domingo, 1 de novembro de 2026

OTAN transforma redes 5G em sensores e testa nova arquitetura de vigilância e defesa no Báltico

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A evolução dos conflitos contemporâneos está ampliando o conceito de campo de batalha e redefinindo o papel de infraestruturas que, até pouco tempo, eram consideradas essencialmente civis. Redes de telecomunicações, sistemas de transmissão de dados e estruturas comerciais de conectividade começam a ser incorporados ao planejamento militar, não apenas como meios de comunicação, mas também como elementos capazes de contribuir para a vigilância, a identificação de ameaças e a tomada de decisões.

Essa transformação esteve no centro do Digital Backbone Experimentation 2026 (DiBaX 2026), exercício de experimentação tecnológica conduzido pela OTAN na Letônia, entre 19 e 30 de outubro. A iniciativa reuniu estruturas da Aliança, forças armadas, instituições de defesa e empresas de tecnologia para avaliar como redes 5G, comunicações via satélite, sensores, inteligência artificial e sistemas antidrones podem operar de maneira integrada em um ambiente operacional marcado por interferências, ameaças assimétricas e necessidade de resposta rápida.

Um dos aspectos mais relevantes foi a investigação do emprego de torres comerciais de telefonia móvel como sensores passivos. A proposta é explorar a infraestrutura de transmissão 5G para identificar objetos em movimento dentro de sua área de cobertura, acrescentando uma nova fonte de informação à arquitetura de vigilância militar. Em regiões urbanas, onde existe elevada densidade de antenas, essa capacidade pode ampliar a percepção do ambiente e complementar os dados obtidos por radares, sensores eletro-ópticos, sistemas infravermelhos e outros meios especializados.

Não se trata de substituir radares militares ou transformar automaticamente cada estação de telefonia em um sensor de defesa. O que a OTAN procura avaliar é a possibilidade de aproveitar sinais e dados gerados por infraestruturas já existentes para ampliar a consciência situacional, reduzindo lacunas de observação e oferecendo informações adicionais aos sistemas de comando e controle.

Redes civis a serviço da prontidão militar

A utilização de redes comerciais de telecomunicações em operações militares responde a uma necessidade concreta: permitir que forças aliadas estabeleçam conectividade segura desde os primeiros momentos de um deslocamento, antes mesmo da chegada de toda a infraestrutura própria de comunicações da OTAN.

Durante o DiBaX 2026, um dos cenários avaliou o chamado network slicing, tecnologia que permite dividir uma rede física em segmentos virtuais com características e prioridades específicas. Na prática, uma parcela da infraestrutura 5G do país anfitrião pode ser reservada para o uso militar, com mecanismos de proteção e gerenciamento destinados a assegurar a transmissão de dados e os serviços de comando e controle.

A aplicação é particularmente relevante em operações expedicionárias e no reforço do flanco oriental da Aliança. Uma força que chega a determinado território precisa estabelecer rapidamente comunicações com seus escalões superiores, compartilhar informações e coordenar movimentos. Utilizar redes locais, desde que devidamente protegidas e integradas, pode reduzir o tempo necessário para alcançar essa capacidade.

Entretanto, a dependência de infraestrutura civil também introduz vulnerabilidades. Redes comerciais podem ser alvo de ataques cibernéticos, sabotagem física, interrupções de energia e ações de guerra eletrônica. Por isso, o experimento também avaliou mecanismos para preservar a conectividade quando determinado enlace se torna indisponível, degradado ou comprometido.

A solução passa pela integração de diferentes meios de comunicação, incluindo redes celulares, enlaces de rádio, satélites e sistemas de dispersão troposférica. A ideia é permitir que os dispositivos alternem entre caminhos disponíveis conforme as condições do ambiente, preservando o fluxo de informações essenciais mesmo diante de interferências ou interrupções.

Essa capacidade de adaptação é central em um cenário no qual a superioridade eletromagnética deixou de ser uma condição garantida. A guerra eletrônica pode comprometer comunicações, navegação e transmissão de dados, afetando diretamente a coordenação de forças terrestres, aéreas e navais. Uma arquitetura capaz de utilizar caminhos alternativos e priorizar comunicações críticas pode representar uma vantagem operacional significativa.

O espectro eletromagnético como espaço de disputa

A resiliência das comunicações depende também de uma gestão eficiente do espectro eletromagnético. Em operações que envolvem múltiplos sistemas, diferentes frequências e grande quantidade de dispositivos, conflitos de utilização podem comprometer o desempenho das redes e provocar interferências entre equipamentos próprios.

Nesse contexto, a Agência de Comunicações e Informação da OTAN (NCIA) testou uma solução de gerenciamento e coordenação do espectro, desenvolvida internamente, destinada a permitir que diferentes sistemas de rádio utilizem faixas de frequência de maneira mais eficiente.

Durante os testes, foram observadas melhorias no aproveitamento do espectro, incluindo a capacidade de determinados sistemas alterarem suas frequências em questão de segundos. O objetivo é reduzir conflitos, administrar prioridades e preservar os enlaces considerados essenciais para a missão.

A experimentação também envolveu a integração de uma rede 5G experimental com infraestrutura de comunicações via satélite da Agência Espacial Europeia (ESA). A conexão entre o centro de pesquisa da ESA em Noordwijk, nos Países Baixos, e instalações na Letônia demonstrou como redes terrestres e não terrestres podem compor uma arquitetura integrada, ampliando a conectividade em áreas onde a infraestrutura convencional é insuficiente ou vulnerável.

O conceito vai além de garantir acesso à internet em ambientes remotos. Para as forças armadas, significa manter a capacidade de transmitir dados, coordenar unidades e compartilhar informações em um teatro de operações no qual a mobilidade e a dispersão das tropas podem dificultar o estabelecimento de redes convencionais.

Inteligência artificial e interoperabilidade: reduzindo o tempo entre informação e decisão

Outro eixo importante do DiBaX 2026 foi a integração entre sistemas de comando e controle de diferentes origens, apoiada por ferramentas de inteligência artificial. O desafio é antigo: forças de países distintos utilizam plataformas, protocolos e estruturas de dados que nem sempre foram desenvolvidos para se comunicar diretamente.

A dificuldade de integração pode gerar atrasos, exigir conversões manuais e comprometer a velocidade de resposta. Em operações multinacionais, nas quais informações precisam circular entre diferentes escalões de comando, essas limitações representam um problema que ultrapassa a dimensão técnica e alcança o próprio planejamento operacional.

Durante o exercício, a OTAN avançou na integração de sua plataforma Maven Smart System com um sistema militar nacional, utilizando inteligência artificial agêntica para superar barreiras de interoperabilidade. A integração, segundo declarações do comandante supremo aliado para Transformação, almirante Pierre Vandier, foi realizada em poucas horas, apesar de os sistemas não terem sido originalmente concebidos para operar em conjunto.

A inteligência artificial agêntica se diferencia de ferramentas que apenas respondem a comandos ou analisam dados isoladamente. Ela pode executar sequências de tarefas, identificar requisitos de integração e auxiliar na realização de processos necessários para que diferentes sistemas troquem informações. No contexto militar, isso pode reduzir o trabalho de adaptação entre plataformas e acelerar a disponibilização de dados aos responsáveis pela decisão.

A iniciativa também se relaciona ao programa Next Generation Targeting, voltado à melhoria dos processos de identificação, análise e validação de alvos. A proposta é reunir informações provenientes de diferentes sensores e sistemas, organizá-las e disponibilizá-las aos comandantes com maior rapidez.

Isso não elimina a necessidade de validação humana nem transfere automaticamente à inteligência artificial a autoridade para decidir pelo emprego da força. A velocidade proporcionada pela tecnologia precisa estar acompanhada de mecanismos de controle, rastreabilidade e responsabilidade sobre as decisões. Em operações militares, uma informação incorreta ou uma identificação equivocada pode produzir consequências graves.

Defesa antidrones e integração multinacional

O DiBaX 2026 também serviu de ambiente para experimentações vinculadas à iniciativa Layered Counter-UAS (LCI-X), dedicada ao desenvolvimento de uma defesa antidrones em camadas. O conceito busca conectar sensores, sistemas de comando e controle e diferentes meios de neutralização, permitindo que ameaças sejam detectadas e enfrentadas de acordo com suas características e o contexto operacional.

A relevância dessa abordagem está diretamente relacionada à transformação dos drones em instrumentos de emprego recorrente nos conflitos contemporâneos. Aeronaves não tripuladas de baixo custo, plataformas FPV e sistemas de maior alcance podem ameaçar instalações, comboios, posições de artilharia e infraestruturas críticas. A resposta exige uma combinação de radares, sensores eletro-ópticos, sistemas de guerra eletrônica, interceptadores e armamentos convencionais.

Durante as atividades, foram avaliadas formas de compartilhar dados entre sensores e sistemas de neutralização de diferentes fabricantes e países. Também foram realizados cenários envolvendo interferência eletrônica e operações com drones, evidenciando a necessidade de coordenar o emprego dos recursos disponíveis para evitar que medidas de neutralização afetem as próprias comunicações e sistemas aliados.

Um dos exemplos mais expressivos da integração multinacional foi a simulação de uma ameaça aérea não tripulada que partiu da Lituânia, cruzou a fronteira e foi engajada por um sistema antidrones em território letão. O cenário demonstrou a importância de compartilhar informações e coordenar respostas entre países diante de ameaças que não respeitam fronteiras nacionais.

O episódio evidencia uma questão central para a defesa coletiva: a eficácia de um sistema antidrones não depende apenas da capacidade individual de detectar ou neutralizar uma aeronave, mas também da rapidez com que a informação chega ao sistema responsável pela resposta. A integração entre sensores, centros de comando e meios de interceptação passa a ser tão importante quanto o desempenho isolado de cada equipamento.

A infraestrutura crítica também faz parte do campo de batalha

A experimentação realizada na Letônia aponta para uma mudança importante na relação entre infraestrutura civil e capacidade militar. Torres de telecomunicações, redes de transmissão de dados, satélites e centros de processamento passam a ser considerados elementos que podem contribuir diretamente para a vigilância e a condução de operações.

Essa integração, contudo, amplia a superfície de exposição a ameaças. Uma rede utilizada simultaneamente por serviços civis e militares precisa contar com mecanismos robustos de segregação, autenticação, criptografia, redundância e proteção contra ataques cibernéticos e físicos. Também exige planejamento para situações nas quais o operador comercial não consiga manter o serviço ou quando a própria infraestrutura se torne alvo de uma ação hostil.

No Báltico, essa preocupação está associada ao ambiente de segurança regional, marcado por tensões, incursões de drones e vulnerabilidades de infraestruturas submarinas e de comunicações. O DiBaX 2026 procurou justamente testar soluções aplicáveis a situações de crise que podem ocorrer abaixo do limiar de um conflito convencional, mas que exigem capacidade de identificação, atribuição e resposta coordenada.

A experimentação reuniu países aliados, organismos da OTAN e mais de 60 empresas e entidades tecnológicas. A participação de companhias como Nokia, Ericsson e Thales, além da atuação da empresa letã LMT Defence como integradora tecnológica, demonstra a importância atribuída à cooperação entre forças armadas, operadores de infraestrutura e indústria.

O objetivo não se limita a apresentar tecnologias promissoras. A experimentação busca identificar incompatibilidades, limitações e requisitos técnicos antes que essas soluções avancem para processos de adoção e emprego operacional. A própria liderança da OTAN reconhece que o maior desafio seguinte é transformar os resultados dos testes em capacidades efetivamente incorporadas pelas forças aliadas.

O que essa transformação representa para o Brasil

A experiência da OTAN oferece elementos importantes para o debate brasileiro sobre defesa, infraestrutura crítica e autonomia tecnológica. O Brasil possui dimensões continentais, extensa rede de telecomunicações, infraestrutura energética e logística distribuída por regiões estratégicas, além de responsabilidades sobre a Amazônia, o Atlântico Sul e a chamada Amazônia Azul.

A proteção desses espaços exige mais do que a aquisição de equipamentos militares isolados. Depende da capacidade de integrar radares, sensores, aeronaves, sistemas não tripulados, satélites, redes de comunicação e centros de comando e controle em uma arquitetura capaz de compartilhar informações de maneira segura e tempestiva.

Nesse contexto, o emprego de redes civis em apoio às operações militares merece ser estudado, especialmente para ampliar a cobertura de comunicações e desenvolver soluções complementares de vigilância. Entretanto, qualquer iniciativa dessa natureza precisa considerar a soberania sobre os dados, a segurança das infraestruturas, a continuidade dos serviços e a capacidade de operação em situações de crise.

Também existe uma oportunidade para a Base Industrial de Defesa. O desenvolvimento de soluções nacionais de integração de sensores, gerenciamento do espectro eletromagnético, comunicações resilientes, inteligência artificial e sistemas antidrones pode reduzir dependências externas e fortalecer a capacidade brasileira de adaptar tecnologias às suas próprias necessidades operacionais.

O desafio não está em reproduzir automaticamente o modelo da OTAN, mas em compreender os princípios que orientam essa transformação: interoperabilidade desde a concepção, integração entre setores civil e militar, redundância das comunicações, domínio sobre os dados e capacidade de decisão mesmo em ambientes degradados.

A experiência do DiBaX 2026 reforça que a superioridade militar contemporânea não será definida apenas pela quantidade de plataformas ou pelo poder de fogo disponível. Ela dependerá, cada vez mais, da capacidade de conectar sensores, redes, sistemas de armas e centros de decisão em uma estrutura segura, resiliente e capaz de operar sob pressão.

As torres de telefonia 5G testadas como sensores representam apenas uma parte dessa transformação. O movimento mais amplo é a incorporação da infraestrutura digital ao ambiente operacional, convertendo conectividade em informação e informação em vantagem militar.


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Terras raras: a corrida pelo subsolo brasileiro expõe a urgência de proteger a soberania industrial e tecnológica

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A disputa internacional por minerais críticos está colocando o Brasil diante de uma questão que vai muito além da mineração. Detentor de reservas expressivas de terras raras, o Brasil começa a atrair o interesse de grandes grupos internacionais, fundos de investimento e governos que enxergam nesses recursos uma condição essencial para sustentar suas indústrias de alta tecnologia, a transição energética e, sobretudo, suas capacidades de defesa.

O problema é que, enquanto as principais economias mundiais estruturam políticas para assegurar o acesso a esses minerais e controlar as etapas industriais de maior valor agregado, o Brasil ainda precisa transformar seu potencial geológico em capacidade produtiva, tecnológica e estratégica. A movimentação de empresas estrangeiras sobre projetos nacionais demonstra que essa disputa já está em curso, e que a ausência de uma política industrial suficientemente robusta pode fazer com que o País permaneça limitado à condição de fornecedor de matérias-primas para cadeias produtivas controladas no exterior.

A questão ganhou uma dimensão ainda mais concreta com a aquisição da Serra Verde pela norte-americana USA Rare Earth, uma operação avaliada em aproximadamente US$ 2,8 bilhões. A companhia brasileira opera a mina Pela Ema, em Minaçu, Goiás, considerada a única produtora comercial de terras raras do Brasil. A conclusão da aquisição, anunciada em setembro de 2026, colocou o empreendimento sob controle de um grupo americano que pretende integrar a produção brasileira à sua própria estratégia industrial.

O episódio merece atenção especial porque não se trata apenas de uma transação empresarial. O governo dos Estados Unidos mobilizou instrumentos públicos para assegurar o acesso à produção. Em agosto, o Departamento de Guerra anunciou um investimento de US$ 750 milhões em uma estrutura financeira destinada a apoiar contratos de fornecimento dos produtos da Serra Verde. O arranjo integra uma iniciativa de US$ 1,55 bilhão, que também inclui um compromisso de compra de US$ 300 milhões pela Defense Logistics Agency e US$ 500 milhões de financiamento bancário.

O contrato prevê fornecimento de longo prazo, por 15 anos, abrangendo a totalidade da produção da primeira fase da operação, com preços mínimos garantidos para os elementos magnéticos contemplados. A iniciativa está vinculada ao esforço americano para construir uma cadeia de suprimentos independente da China, abrangendo desde a mineração até a fabricação de ímãs permanentes destinados a aplicações industriais e militares.

O recado estratégico é claro: Washington não está tratando terras raras simplesmente como commodities. Está utilizando instrumentos financeiros, compromissos de aquisição e política industrial para garantir matérias-primas essenciais à sua segurança econômica e à sua Base Industrial de Defesa.

Enquanto isso, a movimentação chinesa também começa a ganhar espaço no Brasil. A Shenghe Resources, empresa chinesa com atuação internacional no setor, assinou um memorando de entendimento com a WEG Mineração e a Fenrir do Brasil, companhia que possui projeto de pesquisa mineral em Minas Gerais, incluindo elementos associados às terras raras. Mais recentemente, o CEO da Ore Minerals confirmou negociações com investidores e fundos chineses interessados em aportar capital e tecnologia em projetos brasileiros.

É importante distinguir essas iniciativas de uma aquisição efetivamente concluída. Até o momento, não há confirmação pública de que um grupo chinês tenha comprado uma nova mina em Minas Gerais. Entretanto, os acordos e as negociações demonstram que o interesse estrangeiro envolve não apenas a obtenção de matéria-prima, mas também a participação em projetos, o acesso a tecnologias e a construção de relações comerciais de longo prazo.

Outro movimento que merece acompanhamento é a aquisição da australiana Meteoric Resources pela também australiana Lynas Rare Earths, em uma operação avaliada em aproximadamente R$ 3,5 bilhões. A Meteoric detém o Projeto Caldeira, no sul de Minas Gerais, uma das iniciativas de maior potencial no desenvolvimento de terras raras no País. A transação, condicionada à aprovação das autoridades brasileiras, coloca diante do novo marco regulatório um importante teste sobre a capacidade do Estado de estabelecer condições para a transferência de controle de ativos estratégicos.

A Lynas já possui experiência industrial em separação e processamento de terras raras, com operações na Austrália e na Malásia. A empresa informou que estudará a possibilidade de desenvolver processamento adicional no Brasil, mas ainda não assumiu compromisso definitivo de instalar uma unidade industrial de separação no território nacional. Essa distinção é fundamental: a aquisição de um projeto mineral por uma empresa que domina tecnologias de processamento não significa, automaticamente, que essas capacidades serão transferidas ao País.

Da riqueza mineral à dependência industrial

É justamente nesse ponto que reside uma das maiores vulnerabilidades brasileiras. A cadeia de terras raras é tecnologicamente complexa e não termina na extração do minério. Após a lavra, são necessárias etapas de concentração, tratamento químico, separação dos elementos individuais, purificação, produção de óxidos, metalização e fabricação de ligas. Somente depois dessas etapas é possível avançar para a produção de ímãs permanentes de alto desempenho, componentes fundamentais para diversas tecnologias modernas.

A diferença econômica e estratégica entre essas etapas é expressiva. Exportar concentrados minerais significa fornecer um insumo que será transformado em produtos de maior valor em outros países. Dominar a separação, a metalurgia e a fabricação de ímãs significa participar de segmentos industriais que concentram conhecimento, propriedade intelectual, empregos especializados e capacidade de inovação.

Os ímãs permanentes de neodímio e praseodímio, frequentemente associados ao disprósio e ao térbio para melhorar seu desempenho em determinadas condições de temperatura, são utilizados em motores elétricos, turbinas eólicas, robótica, sistemas aeronáuticos, sensores e equipamentos de elevada complexidade tecnológica.

No campo militar, esses materiais integram cadeias industriais relacionadas a motores, atuadores, sistemas de controle, radares, sensores e equipamentos eletrônicos. Sua disponibilidade pode influenciar diretamente a capacidade de produção e manutenção de sistemas de defesa.

Portanto, a dependência externa nessa cadeia não representa apenas uma questão comercial. No cenário de tensões geopolíticas, restrições de exportação ou interrupções logísticas, a falta de acesso a determinados materiais pode comprometer programas industriais e militares, elevar custos e limitar a autonomia de desenvolvimento tecnológico.

A experiência internacional demonstra que as grandes potências compreenderam essa relação. Os Estados Unidos, por exemplo, passaram a utilizar recursos públicos para estimular a produção doméstica e garantir fornecimento de minerais estratégicos. A China, por sua vez, consolidou ao longo de décadas uma posição dominante no processamento e na fabricação de ímãs permanentes, utilizando escala industrial, domínio tecnológico e integração produtiva como instrumentos de competitividade e influência econômica.

O Brasil, apesar de possuir uma base mineral expressiva, ainda não dispõe de uma cadeia industrial de terras raras plenamente integrada.

O capital estrangeiro e a necessidade de proteger ativos estratégicos

A presença de investidores internacionais não deve ser tratada automaticamente como uma ameaça. Projetos minerais exigem investimentos elevados, tecnologia, conhecimento especializado e acesso a mercados. A cooperação internacional pode acelerar o desenvolvimento de capacidades que o Brasil ainda não possui.

Entretanto, existe uma diferença fundamental entre atrair investimentos e transferir o controle de ativos estratégicos sem assegurar contrapartidas compatíveis com o interesse nacional.

Uma análise publicada pela Repórter Brasil em parceria com a Associated Press identificou que empresas estrangeiras respondiam por aproximadamente 42% dos requerimentos de pesquisa de terras raras apresentados à Agência Nacional de Mineração até junho de 2026. Mais significativo ainda: essas empresas estavam presentes em 31 dos 45 processos mais avançados, incluindo projetos em operação ou em fase de pré-operação comercial.

O dado evidencia a dimensão da presença internacional sobre os direitos minerários brasileiros. Não significa que empresas estrangeiras controlem 42% das reservas nacionais, mas demonstra que uma parcela expressiva da exploração e do desenvolvimento de novos projetos está vinculada a grupos sediados fora do País.

A questão exige uma política de Estado capaz de avaliar não apenas a legalidade das operações societárias, mas também seus efeitos sobre a segurança econômica, tecnológica e estratégica brasileira.

A Lei nº 15.506, de 16 de setembro de 2026, que instituiu a Política Nacional de Minerais Críticos e Estratégicos, representa um avanço institucional nesse sentido. A legislação criou o Conselho Nacional para Industrialização de Minerais Críticos e Estratégicos e estabeleceu mecanismos de triagem e homologação de mudanças de controle societário, participações estrangeiras relevantes, acesso a informações geológicas estratégicas e determinados contratos internacionais de fornecimento.

O marco legal também estabelece a valorização e a agregação de valor em território nacional como princípios da política mineral, além de prever instrumentos de financiamento, incentivos e apoio à pesquisa, ao beneficiamento e à transformação mineral.

Contudo, a existência de um marco regulatório não encerra o problema. Seu resultado dependerá da regulamentação, da capacidade técnica de fiscalização, da transparência dos processos e, principalmente, da disposição do Estado de estabelecer contrapartidas concretas para operações envolvendo ativos estratégicos.

O Brasil precisa avançar na definição de critérios que permitam avaliar mudanças de controle estrangeiro considerando a relevância do depósito mineral, sua contribuição para setores essenciais, a concentração de mercado, o destino da produção, o acesso a informações estratégicas e o impacto sobre a autonomia tecnológica nacional.

Não se trata de fechar o mercado ou impedir a participação internacional. Trata-se de estabelecer limites e condições proporcionais à importância dos ativos envolvidos, evitando que a abertura econômica resulte na perda de capacidade de decisão sobre recursos fundamentais ao desenvolvimento do País.

Beneficiamento nacional: o investimento que não pode mais ser adiado

A proteção dos direitos minerários precisa caminhar junto com uma política industrial capaz de viabilizar a transformação dos recursos dentro do Brasil.

Não adianta estabelecer mecanismos para controlar a transferência de ativos se o País não oferecer condições para desenvolver sua própria cadeia produtiva. Sem financiamento, infraestrutura, energia competitiva, segurança regulatória, pesquisa aplicada e demanda industrial, os projetos continuarão dependendo de grupos estrangeiros para avançar.

Nesse contexto, o papel do BNDES, da Finep, dos institutos de pesquisa e das universidades é fundamental. O financiamento público precisa ser direcionado não apenas à abertura de novas minas, mas também à instalação de plantas de separação química, unidades de produção de óxidos, metalurgia de terras raras, fabricação de ligas e produção de ímãs permanentes.

A iniciativa envolvendo a St George Mining, o governo de Minas Gerais e o grupo brasileiro Lima & Pergher, que estudam a implantação de um polo de processamento e refino em Uberlândia, aponta uma possibilidade de avanço nessa direção. O projeto ainda está em avaliação, mas contempla a possibilidade de receber concentrados e produtos intermediários e avançar até materiais destinados à fabricação de ímãs.

Também merece atenção a iniciativa MagBras, voltada à construção de uma cadeia nacional de fabricação de ímãs de terras raras. São movimentos que precisam ser acompanhados e sobretudo, transformados em empreendimentos industriais efetivos.

O País necessita de uma estratégia de longo prazo, com metas de produção, financiamento previsível, formação de profissionais, desenvolvimento de processos próprios e integração entre empresas, universidades e centros tecnológicos.

A construção dessa capacidade não ocorrerá apenas com incentivos pontuais ou anúncios de investimento. Exige continuidade orçamentária, coordenação institucional e compromisso de diferentes governos com uma política industrial que não fique sujeita aos ciclos eleitorais.

Soberania mineral também é soberania de Defesa

Para o Brasil, a discussão possui uma dimensão adicional. A Base Industrial de Defesa depende de uma cadeia de fornecedores capaz de assegurar componentes, materiais e tecnologias essenciais ao desenvolvimento e à sustentação dos sistemas militares.

O desenvolvimento de radares, sistemas de comunicação, sensores, aeronaves, veículos militares, equipamentos navais e armamentos de precisão exige acesso a materiais e componentes cuja produção está concentrada em poucos países.

A dependência de fornecedores externos pode se converter em vulnerabilidade em momentos de crise internacional, especialmente quando restrições comerciais ou disputas geopolíticas afetam o acesso a tecnologias consideradas sensíveis.

Nesse sentido, a política de minerais críticos precisa dialogar diretamente com a Política Nacional de Defesa e com a Estratégia Nacional de Defesa. A integração entre o setor mineral, a indústria de transformação, a pesquisa científica e a Base Industrial de Defesa deve ser tratada como uma questão de planejamento estratégico nacional.

O Brasil possui reservas, universidades, pesquisadores, empresas industriais e uma base científica que pode sustentar o desenvolvimento dessa cadeia. O desafio é conectar esses ativos em um programa nacional de industrialização, capaz de transformar conhecimento em produtos, capacidade produtiva e autonomia tecnológica.

A disputa internacional pelas terras raras brasileiras não deve ser interpretada apenas como uma oportunidade de atrair bilhões em investimentos. Ela também revela o interesse de outras potências em assegurar recursos que consideram essenciais à sua própria segurança econômica e militar.

O País precisa decidir qual posição pretende ocupar nesse cenário. Pode continuar fornecendo recursos minerais para alimentar cadeias industriais estrangeiras ou utilizar sua riqueza geológica como fundamento para desenvolver uma indústria nacional de alto valor agregado.

A escolha exige instrumentos regulatórios eficientes, investimentos de longo prazo e uma política de Estado que reconheça a importância desses recursos para além de sua contribuição à balança comercial.

Porque soberania não significa simplesmente possuir reservas em nosso território. Significa ter capacidade de decidir como explorá-las, dominar as tecnologias necessárias à sua transformação e assegurar que os benefícios econômicos, industriais e estratégicos permaneçam, em parcela relevante, no Brasil.

O minério está no nosso território. O conhecimento precisa estar em nossas instituições, a capacidade produtiva em nossa indústria e a decisão estratégica nas mãos do Estado brasileiro.


Por Angelo Nicolaci


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