segunda-feira, 7 de setembro de 2026

Exército avança nas tratativas pelo Bayraktar TB3 para a Aviação do Exército

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Nova diretriz incorpora drones ao Programa Estratégico AvEx e Drones, enquanto declaração do Comandante do Exército confirma conversas com a Türkiye e apuração do GBN Defense aponta o TB3 como potencial escolha para a futura capacidade de ataque

A transformação da Aviação do Exército Brasileiro começa a ganhar contornos mais claros, e os sistemas aéreos não tripulados aparecem no centro desse processo. Durante o Apronto Operacional da Operação Membeca 2026, realizado em 29 de julho no Campo de Instrução de Gericinó, no Rio de Janeiro, o Comandante do Exército confirmou que as conversas mais avançadas da Força envolvem drones de ataque de maior capacidade, em tratativas com a indústria da Türkiye.

A declaração ganhou ainda mais relevância diante de uma decisão formal tomada pelo Estado-Maior do Exército poucas semanas depois. Em 21 de agosto, foi publicada a Portaria EME/C Ex nº 1.805, que aprovou a atualização do Programa Estratégico do Exército Aviação do Exército e Drones (Prg EE Av Ex/Drones). O documento, divulgado no Boletim do Exército nº 35, de 28 de agosto, passa a incorporar de maneira explícita os sistemas não tripulados à evolução da capacidade da Aviação do Exército.

É nesse contexto que o Bayraktar TB3 ganha protagonismo. Segundo apuração do GBN Defense, o sistema desenvolvido pela Baykar é a solução que concentra a preferência brasileira dentro das tratativas conduzidas com a indústria turca. As negociações avançaram de forma significativa e o TB3 passou a ser tratado como a principal opção para dotar o Exército de uma capacidade de drones armados de maior porte.

A definição, contudo, ainda não foi formalizada publicamente pelo Exército Brasileiro. Por isso, embora a apuração indique uma escolha já estabelecida no âmbito das tratativas, não há neste momento contrato, quantidade de aeronaves, valor ou cronograma oficialmente anunciados. Segundo fontes com conhecimento das negociações, a expectativa é que algum contrato ou memorando relacionado ao processo possa ser anunciado entre meados de 2027 e o início de 2028. Trata-se de uma perspectiva associada ao andamento das negociações, e não de um calendário oficial divulgado pela Força.

O próprio Comandante do Exército havia indicado durante a coletiva da Membeca que o interesse brasileiro está concentrado em drones de ataque de maior capacidade, classificados como Categoria 3, capazes de atuar contra alvos com precisão. A fala colocou os sistemas não tripulados entre os projetos de aquisição mais avançados atualmente conduzidos pela Força.

A escolha do TB3 também não ocorre em torno de uma tecnologia ainda sem maturidade operacional. O sistema desenvolvido pela Baykar foi concebido para missões de inteligência, vigilância, reconhecimento, aquisição de alvos e emprego de armamento. Em 2026, o TB3 participou do exercício Steadfast Dart, da OTAN, realizando ataque de precisão contra alvo durante o treinamento, além de demonstrar sua capacidade de operação a partir do navio-aeródromo multipropósito TCG Anadolu.

Para o Exército Brasileiro, entretanto, o principal significado de uma eventual incorporação não estaria apenas na capacidade de lançar armamentos. O salto está na possibilidade de manter um sensor aéreo persistente sobre determinada área, ampliar a consciência situacional das tropas, identificar e acompanhar alvos e transmitir essas informações para os demais elementos da Força Terrestre.

Essa capacidade modifica a forma como a tropa pode enxergar o campo de batalha. Um sistema dessa categoria pode atuar como extensão dos sensores terrestres, apoiar a artilharia na aquisição de alvos, acompanhar movimentos adversários e, quando autorizado, realizar o engajamento sem expor uma tripulação humana. A lógica, portanto, não é simplesmente acrescentar uma aeronave armada ao inventário, mas ampliar o ciclo de detecção, decisão e emprego do poder de combate.

A atualização do programa estratégico demonstra que o Exército pretende estruturar essa capacidade dentro de uma arquitetura mais ampla. A Portaria nº 1.805 insere os drones no planejamento da Aviação do Exército e estabelece uma visão de longo prazo para a evolução das capacidades da Força. A iniciativa se soma a medidas anteriores relacionadas à implantação de estruturas dedicadas aos Sistemas de Aeronaves Remotamente Pilotadas, incluindo a previsão de uma Companhia SARP.

O drone, portanto, não aparece como um projeto isolado. Ele passa a fazer parte de uma transformação que envolve também a renovação dos meios tripulados da Aviação do Exército. A própria atualização do Programa Estratégico AvEx e Drones contempla a busca por uma nova aeronave multimissão para substituir o HA-1 Fennec, além da incorporação futura de helicópteros de médio porte e de ataque e de novas capacidades de transporte aéreo. O horizonte do programa se estende até 2040.

É justamente nessa arquitetura que o TB3 pode assumir um papel estratégico. Em vez de substituir aeronaves tripuladas, os drones de maior capacidade tendem a complementar helicópteros e demais meios aéreos, permitindo que cada plataforma seja empregada de acordo com suas características e reduzindo a exposição das tripulações em determinadas missões.

A aproximação com a indústria de defesa da Türkiye também ganhou uma dimensão política nos últimos dias. Em 24 de agosto, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva conversou por telefone com o presidente Recep Tayyip Erdoğan, quando os dois trataram da ampliação da cooperação bilateral em defesa e do aprofundamento de parcerias entre empresas dos dois países. A conversa ocorreu poucos dias depois da publicação da nova diretriz da AvEx e da confirmação, pelo Comandante do Exército, das tratativas com a indústria turca.

O interesse por drones de ataque de Categoria 3 coloca a indústria turca diante de uma oportunidade relevante no mercado brasileiro, mas, para o Brasil, a questão central não será apenas adquirir a aeronave. A incorporação de um sistema como o TB3 exigirá doutrina, formação de operadores, infraestrutura, enlaces de dados, integração com sistemas de comando e controle, logística, manutenção e disponibilidade de armamentos. A participação da Base Industrial de Defesa brasileira também será importante para transformar a aquisição em capacidade militar sustentável.

A efetividade dessa transformação, contudo, dependerá de um fator que vai além da decisão de incorporar novos sistemas: a previsibilidade orçamentária. A publicação de uma diretriz estabelece o caminho institucional, mas não garante, por si só, os recursos necessários para percorrê-lo. Um programa dessa dimensão exige investimentos continuados, capazes de sustentar não apenas a aquisição dos equipamentos, mas também sua integração, formação de pessoal, infraestrutura e desenvolvimento da doutrina.

Esse aspecto é particularmente relevante no caso de sistemas de maior complexidade como o TB3. O custo de uma capacidade militar não termina com a assinatura do contrato ou a entrega das aeronaves. Operar drones armados de maior porte exige horas de voo, manutenção, peças de reposição, treinamento permanente, link de dados, infraestrutura, sistemas de comando e controle e disponibilidade de armamentos. Sem uma previsão orçamentária capaz de sustentar essas despesas ao longo dos anos, existe o risco de transformar uma aquisição estratégica em capacidade subutilizada.

A experiência das Forças Armadas demonstra que modernização não se resume à incorporação de novos meios ao inventário. O verdadeiro resultado aparece quando o equipamento consegue permanecer operacional, integrado à doutrina e disponível para emprego quando necessário. Por isso, a atualização do Programa AvEx e Drones precisará ser acompanhada de uma política de financiamento compatível com seu horizonte até 2040, garantindo continuidade aos projetos e previsibilidade para a própria Base Industrial de Defesa.

Nesse sentido, o desafio colocado ao Exército e ao governo não será apenas viabilizar a eventual aquisição do TB3, mas assegurar que os recursos acompanhem o programa durante todo o seu ciclo de vida. A compra de uma capacidade sofisticada sem a correspondente garantia de recursos para mantê-la operando produziria apenas uma modernização parcial. Para que a transformação da Aviação do Exército produza efeitos concretos, será necessário transformar planejamento estratégico em compromisso orçamentário continuado.

O conjunto desses movimentos indica que o processo já ultrapassou a fase meramente conceitual, mas ainda terá de superar etapas decisivas até se transformar em uma capacidade operacional efetiva. A eventual formalização da escolha pelo TB3 será apenas uma delas. A partir daí, será necessário garantir recursos para aquisição, implantação e operação do sistema ao longo de seu ciclo de vida, além de estruturar a doutrina e a integração com os demais meios da Força Terrestre. 

Se a definição pelo Bayraktar TB3 for posteriormente formalizada, o Exército estará dando um passo importante na construção de uma capacidade ainda relativamente nova dentro da estrutura brasileira: o emprego de aeronaves remotamente pilotadas de maior porte com capacidade ofensiva integrada às operações terrestres.

Mais do que a aquisição de um novo vetor, estará em jogo a mudança da maneira como a Força Terrestre coleta informações, identifica alvos e emprega poder de combate. O desafio seguinte será transformar essa plataforma em capacidade militar permanente, integrada e sustentável.

A atualização do Programa indica que essa transformação já foi colocada no planejamento estratégico do Exército. A possível escolha do TB3 mostra, por outro lado, que o debate deixou de ser apenas sobre se o Brasil terá drones de ataque e passou a ser sobre qual sistema será responsável por inaugurar essa nova etapa da Aviação do Exército.


Por Angelo Nicolaci


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GÖKDENİZ: defesa de ponto e capacidade antidrone que podem interessar à Marinha do Brasil

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A configuração apresentada pelos Emirados Árabes Unidos para a lancha de patrulha FA-400, equipada com o sistema de defesa de ponto GÖKDENİZ 100/35StA da turca ASELSAN, e lançadores do foguete guiado LOGIR da sul-coreana LIG Nex1, chama atenção por uma razão que vai além da própria plataforma. O conjunto materializa uma tendência que vem ganhando espaço no ambiente naval: a necessidade de distribuir a capacidade antidrone por diferentes meios, combinando armas de menor custo e elevada disponibilidade com sensores e sistemas de comando capazes de enfrentar ameaças aéreas em quantidade crescente.

A experiência recente em conflitos no Oriente Médio e na Europa demonstrou que drones deixaram de representar apenas uma ameaça complementar e passaram a exigir respostas específicas das forças navais. Sistemas relativamente baratos podem ser empregados em grande número, obrigando os defensores a encontrar uma relação mais equilibrada entre custo, disponibilidade de munição e probabilidade de interceptação. Para navios de alto valor, essa equação é particularmente importante, porque empregar armamentos sofisticados e caros contra cada ameaça de baixo custo pode rapidamente comprometer a sustentabilidade da defesa.

É nesse cenário que uma solução como o GÖKDENİZ 100/35StA ganha relevância. O sistema utiliza dois canhões automáticos de 35 mm, com cadência combinada de aproximadamente 1.100 disparos por minuto, e pode empregar a munição ATOM 35, desenvolvida para aumentar a efetividade contra alvos aéreos de pequenas dimensões. Na configuração naval autônoma empregada pela Marinha Turca, o conjunto pode operar associado ao radar de busca CENK 200-N e ao sistema AKREP 100-N, que reúne recursos de controle de tiro e sensores eletro-ópticos.

A vantagem está na combinação entre sensor, controle de tiro e volume de fogo. Contra drones de pequeno porte, a capacidade de colocar uma grande quantidade de projéteis na trajetória do alvo pode oferecer uma alternativa mais sustentável do que recorrer sistematicamente a mísseis. Com a utilização de munição de fragmentação aérea, o sistema também pode aumentar a probabilidade de neutralização sem depender necessariamente de um impacto direto, característica particularmente útil contra alvos pequenos e de difícil engajamento.

A configuração dos Emirados acrescenta ainda o LOGIR, criando uma segunda opção de engajamento. O foguete guiado por imagem infravermelha permite o emprego no conceito de "fire and forget" (disparar e esquecer) e amplia o envelope de resposta contra determinados alvos. O resultado é uma arquitetura que combina diferentes tipos de armamento em uma mesma plataforma, permitindo ao operador escolher a resposta de acordo com a distância, o perfil e o comportamento da ameaça.

Para a Marinha do Brasil, esse conceito merece ser observado com atenção porque oferece uma possibilidade de complementar, e não substituir, os sistemas de defesa já existentes e planejados. A questão central não seria simplesmente adquirir outro sistema de armas, mas ampliar a quantidade de plataformas capazes de contribuir para a defesa antidrone, e ao mesmo tempo, preservar os armamentos de maior alcance e valor para as ameaças que realmente exigem esse nível de resposta.

Nas fragatas classe Tamandaré, por exemplo, um sistema de defesa de ponto dessa categoria poderia acrescentar uma camada específica contra drones e outras ameaças aéreas de baixa altitude. A integração teria de considerar espaço, peso, geração de energia, sensores e compatibilidade com o sistema de combate, mas o conceito é coerente com a necessidade de criar diferentes níveis de defesa em torno de uma plataforma de elevado valor estratégico. Uma fragata equipada com sensores adequados, guerra eletrônica, defesa de ponto e armamentos de maior alcance teria maior flexibilidade para administrar diferentes tipos de ameaça sem depender de uma única solução.

O mesmo raciocínio pode ser aplicado ao NAM Atlântico. Por suas dimensões, valor operacional e importância para as operações da Esquadra, o navio exige uma arquitetura defensiva capaz de lidar também com ameaças assimétricas. Drones podem ser empregados para reconhecimento, designação de alvos ou ataques diretos, e uma capacidade de defesa de ponto dedicada poderia funcionar como uma camada adicional para proteger a unidade contra sistemas que ultrapassem outras medidas de defesa.

É justamente nesse ponto que o conceito apresentado pelos Emirados pode oferecer uma reflexão mais interessante para a Marinha. A defesa antidrone não precisa estar concentrada exclusivamente nas plataformas de maior porte. Navios-patrulha e outras unidades menores, quando equipados de forma adequada e conectados a uma arquitetura de comando e controle, podem funcionar como elementos complementares de uma rede de proteção, ampliando a quantidade de sensores e armas disponíveis em determinada área.

O NPaOc Oiapoque é um exemplo de plataforma que poderia ser analisada sob essa perspectiva. Não se trata de transformar um navio-patrulha em uma unidade de defesa antiaérea, mas de avaliar até que ponto uma capacidade de defesa de ponto poderia ampliar sua utilidade em determinados cenários, especialmente em missões de patrulha, presença e proteção de áreas marítimas. A possibilidade de contar com mais unidades capazes de detectar e enfrentar drones poderia ser relevante em uma força que precisa distribuir sua presença por uma área marítima de dimensões continentais.

Essa lógica também altera a forma de pensar a defesa da Amazônia Azul. Uma arquitetura composta exclusivamente por grandes navios de combate oferece elevada capacidade individual, mas naturalmente limita o número de pontos que podem ser protegidos simultaneamente. A distribuição de sistemas antidrone por diferentes classes de embarcações permitiria criar uma malha mais ampla, na qual fragatas, navios de maior porte e unidades de patrulha poderiam contribuir, dentro de suas respectivas capacidades, para a vigilância e proteção de áreas de interesse.

O conceito dos Emirados é particularmente interessante porque nasce justamente da necessidade de ampliar essa distribuição. A FA-400, construída pela subsidiária ADSB do EDGE Group, passa a incorporar uma capacidade que normalmente seria associada a navios de combate mais sofisticados. Isso permite estudar uma abordagem na qual plataformas menores assumem parte da responsabilidade pela defesa de ponto e liberam os meios mais complexos para suas missões prioritárias.

Para o Brasil, essa possibilidade ganha importância quando considerada sob a perspectiva da relação entre quantidade e capacidade. A Marinha precisa proteger uma extensa área marítima, mas não seria economicamente viável imaginar que todos os seus pontos de interesse sejam permanentemente cobertos por navios de primeira linha equipados com os sistemas mais sofisticados disponíveis. A incorporação de capacidades antidrone em diferentes níveis pode oferecer uma alternativa para ampliar a cobertura sem necessariamente reproduzir o custo e a complexidade de uma fragata em cada plataforma.

O GÖKDENİZ também não parte de um estágio experimental. O sistema já foi selecionado para diferentes classes de navios de guerra turcos e para programas navais de países como Paquistão, Malásia, Ucrânia, Romênia, Turcomenistão e Filipinas. Essa presença internacional demonstra uma trajetória de integração naval que, embora não elimine os desafios de adaptação a uma plataforma brasileira, reduz os riscos associados à adoção de uma solução ainda imatura.

Outro ponto que deveria pesar em uma eventual avaliação brasileira é a possibilidade de integração com a Base Industrial de Defesa. Mais importante do que simplesmente importar uma torre seria estabelecer condições para que a indústria nacional participe da integração, manutenção, suporte e evolução da capacidade. A experiência brasileira em sensores, sistemas eletrônicos, comando e controle e armamentos cria espaço para que uma eventual solução estrangeira seja incorporada a uma arquitetura nacional, em vez de funcionar como um equipamento isolado.

Existe ainda uma questão econômica que tende a ganhar importância nos próximos anos. A proliferação dos drones está criando uma assimetria entre o custo do ataque e o custo da defesa. Quando um sistema não tripulado relativamente barato pode obrigar o defensor a utilizar uma arma de valor muito superior, o atacante passa a explorar justamente essa diferença. Uma combinação entre guerra eletrônica, armas de defesa de ponto, munições programáveis e armamentos guiados pode reduzir essa assimetria e preservar sistemas mais caros para alvos que efetivamente justifiquem seu emprego.

Nesse sentido, o GÖKDENİZ apresenta uma característica particularmente interessante para a Marinha do Brasil: pode ser encarado não apenas como um CIWS, mas como parte de uma arquitetura antidrone mais ampla. A combinação de sensores, canhões de 35 mm e munição ATOM 35, complementada no caso dos Emirados pelos foguetes LOGIR, oferece um conceito que pode ser adaptado a diferentes níveis de emprego e integrado a uma rede de defesa.

Para as fragatas classe Tamandaré, o NAM Atlântico e, em uma avaliação mais ousada, plataformas menores como o NPaOc Oiapoque, a discussão poderia começar justamente por esse conceito. A questão não seria simplesmente escolher um novo armamento, mas determinar como ampliar a capacidade de defesa de ponto e antidrone da Esquadra sem concentrá-la exclusivamente em poucas plataformas de alto valor.

A configuração adotada pelos Emirados oferece, portanto, uma referência concreta para esse debate. Ao combinar uma plataforma de menor porte, sensores, defesa de ponto e armas guiadas, o país está testando uma forma de distribuir a resposta contra drones e reduzir a dependência de navios de grande porte para determinadas funções. Para a Marinha do Brasil, que precisa conciliar extensão territorial marítima, disponibilidade de meios e restrições orçamentárias, acompanhar essa evolução e avaliar soluções como o GÖKDENİZ pode representar uma oportunidade de antecipar uma necessidade que já começa a se tornar central na guerra naval moderna.


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7 de Setembro: a guerra que a história oficial deixou à sombra da Independência do Brasil

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A imagem de D. Pedro I às margens do riacho Ipiranga, com a espada erguida e a proclamação da Independência, tornou-se uma das representações mais conhecidas da história brasileira. O episódio de 7 de setembro de 1822 ocupa, com razão, um lugar central na formação da memória nacional, mas a própria construção dessa memória acabou reduzindo a dimensão do processo que estava longe de terminar naquele momento. Quando D. Pedro rompeu politicamente com Portugal, o território brasileiro ainda estava longe de estar integralmente submetido à autoridade do novo governo, e em diferentes regiões, tropas portuguesas permaneciam mobilizadas e dispostas a resistir à separação.

A Independência, portanto, não pode ser compreendida apenas como o resultado de uma decisão tomada às margens do Ipiranga. A proclamação representou a ruptura política, mas sua consolidação exigiu uma combinação de negociação, mobilização militar, operações navais e confrontos armados que se estenderam por diferentes províncias entre 1822 e 1824. A historiografia especializada identifica esse período como o Período das Guerras de Independência do Brasil e destaca que esses conflitos tiveram papel fundamental na construção da unidade territorial do novo Império.

Isso não significa transformar a Independência brasileira em uma guerra semelhante à Revolução Americana ou às campanhas que marcaram a emancipação das colônias espanholas. O Brasil não viveu um único conflito nacional, conduzido por um comando central e desenvolvido de maneira contínua durante anos. A realidade foi muito mais fragmentada. Diferentes províncias apresentavam situações políticas próprias, enquanto tropas portuguesas, milícias locais, forças organizadas pelo governo de D. Pedro e grupos políticos com interesses distintos disputavam o controle das cidades, dos portos e das áreas estratégicas.

Essa característica ajuda a explicar por que a ideia de uma independência pacífica sobreviveu com tanta força. No centro político do processo, a ruptura foi relativamente rápida e não houve uma grande batalha em São Paulo ou no Rio de Janeiro que pudesse ser transformada no equivalente brasileiro de uma batalha decisiva. Nas províncias, entretanto, a realidade era diferente. Em algumas delas, a autoridade portuguesa somente seria afastada depois de meses de combates e operações militares.

A crise que levou ao confronto havia começado antes do 7 de Setembro. A Revolução Liberal do Porto em 1820, provocou uma profunda transformação na estrutura política do Império português e levou as Cortes a tentar recuperar o controle sobre o Brasil. O retorno de D. João VI para Lisboa e a permanência de D. Pedro no Rio de Janeiro aprofundaram uma disputa que rapidamente ultrapassou a questão da permanência ou não do príncipe no Brasil. O problema passou a ser a própria organização do Império e a definição de onde estaria o centro efetivo de autoridade.

As províncias brasileiras não responderam de maneira uniforme a essa crise. Algumas aderiram rapidamente ao projeto conduzido pelo Rio de Janeiro, enquanto outras permaneceram vinculadas às autoridades portuguesas ou apresentavam divisões internas entre grupos favoráveis a Lisboa e aqueles que apoiavam a separação. A presença de tropas portuguesas organizadas em pontos estratégicos tornava essa divisão ainda mais importante, porque a disputa política podia ser convertida rapidamente em confronto armado.

Na Bahia, essa transformação ocorreu de maneira particularmente violenta. Salvador permanecia sob o controle das forças portuguesas comandadas pelo general Inácio Luís Madeira de Melo, enquanto setores contrários à permanência portuguesa se organizavam no Recôncavo. A tensão que já vinha crescendo desde 1822 transformou-se em uma campanha militar que mobilizou tropas regulares, milícias e populações locais.

A Batalha de Pirajá, em 8 de novembro de 1822, tornou-se um dos principais episódios dessa campanha, mas o combate não encerrou a resistência portuguesa. Salvador continuou sob controle das forças de Madeira de Melo e passou a sofrer crescente pressão das forças favoráveis à Independência. A guerra assumiu então características de cerco, com a disputa pelo abastecimento e pelo controle das vias de comunicação tornando-se tão importante quanto os próprios combates terrestres.

A situação somente seria resolvida em 1823. O governo imperial precisava não apenas manter as forças terrestres mobilizadas, mas também impedir que Salvador continuasse recebendo reforços e suprimentos por via marítima. Essa necessidade levou a Independência para outro campo de batalha: o mar.

A criação de uma força naval capaz de enfrentar os portugueses foi uma das tarefas mais urgentes do novo governo. O Brasil possuía navios e homens familiarizados com a atividade marítima, mas não dispunha de uma estrutura naval plenamente organizada para conduzir uma campanha daquela dimensão. O governo imperial contratou então oficiais e marinheiros estrangeiros, entre eles o britânico Thomas Cochrane, que assumiu o comando da força naval brasileira.

Em abril de 1823, a esquadra deixou a Baía de Guanabara com a missão de atuar contra as forças portuguesas na Bahia. O bloqueio de Salvador tornou-se uma das principais operações militares da campanha e demonstrou a importância do poder naval para um país cuja dimensão territorial e extensão do litoral dificultavam a concentração de forças terrestres.

O resultado foi decisivo. Pressionadas pelo cerco terrestre e pela ação naval, as forças portuguesas abandonaram Salvador em 2 de julho de 1823. A retirada marcou a vitória das forças favoráveis à Independência na Bahia e transformou o Dois de Julho em uma das principais datas cívicas da história baiana. O episódio também demonstrou que o controle territorial pretendido pelo governo de D. Pedro dependia de operações militares coordenadas em terra e no mar.

Enquanto a Bahia concentrava uma das maiores campanhas do processo, o Piauí vivia sua própria guerra. A presença das forças portuguesas comandadas pelo major João José da Cunha Fidié e a mobilização de grupos favoráveis à Independência levaram ao confronto que ficaria conhecido como Batalha do Jenipapo, em 13 de março de 1823.

O combate teve características diferentes das grandes batalhas convencionais. As forças reunidas para enfrentar Fidié eram compostas em grande parte por homens mobilizados localmente e não possuíam o mesmo grau de organização e treinamento das tropas portuguesas. Ainda assim, a resistência dificultou a movimentação portuguesa e contribuiu para comprometer a capacidade de Fidié de manter sua campanha. A importância do Jenipapo está justamente nesse contexto mais amplo: a resistência local não precisava necessariamente destruir militarmente o adversário para produzir efeitos estratégicos sobre sua campanha.

A guerra também avançou para o Maranhão e o Pará, onde a situação política era particularmente sensível. A proximidade histórica e econômica dessas regiões com Portugal, associada à presença de forças portuguesas e às divisões entre grupos locais, fez com que a adesão ao novo Império não ocorresse simplesmente como consequência automática da proclamação realizada no Sudeste.

No Maranhão, a ação militar e naval foi fundamental para pressionar as forças contrárias à Independência. A utilização da esquadra brasileira permitiu ao governo imperial ampliar sua capacidade de coerção sobre uma região distante do centro político do país, enquanto as forças terrestres avançavam para consolidar o controle territorial.

No Pará, a situação foi igualmente complexa. A adesão da província ao Império ocorreu somente em agosto de 1823, depois de uma série de tensões e da atuação de forças ligadas ao novo governo. A incorporação dessas províncias tinha uma importância que ultrapassava a questão política local. Sem o controle do Norte, a pretensão de construir um Estado brasileiro territorialmente integrado permaneceria incompleta.

A dimensão geográfica do conflito é um dos elementos mais importantes para compreender sua natureza. As guerras de Independência não ficaram restritas à Bahia, ao Piauí, ao Maranhão e ao Pará. A historiografia identifica também mobilizações militares e confrontos relacionados ao processo em outras regiões, incluindo Ceará, Pernambuco, Rio de Janeiro, Espírito Santo e a então Província Cisplatina. Isso revela que a questão central não era apenas a declaração de independência feita por D. Pedro, mas a capacidade do novo governo de transformar sua autoridade política em controle efetivo sobre as diferentes partes do território.

A Província Cisplatina acrescentava ainda uma dimensão estratégica ao problema. A região, que naquele período integrava o território brasileiro, permanecia envolvida em uma situação política e militar própria e contava com forças portuguesas resistentes à nova ordem. As operações desenvolvidas naquela região fizeram parte do esforço de consolidação territorial do Império, embora seja necessário distingui-las da Guerra da Cisplatina de 1825 a 1828, que ocorreria posteriormente e terminaria com a criação do Uruguai independente.

A própria composição das forças envolvidas ajuda a afastar uma interpretação simplificada do conflito. Não havia apenas dois exércitos nacionais claramente definidos, um brasileiro e outro português, disputando um território perfeitamente delimitado. Havia tropas portuguesas, unidades formadas ou reorganizadas pelo governo imperial, milícias provinciais, voluntários, estrangeiros contratados e grupos locais que tinham interesses políticos específicos.

Em muitos lugares, a população também foi diretamente envolvida. A guerra atingiu áreas rurais, cidades e rotas comerciais, afetando o abastecimento e a circulação de pessoas e mercadorias. A formação de uma identidade nacional brasileira ainda estava em processo e não pode ser projetada retrospectivamente sobre todos aqueles que participaram dos combates. Muitos lutavam por suas comunidades, por seus interesses políticos locais ou contra a presença portuguesa sem necessariamente possuir a mesma concepção de nação que seria consolidada posteriormente.

Esse aspecto é fundamental porque permite compreender a Independência como um processo simultaneamente externo e interno. Havia uma guerra contra forças portuguesas que resistiam à separação, mas também havia uma disputa dentro do próprio território sobre quem deveria exercer autoridade e sobre qual modelo político deveria organizar o novo Estado. Por isso, embora seja inadequado definir todo o processo simplesmente como uma guerra civil, existia uma forte dimensão interna nos confrontos que acompanharam a ruptura com Portugal.

Essa realidade também ajuda a compreender por que a Independência não terminou militarmente com a expulsão das principais forças portuguesas. O novo Império ainda precisava enfrentar a questão da autoridade central sobre as províncias. Em 1824, a Confederação do Equador demonstrou que o conflito em torno da organização política do Brasil continuava aberto. O movimento, concentrado inicialmente em Pernambuco e posteriormente alcançando outras províncias nordestinas, não foi uma guerra de Independência contra Portugal e deve ser analisado separadamente. Sua importância para essa narrativa está em demonstrar que, mesmo depois da retirada das forças portuguesas, o Estado brasileiro ainda enfrentava forte contestação interna.

A partir daí, outros conflitos marcariam as primeiras décadas do Império, incluindo Cabanagem, Farroupilha, Sabinada e Balaiada. Esses movimentos também não podem ser classificados como guerras de Independência, mas ajudam a compreender a dificuldade enfrentada pelo Estado brasileiro para consolidar sua autoridade sobre um território extenso, socialmente desigual e politicamente diversificado.

Essa sequência de acontecimentos coloca o 7 de Setembro em uma perspectiva diferente daquela normalmente apresentada. O episódio do Ipiranga foi decisivo porque marcou a ruptura política conduzida por D. Pedro, mas não significou que todas as províncias brasileiras passassem imediatamente a reconhecer a autoridade do novo Império. A soberania precisava ser construída e defendida, e esse processo envolveu tanto a diplomacia quanto o emprego da força.

A formalização internacional dessa ruptura também demoraria. Portugal somente reconheceria oficialmente a independência brasileira em 1825, por meio do tratado que encerrou formalmente a questão entre os dois países. Isso significa que existe uma diferença importante entre a proclamação política de 1822, a consolidação militar ocorrida nos anos seguintes e o reconhecimento diplomático posterior.

A Independência do Brasil foi, dessa forma, um processo de várias etapas. Primeiro veio a ruptura política; depois, a disputa pelo controle das províncias; em seguida, a consolidação militar da autoridade imperial e, posteriormente, o reconhecimento internacional. Entre esses momentos, milhares de pessoas participaram de campanhas que durante muito tempo permaneceram secundárias na narrativa nacional.

A imagem do Ipiranga continua sendo legítima como símbolo da Independência, mas ela representa apenas um dos momentos de uma transformação muito mais extensa. O Brasil que surgiu em 1822 ainda precisava definir seus limites de autoridade, submeter áreas que resistiam ao novo governo, afastar as forças portuguesas remanescentes e enfrentar as próprias divisões internas.

É justamente por isso que a história militar da Independência merece ser recuperada não como uma tentativa de substituir o mito do 7 de Setembro por outro, mas para devolver ao processo sua complexidade. O Brasil não passou diretamente da condição de território português para a de Estado plenamente consolidado por meio de uma única decisão política. Entre a proclamação de D. Pedro e a efetiva consolidação do Império existiu um período de guerras, cercos, bloqueios navais, mobilizações provinciais e confrontos que ajudaram a determinar quais territórios permaneceriam unidos sob a nova autoridade.

O 7 de Setembro marcou a decisão de romper com Portugal. A consolidação dessa decisão, entretanto, ocorreu ao longo dos anos seguintes e exigiu uma combinação de política, diplomacia e força militar. Essa dimensão do processo não diminui a importância do episódio celebrado no Dia da Independência; ao contrário, permite compreender com maior precisão o tamanho do desafio enfrentado pelo novo Estado brasileiro para transformar uma declaração política em soberania efetiva sobre um território continental.


Por Angelo Nicolaci


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China restringe terras raras aos EUA e amplia pressão sobre cadeias estratégicas

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Empresas chinesas fornecedoras de terras raras estão suspendendo ou recusando parte dos embarques destinados aos Estados Unidos, segundo fontes ouvidas pela Reuters, em um movimento associado ao receio de sofrer represálias de Pequim. A medida ocorre em meio ao agravamento das tensões entre os dois países e poucas semanas antes da visita do presidente chinês Xi Jinping a Washington, prevista para 24 de setembro.

A interrupção não representa, até o momento, um bloqueio formal e generalizado das exportações chinesas para os Estados Unidos. O problema está relacionado principalmente às decisões individuais de fornecedores que passaram a evitar operações com empresas norte-americanas diante do aumento dos riscos regulatórios e políticos. Segundo as fontes, algumas companhias deixaram de realizar embarques desde o início de agosto, depois que Pequim aplicou sanções contra a Responsible Business Alliance (RBA), organização norte-americana ligada ao monitoramento de cadeias de suprimentos.

O episódio demonstra, entretanto, a vulnerabilidade das cadeias industriais norte-americanas diante da concentração chinesa no mercado de minerais críticos. Os Estados Unidos vêm pressionando Pequim para cumprir compromissos assumidos em negociações anteriores, que previam maior previsibilidade no fluxo das licenças de exportação de terras raras. Apesar dessas garantias, empresas norte-americanas continuam enfrentando dificuldades para obter determinados materiais.

Entre os materiais sob maior atenção estão o ítrio, o fosfeto de índio e o tungstênio, empregados em diferentes segmentos de alta tecnologia. Esses insumos estão presentes em componentes utilizados pelas indústrias aeroespacial, de defesa, semicondutores e equipamentos médicos, o que transforma qualquer interrupção prolongada em uma questão que ultrapassa o comércio e alcança diretamente a segurança econômica e tecnológica dos Estados Unidos.

A dimensão estratégica é particularmente relevante para o setor de defesa. Terras raras e outros minerais críticos são empregados em componentes eletrônicos, sistemas de orientação, sensores, motores elétricos, equipamentos de comunicação e diferentes tecnologias utilizadas em aeronaves, mísseis e sistemas militares. A dependência de uma única potência para etapas importantes dessas cadeias cria uma vulnerabilidade que não pode ser resolvida apenas pela formação de estoques.

É nesse contexto que o Brasil ganha importância crescente na estratégia norte-americana de diversificação. Em abril, a empresa norte-americana USA Rare Earth anunciou a aquisição da brasileira Serra Verde por US$ 2,8 bilhões, em uma operação que inclui o projeto Pela Ema, em Goiás, rico em terras raras pesadas como disprósio e térbio. A operação faz parte de uma estratégia de expansão da empresa sobre mineração, processamento e produção de ímãs permanentes, materiais considerados essenciais para setores como defesa, eletrônica e energia.

A aquisição também tem uma dimensão diretamente relacionada à política industrial dos Estados Unidos. Antes do negócio, a Serra Verde havia recebido um acordo de financiamento de US$ 565 milhões do governo norte-americano, que incluía a possibilidade de participação acionária, enquanto a USA Rare Earth havia obtido um pacote de financiamento de US$ 1,6 bilhão com apoio de Washington. Dessa forma, embora a aquisição da Serra Verde não tenha sido realizada diretamente pelo governo dos Estados Unidos, o movimento está inserido em uma estratégia apoiada financeiramente por Washington para ampliar fontes alternativas de minerais críticos.

A Serra Verde possui ainda uma característica particularmente relevante para essa estratégia: sua produção está concentrada em terras raras pesadas, incluindo disprósio e térbio, elementos importantes para a fabricação de ímãs permanentes de alto desempenho. A mina Pela Ema iniciou operações em 2024 e a empresa pretende alcançar uma produção anual de 6.400 toneladas até 2027. A aquisição, portanto, oferece à USA Rare Earth acesso a um ativo localizado fora da cadeia chinesa justamente em um momento de crescente preocupação com a segurança do fornecimento.

O movimento das empresas chinesas mostra por que esse tipo de ativo passou a ser tratado como questão estratégica. A China mantém posição dominante não apenas na mineração de terras raras, mas principalmente nas etapas de separação, processamento e fabricação de produtos de maior valor agregado. Isso significa que possuir reservas minerais não é suficiente para eliminar a dependência: é necessário desenvolver capacidade industrial capaz de transformar o minério em materiais utilizáveis pela indústria.

O histórico recente reforça essa preocupação. A China retomou em julho parte das exportações de ítrio depois de uma interrupção de aproximadamente dois meses, mas atrasos na aprovação de licenças continuam afetando compradores dos Estados Unidos, Japão e Índia. As exportações chinesas para o Japão de materiais como térbio, gálio e ítrio também sofreram forte redução, mostrando que a pressão sobre essas cadeias não está limitada à relação sino-americana.

Para Washington, o desafio passa a ser reduzir a exposição a uma cadeia de suprimentos sobre a qual Pequim possui capacidade significativa de influência. Isso envolve ampliar a produção doméstica, desenvolver fornecedores em países aliados e acelerar investimentos em processamento e reciclagem. A estratégia também explica o crescente interesse norte-americano por projetos no exterior, como o da Serra Verde, porque abrir uma nova mina nos Estados Unidos não resolve, por si só, a dependência das etapas posteriores da cadeia.

O momento também é relevante do ponto de vista diplomático. A questão das terras raras está entre os temas que devem ser discutidos nas negociações entre Estados Unidos e China antes da visita de Xi Jinping a Washington. A proximidade do encontro acrescenta uma dimensão política ao problema, já que o acesso aos minerais críticos pode funcionar simultaneamente como instrumento econômico e elemento de negociação nas relações bilaterais.

A disputa mostra como a competição entre Estados Unidos e China vem se deslocando para áreas que durante décadas foram tratadas predominantemente como questões comerciais. Semicondutores, inteligência artificial, baterias, minerais críticos e tecnologias de defesa passaram a integrar uma mesma disputa por autonomia industrial e capacidade de sustentar cadeias estratégicas em um cenário de rivalidade prolongada.

Para a indústria de defesa ocidental, a questão é especialmente sensível porque a disponibilidade de determinados minerais pode influenciar não apenas o custo dos sistemas militares, mas também a capacidade de ampliar sua produção em períodos de crise. A experiência recente com interrupções nas cadeias globais de suprimentos reforçou a percepção de que garantir o acesso a matérias-primas estratégicas passou a fazer parte do planejamento de defesa e da segurança nacional.

Nesse cenário, o Brasil ocupa uma posição que merece atenção. O país possui reservas relevantes de minerais críticos e começa a receber investimentos que podem conectá-lo diretamente às novas cadeias de fornecimento construídas pelos Estados Unidos e seus aliados. O caso da Serra Verde mostra, porém, que a disputa não se limita à posse do recurso mineral: o valor estratégico está em controlar ou integrar as etapas de mineração, separação, processamento e transformação industrial.

O movimento das empresas chinesas, portanto, deve ser observado menos pelo volume imediato de material que deixou de chegar aos Estados Unidos e mais pelo precedente que estabelece. A capacidade de Pequim de influenciar o acesso a insumos essenciais coloca as cadeias minerais no mesmo campo estratégico em que Washington já disputa tecnologia, semicondutores e capacidade industrial com a China. Para os Estados Unidos, ampliar fontes alternativas como a brasileira Serra Verde representa parte de uma estratégia maior de redução da dependência chinesa; para o Brasil, o desafio será transformar sua posição como fornecedor de minerais críticos em capacidade industrial e tecnológica de maior valor agregado.


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Northern Viking 2026: aliados europeus e Canadá ampliam atuação no Atlântico Norte sem participação operacional dos EUA

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A OTAN realizou na Islândia, uma nova edição do exercício Northern Viking, voltado principalmente à guerra antissubmarino e à proteção das rotas marítimas no Atlântico Norte. A edição de 2026 chamou atenção pela ausência de navios e aeronaves norte-americanos nas atividades operacionais, deixando a condução das principais ações sob responsabilidade de forças do Canadá e de países europeus, diante do cenário de crescente preocupação com a atividade submarina russa e a segurança das infraestruturas críticas no Atlântico Norte.

Participaram do exercício navios de guerra canadenses, caças belgas, aeronaves de reconhecimento alemãs e forças da França, Portugal e de outros países da Aliança. A condução das operações ficou sob responsabilidade do contra-almirante francês Nicolas Molitor, evidenciando a capacidade dos aliados europeus e canadenses de organizar uma operação multinacional de guerra antissubmarino sem a participação direta de meios norte-americanos.

A localização do exercício é um dos principais elementos para compreender sua importância. A Islândia está posicionada próxima ao chamado GIUK Gap, área marítima formada pelos corredores entre Groenlândia, Islândia e Reino Unido. A região possui importância estratégica para o controle das movimentações navais entre o Atlântico Norte e as águas do Ártico, especialmente em relação aos submarinos russos baseados na Península de Kola.

Para a OTAN, manter capacidade de vigilância e detecção nessa região é fundamental. Submarinos russos que conseguem atravessar o GIUK Gap e alcançar o Atlântico Norte ampliam suas possibilidades de atuação contra linhas de comunicação marítimas, grupos navais e infraestrutura crítica dos países aliados. Por isso, a guerra antissubmarino continua sendo uma das áreas mais sensíveis da defesa do Atlântico Norte.

Durante o Northern Viking, aeronaves alemãs participaram de missões de reconhecimento sobre o Atlântico Norte, incluindo atividades destinadas ao monitoramento do ambiente marítimo e à obtenção de informações sobre o fundo oceânico. Os dados coletados foram compartilhados com a força multinacional, demonstrando a importância da integração entre sensores aéreos, navios e centros de comando para localizar e acompanhar ameaças submarinas.

A ausência de meios norte-americanos, entretanto, não significa que os Estados Unidos tenham deixado de participar da estrutura de segurança da região. Equipes militares norte-americanas continuam envolvidas em atividades de infraestrutura no complexo de Keflavík, enquanto os Estados Unidos também contribuíram para o planejamento do exercício. A diferença está no fato de que, nesta edição, os meios norte-americanos não participaram diretamente das operações marítimas e aéreas.

Esse aspecto confere ao exercício uma dimensão adicional. Durante décadas, a presença militar dos Estados Unidos foi um dos principais elementos da arquitetura de defesa do Atlântico Norte, fornecendo capacidades que incluem aviação naval, guerra antissubmarino, inteligência, vigilância, reconhecimento e poder naval de longo alcance. A capacidade demonstrada pelos aliados no Northern Viking mostra, portanto, um esforço crescente para ampliar a autonomia operacional europeia e canadense em uma região considerada estratégica para toda a Aliança.

Essa evolução ocorre em um momento de mudanças na percepção de segurança dos países europeus. Além da atividade militar russa, cresce a preocupação com a proteção de cabos submarinos, oleodutos, gasodutos e outras infraestruturas críticas instaladas no fundo do mar. Esses sistemas sustentam parte importante das comunicações e do abastecimento energético dos países europeus e passaram a ser tratados como elementos que também precisam ser protegidos em um ambiente de competição estratégica.

O cenário se torna ainda mais complexo com o aumento da importância geopolítica do Ártico. A redução do gelo em determinadas áreas amplia o interesse econômico e militar pela região, enquanto a Rússia mantém importantes capacidades militares no extremo norte. A proximidade da Islândia com essas rotas torna o país um ponto relevante para o monitoramento das movimentações entre o Ártico e o Atlântico.

A questão da Groenlândia também adiciona uma camada geopolítica ao ambiente de segurança do Atlântico Norte. As discussões promovidas pelo governo Donald Trump sobre a importância estratégica da ilha evidenciaram o crescente interesse norte-americano pelo Ártico, ao mesmo tempo em que provocaram preocupação entre aliados europeus. Nesse contexto, Canadá e países europeus passaram a atribuir ainda maior importância à construção de capacidades próprias para atuar no extremo norte e no Atlântico.

O Northern Viking 2026 deve ser observado, portanto, menos como um exercício realizado simplesmente sem os Estados Unidos e mais como uma demonstração da capacidade dos demais integrantes da Aliança de assumir responsabilidades operacionais em uma área crítica. A própria estrutura da OTAN depende da capacidade de diferentes países contribuírem com meios especializados e manterem operações conjuntas mesmo quando determinados aliados não participam diretamente de uma atividade específica.

Para a Rússia, esse movimento também representa uma mudança relevante no ambiente estratégico. A ampliação da capacidade europeia de detectar e acompanhar submarinos no Atlântico Norte reduz os espaços de atuação disponíveis para forças navais russas e aumenta a necessidade de Moscou considerar uma rede mais ampla de sensores, aeronaves e navios durante suas operações.

O exercício também reforça uma tendência que vem ganhando espaço dentro da OTAN: a necessidade de que os aliados europeus desenvolvam capacidades suficientes para assumir maior parcela da responsabilidade pela própria segurança. Isso não elimina a importância dos Estados Unidos, mas amplia a capacidade da Aliança de distribuir responsabilidades e manter operações em diferentes regiões mesmo diante de mudanças na disponibilidade dos meios norte-americanos.

A edição de 2026 do Northern Viking mostra, assim, que o Atlântico Norte continua sendo uma área central na disputa estratégica entre Rússia e OTAN. Ao mesmo tempo, evidencia uma transformação gradual na distribuição das responsabilidades dentro da Aliança, com Canadá e países europeus ampliando sua participação em missões que exigem elevado nível de coordenação, especialmente na guerra antissubmarino e na vigilância das rotas marítimas.

No cenário em que o Atlântico Norte, o Ártico e as infraestruturas submarinas passaram a estar cada vez mais conectados às questões de segurança nacional, a capacidade de monitorar esses espaços deixa de ser apenas uma preocupação militar e passa a integrar diretamente a proteção das economias e das redes críticas dos países aliados. É nesse contexto que o Northern Viking ganha relevância, funcionando simultaneamente como exercício operacional e demonstração da crescente responsabilidade assumida pelos próprios aliados na defesa do flanco norte da OTAN.


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CTEx capacita militares para emprego do RDS DEFESA V4 e avança na avaliação do sistema

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O Centro Tecnológico do Exército (CTEx) realizou, entre 31 de agosto e 3 de setembro, uma atividade de instrução e capacitação voltada ao emprego do Rádio Definido por Software de Defesa (RDS DEFESA V4), reunindo militares do Exército Brasileiro e do Corpo de Fuzileiros Navais da Marinha do Brasil. A iniciativa prepara as tropas para a etapa de Avaliação Operacional do sistema, que será acompanhada por militares do Centro de Avaliações do Exército (CAEx).

A atividade contou com a participação de 12 militares da 20ª Companhia de Comunicação Paraquedista (20ª Cia Com Pqdt) e quatro militares do Batalhão de Comando e Controle do Corpo de Fuzileiros Navais. Durante a instrução, foram abordados procedimentos de instalação e operação do RDS DEFESA V4, incluindo o carregamento de formas de onda e o estabelecimento de comunicações seguras com emprego de criptografia.

A capacitação ocorre enquanto o projeto desenvolvido pelo CTEx avança em seu processo de Teste e Avaliação. Entre 24 e 26 de agosto, o sistema foi submetido a uma nova etapa de testes no CAEx, utilizando equipamentos instalados em uma VBTP-MSR Guarani para avaliar a comunicação de áudio digital em diferentes condições de emprego.

Durante os ensaios, foram realizadas comunicações em claro e em modo seguro, este último utilizando criptografia e salto em frequência. As transmissões foram testadas a distâncias de 8, 16 e 20 quilômetros, permitindo avaliar o comportamento do sistema em diferentes alcances e verificar os recursos destinados à proteção das comunicações.

A sequência entre os testes realizados no CAEx e a capacitação das unidades que participarão da avaliação operacional demonstra a evolução do projeto para além da validação técnica do equipamento. A preparação dos operadores permite que o sistema seja posteriormente avaliado em condições mais próximas de seu emprego pelas tropas, incluindo seus procedimentos de instalação, configuração e utilização dos recursos de comunicação segura.

O processo de Teste e Avaliação do RDS DEFESA V4 tem previsão de encerramento ainda em 2026. Até lá, as diferentes etapas deverão contribuir para consolidar os dados necessários à avaliação do sistema e de sua adequação às necessidades operacionais das Forças Armadas.

Desenvolvido pelo CTEx, o RDS DEFESA V4 integra a linha de projetos voltados ao desenvolvimento de tecnologias nacionais para comunicações militares, com foco em segurança das transmissões e flexibilidade de emprego. A participação conjunta de unidades do Exército e do Corpo de Fuzileiros Navais também amplia a experiência de utilização do sistema e contribui para avaliar sua aplicação em diferentes estruturas operacionais.

Com a capacitação realizada no início de setembro, o projeto avança para uma nova fase de preparação das tropas, apoiada pelos resultados obtidos nos testes de agosto, aproximando o RDS DEFESA V4 de sua avaliação operacional.


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CTEx realiza primeiro lançamento de munição desenvolvida para drones de ataque

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O Centro Tecnológico do Exército (CTEx), em parceria com as empresas brasileiras PLASMAHUB e AIRTECH, realizou no Centro de Avaliações do Exército (CAEx) o primeiro lançamento bem-sucedido de uma munição desenvolvida especificamente para emprego por drones do tipo bombardeiro. O teste integra o projeto de desenvolvimento de uma família de drones de ataque para o Exército Brasileiro.

A atividade teve como objetivo verificar o lançamento seguro da munição a partir de um vetor aéreo não tripulado e sua capacidade de detonação após o impacto contra o alvo. Os testes foram conduzidos pelo Grupo de Robótica e Simulação do CTEx, com participação das equipes técnicas das empresas envolvidas e apoio da equipe de testes do CAEx.

De acordo com os resultados obtidos, o sistema apresentou o desempenho esperado durante a avaliação, confirmando o funcionamento dos principais requisitos analisados nesta etapa do desenvolvimento. O teste representa, assim, um avanço no processo de integração entre a plataforma não tripulada e sua carga útil.

O projeto é desenvolvido no âmbito de um Acordo de Parceria entre o CTEx e as empresas da Base Industrial de Defesa, reunindo competências do Exército e da indústria nacional no desenvolvimento de novas soluções para sistemas aéreos não tripulados.

A iniciativa ganha relevância diante da rápida evolução do emprego de drones nos conflitos contemporâneos, nos quais plataformas não tripuladas passaram a desempenhar funções que vão desde reconhecimento e aquisição de alvos até o emprego direto de armamentos. Para o Exército Brasileiro, o desenvolvimento de uma família própria de drones de ataque amplia as possibilidades de adaptação dessas plataformas às necessidades operacionais da Força.

O trabalho também demonstra a importância da integração entre o Sistema de Ciência, Tecnologia e Inovação do Exército e a Base Industrial de Defesa. Nesse modelo, o desenvolvimento não se limita à aquisição de uma plataforma pronta, mas busca construir conhecimento nacional em áreas como robótica, sistemas de controle, integração de armamentos e operação de vetores não tripulados.

Com a conclusão bem-sucedida desta etapa, o projeto avança no processo de desenvolvimento e avaliação de uma nova capacidade para o Exército Brasileiro, mantendo o foco na integração de tecnologias nacionais para emprego em sistemas de combate não tripulados.


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Com Exército Brasileiro



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SIATT entrega segundo lote do sistema MAX 1.2 AC ao Exército Brasileiro

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A SIATT realizou em 3 de setembro, a entrega do segundo lote de munições do sistema MAX 1.2 AC ao Comando Logístico do Exército Brasileiro. A cerimônia ocorreu no Centro Logístico, localizado no Forte Santa Bárbara, em Formosa (GO).

A entrega integra o contrato firmado para o fornecimento do sistema MAX 1.2AC ao Exército Brasileiro, que contempla unidades de tiro, simuladores e adaptações destinadas à instalação do sistema em viaturas leves.

A incorporação de novos lotes amplia a disponibilidade do sistema junto à Força Terrestre e dá continuidade ao processo de introdução de uma capacidade anticarro desenvolvida pela indústria brasileira. A integração às viaturas leves também amplia as possibilidades de emprego do sistema, associando mobilidade e poder de fogo às unidades que operam em diferentes cenários.

Os simuladores previstos no contrato complementam essa capacidade ao permitir o treinamento das equipes e a manutenção da proficiência dos operadores, reduzindo a necessidade de utilização de munição real durante parte das atividades de instrução.

A entrega também reforça a participação da SIATT no processo de modernização das capacidades de combate do Exército Brasileiro e na consolidação da Base Industrial de Defesa, mantendo no país competências relacionadas ao desenvolvimento, produção e suporte de sistemas de defesa.

Com o segundo lote entregue, o programa avança em sua execução e amplia gradualmente a disponibilidade do MAX 1.2 AC para emprego pela Força Terrestre.


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7 de Setembro: 204 anos de independência diante de um mundo que exige um Brasil mais protagonista

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O 7 de Setembro ocupa um lugar singular na história brasileira porque representa o momento em que o país passou a conduzir seu próprio destino político. Em 1822, a ruptura com Portugal abriu um processo que não se encerrou naquele dia e que envolveu conflitos, negociações, disputas regionais e a construção de um Estado capaz de preservar sua unidade territorial. A própria historiografia contemporânea reforça que a Independência foi um processo mais amplo do que a cena eternizada às margens do Ipiranga, com diferentes personagens e regiões participando da consolidação do Brasil como Estado independente.

Duzentos e quatro anos depois, entretanto, o principal desafio de olhar para essa data talvez esteja menos em revisitar aquilo que o Brasil conquistou e mais em compreender a dimensão do país que se tornou. O Brasil de 2026 não é mais uma nação recém-formada tentando encontrar seu espaço entre potências estrangeiras. É um país de dimensões continentais, com uma das maiores populações do planeta, uma economia relevante, extensa produção de alimentos, recursos energéticos e minerais, enorme disponibilidade de água, uma posição geográfica privilegiada no Atlântico Sul e uma estrutura industrial que, apesar de suas limitações, ainda permite atuar em setores de elevada complexidade. Esse conjunto de características faz com que o Brasil tenha um peso internacional que muitas vezes não é acompanhado pela forma como o próprio país define e executa suas prioridades.

Essa diferença entre o tamanho do Brasil e a capacidade de transformar esse tamanho em influência consistente é uma das questões mais importantes para as próximas décadas. Ser um país grande não significa automaticamente exercer liderança, assim como possuir recursos estratégicos não significa necessariamente convertê-los em poder econômico, tecnológico ou diplomático. A dimensão territorial, a população, a produção agrícola, os recursos naturais e a localização geográfica são vantagens importantes, mas seu valor estratégico depende da capacidade de organizá-las dentro de uma visão de longo prazo. É nesse ponto que a discussão sobre o futuro brasileiro ganha relevância: o país não precisa buscar uma posição que não corresponde às suas características, mas precisa compreender melhor a posição que suas próprias características já lhe conferem.

O cenário internacional tornou essa questão ainda mais importante. O mundo atravessa uma transformação marcada pela disputa entre grandes potências, pela reorganização das cadeias produtivas, pela competição por energia e minerais críticos, pela busca por novas tecnologias e pela crescente importância da segurança alimentar, energética e ambiental. A antiga ideia de uma economia global cada vez mais integrada e previsível perdeu espaço para um ambiente no qual Estados passaram a considerar novamente a segurança de suas cadeias de fornecimento como questão estratégica. Para um país como o Brasil, essa mudança representa simultaneamente uma oportunidade e uma responsabilidade.

O Brasil possui condições para ocupar uma posição relevante em diversos desses temas. Sua capacidade agrícola o coloca entre os principais fornecedores mundiais de alimentos; sua matriz energética possui características diferenciadas; suas reservas minerais ganham importância diante da transição energética e da expansão de tecnologias avançadas; sua biodiversidade abre possibilidades ainda pouco exploradas na bioeconomia; e sua posição no Atlântico Sul lhe confere importância para as rotas marítimas e para a segurança de uma região que conecta América do Sul, África e importantes corredores comerciais. Entretanto, transformar essas vantagens em influência exige mais do que simplesmente possuir os recursos. Exige planejamento, infraestrutura, conhecimento, capacidade industrial e, principalmente, clareza sobre quais áreas o país pretende ocupar de maneira mais ambiciosa.

Essa definição de prioridades será cada vez mais importante porque o Brasil não conseguirá liderar simultaneamente todos os setores estratégicos. Nenhuma nação possui recursos ilimitados, e a tentativa de dispersar investimentos pode produzir justamente o efeito contrário ao desejado, deixando o país com programas importantes, porém incapazes de atingir escala suficiente para modificar sua posição internacional. A maturidade estratégica passa também pela capacidade de escolher onde concentrar esforços, quais cadeias produtivas devem ser fortalecidas, quais tecnologias precisam receber atenção permanente e em quais áreas o Brasil possui condições reais de construir vantagens que possam ser mantidas durante décadas.

Essa discussão também precisa alcançar a América do Sul. A dimensão brasileira faz com que a estabilidade regional não seja uma questão distante ou secundária. A segurança das fronteiras, a integração de infraestrutura, os corredores logísticos, a segurança energética, o combate ao crime organizado transnacional e a preservação da Amazônia possuem impacto direto sobre os interesses brasileiros. A posição do país na região não precisa ser construída a partir de uma lógica de domínio ou imposição, mas dificilmente poderá ser exercida de maneira consistente se o Brasil não assumir a responsabilidade correspondente ao seu peso econômico, territorial e populacional.

O mesmo raciocínio se aplica ao Atlântico Sul. A chamada Amazônia Azul representa uma parcela essencial dos interesses econômicos brasileiros, seja pela exploração de petróleo e gás, seja pelas rotas marítimas utilizadas para o comércio exterior, pelos cabos submarinos, pelas atividades pesqueiras ou pela infraestrutura instalada ao longo do litoral. A crescente importância dos oceanos para a economia mundial torna cada vez mais evidente que a dimensão marítima brasileira não pode ser tratada apenas como uma questão geográfica. Ela integra diretamente a economia nacional e, por consequência, precisa fazer parte de qualquer visão séria sobre o futuro estratégico do país.

É nesse contexto que a política externa brasileira ganha uma importância que vai além das relações diplomáticas tradicionais. A capacidade histórica do Brasil de dialogar com diferentes grupos de países constitui uma vantagem relevante em um sistema internacional mais fragmentado. Manter canais de relacionamento com diferentes centros de poder amplia as possibilidades de negociação e reduz a necessidade de escolhas baseadas em alinhamentos automáticos. Entretanto, essa flexibilidade produz melhores resultados quando acompanhada de uma definição clara dos interesses nacionais. A diplomacia pode ampliar as opções de um país, mas precisa estar conectada a uma estratégia econômica, tecnológica, energética e de segurança que dê consistência às posições defendidas no exterior.

A mesma lógica vale para a indústria e para a tecnologia. O objetivo brasileiro não deveria ser simplesmente produzir tudo internamente, algo economicamente inviável em muitos setores, mas identificar quais capacidades são estratégicas demais para serem tratadas apenas como produtos disponíveis no mercado internacional. Essa distinção é importante porque a integração com outros países e empresas continuará sendo indispensável para o desenvolvimento brasileiro. O desafio está em participar dessas cadeias de maneira mais qualificada, agregando conhecimento, engenharia, serviços, propriedade intelectual e capacidade produtiva, em vez de permanecer restrito às etapas de menor valor.

Nos últimos anos, alguns programas brasileiros demonstraram que é possível construir competências sofisticadas quando existe continuidade e uma visão de longo prazo. O desenvolvimento do Gripen, do KC-390 Millennium, do programa de submarinos, das fragatas da Classe Tamandaré e do programa Centauro II demonstra que a participação brasileira em projetos complexos pode ultrapassar a simples aquisição de equipamentos. Esses programas também mostram que o resultado mais importante de uma iniciativa estratégica não está apenas na plataforma que chega às Forças Armadas, mas no conhecimento, na engenharia, na cadeia industrial e na capacidade de sustentação que permanecem no país.

É justamente por isso que a defesa precisa ser compreendida como parte de uma política nacional mais ampla, e não como um setor isolado. Um país que possui interesses econômicos relevantes, extensa infraestrutura crítica, recursos naturais estratégicos e responsabilidades territoriais proporcionais ao seu tamanho precisa dispor de meios para proteger esses interesses. A função das Forças Armadas, nesse contexto, não se limita ao emprego em situações de conflito. Ela envolve presença territorial, vigilância, proteção das fronteiras, controle do espaço marítimo e aéreo e contribuição para a capacidade do Estado de responder a diferentes cenários.

Essa visão também ajuda a afastar uma falsa oposição entre desenvolvimento e defesa. A experiência internacional demonstra que determinadas tecnologias, cadeias industriais e competências científicas possuem aplicações simultaneamente civis e militares. Sistemas espaciais, sensores, materiais avançados, inteligência artificial, comunicações, propulsão, cibersegurança e tecnologias de navegação fazem parte tanto da economia moderna quanto das capacidades de defesa. Para o Brasil, desenvolver essas áreas não significa buscar uma corrida tecnológica com as grandes potências, mas assegurar que o país tenha participação relevante em segmentos nos quais possuir conhecimento representa uma vantagem econômica e estratégica.

O ponto central, portanto, não está em imaginar um Brasil isolado ou autossuficiente, tampouco em transformar a independência em uma rejeição à cooperação internacional. A experiência das últimas décadas mostra que nenhum país moderno consegue avançar sozinho em todos os campos. A questão é outra: estabelecer relações internacionais a partir de uma posição que permita ao Brasil negociar, cooperar e até depender de parceiros em determinadas áreas sem transformar essas relações em limitações permanentes às suas escolhas. Quanto maior for a capacidade brasileira de diversificar parceiros, dominar conhecimentos essenciais e agregar valor às próprias vantagens, maior será também sua margem de manobra.

Esse processo exige algo que talvez seja ainda mais difícil do que investir: continuidade. Grandes projetos nacionais raramente produzem resultados dentro de um único mandato ou de um único ciclo político. Infraestrutura, ciência, defesa, indústria, educação e tecnologia exigem décadas de planejamento. A interrupção frequente de programas, a mudança constante de prioridades e a dificuldade de preservar políticas estratégicas acabam produzindo um custo que muitas vezes não aparece imediatamente, mas compromete justamente a capacidade de transformar oportunidades em resultados permanentes.

O 7 de Setembro, portanto, pode ser compreendido em 2026 a partir de uma perspectiva diferente daquela que costuma dominar o debate. A Independência de 1822 foi a conquista que permitiu ao Brasil construir seu próprio caminho; o desafio contemporâneo é decidir que lugar pretende ocupar enquanto percorre esse caminho. O mundo já reconhece a importância brasileira em áreas como alimentos, energia, recursos naturais, meio ambiente e comércio, mas as próximas décadas poderão ampliar ainda mais essa relevância. A questão será saber se o país conseguirá transformar essa importância potencial em influência efetiva e duradoura.

Isso não significa buscar protagonismo por vaidade ou disputar uma posição de potência global que não corresponde à realidade brasileira. Significa compreender que determinadas responsabilidades acompanham o tamanho de um país. O Brasil não precisa abandonar sua tradição diplomática, romper relações ou transformar cada interesse nacional em confronto internacional. Precisa, antes, desenvolver maior clareza sobre aquilo que considera essencial, estabelecer prioridades e criar condições para sustentá-las ao longo do tempo.

Ao completar 204 anos de sua Independência, o Brasil possui diante de si uma oportunidade que não existia para a geração de 1822: conhece suas dimensões, conhece suas potencialidades e possui experiência suficiente para compreender os custos da descontinuidade. A próxima etapa da história brasileira dependerá menos da capacidade de afirmar que o país é grande e mais da disposição de transformar essa dimensão em planejamento, influência e responsabilidade.

Celebrar o 7 de Setembro, nesse sentido, é também olhar para as próximas décadas. O Brasil de 2040 ou 2050 será resultado das decisões tomadas agora sobre infraestrutura, educação, ciência, indústria, energia, defesa, meio ambiente, relações exteriores e integração regional. A independência conquistada no século XIX continuará sendo a base, mas o significado de exercê-la será determinado pela capacidade de construir um país que saiba utilizar o peso que sua história, sua geografia e sua sociedade lhe deram.

O Brasil não precisa descobrir se tem condições de ser relevante. O mundo já demonstra, de diferentes maneiras, que ele é. O verdadeiro desafio está em decidir como essa relevância será utilizada e quais interesses nacionais estarão no centro das escolhas brasileiras nas próximas décadas. É nessa capacidade de transformar dimensão em direção, potencial em resultado e presença em influência que estará uma das principais medidas da maturidade do Brasil independente no século XXI.


Por Angelo Nicolaci


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