais curtos. Nas cooperações internacionais, destacou que a transferência de tecnologia depende das condições estabelecidas nos contratos, que devem considerar os interesses estratégicos e a soberania nacional.

As exportações também foram incluídas no debate. O comandante defendeu mecanismos de crédito e garantias capazes de ampliar a capacidade das empresas brasileiras de competir no mercado internacional, especialmente em projetos que dependem de financiamento para viabilizar vendas externas.

Sobre o estímulo a novos empreendimentos tecnológicos, mencionou o Instituto Militar de Engenharia (IME) e o Sistema Defesa, Indústria e Academia (SisDIA) como mecanismos para aproximar pesquisa, desenvolvimento tecnológico e necessidades operacionais. Ao mesmo tempo, reconheceu que a limitação de recursos reduz a capacidade de fomentar novas iniciativas.

Para o presidente do Conselho de Administração da ABIMDE, Luiz Carlos Paiva Teixeira, a interlocução direta com o comando do Exército permite que as empresas compreendam melhor as necessidades da Força e direcionem investimentos para produtos e tecnologias com aplicação militar.

Participaram do encontro o Comandante Militar do Sudeste, General de Exército Ricardo Piai Carmona; o Secretário de Produtos de Defesa, Tenente-Brigadeiro do Ar R1 Heraldo Luiz Rodrigues; e o Presidente-Executivo da ABIMDE, Tenente-Brigadeiro do Ar R1 José Augusto Crepaldi Affonso, além de outras autoridades e representantes da indústria de defesa e segurança.

Ao final da plenária, Luiz Teixeira agradeceu a participação do comandante e a interlocução com as empresas associadas. O encontro foi encerrado com a troca de presentes institucionais, incluindo a entrega ao General Tomás de uma moeda comemorativa da ABIMDE.


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sexta-feira, 11 de setembro de 2026

CIASC realiza MARAMBEX 2026 com 595 militares na Restinga da Marambaia

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O Centro de Instrução Almirante Sylvio de Camargo (CIASC) realizou, entre 17 e 28 de agosto, o Exercício no Terreno MARAMBEX 2026, na Restinga da Marambaia, no Rio de Janeiro. A atividade reuniu 595 militares durante 12 dias de adestramento contínuo, com exercícios realizados nos períodos diurno e noturno.

Conduzido pela Escola de Infantaria e Engenharia do Departamento de Instrução, o exercício envolveu alunos dos Cursos de Especialização e Aperfeiçoamento de Infantaria e de Engenharia, além das equipes de instrução e apoio. A atividade teve como objetivo transformar os conhecimentos adquiridos em sala de aula em capacidades práticas empregadas em ambiente operacional.

A programação incluiu tiro de combate, tiro de grupo de combate e emprego de armamentos pesados, entre eles metralhadoras .50 e morteiros de 60 mm. Os militares também realizaram técnicas de patrulha, sobrevivência, orientação e defesa, além de marchas táticas e exercícios de fogo e movimento.

A realização das atividades em diferentes períodos do dia ampliou as exigências sobre os participantes, permitindo o treinamento de procedimentos sob condições distintas de visibilidade e empregando técnicas que exigem coordenação entre os elementos envolvidos.

Para os cursos de Infantaria e Engenharia do Corpo de Fuzileiros Navais, o MARAMBEX funciona como uma etapa de consolidação da formação prática, aproximando os conhecimentos doutrinários das condições encontradas durante o emprego de uma força em campo. A atividade também permite avaliar o desempenho dos alunos diante de situações que exigem preparo técnico, resistência e tomada de decisão.

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Alemanha prepara o maior salto militar desde a Guerra Fria e enfrenta um dilema

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A Alemanha está enfrentando uma nova fase de sua política de Defesa. O projeto de orçamento para 2027 prevê €139,6 bilhões para as Forças Armadas, um aumento de €31,4 bilhões em relação a 2026 e o maior nível de gastos em defesa alemães desde o fim da Guerra Fria. Do total, €109,7 bilhões estarão no orçamento regular do Ministério da Defesa e outros €29,9 bilhões virão do Fundo Especial da Bundeswehr.

A dimensão do aumento revela uma mudança que vai muito além da recomposição orçamentária. Berlim pretende ampliar rapidamente a capacidade de dissuasão alemã diante da deterioração do ambiente estratégico europeu, especialmente após a guerra na Ucrânia e a percepção de que a Alemanha precisa assumir maior responsabilidade pela defesa convencional do continente. O governo também estabeleceu a meta de alcançar 3,5% do PIB em gastos de Defesa até 2029.

O dinheiro será direcionado principalmente para recompor estoques, ampliar a prontidão, modernizar equipamentos e acelerar a aquisição de novas capacidades. O orçamento de 2027 prevê mais de €60 bilhões apenas para compras militares, além de recursos para manutenção, pesquisa, desenvolvimento, pessoal e infraestrutura. Entre os programas estão sistemas blindados, artilharia, defesa antiaérea, aeronaves de combate, navios e munições, enquanto a Bundeswehr também busca incorporar drones, inteligência artificial e outras tecnologias emergentes.

É justamente nessa combinação que surge um dos principais debates sobre o novo ciclo de rearmamento alemão. Parte dos especialistas questiona se recursos tão expressivos deveriam ser concentrados em plataformas convencionais ou direcionados em maior proporção para drones, robótica, inteligência artificial, sistemas espaciais e outras tecnologias capazes de ampliar a eficiência das forças. O problema alemão não é apenas tecnológico: também envolve pessoal, produção industrial e a capacidade de sustentar uma força numerosa durante um conflito prolongado.

A resposta de Berlim é que não existe uma escolha simples entre tecnologia e meios convencionais. A experiência da guerra na Ucrânia demonstrou a importância dos drones, da guerra eletrônica, da inteligência artificial e da capacidade de obter informações em tempo real, mas também expôs a necessidade de grandes volumes de munição, proteção blindada, artilharia, defesa aérea e plataformas capazes de permanecer no campo de batalha. A estratégia alemã busca, portanto, integrar essas capacidades em uma força mais numerosa, conectada e sustentável.

Essa transformação também possui uma dimensão industrial. O salto dos investimentos cria demanda para ampliar a produção de munições, recuperar estoques, fortalecer cadeias de fornecimento e reduzir vulnerabilidades reveladas pelo conflito na Ucrânia. A Alemanha não está apenas comprando equipamentos: está tentando reconstruir uma base industrial capaz de produzir e repor meios militares em escala compatível com um cenário de guerra prolongada.

O desafio será transformar dinheiro em capacidade militar efetivamente disponível. Um orçamento recorde não garante, por si só, prontidão operacional. É necessário contratar, produzir, entregar, formar pessoal, manter os sistemas e integrá-los em uma arquitetura de combate coerente. O próprio debate alemão mostra que o verdadeiro teste do novo ciclo de gastos será a velocidade com que os recursos serão convertidos em capacidades reais.

O movimento alemão também sinaliza uma transformação mais ampla na Europa. Depois de décadas de redução de estoques e capacidades militares, Berlim está tentando recuperar escala, autonomia industrial e poder de dissuasão. Os quase €140 bilhões previstos para 2027 representam, portanto, mais do que um aumento de orçamento: são parte de uma tentativa de reconstruir uma capacidade militar compatível com um ambiente estratégico muito mais instável.

Há, nesse cenário, um paradoxo que interessa diretamente ao Brasil. O país não está diante de uma ameaça de conflito convencional de larga escala em seu entorno comparável àquela enfrentada atualmente pela Europa. Isso, porém, não significa que possa ignorar os efeitos estratégicos de uma eventual guerra de grandes proporções entre potências. Um conflito prolongado poderia afetar cadeias de suprimentos, rotas marítimas, mercados de energia, infraestrutura crítica, acesso a tecnologias e sobretudo a disputa internacional por recursos estratégicos.

O Brasil reúne importantes reservas minerais e energéticas, além de uma extensa costa, infraestrutura portuária e áreas marítimas de elevado valor estratégico. Diante de um cenário de competição internacional amplificada, esses ativos podem adquirir importância ainda maior, especialmente quando se considera a crescente disputa global por minerais críticos, energia e segurança das cadeias de abastecimento.

A experiência alemã, portanto, oferece uma reflexão que ultrapassa o debate europeu. Não se trata de reproduzir o modelo de Berlim ou de antecipar uma guerra para o Brasil, mas de compreender que Defesa exige preparação antes que uma ameaça se torne imediata. Proteger território, recursos naturais, infraestrutura, rotas marítimas, cadeias industriais e interesses nacionais depende de planejamento de longo prazo, indústria de Defesa, tecnologia própria, estoques adequados e previsibilidade orçamentária. Estar preparado não significa esperar uma guerra; significa reduzir a vulnerabilidade do país caso uma crise internacional de grandes proporções alcance seus interesses.


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11 de Setembro: como a resposta americana ajudou a desmontar a ordem que os EUA haviam construído

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O 11 de setembro de 2001 marcou o início de uma transformação que ultrapassou em muito a tragédia de quase três mil pessoas mortas em solo americano. Naquele momento, os Estados Unidos eram a potência dominante de uma ordem internacional que parecia incontestável. A União Soviética havia desaparecido, Washington possuía uma superioridade militar sem equivalente e a economia americana ocupava posição central no sistema global. Vinte e cinco anos depois, os Estados Unidos continuam sendo uma superpotência, mas já não ocupam uma posição de supremacia incontestável. Entre uma realidade e outra existe uma sequência de guerras, intervenções, erros de cálculo e oportunidades aproveitadas por outros atores.

A primeira resposta americana ao ataque tinha um objetivo compreensível: destruir a estrutura da Al-Qaeda e eliminar a capacidade de seus responsáveis de utilizar o Afeganistão como base. A operação inicial alcançou resultados militares rápidos. O problema começou quando a resposta deixou de ser uma campanha delimitada contra uma organização terrorista e passou a representar uma estratégia muito mais ampla de transformação política pela força.

A invasão do Iraque em 2003, foi o momento decisivo dessa mudança. Saddam Hussein foi derrubado sob a justificativa de que o regime iraquiano representava uma ameaça relacionada a armas de destruição em massa. Essas armas não foram encontradas. A operação que deveria remover uma ameaça e produzir uma nova ordem política acabou contribuindo para desorganizar o Estado iraquiano, alimentar conflitos sectários e criar condições para o crescimento de grupos extremistas. A guerra também consumiu enormes recursos americanos e produziu um desgaste internacional que ultrapassou o campo militar. A invasão ocorreu sem autorização do Conselho de Segurança da ONU, agravando a contestação internacional à estratégia de Washington.

O Afeganistão apresentou outro problema. Os Estados Unidos conseguiram derrubar rapidamente o regime Talibã, mas permaneceram por duas décadas tentando construir instituições políticas, forças de segurança e um Estado capaz de sustentar a ordem criada pela intervenção. Em 2021, a retirada americana terminou com o retorno do Talibã ao poder. O episódio tornou-se uma das imagens mais contundentes dos limites da capacidade militar americana: vinte anos de ocupação, treinamento e investimentos não foram suficientes para garantir a permanência do governo que Washington havia ajudado a construir.

O padrão reapareceria em outros lugares, ainda que em circunstâncias diferentes. A intervenção internacional na Líbia em 2011, contribuiu para a derrubada de Muammar Kadafi, mas a eliminação do regime não foi acompanhada pela construção de uma estrutura política capaz de impedir a fragmentação do país. A Líbia passou a enfrentar anos de divisão entre governos, milícias e grupos armados, transformando-se também em uma importante fonte de instabilidade para o Norte da África e o Mediterrâneo.

A Síria mostrou outro aspecto da mesma dificuldade. A guerra civil que começou em 2011 transformou-se em conflito internacionalizado no qual Estados Unidos, Rússia, Türkiye, Irã e diferentes grupos armados passaram a disputar influência e território. Washington não perdeu apenas uma oportunidade de definir os acontecimentos: outros atores entraram no espaço deixado pela indecisão americana. A Rússia consolidou presença militar no Mediterrâneo oriental, o Irã ampliou sua rede regional e Türkiye passou a exercer influência direta sobre áreas próximas às suas fronteiras.

É importante não colocar todas essas crises na conta exclusiva dos Estados Unidos. A Primavera Árabe, as disputas internas, o sectarismo, o autoritarismo, os interesses regionais e a ação de outros governos tiveram papel próprio. Mas a questão estratégica está justamente naquilo que Washington fez, ou deixou de fazer, diante dessas transformações. A maior potência militar do mundo demonstrou repetidamente capacidade para destruir estruturas de poder, mas encontrou muito mais dificuldade para definir o que deveria existir depois delas.

Essa diferença entre capacidade de destruição e capacidade de construção é fundamental. Uma força militar pode conquistar uma capital em poucos dias. Pode destruir instalações, eliminar lideranças e derrubar um governo. Mas não consegue, apenas com superioridade aérea, forças especiais e tropas terrestres, criar legitimidade política, reconstruir instituições, reconciliar sociedades divididas ou produzir uma economia funcional.

O resultado foi uma espécie de sobre-extensão estratégica. Enquanto Washington concentrava recursos em conflitos no Oriente Médio e no Afeganistão, uma transformação histórica ocorria longe desses teatros de guerra. Em dezembro de 2001, poucos meses depois do 11 de setembro, a China ingressava na Organização Mundial do Comércio. A partir daí, o país acelerou sua integração à economia mundial, expandiu sua indústria, aumentou suas exportações, atraiu investimentos e acumulou capacidade tecnológica.

A coincidência temporal é importante. A China não ascendeu porque os Estados Unidos invadiram o Afeganistão e o Iraque. Sua transformação já estava em curso. Mas Washington passou os anos seguintes olhando para outra direção enquanto Pequim construía os elementos materiais necessários para disputar poder em escala global. Uma análise publicada pelo Wall Street Journal no aniversário de 25 anos do 11 de setembro chama atenção exatamente para esse custo de oportunidade: enquanto os EUA estavam concentrados nas guerras do Afeganistão e do Iraque, a China ampliava seu poder econômico e militar.

O contraste é ainda mais evidente quando se observa o tamanho dos recursos empregados. O projeto Costs of War da Brown University, calculou que as guerras posteriores ao 11 de setembro haviam custado aos Estados Unidos aproximadamente US$ 8 trilhões e provocado mais de 900 mil mortes até sua avaliação de 2021. O cálculo inclui operações militares, gastos associados e os conflitos abrangidos pelo estudo.

O problema não foi simplesmente gastar dinheiro em defesa. Grandes potências precisam investir em capacidade militar. A questão foi a relação entre o recurso empregado e o resultado estratégico obtido. Os Estados Unidos gastaram trilhões de dólares para combater organizações que jamais poderiam disputar convencionalmente a liderança mundial, enquanto a China ampliava sua capacidade industrial, tecnológica, comercial e militar sem precisar enfrentar diretamente o poder americano.

Foi uma assimetria estratégica extraordinária. Washington empregava porta-aviões, caças, satélites, forças especiais e sistemas de inteligência para perseguir grupos insurgentes e estabilizar países fragmentados. Pequim construía portos, ferrovias, fábricas, cadeias de fornecimento, infraestrutura digital e capacidade tecnológica. Um lado estava tentando administrar crises; o outro estava acumulando poder.

Outros atores perceberam rapidamente o espaço criado pela retração relativa americana. A Rússia recuperou parte de sua influência sobre áreas que haviam perdido importância para Washington após o fim da Guerra Fria. O Irã ampliou sua influência no Oriente Médio. Türkiye tornou-se uma potência regional com capacidade crescente de atuar no Oriente Médio, Cáucaso, Mediterrâneo, África e Ásia Central. Países do Golfo passaram a diversificar suas relações e reduzir a dependência exclusiva de Washington. A própria expansão dos BRICS refletiu uma busca mais ampla por alternativas à concentração de poder político e econômico ocidental.

A China foi, porém, o maior beneficiário estrutural dessa transformação. Pequim não precisava derrotar militarmente os Estados Unidos. Bastava continuar crescendo enquanto Washington gastava recursos e atenção em outros lugares. A China transformou sua posição de grande plataforma industrial em capacidade tecnológica, desenvolveu empresas globais, ampliou sua presença em infraestrutura e comércio e converteu crescimento econômico em poder militar.

Quando os Estados Unidos finalmente passaram a tratar a competição com a China como sua principal preocupação estratégica, o cenário já era muito diferente daquele de 2001. A China não era mais apenas um país de mão de obra barata. Era uma potência industrial, tecnológica, financeira e militar capaz de disputar com Washington setores fundamentais da economia global e de desafiar a presença americana no Indo-Pacífico.

É nesse ponto que o 11 de setembro pode ser interpretado como uma verdadeira virada histórica. O ataque não derrubou a hegemonia americana. A própria Al-Qaeda não alcançou seu objetivo de destruir o poder dos Estados Unidos. O que mudou foi a trajetória escolhida por Washington depois da tragédia.

A resposta americana mostrou ao mundo uma potência capaz de vencer guerras rapidamente, mas nem sempre capaz de transformar vitórias militares em resultados políticos duradouros. Iraque, Afeganistão e Líbia tornaram-se exemplos diferentes de um mesmo problema: remover um governo é relativamente simples quando comparado à tarefa de construir uma ordem estável em seu lugar.

E existe uma consequência ainda mais profunda. Ao tentar reorganizar o Oriente Médio e combater o terrorismo em escala global, os Estados Unidos perderam tempo estratégico em uma era na qual a distribuição do poder mundial estava mudando. A China aproveitou esse período para crescer. A Rússia recuperou espaço. Potências regionais ganharam autonomia. E países que durante décadas dependiam quase exclusivamente de Washington passaram a buscar alternativas.

Isso não significa que os Estados Unidos estejam em processo inevitável de desaparecimento como potência. Essa seria uma conclusão tão precipitada quanto imaginar em 2001, que sua superioridade seria permanente. O que existe é uma perda relativa de vantagem. A América continua possuindo forças armadas, universidades, empresas, capacidade financeira, tecnologia e uma rede de alianças sem equivalente completo no mundo. O que mudou foi a distância que separava os Estados Unidos dos demais.

O mundo pós-11 de setembro também mostrou que poder militar não é sinônimo de poder estratégico. Uma potência pode possuir a maior força militar do planeta e ainda assim produzir resultados contrários aos seus interesses quando utiliza essa força sem uma visão clara de longo prazo.

Talvez essa seja a maior lição daquele período. Os Estados Unidos não foram derrotados por Saddam Hussein, Kadafi, Bin Laden, Al-Qaeda ou Talibã. O desgaste americano resultou de algo mais complexo: uma combinação de guerras prolongadas, custos extraordinários, objetivos políticos difíceis de alcançar e uma subestimação da velocidade com que o sistema internacional estava mudando.

Enquanto Washington tentava reorganizar o mundo pela força, outros atores aprenderam a reorganizá-lo pela economia, pela tecnologia, pelo comércio, pela infraestrutura e pela influência diplomática.

Vinte e cinco anos depois do 11 de setembro, o resultado está diante de nós. O mundo que surgiu daquela tragédia é menos unipolar, mais fragmentado e mais competitivo. Os Estados Unidos continuam poderosos, mas já não definem sozinhos os limites da ordem internacional. E a China, que em 2001 ainda era vista principalmente como uma potência econômica em ascensão, tornou-se o principal competidor capaz de desafiar a posição americana.

O paradoxo histórico é que o maior desafio à hegemonia dos Estados Unidos não surgiu das montanhas do Afeganistão nem das ruas de Bagdá. Surgiu, em grande parte, das fábricas, dos portos, dos laboratórios e das universidades de um país que Washington não percebeu a tempo que estava deixando de ser apenas uma potência emergente.

O 11 de setembro mudou o mundo. Mas talvez sua consequência geopolítica mais profunda tenha sido menos aquilo que os terroristas conseguiram destruir e mais aquilo que a reação americana acabou deixando de construir.


por Angelo Nicolaci


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Wingcopter 198 recebe autorização da Anac para voos BVLOS de até 94 km no Brasil

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A Agência Nacional de Aviação Civil (Anac) concedeu autorização de projeto ao Wingcopter 198, habilitando o sistema aéreo não tripulado a realizar operações além da linha de visada visual (BVLOS) no Brasil, com alcance autorizado de até 94 quilômetros. A autorização foi publicada em 28 de agosto e conduzida pela AL Drones em conjunto com a fabricante alemã Wingcopter.

O Wingcopter 198 é uma aeronave de decolagem e pouso vertical (VTOL) com arquitetura de asa fixa e rotores basculantes, desenvolvida para missões de logística, transporte de cargas e aplicações de levantamento e inspeção. O modelo possui peso máximo de decolagem de aproximadamente 25 kg, velocidade de até 90 km/h e capacidade de carga autorizada de até 4,5 kg.

A autorização também permite operações sob chuva leve, dentro dos parâmetros estabelecidos pela Anac. O processo incluiu uma campanha de ensaios realizada em São Carlos (SP), com participação e acompanhamento da agência, abrangendo autonomia, alcance em BVLOS, perda do enlace de comando e controle e procedimentos de recuperação diante de falhas.

O projeto recebeu a designação ERPAS-13766999-00 e representa a 24ª autorização de projeto para sistemas não tripulados conduzida pela AL Drones junto à Anac. A homologação também envolve requisitos relacionados às comunicações e à operação segura do sistema em ambiente regulado.

Além do emprego em entregas, o alcance e a capacidade BVLOS ampliam o potencial do Wingcopter 198 para operações logísticas em áreas remotas, inspeção de infraestrutura, levantamentos e outras atividades que exigem cobertura de grandes distâncias sem acompanhamento visual direto da aeronave.

A autorização ocorre em um momento de evolução da regulamentação brasileira para sistemas aéreos não tripulados, que passou a adotar uma abordagem baseada no risco operacional. A autorização de projeto, entretanto, não significa liberação irrestrita para qualquer operação: requisitos operacionais e de acesso ao espaço aéreo continuam sujeitos às competências das autoridades responsáveis.

O avanço do Wingcopter 198 reforça a expansão dos drones de maior alcance no mercado brasileiro e abre espaço para aplicações de uso dual, nas quais a mesma tecnologia pode atender demandas civis, logísticas, de segurança, monitoramento e, conforme as autorizações e configurações adotadas, missões de interesse da Defesa.


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Embraer apresenta C-390 do Uzbequistão, aeronave originalmente destinada à FAB

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A Embraer apresentou na última quinta-feira (10) a primeira aeronave C-390 Millennium destinada à Força Aérea do Uzbequistão, que se torna o primeiro operador do modelo na Ásia Central. O avião será empregado em missões de transporte e apoio humanitário, ampliando a capacidade de mobilidade aérea do país.

A aeronave apresentada é o MSN 39000019, que originalmente estava destinado à Força Aérea Brasileira e deveria receber a matrícula FAB 2861. Antes de sua incorporação à FAB, porém, seu destino foi alterado para o Uzbequistão, recebendo a matrícula UK-39010.

Em agosto, o avião chegou ao Aeroporto Internacional de Confins, em Minas Gerais, ainda com a pintura característica da FAB, mas com as marcações brasileiras encobertas. A aeronave também já não contava com a sonda de reabastecimento em voo utilizada na configuração KC-390 brasileira. Em Confins, passou pelo processo de preparação para o novo operador, incluindo a mudança da identidade visual.

O contrato com o Uzbequistão foi confirmado pela Embraer em fevereiro de 2026, após o país permanecer inicialmente como cliente não identificado. O acordo prevê duas aeronaves, segundo informações divulgadas pela imprensa especializada.

A entrada do C-390 no inventário uzbeque amplia a presença internacional do programa desenvolvido pela Embraer. O modelo já foi selecionado por forças aéreas de diferentes países da Europa, Ásia e Oriente Médio, consolidando uma carteira crescente de operadores.

Com capacidade para transportar até 26 toneladas de carga útil e velocidade máxima de 470 nós, o C-390 foi projetado para missões de transporte de tropas e cargas, lançamento aéreo, evacuação aeromédica, busca e salvamento, combate a incêndios e apoio humanitário. A aeronave também pode operar em pistas não pavimentadas.

A configuração destinada ao Uzbequistão, contudo, difere daquela empregada pela FAB. Os KC-390 brasileiros possuem capacidade de reabastecimento em voo, podendo atuar como aeronaves-tanque ou receber combustível de outra aeronave, enquanto o exemplar apresentado ao novo operador não possui a sonda instalada.

A Embraer afirma que a frota de C-390 em operação já acumula índice de conclusão de missão superior a 99%. O desempenho operacional e a expansão da carteira de clientes vêm ampliando a presença internacional da aeronave desenvolvida no Brasil.

Para o Uzbequistão, a aquisição representa a entrada de uma plataforma de transporte militar de nova geração em sua frota. Para a Embraer, a chegada do C-390 à Ásia Central amplia a presença geográfica do programa e abre uma nova frente de operação para a aeronave brasileira.

A mudança de destino do MSN 39000019 também não significa, até o momento, uma redução adicional da encomenda brasileira. A FAB mantém contrato para 19 aeronaves KC-390, enquanto o avião que seria o FAB 2861 passou a integrar o programa de exportação da Embraer.


Por Angelo Nicolaci


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11 de Setembro: a guerra ao terror que ajudou a mudar o centro de gravidade do poder mundial

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O 11 de setembro de 2001 não mudou apenas os Estados Unidos. Mudou a ordem internacional. Os ataques contra Nova York e Washington abriram um período que seria marcado por guerras prolongadas, expansão dos aparatos de segurança, intervenções militares, transformações na política externa norte-americana e uma profunda alteração na percepção global sobre as ameaças à segurança. Mas existe uma consequência menos evidente daquele dia: enquanto os Estados Unidos concentravam uma parcela crescente de sua energia política, militar e financeira na chamada "Guerra ao Terror", a China avançava silenciosamente na construção das bases econômicas, industriais e tecnológicas que hoje sustentam sua disputa pela posição de potência global.

Essa não é uma afirmação de que a ascensão chinesa tenha sido causada pelo 11 de setembro. A transformação da China já estava em andamento e ganhou enorme impulso com sua entrada na Organização Mundial do Comércio, também em 2001. O que mudou depois dos ataques foi a prioridade estratégica de Washington. A maior potência militar do planeta direcionou sua atenção para organizações terroristas e para guerras no Afeganistão e no Iraque justamente durante um período que o equilíbrio econômico e tecnológico mundial começava a se deslocar em direção à Ásia.

A resposta inicial aos ataques possuía uma lógica evidente. A destruição da estrutura da Al-Qaeda e a captura de seus responsáveis eram objetivos legítimos diante da dimensão da agressão. O problema surgiu quando a reação deixou de ser uma operação delimitada de contraterrorismo e transformou-se uma estratégia de guerra permanente. O Afeganistão tornou-se um projeto de reconstrução nacional de duas décadas. Em 2003, o Iraque foi invadido sob a justificativa de eliminar uma ameaça que posteriormente se mostrou inexistente, muito diferente do que foi apresentado ao mundo. A partir daí, Washington passou a administrar conflitos que consumiriam recursos, vidas e capital político por anos.

O custo financeiro foi extraordinário. O projeto Costs of War da Brown University, estimou que as guerras e operações militares desencadeadas após o 11 de setembro haviam levado os Estados Unidos a comprometer mais de US$ 8 trilhões até 2021, considerando os principais conflitos e despesas relacionadas. A mesma pesquisa estimou cerca de 929 mil mortes diretas nas guerras pós-11 de setembro.

O problema, entretanto, não pode ser medido apenas em dólares. Existe também o custo de oportunidade. Recursos financeiros, atenção política, capacidade diplomática e planejamento estratégico são limitados, mesmo para uma superpotência. Enquanto Washington gastava duas décadas tentando estabilizar sociedades no Oriente Médio e no Afeganistão, Pequim utilizava o mesmo período para ampliar sua participação no comércio mundial, construir infraestrutura, desenvolver sua indústria, acumular reservas, expandir sua capacidade tecnológica e aumentar progressivamente seu poderio militar.

A diferença de prioridades tornou-se cada vez mais evidente. Os Estados Unidos possuíam uma superioridade militar incontestável, mas estavam envolvidos em guerras assimétricas contra organizações muito inferiores em capacidade convencional. A China, por outro lado, não precisava enfrentar diretamente o poderio militar norte-americano. Podia crescer dentro do sistema econômico internacional, aproveitar a globalização, atrair investimentos, adquirir tecnologia, desenvolver sua própria indústria e aumentar sua influência enquanto Washington permanecia concentrado em ameaças que não representavam uma competição convencional pela liderança mundial.

O paradoxo é que a própria globalização que fortaleceu a economia americana também acelerou a transformação da China em potência industrial. Empresas ocidentais transferiram cadeias produtivas para a Ásia em busca de custos menores, enquanto o mercado chinês crescia. Pequim utilizou essa integração para desenvolver fornecedores nacionais, infraestrutura e capacidade tecnológica. O resultado foi uma mudança progressiva na distribuição da produção mundial. Quando Washington finalmente voltou sua atenção para a competição entre grandes potências, a China já não era apenas uma fábrica global. Era uma potência econômica, tecnológica, comercial e militar.

A percepção desse deslocamento chegou tarde a Washington. O chamado “pivô para a Ásia” da administração Barack Obama, anunciado em 2011, representou justamente o reconhecimento de que o centro de gravidade estratégico estava se deslocando para o Indo-Pacífico. Mas, quando essa mudança passou a ocupar o centro da política externa americana, os Estados Unidos já carregavam duas guerras prolongadas e uma extensa estrutura de compromissos militares construídos durante a era da "Guerra ao Terror".

O resultado foi um paradoxo histórico. A maior potência militar do planeta venceu batalhas, derrubou governos e eliminou lideranças terroristas, mas não conseguiu transformar sua superioridade militar em uma vitória estratégica definitiva. O Talibã voltou ao poder no Afeganistão em 2021, duas décadas depois da invasão americana. No Iraque, a derrubada de Saddam Hussein abriu espaço para uma longa instabilidade regional e contribuiu para condições que favoreceram posteriormente a expansão de grupos jihadistas. A própria guerra que pretendia reduzir ameaças acabou produzindo novas fontes de instabilidade.

Não significa dizer que os Estados Unidos tenham deixado de ser uma superpotência. Muito pelo contrário. Washington continua possuindo capacidades militares, financeiras, tecnológicas e diplomáticas que nenhum outro país reúne na mesma escala. O que mudou foi a distância relativa entre os Estados Unidos e seus competidores. A hegemonia absoluta da década de 1990 deu lugar a uma competição mais equilibrada, na qual a China passou a disputar mercados, tecnologia, infraestrutura, cadeias industriais, influência diplomática e poder militar.

É justamente essa diferença entre “queda” e “perda de supremacia relativa” que precisa ser compreendida. O declínio de uma potência não acontece necessariamente quando ela deixa de ser poderosa. Pode começar quando outras potências passam a crescer mais rapidamente enquanto ela consome parte considerável de seus recursos tentando preservar uma ordem anterior.

O 11 de setembro pode ser entendido, portanto, como uma das grandes bifurcações da história contemporânea. Antes daquele dia, os Estados Unidos saíam da Guerra Fria como a potência incontestável de uma ordem aparentemente unipolar. Depois dele, Washington entrou em uma sequência de guerras que se prolongaria por uma geração. Enquanto isso, a China consolidava silenciosamente sua posição como centro industrial do mundo e transformava crescimento econômico em poder estratégico.

Há, nesse processo, uma ironia difícil de ignorar. A Al-Qaeda pretendia atingir os Estados Unidos e provocar uma reação capaz de ampliar o conflito entre Washington e o mundo islâmico. Não se pode afirmar que tenha planejado ou previsto a ascensão chinesa. Mas a reação americana criou um ambiente estratégico no qual a China teve tempo e espaço para acumular poder enquanto seu principal concorrente estava ocupado em outros teatros e se desgastando.

Hoje, vinte e cinco anos depois, a consequência mais profunda do 11 de setembro talvez não esteja nas ruínas das torres, nem sequer nas guerras que vieram depois. Ela pode estar na mudança silenciosa do centro de gravidade do poder mundial.

Os Estados Unidos ainda possuem uma força extraordinária. A China, porém, já não é uma potência emergente observada à distância. É um competidor capaz de desafiar a liderança americana em setores fundamentais da economia, da tecnologia, da indústria e do poder militar. E essa transformação ocorreu justamente durante as duas décadas em que Washington esteve mais concentrado em vencer uma guerra que nunca conseguiu encerrar definitivamente.

O 11 de setembro foi, portanto, uma tragédia humana e um ataque contra a maior potência do sistema internacional. Mas também foi o início de uma era na qual as escolhas feitas pelos Estados Unidos para responder àquela agressão contribuíram para consumir recursos, atenção e capital estratégico em escala histórica. A história talvez não registre aquele dia apenas como o momento em que a América foi atacada, mas também como o momento a partir do qual começou a perder parte da vantagem que parecia impossível de ser desafiada.


por Angelo Nicolaci


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KC-390 português ganha destaque no "Falcon Leap 2026"

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A Base Aérea de Eindhoven nos Países Baixos, recebe entre os dias 7 e 19 de setembro o "Falcon Leap 2026", exercício multinacional dedicado ao treinamento de operações aerotransportadas. A atividade reúne forças de 11 países aliados e envolve missões de transporte aéreo tático, lançamento de cargas e emprego de tropas paraquedistas. Portugal participa com um KC-390 da Esquadra 506 “Rinocerontes”, da Força Aérea Portuguesa.

A edição deste ano ganha relevância adicional pela participação de militares holandeses envolvidos no processo de transição para o C-390M, selecionado pelos Países Baixos para substituir sua frota de C-130 Hercules. As primeiras aeronaves holandesas estão previstas para entrar em serviço no final de 2027, tornando o "Falcon Leap" uma oportunidade para que o futuro operador acompanhe, em ambiente operacional, o emprego do modelo já utilizado por Portugal.

Os militares dos dois países trabalham lado a lado durante o exercício, compartilhando procedimentos e experiências relacionadas às operações aerotransportadas. Para os holandeses, o contato permite antecipar aspectos da preparação operacional e da futura introdução do C-390M; para os portugueses, amplia a experiência acumulada em operações multinacionais com a aeronave.

O "Falcon Leap" emprega diferentes plataformas de transporte militar, incluindo C-130 Hercules, A400M, C-295M e C-27J. A presença simultânea de aeronaves de diferentes gerações permite às forças participantes treinar procedimentos comuns de transporte e lançamento aéreo, além de aperfeiçoar a coordenação entre aeronaves, tripulações e tropas em solo.

Entre as atividades estão o lançamento de cargas e paraquedistas, operações de transporte e procedimentos associados ao emprego tático das aeronaves, incluindo voos a baixa altitude. As missões exigem coordenação precisa entre os meios aéreos e as unidades terrestres, reproduzindo situações encontradas em operações aerotransportadas.

A participação portuguesa também demonstra a evolução do emprego do KC-390 pela Força Aérea Portuguesa. Integrado à Esquadra 506, o modelo amplia a capacidade de transporte aéreo militar do país e proporciona uma plataforma moderna para missões que anteriormente dependiam de aeronaves de outra geração mais limitadas.

O exercício possui ainda uma dimensão histórica. As atividades estão associadas às comemorações da Operação Market Garden, realizada em setembro de 1944 durante a Segunda Guerra Mundial. O Falcon Leap culmina com cerimônias de homenagem na região de Ginkelse Heide, mantendo a ligação entre o treinamento contemporâneo de tropas aerotransportadas e a memória das operações realizadas na região durante o conflito.

A presença conjunta de Portugal e dos Países Baixos também evidencia um dos efeitos mais relevantes da expansão europeia do C-390: a formação de uma comunidade de operadores que poderá compartilhar treinamento, procedimentos, logística e experiência operacional. Além de ampliar a interoperabilidade entre forças aéreas, essa convergência tende a facilitar a sustentação de uma frota que já reúne diferentes operadores europeus.

Para Portugal, o Falcon Leap representa mais uma oportunidade de consolidar a experiência operacional com o KC-390 em um dos ambientes mais exigentes para aeronaves de transporte militar. Para os Países Baixos, a participação antecipa a entrada em serviço de uma nova plataforma e permite que suas equipes conheçam diretamente os procedimentos empregados por um operador já familiarizado com o modelo.

A atividade em Eindhoven, portanto, vai além de um exercício de transporte aéreo. Ela coloca um operador consolidado e um futuro usuário do C-390 no mesmo ambiente de treinamento, criando uma ponte operacional entre as duas forças aéreas enquanto os Países Baixos se preparam para substituir seus vetustos C-130 Hercules pelo mais avançado e capaz C-390.


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