segunda-feira, 7 de setembro de 2026

7 de Setembro: 204 anos de independência diante de um mundo que exige um Brasil mais protagonista

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O 7 de Setembro ocupa um lugar singular na história brasileira porque representa o momento em que o país passou a conduzir seu próprio destino político. Em 1822, a ruptura com Portugal abriu um processo que não se encerrou naquele dia e que envolveu conflitos, negociações, disputas regionais e a construção de um Estado capaz de preservar sua unidade territorial. A própria historiografia contemporânea reforça que a Independência foi um processo mais amplo do que a cena eternizada às margens do Ipiranga, com diferentes personagens e regiões participando da consolidação do Brasil como Estado independente.

Duzentos e quatro anos depois, entretanto, o principal desafio de olhar para essa data talvez esteja menos em revisitar aquilo que o Brasil conquistou e mais em compreender a dimensão do país que se tornou. O Brasil de 2026 não é mais uma nação recém-formada tentando encontrar seu espaço entre potências estrangeiras. É um país de dimensões continentais, com uma das maiores populações do planeta, uma economia relevante, extensa produção de alimentos, recursos energéticos e minerais, enorme disponibilidade de água, uma posição geográfica privilegiada no Atlântico Sul e uma estrutura industrial que, apesar de suas limitações, ainda permite atuar em setores de elevada complexidade. Esse conjunto de características faz com que o Brasil tenha um peso internacional que muitas vezes não é acompanhado pela forma como o próprio país define e executa suas prioridades.

Essa diferença entre o tamanho do Brasil e a capacidade de transformar esse tamanho em influência consistente é uma das questões mais importantes para as próximas décadas. Ser um país grande não significa automaticamente exercer liderança, assim como possuir recursos estratégicos não significa necessariamente convertê-los em poder econômico, tecnológico ou diplomático. A dimensão territorial, a população, a produção agrícola, os recursos naturais e a localização geográfica são vantagens importantes, mas seu valor estratégico depende da capacidade de organizá-las dentro de uma visão de longo prazo. É nesse ponto que a discussão sobre o futuro brasileiro ganha relevância: o país não precisa buscar uma posição que não corresponde às suas características, mas precisa compreender melhor a posição que suas próprias características já lhe conferem.

O cenário internacional tornou essa questão ainda mais importante. O mundo atravessa uma transformação marcada pela disputa entre grandes potências, pela reorganização das cadeias produtivas, pela competição por energia e minerais críticos, pela busca por novas tecnologias e pela crescente importância da segurança alimentar, energética e ambiental. A antiga ideia de uma economia global cada vez mais integrada e previsível perdeu espaço para um ambiente no qual Estados passaram a considerar novamente a segurança de suas cadeias de fornecimento como questão estratégica. Para um país como o Brasil, essa mudança representa simultaneamente uma oportunidade e uma responsabilidade.

O Brasil possui condições para ocupar uma posição relevante em diversos desses temas. Sua capacidade agrícola o coloca entre os principais fornecedores mundiais de alimentos; sua matriz energética possui características diferenciadas; suas reservas minerais ganham importância diante da transição energética e da expansão de tecnologias avançadas; sua biodiversidade abre possibilidades ainda pouco exploradas na bioeconomia; e sua posição no Atlântico Sul lhe confere importância para as rotas marítimas e para a segurança de uma região que conecta América do Sul, África e importantes corredores comerciais. Entretanto, transformar essas vantagens em influência exige mais do que simplesmente possuir os recursos. Exige planejamento, infraestrutura, conhecimento, capacidade industrial e, principalmente, clareza sobre quais áreas o país pretende ocupar de maneira mais ambiciosa.

Essa definição de prioridades será cada vez mais importante porque o Brasil não conseguirá liderar simultaneamente todos os setores estratégicos. Nenhuma nação possui recursos ilimitados, e a tentativa de dispersar investimentos pode produzir justamente o efeito contrário ao desejado, deixando o país com programas importantes, porém incapazes de atingir escala suficiente para modificar sua posição internacional. A maturidade estratégica passa também pela capacidade de escolher onde concentrar esforços, quais cadeias produtivas devem ser fortalecidas, quais tecnologias precisam receber atenção permanente e em quais áreas o Brasil possui condições reais de construir vantagens que possam ser mantidas durante décadas.

Essa discussão também precisa alcançar a América do Sul. A dimensão brasileira faz com que a estabilidade regional não seja uma questão distante ou secundária. A segurança das fronteiras, a integração de infraestrutura, os corredores logísticos, a segurança energética, o combate ao crime organizado transnacional e a preservação da Amazônia possuem impacto direto sobre os interesses brasileiros. A posição do país na região não precisa ser construída a partir de uma lógica de domínio ou imposição, mas dificilmente poderá ser exercida de maneira consistente se o Brasil não assumir a responsabilidade correspondente ao seu peso econômico, territorial e populacional.

O mesmo raciocínio se aplica ao Atlântico Sul. A chamada Amazônia Azul representa uma parcela essencial dos interesses econômicos brasileiros, seja pela exploração de petróleo e gás, seja pelas rotas marítimas utilizadas para o comércio exterior, pelos cabos submarinos, pelas atividades pesqueiras ou pela infraestrutura instalada ao longo do litoral. A crescente importância dos oceanos para a economia mundial torna cada vez mais evidente que a dimensão marítima brasileira não pode ser tratada apenas como uma questão geográfica. Ela integra diretamente a economia nacional e, por consequência, precisa fazer parte de qualquer visão séria sobre o futuro estratégico do país.

É nesse contexto que a política externa brasileira ganha uma importância que vai além das relações diplomáticas tradicionais. A capacidade histórica do Brasil de dialogar com diferentes grupos de países constitui uma vantagem relevante em um sistema internacional mais fragmentado. Manter canais de relacionamento com diferentes centros de poder amplia as possibilidades de negociação e reduz a necessidade de escolhas baseadas em alinhamentos automáticos. Entretanto, essa flexibilidade produz melhores resultados quando acompanhada de uma definição clara dos interesses nacionais. A diplomacia pode ampliar as opções de um país, mas precisa estar conectada a uma estratégia econômica, tecnológica, energética e de segurança que dê consistência às posições defendidas no exterior.

A mesma lógica vale para a indústria e para a tecnologia. O objetivo brasileiro não deveria ser simplesmente produzir tudo internamente, algo economicamente inviável em muitos setores, mas identificar quais capacidades são estratégicas demais para serem tratadas apenas como produtos disponíveis no mercado internacional. Essa distinção é importante porque a integração com outros países e empresas continuará sendo indispensável para o desenvolvimento brasileiro. O desafio está em participar dessas cadeias de maneira mais qualificada, agregando conhecimento, engenharia, serviços, propriedade intelectual e capacidade produtiva, em vez de permanecer restrito às etapas de menor valor.

Nos últimos anos, alguns programas brasileiros demonstraram que é possível construir competências sofisticadas quando existe continuidade e uma visão de longo prazo. O desenvolvimento do Gripen, do KC-390 Millennium, do programa de submarinos, das fragatas da Classe Tamandaré e do programa Centauro II demonstra que a participação brasileira em projetos complexos pode ultrapassar a simples aquisição de equipamentos. Esses programas também mostram que o resultado mais importante de uma iniciativa estratégica não está apenas na plataforma que chega às Forças Armadas, mas no conhecimento, na engenharia, na cadeia industrial e na capacidade de sustentação que permanecem no país.

É justamente por isso que a defesa precisa ser compreendida como parte de uma política nacional mais ampla, e não como um setor isolado. Um país que possui interesses econômicos relevantes, extensa infraestrutura crítica, recursos naturais estratégicos e responsabilidades territoriais proporcionais ao seu tamanho precisa dispor de meios para proteger esses interesses. A função das Forças Armadas, nesse contexto, não se limita ao emprego em situações de conflito. Ela envolve presença territorial, vigilância, proteção das fronteiras, controle do espaço marítimo e aéreo e contribuição para a capacidade do Estado de responder a diferentes cenários.

Essa visão também ajuda a afastar uma falsa oposição entre desenvolvimento e defesa. A experiência internacional demonstra que determinadas tecnologias, cadeias industriais e competências científicas possuem aplicações simultaneamente civis e militares. Sistemas espaciais, sensores, materiais avançados, inteligência artificial, comunicações, propulsão, cibersegurança e tecnologias de navegação fazem parte tanto da economia moderna quanto das capacidades de defesa. Para o Brasil, desenvolver essas áreas não significa buscar uma corrida tecnológica com as grandes potências, mas assegurar que o país tenha participação relevante em segmentos nos quais possuir conhecimento representa uma vantagem econômica e estratégica.

O ponto central, portanto, não está em imaginar um Brasil isolado ou autossuficiente, tampouco em transformar a independência em uma rejeição à cooperação internacional. A experiência das últimas décadas mostra que nenhum país moderno consegue avançar sozinho em todos os campos. A questão é outra: estabelecer relações internacionais a partir de uma posição que permita ao Brasil negociar, cooperar e até depender de parceiros em determinadas áreas sem transformar essas relações em limitações permanentes às suas escolhas. Quanto maior for a capacidade brasileira de diversificar parceiros, dominar conhecimentos essenciais e agregar valor às próprias vantagens, maior será também sua margem de manobra.

Esse processo exige algo que talvez seja ainda mais difícil do que investir: continuidade. Grandes projetos nacionais raramente produzem resultados dentro de um único mandato ou de um único ciclo político. Infraestrutura, ciência, defesa, indústria, educação e tecnologia exigem décadas de planejamento. A interrupção frequente de programas, a mudança constante de prioridades e a dificuldade de preservar políticas estratégicas acabam produzindo um custo que muitas vezes não aparece imediatamente, mas compromete justamente a capacidade de transformar oportunidades em resultados permanentes.

O 7 de Setembro, portanto, pode ser compreendido em 2026 a partir de uma perspectiva diferente daquela que costuma dominar o debate. A Independência de 1822 foi a conquista que permitiu ao Brasil construir seu próprio caminho; o desafio contemporâneo é decidir que lugar pretende ocupar enquanto percorre esse caminho. O mundo já reconhece a importância brasileira em áreas como alimentos, energia, recursos naturais, meio ambiente e comércio, mas as próximas décadas poderão ampliar ainda mais essa relevância. A questão será saber se o país conseguirá transformar essa importância potencial em influência efetiva e duradoura.

Isso não significa buscar protagonismo por vaidade ou disputar uma posição de potência global que não corresponde à realidade brasileira. Significa compreender que determinadas responsabilidades acompanham o tamanho de um país. O Brasil não precisa abandonar sua tradição diplomática, romper relações ou transformar cada interesse nacional em confronto internacional. Precisa, antes, desenvolver maior clareza sobre aquilo que considera essencial, estabelecer prioridades e criar condições para sustentá-las ao longo do tempo.

Ao completar 204 anos de sua Independência, o Brasil possui diante de si uma oportunidade que não existia para a geração de 1822: conhece suas dimensões, conhece suas potencialidades e possui experiência suficiente para compreender os custos da descontinuidade. A próxima etapa da história brasileira dependerá menos da capacidade de afirmar que o país é grande e mais da disposição de transformar essa dimensão em planejamento, influência e responsabilidade.

Celebrar o 7 de Setembro, nesse sentido, é também olhar para as próximas décadas. O Brasil de 2040 ou 2050 será resultado das decisões tomadas agora sobre infraestrutura, educação, ciência, indústria, energia, defesa, meio ambiente, relações exteriores e integração regional. A independência conquistada no século XIX continuará sendo a base, mas o significado de exercê-la será determinado pela capacidade de construir um país que saiba utilizar o peso que sua história, sua geografia e sua sociedade lhe deram.

O Brasil não precisa descobrir se tem condições de ser relevante. O mundo já demonstra, de diferentes maneiras, que ele é. O verdadeiro desafio está em decidir como essa relevância será utilizada e quais interesses nacionais estarão no centro das escolhas brasileiras nas próximas décadas. É nessa capacidade de transformar dimensão em direção, potencial em resultado e presença em influência que estará uma das principais medidas da maturidade do Brasil independente no século XXI.


Por Angelo Nicolaci


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domingo, 6 de setembro de 2026

Soberania e Defesa: Por Que a Independência Tecnológica e a Previsibilidade Orçamentária São o Verdadeiro 7 de Setembro

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Em 7 de setembro de 1822, o Brasil rompeu politicamente com Portugal e iniciou uma nova etapa de sua história como Estado independente. Mais de dois séculos depois, a independência permanece como um dos fundamentos da formação nacional, mas o conceito de soberania que orienta as grandes potências do século XXI tornou-se muito mais amplo do que aquele associado exclusivamente ao exercício da autoridade sobre um território. A capacidade de decidir os próprios caminhos continua sendo o elemento central, porém essa liberdade de decisão depende cada vez mais de fatores que não aparecem necessariamente nas fronteiras de um país: domínio tecnológico, capacidade industrial, acesso a matérias-primas estratégicas, segurança energética, infraestrutura, conhecimento científico, capacidade de sustentar sistemas críticos e resiliência diante de rupturas nas cadeias internacionais de fornecimento.

Essa transformação altera também a forma como o Brasil precisa olhar para sua própria defesa. No ambiente internacional onde tecnologia, indústria e recursos naturais passaram a integrar diretamente a disputa por poder, possuir Forças Armadas equipadas não significa, por si só, possuir autonomia estratégica. Um sistema de defesa pode ser extremamente sofisticado e continuar dependente de componentes, software, sensores, motores, munições, materiais especiais, serviços de manutenção ou atualizações controlados por fornecedores externos. Em condições normais, essa dependência pode ser administrável e fazer parte de uma relação internacional perfeitamente legítima. O problema aparece quando uma capacidade considerada essencial passa a depender de uma cadeia sobre a qual o Estado brasileiro não possui qualquer controle ou alternativa, justamente no momento em que as condições políticas ou estratégicas tornam o acesso a essa cadeia incerto.

É por isso que soberania tecnológica não deve ser confundida com autossuficiência. Nenhum país moderno produz sozinho tudo aquilo de que necessita, e seria economicamente irracional tentar reproduzir internamente todas as cadeias industriais existentes no mundo. A questão estratégica é estabelecer uma hierarquia de dependências, identificando quais tecnologias, materiais, componentes e processos podem ser obtidos no exterior sem comprometer a liberdade de ação brasileira e quais precisam ser dominados, produzidos ou mantidos por meio de alternativas nacionais ou de parcerias suficientemente diversificadas. Quanto mais crítica for uma capacidade para a segurança, a economia ou o funcionamento do Estado, maior precisa ser a preocupação com a possibilidade de preservá-la em um cenário adverso.

O Brasil já construiu parte importante dessa capacidade ao longo de décadas. A indústria aeronáutica, os programas navais, o setor nuclear, as competências espaciais, a indústria de defesa e diferentes núcleos de excelência científica e tecnológica demonstram que o país possui conhecimento e recursos humanos capazes de atuar em áreas de elevada complexidade. O problema é que essas competências ainda podem ser vistas como ilhas de excelência que nem sempre estão conectadas por cadeias suficientemente robustas. O Brasil pode dominar uma determinada plataforma, mas depender de fornecedores externos para componentes críticos; pode possuir universidades e centros de pesquisa capazes de desenvolver determinada tecnologia, mas não encontrar escala industrial para transformá-la em produto; pode dispor de enormes reservas minerais e simultaneamente, importar materiais de maior valor agregado produzidos a partir dos próprios recursos brasileiros.

Transformar essas ilhas em um arquipélago de capacidades é um dos grandes desafios estratégicos brasileiros para as próximas décadas. Isso significa fazer com que mineração, indústria, ciência, tecnologia, Defesa, energia, espaço, infraestrutura e política externa deixem de ser tratadas como agendas independentes e passem a funcionar dentro de uma visão mais integrada de desenvolvimento e segurança nacional. Uma cadeia de defesa, por exemplo, não começa necessariamente na fábrica que monta o equipamento e tampouco termina quando o sistema é entregue às Forças Armadas. Ela começa na formação do profissional, passa pela pesquisa, pelos materiais, pela eletrônica, pelo software, pelos fornecedores, pela produção, pela integração e pela manutenção, e pode continuar posteriormente por meio de modernizações, exportações e desenvolvimento de novas gerações de produtos.

É justamente nessa perspectiva que a Base Industrial de Defesa precisa ser compreendida. Ela não representa apenas um conjunto de empresas contratadas pelo Estado para fornecer equipamentos militares, mas uma concentração de conhecimento, infraestrutura, mão de obra especializada e capacidade produtiva que pode levar décadas para ser construída. Quando uma empresa desenvolve um radar, um sistema de comunicação, um veículo, um sensor, uma aeronave ou uma solução de guerra eletrônica, o resultado não está apenas no equipamento entregue ao usuário militar. Existe uma camada menos visível de engenharia, processos produtivos, propriedade intelectual, experiência acumulada e formação de profissionais que permanece no país e pode alimentar projetos posteriores.

Quando essa estrutura é desmobilizada, portanto, o prejuízo não pode ser medido apenas pela quantidade de equipamentos que deixou de ser produzida naquele período. Uma cadeia de fornecedores pode desaparecer, profissionais especializados podem migrar para outras atividades, centros de pesquisa podem perder equipes e linhas de desenvolvimento, empresas podem deixar de investir e conhecimentos específicos podem deixar de ser transmitidos para uma nova geração. Quando o Estado decide retomar determinado projeto anos depois, frequentemente não encontra a mesma estrutura industrial esperando para simplesmente voltar a funcionar. Parte dela precisa ser reconstruída, muitas vezes a um custo superior ao que teria sido necessário para preservar sua continuidade.

Essa realidade coloca a previsibilidade orçamentária no centro da discussão sobre soberania. A Política Nacional de Defesa e a Estratégia Nacional de Defesa já reconhecem a importância da adequabilidade, regularidade e previsibilidade dos recursos destinados às capacidades estratégicas. Não se trata de estabelecer uma espécie de proteção especial para a Defesa diante das demais políticas públicas, mas de reconhecer uma característica objetiva de programas que envolvem desenvolvimento tecnológico e construção de capacidade industrial: seus ciclos são longos, os investimentos são elevados e os resultados dependem da continuidade.

Previsibilidade também não significa ausência de controle. Programas estratégicos precisam estar submetidos a metas, cronogramas, indicadores, governança, transparência e avaliação permanente. Recursos públicos não devem ser mantidos indefinidamente em projetos que não apresentem resultados compatíveis com os objetivos estabelecidos. Da mesma maneira, mudanças de cenário podem exigir revisão de prioridades, redimensionamento de projetos ou substituição de determinadas soluções. A questão é que essas decisões precisam ser planejadas, porque existe uma diferença considerável entre reorganizar uma política estratégica e simplesmente interrompê-la por falta de previsibilidade financeira.

O debate, portanto, não deveria ser reduzido à pergunta sobre quanto o Brasil precisa gastar com Defesa. A questão mais relevante é quanto custa construir determinada capacidade e quanto o Estado poderá perder se permitir que ela seja interrompida antes de alcançar maturidade. Em determinados casos, a economia obtida pela redução de recursos em um exercício pode produzir uma despesa muito maior posteriormente, quando for necessário renegociar contratos, reconstruir fornecedores, recuperar mão de obra especializada, recompor infraestrutura ou reiniciar processos tecnológicos. A chamada economia de curto prazo pode, nesse cenário, transformar-se em custo estratégico e financeiro de longo prazo.

O Programa de Desenvolvimento de Submarinos, o PROSUB, demonstra com clareza por que essa avaliação precisa ir além do equipamento final. A construção dos submarinos representa uma importante ampliação da capacidade da Marinha, mas o programa também envolveu infraestrutura industrial, formação de pessoal, engenharia, processos de fabricação e uma trajetória de desenvolvimento tecnológico que culmina na capacidade brasileira de desenvolver um submarino com propulsão nuclear. O patrimônio construído pelo programa, portanto, não se resume às unidades incorporadas à Força Naval. Ele inclui conhecimento e infraestrutura que dificilmente poderiam ser reconstruídos rapidamente caso fossem perdidos.

A mesma lógica pode ser observada no programa F-X2, que levou à introdução do Gripen na Força Aérea Brasileira. A aeronave representa um salto importante para a capacidade operacional da Força, mas o programa também ampliou a participação brasileira em atividades de engenharia, desenvolvimento, produção, integração e suporte. O valor estratégico de uma parceria tecnológica dessa natureza não está apenas na transferência de um produto para o usuário final, mas na capacidade que o país consegue absorver e preservar para participar de projetos cada vez mais complexos. O conhecimento adquirido por profissionais e empresas brasileiras somente se transforma em vantagem permanente, entretanto, se houver continuidade suficiente para que essas competências sejam empregadas e aprofundadas em novos programas.

O KC-390 Millennium apresenta uma dimensão adicional dessa mesma estratégia porque demonstra como um programa de defesa pode se transformar também em instrumento industrial e de política externa. O desenvolvimento de uma aeronave militar de grande porte e alta complexidade posicionou empresas brasileiras em uma cadeia tecnológica sofisticada e criou um produto com potencial de inserção internacional. Quando um sistema brasileiro chega ao mercado externo, a relação não termina na venda da aeronave ou do equipamento. Surgem oportunidades de manutenção, treinamento, serviços, fornecimento de componentes e novos contratos, ao mesmo tempo em que se estabelece uma relação institucional de longo prazo entre o Brasil e o país comprador. Nesse sentido, exportações de defesa podem contribuir simultaneamente para a indústria, para a geração de divisas e para a construção de relacionamentos estratégicos.

O Programa Guarani segue uma lógica semelhante. A renovação da capacidade mecanizada do Exército não pode ser analisada exclusivamente pelo número de veículos entregues às unidades. A existência de uma cadeia nacional envolvida na fabricação, integração, manutenção e evolução da plataforma cria competências que podem ser aproveitadas no desenvolvimento de futuras gerações de sistemas terrestres. A capacidade industrial instalada e o conhecimento acumulado tornam-se, nesse caso, parte do patrimônio estratégico do país.

Esses exemplos revelam uma característica importante do investimento em Defesa: o retorno estratégico de um programa não está necessariamente contido no equipamento adquirido. Ele também pode estar na capacidade tecnológica, industrial e humana que permanece disponível depois que o equipamento entra em operação. É justamente essa dimensão que precisa ser considerada quando se avaliam os efeitos de contingenciamentos, atrasos e interrupções em programas de longo prazo.

A necessidade de preservar essas capacidades torna-se ainda maior diante da transformação tecnológica do ambiente de segurança internacional. As guerras recentes demonstraram que plataformas continuam fundamentais, mas sua eficácia depende cada vez mais de sistemas que permanecem menos visíveis para o público. Sensores, radares, comunicações seguras, guerra eletrônica, inteligência artificial, processamento de dados, sistemas de comando e controle, cibernética, navegação, guiagem, autonomia e integração entre diferentes plataformas passaram a desempenhar papel decisivo na capacidade de uma força militar operar em ambientes complexos.

Esse cenário abre uma série de áreas nas quais o Brasil precisa identificar suas próprias ilhas de soberania tecnológica. Semicondutores e eletrônica de alta confiabilidade, sensores e sistemas optrônicos, radares, guerra eletrônica, inteligência artificial, cibernética, comunicações seguras, sistemas espaciais, navegação e guiagem, propulsão, materiais avançados, química fina, sistemas autônomos, robótica e armazenamento de energia são exemplos de campos nos quais uma dependência excessivamente concentrada pode produzir vulnerabilidades que não aparecem durante períodos de normalidade.

Mais uma vez, isso não significa que o país precise fabricar internamente todos os componentes utilizados nessas tecnologias. O objetivo deve ser identificar os pontos de estrangulamento das cadeias. Um componente de dimensões reduzidas pode ser suficiente para impedir o funcionamento de um sistema inteiro se não houver alternativa de fornecimento. Um sensor, determinado circuito eletrônico, uma liga metálica específica, um software, um sistema de comunicação ou mesmo uma capacidade de manutenção pode parecer secundário quando analisado isoladamente, mas tornar-se crítico quando integrado a uma arquitetura militar ou de infraestrutura.

Essa preocupação leva diretamente ao subsolo brasileiro e à necessidade de rever a forma como o país encara suas próprias riquezas naturais. O Brasil é uma potência mineral e possui uma posição extremamente relevante na produção de diversas commodities. Essa condição é uma vantagem econômica que deve ser preservada, mas ela não deveria representar o ponto final da estratégia nacional. O verdadeiro problema não está em exportar commodities; está em permanecer concentrado na exportação de matéria-prima enquanto outras economias capturam a maior parcela do valor ao transformar esses recursos em materiais processados, componentes, equipamentos e produtos tecnológicos.

A diferença entre possuir um recurso e dominar sua cadeia produtiva é uma das questões centrais para a soberania econômica brasileira. Uma determinada matéria-prima pode sair do país com baixo nível de processamento e retornar posteriormente incorporada a produtos de elevado valor agregado. Nesse intervalo estão justamente as etapas que concentram parte significativa do conhecimento, da tecnologia, da propriedade intelectual e da geração de empregos qualificados. Beneficiamento, processamento químico, separação, refino, produção de materiais de alta pureza, fabricação de ligas e componentes e desenvolvimento de aplicações industriais são etapas que podem transformar uma vantagem geológica em uma vantagem tecnológica.

As terras raras tornam essa discussão especialmente evidente. O Brasil possui recursos importantes, mas a existência dessas reservas não garante, por si só, domínio sobre as tecnologias associadas a esses elementos. A capacidade estratégica começa a surgir quando o país consegue avançar da extração para o beneficiamento, a separação e o refino e, posteriormente, para a produção de materiais e componentes de maior valor agregado. Ímãs permanentes, materiais especiais, componentes eletrônicos e diferentes aplicações industriais dependem de cadeias tecnológicas que vão muito além da mineração.

Esse raciocínio pode ser estendido a outros minerais críticos. O Brasil possui recursos relevantes de diferentes elementos necessários à indústria avançada, à transição energética e a tecnologias de defesa. O desafio não é simplesmente extrair mais. É criar condições para que uma parcela maior do valor econômico e tecnológico dessas cadeias permaneça no país. Isso exige investimentos em plantas de processamento e refino, pesquisa aplicada, centros tecnológicos, qualificação profissional, infraestrutura e mecanismos de financiamento capazes de suportar projetos que, assim como os programas de defesa, não produzem resultados completos em um único exercício.

A discussão sobre commodities, portanto, precisa deixar de ser tratada como uma simples oposição entre exportar ou não exportar. O Brasil continuará exportando minério, petróleo, produtos agrícolas e outras commodities porque essa é uma característica importante de sua economia e uma fonte relevante de divisas. A questão estratégica é impedir que a cadeia termine na matéria-prima quando existe capacidade e oportunidade para avançar em direção a etapas industriais mais sofisticadas.

Quanto mais etapas o país consegue dominar, maior tende a ser sua capacidade de gerar conhecimento, empregos qualificados, propriedade intelectual e empresas competitivas. A transformação de um recurso natural em material avançado, componente ou produto tecnológico também cria uma relação mais profunda entre mineração, indústria e ciência. É essa integração que permite transformar riqueza natural em capacidade nacional.

No setor de Defesa, essa conexão é particularmente importante porque diversos sistemas dependem de materiais e componentes que têm origem muito anterior à montagem do equipamento final. Sensores, motores, sistemas eletrônicos, baterias, materiais especiais, ligas metálicas, ímãs e componentes de alta precisão fazem parte de cadeias industriais que começam na mineração, passam pela química e pela metalurgia e chegam à engenharia de sistemas. Se o Brasil deseja ampliar sua autonomia em Defesa, precisa olhar também para essas camadas anteriores.

O mesmo vale para o setor espacial. A capacidade de colocar um satélite em órbita é apenas uma parte de uma infraestrutura espacial soberana. Comunicações, sensoriamento remoto, processamento de dados, infraestrutura terrestre, conhecimento orbital, software e tecnologias críticas determinam a capacidade efetiva de utilizar o espaço em benefício da segurança e do desenvolvimento nacional. A soberania espacial, portanto, não se resume ao lançamento de plataformas, mas à capacidade de controlar e utilizar de forma segura os serviços e conhecimentos associados ao domínio espacial.

No ambiente cibernético, a dependência pode ser ainda mais difícil de identificar. Sistemas críticos podem depender de softwares, atualizações, componentes, serviços e fornecedores estrangeiros. Em condições normais, essas relações podem ser perfeitamente funcionais. Em uma crise internacional, porém, uma dependência comercial pode adquirir dimensão estratégica. A capacidade de manter sistemas funcionando em um ambiente adverso depende, nesse caso, não apenas daquilo que está fisicamente dentro do território brasileiro, mas também do domínio sobre conhecimento, infraestrutura e processos que permitem sua operação.

É por isso que a soberania tecnológica precisa ser compreendida como uma arquitetura de capacidades e não como uma coleção de equipamentos nacionais. Uma plataforma pode ser produzida no Brasil e ainda conter dependências relevantes. Da mesma maneira, um produto estrangeiro pode ser perfeitamente compatível com os interesses brasileiros se o país possuir alternativas, estoque, capacidade de manutenção, conhecimento suficiente e uma rede de parceiros capaz de assegurar sua disponibilidade.

'A questão não é nacionalizar tudo. É conhecer onde estão as vulnerabilidades."

Essa abordagem também ajuda a colocar a Base Industrial de Defesa dentro de uma política mais ampla de desenvolvimento nacional. Uma empresa que desenvolve determinada tecnologia para uso militar pode posteriormente encontrar aplicações civis. Um profissional formado em um programa estratégico pode levar seu conhecimento para outras áreas. Um fornecedor criado para atender uma demanda das Forças Armadas pode posteriormente participar de cadeias internacionais. Um centro de pesquisa criado para uma necessidade militar pode desenvolver conhecimento aproveitado por setores civis.

Não existe garantia de que isso acontecerá automaticamente, e seria incorreto apresentar cada investimento em Defesa como se tivesse retorno econômico assegurado. Mas existe uma relação concreta entre programas tecnológicos complexos, formação de capital humano, inovação e desenvolvimento industrial que precisa ser considerada quando o Estado avalia seus investimentos.

Essa mesma capacidade industrial também amplia os instrumentos disponíveis para a política externa brasileira. Quanto mais o Brasil desenvolve e produz tecnologias complexas, maior é sua capacidade de estabelecer cooperações em condições mais equilibradas, oferecer produtos e serviços a parceiros, participar de cadeias internacionais e utilizar exportações como instrumento de aproximação estratégica. A indústria de defesa pode, portanto, contribuir para a diplomacia não apenas porque fornece equipamentos, mas porque cria relações de longo prazo sustentadas por tecnologia, treinamento, manutenção e interesses industriais comuns.

Autonomia estratégica não significa isolamento internacional. Na realidade, pode significar exatamente o contrário: um país que possui maior capacidade tecnológica consegue escolher melhor seus parceiros, negociar com maior liberdade e participar de cooperações internacionais sem que toda a relação esteja baseada em uma dependência unilateral. A parceria externa deixa de ser apenas uma necessidade e passa a ser também uma escolha estratégica.

Essa é uma diferença importante para um país como o Brasil, que possui escala territorial, população, recursos naturais e mercado suficientes para construir competências próprias, mas não dispõe de recursos ilimitados para desenvolver tudo simultaneamente. A escolha das prioridades será inevitavelmente necessária. O Estado precisará determinar quais tecnologias devem ser dominadas, quais cadeias precisam ser preservadas, quais recursos minerais devem receber processamento nacional, quais áreas podem depender de parceiros e onde a dependência externa representa risco aceitável ou inaceitável. Essa escolha exige continuidade, e continuidade exige previsibilidade.

Empresas não investem em infraestrutura, equipamentos e profissionais especializados olhando apenas para o próximo orçamento anual. Universidades não formam especialistas em tecnologias complexas em poucos meses. Centros de pesquisa não desenvolvem competências críticas entre o início e o fim de um exercício fiscal. Uma cadeia industrial tampouco pode ser criada e desmontada sucessivamente sem que isso produza consequências.

Quando o Estado sinaliza que determinada capacidade é estratégica, cria uma expectativa de longo prazo que precisa ser acompanhada por planejamento compatível. Caso contrário, o próprio Estado reduz a confiança dos agentes que precisa mobilizar para construir essa capacidade.

A ausência de previsibilidade pode produzir um círculo vicioso. A indústria reduz investimentos porque não enxerga demanda futura; a redução de escala aumenta custos; custos maiores tornam os programas mais difíceis de financiar; a dificuldade financeira provoca novas interrupções; e a interrupção aumenta novamente o custo necessário para retomar a capacidade. O resultado final pode ser exatamente o oposto da economia pretendida.

Por isso, a discussão sobre orçamento de Defesa precisa ser tratada com maior maturidade. O Brasil tem restrições fiscais reais e não pode ignorá-las. Os recursos públicos são finitos e existem demandas sociais igualmente legítimas. A questão é que a limitação de recursos torna ainda mais necessária a definição de prioridades e a proteção da continuidade daqueles investimentos considerados estratégicos.

Responsabilidade fiscal não significa necessariamente reduzir todos os investimentos da mesma maneira, significa escolher. E escolher também significa reconhecer que algumas capacidades custam muito para serem construídas e relativamente pouco para serem destruídas, mas podem custar novamente muito mais para serem reconstruídas.

Essa é a razão pela qual a previsibilidade orçamentária precisa ser acompanhada de uma política clara de prioridades nacionais. O Estado deve saber quais programas precisam atravessar ciclos políticos, quais capacidades precisam ser mantidas continuamente e quais tecnologias devem receber investimentos mesmo quando seus resultados ainda não são imediatamente visíveis.

A construção de soberania tecnológica não produz resultados instantâneos. Muitas vezes, o retorno de uma decisão tomada hoje aparecerá somente quando outra geração estiver ocupando as posições de comando nas Forças Armadas, nas empresas, nas universidades e no próprio governo. É justamente por isso que políticas dessa natureza não podem ser pensadas exclusivamente dentro do calendário eleitoral.

O Brasil não começa essa trajetória do zero. Possui uma indústria aeronáutica de alcance internacional, programas navais complexos, conhecimento acumulado no setor nuclear, capacidades espaciais, empresas de defesa, universidades, centros de pesquisa e uma das maiores bases de recursos naturais do planeta. O desafio está em conectar essas capacidades, fortalecer os elos mais frágeis e evitar que avanços conquistados ao longo de décadas sejam perdidos por falta de continuidade.

A grande oportunidade está justamente na conexão entre essas áreas. O minério pode alimentar a indústria de materiais avançados; esses materiais podem alimentar setores de eletrônica, energia e Defesa; universidades podem formar profissionais para essas cadeias; programas estratégicos podem criar demanda inicial; empresas podem transformar essa demanda em produtos competitivos; e a política externa pode abrir mercados para esses produtos e estabelecer novas parcerias tecnológicas.

É assim que uma política de soberania deixa de ser apenas uma política de aquisição de equipamentos e passa a ser uma política de construção de capacidade nacional.

O 7 de Setembro oferece, portanto, uma oportunidade para ampliar a discussão sobre o significado da independência brasileira. Em 1822, o país afirmou sua autonomia política. No século XXI, preservar essa autonomia significa também garantir que decisões fundamentais não estejam condicionadas por vulnerabilidades tecnológicas, industriais, energéticas ou logísticas que poderiam ter sido antecipadas e reduzidas.

"A independência política é um fato histórico. A soberania tecnológica, industrial e estratégica é uma construção permanente."

Ela exige que o Brasil trate seus recursos naturais como ponto de partida para cadeias de maior valor agregado, e não apenas como matéria-prima destinada à exportação. Exige que programas de Defesa sejam avaliados também pelo conhecimento e pela capacidade industrial que deixam no país. Exige que ciência e tecnologia estejam conectadas às necessidades estratégicas nacionais. Exige que a indústria tenha horizonte suficiente para investir e que o Estado tenha mecanismos para avaliar resultados sem destruir a continuidade necessária ao desenvolvimento das capacidades consideradas essenciais.

Sobretudo, exige que o país compreenda que previsibilidade orçamentária não é privilégio de uma instituição ou de um setor econômico. Quando corretamente associada a planejamento, metas, controle e avaliação, ela é uma ferramenta para preservar o valor dos próprios investimentos públicos.

O Brasil não precisa produzir tudo o que consome, nem deve buscar uma autossuficiência impossível. Precisa, porém, saber quais tecnologias não pode deixar de dominar, quais recursos não pode simplesmente exportar sem agregar valor, quais cadeias industriais não pode permitir que desapareçam e quais dependências externas podem limitar sua liberdade de ação em um momento de crise.

Essa definição será decisiva para o Brasil das próximas décadas. O país possui território, recursos, população, mercado, conhecimento e experiências industriais que poucos Estados reúnem simultaneamente. O que ainda falta é transformar esses ativos dispersos em uma estratégia integrada, capaz de conectar riqueza natural, conhecimento científico, indústria, Defesa e política externa.

É nessa integração que a soberania deixa de ser apenas um princípio constitucional e passa a se transformar em capacidade concreta de Estado. Não se trata de produzir tudo internamente, mas de garantir que, nas áreas em que a liberdade de decisão brasileira depende de conhecimento, tecnologia e capacidade industrial, o país tenha condições de sustentar suas escolhas mesmo quando o ambiente internacional se tornar menos previsível.

Em 1822, o Brasil afirmou sua independência política diante de Portugal. Mais de duzentos anos depois, o desafio é assegurar que essa independência continue encontrando sustentação nas capacidades que o Brasil consegue construir, preservar e desenvolver. A soberania do século XXI será cada vez menos determinada apenas pelo que existe dentro das fronteiras e cada vez mais pela capacidade de transformar recursos em conhecimento, conhecimento em tecnologia, tecnologia em indústria e indústria em liberdade de decisão.

É essa continuidade que permitirá ao Brasil deixar de possuir apenas ilhas de excelência e construir, a partir delas, um verdadeiro arquipélago de soberania tecnológica, industrial e estratégica.


Por Angelo Nicolaci


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6 de Setembro: a guerra que transformou a defesa do Paquistão em parte de sua identidade nacional

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No Paquistão, algumas datas ultrapassam o calendário oficial e passam a fazer parte da própria memória coletiva do país. O 6 de setembro é uma delas. Conhecido como Defence Day, ou Youm-e-Difa, o dia é dedicado à lembrança dos militares que participaram da defesa do país durante a guerra de 1965 contra a Índia. Mais do que uma comemoração militar, a data representa uma das experiências que ajudaram a moldar a percepção paquistanesa sobre soberania, segurança nacional e o papel das Forças Armadas na preservação do Estado. A origem dessa memória remonta à madrugada de 6 de setembro de 1965, quando a guerra entre Índia e Paquistão entrou em uma nova fase. Até então, os combates estavam concentrados principalmente na região da Caxemira, mas naquele dia as forças indianas atravessaram a fronteira internacional em direção ao Punjab paquistanês, ampliando significativamente o conflito. A guerra, que vinha sendo construída por uma sucessão de crises e decisões políticas e militares ao longo daquele ano, transformava-se em um confronto convencional de maior escala entre dois países que haviam conquistado sua independência apenas 18 anos antes.

Para compreender o significado daquele momento, entretanto, é necessário retornar ao nascimento dos dois países. A independência do subcontinente indiano, em 1947, havia sido acompanhada pela Partição e por uma das maiores crises humanas provocadas pelo processo de descolonização. Índia e Paquistão surgiram como Estados independentes em meio a deslocamentos populacionais em massa, violência comunitária e uma série de questões territoriais que permaneceriam sem solução. Entre elas estava Jammu e Caxemira, cuja disputa rapidamente levou os dois novos países à primeira guerra, entre 1947 e 1948. A região assumiria uma importância que ultrapassava sua dimensão territorial. Para o Paquistão, a maioria muçulmana da população da Caxemira estava profundamente ligada à lógica política que havia conduzido à criação do novo Estado. Para a Índia, por outro lado, a integração de Jammu e Caxemira estava associada à sua soberania territorial e à própria concepção do Estado indiano independente. A disputa passou, portanto, a concentrar elementos territoriais, políticos, religiosos e estratégicos que dificultavam qualquer solução simples.

Foi nesse ambiente que 1965 começou a se transformar em um novo ponto de ruptura. Os primeiros confrontos importantes daquele ano ocorreram no Rann of Kutch, área localizada na fronteira entre os dois países. Embora a crise tenha sido posteriormente contida por negociações, ela demonstrou que a tensão bilateral havia voltado a um nível perigoso. Poucos meses depois, o foco deslocou-se novamente para a Caxemira. O Paquistão lançou a Operação Gibraltar, uma tentativa de infiltrar combatentes na Caxemira administrada pela Índia com o objetivo de estimular uma revolta contra o controle indiano. A operação não produziu o resultado político esperado por Islamabad e acabou provocando uma reação indiana mais ampla. Em seguida, o Paquistão lançou a Operação Grand Slam na região de Jammu, buscando pressionar posições indianas e alterar a situação militar no setor. A escalada passou então a ameaçar transformar uma disputa localizada em uma guerra aberta.

Em 6 de setembro, a Índia decidiu ampliar o conflito para além da Caxemira e atravessou a fronteira internacional no Punjab. A medida abriu uma nova frente em direção a Lahore e modificou completamente a dimensão da guerra. O conflito deixava de estar restrito às áreas disputadas e passava a ameaçar diretamente importantes centros urbanos, militares e logísticos dos dois países. Para o Paquistão, a proximidade dos combates com Lahore teve também um impacto psicológico profundo. O país ainda era uma sociedade relativamente jovem, formada apenas duas décadas antes em circunstâncias traumáticas. A lembrança da Partição permanecia presente na vida cotidiana de milhões de pessoas, e a possibilidade de uma guerra atingir diretamente uma das principais cidades nacionais reforçava a percepção de vulnerabilidade que já fazia parte da experiência paquistanesa desde a independência. É nesse contexto que a figura do soldado passa a ocupar um lugar tão importante na memória do 6 de setembro. A guerra envolveu decisões tomadas por governos e comandos militares, mas foi vivida na prática por homens que permaneceram em posições avançadas, por tripulações de aeronaves e unidades blindadas que entraram em combate e por famílias que aguardavam notícias enquanto as operações se desenvolviam.

A memória nacional construída posteriormente em torno do Defence Day transformou esses indivíduos em símbolos da defesa do Estado. A narrativa oficial paquistanesa enfatiza a resistência diante da ofensiva indiana e o sacrifício daqueles que morreram durante o conflito. Essa dimensão não pode ser dissociada da maneira como o país passou a compreender sua própria segurança, especialmente porque a experiência de 1965 reforçou uma percepção já existente de que a sobrevivência do Paquistão dependia de sua capacidade de manter uma estrutura militar preparada para enfrentar um adversário muito maior. Isso não significa, entretanto, que a guerra possa ser compreendida apenas a partir da narrativa de uma vitória paquistanesa ou indiana. A realidade militar e política do conflito foi muito mais complexa. Índia e Paquistão sofreram perdas importantes, nenhum dos dois conseguiu alcançar uma solução definitiva para a questão da Caxemira e a guerra terminou sem que houvesse uma alteração permanente capaz de resolver a disputa central que havia contribuído para desencadeá-la.

A intervenção internacional foi decisiva para interromper a escalada. O Conselho de Segurança das Nações Unidas aprovou resoluções exigindo o fim das hostilidades e estabelecendo o retorno das forças às posições anteriores ao conflito. A Resolução 211, aprovada em 20 de setembro de 1965, determinou o cessar-fogo e estabeleceu que as forças deveriam retornar às posições ocupadas antes de 5 de agosto. A guerra terminou, mas a questão que estava no centro dela permaneceu aberta. Essa característica é fundamental para entender por que o 6 de setembro ganhou uma importância tão grande no imaginário nacional paquistanês. A data não está associada a uma solução definitiva para a Caxemira ou a uma transformação territorial decorrente da guerra. Sua importância está principalmente relacionada à experiência de um Estado jovem que percebeu, novamente, a possibilidade concreta de precisar lutar pela própria sobrevivência diante de um vizinho muito maior.

A paz posterior também não eliminou as tensões. Em janeiro de 1966, o presidente paquistanês Ayub Khan e o primeiro-ministro indiano Lal Bahadur Shastri se reuniram em Tashkent, na União Soviética, onde, sob mediação soviética, negociaram o fim formal das consequências imediatas do conflito. A Declaração de Tashkent estabeleceu a retirada das forças para as posições anteriores à guerra e reafirmou o compromisso de Índia e Paquistão de não utilizar a força para resolver suas disputas. O acordo, contudo, também revelou a dificuldade de separar a guerra da política interna. No Paquistão, setores da sociedade interpretaram o resultado como insuficiente diante dos objetivos que haviam sido apresentados durante o conflito. A memória dos militares mortos permaneceu associada a uma guerra que não havia resolvido a Caxemira, e a percepção de que o país continuava exposto diante da Índia permaneceu profundamente enraizada na estrutura política e militar paquistanesa.

A experiência de 1965 teve consequências que se estenderiam muito além daquele conflito. O Paquistão já possuía uma forte tradição militar herdada do período britânico e enfrentava uma assimetria considerável diante da Índia em população, território e recursos econômicos. A guerra reforçou a percepção de que a capacidade militar seria um instrumento essencial para compensar essa diferença. Essa percepção ajudaria a explicar a posição central que as Forças Armadas passariam a ocupar na política e na estratégia nacional do Paquistão. Seria incorreto atribuir essa realidade exclusivamente à guerra de 1965, porque a história paquistanesa posterior seria marcada por outros acontecimentos decisivos, incluindo a crise de 1971, a separação do Paquistão Oriental e a guerra daquele ano. Ainda assim, 1965 contribuiu para consolidar uma cultura estratégica baseada na necessidade de manter uma capacidade militar significativa diante de um adversário considerado potencialmente existencial.

A própria natureza do conflito também teve importância. A guerra demonstrou que uma disputa pela Caxemira poderia rapidamente se transformar em um confronto convencional de grande escala, envolvendo forças terrestres, blindados, artilharia e aviação. O Sul da Ásia deixava de ser apenas um cenário de disputas territoriais entre dois países recém-independentes e passava a ser observado com atenção pelas grandes potências da Guerra Fria. Estados Unidos e União Soviética tinham interesses distintos na região e trabalharam diplomaticamente para impedir que o conflito ultrapassasse determinado limite. Washington também interrompeu o fornecimento de armas aos dois países, uma decisão particularmente relevante para o Paquistão, que dependia em maior medida de equipamentos de origem americana. A guerra demonstrava, portanto, que qualquer confronto entre Índia e Paquistão possuía potencial para adquirir rapidamente uma dimensão internacional.

A consequência mais profunda, porém, não estava nos mapas produzidos pelo conflito, mas na forma como a sociedade paquistanesa passou a enxergar sua própria segurança. O país havia sido criado em 1947 em meio à violência e à instabilidade da Partição, possuía uma configuração territorial particularmente complexa e enfrentava desde os primeiros anos uma relação extremamente difícil com a Índia. Em 1965, essa sensação de vulnerabilidade ganhou uma nova dimensão. A possibilidade de uma guerra convencional atingir diretamente o Punjab e Lahore mostrou que a distância entre a fronteira e os principais centros nacionais poderia desaparecer em poucas horas. Ao longo das décadas seguintes, essa percepção seria reforçada por novos conflitos e pelo desenvolvimento da capacidade militar paquistanesa. A busca por uma capacidade de dissuasão cada vez maior acabaria contribuindo, décadas mais tarde, para a decisão de desenvolver armas nucleares. A lógica não surgiu em 1965, mas a guerra ajudou a fortalecer uma visão estratégica na qual a sobrevivência nacional dependia da capacidade de impedir que a superioridade convencional indiana pudesse ser convertida em uma vantagem decisiva.

É por isso que o 6 de setembro continua tendo um significado que vai muito além de uma cerimônia militar. Quando o Paquistão homenageia seus mortos nessa data, está lembrando uma geração que enfrentou uma guerra travada quando o país ainda buscava consolidar suas próprias instituições e sua identidade. Está lembrando soldados que combateram em uma guerra que não resolveu a questão da Caxemira, mas que marcou profundamente a maneira como o Estado passou a pensar sua defesa. E está preservando uma memória que, para milhões de paquistaneses, está associada não apenas aos grandes movimentos militares de 1965, mas às histórias pessoais de homens que partiram para a guerra e não retornaram.

Essa dimensão humana é justamente o que impede que o 6 de setembro seja reduzido a uma simples celebração militar. Por trás dos desfiles, das cerimônias e das homenagens existe uma sociedade que construiu sua identidade nacional em circunstâncias extraordinariamente difíceis e que, desde os primeiros anos de sua existência, precisou lidar com a possibilidade de que sua soberania estivesse permanentemente ameaçada. Sessenta e um anos depois, a guerra de 1965 continua encerrada nos livros de história, mas suas consequências permanecem presentes na estratégia do Paquistão, na importância de suas Forças Armadas, na relação com a Índia e, sobretudo, na questão da Caxemira, que continua sem uma solução definitiva.

O 6 de setembro, portanto, não representa apenas a lembrança de uma guerra. Ele representa uma das experiências que ajudaram a definir como o Paquistão passou a compreender a própria existência como Estado. A independência havia criado o país em 1947; as crises e os conflitos das décadas seguintes ajudariam a definir o modo como esse país enxergaria sua segurança, sua soberania e sua relação com o mundo. É nessa perspectiva que a memória dos que morreram em 1965 permanece viva, não apenas como parte da história militar paquistanesa, mas como parte da história de uma sociedade que, desde seu nascimento, aprendeu que a construção de um Estado não termina quando uma bandeira é hasteada. Ela continua nas instituições, nas fronteiras, nas escolhas políticas e naqueles que, em momentos extremos, são chamados a defendê-lo.


Por Angelo Nicolaci


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sexta-feira, 4 de setembro de 2026

Aviação do Exército completa 40 anos de recriação e consolida quatro décadas de evolução da aeromobilidade

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Da retomada das operações com helicópteros em 1986 à integração com sistemas remotamente pilotados, Aviação do Exército transformou sua capacidade aérea em um instrumento essencial para a mobilidade e o emprego da Força Terrestre

Quatro décadas depois de sua recriação, a Aviação do Exército chega aos 40 anos com uma estrutura muito diferente daquela que marcou sua retomada em 1986. O que começou com a decisão de recuperar, dentro da Força Terrestre, uma capacidade aérea perdida décadas antes tornou-se uma estrutura voltada à aeromobilidade, ao apoio às operações terrestres e ao emprego de meios aéreos em diferentes ambientes operacionais.

A data foi celebrada nesta sexta-feira, 4 de setembro, no Comando de Aviação do Exército (CAvEx), em Taubaté (SP), com uma solenidade que reuniu formatura militar, entrega de medalhas, desfile terrestre e apresentação aérea. Mais do que marcar uma data institucional, os 40 anos permitem observar a trajetória de uma capacidade que voltou a ser incorporada ao planejamento operacional do Exército e passou, ao longo desse período, por sucessivas transformações doutrinárias e tecnológicas.

A história, entretanto, começa muito antes de 1986. A Aviação Militar brasileira foi criada em 1919 e oficializada em 1927 como a quinta Arma do Exército. A experiência acumulada naquele período seria interrompida em 1941, quando a criação da Força Aérea Brasileira concentrou na nova Força a atividade de aviação militar.

A recriação da Aviação do Exército, em 3 de setembro de 1986, ocorreu em um contexto no qual o Exército voltou a identificar a necessidade de possuir seus próprios meios de asas rotativas para apoiar diretamente as operações terrestres. A opção pelos helicópteros também refletia uma mudança na forma de compreender o emprego do poder aéreo em apoio à Força Terrestre.

Ao contrário de uma estrutura destinada exclusivamente ao transporte, a aviação de asas rotativas permite combinar mobilidade, velocidade, flexibilidade e capacidade de operar em regiões onde os meios terrestres encontram limitações. Essa característica tornou os helicópteros particularmente importantes para deslocamento de tropas, reconhecimento, apoio ao combate, evacuação, resgate e apoio logístico.

Ao longo das décadas seguintes, essa capacidade foi sendo ampliada e incorporada à doutrina de emprego do Exército. A aeromobilidade passou a representar não apenas a possibilidade de transportar tropas pelo ar, mas a capacidade de modificar a velocidade e a geometria das operações terrestres, permitindo que forças sejam empregadas em profundidade e em áreas de difícil acesso.

Esse aspecto assume dimensão ainda maior quando considerado o território brasileiro. A extensão continental do país, combinada com ambientes operacionais tão distintos quanto a Amazônia, o Cerrado, regiões costeiras e áreas densamente urbanizadas, impõe desafios que não podem ser solucionados apenas pela mobilidade terrestre.

É nesse cenário que a estrutura atual da Aviação do Exército ganha relevância. A AvEx possui atualmente 96 aeronaves e mantém sua presença em diferentes regiões do território nacional, com organizações sediadas em Taubaté, Campo Grande, Manaus e Belém. Essa distribuição amplia a capacidade de resposta e aproxima os meios aéreos dos diferentes ambientes em que a Força Terrestre pode ser empregada.

Em Taubaté está concentrada parte significativa dessa estrutura, incluindo o Centro de Instrução de Aviação do Exército (CIAvEx), responsável pela formação e capacitação dos recursos humanos que sustentam a operação dos meios aéreos. A existência de uma estrutura própria de treinamento é um componente fundamental de qualquer capacidade militar de aviação, já que a disponibilidade de aeronaves, por si só, não garante a geração de poder de combate.

A frota reúne diferentes modelos e gerações de helicópteros, incluindo os HA-1A Fennec AvEx, HM-1A Pantera, HM-3 Cougar, HM-4 Jaguar, HM-2 Black Hawk e o mais recente HM-2A. Essa diversidade também evidencia uma característica importante da evolução da AvEx: a necessidade de combinar plataformas com diferentes capacidades para atender a uma ampla gama de missões.

O Fennec, por exemplo, está associado a missões de reconhecimento e ataque, enquanto aeronaves como o Pantera, Cougar e Black Hawk ampliam as possibilidades de transporte e emprego de tropas. O Jaguar, por sua vez, representa uma categoria de maior porte e capacidade, adequada a missões que exigem maior capacidade de transporte e autonomia.

A modernização desses meios acompanha uma transformação mais ampla no campo de batalha. A aviação militar contemporânea deixou de depender exclusivamente da aeronave como plataforma isolada. Sensores, sistemas de comunicação, enlaces de dados, sistemas de missão e integração com outras forças passaram a ser elementos determinantes para o emprego eficiente dos helicópteros.

Essa transformação também está levando a Aviação do Exército para além das asas rotativas. Em Taubaté, a Esquadrilha de Sistemas de Aeronaves Remotamente Pilotadas (SARP) opera o Nauru 1000C, incorporando uma nova dimensão à capacidade de reconhecimento e obtenção de informações da Força Terrestre.

A introdução dos sistemas remotamente pilotados representa uma mudança relevante porque amplia a capacidade de obter informações sem necessariamente expor uma aeronave tripulada e sua tripulação às mesmas condições de risco. Mais importante, porém, é a possibilidade de integrar essas informações ao processo de decisão das unidades terrestres, formando uma arquitetura na qual sensores aéreos e forças de manobra passam a operar de maneira cada vez mais conectada.

Essa integração tende a ser um dos principais desafios da próxima fase da Aviação do Exército. O futuro da aeromobilidade não estará apenas na aquisição de novas aeronaves, mas na capacidade de integrar plataformas tripuladas e não tripuladas, sensores, comunicações e sistemas de comando e controle em um mesmo ambiente operacional.

O conceito ganha importância diante da evolução dos conflitos contemporâneos. O emprego de helicópteros em ambientes saturados por sensores, drones, sistemas antiaéreos e guerra eletrônica exige maior consciência situacional e capacidade de operar de forma integrada. A sobrevivência de uma plataforma aérea passa cada vez mais pela qualidade da informação disponível antes e durante a missão.

Para o Brasil, essa transformação possui uma dimensão adicional. A Aviação do Exército precisa ser capaz de operar tanto em grandes exercícios convencionais quanto em missões de apoio às operações na Amazônia, ações de ajuda humanitária, resgate e resposta a emergências. A amplitude dessas demandas exige uma força aérea terrestre suficientemente flexível para transitar entre diferentes tipos de missão sem perder sua capacidade de emprego operacional.

Os 40 anos de recriação, portanto, não representam apenas quatro décadas de helicópteros voando novamente sob a estrutura do Exército. Representam quatro décadas de reconstrução de uma capacidade militar que passou a integrar de forma permanente o planejamento da Força Terrestre.

O desafio agora é preservar essa capacidade enquanto ela entra em uma nova fase tecnológica. A incorporação de novos meios, a modernização da frota existente, a expansão dos sistemas remotamente pilotados e a evolução dos sistemas de comando e controle precisarão ocorrer de maneira coordenada, evitando que a renovação de plataformas aconteça de forma dissociada da evolução doutrinária e tecnológica.

Nesse sentido, a experiência acumulada desde 1986 é um dos principais ativos da Aviação do Exército. A capacidade de formar pilotos e especialistas, manter aeronaves, desenvolver doutrina e integrar o componente aéreo às operações terrestres não é construída apenas pela aquisição de equipamentos. Ela depende de conhecimento institucional acumulado ao longo de décadas.

Ao completar 40 anos de sua recriação, a Aviação do Exército chega, portanto, a um ponto de maturidade em que a principal questão deixa de ser apenas como manter aquilo que foi construído e passa a ser como preparar essa capacidade para o ambiente operacional das próximas décadas.

A trajetória iniciada em 1986 mostrou que a recriação de uma capacidade militar não termina com a incorporação das primeiras aeronaves. Ela exige formação, doutrina, infraestrutura, manutenção, modernização e evolução permanente. É essa estrutura que permitiu à AvEx atravessar quatro décadas e chegar a 2026 como um componente integrado à capacidade operacional do Exército Brasileiro.

Os próximos 40 anos serão marcados por uma relação ainda mais estreita entre aviação, sistemas remotamente pilotados, sensores, inteligência e forças terrestres. Nesse cenário, a aeromobilidade continuará sendo menos uma questão de simplesmente deslocar tropas pelo ar e cada vez mais uma capacidade de ampliar o alcance, a velocidade e a consciência situacional da Força Terrestre.

A celebração realizada em Taubaté marca, assim, não apenas a memória de uma recriação ocorrida em 1986, mas a consolidação de uma capacidade que passou a fazer parte da própria arquitetura operacional do Exército Brasileiro e que terá papel relevante na preparação da Força para os desafios do futuro.

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