Na madrugada deste sábado, 28 de fevereiro, o Oriente Médio atravessou uma linha histórica que, durante décadas, foi evitada por cálculos de dissuasão e guerras indiretas. Israel iniciou ataques contra o território iraniano e, poucas horas depois, o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, confirmou o envolvimento direto de forças americanas na operação, oficialmente denominada "Epic Fury" pelo Pentágono. Do lado israelense, a ofensiva recebeu o nome de "Operation Lion’s Roar". A combinação desses dois vetores, ataque preventivo declarado por Israel e participação aberta dos Estados Unidos, transformou um conflito latente em confronto militar interestatal direto.
A cronologia dos acontecimentos revela planejamento e coordenação prévia. Nas primeiras horas do sábado (28), múltiplas explosões foram registradas em Teerã, inclusive em áreas centrais próximas a instalações governamentais e complexos associados à Guarda Revolucionária Islâmica (IRGC). Relatos indicaram ataques também em cidades estratégicas como Isfahan e Tabriz, regiões com relevância militar e industrial. A natureza simultânea dos impactos sugere o emprego de vetores distintos: aeronaves tripuladas, mísseis de cruzeiro de longo alcance e possivelmente ativos navais posicionados no Golfo Pérsico ou no Mar da Arábia.
Pouco depois, Washington assumiu publicamente a coautoria operacional. Donald Trump declarou que o objetivo era eliminar ameaças do regime iraniano, destruir sua indústria de mísseis e neutralizar capacidades navais consideradas desestabilizadoras. A retórica foi além do âmbito militar e tocou explicitamente na questão da mudança de regime, algo que ele dirigiu tanto aos Guardas Revolucionários quanto ao povo iraniano. Essa dimensão política amplia o escopo estratégico da operação: não se trata apenas de degradar capacidades, mas de alterar o equilíbrio de poder interno em Teerã.
Do ponto de vista militar, a "Epic Fury" e a "Operation Lion’s Roar" parecem ter sido estruturadas com três eixos centrais. O primeiro é a degradação da infraestrutura de mísseis balísticos iranianos, incluindo lançadores móveis, depósitos e centros de comando. O segundo envolve a neutralização de sistemas de defesa aérea que poderiam limitar futuras incursões. O terceiro diz respeito à cadeia de comando e controle da IRGC, cuja eliminação ou desorganização comprometeria a coordenação de retaliações e operações regionais.
A resposta iraniana confirmou a previsibilidade de escalada. Em questão de horas, mísseis balísticos foram lançados contra Israel e contra bases militares norte-americanas em países do Golfo, incluindo Catar, Kuwait, Emirados Árabes Unidos e Bahrein, onde está sediada a Quinta Frota da Marinha dos EUA. Explosões foram registradas em múltiplas capitais regionais, e sistemas de defesa Patriot foram acionados. O Catar informou ter interceptado projéteis em voo; Israel ativou seus sistemas multicamadas de defesa, incluindo Iron Dome, David’s Sling e Arrow.
Essa retaliação evidencia a doutrina iraniana de dissuasão assimétrica. Diferentemente de potências com força aérea comparável à americana ou israelense, o Irã estruturou seu poder militar em torno de mísseis balísticos de médio alcance, drones de ataque e redes de aliados regionais. Ao atingir simultaneamente Israel e bases americanas em outros países, Teerã amplia o teatro de operações e eleva o custo político para Washington, pressionando governos árabes que abrigam instalações militares ocidentais.
O fechamento imediato do espaço aéreo em Israel e em diversos países do Golfo demonstra que a crise ultrapassou o plano militar e entrou na esfera sistêmica. Companhias aéreas suspenderam rotas, mercados reagiram com volatilidade e o preço do petróleo registrou alta, refletindo temores sobre o Estreito de Ormuz, gargalo por onde transita parcela significativa da energia global. Uma eventual interrupção no tráfego marítimo teria efeitos diretos sobre inflação global e cadeias logísticas.
No plano geopolítico, a operação altera o cálculo das grandes potências. A Rússia, aliada estratégica de Teerã e beneficiária da cooperação iraniana em drones no contexto da guerra na Ucrânia, convocou discussões emergenciais no Conselho de Segurança da ONU. A retórica de Dmitry Medvedev, evocando a longevidade histórica do Império Persa frente à juventude institucional dos Estados Unidos, sinaliza que Moscou vê o episódio como parte de um embate mais amplo contra a influência americana. Ainda que a Rússia evite envolvimento militar direto, o apoio político e possivelmente tecnológico a Teerã não pode ser descartado.
A China, maior importadora de energia do Golfo e signatária de acordos estratégicos com o Irã, observa com cautela. Pequim depende da estabilidade das rotas marítimas e tende a advogar por contenção, mas também avalia o enfraquecimento relativo da presença americana caso o conflito se prolongue. O cálculo chinês envolve equilíbrio delicado entre condenar a escalada e preservar relações comerciais com todos os atores regionais.
Internamente, o Irã enfrenta cenário complexo. O aiatolá Ali Khamenei foi transferido para local seguro, indicando que a liderança reconhece risco direto à estabilidade do regime. O país já opera sob pressão econômica intensa devido a sanções prolongadas. A combinação de ataques externos e dificuldades econômicas pode tanto consolidar apoio nacionalista ao regime quanto gerar fissuras internas, dependendo da duração e da intensidade do conflito.
Israel, por sua vez, convocou cerca de 20 mil reservistas adicionais, somando-se a dezenas de milhares já mobilizados. Essa decisão sugere preparação para múltiplos cenários, incluindo abertura de frentes secundárias com o Hezbollah no Líbano ou com milícias apoiadas pelo Irã na Síria e no Iraque. A mobilização indica que Jerusalém considera a possibilidade de conflito prolongado e não apenas troca limitada de ataques.
Do ponto de vista estratégico, a grande questão é se a Epic Fury e a Operation Lion’s Roar foram concebidas como operações de janela curta, visando impor dano significativo e depois conter a escalada, ou como início de uma campanha mais extensa para degradar sistematicamente a infraestrutura militar iraniana. A retórica de mudança de regime sugere ambição ampliada, mas a história recente do Oriente Médio demonstra os riscos de intervenções abertas sem estratégia clara de saída.
Há também o risco de erro de cálculo. Sistemas de alerta precoce, operações de interceptação e ataques simultâneos em múltiplos territórios aumentam a probabilidade de incidentes que envolvam terceiros países ou resultem em vítimas civis significativas. Cada erro amplia pressões domésticas e reduz espaço diplomático.
A arquitetura de segurança do Oriente Médio entra, assim, em fase de reconfiguração. A aproximação entre Israel e países árabes nos últimos anos baseou-se, em parte, na percepção comum de ameaça iraniana. Contudo, ataques iranianos contra territórios que hospedam bases americanas colocam esses governos sob pressão interna e externa. Eles precisam equilibrar cooperação estratégica com Washington e a necessidade de evitar tornar-se campo de batalha direto.
Em termos de doutrina militar, o confronto evidencia a centralidade da guerra de precisão e da defesa multicamadas. A eficácia de sistemas antimísseis será fator decisivo na limitação de danos e na manutenção de credibilidade dissuasiva. Ao mesmo tempo, a guerra eletrônica e o ciberespaço devem desempenhar papel crescente, com tentativas de neutralizar radares, redes de comando e infraestrutura crítica.
O episódio deste 28 de fevereiro não é apenas mais um capítulo de hostilidade regional. Ele representa mudança qualitativa: Estados Unidos e Israel assumem ação direta contra o território iraniano, enquanto Teerã responde com ataques além de suas fronteiras imediatas. O conflito deixa de ser guerra por procuração e assume contornos clássicos de confronto entre Estados soberanos.
A partir daqui, três cenários principais se delineiam. O primeiro é contenção após troca intensa de golpes, com mediação internacional conduzindo a um cessar-fogo tácito. O segundo é a escalada regional, envolvendo Hezbollah e milícias no Iraque e na Síria, ampliando o teatro de operações. O terceiro, menos provável mas de maior impacto, é envolvimento indireto mais profundo de grandes potências, convertendo o conflito em arena de competição global.
Independentemente do desfecho imediato, Epic Fury e Operation Lion’s Roar já alteraram a percepção estratégica regional. A dissuasão tradicional foi testada e parcialmente rompida. O Oriente Médio volta a ocupar o centro da agenda de segurança internacional, e o equilíbrio entre poder militar, legitimidade política e estabilidade econômica será determinante para definir se o mundo caminha para uma guerra regional ampliada ou para uma nova e frágil arquitetura de contenção.
A dimensão econômica desse confronto é potencialmente sistêmica. O Golfo Pérsico concentra uma das maiores reservas e fluxos de petróleo e gás do mundo, e qualquer ameaça prolongada ao Estreito de Ormuz, por onde transita parcela significativa da produção global, tende a provocar choques imediatos nos preços de energia, aumento do custo do frete marítimo e pressão inflacionária internacional. Além do petróleo, a instabilidade impacta cadeias logísticas, seguros marítimos, mercados financeiros e ativos de risco, gerando volatilidade cambial e fuga para ativos considerados seguros, como dólar e ouro. Em um cenário de escalada prolongada, a combinação de energia mais cara, incerteza geopolítica e retração do comércio pode desacelerar economias centrais, afetando investimentos, crédito e crescimento global.
Para o Brasil, os efeitos seriam indiretos, porém relevantes. A alta do petróleo pode elevar receitas de exportação e beneficiar empresas do setor energético, mas, ao mesmo tempo, pressiona combustíveis, transporte e inflação doméstica. A valorização do dólar frente a moedas emergentes tende a impactar câmbio, custo da dívida e preços de importados. Além disso, uma desaceleração das economias dos Estados Unidos, Europa ou China, principais parceiros comerciais do Brasil, reduziria demanda por commodities agrícolas e minerais, afetando balança comercial e crescimento. Em síntese, ainda que distante geograficamente do teatro de operações, o Brasil não está isolado dos efeitos de uma crise que atinge o coração energético e estratégico do sistema internacional.
Em resumo, a "Epic Fury" e a "Operation Lion’s Roar" abriram uma nova e perigosa fase no Oriente Médio, transformando uma tensão antiga em confronto direto, com potencial de afetar não só a região, mas toda a economia mundial. O cenário ainda é incerto, com risco de novos ataques, ampliação do conflito e impactos nos mercados globais. Seguimos acompanhando atentamente cada movimento, analisando os desdobramentos militares, políticos e econômicos para manter você informado com clareza e responsabilidade.
Por Angelo Nicolaci
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