sábado, 22 de agosto de 2026

Noruega reforça brigada no Ártico e amplia capacidade militar na fronteira com a Rússia

0 comentários

A Noruega ampliou na última quinta-feira (20) a Brigada Finnmark, força criada no ano passado para reforçar a presença militar do país no extremo norte. A expansão adiciona novas capacidades de combate à unidade e reflete o esforço de Oslo para fortalecer sua defesa diante da deterioração do ambiente de segurança europeu.

Criada em 2025, a Brigada Finnmark é a segunda brigada do Exército norueguês e a primeira nova formação desse nível estabelecida pelo país desde o fim da Guerra Fria. Com sede em Porsangmoen, a unidade tem entre suas principais missões a vigilância e a defesa da fronteira de aproximadamente 198 quilômetros com a Rússia.

Agora, a brigada passa a contar com um batalhão de artilharia, uma bateria de defesa aérea e uma companhia de comunicações. A nova estrutura permitirá engajar alvos terrestres a cerca de 40 quilômetros e coordenar ações com aeronaves e navios noruegueses e da OTAN.

Segundo o comandante da unidade, brigadeiro John Olav Fuglem, a ampliação representa um nível de poder de fogo significativamente superior ao disponível anteriormente.

A mudança ganha importância pela localização da brigada. Porsangmoen está a aproximadamente 180 quilômetros da fronteira russa, em linha reta, enquanto do outro lado da fronteira está a Península de Kola, uma das áreas militares mais estratégicas da Rússia e sede de importantes elementos da Frota do Norte.

Reforço do flanco norte

A expansão da Brigada Finnmark ocorre dentro de um movimento mais amplo de aumento dos investimentos em defesa pelos países nórdicos após a invasão russa da Ucrânia.

A Noruega estima gastar 3,17% do PIB em defesa em 2026, mais que o dobro dos cerca de 1,5% registrados em 2014. O país também vem ampliando sua integração militar com os demais membros da OTAN, especialmente após a entrada da Finlândia e da Suécia na Aliança.

Nesse contexto, a transformação da Finnmark é mais do que um reforço de fronteira. A unidade passa de uma função predominantemente voltada à vigilância para uma estrutura com maior capacidade de combate, defesa aérea e integração em operações multinacionais.

A mudança evidencia a crescente importância estratégica do Ártico para a OTAN e a retomada da prioridade atribuída ao extremo norte europeu na arquitetura de defesa da Aliança.


GBN Defense - A informação começa aqui

com Reuters

Continue Lendo...

P-8A Poseidon dos EUA atravessa Estreito de Taiwan em meio à tensão com Pequim

0 comentários

 

Um P-8A Poseidon da Marinha dos Estados Unidos atravessou o Estreito de Taiwan nesta sexta-feira (21), a operação foi realizada em espaço aéreo internacional. A missão ocorreu em um dos principais pontos de tensão estratégica entre Washington e Pequim e reforça a disposição americana de manter presença militar no Indo-Pacífico.

A 7ª Frota dos EUA afirmou que a aeronave operou de acordo com o direito internacional e que a passagem demonstra o compromisso de Washington com um Indo-Pacífico livre e aberto. Para os Estados Unidos, a operação também reafirma os direitos e liberdades de navegação e sobrevoo na região.

A movimentação foi acompanhada de perto pela China. Segundo o Global Times, citando uma fonte militar, as forças chinesas rastrearam e monitoraram o P-8A durante todo o trajeto, afirmando que a situação permaneceu sob controle.

Uma missão com valor operacional

A presença do P-8A Poseidon acrescenta uma dimensão operacional à passagem. A aeronave é uma das principais plataformas de patrulha marítima da Marinha dos EUA, empregada em missões de vigilância, reconhecimento e guerra antissubmarino.

Diferentemente de uma simples operação de presença, o emprego de uma plataforma especializada em coleta de informações permite ampliar a consciência situacional sobre o ambiente marítimo e as atividades militares na região.

O estreito também possui enorme importância geográfica. Além de separar Taiwan do território continental chinês, constitui uma importante rota marítima entre o Mar da China Oriental e o Mar da China Meridional.

A disputa sobre o estreito

Pequim reivindica Taiwan como parte de seu território e considera a questão um assunto interno da China. Estados Unidos e Taiwan, por outro lado, sustentam que o estreito é uma via navegável internacional e defendem a liberdade de navegação e sobrevoo. É justamente essa diferença de interpretação que transforma operações como a realizada pelo P-8A em eventos de significado estratégico.

Para Washington, manter essas missões demonstra que a China não possui autoridade para restringir unilateralmente a atuação militar estrangeira na região. Para Pequim, acompanhar cada movimento americano é uma forma de demonstrar capacidade de vigilância e controle sobre o entorno de Taiwan.

O episódio ocorre ainda enquanto Estados Unidos e China buscam administrar uma relação marcada por disputas comerciais, tecnológicas e estratégicas, com a questão de Taiwan permanecendo como um dos principais pontos de atrito.

Não houve confronto durante a passagem, mas o episódio evidencia a dinâmica que vem se consolidando no Indo-Pacífico: enquanto a diplomacia tenta preservar canais de diálogo, as forças militares dos dois países continuam operando em proximidade e testando seus respectivos níveis de presença, vigilância e resposta.


GBN Defense - A informação começa aqui

com Reuters


Continue Lendo...

Gripen suecos aparecem no radar em missão incomum da OTAN no Báltico

0 comentários

 

Três caças JAS 39C Gripen da Força Aérea Sueca realizaram na última quinta-feira (20), uma missão pouco usual no norte da Europa. As aeronaves operaram com os transponders ativos, o que permitiu seu acompanhamento por plataformas públicas de monitoramento de voo, e posteriormente realizaram reabastecimento em voo com um A330 MRTT da OTAN sobre a Polônia, antes de retornarem à Suécia. A atividade ocorreu em meio à intensificação das operações aéreas da Aliança em seu flanco leste.

Os três Gripen pertencem à Ala F 17, baseada em Ronneby-Kallinge, e voaram com os indicativos SVF47, SVF48 e SVF49. Durante a missão, encontraram o MRTT T-055, identificado como MMF20, realizaram o reabastecimento em voo e posteriormente retornaram à base sueca. O movimento foi identificado pelo Itamilradar, especializado no acompanhamento de aeronaves e navios militares.

A particularidade da missão não está apenas na presença dos Gripen sobre o Báltico. A Força Aérea Sueca opera regularmente na região e mantém uma capacidade de alerta de reação rápida para a defesa de seu espaço aéreo. O que chama atenção é a combinação entre caças suecos, reabastecimento aéreo multinacional e uma operação suficientemente visível para ser acompanhada em sistemas públicos de rastreamento.

O Gripen dentro da estrutura da OTAN

O episódio também ilustra uma transformação que ganhou força desde a entrada da Suécia na OTAN, em março de 2024. O país deixou de atuar exclusivamente dentro de uma arquitetura nacional de defesa aérea e passou a integrar suas capacidades à estrutura coletiva da Aliança. O próprio histórico operacional recente mostra os Gripen suecos participando de missões e exercícios com outras forças aéreas aliadas. Em 2024, por exemplo, caças suecos realizaram suas primeiras identificações visuais como integrantes da OTAN durante uma missão no Báltico ao lado de F-16 belgas.

O reabastecimento realizado em 20 de agosto acrescenta outra dimensão a essa integração. Ao utilizar um A330 MRTT da frota multinacional, os Gripen passam a operar conectados a uma estrutura logística que amplia sua autonomia e permite sustentar missões por períodos mais longos.

É uma capacidade particularmente relevante em um teatro como o Báltico, onde distâncias relativamente curtas convivem com elevada densidade de sensores, sistemas de defesa aérea e forças militares russas.

Uma região sob intensa vigilância

A região do Báltico concentra atualmente diferentes camadas da arquitetura de vigilância e defesa da Aliança, incluindo aeronaves de alerta antecipado, patrulha, inteligência, guerra eletrônica, reabastecimento e aviação de caça. A própria OTAN mantém missões permanentes de vigilância e policiamento aéreo no flanco oriental, além de empregar aeronaves AWACS e MRTT em atividades de apoio à defesa coletiva.

Esse ambiente ganhou ainda mais importância diante da crescente preocupação com atividades militares russas e com a necessidade de reduzir o tempo de resposta diante de possíveis violações ou ameaças ao espaço aéreo aliado.

A Suécia, por sua posição geográfica, ocupa uma área particularmente importante nesse sistema. Seu território permite apoiar operações sobre o Báltico e o norte europeu, enquanto a força de Gripen acrescenta uma capacidade de caça desenhada para elevada disponibilidade operacional e emprego em ambientes onde a sobrevivência das bases aéreas é uma preocupação central.

Mais do que três caças no ar

O aspecto mais relevante do episódio está justamente na arquitetura por trás do voo. Um caça pode realizar uma missão isoladamente, mas sua capacidade de permanecer no ar, receber informações, ampliar seu alcance e operar coordenadamente com outras plataformas depende de uma estrutura muito maior. É aí que entram o MRTT, os sistemas de comando e controle, os meios de vigilância e as aeronaves especializadas em guerra eletrônica.

A OTAN vem ampliando justamente essa integração. Em exercícios recentes, a Aliança tem colocado à prova a capacidade de diferentes países compartilharem dados e empregarem sensores e sistemas de maneira coordenada, buscando construir uma força capaz de responder rapidamente em um ambiente operacional cada vez mais complexo. Nesse sentido, o voo dos Gripen suecos é mais interessante pelo modo como foi realizado do que pela quantidade de aeronaves envolvidas.

Três caças receberam combustível de um A330-MRTT, sobrevoaram território aliado e retornaram à sua base. É uma atividade rotineira do ponto de vista técnico, mas que demonstra na prática, como uma força aérea passa a funcionar dentro de uma estrutura militar multinacional.

O Báltico como área de dissuasão

Não há, até o momento, confirmação pública de que a missão dos Gripen tenha feito parte de um exercício específico não anunciado ou de uma operação diretamente relacionada a uma ação russa.

Essa cautela é importante. A intensa movimentação aérea observada na região pode resultar de exercícios, treinamento, missões de vigilância, preparação operacional ou uma combinação desses fatores.

O que pode ser observado é a crescente densidade da presença aérea da OTAN no norte europeu e a maior integração das forças que passaram a compor essa arquitetura.

Para a Suécia, o processo representa uma mudança significativa. O Gripen, durante décadas associado principalmente à defesa territorial sueca, passa agora a ser empregado como parte de uma estrutura coletiva que inclui AWACS, MRTT, sistemas de vigilância, guerra eletrônica e forças aéreas de diversos países.

Essa transformação é particularmente importante no Báltico, onde a proximidade entre forças da OTAN e da Rússia reduz os tempos de reação e aumenta o valor da consciência situacional.


GBN Defense - A informação começa aqui


Continue Lendo...

CTEx testa radar SENTIR M20 contra drones e registra detecção a 4 km

0 comentários

O Centro Tecnológico do Exército (CTEx) realizou ensaios com o Radar de Vigilância Terrestre SENTIR M20 para avaliar sua capacidade de detectar e acompanhar drones em baixa altitude. Durante os testes, um DJI Matrice 400 foi utilizado como alvo aéreo, com o radar registrando a detecção e o acompanhamento do vetor a uma distância de até 4 quilômetros.

O resultado foi divulgado pelo próprio CTEx em suas redes oficiais e demonstra a aplicação de uma tecnologia nacional de vigilância diante de uma das ameaças que mais rapidamente vêm modificando o campo de batalha: os sistemas aéreos não tripulados.

Desenvolvido para vigilância terrestre e de baixa altitude, o SENTIR M20 amplia seu emprego ao demonstrar capacidade de acompanhar um alvo aéreo não tripulado durante um cenário de teste. A avaliação é particularmente relevante porque drones de pequeno porte apresentam desafios específicos aos sistemas tradicionais de vigilância, principalmente pela baixa altitude de operação e pelas reduzidas dimensões.

Mais uma camada contra a ameaça dos drones

O teste não transforma o SENTIR M20, por si só, em um sistema completo de defesa antidrone. O papel do radar é fornecer a detecção e o acompanhamento do alvo, produzindo informações que podem ser utilizadas por sistemas de comando e controle e, posteriormente, pelos meios responsáveis pela neutralização da ameaça.

Essa distinção é importante. Em uma arquitetura de defesa contra drones, o radar representa uma das primeiras camadas do processo: é necessário localizar o vetor, acompanhar sua trajetória e fornecer os dados necessários para que outros sistemas possam atuar.

Nesse contexto, o resultado obtido pelo CTEx ganha relevância por demonstrar a possibilidade de utilizar uma capacidade brasileira já desenvolvida para vigilância terrestre também diante de ameaças aéreas não tripuladas.

Capacidade nacional em evolução

O SENTIR M20 integra o conjunto de tecnologias desenvolvidas para ampliar a capacidade de vigilância do Exército Brasileiro e possui aplicação em missões de monitoramento de áreas terrestres e alvos de baixa altitude.

A realização do ensaio com o Matrice 400 mostra como essas capacidades podem ser avaliadas diante de novos cenários de ameaça. Mais do que estabelecer um novo alcance operacional para o radar, o resultado de 4 km deve ser entendido como o desempenho registrado durante esse ensaio específico.

A avaliação também reforça a importância de soluções nacionais capazes de acompanhar a evolução do ambiente operacional. A disseminação dos drones trouxe para o campo de batalha uma ameaça de baixo custo, difícil detecção e amplo potencial de emprego, exigindo sensores capazes de identificar esses vetores antes que possam cumprir sua missão.

Para o Exército, o desafio passa agora por transformar a capacidade de detecção em uma arquitetura integrada, na qual sensores, sistemas de comando e controle e meios de neutralização trabalhem de forma coordenada.

O ensaio do SENTIR M20 representa, portanto, mais um passo na adaptação das capacidades brasileiras à realidade da guerra contemporânea. Detectar o drone é apenas o primeiro estágio; transformar essa detecção em tempo de reação e capacidade efetiva de neutralização é o objetivo maior de uma defesa antidrone integrada.


GBN Defense - A informação começa aqui

com Exército Brasileiro

Continue Lendo...

J&F avança para assumir 100% da Avibras após retomada da produção

0 comentários

 

A Avibras pode estar prestes a iniciar uma nova fase de sua história. A empresa informou nesta sexta-feira (21) que foi comunicada pelo FIP Brasil Crédito sobre uma operação submetida à análise do Conselho Administrativo de Defesa Econômica (CADE) que prevê a venda da totalidade das ações da Nova AVB S.A., controladora integral da Avibras Aeroco, para a Globe Investimentos S.A., empresa do Grupo J&F

A empresa ainda não confirmou a conclusão da operação. Segundo o comunicado, a transação depende da aprovação do CADE e do cumprimento dos demais procedimentos necessários para o fechamento.

A informação, no entanto, confirma que existe uma operação formal em andamento para transferir o controle da empresa para a J&F, grupo controlado pelos irmãos Joesley e Wesley Batista. Porém, o valor da transação não foi divulgado.

A Avibras Aeroco Indústria Aeroespacial Ltda. (“Avibras Aeroco”) foi informada pelo Brasil Crédito Gestão Fundo de Investimentos em Participações Multiestratégia (“Fundo Brasil Crédito”) que uma transação foi submetida à análise do Conselho Administrativo de Defesa Econômica (CADE). Caso seja aprovada e desde que sejam concluídos os trâmites necessários para o fechamento, a transação resultará na venda da totalidade das ações da Nova AVB S.A., controladora integral da Avibras Aeroco, para a Globe Investimentos S.A. (Globe), empresa do Grupo J&F.

A companhia manterá o mercado informado sobre eventuais desdobramentos da operação.

Jacareí, 21 de agosto de 2026.

A Avibras Aeroco Indústria Aeroespacial Ltda.


Uma mudança que vai além da estrutura societária

A possível aquisição ocorre poucos meses depois da Avibras retomar suas atividades industriais, após atravessar uma das crises mais graves de sua história.

A empresa entrou em recuperação judicial em março de 2022, com uma dívida estimada em cerca de R$ 600 milhões. A crise atingiu diretamente seus trabalhadores e a capacidade produtiva da companhia. Em setembro daquele ano, teve início uma greve que se prolongou por 1.281 dias e terminou somente neste ano, após um acordo envolvendo aproximadamente R$ 230 milhões em dívidas trabalhistas, com a produção foi retomada em maio de 2026.

É nesse ponto que a possível entrada da J&F ganha importância. O grupo não estaria assumindo uma empresa simplesmente em processo de recuperação, mas uma empresa que acabou de reconstruir sua capacidade industrial e começa novamente a operar.

O desafio de reconstruir uma empresa estratégica

A Avibras ocupa uma posição particular dentro da Base Industrial de Defesa brasileira. Ao longo de décadas, acumulou competências em engenharia, foguetes, mísseis, sistemas de artilharia e integração de sistemas, tornando-se uma das empresas nacionais com maior conhecimento acumulado no desenvolvimento de sistemas de defesa de alta complexidade.

O principal patrimônio da companhia, nesse sentido, não está apenas em suas instalações ou equipamentos. Está também na engenharia, nos profissionais especializados, nos processos industriais e no conhecimento tecnológico acumulado ao longo de décadas. É justamente esse patrimônio que precisa ser preservado durante o processo de recuperação.

A entrada de um grupo empresarial de grande capacidade financeira pode criar condições para isso, mas dinheiro, isoladamente, não resolve o problema. Uma empresa de defesa precisa de contratos, previsibilidade de demanda, investimentos em pesquisa e desenvolvimento e uma estratégia industrial de longo prazo.

No caso da Avibras, essa equação é ainda mais importante porque seus principais produtos dependem de ciclos de desenvolvimento e aquisição que não podem ser tratados como negócios convencionais de curto prazo.

O papel do Estado será determinante

A possível mudança de controle também ocorre no momento de aproximação entre a empresa e o governo brasileiro.

Em julho, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva visitou a unidade da Avibras Aeroco em Jacareí, já durante o processo de retomada industrial. A presença do presidente demonstrou o peso político e estratégico atribuído à recuperação da companhia.

Mas a experiência recente da própria Avibras mostra que apoio institucional precisa ser acompanhado por previsibilidade e execução. A empresa passou anos enfrentando dificuldades financeiras enquanto programas importantes para sua capacidade produtiva dependiam de decisões orçamentárias e de contratos capazes de sustentar a continuidade industrial.

Essa é uma das questões que estarão no centro da nova fase: a capacidade de transformar a recuperação societária e financeira em uma recuperação industrial sustentável. Para isso, será necessário combinar capital privado, encomendas governamentais, continuidade dos programas estratégicos e investimentos em novas tecnologias.

Uma nova oportunidade, mas sem garantias

A operação ainda precisa cumprir as etapas regulatórias e não significa neste momento que a J&F já tenha assumido a Avibras. Mas, sendo concluída esta fase regulatória, representará uma mudança significativa na estrutura de controle da empresa.

Para a Avibras, pode ser uma oportunidade de deixar definitivamente para trás o ciclo de recuperação judicial, paralisação e incerteza financeira, enquanto para o setor de defesa brasileiro o que importa será o resultado dessa mudança.

A entrada de um novo controlador só terá significado estratégico se for acompanhada pela recuperação efetiva da capacidade produtiva, pela manutenção do conhecimento tecnológico e pela retomada de projetos capazes de garantir à empresa uma posição sustentável no mercado de defesa nacional e internacional.

A Avibras chega a esse possível novo capítulo depois de recuperar sua produção, mas ainda precisa recuperar plenamente sua capacidade de desenvolvimento e crescimento. O desafio agora é transformar uma empresa que sobreviveu à crise em uma empresa capaz de voltar a crescer.

E esse processo dependerá tanto da estratégia da J&F quanto da capacidade do Estado brasileiro de oferecer à sua Base Industrial de Defesa aquilo que historicamente tem sido um dos seus maiores problemas: previsibilidade para investir, produzir e desenvolver tecnologia no longo prazo.


GBN Defense - A informação começa aqui

Continue Lendo...

U-MAV: novo veículo anfíbio da FNSS leva sistemas não tripulados ao desembarque

0 comentários

 

A FNSS apresentou durante o TEKNOFEST Mavi Vatan 2026, o "İ-ZAHA", também denominado U-MAV, um veículo anfíbio não tripulado desenvolvido para atuar justamente na fase mais vulnerável de uma operação de desembarque: o primeiro contato com a costa defendida.

Com cerca de oito toneladas, o veículo foi concebido para operar à frente dos veículos anfíbios tripulados ZAHA, já empregados pelas Forças turcas, dentro de um conceito de integração entre sistemas tripulados e não tripulados, conhecido como MUM-T. A proposta é simples em sua lógica operacional: colocar a plataforma não tripulada onde o risco é maior e manter os militares em posição mais protegida.

A apresentação ocorre no momento em que a sobrevivência das forças anfíbias passou a ser um desafio ainda maior. A disseminação de drones, sensores, minas, munições guiadas e sistemas anticarro aumentou a capacidade de uma força defensora de identificar e engajar uma formação de desembarque ainda antes que ela consiga consolidar uma cabeça de praia. Nesse cenário, retirar a tripulação da primeira plataforma a alcançar a praia pode representar uma mudança importante na forma de conduzir a operação.

Uma plataforma para abrir caminho

O "İ-ZAHA" foi projetado para realizar o primeiro contato com as defesas costeiras antes dos veículos tripulados. Sua função, porém, vai além de simplesmente chegar primeiro à praia. Pois sua arquitetura modular permite configurar o veículo para dez diferentes missões, incluindo apoio de fogo, desminagem, engenharia de combate, guerra eletrônica, reconhecimento, dissimulação, combate a drones, navegação e marcação de obstáculos, apoio logístico e evacuação de feridos.

Os módulos podem ser substituídos em aproximadamente 40 minutos segundo a FNSS, permitindo adaptar a plataforma ao perfil da missão. Além disso, diferentes configurações podem atuar simultaneamente na mesma operação, criando uma força distribuída em que cada veículo desempenha uma função específica.

A plataforma também foi concebida para permanecer útil depois do primeiro contato com a praia. Durante a aproximação dos ZAHA tripulados, uma variante de apoio de fogo pode fornecer cobertura, enquanto outras podem marcar obstáculos, realizar reconhecimento ou atuar contra drones.

Depois da conquista da cabeça de praia, os veículos podem continuar empregados em missões de vigilância, proteção contra drones, logística e evacuação de baixas. A FNSS prevê, inclusive, capacidade para transportar aproximadamente 400 kg de carga na configuração logística.

Do mar para a terra

O İ-ZAHA combina capacidade anfíbia com mobilidade terrestre. Segundo a FNSS, o veículo alcança 7 nós na água e 70 km/h em terra, utilizando um conjunto propulsor de 300 hp para um peso de combate de aproximadamente oito toneladas.

Essa característica permite que o veículo realize a transição do mar para a terra sem interromper sua progressão, algo essencial em operações de desembarque, na qual a passagem entre os dois ambientes representa uma das fases de maior exposição.

A plataforma pode ser empregada de forma remota e também incorpora recursos para operação autônoma, permitindo que o nível de intervenção humana seja ajustado de acordo com a situação operacional. A FNSS também destaca a possibilidade de emprego coordenado de múltiplas unidades.

A lógica por trás do projeto

O conceito do İ-ZAHA parte de uma constatação que ganhou força nos conflitos recentes: uma operação anfíbia tradicional concentra grande quantidade de pessoas e equipamentos em uma área previsível, justamente quando a força atacante ainda não estabeleceu controle sobre a costa.

Minas, obstáculos, armas anticarro, drones e sistemas de observação podem ser empregados para canalizar o avanço e criar zonas de engajamento. Ao inserir veículos não tripulados antes da chegada da força tripulada, o atacante passa a ter a possibilidade de realizar algumas dessas tarefas sem expor imediatamente seus operadores.

A FNSS aproveitou a experiência adquirida com o desenvolvimento do ZAHA tripulado para criar a nova plataforma. Segundo o CEO da empresa, Selim Baybaş, a ideia de desenvolver uma versão não tripulada surgiu aproximadamente seis meses antes da apresentação, com a empresa recorrendo a equipamentos e subsistemas já testados em outros programas para acelerar o desenvolvimento.

Esse aspecto é relevante porque demonstra uma estratégia diferente da criação de um sistema completamente novo a partir do zero. A indústria turca está procurando transformar tecnologias já maduras em novas capacidades, reduzindo o tempo entre o desenvolvimento e a disponibilidade operacional.

Uma nova camada para a guerra anfíbia

O İ-ZAHA ainda precisa avançar em seu processo de desenvolvimento e demonstração operacional, mas seu conceito aponta para uma tendência que começa a ganhar espaço nas forças armadas: a substituição da primeira exposição humana por plataformas não tripuladas.

No caso turco, essa mudança está sendo construída em torno de uma arquitetura que mantém os veículos tripulados no centro da operação, mas utiliza sistemas autônomos e remotamente controlados para ampliar sua capacidade de sobrevivência e reduzir os riscos da aproximação.

O resultado é uma força anfíbia mais distribuída, na qual os veículos não tripulados podem assumir tarefas de reconhecimento, abertura de passagem, apoio de fogo, guerra eletrônica, proteção contra drones e logística, enquanto os veículos tripulados avançam para consolidar a cabeça de praia.

Mais do que um novo veículo anfíbio, o İ-ZAHA representa uma tentativa de adaptar o desembarque às condições de um campo de batalha no qual a vantagem não está apenas em chegar primeiro à costa, mas em sobreviver ao contato inicial e manter o ritmo da operação.

A experiência da Türkiye nesse campo merece atenção justamente por combinar uma plataforma já operacional, o ZAHA, com uma nova camada não tripulada desenvolvida para trabalhar ao seu lado. É uma abordagem que pode antecipar como as futuras operações anfíbias serão conduzidas: com homens ainda presentes na primeira onda, mas cada vez mais protegidos por máquinas enviadas à frente para assumir as missões de maior risco.


GBN Defense - A informação começa aqui

Continue Lendo...

Após deixar o estaleiro, "Jerônimo de Albuquerque" inicia a primeira fase de suas provas de mar

0 comentários

 

A Fragata "Jerônimo de Albuquerque" (F201), segundo navio do Programa Fragata Classe Tamandaré (PFCT), iniciou no último dia 12 de agosto uma nova e importante etapa de sua preparação para a entrega à Marinha do Brasil. Construído pela TKMS Estaleiro Brasil Sul, em Itajaí (SC), o navio deixou o estaleiro para realizar sua primeira fase de Provas de Mar.

A saída da "Jerônimo de Albuquerque" representa um avanço importante no cronograma do programa. Depois das etapas de construção, lançamento e preparação, a fragata passa agora a ser submetida a testes em condições reais de operação, permitindo avaliar o comportamento da plataforma e o funcionamento de seus principais sistemas antes das fases seguintes de comissionamento.

Ao longo dos próximos dias, equipes de engenharia da TKMS, trabalhando em conjunto com a tripulação da Marinha do Brasil, deverão avaliar a manobrabilidade e o desempenho da fragata, além dos sistemas de navegação, comunicações e proteção.

Essa primeira fase é fundamental para verificar se a plataforma responde conforme o previsto em projeto e para identificar eventuais ajustes necessários antes do avanço para testes mais complexos.

O caminho até a capacidade operacional

Concluídas as provas iniciais, a "Jerônimo de Albuquerque" retornará ao estaleiro para a preparação da nova etapa: os testes e a integração do sistema de combate.

É nesse processo que uma fragata moderna começa efetivamente a demonstrar o conjunto de capacidades que justificam sua classificação como um navio de combate. Mais do que testar equipamentos individualmente, será necessário verificar a integração entre sensores, sistemas de comando e controle, comunicações e os diferentes recursos embarcados.

A capacidade de reunir informações, identificar ameaças e transformar esses dados em uma resposta coordenada é um dos elementos centrais da operação de uma fragata moderna. Por isso, a integração e a validação do sistema de combate representam uma das fases mais importantes e complexas de todo o processo de construção e comissionamento.

"Jerônimo de Albuquerque" segue, assim, os passos da Fragata "Tamandaré" (F200), primeira unidade da classe, cuja construção marcou o início da renovação da capacidade de escolta da Marinha do Brasil.

O programa ganha ritmo

A entrada da segunda fragata nas provas de mar também evidencia a evolução do próprio processo industrial estabelecido em Itajaí. A experiência acumulada com a construção da primeira fragata permite que o programa avance simultaneamente em diferentes etapas, com navios em construção, integração e testes.

Além da F200 "Tamandaré" e da F201 "Jerônimo de Albuquerque", o primeiro lote é composto pelas fragatas F202 "Cunha Moreira", já lançada ao mar, e a F203 "Mariz e Barros", que teve a construção iniciada.

O Programa Fragata Classe Tamandaré representa um marco para a indústria naval de defesa brasileira, sobretudo para o processo de renovação da Esquadra. As novas fragatas incorporam uma geração de navios significativamente mais modernos, preparados para operar no ambiente naval contemporâneo caracterizado pela crescente integração entre sensores, sistemas digitais, comunicações e diferentes tipos de armamentos.

Mas o avanço da "Jerônimo de Albuquerque" também reforça uma questão que o GBN Defense vem acompanhando de forma recorrente: a renovação da capacidade naval brasileira não pode depender de iniciativas isoladas. A entrega das quatro fragatas será um passo importante, mas a manutenção de uma Esquadra compatível com as responsabilidades do Brasil no Atlântico Sul exigirá continuidade, planejamento e principalmente, previsibilidade de recursos.

Por enquanto, a "Jerônimo de Albuquerque" cumpre mais uma etapa de seu próprio caminho até a incorporação. A partir de agora, as provas no mar permitirão avaliar, fora do ambiente controlado do estaleiro, o desempenho de uma plataforma que em breve deverá se somar à nova geração de meios de superfície da Marinha do Brasil.


GBN Defense - A informação começa aqui

Continue Lendo...

sexta-feira, 21 de agosto de 2026

ASELSAN lança ao mar o TUFAN, novo veículo naval kamikaze da Türkiye

0 comentários

A guerra naval vive um momento de transformação acelerada, impulsionado pela combinação entre sistemas não tripulados, autonomia e novas formas de emprego assimétrico do poder militar. Dentro desse movimento, a Aselsan deu mais um passo importante ao colocar o TUFAN na água pela primeira vez durante o TEKNOFEST Mavi Vatan, realizado entre os dias 20 e 23 de agosto.

Desenvolvido como um Veículo de Superfície Não Tripulado (USV - na sigla em inglês) voltado para missões de ataque, o TUFAN representa a aposta da indústria de defesa turca na nova geração de plataformas capazes de combinar velocidade, baixa detectabilidade, autonomia e poder destrutivo em uma embarcação de dimensões relativamente reduzidas.

A apresentação pública do sistema ocorre em um momento particularmente significativo para o desenvolvimento da guerra naval. Os conflitos recentes demonstraram, especialmente no Mar Negro, que plataformas não tripuladas de superfície podem representar uma ameaça relevante mesmo contra forças navais tradicionais, impondo novos desafios à proteção de navios, bases e infraestruturas estratégicas.

Uma nova ferramenta para a guerra naval assimétrica

O TUFAN foi concebido para atuar como uma embarcação kamikaze, capaz de transportar uma ogiva de alto explosivo e atingir alvos de superfície ou instalações críticas localizadas em áreas costeiras.

Segundo as informações divulgadas pela Aselsan, a plataforma poderá operar de forma individual ou integrada a outras unidades, permitindo a realização de ataques coordenados em enxame. Essa capacidade amplia consideravelmente a complexidade da defesa do alvo, que pode ser obrigado a lidar simultaneamente com múltiplas ameaças aproximando-se por diferentes direções.

Outro aspecto central do projeto é o elevado grau de autonomia. O TUFAN está sendo desenvolvido para detectar e evitar obstáculos móveis e estacionários, além de utilizar recursos de identificação e engajamento de alvos baseados em sensores e processamento de imagens.

A combinação desses recursos aponta para uma mudança importante na lógica de emprego dessas plataformas. Não se trata apenas de uma embarcação controlada remotamente carregando explosivos, mas de um sistema que busca incorporar diferentes níveis de autonomia e capacidade de atuação coordenada.

Aselsan descreve o TUFAN como uma plataforma de baixa visibilidade, alta velocidade e elevada manobrabilidade, características fundamentais para uma embarcação concebida para penetrar áreas defendidas e reduzir o tempo disponível para a reação do adversário.

Do conceito à entrada em serviço

O TUFAN havia sido apresentado publicamente pela primeira vez durante a SAHA 2026, realizada em maio deste ano. Na ocasião, o diretor-geral da Aselsan, Ahmet Akyol, afirmou que a plataforma foi otimizada especificamente para missões kamikaze, destacando sua baixa assinatura, velocidade, capacidade de transportar uma ogiva de grande poder e possibilidade de emprego em ataques coordenados.

O planejamento divulgado pela empresa prevê a entrada do TUFAN em serviço a partir de 2027, um cronograma que demonstra a velocidade com que a Türkiye vem buscando transformar conceitos e protótipos em capacidades operacionais.

O lançamento ao mar durante o TEKNOFEST representa uma etapa concreta no processo de desenvolvimento da plataforma e oferece um primeiro indicativo de que o programa avança para além da fase de apresentação conceitual.

TUFAN na superfície, KILIÇ sob as ondas

A estratégia da Aselsan não se limita às operações de superfície. Durante a SAHA 2026, a empresa também apresentou o KILIÇ, descrito como o primeiro veículo subaquático kamikaze autônomo desenvolvido na Türkiye.

Enquanto o TUFAN foi projetado para atacar navegando na superfície, o KILIÇ foi concebido para operar abaixo dela. O sistema pode ser lançado a partir de plataformas terrestres ou navais e deverá contar com autonomia para executar missões de longa distância e realizar ataques contra diferentes tipos de alvos.

A apresentação conjunta dos dois sistemas revela uma visão mais ampla da Aselsan sobre o futuro da guerra naval. A intenção é desenvolver capacidades capazes de atuar em diferentes camadas do ambiente marítimo, combinando veículos de superfície e subaquáticos em operações potencialmente coordenadas.

Essa abordagem pode oferecer à Marinha turca novas opções para operações de negação do mar, defesa costeira e ataques contra unidades navais ou infraestruturas estratégicas, especialmente em cenários nos quais o emprego de navios de combate convencionais envolveria riscos ou custos significativamente maiores.

Mais do que o surgimento de uma nova plataforma, o TUFAN evidencia uma tendência que já começa a redefinir o planejamento naval: o futuro das forças marítimas não será composto apenas por navios maiores, submarinos e aeronaves. Em paralelo às plataformas tradicionais, cresce a importância de sistemas não tripulados capazes de operar em grande número, assumir missões de alto risco e explorar vulnerabilidades que, até poucos anos atrás, dificilmente seriam consideradas uma ameaça relevante.

Para a Türkiye, que vem ampliando de forma consistente sua autonomia tecnológica e industrial no setor naval, o TUFAN e o KILIÇ representam mais um passo nessa direção. E para as marinhas que acompanham a rápida evolução da guerra não tripulada, o desenvolvimento desses sistemas reforça uma realidade cada vez mais evidente: a superfície e as profundezas do mar estão se tornando espaços onde quantidade, autonomia e capacidade de coordenação podem ser tão importantes quanto o tamanho e o poder de fogo das plataformas tradicionais.


GBN Defense - A informação começa aqui

Continue Lendo...

USS George Washington deixa o Pacífico sem porta-aviões americano e expõe os limites da presença naval dos EUA

0 comentários

A chegada do porta-aviões nuclear USS George Washington (CVN-73) ao Oriente Médio, nesta semana, encerrou uma movimentação que merece ser observada para além da substituição de um navio por outro. Normalmente baseado em Yokosuka no Japão, o USS "George Washington" foi deslocado para assumir a missão do USS "Abraham Lincoln" (CVN-72), que permaneceu por mais de 250 dias empregado em operações relacionadas à guerra contra o Irã. Com a transferência, o Pacífico Ocidental ficou temporariamente sem um porta-aviões nuclear norte-americano destacado, justamente em uma região onde Washington procura sustentar sua principal competição estratégica com a China.

A situação não significa que os Estados Unidos tenham deixado o Indo-Pacífico sem capacidade militar. A região continua abrigando uma extensa infraestrutura americana, forças aéreas baseadas em terra, submarinos de propulsão nuclear, navios de superfície, unidades do Corpo de Fuzileiros Navais e, sobretudo, uma rede de alianças que amplia consideravelmente a capacidade de resposta de Washington. O que desaparece, porém, é um componente específico dessa arquitetura: a presença permanente de um grande grupo aeronaval capaz de deslocar dezenas de aeronaves de combate, sensores e meios de apoio para diferentes pontos do teatro sem depender de uma base terrestre.

É justamente essa diferença que torna o movimento relevante. A saída do USS "George Washington" não representa um colapso da presença americana no Pacífico, mas expõe uma dificuldade muito mais concreta: a capacidade de Washington de sustentar simultaneamente compromissos militares em diferentes teatros está sendo pressionada pela combinação entre emprego operacional prolongado, ciclos de manutenção e limitações da própria frota.

O que realmente muda com a saída do USS George Washington

O papel do USS "George Washington" precisa ser compreendido dentro do modelo de presença avançada adotado pela Marinha dos Estados Unidos. O navio não estava simplesmente “estacionado” no Japão. Sua presença fazia parte de uma arquitetura destinada a manter uma força de combate imediatamente disponível no Pacífico Ocidental, reduzindo o tempo necessário para que Washington respondesse a uma crise envolvendo Japão, Taiwan, Filipinas ou outros pontos estratégicos da região.

Essa lógica é especialmente importante no Indo-Pacífico porque as distâncias são enormes. Uma força naval deslocada a partir da costa oeste dos Estados Unidos precisa percorrer milhares de quilômetros antes de chegar ao teatro. Um porta-aviões já baseado no Japão, por outro lado, começa o deslocamento muito mais próximo das áreas de interesse. A diferença entre possuir uma força no teatro e possuir a capacidade de enviá-la ao teatro pode parecer pequena em termos administrativos, mas, diante de uma crise, pode representar dias ou semanas de diferença na geração de poder de combate.

Por isso, a ausência do USS "George Washington" não deixa o Pacífico indefeso, mas reduz temporariamente uma das opções mais flexíveis de resposta de Washington. A aviação baseada em terra continua disponível, assim como submarinos e outros navios, mas nenhum desses elementos reproduz integralmente a combinação de mobilidade, autonomia e capacidade de geração de poder aéreo proporcionada por um Carrier Strike Group.

O efeito, portanto, deve ser medido menos pela quantidade absoluta de forças americanas que permanecem na região e mais pela redução da redundância operacional. Enquanto o USS "George Washington" estava no Japão, Washington possuía uma ferramenta adicional de resposta imediata. Com sua saída, essa margem diminui.

A substituição que revela o problema

A razão para essa redução é igualmente importante. O USS "George Washington" não foi retirado do Pacífico porque a região deixou de ter importância, mas porque outro teatro passou a exigir a presença de um porta-aviões.

O USS "Abraham Lincoln" acumulou um dos mais longos períodos de emprego operacional da história recente da Marinha americana, permanecendo mais de 250 dias no mar em apoio às operações relacionadas ao conflito com o Irã. A extensão excepcional da missão produziu crescente preocupação com as condições enfrentadas pela tripulação e tornou necessária a substituição do navio.

Esse episódio é importante porque mostra como funciona, na prática, o ciclo de disponibilidade de uma força naval. Um porta-aviões não pode permanecer indefinidamente em operação sem que o emprego produza consequências sobre sua tripulação, seus sistemas, sua logística, e posteriormente ao seu calendário de manutenção. Quando uma missão se prolonga além do planejado, o problema não termina no momento em que o navio deixa a área de operações. O período adicional de emprego também altera os ciclos seguintes de preparação, manutenção e disponibilidade.

Foi necessário, portanto, encontrar outro porta-aviões para assumir a missão do USS Abraham Lincoln". O escolhido foi justamente o USS George Washington, o navio que desempenhava a função de presença avançada no Japão.

A Marinha resolveu uma necessidade imediata no teatro operacional, mas ao fazê-lo reduziu sua presença em outro. É nesse ponto que uma questão operacional começa a revelar uma limitação estratégica.

Onze porta-aviões não significam onze porta-aviões disponíveis

A situação também ajuda a compreender uma característica frequentemente ignorada quando se observa a força naval americana apenas pelos números do inventário. Os Estados Unidos possuem 11 porta-aviões nucleares, mas isso não significa que 11 estejam simultaneamente disponíveis para operações prolongadas.

Cada unidade passa por diferentes fases de seu ciclo de vida operacional, envolvendo manutenção, modernização, treinamento da tripulação, preparação para emprego e períodos de recuperação após missões. O número de navios disponíveis em determinado momento é, portanto, consideravelmente menor que o número total existente. Essa distinção entre força nominal e força disponível é fundamental para compreender o atual cenário.

Quando a demanda global é baixa, o sistema consegue absorver essas limitações com relativa facilidade. Um porta-aviões está no mar enquanto outro passa por manutenção; uma terceira unidade se prepara para o próximo emprego; outra pode permanecer em treinamento. O problema surge quando diferentes teatros passam a exigir presença prolongada ao mesmo tempo. É nesse momento que a estrutura começa a perder margem.

O emprego excepcionalmente longo do USS "Abraham Lincoln" não pode ser analisado isoladamente. Ele ocorreu em um período no qual a Marinha americana também precisava responder às demandas do Indo-Pacífico e manter presença em outros espaços estratégicos. O resultado é uma espécie de competição interna por ativos de alta capacidade, na qual cada prolongamento de missão aumenta a pressão sobre as unidades disponíveis para assumir a próxima tarefa.

A ausência do USS "George Washington" no Pacífico é, portanto, menos uma questão de quantidade absoluta de porta-aviões e mais uma demonstração da dificuldade de distribuir uma capacidade limitada entre compromissos globais simultâneos.

A distância entre a prioridade declarada e a disponibilidade real

Essa questão ganha maior peso quando colocada diante da própria estratégia americana para a Ásia.

A administração Trump apresentou o Indo-Pacífico como o principal teatro da competição estratégica com a China. Entretanto, a realidade operacional dos últimos meses demonstra que a Marinha precisa dividir seus recursos entre prioridades distintas, incluindo o conflito com o Irã e o reforço da atuação americana no hemisfério ocidental.

Isso não significa necessariamente que Washington tenha abandonado sua prioridade asiática. Estratégias nacionais não são executadas por um único tipo de plataforma e a presença militar americana na região permanece extensa. O problema é que a prioridade estratégica precisa ser traduzida em disponibilidade concreta de forças, e essa disponibilidade é condicionada por fatores que não podem ser resolvidos apenas por decisões políticas.

O USS George Washington ilustra exatamente essa diferença. A decisão de deslocá-lo para o Oriente Médio não elimina o compromisso americano com o Pacífico, mas demonstra que esse compromisso precisa ser administrado dentro de uma frota submetida a demandas simultâneas.

É uma diferença importante entre ter uma região como prioridade e possuir recursos suficientes para garantir presença máxima nela independentemente do que aconteça em outros lugares.

O problema começa nos estaleiros e chega ao mar

É nesse ponto que o episódio se conecta diretamente às duas análises anteriores do GBN Defense sobre a situação da US Navy. Em nossa análise sobre a decisão de Trump de abrir as encomendas navais americanas a estaleiros estrangeiros, mostramos como Washington passou a reconhecer a necessidade de ampliar rapidamente sua capacidade de construção e reparo diante das limitações da própria base industrial. Já em nossa análise sobre a pressão enfrentada pela US Navy, examinamos como falhas, manutenção e desgaste operacional vêm reduzindo a disponibilidade efetiva de parte da frota. As duas questões se encontram agora no Pacífico: a dificuldade de ampliar a frota e a necessidade de administrar cuidadosamente a disponibilidade dos navios existentes ajudam a explicar por que o deslocamento de um único porta-aviões pode produzir efeitos sobre diferentes teatros.

Como já discutimos, Washington está tentando ampliar novamente sua capacidade de construção naval ao mesmo tempo em que enfrenta atrasos, limitações de infraestrutura, mão de obra especializada insuficiente e dificuldades para manter o ritmo de produção necessário. O memorando assinado por Donald Trump em 13 de agosto reconheceu explicitamente problemas estruturais na base industrial naval americana e determinou medidas para ampliar a capacidade de construção e reparo, incluindo a possibilidade de recorrer, sob determinadas condições, a estaleiros estrangeiros. A importância desse movimento fica mais clara quando observamos o USS George Washington no Pacífico.

A disponibilidade de uma Marinha não depende apenas de quantos navios estão registrados em seu inventário. Depende da capacidade de mantê-los operacionais, reparar rapidamente aqueles que retornam de missões prolongadas e construir novas unidades em quantidade suficiente para ampliar a frota ou compensar os períodos de indisponibilidade.

Quando a capacidade industrial é limitada, a pressão sobre os navios existentes aumenta. Quando a demanda operacional também cresce, esses navios permanecem mais tempo empregados. O resultado é um ciclo no qual manutenção, disponibilidade e produção passam a influenciar diretamente a liberdade estratégica do comandante.

É justamente por isso que a decisão de Trump de buscar uma reconstrução da indústria naval americana não deve ser interpretada apenas como uma política econômica ou industrial. Ela responde a um problema militar: a necessidade de transformar capacidade potencial em disponibilidade operacional sustentada.

O caso do USS George Washington mostra o outro lado dessa equação. Mesmo que Washington consiga acelerar a construção de novos navios, isso não resolverá imediatamente a pressão atual. Um estaleiro ampliado não produz um porta-aviões de um dia para o outro, assim como uma nova linha de produção não reduz instantaneamente o tempo necessário para manutenção de uma unidade já existente. A indústria trabalha em anos; a estratégia precisa trabalhar em semanas.

O custo estratégico da ausência

Para a China, a situação não precisa ser interpretada como uma oportunidade para confronto direto. A ausência temporária de um porta-aviões americano não altera, por si só, o equilíbrio militar do Indo-Pacífico, que continua sendo determinado por uma combinação muito maior de forças, incluindo bases, aviação, submarinos, mísseis, sensores, logística e alianças. Mas a ausência pode ser explorada politicamente e operacionalmente.

Nos dias seguintes à saída do George Washington, a China realizou atividades navais envolvendo seus porta-aviões Liaoning e Fujian, incluindo operações no Mar Amarelo e no Mar do Sul da China. A coincidência não significa que os movimentos chineses tenham sido causados exclusivamente pela retirada americana, mas demonstra como Pequim pode aproveitar momentos de menor presença visível dos Estados Unidos para reforçar sua própria demonstração de capacidade.

Há ainda uma dimensão mais sensível: a percepção dos aliados. Japão, Filipinas, Coreia do Sul e Taiwan não avaliam a capacidade americana apenas pela quantidade de navios que os Estados Unidos possuem. Eles também observam qual força está efetivamente disponível no momento em que uma crise se inicia. A presença de um porta-aviões não substitui alianças nem garante, sozinha, dissuasão, mas funciona como um sinal concreto de que Washington mantém capacidade de gerar poder de resposta rapidamente dentro do teatro.

Quando esse ativo desaparece, ainda que temporariamente, abre-se uma discussão sobre a capacidade americana de responder simultaneamente a crises diferentes. E essa dimensão política pode ser tão importante quanto a militar.

O verdadeiro teste está na simultaneidade

O episódio do USS George Washington não permite concluir que a US Navy esteja perdendo sua superioridade ou que os Estados Unidos tenham deixado de ser a principal potência naval do mundo. Uma conclusão desse tipo ignoraria a dimensão extraordinária da força americana e a profundidade de sua rede de alianças e infraestrutura global.

O que o episódio permite observar é algo mais específico, e talvez, mais importante: a margem disponível para sustentar simultaneamente os compromissos globais americanos está sob pressão.

A Marinha dos Estados Unidos continua capaz de deslocar um Carrier Strike Group do Japão para o Oriente Médio em poucos dias. Essa é, por si só, uma demonstração extraordinária de mobilidade estratégica. Mas justamente essa capacidade também revela o custo de oportunidade da decisão: ao atender uma necessidade no Oriente Médio, Washington temporariamente reduz sua principal presença aeronaval avançada no Pacífico Ocidental.

Esse é o ponto que conecta o atual episódio à crise industrial e aos problemas de disponibilidade que já analisamos. O desafio americano não está simplesmente em possuir mais navios, mas em construir uma estrutura capaz de garantir que os navios existentes possam ser empregados, mantidos e substituídos em ritmo compatível com uma estratégia que exige presença simultânea em vários teatros.

A administração Trump já reconheceu parte desse problema ao colocar a reconstrução da indústria naval no centro de sua política de Defesa. O que o deslocamento do George Washington demonstra é que essa reconstrução não será apenas uma questão de aumentar o tamanho futuro da frota. Ela será necessária para recuperar margem estratégica.

Porque uma potência global pode possuir uma enorme frota, tecnologia superior e uma rede de bases sem precedentes, e ainda assim, encontrar dificuldades quando vários teatros exigem simultaneamente os mesmos recursos.

O USS George Washington deixou o Pacífico para aliviar um porta-aviões que permaneceu mais de oito meses operando um outro cenário estratégico. O movimento é perfeitamente compreensível do ponto de vista operacional e não representa, isoladamente, uma mudança no equilíbrio de poder do Indo-Pacífico. Mas ele revela algo que nossas análises anteriores já vinham apontando por outros caminhos: a pressão sobre a US Navy não está concentrada em um único problema de construção, manutenção ou emprego. Ela surge da interação entre todos eles.

É essa interação que começa a limitar a liberdade com que Washington pode distribuir sua força naval pelo mundo. E diante da competição estratégica de longo prazo com a China, essa talvez seja uma questão mais relevante do que a simples contagem de porta-aviões no inventário.


por Angelo Nicolaci


GBN Defense - A informação começa aqui


Continue Lendo...
 

GBN Defense - A informação começa aqui Copyright © 2012 Template Designed by BTDesigner · Powered by Blogger