segunda-feira, 12 de setembro de 2011

Análise: O mundo após o 11 de setembro



Na manhã de 11 de setembro de 2001, as perspectivas dos Estados Unidos pareciam tão ensolaradas quanto o límpido céu azul sobre o centro de Manhattan. O preço do petróleo cru de Brent estava em US$28 o barril, o governo federal tinha um superávit orçamentário, a economia americana estava dando uma virada (embora de modo imperceptível) após o crash das empresas ponto.com. O país mais poderoso do mundo estava em paz.

Dez anos mais tarde, o preço do petróleo está em torno de US$115 o barril, o déficit orçamentário dos EUA é projetado para chegar a US$1,58 bilhão em 2011, o maior na história do país; a economia continua a enfrentar problemas profundos, após o crash financeiro de 2008; e os serviços militar e de inteligência americanos continuam em guerra, lutando contra insurgências e terrorismo islâmico radical, desde o Afeganistão e o Paquistão até o Níger e o Iêmen.

O almirante William Mullen, presidente do Estado-Maior Conjunto e prestes a deixar o cargo, descreveu a dívida nacional como a maior ameaça à segurança nacional dos EUA. O rebaixamento recente da classificação de crédito dos EUA, feito pela agência Standard & Poor's, parece confirmar o escorregar constante para baixo da superpotência. E, embora não exista narrativa linear conectando os ataques de setembro de 2001 à difícil situação econômica atual dos Estados Unidos, o custo da "guerra global ao terror" que se seguiu aos ataques que, já computada a inflação, chega a mais de US$ 2 trilhões já equivale a duas vezes o custo da Guerra do Vietnã.

A resposta do presidente George W. Bush ao ataque às torres gêmeas e ao Pentágono foi lançar duas guerras, contra o Afeganistão e o Iraque _um unilateralismo beligerante às expensas das alianças e das leis internacionais, e uma promoção quase evangélica da democracia liberal no Oriente Médio. As políticas intransigentes de sua administração fraturaram alianças na Europa e desencadearam uma queda acentuada na consideração em que a América é tida no exterior.

Do lado positivo dessa contabilidade, a América escapou até agora de outro ataque terrorista em seu próprio solo. Outros países não foram igualmente afortunados. As explosões de bombas em Bali (2002), Madri (2005) e Londres (2005) não foram em escala comparável ao 11 de setembro, mas fizeram várias centenas de vítimas. A Al Qaeda sofreu derrotas, mas não está inteiramente nocauteada.

Dezenas de CDs de computador recuperados no esconderijo de Osama bin Laden em Abbottabad, no Paquistão, sugerem que o líder da Al Qaeda, morto em maio deste ano em um ataque ousado de comandos da marinha americana, estava planejando outro ultraje espetacular, possivelmente para coincidir com o aniversário do 11 de setembro, neste fim de semana.

Ademais, o despertar árabe deste ano jogou por terra a ideia de que o Oriente Médio com a exceção de Israel seja congenitamente incapaz de aderir à democracia. Um a um, os autocratas da região, desde Zine el-Abidine Ben Ali, na Tunísia, até Hosni Mubarak, no Egito, vêm sendo derrubados por manifestantes que reivindicam dignidade, liberdade e empregos.

É verdade que a queda de Muammar Gaddafi, na Líbia, foi precipitada por rebeliões armadas que contaram com a ajuda de aviões de guerra da Otan; mas o presidente Bashar al-Assad, da Síria, pode tornar-se o próximo líder a sentir na nuca o sopro quente das ruas árabes.

A questão é se o muito vilipendiado Bush estava certo ao argumentar que o status quo autocrático no Oriente Médio gerava uma incubadora de terrorismo radical islâmico, representando, consequentemente, um perigo real e imediato aos Estados Unidos. Se a resposta for "sim", então as falhas de sua administração se deveram menos a um diagnóstico falho, e mais a questões de execução.

Uma segunda pergunta relacionada é se a resposta militar da administração ao 11 de setembro representou um desvio caro e desproporcional de atenção e recursos, em um momento em que a forma do mundo estava sendo modificada pela ascensão de atores novos e poderosos, mais especialmente a China.

No período que se seguiu ao ataque às torres gêmeas, um alinhamento geopolítico comparável aos de 1815, 1945 ou 1989 pareceu estar tomando forma. Os EUA formou uma coalizão contra o terrorismo, coalizão que incluiu rivais como Rússia e China, além de países que no passado haviam sido vistos como párias, como Cuba, Irã e Sudão.

A resposta militar foi igualmente eficaz. Tendo identificado os responsáveis pelos ataques, os EUA montaram uma campanha improvisada e brilhante para derrubar o Taleban no Afeganistão. Forças especiais americanas se uniram a senhores de guerra e usaram poderio aéreo avassalador para quebrar o regime de Cabul em questão de semanas.

Embora os líderes especialmente o mulá Omar e Bin Laden tenham escapado, a rede Al Qaeda foi atacada e enfraquecida de modo implacável.

Em um ano os EUA tinham perdido a superioridade moral. O erro de Bush foi deixar claro que a mudança de regime no Iraque era apenas um passo no combate ao que ele descreveu como um "eixo do mal" que incluía o Irã, a Coreia do Norte e potencialmente outros adversários suspeitos de abrigarem ou darem apoio a terroristas. Da noite para o dia, os EUA passaram a ser retratados como país fora-da-lei.

Provocou receios a divulgação, em 2002, de uma doutrina revista de segurança nacional que rejeitava os conceitos de contenção e dissuasão da Guerra Fria. No lugar deles era proposta uma estratégia "voltada para frente" de ação militar preventiva, mudanças de regime e um novo tipo de guerra que avalizava a tortura e negava aos suspeitos de terrorismo os direitos previstos na Convenção de Genebra.

Assim a Guerra do Iraque foi travada sem o apoio de aliados tradicionais como Canadá, França e Alemanha, sem o apoio do Conselho de Segurança da ONU e sem provas conclusivas de que Saddam Hussein possuísse armas de destruição em massa que representassem uma ameaça imediata aos Estados Unidos. Quanto a aliados, o primeiro-ministro britânico, Tony Blair, dava cobertura política leal, apesar de o secretário de Defesa dos EUA, Donald Rumsfeld, ter declarado em tom de pouco caso que as forças do Reino Unido eram redundantes, em termos militares.

A Otan, que pela primeira vez havia evocado seu artigo 5 para convocar todos seus membros à defesa coletiva, foi igualmente deixada em segundo plano. O lema de Washington era "a missão determina a coalizão". Mas alianças seletivas funcionam nos dois sentidos. Até o final da década, aliados europeus estavam recorrendo a artifícios para optar por não participar de operações militares no Afeganistão, Iraque e Líbia. Foi a razão pela qual o secretário de Defesa dos EUA Bob Gates, antes de deixar o cargo este ano, avisou que a Otan estava rapidamente se tornando irrelevante.

Também a Europa emergiu diminuída _e não apenas durante o conflito líbio, em que a Alemanha optou por não participar, quanto Reino Unido e França começaram a ver suas munições se esgotarem em questão de semanas. No início do novo século, fortes com o sucesso do lançamento de uma nova união monetária, os líderes da Europa acordaram planos para fazer da União Europeia a zona econômica mais competitiva do mundo. Vista em retrospectiva, a muito falada agenda de Lisboa marcou uma cúpula de ambições coincidindo com o estouro da bolha ponto.com.

Dez anos depois, o próprio desenho original da união monetária europeia mostrou ser fundamentalmente falho. Os mecanismos de implementação de disciplina orçamentária foram ignorados pelos países membros grandes e pequenos, incluindo a Alemanha; economias periféricas na Grécia, Irlanda, Portugal e Espanha, que cresceram graças aos juros baixos, foram expostas como sendo pouco competitivas. O contágio nos mercados de títulos agora ameaça espalhar-se para a Itália, um membro "central" da zona do euro.

No segundo mandato de Bush, o discurso abrasivo deu lugar a uma abordagem mais moderada. Como força de ocupação no Afeganistão e Iraque, os EUA foram sugados para dentro do processo de construção nacional que Rumsfeld tinha criticado. Em uma confusão semelhante, o presidente Barack Obama e o primeiro-ministro britânico, David Cameron, declararam que uma ou as duas dessas missões eram militarmente vitais, mas então agiram como se fossem discricionárias, determinando um cronograma (político) para a retirada de suas tropas.

Os contadores vão avaliar em perto de US$2 trilhões a conta coletiva das guerras no Afeganistão e Iraque, em termos já ajustados para a inflação; mas Robert Zoellick, presidente do Banco Mundial e ex-vice-secretário de Estado dos EUA, argumenta que um país tão rico quanto os Estados Unidos pode arcar com esse custo.

Em 1948, diz Zoellick, o PIB per capita nos EUA era um quarto do que é hoje. No entanto, os americanos apoiaram prontamente a doutrina do presidente Truman para escorar as democracias na Europa e combater o comunismo em todo o mundo, ao custo de bilhões de dólares.

Se as sementes da transformação democrática vão ou não deitar raízes no Iraque é algo mais discutível. O muito elogiado "aumento forte e repentino" das tropas americanas no país salvou o Iraque do caos e da possível dissolução, mas as relações entre os grupos étnicos do país curdos, sunitas e a maioria xiita continuam precárias.

É possível afirmar que a deposição de Saddam Hussein permitiu que o Irã se tornasse a potência regional dominante, exercendo influência através do governo xiita em Bagdá. Enquanto isso, as ambições nucleares de Teerã continuam irrefreadas.

E o 11 de setembro não consolidou os esforços para fazer frente a outra ameaça séria à estabilidade regional, uma ameaça que ainda não foi resolvida: o conflito israelo-palestino.

Nem Bush, nem Obama conseguiram romper o impasse em torno dos territórios ocupados da Faixa de Gaza e Cisjordânia, além do status de Israel. Sucessivos primeiros-ministros israelenses, desde Ariel Sharon até Benjamin Netanyahu, vêm usando a guerra ao terror em proveito próprio, argumentando que concessões prejudicam a segurança de Israel e que entidades como o Hamas que ganhou as eleições na Faixa de Gaza em 2005, sem dificuldade são terroristas fazendo-se passar por representantes legítimos dos palestinos.

A despeito do foco sobre o combate ao terrorismo, os EUA ainda estavam alertas para as tendências geopolíticas mais amplas. O avanço mais importante se deu entre os EUA e a Índia, com a assinatura, em 2008, do acordo "123" de cooperação nuclear civil. A nova parceria estratégica entre Washington e Nova Déli não apenas oferece um contrapeso à ascensão da China, como também ao Paquistão, o aliado de longa data mas cada vez mais impossível de controlar que os EUA têm no sul da Ásia, também dotado de armas nucleares.

Contrastando com tudo isso, as relações sino-americanas equivalem a pouco mais que uma convivência intranquila. Pequim vê Washington, na melhor das hipóteses, como "nem amigo nem inimigo", e os EUA tomarem consciência com atraso do desafio lançado pela China a sua hegemonia no Pacífico. Pequim vem aplicando pressão a contragosto a seu vizinho nuclear norte-coreano, mas o fervor nacionalista faz com que a liderança continue neurálgica em relação ao Taiwan e agudamente sensível a disputas territoriais com o Japão, Coreia do Sul e Vietnã.

No final, o fato geopolítico mais importante dos últimos dez anos se deu não no campo de batalha, mas no sistema financeiro. A crise global dos bancos foi fruto de regulamentação falha e incentivos perversos aos bancos para que vendessem hipotecas a americanos pobres que não tinham meios de saldar esses financiamentos, e, também, da alavancagem gigantesca no sistema financeiro.

Essas distorções foram criadas em parte pelos desequilíbrios globais movidos pelo fato de americanos viverem com crédito barato e exportadores e poupadores chineses contribuírem para um enorme superávit de conta corrente.

Até o Grande Crash de 2008, esse carrossel financeiro continuava girando sempre, acontecesse o que acontecesse. Graças aos baixos custos da mão-de-obra, a China exportou deflação para o resto do mundo. A China financiou o déficit de conta corrente dos EUA ao reciclar seu próprio superávit em títulos do Tesouro americano. Hoje, três anos depois de iniciada a crise financeira, a economia mundial foi posta de ponta-cabeça. Os EUA estão enfraquecidos, a Europa foi jogada de escanteio e a Ásia se encontra em ascensão, por enquanto.

Considere a tendência histórica mais ampla. A participação da Ásia na economia global, em termos da paridade do poder de compra, vem subindo constantemente, passando de 8% em 1980 para 24% no ano passado. Vistos como um todo, os mercados acionários asiáticos hoje respondem por 31% da capitalização de mercado global, à frente da Europa, com 25%, e quase iguais aos EUA, com 32%. No ano passado a China superou a Alemanha, tornando-se a maior exportadora do mundo. Hoje os bancos chineses estão entre os maiores do mundo, em termos de capitalização de mercado.

Os números relativos às importações são igualmente reveladores: o mundo em desenvolvimento está se tornando um motor da economia global. Desde o consumo de cimento até o de ovos, a China lidera o mundo, e ela acaba de superar os EUA, tornando-se o maior mercado mundial de carros.

O apetite voraz da China por commodities está criando novas rotas comerciais, especialmente com potências emergentes como o Brasil. No ano passado a China superou os EUA como maior parceira comercial do Brasil. A América Latina, região que no passado era conhecida principalmente pela instabilidade, emergiu da crise praticamente ilesa. A pobreza vem diminuindo, as classes médias estão crescendo e os mercados de ativos estão a todo vapor.

Condoleezza Rice, que foi assessora de segurança nacional e secretária de Estado de Bush, certa vez descreveu a multipolaridade como uma teoria de rivalidade, um mal necessário. Em termos econômicos, a multipolaridade anuncia uma nova ordem em que a interdependência é a norma, e os EUA, embora ainda sejam avassaladoramente grandes, já não ocupam o papel de potência hegemônica.

Quanto ao legado do 11 de setembro, Gerard Lyons, economista chefe do Standard Chartered Bank, diz que as três palavras mais importantes nos últimos dez anos não foram "guerra ao terror", mas "made in China". Se as tendências atuais se mantiverem, ele acrescenta, as três palavras mais importantes da década atual serão "propriedade da China".

Fonte: Financial Times
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