domingo, 23 de agosto de 2026

O Novo Míssil Americano AIM-424 Malice

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No dia 22 de agosto de 2026, durante o Tailhook Symposium em Reno, Nevada, a Marinha dos Estados Unidos revelou publicamente o AIM-424 Long Range Air-to-Air Missile, conhecido oficialmente como Malice. Trata-se de um míssil ar-ar de longo alcance de próxima geração desenvolvido pela Raytheon, uma divisão da RTX, projetado para fortalecer a defesa de frotas e manter a superioridade no domínio aéreo contra ameaças avançadas. Esta divulgação, acompanhada pela publicação imediata de um Fact File oficial no site da Marinha, marca um avanço significativo no arsenal de aviação naval americana, especialmente no contexto de competição estratégica no Pacífico. A imagem oficial liberada pela Marinha mostra o míssil montado no compartimento interno de armas de um F-35C Lightning II, ao lado de um AIM-120 AMRAAM na porta do compartimento, ilustrando sua capacidade de integração stealth.

O anúncio chegou em um momento de crescente ênfase em capacidades de engajamento de longo alcance, impulsionado por pressões geopolíticas e pelo desenvolvimento paralelo de sistemas semelhantes. De acordo com a declaração oficial da Marinha, o LRAAM, também chamado Malice, “diretamente apoia a contribuição do Departamento para a dissuasão integrada ao aumentar o alcance, a letalidade e a eficácia de combate para as forças de aviação da Marinha e do Corpo de Fuzileiros Navais que defendem nossas frotas, nossos interesses e nossa pátria”. Detalhes específicos sobre capacidades e cronogramas de implantação permanecem classificados por razões de segurança operacional, conforme reiterado em múltiplas fontes contemporâneas.

Contexto Histórico e Origens do Programa

O conceito por trás do AIM-424 Malice remonta a esforços de mais de uma década. Em 2017, um oficial de defesa sênior revelou o conceito Long Range Engagement Weapon (LREW) em uma conferência da indústria de defesa. Uma apresentação da época mostrava um míssil ar-ar de dois estágios lançado a partir do compartimento interno de armas de uma aeronave stealth. Documentos orçamentários do pedido de gastos fiscais de 2017 indicavam que o conceito LREW havia completado uma demonstração bem-sucedida de dois anos e que a tecnologia estava sendo transferida para os serviços. Relatórios recentes associam diretamente esse conceito precursor ao AIM-424, sugerindo continuidade tecnológica na busca por engajamentos além do alcance visual extremo.

Essa evolução ocorre em paralelo a outros programas. O AIM-174B Gunslinger, uma variante ar-ar do SM-6 revelada operacionalmente em 2024 e baseada no míssil de defesa de superfície, serve como uma solução intermediária. O AIM-260 Joint Advanced Tactical Missile (JATM), desenvolvido pela Lockheed Martin, também avança para o campo, com testes de voo documentados em 2026. O Malice se posiciona como um salto geracional, superando as capacidades do AIM-120 AMRAAM atual e, segundo avaliações oficiais e de analistas, possivelmente as do próprio AIM-174B em alcance e velocidade.

A pressão estratégica é clara. A China implantou mísseis balísticos e de cruzeiro anti-navio lançados do ar com alcances superiores a 1.000 milhas náuticas, exigindo uma resposta que coloque as aeronaves lançadoras em risco. O Malice responde a essa necessidade ao estender o alcance defensivo das asas aéreas de porta-aviões, permitindo engajamentos de alvos de alto valor, como aeronaves de alerta precoce (AEW&C), guerra eletrônica e plataformas de inteligência, vigilância e reconhecimento, antes que elas possam ameaçar a frota.

Especificações Técnicas Oficiais e Características Observáveis

O Fact File oficial da Marinha dos Estados Unidos, atualizado em 22 de agosto de 2026, fornece as seguintes especificações públicas para o AIM-424 LRAAM – Malice: função primária de míssil ar-ar; contratante Raytheon; propulsão por motor de foguete de propelente sólido; comprimento de 13,5 pés (4,11 metros); diâmetro de 13,5 polegadas (0,34 metros); envergadura de 26,2 polegadas (0,67 metros); peso de 1.500 libras (680,4 kg); alcance em excesso de 250 milhas náuticas (463 km); e ogiva de fragmentação por explosão. Essas dimensões o colocam em uma classe física distinta do AIM-120 AMRAAM, sendo significativamente maior, mas ainda compatível com o compartimento interno do F-35C.

Relatórios independentes de Aviation Week descrevem o míssil como de dois estágios, com imagens sugerindo tamanho similar ao AIM-174B. Análises de The Aviationist apontam para a possível presença de uma entrada de ar compatível com um ramjet de combustível sólido de modo dual, o que explicaria a capacidade de manter altas velocidades em longas distâncias. No entanto, o documento oficial da Marinha menciona apenas o motor de foguete de propelente sólido, sem detalhar estágios ou modos de propulsão avançados. Um oficial dos EUA familiarizado com o programa confirmou a Naval News que o alcance e a velocidade do Malice excedem os do AIM-174B atualmente em campo.

Em termos de manobrabilidade, o míssil incorpora aletas e estrias aerodinâmicas especializadas que permitem retenção significativa de agilidade apesar do tamanho maior em comparação com o AIM-120 e o AIM-260 em desenvolvimento. Isso habilita potencialmente engajamentos contra alvos do tamanho de caças, além de plataformas de alto valor. A compatibilidade abrange plataformas de quarta, quinta e sexta geração: F/A-18E/F Super Hornet, F-35C Lightning II e o futuro F/A-XX. Há menções a integração potencial com sistemas da Força Aérea, incluindo o F-47 de sexta geração.


Testes documentados incluem um evento de captive-carry em abril de 2026, com quatro AIM-424 (na versão CATM de treinamento, com linhas azuis) carregados em um F/A-18E Super Hornet nas estações 3, 4, 8 e 9, ao lado de AIM-120. Um teste de ajuste no F-35C ocorreu em agosto de 2026, conforme imagens oficiais. O desenvolvimento ocorreu de forma discreta pela divisão Advanced Technology da Raytheon, com infraestrutura cibernética compartilhada entre Marinha e Força Aérea iniciada em janeiro recente.

Comparações com Sistemas Existentes e Concorrentes

Em relação ao AIM-120 AMRAAM, o Malice representa um salto geracional em alcance, com mais do dobro do alcance público típico do AIM-120D. O AIM-174B Gunslinger, com comprimento de cerca de 15,5 a 16,5 pés e envergadura maior devido a aletas dorsais (cerca de 42,7 polegadas), é mais longo e restrito ao lançamento externo no Super Hornet. O Malice, sendo mais curto e com envergadura menor, cabe internamente no F-35C, preservando a assinatura stealth. Estimativas de alcance para o AIM-174B variam de 150 a mais de 250 milhas náuticas, mas fontes oficiais e oficiais confirmam que o Malice o supera.

Comparado a ameaças potenciais, o Malice excede as estimativas de mísseis chineses conhecidos, como o PL-15 (envolvido em escaramuças de 2025), PL-16 e PL-17, bem como o R-37M russo usado na Ucrânia. O presidente da Raytheon, Phil Jasper, declarou: “Com alcance aumentado, letalidade e eficácia de combate para as forças navais, o AIM-424 entrega um salto geracional na capacidade de combate de domínio aéreo que pode superar qualquer ameaça”. Essa afirmação alinha-se à narrativa oficial de “first look, first shot, first kill”.

O programa também se relaciona a esforços mais amplos, como o Air Force Long Range Weapon (AFLRW), que busca alcances de até 1.000 milhas náuticas. O Malice, com seu perfil de 250+ nm, preenche uma lacuna intermediária crítica para a aviação de porta-aviões.

Implicações Estratégicas para a Defesa de Frotas e o Teatro do Pacífico

A introdução do AIM-424 Malice reforça a dissuasão integrada ao permitir que aeronaves de asa fixa operem a distâncias que neutralizam a vantagem de lançamento de mísseis anti-navio adversários. Em um cenário de conflito de alta intensidade no Pacífico, a capacidade de engajar bombardeiros e plataformas de suporte a mais de 463 km reduz a vulnerabilidade das Carrier Strike Groups. A integração interna no F-35C é particularmente relevante, pois mantém a baixa observabilidade enquanto carrega um armamento de extremo alcance ao lado de mísseis médios como o AIM-120.

Para a Marinha e o Corpo de Fuzileiros Navais, isso se traduz em maior flexibilidade tática e sobrevivência. Aviadores podem manter-se fora do alcance de ameaças inimigas enquanto projetam poder aéreo ofensivo ou defensivo. A compatibilidade multi-geracional garante relevância tanto para a frota atual quanto para o F/A-XX futuro. Relatórios destacam que o desenvolvimento cibernético compartilhado facilita a interoperabilidade conjunta, essencial em operações multi-domínio.

No entanto, o valor operacional depende não apenas do alcance nominal, mas de redes de targeting, desempenho de fase terminal e integração com sensores de longo alcance. Fontes como Defence Matters observam que comparações de alcance são condicionais a altitude de lançamento, velocidade e comportamento do alvo. Cronogramas de implantação operacional permanecem classificados, embora testes de voo já estejam em andamento.

Reações da Indústria e Perspectivas de Desenvolvimento

A Raytheon enfatizou o papel de sua equipe Advanced Technology. Phil Jasper destacou a necessidade de fortalecer a defesa de frotas contra ameaças emergentes de longo alcance. A Marinha sublinhou que o LRAAM sustenta a vantagem de “primeiro olhar, primeiro tiro, primeira morte” ao proporcionar maior alcance, sobrevivência e flexibilidade. Admiral Keith Hash, do Naval Air Warfare Center Weapons Division, referiu-se a capacidades adicionais “atrás” do AIM-174B, sugerindo um pipeline robusto.

O público de entusiastas e especialistas observará de perto a evolução dos testes e eventuais liberações de mais dados. Imagens de quatro mísseis no Super Hornet e a configuração stealth no F-35C já geraram discussões detalhadas em comunidades especializadas. A ausência de detalhes sobre velocidade máxima, orientações de busca ou ogiva específica reforça a postura de segurança operacional.

Análise Crítica e Considerações Finais

O AIM-424 Malice representa uma resposta calibrada às realidades do combate aéreo contemporâneo, onde o alcance e a capacidade de engajar alvos de alto valor a distâncias extremas definem a superioridade. Sua revelação em 22 de agosto de 2026, respaldada por fontes oficiais e cobertura independente de Aviation Week, Naval News, The Aviationist e o próprio Fact File da Marinha, confirma a existência de um programa maduro em fase de testes de voo. As especificações públicas — comprimento de 4,11 m, diâmetro de 0,34 m, peso de 680 kg e alcance superior a 463 km — posicionam-no como um dos mísseis ar-ar de maior alcance divulgados publicamente.

As implicações se estendem além da Marinha americana. Aliados e adversários ajustarão suas próprias estratégias de desenvolvimento de mísseis e sensores. Para a aviação naval, o Malice preenche uma lacuna crítica entre o AIM-120, o AIM-174B e sistemas futuros de alcance ainda maior. Embora projeções de entrada em serviço operacional não possam ser feitas sem dados oficiais, o ritmo de testes e a integração documentada indicam progresso substancial.

Em síntese, o novo LRAAM americano AIM-424 Malice eleva o padrão de engajamento ar-ar de longo alcance, alinhando capacidades técnicas a imperativos estratégicos de dissuasão. Sua análise exige atenção contínua a liberação de informações e evoluções no teatro Indo-Pacífico.

O Malice não é apenas um míssil; é um elemento central na arquitetura de superioridade aérea da próxima década.

A continuidade do programa, a integração multiplataforma e o potencial de evolução tecnológica garantirão que analistas e operadores monitorem de perto cada desenvolvimento subsequente.

Em um ambiente de ameaças em rápida evolução, o AIM-424 Malice exemplifica a prioridade americana em manter a vantagem qualitativa no domínio aéreo.

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Ameaças do Irã produzem efeito na Bulgária e levam EUA a retirar KC-135 do país

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As ameaças do Irã contra a Bulgária já começam a produzir efeitos concretos no cenário de segurança europeu. Dois aviões-tanque KC-135 da Força Aérea dos Estados Unidos deixaram nesta sexta-feira (21), a base aérea de Bezmer, poucas semanas depois de terem sido deslocados para o país e em meio à crescente preocupação com a possibilidade de instalações militares americanas no território búlgaro entrarem no cálculo de Teerã.

A retirada ocorre após uma sequência de advertências iranianas contra países europeus que oferecem apoio ou infraestrutura às operações militares americanas contra o Irã. No caso da Bulgária, Teerã havia reagido diretamente à autorização para o destacamento dos KC-135, classificando a utilização do território búlgaro como possível cumplicidade com a ofensiva americana.

O governo de Sofia rejeitou a acusação e afirmou que as aeronaves realizavam apenas missões de treinamento sobre países aliados. Ainda assim, a presença dos aviões transformou a base de Bezmer em um ponto de atenção dentro de um conflito que embora concentrado militarmente no Oriente Médio, começa a produzir efeitos sobre a arquitetura de segurança europeia.

O aspecto mais relevante surgiu posteriormente. Informações divulgadas pelo Financial Times e repercutidas por autoridades búlgaras indicaram que o Irã teria avaliado a possibilidade de atingir ativos militares americanos no sudeste europeu, incluindo a Bulgária. A informação levou ao reforço das medidas de proteção em Bezmer, enquanto o governo búlgaro afirmou não dispor de informações sobre uma ameaça direta contra sua segurança nacional.

É nesse ponto que a retirada dos KC-135 ganha significado estratégico. Não se trata apenas de uma mudança rotineira no posicionamento de aeronaves americanas. Ela ocorre depois do território búlgaro ter sido explicitamente colocado no debate sobre possíveis alvos ligados à presença militar dos Estados Unidos.

O alerta que se confirmou

Quando o GBN Defense analisou anteriormente o destacamento dos KC-135 na Bulgária, o ponto central era justamente esse risco. A avaliação não significava que um ataque iraniano contra o país fosse inevitável, mas que a presença de meios americanos em uma instalação búlgara poderia fazer de Bezmer um elemento relevante no planejamento de retaliações por Teerã.

A evolução dos acontecimentos mostrou que essa preocupação não era meramente teórica.

A lógica é simples. O KC-135 não é uma aeronave de ataque, mas sua função é essencial para ampliar o alcance e a permanência das aeronaves de combate. Ao integrar uma estrutura de apoio às operações americanas, a base passa a possuir um valor militar que ultrapassa sua localização geográfica.

Para o Irã, portanto, a questão não necessariamente está na aeronave estacionada em Bezmer, mas na infraestrutura que permite sustentar o poder aéreo americano no conflito de longa distância com Irã.

Quando a ameaça começa a alterar decisões

O episódio revela uma dimensão particularmente importante da guerra atual: a ameaça pode produzir efeitos militares mesmo sem que um ataque seja executado.

A possibilidade de que uma instalação seja considerada um alvo já pode obrigar governos a rever posicionamentos, reforçar sua proteção, modificar rotas, redistribuir meios ou retirar temporariamente determinados ativos. Foi exatamente esse ambiente que se formou na Bulgária.

Os KC-135 deixaram Bezmer, enquanto Sofia precisou lidar com protestos de moradores preocupados com a possibilidade da base ser atingida por mísseis ou drones iranianos. O governo búlgaro afirma que não havia ameaça direta à segurança nacional, mas o próprio debate demonstra como a guerra passou a produzir consequências dentro do território de um país que não participa diretamente dos combates.

A questão ganha ainda maior peso porque a Bulgária é integrante da OTAN. Quanto mais a infraestrutura dos países aliados for utilizada para sustentar operações americanas, maior será a possibilidade de que esses países sejam incorporados ao cálculo estratégico dos adversários de Washington.

Isso não significa que a Bulgária tenha se tornado parte da guerra ou que um ataque iraniano seja iminente. Significa que o conflito já está alterando a percepção de risco dentro da Europa.

E esse talvez seja o principal resultado das ameaças iranianas contra Sofia: Teerã demonstrou que pode ampliar o custo estratégico da guerra sem necessariamente disparar um míssil contra o território europeu. Basta sinalizar que determinadas instalações podem ser consideradas alvos para obrigar governos e forças militares a recalcularem suas decisões. No caso de Bezmer, esse cálculo já produziu um resultado concreto: os KC-135 americanos deixaram a Bulgária.

Para o GBN Defense, o episódio reforça uma constatação que vem acompanhando a evolução do conflito: quando uma guerra começa a alterar a postura militar e as decisões de segurança de países que estão geograficamente fora do teatro principal de operações, sua dimensão estratégica já ultrapassou as fronteiras do campo de batalha original.


Por Angelo Nicolaci


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Com Reuters e Financial Times

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Quando o narcoterrorismo passa a confrontar o Estado: o Rio diante de um novo ambiente de guerra assimétrica

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O episódio registrado na última sexta-feira (21), no Complexo de Israel, na Zona Norte do Rio de Janeiro, deveria ser observado para além das estatísticas de uma operação policial. Durante a ação, policiais encontraram veículos preparados com explosivos e barricadas equipadas com artefatos que poderiam ser acionados remotamente. A operação mobilizou cerca de 200 agentes, contou com apoio aéreo e veículos blindados e provocou impactos sobre importantes vias da cidade. Segundo a Polícia Militar, foi a primeira vez que carros preparados como bombas foram identificados nesse contexto no Rio.

O episódio chama atenção porque não representa apenas o aumento do poder de fogo do crime organizado. Ele revela uma mudança na forma como determinadas organizações criminosas estão se preparando para enfrentar a presença do Estado. Ao longo dos últimos anos, o narcotráfico passou a incorporar drones, sistemas de vigilância, armamento pesado, barricadas e estruturas de controle territorial. A utilização de veículos preparados com explosivos acrescenta uma nova capacidade a esse repertório e mostra que o criminoso passou a pensar não apenas em como fugir da ação policial, mas também em como dificultar, retardar e elevar o custo da entrada das forças de segurança nas areas dominadas.

Essa transformação precisa ser compreendida dentro de uma realidade territorial que há muito deixou de ser apenas uma disputa pelo mercado de drogas. Em diferentes áreas do Rio de Janeiro, organizações criminosas estabeleceram mecanismos próprios de controle, impõem regras à população, controlam acessos, realizam patrulhamento armado e exploram atividades econômicas. Em determinados territórios, o Estado não está simplesmente ausente. Ele disputa espaço com uma estrutura paralela que procura exercer autoridade sobre a população e sobre o território.

É nesse ponto que o emprego de tecnologia ganha importância. Drones, por exemplo, permitem que grupos criminosos ampliem sua capacidade de observação e acompanhem a movimentação das forças de segurança antes mesmo de um confronto começar. Equipamentos relativamente baratos e disponíveis no mercado civil podem ser adaptados para vigilância, reconhecimento e em alguns casos para emprego ofensivo. Quando combinados ao conhecimento detalhado do terreno e a uma rede de informantes, esses recursos proporcionam às organizações criminosas uma capacidade de consciência situacional que dificulta significativamente as operações do Estado.

As barricadas e os veículos preparados com explosivos representam outra etapa dessa evolução. No ambiente urbano densamente ocupado, qualquer obstáculo pode alterar o ritmo de uma operação. Quando esse obstáculo pode conter explosivos ou ser acionado remotamente, a progressão das forças públicas passa a exigir procedimentos de segurança, equipes especializadas e maior cautela. O terreno deixa de ser apenas um espaço onde ocorre a operação e passa a ser utilizado deliberadamente como instrumento de defesa por quem controla aquela área.

É nesse contexto que podemos falar em ambiente de confronto assimétrico, uma espécie de guerra irregular travada dentro do espaço urbano. O Rio de Janeiro não vive uma guerra convencional, mas enfrenta organizações não estatais que utilizam métodos próprios da guerra assimétrica para compensar sua inferioridade diante do Estado. Essas organizações exploram o terreno, a clandestinidade, a surpresa, a tecnologia comercial adaptada, o poder de fogo, a inteligência e o controle da população para dificultar a entrada das forças públicas, elevar o custo das operações e preservar o domínio sobre seus territórios. Nesse cenário, a fronteira entre uma operação policial de grande escala e uma operação de combate urbano torna-se cada vez mais estreita.

Essa realidade também ajuda a compreender a decisão dos Estados Unidos de classificar o Comando Vermelho e o Primeiro Comando da Capital como organizações terroristas. A medida colocou as duas maiores facções criminosas brasileiras sob o regime de sanções previsto pela legislação norte-americana para Foreign Terrorist Organizations. A classificação considera justamente a capacidade dessas organizações de exercer violência, controlar territórios e projetar suas atividades para além das fronteiras brasileiras.

É importante, contudo, delimitar corretamente o alcance do episódio. Os veículos preparados com explosivos foram encontrados no Complexo de Israel, área sob influência do Terceiro Comando Puro, e o caso não deve ser atribuído diretamente ao Comando Vermelho ou ao Primeiro Comando da Capital. Isso, porém, não reduz sua gravidade nem sua relevância para o debate sobre narcoterrorismo. O emprego deliberado de veículos-bomba e dispositivos explosivos improvisados (IEDs) para dificultar o avanço das forças de segurança demonstra que organizações criminosas brasileiras já são capazes de empregar métodos de violência e coerção associados a grupos terroristas e a conflitos assimétricos. Mais do que uma evolução do poder de fogo, trata-se da incorporação de uma capacidade destinada a produzir medo, restringir a mobilidade do Estado e elevar deliberadamente o risco de suas operações.

O problema mais profundo está na capacidade de permanência do Estado. Uma operação pode resultar em prisões, apreensões de armas e destruição de estruturas criminosas. Mas, se depois da saída das forças públicas a organização retorna, recompõe suas posições e restabelece suas regras, o território não foi efetivamente recuperado. Houve uma incursão estatal, mas não necessariamente a retomada permanente da autoridade pública.

Essa diferença deveria estar no centro da discussão nacional sobre segurança. O desafio não é apenas aumentar o número de operações, mas construir capacidade para que o Estado permaneça onde antes esteve ausente ou perdeu espaço. Isso exige inteligência, investigação financeira, controle de fronteiras, combate ao fluxo de armas, fortalecimento das polícias, sistema prisional eficiente e principalmente, coordenação permanente entre as diferentes estruturas do Estado.

O que acontece no Rio também precisa ser observado sob uma perspectiva mais ampla. Quando organizações criminosas conseguem acumular recursos financeiros, controlar territórios, impor regras à população, manter redes de vigilância, empregar drones, utilizar armamento pesado e preparar obstáculos explosivos para dificultar a entrada das forças públicas, o problema deixa de ser apenas o tráfico de drogas. Estamos diante de organizações que desenvolveram capacidade para desafiar diretamente a autoridade estatal.

O episódio do Complexo de Israel, portanto, não significa que o Rio de Janeiro tenha se transformado em zona de guerra. Mas seria igualmente equivocado continuar tratando acontecimentos dessa natureza como manifestações ordinárias da criminalidade. O Brasil está diante de um ambiente de segurança que mudou, e a resposta do Estado precisa acompanhar essa transformação. A questão central já não é apenas quem controla o mercado de drogas, mas até onde o Estado consegue exercer de forma permanente e efetiva sua autoridade sobre o próprio território.

É justamente aí que o debate sobre narcoterrorismo ganha relevância. Mais importante do que a classificação jurídica é compreender o fenômeno que está diante de nós: organizações criminosas que utilizam a violência não apenas para proteger seus negócios, mas também para controlar território, intimidar populações e criar condições para impedir ou limitar a presença do Estado. O emprego de carros-bomba acrescenta uma dimensão particularmente grave a esse processo, porque demonstra que a capacidade de confronto dessas organizações continua evoluindo.

Para o Estado brasileiro, o alerta não poderia ser mais claro. A questão deixou de ser apenas como realizar uma operação policial em uma área dominada pelo crime. O desafio é recuperar e manter a autoridade estatal, impedir que essas organizações continuem acumulando capacidades de natureza militar e terrorista e reconstruir uma presença pública capaz de permanecer nesses territórios. Quando grupos criminosos conseguem determinar quem entra, quem circula, quais regras são obedecidas e como as forças do Estado serão recebidas, a soberania formal sobre o território continua existindo, mas sua autoridade efetiva começa a ser contestada. E é justamente essa fronteira que o Brasil não pode permitir que continue avançando.


Por Angelo Nicolaci


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Petrobras e Marinha ampliam cooperação estratégica na Margem Equatorial

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A Petrobras e a Marinha do Brasil deram um novo passo na construção de uma agenda conjunta para a Margem Equatorial, região que vem ganhando importância crescente para o futuro energético, científico e estratégico do país. Na última quinta-feira, 20 de agosto, a presidente da Petrobras, Magda Chambriard, e o Comandante da Marinha, Almirante de Esquadra Marcos Sampaio Olsen, assinaram um Protocolo de Intenções destinado a ampliar a cooperação entre as duas instituições em atividades relacionadas ao ambiente marítimo.

O acordo contempla áreas como logística offshore, monitoramento e proteção marítima, busca e salvamento, resposta a emergências, pesquisa científica, desenvolvimento tecnológico, inovação, capacitação e apoio às atividades relacionadas à exploração e produção de petróleo e gás. Também estão previstas ações envolvendo energias alternativas e o descomissionamento de estruturas offshore. Na prática, a iniciativa procura aproximar duas instituições que já possuem uma longa história de cooperação e que agora passam a estruturar essa relação diante de uma nova realidade estratégica no litoral norte brasileiro.

A dimensão dessa mudança pode ser compreendida pela própria evolução do conhecimento sobre a plataforma continental brasileira. Em 2025, trabalhos realizados no âmbito do Plano de Levantamento da Plataforma Continental Brasileira (LEPLAC), com participação da Marinha e da Petrobras, contribuíram para o reconhecimento de aproximadamente 360 mil quilômetros quadrados adicionais de direitos de soberania brasileiros na Margem Equatorial. A ampliação não significa simplesmente a incorporação de uma nova área ao território nacional, mas o reconhecimento de direitos de exploração dos recursos existentes no leito e no subsolo marinho, aumentando a dimensão econômica e estratégica da Amazônia Azul.

É justamente nesse ambiente que a cooperação ganha relevância. A expansão das atividades de exploração offshore significa também o crescimento de uma infraestrutura crítica instalada em áreas afastadas do continente, envolvendo plataformas, embarcações, bases de apoio, sistemas de comunicação e uma extensa cadeia logística. Para a Petrobras, assegurar a continuidade dessas operações depende de uma estrutura capaz de responder a emergências e operar com segurança em um ambiente complexo. Para a Marinha, acompanhar essa expansão significa ampliar o conhecimento e a consciência situacional sobre uma região que passa a concentrar interesses econômicos cada vez maiores.

A parceria também aproveita uma complementaridade natural. A Petrobras possui décadas de experiência na operação em águas profundas, infraestrutura distribuída pelo litoral brasileiro, conhecimento oceanográfico e geológico e uma presença permanente no ambiente offshore. A Marinha, por sua vez, possui a atribuição constitucional de preparar e empregar o Poder Naval, além de exercer competências relacionadas à segurança da navegação, salvaguarda da vida humana no mar e monitoramento das águas jurisdicionais brasileiras. A aproximação entre essas capacidades pode aumentar a eficiência do Estado sem substituir as responsabilidades específicas de cada instituição.

Essa aproximação também abre espaço para discutir como a própria infraestrutura offshore poderá contribuir no futuro para ampliar a consciência situacional sobre a Margem Equatorial. Plataformas e outras instalações posicionadas em áreas afastadas do litoral poderiam, mediante acordos específicos, receber sensores de interesse da Marinha e funcionar como pontos adicionais de coleta de dados para a arquitetura do Sistema de Gerenciamento da Amazônia Azul (SisGAAz). Radares de vigilância de superfície, sistemas eletro-ópticos, receptores AIS e outros sensores poderiam ampliar a capacidade de acompanhar o tráfego marítimo e identificar movimentações de interesse em uma região de grandes dimensões. Não se trata de afirmar que o protocolo determine a instalação desses equipamentos, algo que não foi anunciado pelas instituições, mas de reconhecer que a expansão da infraestrutura offshore cria uma oportunidade concreta para ampliar a rede de monitoramento da Amazônia Azul.

Há ainda uma dimensão tecnológica que merece atenção. Pesquisa científica, desenvolvimento e inovação fazem parte do protocolo, abrindo espaço para projetos relacionados a sensores, monitoramento marítimo, comunicações, processamento de dados, oceanografia e outras tecnologias de uso dual. Esse ambiente pode beneficiar não apenas Petrobras e Marinha, mas também universidades, centros de pesquisa e empresas brasileiras capazes de transformar demandas operacionais em soluções tecnológicas aplicáveis tanto ao setor energético quanto à Defesa.

É importante, porém, compreender corretamente os limites dessa parceria. O protocolo não transfere à Petrobras atribuições que pertencem ao Estado, nem transforma a empresa em uma extensão da Marinha. A proteção dos interesses estratégicos brasileiros continua sendo responsabilidade do Estado, enquanto a Petrobras permanece concentrada em sua atividade econômica. O valor da cooperação está justamente na complementaridade: compartilhar informações, conhecimento, infraestrutura e capacidades que permitam às duas instituições atuar de forma mais coordenada diante dos desafios de uma região marítima que ganha importância estratégica para o Brasil.

A questão se torna ainda mais relevante diante das características da Margem Equatorial. A distância em relação aos principais centros de apoio, as grandes profundidades, as condições ambientais e a complexidade das operações exigem capacidade de planejamento e resposta. Em situações de emergência, a existência de canais previamente estabelecidos entre a indústria e as estruturas estatais pode representar uma diferença significativa na velocidade de mobilização de recursos, na coordenação das ações e na preservação da vida humana e do meio ambiente.

A experiência acumulada entre Petrobras e Marinha mostra que essa relação pode produzir resultados que ultrapassam a exploração de petróleo. O próprio avanço brasileiro no conhecimento da plataforma continental demonstra como a integração entre capacidade científica, tecnológica e operacional pode contribuir para consolidar interesses nacionais no mar. Agora, com a Margem Equatorial assumindo maior peso na estratégia energética brasileira, essa cooperação passa a ter uma dimensão ainda mais ampla.

A Margem Equatorial, portanto, começa a assumir uma dimensão que vai muito além da perspectiva de novas reservas de petróleo e gás. Quanto maior for a atividade econômica nessa faixa do Atlântico, maior será também a necessidade de conhecer, monitorar e proteger esse espaço marítimo. A aproximação entre Petrobras e Marinha pode contribuir justamente para isso, combinando a presença e a experiência operacional da empresa com as capacidades de vigilância, pesquisa e segurança do Estado. Para o Brasil, trata-se de transformar a riqueza potencial do subsolo marinho em capacidade econômica sem perder de vista que, na Amazônia Azul, exploração de recursos e soberania caminham lado a lado.


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Aviação Naval celebra 110 anos de história, pioneirismo e transformação tecnológica

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A Aviação Naval da Marinha do Brasil celebra neste domingo, 23 de agosto, 110 anos de sua criação, marco de uma trajetória que acompanhou praticamente toda a evolução da aviação militar no país. As comemorações foram antecipadas com a cerimônia realizada na última sexta-feira, 21 de agosto, na Base Aerea Naval de São Pedro da Aldeia (BAeNSPA), carinhosamente chamada de "Macega", e contou com a presença do Comandante da Marinha, autoridades civis e militares e integrantes da comunidade aeronáutica naval.

A história da Aviação Naval remonta aos primeiros anos da própria aviação. Apenas uma década após o voo histórico do brasileiro Alberto Santos Dumont com seu 14-Bis em 1906, a Marinha do Brasil estabelecia em 23 de agosto de 1916, sua organização aeronáutica, iniciando uma trajetória que faria do país um dos pioneiros no emprego militar do poder aéreo no ambiente naval. As primeiras aeronaves Curtiss marcaram o início de uma capacidade que ao longo das décadas seguintes seria profundamente transformada.

Desde seus primeiros anos, a Aviação Naval atravessou períodos de expansão, interrupção e reconstrução. Após participar do esforço aliado durante a Primeira Guerra Mundial, com aviadores navais brasileiros integrando operações no exterior, a Marinha desenvolveu suas atividades aeronáuticas ao longo das décadas seguintes até 1941, quando a criação da Força Aérea Brasileira concentrou sob uma única instituição os meios aéreos militares do país. A medida levou à extinção da Aviação Naval como organização independente e interrompeu, por décadas, o desenvolvimento de uma aviação orgânica voltada diretamente às necessidades do Poder Naval. 

A retomada começou nos anos 1950, inicialmente com a reconstrução da capacidade de operar aeronaves de asas rotativas. A incorporação do Navio-Aeródromo Ligeiro Minas Gerais (A 11), em 1960, devolveu à Esquadra uma plataforma aeronaval e permitiu o desenvolvimento progressivo da doutrina de operações embarcadas. No entanto, a disputa institucional em torno da operação de aeronaves de asa fixa resultou em restrições que mantiveram essa atividade fora do alcance da Marinha durante décadas, concentrando a aviação de asa fixa militar na Força Aérea Brasileira.

A mudança decisiva ocorreu na década de 1990. Em 1997, a Marinha adquiriu do Kuwait 23 aeronaves A-4KU e TA-4KU Skyhawk, que receberam as designações AF-1 e AF-1A. A incorporação dos caças marcou o retorno da Marinha à operação de aeronaves de asa fixa de combate após mais de meio século de interrupção. Inicialmente, os Skyhawk foram empregados a partir do Minas Gerais, antes de a Marinha incorporar, em 2000, o Navio-Aeródromo São Paulo (A 12), que passaria a se tornar a principal plataforma para a operação da aviação de caça embarcada.

O retorno dos AF-1 permitiu reconstruir uma competência que havia sido interrompida desde a criação da FAB. Mais do que adquirir aeronaves, a Marinha precisou recuperar conhecimentos, formar pilotos, desenvolver procedimentos e reconstruir a doutrina necessária para operar caças a partir de um navio-aeródromo. Posteriormente, sete aeronaves passaram pelo programa de modernização conduzido pela Embraer, recebendo as designações AF-1B e AF-1C e novos sistemas de navegação, comunicações e combate.

Embora a desativação do NAe São Paulo tenha encerrado, ao menos temporariamente, a capacidade brasileira de operar caças embarcados a partir de um navio-aeródromo, a manutenção dos AF-1 modernizados preserva parte importante do conhecimento acumulado. É uma competência cuja recuperação exigiu décadas de investimento e que continua tendo relevância para qualquer futuro projeto brasileiro que envolva novamente a operação de aeronaves de asa fixa a partir de uma plataforma naval.

Ao longo de seus 110 anos, a Aviação Naval expandiu sua atuação muito além do apoio direto à Esquadra. Atualmente, seus meios operam desde a Amazônia Azul até a Amazônia e o Pantanal, por meio dos Esquadrões Distritais e das unidades sediadas no Complexo Aeronaval de São Pedro da Aldeia. Essa presença permite o emprego de aeronaves em missões de esclarecimento, transporte, busca e salvamento, apoio logístico, operações ribeirinhas e apoio às populações isoladas, além das tradicionais missões associadas ao emprego do Poder Naval.

O Complexo Aeronaval de São Pedro da Aldeia permanece como o principal centro da Força Aeronaval. Ali estão reunidos o Comando da Força Aeronaval, a Base Aérea Naval de São Pedro da Aldeia, o Centro de Instrução e Adestramento Aeronaval, as estruturas de apoio logístico e de saúde e o Grupo Aéreo Naval de Manutenção, responsável por uma parcela fundamental da sustentação técnica dos meios aeronavais. A capacidade de manter aeronaves disponíveis, inclusive quando embarcadas e afastadas de suas bases, é um dos elementos que sustentam a capacidade operacional da Força.

A atual frota reúne vetores destinados a diferentes perfis de missão. Os SH-16 Seahawk constituem uma das principais capacidades da guerra antissubmarino e de superfície, enquanto os AH-15B Super Cougar representam um avanço importante na capacidade de guerra antissuperfície, podendo operar com mísseis Exocet AM39. Os AH-11B Super Lynx, resultado da modernização dos antigos AH-11A, seguem desempenhando um papel fundamental como aeronaves orgânicas dos navios de escolta da Esquadra.

A modernização também alcança a formação e as missões de apoio. Os UH-17, baseados no Airbus H135, reforçaram especialmente as operações na Antártica e outras missões de apoio, enquanto os novos IH-18, baseados no H125, iniciam a substituição dos tradicionais IH-6B Jet Ranger na instrução prática de voo dos futuros Aviadores Navais. Trata-se de uma renovação que alcança tanto a linha de frente quanto a estrutura responsável por formar as próximas gerações.

Na asa fixa, a modernização de sete AF-1 Skyhawk pela Embraer permitiu preservar parte importante do conhecimento acumulado pela Marinha na operação de aeronaves de caça, enquanto a criação do 1º Esquadrão de Aeronaves Remotamente Pilotadas, o Esquadrão Harpia, inaugurou uma nova etapa com a incorporação dos sistemas RQ-1 ScanEagle. A crescente utilização de sistemas não tripulados aponta para uma transformação que tende a ganhar importância nos próximos anos, ampliando a capacidade de vigilância, reconhecimento e obtenção de informações em proveito da Força Naval.

O aniversário de 110 anos também coincide com outro marco histórico. Em 2026, a Aviação Naval formou suas duas primeiras mulheres Aviadores Navais, as Segundo-Tenentes (FN) Helena de Souza Monteiro Morais e Isabela Ferreira de Amorim, que concluíram o Curso de Aperfeiçoamento de Aviação para Oficiais e passaram a integrar o seleto grupo de pilotos da Marinha do Brasil. Sob o comando do Contra-Almirante (FN) Alexandre Vasconcelos Tonini, a Força Aeronaval chega ao seu aniversário reunindo uma história marcada pelo pioneirismo, mas também por uma permanente necessidade de adaptação às transformações tecnológicas e operacionais.

Ao completar 110 anos neste 23 de agosto, a Aviação Naval reafirma uma característica que acompanhou toda a sua trajetória: sua existência está diretamente ligada à capacidade da Marinha de ampliar o alcance de seus navios e forças em terra. Dos primeiros hidroaviões aos modernos helicópteros embarcados, caças e sistemas remotamente pilotados, a evolução da Força Aeronaval acompanha a transformação do próprio Poder Naval brasileiro e mantém atual o seu tradicional lema: 


“No Ar, os Homens do Mar.”

"Viva a Marinha do Brasil!!!"



Por Angelo Nicolaci


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Colômbia cancela conexão de fibra com o Brasil e expõe fragilidade de projetos estratégicos na Amazônia

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A decisão da Colômbia de cancelar o projeto de uma extensa rede de fibra óptica na Amazônia, que permitiria sua integração com a infraestrutura brasileira do programa Norte Conectado, vai muito além de uma disputa administrativa sobre uma licitação. O caso envolve custos, riscos técnicos e ambientais legítimos, mas também expõe um problema recorrente na América do Sul: a dificuldade de transformar iniciativas de longo prazo em políticas de Estado capazes de sobreviver às mudanças de governo.

O projeto previa aproximadamente 1.600 quilômetros de fibra óptica pelo Rio Putumayo, que recebe o nome de Rio Içá em território brasileiro, além de trechos terrestres e pelo Rio Amazonas. A infraestrutura tinha como objetivo conectar cerca de 100 mil domicílios nos departamentos colombianos de Putumayo e Amazonas e, principalmente, criar uma ligação com a Infovia 02 do Norte Conectado, que já alcança a região da tríplice fronteira entre Brasil, Colômbia e Peru.

Essa conexão teria importância que ultrapassa o acesso à internet para comunidades isoladas. A interligação das redes colombiana e brasileira poderia criar uma nova saída internacional para a infraestrutura digital amazônica, contribuindo para a formação de um backbone óptico de alcance continental e, em uma perspectiva futura, para uma conexão entre os oceanos Atlântico e Pacífico. A iniciativa colombiana também possuía racional semelhante a projetos de integração em desenvolvimento com o Peru, reforçando a possibilidade de uma malha digital amazônica integrada.

O cancelamento, contudo, não pode ser atribuído simplesmente à mudança de governo. O Ministério das Tecnologias da Informação e Comunicações da Colômbia informou que a decisão foi tomada após uma análise administrativa, jurídica, financeira, técnica e ambiental. O projeto, inicialmente estimado em 683 bilhões de pesos colombianos, teve seu valor elevado em 67,1% em relação à previsão original. A licitação cancelada chegou a ser estimada em 1,14 trilhão de pesos, enquanto fontes especializadas reportaram valores próximos de 1,4 trilhão considerando o conjunto da infraestrutura. O governo colombiano também apontou incertezas financeiras e riscos técnicos, ambientais e relacionados à efetividade da cobertura.

Esses elementos precisam ser considerados com seriedade. Infraestrutura estratégica não deve ser executada simplesmente porque possui valor geopolítico. Se os estudos identificaram problemas de engenharia, custos significativamente superiores aos inicialmente projetados ou riscos ambientais e de cobertura, a revisão do projeto é justificável. O erro estaria em transformar uma decisão correta de revisar ou até cancelar uma solução específica em abandono do objetivo estratégico que motivou sua criação.

É justamente nesse ponto que o episódio ganha relevância para o Brasil. A questão não deveria ser se a Colômbia deveria manter uma licitação que seu próprio governo considera problemática, mas se Bogotá pretende substituir o projeto por uma alternativa capaz de preservar a integração digital com o Brasil. Se a resposta for positiva, o cancelamento pode representar uma correção de rota. Se não houver alternativa, a mudança de governo terá interrompido não apenas um contrato, mas uma iniciativa de integração regional que exigia planejamento para além de um mandato presidencial.

A própria experiência brasileira demonstra a complexidade de implantar infraestrutura de telecomunicações na Amazônia. Redes subfluviais dependem de condições de navegação, características dos rios, logística, instalação e manutenção em uma região onde as condições ambientais podem alterar significativamente os cronogramas. O Norte Conectado também enfrenta diferentes estágios de execução e planejamento, o que demonstra que conectar digitalmente a Amazônia é um empreendimento de longo prazo, e não uma obra convencional de infraestrutura. 

Essa realidade reforça a necessidade de tratar a conectividade amazônica como infraestrutura crítica. Uma rede de alta capacidade não serve apenas para oferecer acesso à internet. Ela sustenta serviços públicos, educação, saúde, pesquisa, atividades econômicas e comunicações governamentais. Em áreas onde a distância e as características geográficas limitam a presença física do Estado, a conectividade também amplia a capacidade de coordenação e integração territorial.

Existe ainda uma dimensão de segurança e soberania que merece atenção. A Amazônia é compartilhada por diversos países e possui extensas áreas de baixa densidade populacional. A existência de redes nacionais isoladas resolve parte do problema, mas a interligação entre essas infraestruturas cria redundância, amplia rotas de comunicação e fortalece a integração entre países que compartilham desafios semelhantes. Nesse contexto, uma conexão pelo Putumayo poderia ter valor muito superior ao benefício econômico imediato de seus usuários.

O episódio também expõe uma deficiência estrutural da integração sul-americana. Projetos de infraestrutura física, energética, logística e digital frequentemente dependem excessivamente da vontade política dos governos que os conceberam. Quando ocorre uma mudança de administração, projetos ainda em desenvolvimento podem ser reavaliados a partir de novas prioridades, mesmo quando seus objetivos estratégicos permanecem válidos. Isso não significa que governos devam ser obrigados a preservar projetos inadequados, mas que deveriam existir mecanismos capazes de separar a revisão de uma solução específica da descontinuidade de uma política estratégica.

Nesse sentido, a Colômbia tem agora uma decisão mais importante a tomar do que simplesmente cancelar uma licitação. Se a integração digital com o Brasil continuar sendo considerada relevante, Bogotá precisará apresentar uma alternativa técnica e financeiramente sustentável. O Brasil, por sua vez, também deveria acompanhar o processo, porque a eventual conexão internacional da infraestrutura do Norte Conectado não é apenas uma questão colombiana: ela amplia o valor estratégico da própria rede brasileira.

O caso do Putumayo demonstra, portanto, que projetos estratégicos não podem depender exclusivamente do ciclo eleitoral que os originou. Custos precisam ser controlados, projetos precisam ser revisados e erros precisam ser corrigidos, mas o objetivo de longo prazo deve permanecer protegido por planejamento institucional, previsibilidade financeira e mecanismos de continuidade.

Para Brasil e Colômbia, a questão central agora é saber se o cancelamento será apenas o fim de uma licitação problemática ou o início de uma nova solução para conectar digitalmente suas redes amazônicas. A diferença é fundamental. Corrigir um projeto é parte normal da gestão pública; perder uma capacidade estratégica por falta de continuidade é outro problema. Na Amazônia, onde infraestrutura, presença do Estado, desenvolvimento e integração regional estão diretamente relacionados, essa distinção pode determinar o sucesso ou o fracasso de uma estratégia que levará muitos anos para amadurecer.


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Alerta: atraso no segundo lote das Fragatas Tamandaré pode elevar custos e ameaçar continuidade da produção

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O Programa Fragatas Classe Tamandaré chegou a um ponto que a discussão sobre o segundo lote deixou de ser apenas uma questão de ampliar o número de navios da Marinha do Brasil. Com a construção da F203 "Mariz e Barros", quarta e última unidade contratada no primeiro lote, o Brasil precisa decidir também se pretende preservar a capacidade industrial e tecnológica construída em torno do programa ou aceitar o risco de uma interrupção que poderá tornar a próxima etapa mais cara e complexa.

Em 13 de agosto, a "Mariz e Barros" teve o batimento de quilha realizado no TKMS Estaleiro Brasil Sul, em Itajaí. O marco corresponde ao início da montagem estrutural do navio, que tem lançamento previsto para 2027 e incorporação à Marinha até o início de 2029. Com isso, o primeiro lote entrou definitivamente em sua fase final, enquanto o segundo lote, anunciado através do MoU firmado com mais quatro unidades, mas que ainda precisa avançar para a formalização contratual e a correspondente programação industrial.

A questão central, portanto, não é simplesmente quando a quinta fragata será construída. O ponto é quando o processo de preparação da F204 precisa começar para que ela possa entrar na linha de produção antes que a F203 deixe de gerar carga de trabalho relevante para o estaleiro. Em um programa naval desse porte, a construção física de um navio é apenas uma etapa de um processo que começa muito antes do corte da primeira chapa, envolvendo engenharia, planejamento, aquisição de materiais, contratação de fornecedores, componentes de longo prazo, preparação da produção e organização da mão de obra.

O primeiro lote oferece uma referência importante para compreender essa dinâmica. O contrato das quatro fragatas foi formalizado em 2020, mas a construção da primeira unidade somente começou em setembro de 2022. Parte expressiva desse intervalo esteve relacionada à estruturação da capacidade industrial necessária para produzir a classe no Brasil. Esse cenário, entretanto, não deve ser simplesmente reproduzido para o segundo lote. O estaleiro já existe, a linha de produção foi estabelecida, o projeto foi industrializado e a cadeia de fornecedores foi mobilizada. O Brasil não está mais começando do zero. 

É justamente por isso que uma eventual demora na contratação do segundo lote seria particularmente difícil de justificar do ponto de vista industrial. A capacidade necessária para construir as Tamandaré já foi criada com recursos, conhecimento e trabalho acumulados durante a execução do primeiro lote. Interromper essa sequência por falta de decisão contratual ou previsibilidade orçamentária significaria colocar em risco justamente aquilo que o programa conseguiu construir de mais valioso além dos quatro navios: uma capacidade brasileira de construção naval de alta complexidade.

A experiência do programa demonstra que a produção seriada permite que diferentes unidades estejam simultaneamente em etapas distintas de construção. Em janeiro de 2026, quando começou o corte da primeira chapa da F203, as três primeiras fragatas ainda estavam em diferentes fases do processo. O resultado foi uma sobreposição de atividades que permitiu manter o estaleiro mobilizado e aproveitar a curva de aprendizado acumulada.

O segundo lote deveria ser planejado exatamente dentro dessa lógica. Se o contrato for concluído ainda em 2026, haverá tempo para que engenharia, suprimentos e preparação industrial avancem durante 2027, permitindo que a F204 comece sua fabricação enquanto a F203 ainda estiver em processo de construção, integração e testes. Não se trata de estabelecer artificialmente uma data de corte sem conhecer o cronograma contratual definitivo, mas de reconhecer que a continuidade industrial depende de uma decisão antecipada.

O risco aumenta à medida que essa decisão é postergada. Um intervalo entre a F203 e a F204 não produziria necessariamente um estaleiro completamente parado de um dia para o outro, mas poderia reduzir progressivamente sua carga de trabalho. O problema seria a desmobilização de equipes especializadas, a perda de profissionais para outros projetos, a redução da demanda de fornecedores e a dispersão do conhecimento acumulado. A Marinha e a indústria já destacaram os efeitos do programa sobre a formação de mão de obra e a cadeia produtiva nacional, o que mostra que a capacidade criada pelo PFCT ultrapassa os limites físicos do estaleiro.

Há também uma dimensão financeira que não pode ser ignorada. Uma linha industrial contínua permite aproveitar infraestrutura, processos, fornecedores e mão de obra já mobilizados, além de incorporar ao navio seguinte os ganhos de produtividade obtidos durante a construção das unidades anteriores. Quando uma produção é interrompida por período prolongado, parte desses ganhos pode ser perdida. A retomada exige novamente mobilização, contratação, treinamento e reorganização da cadeia de fornecimento. Portanto, mesmo que o preço nominal do segundo lote seja objeto de negociação própria, uma interrupção prolongada pode aumentar o custo efetivo de sua execução.

Essa questão é ainda mais relevante porque a própria Marinha já trabalha com a perspectiva de elevar o conteúdo nacional em futuros lotes. Em abril, o comandante da Marinha indicou que a eventual contratação de mais quatro unidades envolveria discussões sobre preços da cadeia de suprimentos e formas de ampliar o conteúdo local. Isso significa que o segundo lote não deve ser analisado apenas como repetição dos quatro primeiros navios, mas como uma oportunidade para aprofundar a participação brasileira e aumentar a capacidade tecnológica e industrial instalada no Brasil.

Quanto mais tarde ocorrer essa transição, maior será a dificuldade de aproveitar integralmente essa oportunidade. O conhecimento adquirido na construção das primeiras unidades está fresco, os profissionais estão qualificados e a cadeia de fornecedores está ativa. Manter esse ecossistema funcionando é muito diferente de tentar reconstruí-lo depois de uma interrupção de vários anos.

Existe ainda uma consequência operacional. A Marinha precisa recompor sua capacidade de escoltas enquanto substitui progressivamente meios mais antigos. O segundo lote não é, portanto, uma encomenda destinada apenas à indústria. Ele está diretamente relacionado ao planejamento da Esquadra e à necessidade de manter uma quantidade adequada de navios capazes de executar tarefas de defesa marítima, escolta, guerra antissubmarino, defesa antiaérea e proteção das linhas de comunicação marítima. A primeira Tamandaré já foi incorporada ao setor operativo, enquanto as demais avançam dentro do cronograma previsto.

O governo brasileiro, portanto, precisa tratar a contratação do segundo lote como uma decisão simultaneamente operacional, industrial e tecnológica. Não basta anunciar a intenção de chegar a oito fragatas. É necessário assegurar os recursos para que a decisão produza efeito industrial no momento adequado. Um contrato assinado tardiamente ou sem execução financeira capaz de sustentar a preparação dos fornecedores pode não produzir a continuidade que o programa necessita.

A questão é especialmente sensível porque o Brasil conhece, por experiência própria, o custo da descontinuidade na indústria de Defesa. Projetos complexos dependem de profissionais altamente especializados e de fornecedores que não conseguem manter estruturas dedicadas indefinidamente sem previsibilidade de demanda. Uma vez dispersada essa capacidade, sua reconstrução pode consumir tempo e recursos que poderiam ter sido empregados diretamente na evolução do programa.

O momento para agir é, portanto, antes que a F203 se aproxime do fim de seu ciclo industrial. A quarta fragata ainda está no início de sua montagem estrutural, enquanto o primeiro lote possui unidades em diferentes estágios. Essa sobreposição oferece ao governo uma janela para transformar o segundo lote em continuidade natural do programa, e não uma nova mobilização industrial depois de um período de vazio.

O Brasil já realizou a parte mais difícil: estruturou uma capacidade nacional para construir uma classe moderna de fragatas, formou mão de obra, estabeleceu fornecedores e colocou a primeira unidade em serviço. O desafio agora é não permitir que uma demora administrativa ou orçamentária transforme essa conquista em capacidade intermitente.

A contratação do segundo lote, portanto, precisa avançar o quanto antes, acompanhada da garantia dos recursos necessários para sua execução. O objetivo não deve ser apenas evitar um atraso na entrega da quinta fragata, mas preservar a continuidade da linha de produção, reduzir o risco de aumento de custos associado a uma futura remobilização e permitir que o conhecimento adquirido nas quatro primeiras unidades seja convertido em maior eficiência e maior conteúdo nacional nas seguintes.

O Programa Fragatas Classe Tamandaré chegou ao momento em que uma decisão sobre quatro novos navios também será uma decisão sobre o futuro da construção naval brasileira. Se houver continuidade, o segundo lote poderá aproveitar uma capacidade que já está instalada e em pleno funcionamento. Se houver um hiato prolongado, parte dessa capacidade poderá se perder e, posteriormente, terá de ser reconstruída a um custo que o país poderia evitar com planejamento e previsibilidade.


Por Angelo Nicolaci


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sábado, 22 de agosto de 2026

Importar ou desenvolver? O falso dilema e o verdadeiro desafio da Defesa brasileira

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O debate sobre autonomia tecnológica, capacidade militar e fortalecimento da Base Industrial de Defesa brasileira voltou a ganhar espaço após declarações do professor Eduardo Siqueira Brick sobre a forma como o país organiza seus recursos de ciência, tecnologia e inovação e sobre a relação das Forças Armadas com a indústria nacional. Oficial da reserva da Marinha, professor e pesquisador na área de Defesa, Brick possui trajetória acadêmica dedicada a temas como logística, ciência, tecnologia, indústria e gestão de capacidades militares, além de ter participado da estruturação dos estudos de Defesa na Universidade Federal Fluminense.

Sua atuação está particularmente associada à UFF Defesa, núcleo voltado à pesquisa sobre questões estratégicas e de Defesa. Sua produção acadêmica aborda temas como Base Logística de Defesa, indústria, inovação e organização do sistema brasileiro de Defesa, o que confere relevância às críticas apresentadas na entrevista.

As posições analisadas nesta reportagem foram apresentadas por Brick em entrevista ao programa TVGGN 20 Horas, reproduzida pelo site Jornal GGN na ultima sexta-feira (21), sob o título O gargalo do submarino nuclear: por que o Brasil patina em projetos estratégicosNa entrevista, o pesquisador aponta, entre outros aspectos, a pulverização da gestão de ciência, tecnologia e indústria de Defesa entre as Forças Armadas e o que considera um viés comprador nas aquisições militares.

É justamente por reconhecer essa experiência que o debate merece ser tratado no campo das ideias, e não da personalização. Parte das preocupações apresentadas é pertinente. O Brasil enfrenta problemas de coordenação entre estruturas de pesquisa, dificuldades para transformar planejamento em execução, instabilidade orçamentária e descontinuidade de programas que exigem décadas para amadurecer.

O ponto que merece maior discussão está, portanto, menos no diagnóstico geral do que em algumas conclusões extraídas dele. Reduzir o problema à existência de um suposto viés comprador das Forças Armadas ou estabelecer uma oposição direta entre importar e desenvolver internamente simplifica uma realidade na qual necessidades operacionais, disponibilidade orçamentária, domínio tecnológico, capacidade industrial e tempo de desenvolvimento precisam ser considerados simultaneamente.

Quando comprar fora também pode ser uma decisão estratégica

A primeira questão é justamente a relação entre aquisição estrangeira e desenvolvimento nacional. Uma compra externa pode de fato ampliar a dependência brasileira quando o país simplesmente recebe uma plataforma pronta e permanece dependente do fornecedor para manutenção, atualização, componentes críticos e evolução tecnológica. Mas uma aquisição internacional também pode ser estruturada como instrumento de transferência de tecnologia, capacitação industrial e formação de recursos humanos. A diferença está na estratégia que acompanha a aquisição.

O Programa de Desenvolvimento de Submarinos, o PROSUB, é um dos exemplos mais claros dessa segunda possibilidade. A parceria com a França envolveu transferência de tecnologia para projeto e construção de submarinos convencionais, nacionalização de equipamentos e sistemas e capacitação de pessoal. A Marinha estruturou o programa de forma a associar a obtenção dos meios à criação de infraestrutura industrial e ao desenvolvimento de competências nacionais.

O objetivo estratégico do PROSUB, portanto, não pode ser resumido à compra de submarinos franceses. A parceria foi utilizada para ampliar uma capacidade que o Brasil não possuía naquela escala, criando infraestrutura industrial, formando profissionais e acumulando conhecimento necessário à construção de submarinos no país. Isso não eliminou todas as dependências externas, nem seria razoável esperar isso de um programa de tamanha complexidade. O resultado estratégico está justamente na capacidade nacional que permanece depois da parceria.

O Programa Fragatas Classe Tamandaré segue lógica semelhante. O projeto tem origem na família alemã MEKO, mas os navios estão sendo construídos no Brasil, com participação da indústria nacional, conteúdo local e transferência de tecnologia. A primeira unidade, a Fragata Tamandaré, foi construída no país dentro de uma estrutura que envolve a Sociedade de Propósito Específico Águas Azuis e empresas brasileiras.

Há ainda um elemento particularmente relevante nesse programa: o conteúdo tecnológico nacional não está restrito ao casco. O desenvolvimento de sistemas como o MAGE Defensor demonstra como uma tecnologia concebida dentro da estrutura de pesquisa militar pode chegar a uma plataforma de combate produzida em parceria com a indústria nacional. O equipamento foi desenvolvido pelo Instituto de Pesquisas da Marinha e destinado às fragatas da classe Tamandaré.

Esses exemplos mostram por que a origem estrangeira de um projeto não determina, isoladamente, seu resultado para a soberania tecnológica. A pergunta estratégica mais importante não é simplesmente de onde veio o projeto original, mas o que o Brasil consegue absorver, dominar, produzir, manter, modificar e desenvolver a partir daquela aquisição.

É neste ponto que a afirmação de Brick sobre o chamado “viés comprador” precisa ser examinada com maior cuidado. O problema existe quando a aquisição externa substitui uma política de desenvolvimento tecnológico e industrial. Mas colocar no mesmo campo uma compra de oportunidade destinada a preservar uma capacidade operacional e uma aquisição que deveria gerar autonomia tecnológica produz uma conclusão incompleta.

Em Defesa, nem sempre é possível esperar anos pelo desenvolvimento de uma solução nacional. Projetos complexos podem levar mais de uma década entre a definição dos requisitos, desenvolvimento, financiamento, construção e entrada em serviço. Nesse intervalo, a Força precisa continuar operando, treinando pessoal e preservando sua doutrina. Uma compra de oportunidade pode, portanto, funcionar como uma ponte entre duas gerações de equipamentos.

A própria Marinha oferece exemplos claros. O NDM Bahia permitiu recuperar rapidamente capacidades de transporte, apoio logístico e operações anfíbias, enquanto o NAM Atlântico devolveu à Força uma importante capacidade de projeção de poder, operações aéreas embarcadas, comando e controle e operações anfíbias. Foram meios adquiridos no exterior, mas responderam a necessidades operacionais concretas e imediatas. Classificá-los simplesmente como expressão de um “viés comprador” ignoraria a realidade de uma Força que não poderia permanecer sem essas capacidades enquanto aguardava novos projetos nacionais.

O ponto central, portanto, não é ser contra compras de oportunidade, mas impedir que elas se tornem a solução permanente. O meio adquirido para preencher uma lacuna deve estar inserido em um planejamento que indique qual será sua substituição, e sempre que possível, como a experiência obtida será convertida em conhecimento, capacidade industrial ou requisito para a próxima geração de sistemas.

O mesmo princípio vale para as demais Forças. Aeronaves adquiridas como solução intermediária, blindados de segunda mão ou outros meios obtidos no exterior podem preservar treinamento, pessoal, infraestrutura e doutrina. Isso não significa abrir mão da indústria nacional. Significa reconhecer que capacidade militar precisa existir no presente enquanto a autonomia tecnológica é construída para o futuro.

É essa distinção que torna o debate mais preciso: comprar para preencher uma lacuna não é o mesmo que comprar porque o país desistiu de desenvolver sua própria capacidade. O problema estratégico surge quando a solução provisória deixa de ser uma ponte e passa a substituir o planejamento de longo prazo.

Mas também é preciso reconhecer uma realidade incômoda: muitas das compras de oportunidade realizadas pelas Forças Armadas ao longo das últimas décadas não ocorreram simplesmente por preferência por equipamentos estrangeiros. Em diversos casos, foram consequência direta da dificuldade brasileira de financiar e sustentar programas próprios. Projetos nacionais avançam de forma fracionada, sofrem interrupções, têm cronogramas estendidos e, algumas vezes, permanecem por anos ou até décadas aguardando recursos para superar uma determinada etapa. Quando a necessidade operacional chega antes da solução nacional, a Força precisa encontrar uma alternativa para não perder sua capacidade.

O problema, portanto, está também na previsibilidade. Programas de Defesa de alta complexidade não podem depender exclusivamente da disponibilidade orçamentária de um determinado exercício ou da prioridade atribuída por um governo. Desenvolvimento tecnológico exige continuidade, e a indústria precisa saber que haverá demanda futura para manter equipes, fornecedores, infraestrutura e capacidade produtiva.

No Brasil, essa continuidade ainda é excessivamente vulnerável aos ciclos políticos. A mudança de governo pode significar alteração de prioridades, revisão de programas, contingenciamento de recursos ou mudança na própria estrutura de gestão da Defesa. Quando isso ocorre sucessivamente, projetos que deveriam ser tratados como políticas de Estado acabam submetidos à lógica de cada ciclo administrativo. O resultado pode ser o atraso de cronogramas, a perda de competências, o aumento dos custos e, em situações mais graves, a interrupção de programas que levaram anos para amadurecer.

Essa instabilidade cria um paradoxo. O país critica sua dependência externa e defende maior autonomia tecnológica, mas muitas vezes não oferece às próprias iniciativas nacionais as condições necessárias para que amadureçam. Sem orçamento previsível, planejamento de longo prazo e compromissos que atravessem diferentes governos, a compra de oportunidade deixa de ser apenas uma escolha operacional e passa a ser, em determinadas situações, consequência da incapacidade do Estado de entregar a tempo a solução que ele próprio decidiu desenvolver.

Por isso, reduzir o debate a “comprar fora” ou “produzir dentro” não enfrenta a raiz do problema. Antes de decidir como obter uma capacidade militar, o Estado precisa definir quais capacidades pretende manter no longo prazo, quanto está disposto a investir para desenvolvê-las e como garantirá que esses compromissos sobrevivam às mudanças de governo. Sem essa estabilidade, até mesmo um bom projeto nacional pode se transformar em mais uma lacuna operacional que, anos depois, precisará ser preenchida por uma nova compra de oportunidade.

A fragmentação da pesquisa e desenvolvimento

A segunda grande questão levantada por Brick diz respeito à fragmentação da estrutura de ciência, tecnologia e inovação da Defesa. Aqui o diagnóstico também merece ser parcialmente acolhido. Existem competências distribuídas entre Exército, Marinha, Força Aérea, universidades e empresas, e determinadas áreas poderiam se beneficiar de maior integração.

Entretanto, fragmentação não significa necessariamente ineficiência. A especialização das instituições militares de pesquisa existe por uma razão: as Forças possuem ambientes operacionais, requisitos e culturas tecnológicas diferentes. O Instituto Tecnológico de Aeronáutica, o Instituto Militar de Engenharia, o Departamento de Ciência e Tecnologia Aeroespacial, o Instituto de Pesquisas da Marinha e o Centro Tecnológico da Marinha em São Paulo, entre outros, acumularam conhecimento ao longo de décadas.

Seria contraproducente imaginar que a solução para a fragmentação consiste simplesmente em absorver essas estruturas em uma nova autoridade central. O Brasil não precisa necessariamente de menos instituições especializadas. Precisa de maior coordenação entre elas.

Uma alternativa mais racional seria construir uma arquitetura conjunta de pesquisa e desenvolvimento, preservando os centros de excelência existentes. Um centro conjunto de Pesquisa, Desenvolvimento e Inovação em Defesa, sob coordenação do Ministério da Defesa e com participação das três Forças, universidades, institutos tecnológicos e indústria, poderia funcionar como uma camada de integração estratégica.

Esse centro não substituiria a autonomia do ITA, IME, IPqM, CTMSP, DCTA ou as demais instituições. Sua função seria diferente: identificar tecnologias de interesse comum, estabelecer prioridades nacionais, coordenar recursos e evitar que esforços semelhantes sejam realizados de maneira redundante e isolada.

Há áreas em que essa integração poderia produzir ganhos significativos. Inteligência artificial, sistemas autônomos, guerra eletrônica, defesa cibernética, sensores, radares, optrônica, comunicações seguras, tecnologias espaciais, novos materiais, sistemas energéticos e determinadas aplicações de computação avançada possuem aplicações que ultrapassam os limites de uma única Força.

Isso não significa que um sistema desenvolvido para um navio deva ser idêntico ao empregado em um blindado ou uma aeronave. Significa que determinadas tecnologias de base podem ser desenvolvidas de maneira cooperativa e depois adaptadas às exigências de cada ambiente operacional.

O princípio deveria ser preservar a especialização e aumentar a interoperabilidade. O Brasil não precisa escolher entre uma estrutura completamente centralizada ou três sistemas tecnológicos isolados. É possível construir uma terceira alternativa, na qual cada Força mantém seus centros de excelência, mas os grandes desafios tecnológicos comuns passam a ser tratados de maneira coordenada e cooperativa.

Do conhecimento à capacidade industrial

A integração também precisa alcançar as universidades. A pesquisa acadêmica não pode permanecer distante das necessidades tecnológicas reais das Forças, assim como a indústria não pode ser chamada apenas no final de um projeto, quando as decisões fundamentais já foram tomadas. Uma política tecnológica madura precisa conectar a necessidade operacional, a pesquisa científica e a capacidade de transformar conhecimento em produto.

O militar deve ser capaz de formular o problema operacional. O pesquisador precisa trabalhar sobre desafios tecnológicos concretos. A indústria deve participar da transformação dessa tecnologia em um produto fabricável, sustentável e atualizável. E o Estado precisa garantir que exista demanda suficiente para que essa cadeia sobreviva depois que o protótipo for concluído.

É justamente nesse último ponto que aparece talvez o maior problema brasileiro. O país possui capacidade para desenvolver tecnologias de defesa complexas, mas frequentemente apresenta dificuldades para sustentar economicamente as estruturas que desenvolveu.

A Avibras é um dos exemplos mais claros. O Brasil acumulou durante décadas competências em foguetes, mísseis, propulsão, sistemas de artilharia e integração de sistemas. A crise da empresa demonstrou, porém, que conhecimento tecnológico não é suficiente para garantir a sobrevivência de uma capacidade industrial. É necessário haver contratos, escala de produção, financiamento, investimento em pesquisa e desenvolvimento e previsibilidade de demanda.

A mesma lógica aparece, em diferentes graus, em outros programas nacionais. O Guarani, o MANSUP, o ASTROS e o KC-390 demonstram que o país possui capacidade para desenvolver e produzir sistemas de alta complexidade. Mas cada um deles também está sujeito às dificuldades de escala, orçamento, exportação, continuidade de encomendas e evolução tecnológica.

Essa é uma distinção fundamental. Desenvolver um produto de Defesa não significa ter construído uma indústria de Defesa sustentável. O desenvolvimento de um protótipo ou de uma primeira série pode ser financiado pelo Estado. A manutenção de uma capacidade industrial durante décadas exige uma combinação muito mais complexa entre mercado, exportação, encomendas nacionais, investimento privado e política pública.

Defesa precisa ser política de Estado

É nesse ponto que o debate sobre planejamento precisa ser deslocado. O Brasil não sofre apenas da falta de planejamento. O país produziu documentos estratégicos, estabeleceu programas prioritários e identificou capacidades consideradas essenciais. A dificuldade histórica está em transformar esses objetivos em compromissos financeiros e institucionais suficientemente estáveis para atravessar diferentes governos.

Projetos de Defesa possuem ciclos tecnológicos incompatíveis com a lógica política de curto prazo. Uma fragata, um submarino, um avião de transporte ou um sistema de mísseis não pode ser planejado como se fosse uma aquisição convencional de poucos anos. O desenvolvimento, a produção, a formação de pessoal, a manutenção e a modernização precisam ser pensados desde o início como partes de um mesmo ciclo de vida.

O próprio Programa Tamandaré incorpora essa lógica ao associar a construção nacional e a transferência tecnológica à sustentabilidade da indústria e à capacidade de manter e evoluir os navios ao longo do tempo.

Esse conceito deveria ser ampliado para toda a política de obtenção de Defesa. Uma decisão de aquisição não deveria terminar na entrega do equipamento. Ela deveria ser avaliada pelo impacto sobre a capacidade operacional, a logística, a formação de pessoal, a manutenção, a indústria nacional, a dependência externa e a possibilidade de evolução tecnológica.

No campo científico, seria necessário aproximar as estruturas das três Forças sem eliminar sua especialização. Um centro conjunto poderia coordenar os grandes desafios tecnológicos, enquanto ITA, IME, DCTA, IPqM, CTMSP e outras instituições continuariam desenvolvendo suas competências específicas. No campo industrial, programas de longo prazo precisariam ser acompanhados por mecanismos capazes de reduzir a instabilidade da demanda e estimular exportações.

No campo orçamentário, programas estratégicos precisariam ter maior previsibilidade. Não existe indústria capaz de manter equipes altamente especializadas, laboratórios, fornecedores e linhas de produção se cada ciclo orçamentário colocar em dúvida a continuidade do programa.

A Defesa brasileira, portanto, não precisa escolher entre ser compradora ou desenvolvedora. Precisa ser estratégica em suas escolhas. Uma aquisição externa pode ser necessária para manter uma capacidade hoje. Uma parceria internacional pode ser utilizada para absorver tecnologia amanhã. Um programa nacional pode consolidar essa competência no futuro. E uma política de Estado precisa garantir que essas três etapas estejam conectadas.

A entrevista de Eduardo Siqueira Brick é importante justamente porque coloca essa discussão em evidência. A fragmentação existe, a necessidade de melhor coordenação é real e a Base Industrial de Defesa precisa de maior previsibilidade. O contraponto está em não transformar um problema multidimensional em uma oposição entre comprar e produzir.

O Brasil já possui boa parte dos elementos necessários para construir uma política mais consistente. Possui universidades, institutos militares de pesquisa, empresas com experiência internacional, profissionais altamente qualificados e programas que demonstraram capacidade de absorção e desenvolvimento tecnológico. O desafio está em conectar esses elementos de maneira permanente, estabelecer prioridades e garantir recursos para que os projetos atravessem os ciclos políticos.

Mais do que decidir entre importar ou desenvolver, o Brasil precisa aprender a transformar cada decisão de Defesa em capacidade nacional. Essa capacidade pode nascer de um laboratório militar, de uma universidade, de uma empresa brasileira ou de uma parceria internacional. O que determinará seu valor estratégico será a capacidade do Estado de integrá-la a um projeto de longo prazo, sustentá-la financeiramente e garantir que o conhecimento adquirido não desapareça quando terminar o primeiro contrato ou mudar o próximo governo.


Por Angelo Nicolaci


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