O sistema internacional atravessa uma inflexão histórica. Dados consolidados de instituições como o Stockholm International Peace Research Institute (SIPRI) e o International Institute for Strategic Studies (IISS) mostram que os investimentos globais em defesa atingiram patamares sem precedentes, consolidando uma tendência de crescimento contínuo que já dura mais de uma década. Em 2024, os gastos globais alcançaram aproximadamente US$ 2,7 trilhões, marcando o décimo ano consecutivo de expansão e o maior aumento anual desde o fim da Guerra Fria, com alta real de 9,4%.
A trajetória não apenas se manteve como se intensificou. Em 2025, os investimentos globais em defesa atingiram cerca de US$ 2,63 trilhões, com crescimento adicional em termos reais, enquanto projeções para 2026 indicam a manutenção desse patamar acima de US$ 2,6 trilhões, consolidando um novo ciclo estrutural de expansão. Mais do que números absolutos, o dado mais relevante é a consistência dessa curva: o mundo deixou para trás a lógica de redução pós-Guerra Fria e ingressou em uma era de rearmamento contínuo e planejado.
Esse movimento é impulsionado por um ambiente geopolítico cada vez mais volátil. Conflitos em curso, tensões no Indo-Pacífico e instabilidade no Oriente Médio criaram um cenário de percepção permanente de risco. Como resultado, o gasto em defesa passou a ser tratado não como reação a crises específicas, mas como componente estrutural das políticas de Estado. Não por acaso, o gasto global já representa cerca de 2,5% do PIB mundial, evidenciando a centralidade da segurança na agenda internacional.
No epicentro dessa transformação está a OTAN. Os países membros da aliança, que já respondem por cerca de 55% dos gastos globais em defesa, vêm promovendo uma revisão profunda de suas políticas. Em 2025, os aliados europeus e o Canadá ampliaram seus investimentos em cerca de 20% em termos reais, um salto que reflete a urgência percebida no continente. Mais significativo ainda foi o compromisso assumido na Cúpula de Haia: elevar os investimentos para até 5% do PIB até 2035, sendo 3,5% destinados diretamente à defesa e 1,5% a áreas correlatas, como infraestrutura, resiliência e base industrial.
Essa decisão, considerada histórica, sinaliza uma mudança de paradigma. Não se trata apenas de ampliar orçamentos, mas de construir uma arquitetura de defesa sustentável, integrada e autônoma. Na prática, isso implica investimentos massivos em capacidade industrial, inovação tecnológica e cadeias produtivas resilientes, elementos que definem o poder estratégico no século XXI.
Os dados sobre comércio internacional de armamentos reforçam essa leitura. O volume global de transferências de armas cresceu 9,2% no período 2021–2025, com destaque para a Europa, que mais do que triplicou suas importações, refletindo um esforço acelerado de recomposição de capacidades. Paralelamente, observa-se uma tendência de reindustrialização da defesa, com países buscando reduzir dependências externas e fortalecer sua autonomia produtiva.
Esse ponto é central. A experiência recente demonstrou que não basta dispor de recursos financeiros, é essencial ter capacidade de produção. Gargalos nas cadeias de suprimento, dependência de fornecedores externos e limitações industriais têm se mostrado fatores críticos. Em outras palavras, a base industrial de defesa tornou-se o verdadeiro núcleo da soberania estratégica.
Ao mesmo tempo, essa expansão traz implicações econômicas relevantes. Se por um lado o setor de defesa impulsiona inovação, empregos e desenvolvimento tecnológico, por outro impõe pressões fiscais crescentes. A equação entre segurança e sustentabilidade financeira passa a exigir planejamento de longo prazo, estabilidade e previsibilidade.
É nesse cenário que se insere o Brasil, e onde reside o ponto mais sensível da análise.
O país não está alheio a esse movimento. Dados recentes mostram, inclusive, um aumento expressivo nas importações de sistemas de defesa na América do Sul, com crescimento de 31%, sendo o Brasil responsável por cerca de 60% desse volume regional. No entanto, esse dado isoladamente não representa fortalecimento estrutural. Ao contrário, pode indicar dependência externa e ausência de planejamento integrado.
O Brasil possui uma base industrial de defesa com capacidades reconhecidas internacionalmente e programas estratégicos relevantes em andamento. Contudo, esses ativos convivem com um problema recorrente e estrutural: a descontinuidade orçamentária. A ausência de previsibilidade compromete cronogramas, eleva custos, reduz a atratividade para investimentos e fragiliza a posição do país como parceiro confiável no cenário internacional.
A partir daqui, a análise precisa ser direta: O Brasil não enfrenta apenas um problema de orçamento, enfrenta um problema de visão estratégica.
A falta de uma política de Estado clara e contínua para a defesa cria um ambiente de incerteza que afeta toda a Base Industrial de Defesa (BID). Empresas operam sem previsibilidade de demanda, programas sofrem atrasos recorrentes e decisões estratégicas são constantemente revistas ou postergadas. Esse cenário impede ganhos de escala, dificulta a retenção de mão de obra qualificada e reduz a capacidade de inovação.
O impacto é sistêmico.
- Sem previsibilidade, a indústria não investe.
- Sem investimento, não há inovação.
- Sem inovação, não há competitividade.
E sem competitividade, o Brasil fica à margem do mercado global de defesa.
Hoje, o mercado internacional é dominado por países que operam sob lógica de Estado com financiamento estável, políticas industriais coordenadas e forte integração entre governo, forças armadas e setor produtivo. Nesse ambiente, o Brasil compete de forma assimétrica, muitas vezes sem instrumentos adequados de financiamento, garantia ou apoio institucional às exportações. O resultado é claro: participação limitada e perda de oportunidades estratégicas.
As exceções existem e são reveladoras. A Embraer é o principal exemplo de sucesso. Com produtos como o A-29 Super Tucano e o KC-390 Millennium, a empresa conseguiu se posicionar de forma competitiva no mercado internacional, conquistando contratos relevantes e consolidando presença global. Mas esse sucesso não é fruto do acaso, ele resulta de investimento contínuo, visão estratégica e, sobretudo, previsibilidade ao longo de décadas.
E é justamente nesse ponto que a comparação internacional se torna inevitável e reveladora. Países como a Türkiye, os Emirados Árabes Unidos e a Coreia do Sul demonstram de forma prática, o que significa tratar a defesa como política de Estado e vetor de desenvolvimento.
A Türkiye, por exemplo, construiu nas últimas duas décadas uma base industrial de defesa robusta e orientada à exportação. Com forte coordenação estatal, investimentos contínuos e foco em autonomia tecnológica, o país saiu de uma posição de dependência para se tornar um dos principais exportadores emergentes do setor. Hoje, produtos turcos estão presentes em diversos teatros operacionais e mercados internacionais, refletindo uma estratégia clara de longo prazo.
Os Emirados Árabes Unidos seguiram um caminho distinto, mas igualmente estratégico. Com forte capacidade financeira, o país estruturou conglomerados de defesa, investiu em parcerias internacionais e consolidou um ecossistema voltado à inovação e à projeção global. Mais do que adquirir sistemas, os Emirados passaram a desenvolver capacidades próprias e a disputar espaço no mercado internacional.
Já a Coreia do Sul representa talvez o exemplo mais emblemático de transformação estrutural. Com planejamento de longo prazo, integração entre Estado e indústria e foco em escala produtiva, o país se consolidou como um dos principais exportadores globais de sistemas de defesa. Programas como carros de combate, sistemas de artilharia e aeronaves não apenas atendem às necessidades internas, mas geram retorno econômico expressivo e ampliam a influência estratégica sul-coreana.
O ponto em comum entre esses três casos é claro: continuidade, previsibilidade e visão estratégica.
Nenhum desses países construiu sua posição atual de forma improvisada ou intermitente. Houve planejamento, coordenação e sobretudo, compromisso de longo prazo. A defesa foi tratada não como despesa, mas como investimento, capaz de gerar retorno econômico, tecnológico e geopolítico. É exatamente esse ciclo virtuoso que o Brasil ainda não conseguiu consolidar.
O país possui os elementos fundamentais: capacidade industrial, capital humano e demanda potencial. No entanto, a ausência de uma estratégia consistente impede que esses ativos sejam convertidos em resultados concretos. Enquanto outras nações transformam defesa em instrumento de desenvolvimento e inserção global, o Brasil permanece preso a um modelo fragmentado e reativo.
O contraste é evidente e preocupante. Defesa é por natureza uma política de longo prazo. Projetos estratégicos demandam décadas de desenvolvimento, estabilidade institucional e fluxo contínuo de recursos. Interrupções ou oscilações orçamentárias não apenas atrasam entregas, elas corroem capacidades, desarticulam cadeias produtivas e geram perdas que muitas vezes são irreversíveis.
Enquanto potências globais estruturam políticas de Estado para garantir continuidade e previsibilidade, o Brasil ainda opera sob uma lógica intermitente, frequentemente condicionada a ciclos econômicos ou prioridades de curto prazo. Essa abordagem não apenas limita o desenvolvimento da base industrial de defesa, mas compromete a própria capacidade de planejamento estratégico nacional.
A questão, portanto, transcende o campo da defesa. Trata-se de uma decisão sobre o papel do Brasil no sistema internacional.
Em um mundo que se reorganiza a partir da competição tecnológica, industrial e estratégica, a defesa assume um papel central como vetor de soberania, inovação e desenvolvimento. Ignorar essa realidade significa abrir mão de protagonismo e aceitar uma posição periférica em um cenário cada vez mais competitivo.
O que se impõe, portanto, não é apenas o aumento de investimentos, mas a construção de uma política de defesa baseada em três pilares fundamentais: continuidade, previsibilidade e visão de Estado. O mundo já fez sua escolha, com números, planejamento e ação. Resta saber se o Brasil estará disposto a fazer o mesmo.
por Angelo Nicolaci
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