sexta-feira, 27 de fevereiro de 2026

Índia no centro do tabuleiro: Embraer e Mahindra avançam com plano de MRO para o C-390 Millennium

O anúncio feito no último dia 19 de fevereiro pela Embraer e pelo Mahindra Group vai muito além de um comunicado corporativo. Caso o C-390 Millennium seja selecionado no programa de Aeronaves de Transporte Médio (MTA) da Força Aérea Indiana, está prevista a instalação de uma estrutura completa de Manutenção, Reparo e Revisão (MRO) em território indiano.

O movimento não é apenas industrial. É estratégico.

A parceria formalizada em outubro de 2025 já previa produção local da aeronave. Agora, ao incorporar um centro de MRO de última geração, a proposta ganha densidade política e econômica. Sustentação logística não é detalhe técnico, é elemento central de soberania operacional. Quem controla a manutenção controla a disponibilidade da frota, especialmente em cenários de crise ou restrição internacional.

O C-390 Millennium se consolidou como um dos vetores mais modernos da sua categoria, com capacidade de até 26 toneladas, elevada velocidade de cruzeiro, operação em pistas não preparadas e possibilidade de reabastecimento em voo. A taxa de conclusão de missão superior a 99% registrada pela frota em operação reforça sua maturidade e confiabilidade.

Mas, na prática, a disputa pelo MTA não será decidida apenas por desempenho. A Índia busca ampliar sua autonomia tecnológica dentro das diretrizes “Make in India” e “Atmanirbhar Bharat”, reduzindo dependências externas e fortalecendo sua base industrial de defesa. Um MRO local significaria geração de empregos qualificados, absorção de conhecimento técnico e integração à cadeia global de suprimentos.

Ao mesmo tempo, o projeto abre uma janela comercial relevante para a Embraer. A eventual instalação de um hub indiano pode posicionar o país como centro regional de suporte para operadores asiáticos do C-390, ampliando a presença da aeronave no Indo-Pacífico, região que concentra parte significativa das dinâmicas estratégicas do século XXI.

Do ponto de vista geopolítico, a proposta também dialoga com um movimento mais amplo de diversificação de fornecedores por parte de Nova Delhi. A Índia equilibra suas parcerias entre Ocidente, Rússia e outros polos industriais, buscando preservar margem de manobra estratégica. Para o Brasil, consolidar uma parceria industrial de longo prazo com a Índia significa ampliar sua projeção internacional e reforçar sua posição como ator relevante na indústria global de defesa.

No fim, o que está em jogo não é apenas a escolha de um avião de transporte médio. Trata-se de uma decisão que envolve cadeia produtiva, inserção internacional, autonomia estratégica e influência comercial. Se confirmada, a parceria poderá representar um marco na cooperação industrial entre Brasil e Índia, com efeitos que ultrapassam o contrato e se estendem ao equilíbrio estratégico do Indo-Pacífico.


por Angelo Nicolaci


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