quarta-feira, 9 de setembro de 2026

Iraque entre Washington e Teerã: o difícil caminho para recuperar o controle sobre suas forças armadas

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O Iraque se aproxima de uma transição que poderá definir sua arquitetura de segurança para os próximos anos. A retirada das forças norte-americanas e da coalizão internacional, prevista para 30 de setembro, ocorre paralelamente à tentativa do governo de Ali al-Zaidi de reorganizar a relação entre o Estado e as numerosas organizações armadas que surgiram, cresceram ou foram institucionalizadas ao longo das últimas duas décadas. O desafio vai muito além da entrega de armas. O que está em discussão é a capacidade de Bagdá de estabelecer uma autoridade efetiva sobre todas as forças militares e paramilitares existentes em seu território, sem provocar uma ruptura dentro do próprio sistema político iraquiano.

Depois de assumir o cargo em maio, Zaidi colocou o desarmamento das organizações alinhadas ao Irã entre as prioridades de seu governo. Em julho, durante encontro com Donald Trump em Washington, o primeiro-ministro comprometeu-se a avançar nesse processo, inicialmente associando a entrega das armas ao mesmo prazo estabelecido para a retirada da coalizão. Nas últimas semanas, entretanto, autoridades iraquianas passaram a tratar 30 de setembro com maior cautela, indicando que a data está diretamente relacionada à saída das forças estrangeiras e ao início de uma etapa de negociações para restringir a atuação das organizações armadas. A mudança demonstra a dificuldade de transformar uma decisão política em medida efetivamente executável.

O problema tem origem na própria evolução do sistema de segurança iraquiano. A derrota do Estado Islâmico exigiu a mobilização de grandes contingentes armados fora das estruturas convencionais do Exército, e as Forças de Mobilização Popular, as PMF, foram posteriormente incorporadas ao aparato estatal. Essa institucionalização, contudo, não produziu uma força homogênea. As PMF reúnem organizações com diferentes trajetórias, interesses políticos e graus de proximidade com o Irã. Algumas aceitaram a integração ao Estado, enquanto outras preservaram estruturas próprias de comando, redes políticas e relações externas que lhes conferem considerável autonomia.

Essa característica torna o caso iraquiano particularmente complexo do ponto de vista militar. A existência de uma força dentro da estrutura legal do Estado não significa, necessariamente, que o governo controle integralmente seu emprego operacional. Para que uma organização seja efetivamente subordinada ao poder estatal, não basta que seus integrantes recebam salários públicos ou que suas unidades estejam formalmente vinculadas a um ministério. O Estado precisa controlar a designação de comandantes, as ordens de emprego, a movimentação das unidades, o acesso à inteligência, a logística, as comunicações e, sobretudo, a autorização para utilização da força.

É nessa dimensão que algumas das organizações mais próximas de Teerã representam um problema para Bagdá. A influência iraniana não depende exclusivamente do fornecimento de armamentos. Ao longo dos anos, Teerã desenvolveu relações políticas, militares, econômicas e religiosas com diferentes grupos iraquianos, criando uma rede de influência que sobrevive independentemente da presença permanente de tropas iranianas. Algumas dessas organizações possuem capacidade própria para conduzir operações, mobilizar combatentes e empregar drones, mísseis e outros sistemas de ataque, o que lhes permite atuar como atores militares relevantes dentro do próprio território iraquiano.

A dimensão dessa capacidade explica por que o governo não pode tratar o processo como uma operação convencional de desarmamento. Segundo autoridades de segurança citadas pela Reuters, as facções mais resistentes reúnem aproximadamente 50 mil combatentes e possuem mísseis de longo alcance, sistemas de defesa aérea e drones, além de interesses econômicos desenvolvidos em diferentes setores. Não se trata, portanto, de pequenos grupos armados que possam ser neutralizados por uma operação policial. São estruturas que acumularam recursos humanos, materiais e políticos suficientes para influenciar o processo decisório nacional.

As prisões realizadas em agosto ilustram esse novo estágio da disputa. Forças especiais diretamente subordinadas ao primeiro-ministro prenderam o chefe de inteligência de Harakat al-Nujaba, organização alinhada ao Irã e designada como terrorista pelo governo norte-americano, sob acusações relacionadas a ataques com drones contra interesses dos Estados Unidos. A operação provocou ameaças de retaliação e reação de importantes lideranças políticas xiitas. Poucos dias depois, outras detenções relacionadas a ataques contra interesses norte-americanos demonstraram que Bagdá começava a utilizar diretamente seus próprios instrumentos de segurança contra integrantes de organizações que, em diferentes momentos, também fizeram parte do esforço de combate ao Estado Islâmico.

O governo precisa, entretanto, administrar cuidadosamente a dimensão política dessas ações. Uma ofensiva indiscriminada contra as organizações armadas poderia transformar uma disputa sobre autoridade estatal em um conflito interno de grandes proporções. Zaidi precisa construir uma separação clara entre a integração das forças que aceitam a autoridade constitucional e o enfrentamento das estruturas que pretendem preservar uma capacidade militar independente. Essa distinção é fundamental para evitar que o processo seja apresentado como uma guerra do governo contra grupos xiitas ou como uma iniciativa executada em nome dos Estados Unidos.

A resistência de algumas organizações demonstra que esse equilíbrio será difícil. Kataib Hezbollah e Harakat Hezbollah al-Nujaba estão entre as facções que rejeitaram o processo nos termos apresentados pelo governo. Outros grupos condicionaram a entrega de armas a garantias relacionadas à retirada norte-americana e ao fim da influência política e econômica dos Estados Unidos. Algumas organizações mais pragmáticas, por outro lado, demonstraram disposição para integrar seus integrantes às estruturas estatais. Essa divisão cria espaço para uma estratégia gradual de Bagdá, que pode tentar consolidar primeiro a integração das facções mais dispostas a negociar e isolar politicamente aquelas que mantiverem uma posição de confronto.

A retirada norte-americana altera significativamente esse cálculo. Durante anos, a presença militar dos Estados Unidos serviu como uma das principais justificativas utilizadas pelas organizações armadas para preservar seus arsenais. Com a saída da coalizão, essa justificativa perde parte de sua força, pois o governo poderá argumentar que a principal ameaça externa que sustentava a necessidade de uma resistência armada estará deixando o país. Ao mesmo tempo, entretanto, a retirada reduz uma importante capacidade externa de dissuasão sobre os grupos alinhados ao Irã e aumenta a responsabilidade das próprias forças iraquianas pela segurança nacional.

Esse paradoxo coloca o Exército iraquiano e as demais estruturas oficiais de segurança no centro do processo. A soberania não será consolidada apenas pela ausência de tropas estrangeiras, mas pela capacidade das instituições nacionais de preencher o espaço operacional deixado por elas. Isso exige comando integrado, inteligência compartilhada, capacidade de vigilância, controle das fronteiras, defesa contra drones e mísseis e, principalmente, uma cadeia de autoridade capaz de impedir que diferentes organizações militares tomem decisões independentes em situações de crise.

O componente iraniano torna essa transição ainda mais sensível. Para Teerã, o Iraque possui valor estratégico que ultrapassa sua importância territorial. O país funciona como espaço de profundidade estratégica, ligação geográfica com a Síria e o Líbano e ambiente político no qual o Irã construiu relações com partidos, lideranças religiosas e organizações armadas. A redução da autonomia militar dessas organizações significaria, portanto, uma diminuição de uma das principais ferramentas de influência iraniana no sistema de segurança iraquiano.

Washington possui interesse em uma direção diferente. A retirada militar reduz os custos e os riscos associados à permanência de suas tropas, mas os Estados Unidos também precisam evitar que o encerramento dessa presença resulte em um Iraque incapaz de impedir ataques contra seus interesses ou em um ambiente no qual as organizações apoiadas por Teerã ampliem sua liberdade de ação. Para Bagdá, entretanto, aceitar que sua política de segurança continue subordinada aos interesses de qualquer uma das duas potências seria justamente contrariar o objetivo de recuperar autonomia estratégica.

Por isso, o resultado mais provável não é uma desmobilização completa e simultânea das organizações armadas. Um processo desse tipo exigiria condições políticas e militares que atualmente não parecem existir. É mais plausível que o governo avance por etapas, combinando integração de combatentes, reorganização das estruturas de comando, transferência de determinados armamentos para o Estado e negociação política com as facções mais resistentes. A questão decisiva será saber se essa integração produzirá efetivamente uma mudança na autoridade operacional ou apenas uma mudança administrativa.

Esse ponto merece atenção porque uma força pode estar formalmente subordinada ao Estado e continuar funcionando como instrumento de uma estrutura política externa à cadeia militar nacional. A incorporação de efetivos, a transferência de equipamentos e a inclusão de unidades no orçamento público são medidas importantes, mas não suficientes. A integração somente estará consolidada quando o governo puder determinar suas missões, selecionar seus comandantes, controlar sua logística e decidir autonomamente quando e como essas forças serão empregadas.

É nesse aspecto que o processo conduzido por Zaidi poderá produzir consequências muito maiores do que a simples redução do número de armas nas mãos das facções. Se Bagdá conseguir reorganizar progressivamente as PMF e as demais formações armadas dentro de uma cadeia de comando nacional, poderá transformar uma estrutura criada em resposta a uma emergência militar em um componente efetivamente subordinado ao Estado. Se, ao contrário, a integração ocorrer apenas no plano administrativo enquanto as antigas redes de lealdade permanecerem intactas, o Iraque poderá continuar convivendo com múltiplos centros de poder armado.

A data de 30 de setembro deve ser observada, portanto, menos como um prazo definitivo para o desaparecimento das milícias e mais como o início de uma fase decisiva da reorganização da segurança iraquiana. O resultado dependerá da capacidade de Zaidi de combinar pressão política, negociação e autoridade militar sem provocar uma reação que o próprio Estado ainda não tenha capacidade de controlar.

O Iraque chega a essa transição com instituições de segurança muito mais desenvolvidas do que aquelas existentes após a queda de Saddam Hussein, mas também com uma estrutura de poder construída sobre décadas de guerra, intervenção estrangeira e competição entre atores regionais. A saída dos Estados Unidos encerra uma etapa, mas não resolve automaticamente as relações de poder que surgiram durante esse período.

O desafio de Bagdá será transformar a retirada da coalizão em uma oportunidade para consolidar sua própria capacidade de decisão. Para isso, terá de demonstrar que suas forças armadas e estruturas de segurança não são apenas instituições formalmente estatais, mas instrumentos efetivamente subordinados a uma única autoridade política nacional. O resultado desse processo determinará não apenas a margem de manobra do governo de Ali al-Zaidi, mas também o grau de influência que Washington e Teerã continuarão exercendo sobre o Iraque depois da retirada norte-americana.


por Angelo Nicolaci


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Rússia apresenta no Egito novas armas stand-off para o Su-57E

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A Rússia aproveitou o El Alamein International Airshow 2026 no Egito, para apresentar publicamente novas armas aéreas associadas ao caça de quinta geração Su-57E. Entre os sistemas exibidos estão os mísseis S-71K "Kovyor" e S-71M "Monokhrom", duas plataformas de ataque lançadas do ar que combinam dimensões reduzidas, propulsão própria e características destinadas a diminuir sua detecção por radar.

O evento, realizado entre 8 e 10 de setembro, marca a primeira apresentação pública internacional dessas armas. A United Aircraft Corporation (UAC), fabricante do Su-57, afirma que as duas foram desenvolvidas para emprego por caças de quinta geração. A Rostec, por sua vez, apresentou o conjunto como parte da evolução do Su-57E para o mercado externo.

A escolha do Egito não é casual. O El Alamein Airshow reúne fabricantes e forças aéreas de diferentes países e funciona também como uma vitrine para exportação de sistemas de defesa. Nesse contexto, Moscou não apresenta apenas uma aeronave, mas um conjunto formado pelo Su-57E e por uma nova geração de armamentos de menor porte destinados a ampliar suas opções de ataque a distância.

Duas armas com conceitos diferentes

Apesar de pertencerem à mesma família, S-71K e S-71M não devem ser tratadas simplesmente como duas versões da mesma arma.

O S-71K Kovyor apresenta uma configuração mais próxima de um pequeno míssil de cruzeiro lançado do ar. Seu projeto utiliza uma fuselagem larga e achatada, superfícies aerodinâmicas dobráveis e geometria facetada. O objetivo aparente é reduzir a assinatura radar sem recorrer a uma arquitetura complexa e cara como a de grandes mísseis furtivos.

Informações divulgadas pela inteligência militar ucraniana após a recuperação de um exemplar indicam o emprego de materiais compósitos à base de fibra de vidro, estruturas internas de alumínio e navegação inercial. A arma também foi associada ao emprego de uma bomba OFAB-250-270 de aproximadamente 250 kg como carga de combate.

O S-71K, portanto, representa uma solução relativamente simples para levar uma carga explosiva a distância do alvo, permitindo que a aeronave lançadora permaneça fora de determinadas áreas de ameaça.

O S-71M Monokhrom segue uma proposta diferente. As informações disponíveis associam o modelo a uma maior capacidade de processamento e a sistemas destinados à busca e identificação de alvos. Fontes russas e análises publicadas durante o conflito na Ucrânia descrevem uma arma capaz de procurar alvos dentro de uma determinada área e selecionar objetivos de forma mais autônoma.

Essa capacidade, entretanto, ainda não pode ser considerada plenamente comprovada em condições operacionais. Não estão disponíveis publicamente dados suficientes sobre seus sensores, algoritmos, alcance efetivo ou grau de autonomia. Por isso, é mais adequado descrevê-la como uma arma aérea com potencial de emprego autônomo do que afirmar que possui uma capacidade operacional de inteligência artificial já plenamente estabelecida.

A experiência da guerra na Ucrânia

O desenvolvimento da família S-71 ocorre dentro de um ambiente marcado pelo uso intensivo de mísseis, drones e sistemas de defesa antiaérea na guerra da Ucrânia.

Nesse cenário, existe uma demanda por armas que possam ser produzidas em maior quantidade e empregadas contra alvos protegidos sem exigir o mesmo investimento de um míssil de cruzeiro convencional de maior porte. A solução russa parece estar justamente nesse espaço intermediário: uma arma propulsionada, relativamente compacta, com capacidade de ataque a distância e elementos de redução de assinatura.

O S-71K já foi relacionada a emprego contra alvos na Ucrânia, enquanto o S-71M também aparece em informações sobre avaliações e utilização operacional. Entretanto, os dados disponíveis não permitem determinar com precisão a quantidade produzida, o número de lançamentos ou a efetividade dos sistemas em combate.

Essa experiência é importante porque o projeto parece incorporar uma lógica observada em outros programas russos recentes: combinar componentes relativamente simples e disponíveis com uma arquitetura capaz de produzir uma arma de ataque de maior alcance e menor custo.

Su-57E como plataforma de ataque

A apresentação em El Alamein também mostra uma mudança na forma como Moscou procura vender o Su-57E.

O caça não é apresentado isoladamente, mas como parte de um sistema de armas que inclui diferentes categorias de munições. Além dos S-71, o pacote exibido inclui armamentos como os mísseis ar-ar RVV-MD2 e RVV-BD e armas ar-superfície como Kh-38MLE, Kh-69 e Kh-58UShKE.

Para um caça de quinta geração, a possibilidade de transportar armas internamente é particularmente importante. Ela permite preservar parte das características de baixa observabilidade da aeronave durante missões de ataque, ao mesmo tempo em que amplia a distância entre o vetor e o alvo.

É nesse ponto que os S-71 ganham importância. Seu tamanho e configuração indicam que foram pensadas para operar em conjunto com aeronaves modernas, oferecendo uma alternativa de menor porte às armas de cruzeiro tradicionais.

O S-71K parece priorizar o ataque contra alvos previamente definidos, enquanto o S-71M acrescenta a possibilidade de maior autonomia na identificação e seleção de objetivos. Se essa capacidade for confirmada em nível operacional, a diferença entre as duas será significativa: uma estará mais próxima de uma arma de ataque stand-off convencional, enquanto a outra poderá atuar de maneira mais flexível dentro de uma área de busca.

Uma nova camada no arsenal russo

A apresentação dos S-71 não significa que a Rússia tenha criado uma arma revolucionária isoladamente. O aspecto mais importante está na combinação entre custo, dimensões, alcance, baixa observabilidade e possibilidade de emprego por uma aeronave de quinta geração.

A experiência adquirida na Ucrânia demonstra a importância de possuir diferentes tipos de armas para superar redes modernas de defesa aérea. Mísseis de grande alcance continuam necessários, mas armas menores podem aumentar o número de vetores disponíveis e permitir ataques mais numerosos e diversificados.

Para o Su-57E, isso representa também uma ampliação de seu conceito de emprego. O caça passa a ser apresentado não apenas como uma plataforma capaz de realizar missões de superioridade aérea, mas como o núcleo de um sistema de ataque que combina aeronave tripulada, armas stand-off e, potencialmente, elementos com maior autonomia.

Ainda há muitas informações desconhecidas sobre a família S-71. Alcance real, sistemas de guiagem, capacidade de seleção de alvos, resistência à guerra eletrônica, taxa de produção e desempenho operacional permanecem parcialmente ocultos.

O que já pode ser observado, entretanto, é uma direção clara do desenvolvimento russo: reduzir o custo e o tamanho das armas de ataque a distância sem abandonar características de baixa observabilidade e, no caso do S-71M, buscar maior autonomia no emprego contra alvos.

A apresentação no Egito coloca essas armas no mercado internacional pela primeira vez e transforma o Su-57E em uma vitrine não apenas do caça, mas de todo um ecossistema de armamentos desenvolvido a partir das necessidades identificadas no campo de batalha.


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Reino Unido inicia construção do RFA Resurgent, novo elo logístico dos porta-aviões britânicos

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A Royal Navy iniciou uma nova etapa na renovação de sua capacidade de apoio logístico com o lançamento da quilha do RFA Resurgent, primeiro de três novos navios da classe Fleet Solid Support (FSS) destinados à Royal Fleet Auxiliary (RFA). A cerimônia ocorreu em 3 de setembro no estaleiro Appledore, em North Devon, e marca o avanço da construção de uma classe projetada para sustentar as operações navais britânicas de longa duração.

Com 216 metros de comprimento, cerca de 39 mil toneladas e velocidade máxima de 19 nós, os FSS estarão entre os maiores navios da frota britânica, atrás apenas dos porta-aviões da classe Queen Elizabeth. Sua função será fornecer munições, peças de reposição, provisões e outros suprimentos aos porta-aviões, destróieres e fragatas enquanto estiverem no mar.

A capacidade é particularmente importante para os Carrier Strike Groups britânicos. Uma força naval que opera a milhares de quilômetros do Reino Unido precisa manter fluxo contínuo de munições, peças e consumíveis sem depender do retorno periódico a uma base. Nesse contexto, os FSS funcionam como um elo logístico entre a frota e sua estrutura de apoio em terra.

Os novos navios substituirão o RFA Fort Victoria nessa função. A atual unidade, que já participou de operações com o HMS Queen Elizabeth, está próxima do fim de sua vida útil operacional e constitui atualmente a principal capacidade britânica de transporte de munições, alimentos, peças e demais cargas sólidas para forças navais em operação.

É importante, entretanto, diferenciar essa função da transferência de combustível. Os FSS não substituem os navios-tanque da classe Tide, como o RFA Tidespring, responsáveis pelo reabastecimento de combustível no mar. Os Tide transportam até 19 milhões de litros de combustível e podem transferir mais de 800 mil litros por hora durante operações de reabastecimento.

A estrutura logística britânica, portanto, será composta por diferentes plataformas trabalhando de forma complementar: os FSS cuidarão principalmente das chamadas cargas sólidas, enquanto os Tide manterão o fluxo de combustíveis necessário para a propulsão dos navios e a operação das aeronaves embarcadas.

Construção distribuída entre Reino Unido e Espanha

O programa de £1,6 bilhão também possui uma dimensão industrial relevante. Os três navios estão sendo construídos por uma parceria liderada pela Navantia UK, com participação de Harland & Wolff, BMT e A&P Appledore. A produção foi distribuída entre instalações britânicas e espanholas.

Em Appledore serão produzidas as seções de proa, com aproximadamente 50 metros. A Navantia em Cádiz, fabrica a seção central, de cerca de 120 metros, que concentra parte importante da maquinaria, dos espaços de armazenamento e dos sistemas operacionais. As estruturas serão posteriormente reunidas em Belfast, onde ocorrerá a integração final.

O modelo permite combinar capacidade industrial britânica com a experiência da Navantia em grandes construções navais. Para Londres, o programa também representa uma forma de recuperar infraestrutura, mão de obra especializada e conhecimento industrial necessários para sustentar futuros projetos navais.

O governo britânico estima que o programa gere aproximadamente 1.200 empregos nos estaleiros e fortaleça a cadeia de fornecedores do setor naval.

Sustentação da força naval

Cada FSS terá uma tripulação permanente de 101 integrantes da RFA e acomodará até outros 80 profissionais para atividades relacionadas a helicópteros, embarcações e outras funções de apoio.

O projeto também incorpora requisitos de eficiência energética e redução de emissões. Os navios foram concebidos para permitir a utilização futura de combustíveis de menor emissão e outras tecnologias energéticas durante uma vida operacional estimada em 30 anos.

Essa preocupação acompanha uma tendência de projetos navais de longa duração: em vez de projetar uma plataforma limitada à tecnologia disponível no momento da construção, o objetivo é permitir sua atualização ao longo do ciclo de vida.

Durante a cerimônia, a Royal Fleet Auxiliary confirmou também os nomes dos dois navios seguintes: RFA Reliant e RFA Resourceful. O Resurgent recupera o nome de um antigo navio de reabastecimento da RFA, enquanto Reliant já foi utilizado por três unidades anteriores. Resourceful é uma nova denominação dentro da frota.

A previsão é que os três novos FSS reforcem progressivamente a capacidade logística da Royal Navy até 2032. O Resurgent será o primeiro da classe e deverá assumir uma função central no apoio aos grupos navais britânicos, sobretudo aqueles organizados em torno dos porta-aviões da classe Queen Elizabeth.

Mais do que uma simples substituição do Fort Victoria, o programa cria uma estrutura logística composta por diferentes capacidades complementares. Os FSS transportarão as cargas sólidas necessárias à força, os Tide fornecerão combustível e os demais navios auxiliares contribuirão para aviação, manutenção e apoio especializado.

Para uma Marinha que pretende manter capacidade de atuação global, essa estrutura é tão importante quanto os próprios navios de combate. Porta-aviões, destróieres e fragatas podem possuir grande autonomia operacional, mas sua permanência em uma área distante depende da capacidade de receber combustível, munições, peças e suprimentos sem interromper a missão. É exatamente essa lacuna que o Resurgent e seus futuros irmãos foram projetados para preencher.


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Marinha promove primeira Feira de Profissões e apresenta 20 caminhos para ingressar na Força

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A Marinha do Brasil realiza, nesta sexta-feira (11), na Escola Naval, no Rio de Janeiro, a primeira edição do “Vem pra Marinha – Feira de Profissões – Um Mar de Possibilidades”. Gratuito e aberto ao público mediante inscrição, o evento reunirá informações sobre as 20 diferentes formas de ingresso na Força.

A iniciativa contempla oportunidades para diferentes níveis de escolaridade, desde o ensino fundamental até o superior, incluindo carreiras de formação técnica. Durante a programação, os visitantes poderão conhecer as áreas de atuação da Marinha, os requisitos para ingresso, processos seletivos e cursos de formação.

A feira contará com palestras, estandes temáticos e materiais institucionais, com atividades nos períodos da manhã e da tarde.

A participação é gratuita e pode ser realizada por meio da plataforma Sympla: Click Aqui.

Mais do que apresentar concursos e processos seletivos, a iniciativa busca aproximar a Marinha da sociedade e mostrar a jovens que a carreira naval oferece possibilidades que vão muito além da formação de oficiais. A diversidade de áreas reflete também a necessidade de profissionais com diferentes níveis de formação para sustentar uma Força cada vez mais dependente de tecnologia, engenharia, manutenção, sistemas e conhecimento especializado.

Nesse sentido, a Feira de Profissões também funciona como uma oportunidade para apresentar às novas gerações o perfil profissional necessário para manter e desenvolver uma Força Naval moderna, ao mesmo tempo em que amplia o conhecimento sobre as diferentes possibilidades de carreira existentes dentro da Marinha.

A realização do evento na Escola Naval reforça ainda essa aproximação, colocando o público em contato direto com uma das principais instituições de formação da Marinha e permitindo conhecer melhor a estrutura e as oportunidades oferecidas pela Força.


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com Marinha do Brasil

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Exército inicia incorporação da versão nacional da VBMT Guaicurus e amplia produção de blindados no Brasil

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"Primeira unidade produzida em Sete Lagoas marca uma nova etapa do programa, que prevê 420 viaturas e fortalece a capacidade brasileira de fabricação e manutenção de veículos blindados"

O Exército Brasileiro recebe nesta quarta-feira (9) em Sete Lagoas, Minas Gerais, a primeira unidade da versão nacional da Viatura Blindada Multitarefa Guaicurus. A solenidade marca o início de uma nova etapa do programa que além de ampliar a frota blindada da Força, estabelece uma capacidade industrial permanente para a produção e sustentação da plataforma em território brasileiro.

A nova fase teve origem no contrato firmado com a IDV em 2024, no valor de aproximadamente R$ 1,4 bilhão, que prevê o fornecimento de 420 viaturas. As entregas estão previstas até 2033 e integram o Programa Forças Blindadas, iniciativa estratégica que visa a incorporação de mais de 2.100 novos blindados de diferentes tipos ao Exército até 2040.

Mais do que o número de viaturas, entretanto, o aspecto de maior relevância estratégica está na nacionalização da linha de montagem. Concluída neste ano em Sete Lagoas, a estrutura passa a permitir a montagem dos veículos no Brasil e a fabricação de componentes em território nacional, criando uma cadeia que poderá participar não apenas da produção, mas também da manutenção e da evolução da frota ao longo de seu ciclo de vida.

Essa capacidade é particularmente importante em programas militares de longa duração. Uma frota de centenas de viaturas representa uma demanda permanente por peças, manutenção, mão de obra especializada e atualização de sistemas. Ao manter parte desse conhecimento e dessa estrutura produtiva no Brasil, o Exército reduz sua dependência de cadeias externas e cria condições para maior autonomia logística.

Uma capacidade intermediária para a Força Terrestre

A VBMT Guaicurus ocupa uma posição específica dentro da estrutura de meios terrestres do Exército. A viatura foi concebida para preencher a lacuna existente entre os veículos leves utilizados para transporte e patrulha, normalmente com proteção limitada, e os blindados sobre rodas 6x6 e 8x8 ou sobre lagartas.

Essa característica permite empregar uma plataforma protegida e de elevada mobilidade em missões nas quais seria desnecessário ou pouco eficiente utilizar um blindado de maior porte.

A proteção contra explosões é um dos elementos centrais do projeto. A viatura conta com uma célula de sobrevivência e assoalho em formato de “V”, solução destinada a reduzir os efeitos de explosões de minas e outros artefatos sob o veículo.

A arquitetura também permite diferentes configurações. O mesmo chassi pode ser adaptado para missões como patrulha armada, guerra eletrônica e ambulância, entre outras aplicações.

Essa modularidade ganha importância diante da necessidade da força terrestre operar em ambientes distintos sem manter uma plataforma específica para cada função. A capacidade de reconfiguração permite aproveitar uma mesma família de viaturas em diferentes missões, simplificando parte da estrutura logística e ampliando a flexibilidade operacional.

Produção nacional amplia o potencial do programa

O Exército já possui 32 Guaicurus provenientes de um primeiro contrato com a IDV. O novo acordo, com outras 420 unidades, elevará significativamente a presença da plataforma na Força, mas introduz uma mudança relevante: a produção passa a contar com uma estrutura nacionalizada.

A fábrica de Sete Lagoas entregará outras 14 unidades ainda em 2026, totalizando 15 viaturas neste primeiro ano da nova fase. As demais 405 unidades serão entregues de forma contínua até 2033.

O cronograma prolongado também tem importância para a Base Industrial de Defesa. Em vez de uma produção concentrada em curto período, o contrato estabelece uma demanda que se estende por vários anos, permitindo manter mão de obra qualificada, fornecedores e conhecimento técnico associados ao programa.

Esse efeito é relevante porque a nacionalização de um sistema de defesa não deve ser medida apenas pelo percentual de componentes fabricados localmente. A capacidade de manter uma cadeia produtiva ativa e capaz de evoluir a plataforma ao longo do tempo é igualmente importante para a autonomia de defesa.

Guaicurus poderá incorporar sistemas brasileiros

A produção nacional também favorece a integração da VBMT com equipamentos desenvolvidos pela própria indústria de defesa brasileira. Entre os sistemas citados estão a família de rádios Mallet, produzida pela IMBEL, e sistemas de armas automatizados equipados com câmeras termais, nos calibres .50 e 7,62 mm.

A integração desses equipamentos amplia o potencial da viatura dentro da arquitetura de combate do Exército. O Guaicurus deixa de ser apenas um meio protegido de transporte e passa a poder atuar como uma plataforma conectada aos sistemas de comunicações, observação e armas utilizados pela Força.

A presença de sistemas de armas remotamente controlados também permite ao operador empregar o armamento a partir do interior da célula protegida, aumentando a segurança da guarnição e melhorando a capacidade de observação e resposta.

Esse caminho é particularmente importante porque permite que a plataforma acompanhe a evolução tecnológica sem que seja necessário substituí-la integralmente a cada nova geração de equipamentos.

O papel dentro do Programa Forças Blindadas

A aquisição dos 420 Guaicurus precisa ser observada dentro de um processo muito maior de renovação dos meios blindados do Exército. O Programa Forças Blindadas prevê mais de 2.100 novos blindados até 2040, contemplando diferentes categorias de veículos e necessidades operacionais. O Guaicurus não substitui as plataformas de combate de maior porte, mas complementa essa estrutura ao oferecer proteção e mobilidade em uma faixa intermediária.

Essa composição é importante para uma força terrestre que precisa administrar diferentes níveis de ameaça. Empregar um grande blindado em todas as missões seria logisticamente mais complexo e economicamente menos racional. Da mesma forma, utilizar veículos leves sem proteção em ambientes de maior risco pode comprometer a sobrevivência das tropas. O Guaicurus procura justamente ocupar esse espaço intermediário, oferecendo uma combinação de mobilidade, proteção e flexibilidade.

A distribuição das capacidades entre diferentes categorias de blindados também permite ao Exército preservar seus meios mais pesados para missões que realmente exijam maior poder de fogo e proteção, enquanto plataformas como a VBMT podem assumir uma parcela maior das tarefas de patrulha, transporte protegido, reconhecimento e apoio.

Um blindado pensado para um ciclo de décadas

Outro aspecto que merece atenção é que a entrega das primeiras unidades representa apenas o começo de um ciclo muito mais longo. A previsão de entregas até 2033 significa que o Guaicurus estará presente na estrutura do Exército por muitos anos, tornando decisiva a capacidade brasileira de sustentá-lo e modernizá-lo.

É justamente nesse ponto que a nacionalização da linha ganha maior significado. A existência de uma estrutura produtiva em Sete Lagoas cria uma referência industrial dentro do país para atender às necessidades da frota, ao mesmo tempo em que permite acumular conhecimento sobre o veículo.

A possibilidade de incorporar novos equipamentos brasileiros também abre caminho para atualizações futuras, mantendo a plataforma relevante diante da evolução das ameaças.

Em programas militares, portanto, a capacidade de produzir é apenas uma parte da equação. A capacidade de manter, atualizar e adaptar o meio durante décadas é o que determina, em grande medida, sua efetiva autonomia operacional.

O nome Guaicurus

A denominação da viatura homenageia os Mbayá-Guaicuru, povo indígena historicamente associado ao Pantanal e ao Chaco, em áreas que atualmente abrangem partes de Mato Grosso do Sul, Paraguai e Bolívia.

Os Guaicurus eram reconhecidos pela habilidade no emprego de cavalos e pela capacidade de combater em movimento, inclusive lançando flechas durante a cavalgada. Essa tradição de mobilidade e combate tornou o grupo conhecido na história militar da região.

Durante o período colonial, alianças entre os Guaicurus e os portugueses tiveram importância na manutenção dos territórios sob domínio português diante das disputas com os espanhóis. Posteriormente, integrantes do povo Guaicuru participaram voluntariamente das tropas brasileiras durante a Guerra da Tríplice Aliança.

A escolha do nome estabelece, assim, uma referência histórica à mobilidade e à capacidade de combate, características que também estão presentes na proposta da moderna viatura blindada.

A primeira Guaicurus produzida em Sete Lagoas representa, nesse sentido, mais do que a chegada de uma nova viatura ao Exército. Ela marca o início de uma fase em que uma plataforma estrangeira passa a contar com uma estrutura produtiva e de sustentação estabelecida no Brasil.

Com 420 unidades previstas, entregas distribuídas até 2033 e possibilidade de integração com sistemas desenvolvidos pela indústria nacional, o programa combina renovação operacional com uma estratégia de fortalecimento da Base Industrial de Defesa.

O desafio, a partir de agora, será transformar essa nacionalização em capacidade permanente, garantindo que a estrutura criada para produzir o Guaicurus também seja capaz de sustentar e evoluir a frota durante as próximas décadas. É nesse aspecto que a iniciativa ganha peso estratégico: não apenas pelo número de blindados que chegarão às unidades do Exército, mas pelo conhecimento, pela infraestrutura e pela autonomia que podem permanecer no país depois que a última viatura do contrato deixar a linha de montagem.


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Aviação do Exército prepara nova arquitetura de combate com UH-60M, drones e criação do BARP

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"Em entrevista, General Amorim revela ao GBN Defense os planos para integrar helicópteros, SARP, inteligência artificial e guerra eletrônica diante de um campo de batalha cada vez mais transparente e contestado"

A Aviação do Exército atravessa um processo de transformação que vai muito além da simples renovação de sua frota de helicópteros. A evolução dos conflitos recentes, marcada pela presença massiva de drones, pelo emprego crescente da Guerra Eletrônica, pela dimensão cibernética e pela redução da liberdade de ação no espaço aéreo, está levando a Força Terrestre a repensar a forma como emprega suas capacidades aéreas.

Em entrevista ao GBN Defense, o General de Brigada Evandro Luís Amorim Rocha, Comandante da Aviação do Exército, apresentou um panorama das mudanças em curso e das prioridades que deverão orientar a AvEx nos próximos anos. A transformação envolve desde a incorporação dos novos HM-2A Black Hawkdesignação brasileira do UH-60M, até a criação de uma estrutura dedicada à operação de sistemas remotamente pilotados, passando pelo desenvolvimento de novas doutrinas, treinamento em simuladores, inteligência artificial e capacidades de Comando e Controle.

Segundo General Amorim, o ponto de partida para compreender essa transformação está na própria mudança do ambiente operacional.

O cenário operacional que se descortina apresenta um campo de batalha cada vez mais transparente, devido à existência de recursos tecnológicos democratizados a exemplo dos drones, da Guerra Eletrônica e da Cibernética”, explicou o General.

Esse processo produz uma consequência direta sobre o emprego da aviação militar. O espaço aéreo deixa de ser um ambiente no qual as aeronaves podem operar com relativa liberdade e passa a ser progressivamente disputado, monitorado e ameaçado por diferentes sistemas.

O comandante define esse cenário como um “domínio aéreo cada vez mais sobrecarregado e negado”, condição que exige tripulações mais preparadas e uma capacidade de adaptação permanente.

Nesse contexto, a missão da Aviação do Exército não se limita a operar aeronaves. A estrutura precisa acompanhar a evolução das ameaças, identificar lacunas de capacidade e transformar essas informações em soluções capazes de ampliar as possibilidades de emprego da Força Terrestre.

Cabe ressaltar que a Aviação sempre observará as possíveis ameaças e, a partir delas, construirá capacidades que contribuam para as Capacidades Militares Terrestres, especialmente no Enfrentamento e na Pronta-resposta”, afirmou General Amorim.

HM-2A marca uma nova etapa para a frota

Uma das mudanças mais importantes está na incorporação do HM-2A, designação adotada pelo Exército Brasileiro para o UH-60M Black Hawk. A aeronave está sendo incorporada por meio do Projeto Capacidade de Manobra, inserido no Programa Estratégico Exército Aviação e Drones.

A chegada do novo helicóptero não representa apenas a aquisição de uma plataforma. Segundo General Amorim, o objetivo é realizar sua incorporação completa à estrutura da Aviação, envolvendo operação, formação de pessoal, treinamento, regulamentação e logística.

O processo já está em andamento. Tripulações estão sendo formadas, estruturas de treinamento e apoio logístico estão sendo adaptadas e documentos doutrinários relacionados ao emprego da aeronave estão sendo atualizados ou produzidos.

Do contrato estabelecido, uma aeronave já foi recebida. Outras oito estão previstas para 2028 e as três últimas para 2029. A introdução do HM-2A também está diretamente relacionada à necessidade de substituir plataformas que se aproximam do final de seus ciclos de vida. 

A prioridade é substituir principalmente os HM-3 Cougar e os HM-2 Black Hawk (variante S-70A), mantendo na medida do possível, parte da frota atual em operação durante a transição.

Alguns HM-3 serão desativados durante esse período, mas teremos um incremento da frota com a chegada dos novos helicópteros, compensando a perda relativa”, explicou o comandante.

O desafio está em realizar essa transição sem ampliar de maneira desproporcional a estrutura de pessoal. A Aviação precisa manter os Cougar disponíveis enquanto forma e consolida as competências necessárias para operar o HM-2A.


O planejamento da manutenção da capacidade operacional é conduzido em conjunto pelo Comando de Operações Terrestres (COTER) e pelo Estado-Maior do Exército (EME), com assessoramento do Comando de Aviação do Exército (CAvEx) e do Comando Logístico (COLOG).

Drones deixam de ser complemento e passam a integrar a manobra

Se a renovação dos helicópteros representa uma evolução importante na capacidade de manobra, os drones introduzem uma transformação ainda mais profunda na doutrina de emprego da Aviação do Exército.

O emprego de SARP pelo Exército Brasileiro já está em desenvolvimento, tendo começado com a Companhia de SARP do 1º Batalhão de Aviação do Exército. Em abril de 2026, a Portaria EME/C Ex Nº 1.720 estabeleceu a Diretriz de Iniciação do Projeto de criação do Núcleo do Batalhão de Aeronaves Remotamente Pilotadas, estrutura que deverá evoluir para o BARP.


A doutrina vem sendo construída a partir da observação de forças estrangeiras e principalmente do estudo dos conflitos recentes. O Centro de Instrução de Aviação do Exército também passou a estruturar programas de formação para os diferentes tipos de sistemas empregados pela Força.

No caso dos drones menores, a formação de multiplicadores nas brigadas permite ampliar a capacidade de treinamento e inserir a qualificação dos operadores no Sistema de Instrução Militar do Exército. Para os sistemas de maior porte, a formação permanece centralizada no CIAvEx, incluindo aspectos de emprego, doutrina e integração com as aeronaves tripuladas.

BARP deverá moldar o ambiente aéreo

A criação do BARP representa uma mudança importante na maneira como o Exército pretende utilizar seus sistemas remotamente pilotados. A ideia não é simplesmente multiplicar a quantidade de drones disponíveis, mas empregá-los de maneira coordenada para modificar as condições do espaço aéreo e criar oportunidades para as demais forças.

“Entendemos que o BARP irá operar drones das categorias 0, 1, 2 e 3, moldando o domínio aéreo e proporcionando aos SARP Categoria 3 liberdade para atuar nas ‘ações principais’, com grande alcance e letalidade”, afirmou General Amorim.

Essa concepção nasce diretamente das experiências observadas nos conflitos contemporâneos. O emprego de drones passou a ser associado principalmente à Inteligência, Reconhecimento, Vigilância e Aquisição de Alvos e aos ataques de precisão, mas a realidade operacional é mais complexa.

Para o comandante, as manobras de drones devem ser compreendidas como parte de uma arquitetura maior.

“Manobras de drones moldam o ambiente operacional para permitir as ações principais e ações em profundidade nos níveis tático e estratégico-operacional”, explicou.

Essa lógica pode ser aplicada tanto em operações diretamente relacionadas ao campo de batalha quanto em ações contra estruturas de importância estratégica.

Categoria 3 amplia alcance da Aviação

Dentro desse processo, os SARP Categoria 3 ocupam posição de destaque. O projeto está em andamento dentro do Subprograma Drones do Programa Estratégico Exército Aviação e Drones.

A intenção, no curto prazo, é adquirir sistemas de Categoria 3 compatíveis com os padrões da OTAN para emprego pela Força Terrestre. Os Requisitos Operacionais, Técnicos, Industriais e Logísticos já foram publicados e os potenciais fornecedores foram informados.

Entre as exigências estabelecidas está uma maturidade tecnológica superior ao grau 9, com sistemas comprovados em combate, capacidade comprovada de apoio de fogo e ausência de restrições internacionais que impeçam seu fornecimento ao Brasil.

O alcance estimado de até 1.000 quilômetros e a elevada autonomia projetada para esses sistemas representam uma mudança significativa na capacidade de projeção da Aviação do Exército.

Os novos SARP não deverão substituir os helicópteros. A proposta é complementar as capacidades existentes, permitindo que drones e aeronaves tripuladas atuem isoladamente, de forma coordenada ou integrados em uma mesma operação.

“Os novos sistemas atuarão de forma complementar aos helicópteros da Aviação do Exército, podendo atuar de forma isolada, em uma manobra de drones ou ainda em conjunto com plataformas tripuladas”, explicou.

Essa integração deverá ser particularmente relevante para ações de Direct Action e IRVA em profundidade, ampliando a capacidade de apoiar os objetivos da manobra terrestre.

Helicópteros e drones passam a formar um sistema integrado

A experiência dos conflitos recentes mostra que a divisão entre aeronaves tripuladas e sistemas não tripulados tende a perder importância. O que ganha relevância é a capacidade de integrar diferentes plataformas em uma mesma arquitetura operacional.

A proliferação de drones militarizados e comerciais transformou o campo de batalha em um ambiente muito mais transparente. Tropas, posições, deslocamentos e concentrações de meios estão mais expostos, aumentando a vulnerabilidade das forças.

A resposta, portanto, não pode ser simplesmente adquirir mais drones. É necessário estabelecer uma doutrina capaz de coordenar sensores, plataformas de ataque, sistemas de Comando e Controle e meios de guerra eletrônica, utilizando cada categoria de drone de acordo com sua função.

É justamente nesse ponto que o BARP ganha importância. A estrutura deverá permitir a utilização coordenada de diferentes categorias de SARP, inclusive em ondas, com a finalidade de saturar ou suprimir defesas aéreas adversárias e criar janelas de oportunidade para o emprego das aeronaves tripuladas.

Essa arquitetura poderá aumentar significativamente a liberdade de ação dos helicópteros, reduzindo parte dos riscos impostos por um ambiente aéreo cada vez mais contestado.

A ameaça dos próprios drones

A Aviação do Exército também trabalha sobre o outro lado desse problema: os drones como ameaça às suas próprias aeronaves. O desenvolvimento de capacidades de defesa contra sistemas remotamente pilotados envolve estudos de Comando e Controle, identificação e armamentos que poderão ser incorporados às aeronaves da AvEx. Segundo General Amorim, estão sendo avaliadas soluções para a defesa ativa e passiva das plataformas.

A preocupação é coerente com a evolução observada nos conflitos recentes, nos quais pequenos drones passaram a representar uma ameaça concreta inclusive contra plataformas que, tradicionalmente, eram consideradas mais protegidas. Para os helicópteros, isso significa rever procedimentos, treinamento e técnicas de emprego.

Simulação ganha espaço no treinamento

A preparação das tripulações também está sendo modificada. O uso de simuladores deverá assumir papel cada vez maior na formação e no aperfeiçoamento dos militares, permitindo reproduzir situações complexas que seriam difíceis ou excessivamente dispendiosas de serem treinadas exclusivamente em voo real.

Os treinamentos deverão incorporar cenários inspirados nos conflitos contemporâneos, incluindo a presença de drones hostis contra formações de helicópteros, tanto no solo quanto durante o voo, isoladamente ou em enxames. Esses cenários exigem das tripulações capacidade de reação rápida e tomada de decisão sob pressão.

“Essas situações demandam rápidas reações e decisões das tripulações”, destacou o comandante.

A construção de bancos de imagens e a utilização de ambientes virtuais também deverão contribuir para preparar as equipes para identificar ameaças antes que elas sejam capazes de comprometer a missão.

Inteligência artificial entra na equação

A transformação não se limita às plataformas. A Aviação também avalia o emprego de inteligência artificial, especialmente nas áreas de Inteligência de Imagens, Comando e Controle, seleção e formação de pessoal. Os projetos do SARP Categoria 3 e do BARP já consideram essas tecnologias dentro de seu planejamento.

Inicialmente, os primeiros operadores deverão ser selecionados entre pilotos de helicópteros, enquanto oficiais formados no Curso de Observador Aéreo do Exército também deverão integrar outras equipes.

Com o amadurecimento da atividade e a consolidação dos níveis de segurança necessários, o Exército poderá avaliar a criação de uma formação específica para pilotos de drones, sem exigir necessariamente uma formação anterior como piloto de aeronaves tripuladas. Esse processo mostra que a transformação da Aviação do Exército envolve também uma mudança no perfil profissional necessário para operar seus sistemas.

Sábado Aéreo aproxima a Aviação do Exército da sociedade

Se no campo operacional a Aviação do Exército trabalha para ampliar suas capacidades diante do ambiente cada vez mais complexo, no relacionamento com a sociedade a prioridade também é aproximar a instituição do cidadão.

O Sábado Aéreo realizado em 29 de agosto, se consolidou como uma das principais iniciativas nesse sentido, permitindo que o público conheça de perto os meios, as missões e o cotidiano da Aviação do Exército.

Segundo General Amorim, essa aproximação possui um significado que ultrapassa o caráter recreativo do evento.

O Sábado Aéreo é uma oportunidade de mostrar à sociedade o que é a Aviação do Exército, o que ela faz e qual é a sua importância para a Força Terrestre”, explicou.

Mais de 60 mil pessoas visitaram as instalações da Aviação do Exército durante as atividades abertas ao público. Para o comandante, receber a sociedade dentro das organizações militares permite estabelecer um contato direto com aqueles que muitas vezes conhecem a instituição apenas por imagens ou informações divulgadas pelos meios de comunicação.

“O evento permite que as pessoas conheçam nossas aeronaves, nossas capacidades e principalmente o nosso pessoal. É uma oportunidade de vivenciar um pouco do ambiente da Aviação do Exército, conhecer nossa história e compreender a nossa missão”, destacou General Amorim.

A iniciativa também possui uma dimensão de integração. Ao abrir suas portas, a Aviação cria um espaço para que crianças, jovens, famílias e entusiastas tenham contato com a atividade militar de maneira organizada, conhecendo não apenas as aeronaves, mas também os valores que orientam aqueles que operam e mantêm esses meios.

Essa aproximação ajuda a fortalecer os vínculos entre as Forças Armadas e a sociedade, permitindo que o cidadão compreenda melhor o papel desempenhado pelo Exército, e particularmente, pela Aviação do Exército.

A edição deste ano ganhou um significado adicional por ocorrer no contexto dos 40 anos da recriação da Aviação do Exército. Dessa forma, o Sábado Aéreo representou não apenas uma oportunidade de apresentar aeronaves e capacidades, mas também de compartilhar com a sociedade parte da trajetória construída pela AvEx e mostrar como essa estrutura vem se preparando para os desafios futuros.

Uma nova arquitetura para o combate

As respostas de General Amorim deixam claro que a transformação da Aviação do Exército não está concentrada em um único projeto. O HM-2A representa a renovação da capacidade de manobra. Os SARP ampliam a capacidade de observação e atuação em profundidade. O BARP deverá organizar e coordenar diferentes categorias de drones. A inteligência artificial e o Comando e Controle deverão aumentar a velocidade de processamento e decisão. A simulação permitirá preparar as tripulações para ambientes mais complexos.

Ao mesmo tempo, a Aviação trabalha para preservar a disponibilidade de sua frota e elevar sua prontidão logística, condição indispensável para que toda essa arquitetura funcione.

Entre as prioridades apresentadas pelo comandante estão preservar a capacidade de manobra, ampliar a capacidade de combate por meio de aeronaves multimissão para Direct Action e IRVA, implementar o BARP, aperfeiçoar o treinamento técnico e tático com o uso de simuladores e elevar a disponibilidade da frota e a prontidão logística.

O objetivo final é permitir que a Aviação do Exército continue cumprindo sua função de proporcionar mobilidade e capacidade de combate à Força Terrestre mesmo em um ambiente no qual o domínio aéreo se torna cada vez mais disputado.

Nesse sentido, a transformação em curso na Aviação do Exército pode representar uma mudança de paradigma: de uma força essencialmente centrada na plataforma tripulada para uma estrutura multidomínio, na qual helicópteros e sistemas não tripulados atuam de forma complementar para produzir efeitos sobre o campo de batalha.

O resultado esperado é uma Aviação mais conectada, mais distribuída e capaz de operar em um ambiente no qual a superioridade aérea local não pode mais ser presumida. Essa evolução terá impacto direto sobre a capacidade de manobra da Força Terrestre e em última instância, sobre a própria capacidade brasileira de dissuasão.


por Angelo Nicolaci


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BRICS chega a Nova Délhi diante do desafio de transformar peso econômico em resultados concretos

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A 18ª Cúpula do BRICS será realizada em 12 e 13 de setembro, em Nova Délhi, sob uma presidência indiana que pretende deslocar o centro da discussão do campo das grandes declarações políticas para resultados concretos em comércio, finanças, tecnologia e cadeias de suprimentos.

O encontro ocorre no cenário marcado pela fragmentação das cadeias globais de produção, disputas comerciais, conflitos armados, restrições à exportação de tecnologias estratégicas e avanço acelerado da inteligência artificial. Para a Índia, esses fatores reforçam a necessidade de aumentar a capacidade de seus membros de reduzir vulnerabilidades sem transformar o BRICS um bloco econômico fechado.

Sob o lema “Building for Resilience, Innovation, Cooperation and Sustainability”, a presidência indiana estruturou sua agenda em torno de três grandes pilares: cooperação política e de segurança, cooperação econômica e financeira e intercâmbio entre povos. Ao longo de 2026, mais de 350 reuniões e encontros de alto nível foram realizados em mais de 25 cidades indianas como preparação para a cúpula.

A prioridade econômica está na construção de mecanismos capazes de facilitar o comércio entre os próprios integrantes. A Índia vem defendendo uma estratégia para 2030 que abrange comércio de bens e serviços, investimentos, economia digital, indústria, inovação e cooperação financeira, além de maior participação das micro, pequenas e médias empresas nas cadeias internacionais de valor.

A questão das cadeias de suprimentos ganhou importância diante da experiência dos últimos anos. Pandemia, guerras, restrições comerciais e problemas no transporte marítimo demonstraram como a concentração da produção em determinados países ou regiões pode transformar uma interrupção localizada em um problema global.

A proposta indiana é criar maior resiliência sem estabelecer uma estrutura comercial fechada. O objetivo é diversificar fornecedores, ampliar as conexões entre os mercados do BRICS e reduzir a exposição a choques externos, mantendo simultaneamente a Organização Mundial do Comércio (OMC) como referência para o sistema multilateral. A própria reunião de ministros do Comércio realizada em Jaipur no mês de agosto, avançou nas discussões sobre a Estratégia para a Parceria Econômica 2030.

No setor financeiro, a agenda também é pragmática. Em vez de concentrar esforços na criação de uma moeda única do BRICS, proposta que enfrenta obstáculos econômicos, monetários e políticos consideráveis, o grupo trabalha com alternativas como liquidações em moedas nacionais, integração de sistemas de pagamentos e maior utilização de tecnologias financeiras.

Essa abordagem já havia sido defendida pelo Brasil durante sua presidência do grupo em 2025. O governo brasileiro deixou claro naquele período que uma moeda comum não estava em discussão e que o objetivo era reduzir custos das transações comerciais e financeiras entre os membros.

A tecnologia é outro eixo em que a Índia pretende ampliar a cooperação. Inteligência artificial, infraestrutura digital, computação de alto desempenho, novas redes de comunicação e tecnologias críticas passaram a ocupar espaço crescente dentro da estrutura do BRICS. A programação indiana de 2026 inclui, inclusive, grupos de trabalho dedicados a IA, tecnologias digitais e inovação.

Essa agenda possui uma dimensão estratégica. O acesso a tecnologias críticas passou a ser diretamente influenciado por disputas geopolíticas, controles de exportação e competição industrial. Para economias emergentes, desenvolver capacidades próprias ou estabelecer parcerias alternativas significa reduzir dependências e aumentar a margem de manobra diante das grandes potências.

A expansão do BRICS, entretanto, tornou o processo decisório mais complexo. O grupo reúne atualmente Brasil, Rússia, Índia, China, África do Sul, Egito, Etiópia, Irã, Emirados Árabes Unidos, Indonésia e Arábia Saudita. São economias com estruturas produtivas, sistemas políticos e interesses estratégicos bastante diferentes.

Essa diversidade é simultaneamente uma força e uma limitação. O conjunto possui peso econômico, energético, demográfico e territorial significativo, mas não existe uma visão comum sobre temas como a relação com os Estados Unidos, a guerra na Ucrânia, a segurança no Oriente Médio ou a própria velocidade da transformação do sistema internacional.

A relação entre Índia e China é um dos exemplos mais importantes. Os dois países possuem interesses econômicos convergentes em determinadas áreas, mas também mantêm uma competição estratégica própria. Para Nova Délhi, portanto, fortalecer o BRICS não significa necessariamente aceitar uma orientação política definida por Pequim ou Moscou.

Essa característica explica parte da estratégia indiana de priorizar temas nos quais o consenso é mais viável: comércio, pagamentos, tecnologia, desenvolvimento, infraestrutura, saúde, energia e financiamento.

O debate sobre a governança internacional permanece, contudo, no centro da agenda. A Índia defende maior participação das economias emergentes nas instituições multilaterais, incluindo Organização das Nações Unidas, Fundo Monetário Internacional, Banco Mundial e Organização Mundial do Comércio.

A reforma do Conselho de Segurança da ONU também permanece como uma questão relevante para o Brasil e para a própria Índia. Ambos defendem maior representação dos países em desenvolvimento na estrutura decisória internacional, embora os interesses nacionais nem sempre coincidam em todas as questões.

O papel brasileiro

Para o Brasil, a cúpula de Nova Délhi representa uma oportunidade que vai muito além da dimensão diplomática. O principal interesse brasileiro está em transformar o peso político do BRICS em acesso efetivo a mercados, investimentos, tecnologia e financiamento.

O país possui uma posição particularmente relevante dentro do grupo por combinar uma das maiores economias emergentes, grande capacidade agrícola, recursos minerais, matriz energética diversificada e potencial de produção de combustíveis de baixo carbono. Isso permite ao Brasil negociar a partir de ativos concretos, e não apenas de alinhamentos políticos.

No comércio, o desafio brasileiro é ampliar a diversificação das exportações e aumentar o valor agregado dos produtos destinados aos mercados do BRICS. A existência de grandes compradores de alimentos, energia, minerais e produtos industriais abre oportunidades, mas também exige que o Brasil avance em infraestrutura, logística, financiamento e competitividade industrial.

A agenda tecnológica também interessa diretamente ao país. A cooperação em inteligência artificial, computação, infraestrutura digital e tecnologias críticas pode permitir ao Brasil ampliar sua capacidade de desenvolvimento próprio e estabelecer parcerias industriais com países que possuem competências complementares.

Nesse ponto, o Brasil precisa evitar uma posição meramente comercial. O objetivo estratégico deveria ser transformar o BRICS em plataforma para projetos conjuntos de pesquisa, desenvolvimento e produção, especialmente em setores nos quais o país já possui capacidade instalada.

O mesmo raciocínio vale para defesa. O Brasil possui uma Base Industrial de Defesa relevante, com competências em aeronaves, sistemas navais, veículos militares, sensores, comunicações, mísseis e sistemas não tripulados. Uma agenda de cooperação tecnológica dentro do BRICS pode abrir espaço para novos mercados e projetos conjuntos, desde que sejam preservadas as necessidades brasileiras de propriedade intelectual, transferência de tecnologia e autonomia operacional.

O Novo Banco de Desenvolvimento, o NDB, é outro instrumento importante. O Brasil pode buscar maior utilização do banco para financiar infraestrutura, energia, transporte, digitalização e projetos capazes de elevar a produtividade nacional. O ponto central é transformar o financiamento multilateral em projetos que gerem capacidade econômica permanente, e não apenas crédito para obras isoladas.

No campo diplomático, o Brasil também possui uma vantagem específica: sua capacidade de dialogar simultaneamente com diferentes polos de poder. O país mantém relações econômicas profundas com China, Estados Unidos, Europa, Rússia e demais integrantes do BRICS. Essa posição permite a Brasília atuar como interlocutor e evitar que o grupo seja reduzido a uma estrutura de confronto com o Ocidente.

Esse talvez seja o principal interesse brasileiro na atual configuração do BRICS. O país pode defender uma ordem internacional mais representativa sem transformar sua participação no grupo em alinhamento automático a qualquer potência.

A cúpula de Nova Délhi, portanto, será um teste não apenas para a Índia, mas para o próprio modelo de funcionamento do BRICS ampliado. Se o grupo conseguir produzir mecanismos concretos de comércio, pagamentos, financiamento, tecnologia e integração produtiva, sua relevância internacional tende a crescer de maneira consistente.

Para o Brasil, o resultado mais importante não será uma nova declaração política, mas a capacidade de converter sua participação no bloco em investimentos, mercados, tecnologia, financiamento e maior autonomia estratégica.

O BRICS já possui peso suficiente para influenciar a economia internacional. O próximo passo é demonstrar que também consegue transformar esse peso em resultados mensuráveis para seus integrantes.


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