A entrada em serviço da classe Tamandaré representa um dos movimentos mais importantes para a renovação da Esquadra brasileira nas últimas décadas. Depois de anos marcados pelo envelhecimento de suas principais escoltas, a Marinha do Brasil passa a incorporar uma plataforma concebida no século XXI, equipada com sistemas de combate integrados, sensores modernos e elevado grau de automação. O programa deve, portanto, ser compreendido como uma recuperação necessária da capacidade de presença e escolta da Força Naval.
Essa constatação, entretanto, não encerra o debate. Pelo contrário. A evolução do ambiente estratégico e da própria guerra naval durante o desenvolvimento das novas fragatas mostra que o Brasil precisa começar a discutir, desde já, qual será o próximo passo para sua capacidade de combate no mar.
A questão não é colocar em dúvida a importância da Tamandaré, mas reconhecer suas características e seus limites naturais. Uma plataforma concebida para recuperar o número de escoltas disponíveis não pode, por necessidade, ser transformada na resposta para todas as demandas futuras da Esquadra.
A própria origem do programa ajuda a compreender essa questão. O projeto que deu origem à Tamandaré nasceu de uma iniciativa voltada à obtenção de uma nova geração de corvetas para a Marinha do Brasil. Ao longo do processo, os requisitos foram ampliados e a plataforma evoluiu até ser classificada como fragata, resultando em um navio significativamente mais capaz do que as corvetas inicialmente previstas.
Essa trajetória não é apenas uma questão de nomenclatura. Ela ajuda a definir a posição que a Tamandaré ocupa dentro da futura Esquadra. Trata-se de uma plataforma moderna, equipada com sistemas contemporâneos e superior às tradicionais corvetas em diversos aspectos, mas que permanece dentro de uma faixa intermediária de deslocamento e capacidade. Sua concepção atende à necessidade de recuperar presença, disponibilidade e massa de escoltas, mas não elimina a necessidade de uma categoria de navios maior, concebida desde a origem para missões de maior intensidade e complexidade.
Os limites naturais de uma fragata de porte intermediário
É justamente nesse ponto que algumas características da classe Tamandaré merecem atenção. Não como falhas do projeto, mas como consequência das escolhas feitas para uma plataforma de cerca de 3.500 toneladas de deslocamento.
Uma delas está na guerra antissubmarino. A Tamandaré dispõe de sonar de casco, mas não incorpora um sonar rebocado. Essa diferença possui implicações importantes. O sonar de casco oferece uma capacidade relevante de detecção e acompanhamento de contatos submarinos, mas um sistema rebocado amplia as possibilidades de busca e permite explorar diferentes condições acústicas, aumentando a distância e a profundidade da capacidade de detecção.
Dentro do ambiente marítimo no qual submarinos modernos se tornam cada vez mais silenciosos, detectar o adversário antes que ele alcance uma posição favorável para o ataque pode ser tão importante quanto possuir os meios necessários para destruí-lo.
A defesa aérea representa outro ponto relevante. A Tamandaré possui recursos destinados à proteção do próprio navio e à defesa contra ameaças aéreas, mas sua configuração não corresponde à de uma escolta concebida para fornecer defesa aérea de área a uma força naval. Existe uma diferença importante entre defender a própria plataforma e criar uma zona de proteção capaz de cobrir outros navios de uma força-tarefa.
Essa segunda capacidade exige sensores de maior alcance, sistemas de comando e controle capazes de administrar um cenário aéreo mais complexo, e principalmente, um conjunto de armamentos suficiente para enfrentar ameaças antes que elas alcancem a zona terminal de defesa.
Também é necessário considerar o volume e o alcance do armamento que pode ser embarcado. Um escolta de porte intermediário, possui características que são naturalmente condicionadas pelo espaço disponível, pelo deslocamento e pela própria arquitetura da plataforma.
Em cenários de maior intensidade, a capacidade de manter um número maior de armas prontas para emprego e atingir ameaças a distâncias superiores passa a influenciar diretamente a sobrevivência do navio e a liberdade de ação da força naval.
Outro aspecto que só poderá ser plenamente avaliado com o tempo será o desempenho operacional dos modernos sensores e sistemas eletrônicos embarcados na classe. A qualidade e a sofisticação tecnológica desses equipamentos são conhecidas, mas sua eficácia como conjunto dependerá da experiência acumulada pela Marinha do Brasil durante o emprego operacional, exercícios e cenários cada vez mais exigentes.
Esses fatores não diminuem a importância da Tamandaré. Pelo contrário. Eles ajudam a definir com maior precisão o papel que ela deverá desempenhar, e principalmente aquilo que precisará ser exigido da próxima geração de escoltas brasileiras.
A guerra mudou durante o desenvolvimento da Tamandaré
A guerra na Ucrânia acelerou a percepção sobre o impacto dos sistemas não tripulados na guerra naval. Veículos de superfície não tripulados, drones aéreos, munições vagantes e ataques coordenados por diferentes vetores passaram a representar uma ameaça concreta para navios de guerra.
A experiência recente demonstrou que plataformas navais podem ser submetidas a ataques realizados por sistemas de custo relativamente baixo, empregados em quantidade e combinados com inteligência, reconhecimento, guerra eletrônica e outros meios convencionais. Isso não torna automaticamente inadequada uma fragata concebida antes dessa transformação. Mas altera os parâmetros que devem orientar os projetos seguintes.
Um navio de guerra permanece em serviço por décadas. Uma fragata projetada hoje poderá continuar navegando quando tecnologias que ainda parecem emergentes já estiverem maduras e novas formas de ataque tiverem transformado novamente o ambiente operacional.
Por isso, o próximo passo da Marinha não deveria ser simplesmente reproduzir a mesma arquitetura em um novo programa. O Brasil precisa aproveitar a experiência adquirida com a Tamandaré, incluindo suas capacidades e limitações, para desenvolver uma segunda camada de escoltas com maior deslocamento, entre 7.000 e 8.500 toneladas, e margem de crescimento tecnológico. É nesse ponto que surge a necessidade de discutir uma futura classe formada por quatro a seis fragatas de maior porte e maior capacidade de combate.
O objetivo não seria substituir as Tamandaré, mas complementar a força. As duas categorias cumpririam funções diferentes dentro de uma mesma arquitetura naval. As Tamandaré forneceriam volume, presença e capacidade multifuncional, enquanto as fragatas maiores concentrariam capacidades destinadas aos cenários de maior intensidade.
Mais espaço significa mais capacidade para evoluir
Uma fragata de maior deslocamento não representa apenas mais armas ou sensores. Um navio maior oferece mais volume interno, geração elétrica, capacidade de refrigeração, autonomia, estabilidade e margem estrutural para incorporar novas tecnologias ao longo de décadas.
Essa característica se torna cada vez mais importante em uma época na qual radares mais potentes, sistemas de guerra eletrônica, sensores avançados, defesa contra drones e futuras armas de energia dirigida exigirão maior disponibilidade de energia e processamento.
Uma nova classe poderia incorporar desde sua concepção uma capacidade antissubmarino mais ampla, combinando sonar de casco e sistemas rebocados, além do emprego de helicópteros e outros meios destinados à busca e ao acompanhamento de contatos submarinos.
Na defesa aérea, a diferença poderia ser ainda mais significativa. Além dos sistemas necessários para a autoproteção, uma fragata maior poderia dispor de uma arquitetura voltada à defesa aérea de área, contribuindo para proteger outras unidades e criando maior profundidade defensiva para uma força-tarefa.
O mesmo vale para a capacidade de ataque. Maior espaço e deslocamento permitem acomodar um conjunto mais amplo de armas e principalmente, preservar margem para incorporar novos sistemas durante a vida útil do navio.
O ambiente dos drones acrescenta outra variável. A proliferação de veículos aéreos não tripulados e veículos de superfície não tripulados exige que uma escolta moderna seja capaz de detectar, classificar e enfrentar múltiplas ameaças simultaneamente, sem depender exclusivamente de mísseis de alto custo para neutralizar sistemas muito mais baratos.
Guerra eletrônica, canhões com munição programável, sensores específicos, sistemas de curto alcance e futuramente armas de energia dirigida, deverão integrar uma arquitetura de defesa em camadas. Mais uma vez, espaço, energia e capacidade de crescimento serão fatores decisivos.
Uma Esquadra precisa de camadas
A discussão, portanto, não deveria ser sobre escolher entre quantidade e qualidade. Uma Esquadra formada apenas por grandes fragatas seria cara demais para garantir presença permanente em toda a extensão da Amazônia Azul. Por outro lado, uma força composta exclusivamente por escoltas de porte intermediário poderia encontrar limitações diante de ameaças que exigem maior alcance de detecção, defesa aérea de área, guerra antissubmarino mais profunda e maior capacidade de sobrevivência. A solução mais racional está justamente na combinação dessas duas categorias.
Oito Tamandaré poderiam formar a base quantitativa de uma nova geração de escoltas brasileiras, garantindo presença, disponibilidade e capacidade multifuncional. Sobre essa estrutura, quatro a seis fragatas de maior porte poderiam constituir um núcleo destinado às missões que exigem maior poder de detecção, defesa aérea, guerra antissubmarino, guerra eletrônica e capacidade para operar em ambientes de maior intensidade.
Essa arquitetura também permitiria distribuir melhor os meios disponíveis. Nem toda missão exige uma grande fragata, assim como nem toda ameaça pode ser enfrentada por uma escolta de porte intermediário. O equilíbrio entre as duas capacidades daria à Marinha maior flexibilidade para empregar seus recursos de acordo com o nível de ameaça e a importância da missão.
A Tamandaré não é o ponto final
O desafio, portanto, não é decidir se a Tamandaré é suficiente ou insuficiente. Ela é necessária e representa uma etapa fundamental para a reconstrução da capacidade de escolta da Marinha do Brasil. O verdadeiro risco seria considerar sua incorporação como o ponto final desse processo.
A Amazônia Azul possui dimensões que exigem presença constante, mas também concentra interesses econômicos e estratégicos que justificam a existência de meios capazes de operar em ambientes de maior ameaça. Petróleo, gás, infraestrutura submarina, cabos de comunicação, rotas marítimas, portos e outros recursos ampliam a importância de uma força naval capaz de proteger não apenas o litoral, mas os interesses brasileiros no mar.
A guerra contemporânea acrescentou uma variável que não pode mais ser ignorada: o adversário terá capacidade crescente para combinar sistemas relativamente baratos, numerosos e difíceis de detectar com mísseis de longo alcance, submarinos, guerra eletrônica e ataques multidomínio. A próxima escolta brasileira precisará nascer considerando esse ambiente, e não apenas reproduzindo os parâmetros que orientaram projetos anteriores.
A classe Tamandaré deve, portanto, ser vista como o início da reconstrução da Esquadra, e não como sua conclusão. O Brasil precisa de navios suficientes para estar presente em sua imensa área marítima, mas também precisa de plataformas capazes de concentrar maior poder de combate quando a presença, por si só, não for suficiente.
Da Niterói à Tamandaré, a Marinha do Brasil atravessou uma importante mudança geracional. O próximo passo será transformar as lições desse processo, incluindo as capacidades e limitações naturais da nova classe, em uma visão de longo prazo para a Esquadra.
A discussão sobre uma fragata de maior porte precisa começar antes que a atual geração esteja completa. Projetar, financiar, construir e incorporar um navio de guerra exige anos, muitas vezes décadas. As ameaças, por outro lado, evoluem em velocidade muito maior.
Esperar que a necessidade se torne urgente para começar a pensar na próxima geração seria correr o risco de repetir um problema que a própria história da renovação da Esquadra brasileira já demonstrou: quando o planejamento começa tarde, a capacidade operacional acaba chegando depois que a necessidade já se tornou crítica.
por Angelo Nicolaci
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